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Escolhas & Percursos

...espaço de discussão, de formação, de cultura, de curiosidades, de interacção. Poderemos estar mais próximos. Deus seja a nossa Esperança e a nossa Alegria...

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25.02.16

Leituras: ANSELM GRÜN - AS OITO BEM-AVENTURANÇAS

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ANSELM GRÜN (2010). As oito bem-aventuranças. Caminho para uma vida bem conseguida. Braga: Editorial A.O., 184 páginas.

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       Anselm Grün é Monge beneditino, formado em economia e teologia, alemão. Através dos seus livros, conferências, procura testemunhar os tesouros da vida. É por muitos considerado um guia espiritual, reunindo grandes audiências. Já tivemos oportunidade de ler e de recomendar outros títulos, tais como: A sublime arte de envelhecer e tornar-se uma bênção para os outros; O Pai-Nosso. Uma ajuda para a vida autêntica; Que fiz eu para merecer isto? A incompreensível justiça de Deus.

       Este é mais uma belíssimo livro de bolso, que se lê com agrado sobre uma temática essencial da pregação e do proceder de Jesus. As Bem-aventuranças não garantem a vida eterna, mas são um caminho que nos levam a viver melhor e mais próximos do jeito de Jesus.

       O autor parte desde logo do significado de "Bem-aventurança", a procura da felicidade, comum a todos as pessoas, ainda que de maneiras distintas e caminhos diferentes.

       Jesus sobe ao MONTE com os discípulos. O monte aproxima-nos de Deus, da luz. Na cidade, a confusão, o barulho, a poluição. A montanha dissipa o nevoeiro e conduz-nos à calmaria, à natureza em que é possível ouvir os pássaros, o vento, ouvir a Deus. Tal como no Horeb ou Sinai, em que Deus dá a Lei ao Povo através de Moisés, agora Jesus, no monte, dá-nos uma leitura nova da Lei. As leis é para que vivamos harmoniosamente uns com os outros. "É possível uma boa convivência".

Anselm Grün segue de perto a interpretação de São Gregório de Nisa, lembrando-nos que ele "vê a montanha como o lugar para onde seguimos Jesus, a fim de nos elevarmos para cima das nossas concepções baixas e limitadas «até à montanha espiritual da contemplação mais sublime» (Gregório, 153). O monte está envolvido pela luz de Deus".

       Seguindo o título dos capítulos, o autor faz-nos perceber que as bem-aventuranças são promessa de uma vida em plenitude, acentuando também que "a felicidade não é uma consequência do comportamento, mas é expressão desse comportamento... as oito atitudes das Bem-aventuranças são o lugar onde podemos fazer a experiência de Deus e onde, em Deus, podemos experimentar a nossa verdadeira felicidade... são o caminho para uma vida bem conseguida... aponta um caminho. E podemos ver, no próprio Jesus, como é que Ele percorreu o caminho".

 

1.ª Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino de Deus.

"Quem é pobre em espírito está aberto a Deus que habita nele... Não usa Deus, a fim de ter alguma coisa para si, a fim de conseguir a satisfação dos seus desejos, ou a fim de se sentir melhor ou mais seguro em Deus. A pobreza em espírito é desinteressada... Para São Gregório de Nisa, a pobreza em espírito é a condição para a pessoa se elevar até Deus, em liberdade... A primeira bem-aventurança é, pois, uma caminho de liberdade interior para a verdadeira felicidade". Por deles é o reino de Deus..."O Reino dos Céus é o lugar onde Deus reina em nós. Quem é pobre em espírito, renuncia a ter as rédeas de tudo e a tudo controlar em si. está aberto ao domínio de Deus. Onde Deus reina nele, encontra o acesso ao próprio eu... se alguém se liberta de toda a dependência das coisas deste mundo, nele reina Deus. E o reinado de Deus faz dele verdadeiramente livre".

2.ª Bem-aventurados os que choram porque serão consolados.

É necessário fazer o luto de tudo o que não podemos ser, para valorizarmos o que somos e o que podemos ser, com as circunstâncias que nos contextualizam com o mundo e com o tempo atual. "Aquele que sou, saúda, tristemente, aquele que eu poderia ser" (Kierkegaard). "Jesus proclama bem-aventurados aqueles que estão dispostos a chorar, os que enfrentam a dor da despedida das ilusões. Só eles continuarão sãos, interiormente... Jesus descreve o luto como uma caminho para a felicidade... o luto é um caminho para eu enfrentar a realidade e para me libertar das ilusões com que encubro a realidade. No luto não me esquivo à dor... Ninguém pode realizar todas as possibilidades da vida... Cada decisão me dá alguma coisa e me priva de algo. Compromete-me. E em cada decisão, excluo alguma coisa. E tenho de fazer luto por aquilo que excluo. Se falho o luto, então encho esse défice que fica em mim com uma qualquer sucedâneo... O luto chora e, desse modo, fecunda a alma. A tristeza, pelo contrário, é apenas chorosa... É Cristo quem nos consola. Sim, Ele mesmo é a consolação. Se pomos o olhar n'Ele, no meio do nosso luto, já experimentamos a consolação... e o luto transforma o seu coração..."

3.ª Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.

"A agressividade está a transformar-se num problema... Tudo tem de ser protegido, para não ser destruído... No terror, pratica-se uma agressividade sem limite. Onde ela é praticada em nome de Deus, não conhece barreiras. O valor do ser humano já não conta. O único objetivo é propagar o medo... As palavras de Jesus sobre a doçura e a mansidão parecem ser, de facto, de um outro mundo". Em contrapartida, "a mansidão nãos e deixa arrastar pelos impulsos, pela ira, ou pelos ciúmes. Permanece arreigada no solo... Jesus não proclama felizes os insensíveis. «Ditosos são, portanto, aqueles que não cedem rapidamente aos movimentos passionais da alma, mas conservam a serenidade no seu íntimo graças à temperança» (São Gregório, 170)... As palavras de Jesus desafiam-me a transmitir, também para fora, a mansidão que experimento dentro de mim... Confio no poder da ternura. Ela é água que amolece a pedra dura... Trabalhamos em nós próprios mas renunciamos a ser perfeitos... A minha terra pertence-me. Expande-se. Herdo a terra, isto é, tenho chão suficiente debaixo dos pés. Deixo de ser dividido... só nos pertencemos a nós próprios se lidamos amistosamente com o que assoma em nós..."

4.ª Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.

O autor contextualiza o tempo em que as Bem-aventuranças foram proclamadas por Jesus, o contexto das comunidades que acolheram a mensagem de Jesus, interpretações ao longo da história da Igreja, com pontes à filosofia grega e ocidental, ao ambiente semita, à religiosidade popular. Ponte importante com a atualidade. Começa por referir que "o rendimento médio nos vinte países mais ricos do mundo é 37 vezes superior ao dos vinte países mais pobres... nos últimos 40 anos duplicou a distância... entre as 100 maiores unidades económicas do mundo há 52 empresas mas apenas 48 estados... Não há justiça quanto à igualdade de oportunidades... A injustiça conduz, ultimamente, à guerra". Há, por outro lado, uma «judicialização» cada vez mais abrangente. Tudo está regulamentado. "Os juristas determinam casa vez mais a vida coletiva... já não valem a fidelidade e a confiança, mas unicamente a segurança legal". Anselm Grün constata que "as pessoas anseiam pela verdadeira justiça, por um mundo onde reine a justa distribuição dos bens e das oportunidades, no qual se faz justiça a todos, tanto aos pobres como aos ricos, tanto aos mais fortes como aos mais fracos... existe a convicção de que só onde reina a justiça pode florescer a paz... A fome e a sede de justiça referem-se a todos os homens, a uma ordem justa para todos, à vida em retidão que Deus pensou para todos... As virtudes da justiça, da prudência, da coragem e da temperança põem-nos em contacto com o nosso interior". Segundo São Gregório de Nisa, as virtudes enchem-nos "de doçura e de alegria, em todos os momentos da nossa vida". Com efeito, ainda citando São Gregório, "A bem-aventurança é uma convite a uma vida feliz. Que exercita a justiça não ficará saciado apenas no Além. Será feliz e viverá satisfeito já no meio da luta pela justiça".

5.ª Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.

No Jubileu Extraordinário da Misericórdia que decorre (8 de dezembro de 2015 a 20 de novembro de 2016), esta Bem-aventurança coloca-nos em sintonia e em sinfonia com o desejo do Papa Francisco de refletir e viver as Obras de Misericórdia. O Coração misericordioso e compassivo de Deus, que Se faz peregrino connosco, mas que nos Seus gestos encontremos o desafio e o compromisso para vivermos como irmãos, acolhendo e integrando todos, sobretudo os que se encontram em situação mais frágil. Partindo da atualidade, o autor começa por mostrar como o "mercado é implacável. Só o mais forte consegue impor-se, Os outros ficam pelo caminho. O carácter implacável do mercado parece influenciar também a vida social... Quem sabe «vender-se» bem, «vale» alguma coisa... Aqui só contam os números e não a pessoa". Quanto à misericórdia, dela fazem parte a compaixão e o «sofrer com». Segundo alguns, a compaixão é fraqueza (por exemplo o Terceiro Reich). "A falta de misericórdia leva ao endurecimento e à violência na convivência mútua... Só o mais forte consegue impor-se. Os outros extinguem-se". Por conseguinte, "neste mundo frio, cresce a aspiração a um mundo misericordioso... [em que] sejamos respeitados na nossa dignidade humana... Jesus manteve-se fiel à misericórdia. E declarou bem-aventurados os que são misericordiosos. Porque alcançarão. Ele acreditou na vitória da misericórdia e da compaixão... Se somos misericordiosos também experimentamos a misericórdia... É misericordioso o que lida consigo e com os outros... Lido amorosamente com a esta criança em mim, necessitada de ajuda. Confio em que a minha criança interior vá amadurecendo, no meu colo materno e no colo materno de Deus, e que venha a ser o que deve ser a partir de Deus... A misericórdia brota do amor ao próximo... A misericórdia devolve-nos a vida... A compaixão pela nossa doença devolve-nos a saúde... A misericórdia de Deus permite-nos ser mais misericordiosos connosco próprios... Quem é misericordioso compreendeu quem é Deus. E participa de Deus. Está em Deus. A misericórdia é, para nós, os seres humanos, o caminho para o coração de Deus".

6.ª Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.

Olhando para o nosso tempo, o autor conclui que "a desconfiança está na moda". Não se aceitam as palavras sem reservas, crê-se que há sempre segundas intenções. No entanto, "aspiramos à clareza e à pureza de sentimentos, a pessoas que possuem um coração puro, que fazem, sem segundas intenções, o que reconheceram ser reto, e que dizem o que para elas brilha como verdade... aspiramos à pureza do coração... O coração puro é o coração simples, sincero, claro... Jesus exorta-nos a deixarmos que a luz irradie sobre o nosso corpo e expulse todas as trevas. Quando nos encontramos com uma pessoa cujos olhos brilham, sem segundas intenções, então também algo em nós se torna claro e límpido". Na Transfiguração, os discípulos "veem, de repente, claramente, quem é Jesus Cristo. E no espelho de Jesus reconhecem-se a si próprios... A meta do ser humano é ver a Deus, na visão passar a ser um com Deus... Se vemos a Deus esquecemo-nos de nós mesmos. Fazemo-nos um com Deus e, ao mesmo tempo, connosco próprios, Na unidade com Deus tomamos consciência de nós próprios, chegamos ao nosso esplendor original e não falseados... Sentimo-nos luz, iluminados pela luz de Deus. Isto é o ápice da Encarnação, o mais alto a que um ser humano pode aspirar". A pureza do coração faz bem à saúde, pois aquele que se encontrou consigo próprio, com a sua luz interior, "deixa de procurar no exterior a cura das suas feridas. Já não espera, vinda do afeto e da ajuda dos outros, a sua saúde. Encontra-a em si mesmo se, graças à pureza, se tornou inteiramente ele próprio".

7.ª Bem aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus.

Olhando para o mundo atual, vemos como é frágil da paz. São disso exemplo as duas Guerras mundiais, mas igualmente tantas zonas de conflito bélico, em diferentes latitudes. No tempo de Jesus Cristo a paz é periclitante. O povo está sob o domínio romano e aquilo que se chama a paz romana (pax romana) não passava efetivamente de pacificação, de imposição da paz pela força, pelo domínio, pelo controlo apertado, aniquilando todos os focos de resistência e até povos inteiros. "Era uma paz violenta". A paz não é algo de passivo, de deixar correr, sem fazer nada, sem intervir, mesmo quando a violência o atinge. A paz é ativa, implica. "Criar paz significa a disponibilidade ativa para ir ao encontro das pessoas que estão em conflito e reconciliá-las entre si". Também em nós devemos fazer as pazes com os nossos inimigos: o nosso medo, a nossa depressão, a nossa susceptibilidade, a nossa falta de disciplina, e então os nossos inimigos convertem-se em amigos e "a nossa terra, de repente, torna-se maior do que nunca sucedeu antes. Em vez de dez mil soldados, temos à disposição trinta mil (cf. Lc 14, 31ss). Ficamos mais fortes... Só quem está em sintonia consigo próprio, ou pelo menos a caminho dessa meta, pode construir a paz entre as pessoas". Por outro lado, prossegue Anselm Grün, a construção da paz resultará do amor e do diálogo, superando o conflito interior para superar os conflitos exteriores, não pela violência mas pelo diálogo. "Se quero vencer os inimigos, não construirei a paz. O derrotado quer vir a ser, um dia, o vencedor. Assim voltará a levantar-se e a continuar a combater. Só quando se alcança um bom equilíbrio todos podem viver em paz... Construir a paz é um processo criativo... Quem cria paz, participa do poder criador de Deus, que fez tudo bem feito". Dando como exemplo Martin Luther King, o autor sublinha que "só o amor pode construir a paz. «O ódio não pode expulsar o ódio. Só o amor consegue. O ódio multiplica o ódio, a violência aumenta a violência, a dureza faz aumentar a dureza, uma espiral permanente de aniquilamento» (Feldmann, 702). O ódio não destrói apenas a convivência, prejudica também a pessoa".

8.ª Bem-aventurados os que sofrem perseguição, por causa da justiça, porque deles é o reino dos Céus.

"A injustiça no mundo clama ao céu. Mas não há quase ninguém que arrisque a pele pela justiça". No mundo atual parece que são felizes aqueles que estão do lado dos vencedores, dos lobos, daqueles que passam por cima dos outros. "A bem-aventurança desafia-nos, mas não sobrecarrega com coisas impossíveis. O que faz é fortalecer a nossa aspiração à coragem de nos empenharmos pela justiça, custe o que custar... A coragem é a expressão da liberdade interior... mantenho-me firma na justiça, mesmo que isso me cause desvantagens junto dos outros". O que me sucede de mal pode empurrar-se para a frente, para o bem. Seguindo de perto São Gregório de Nisa, o autor evoca a imagem das corridas. Os adversários que correm comigo levam-me a avançar, lutando. Os conflitos em que caio podem ajudar-me a ser mais forte.

"São Mateus compôs as oito Bem-aventuranças de tal modo que a primeira e a última contêm a promessa do Reino dos Céus. Os pobres em espírito são, como os perseguidos por causa da justiça, também pessoas interiormente livres, que não se deixam depender da opinião dos outros... porque encontraram em Deus a sua verdadeira essência. Deus reina nelas. E porque Deus reina nelas são por inteiro elas mesmas, livres do poder dos outros. Porque Deus é o seu centro, são elas próprias, no seu centro, estão em sintonia consigo mesmas".

As bem-aventuranças são um caminho para viver melhor e ser mais saudáveis.

10.10.15

«Bom Mestre, que hei de fazer para alcançar a vida eterna?»

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1 – «Falta-te uma coisa: vai vender o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me».

Jesus compreende a nossa limitação, mas também a capacidade de progredirmos. Alguém se aproxima de Jesus, ajoelha-se e pergunta: «Bom Mestre, que hei de fazer para alcançar a vida eterna?».

Aquele homem tem pressa em chegar perto de Jesus e esperança de encontrar respostas para a inquietação que lhe vai na alma. Deixou o que estava a fazer! Ou não queria perder tempo porque tinha muitas ocupações! Jesus responde-lhe com a Sagrada Escritura: «Porque Me chamas bom? Ninguém é bom senão Deus. Tu sabes os mandamentos: Não mates; não cometas adultério; não roubes; não levantes falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe’».

Só Deus é Deus, só Deus é bom. Como seres humanos estamos a caminhar. Jesus recorda os mandamentos, sancionando a mensagem mosaica. Porém, cumprir a lei só por cumprir, como obrigação imposta, ou como tradição convencionada, não traz alegria à vida. A vida enfaixada na lei, nos preceitos, nos medos, sem convicção. Falta a chama do amor, da paixão, da vida nova.

Cumprir regras, em obediência cega, não implica viver. Jesus lança-lhe e lança-nos o repto: «Falta-te uma coisa: vai vender o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me». Nada se pode interpor entre nós e o seguimento. Se temos muitos afazeres, o seguimento de Jesus não é (ainda) para nós.

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2 – «Como será difícil para os que têm riquezas entrar no reino de Deus!»

Jesus sendo rico fez-Se pobre para nos enriquecer com a Sua pobreza (cf. 2 Cor 8, 9). O chão do Evangelho: serviço aos outros e sobretudo aos mais pobres. Quem quiser ser o maior será o menor de todos e o servo de todos (cf. Mc 9, 30-37).

Este homem tinha muitos bens para “comprar” a vida eterna! Mas o que há de mais importante na vida não tem preço. Em contrapartida, Jesus oferece-lhe a vida eterna! Como dom!

Apesar de ser "materialmente" um homem muito rico, é espiritualmente um homem muito pobre, que não consegue ser feliz. Há mais alegria em dar do que em receber (cf. Atos 5, 35). A felicidade mede-se mais pelo número de amigos do que pela quantidade de bens.

 

3 – A opção preferencial pelos mais pobres, o compromisso social, a erradicação da pobreza, estão bem vincadas neste texto. Àquele homem é proposto o despojamento e a partilha; a pobreza como opção de vida. Uma pobreza para enriquecer os demais e para se enriquecer com o maior dos tesouros: a vida eterna. "De nenhum fruto queiras só metade" (Miguel Torga). Vive a vida por inteiro, e não à espera; como ator e não como espectador; age, atua, transforma o mundo que habitas. Não guardes somente para ti. Quando partires, segue contigo o que foste e viveste, nunca o que adquiriste. Verdadeiramente teu é o que partilhares com os outros. As coisas que guardas não as possuis, são elas que te possuem.

O que está em causa não são os bens ou a riqueza material, mas a avareza, a ganância desmedida. Naquele homem não há espaço para a vida, para a alegria, para a festa, para a partilha.

«Meus filhos, como é difícil entrar no reino de Deus! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus».

Todos precisamos de bens que permitam viver com dignidade. O trabalho honesto e retribuído com justiça dignifica o trabalhador e o proprietário. Importa não esquecer, parafraseando Jesus Cristo, que o trabalho é para engrandecer a pessoa e nunca para a escravizar.

 

4 – «Quem pode então salvar-se?». A resposta de Jesus é clarificadora: «Aos homens é impossível, mas não a Deus, porque a Deus tudo é possível». Não somos nós que nos salvamos, é Deus que nos salva para além do tempo e da história. É Deus, somente Deus, que nos resgata na nossa mortalidade e nos abre as portas da eternidade. A promessa de Jesus envolve também as perseguições, as dificuldades.

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Textos para a Eucaristia (B): Sab 7, 7-11; Sl 89 (90); Hebr 4, 12-13; Mc 10, 17-30.

 

Reflexão dominical COMPLETA no nosso outro blogue CARITAS IN VERITATE

21.09.15

Quem quiser ser o primeiro será o servo de todos».

mpgpadre

1 – Morte e Ressurreição. Eis o mistério maior (e único) da nossa fé cristã. Em cada domingo, os cristãos celebram a Páscoa semanal, mas também em cada Eucaristia, sacramento no qual Jesus Se faz presente sob as espécies do vinho e do pão que pelo Espírito Santo Se transformam no Seu Corpo e no Seu Sangue. Oferenda que se torna atual no Sacramento da Eucaristia.

No Evangelho, cedo Jesus anuncia este mistério: «O Filho do homem vai ser entregue às mãos dos homens, que vão matá-l’O; mas Ele, três dias depois de morto, ressuscitará».

Apesar da Confissão de Fé, feita por Pedro em nome de todos, dos discípulos daqueles dias e de hoje, que somos nós, há ainda um longo caminho a percorrer, para amadurecer a fé, para perceber a vontade de Deus, para aperfeiçoar a identificação com Jesus e com o Seu Evangelho de serviço sem fronteiras.

O anúncio da morte e a chegada iminente do reino de Deus, leva os discípulos a discutir lugares, para ver quem ganha a dianteira. Alguns candidatos óbvios: Tiago e João, André e Pedro, Judas Iscariotes (um dos mais próximos de Jesus e com maior preponderância no grupo, sendo o responsável pelas economias e pela gestão logística das jornadas missionárias). Os Evangelhos (cf. Mc 10, 35-45; Lc 22, 24-27; Jo 13, 1-17) mostrar-nos-ão como Tiago e João solicitam a Jesus os lugares à Sua direita e à Sua esquerda. Este facto foi ligeiramente modificado por São Mateus (20, 20-28) que coloca a mãe dos dois a pedir, protegendo-os desta pretensão e ousadia. Esse episódio ser-nos-á apresentado daqui a quatro domingos, na versão de São Marcos.

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2 – O caminho serve para evangelizar. Mas por vezes Jesus deixa que os discípulos conversem e só os interpela em casa. Faz-nos lembrar aquelas famílias, cujos filhos vão discutindo sem que os pais intervenham, a não ser mesmo necessário, e quando chegam a casa aproveitam e esclarecem algum ponto, rebatendo ou alertando para alguma situação menos positiva. Também assim no contexto de um grupo ou uma turma, os reparos quanto possível devem fazer-se discretamente e de preferência individualmente. Neste caso, todo o grupo está em causa. Precisam de amadurecer ideias. Jesus deixa porquanto que discorram entre eles.

O evangelista refere que os discípulos estavam com receio em interrogar Jesus. Talvez por saberem o que Ele pensava. Mas querem tirar a limpo. Têm que arriscar. Vimos como Pedro repreendeu Jesus quando Ele anuncia a Sua morte para breve. Vê-se agora que a repreensão a Pedro é extensível a todos os discípulos. Se se aproxima a hora da morte de Jesus, há que assegurar o futuro sem Ele. Pelo caminho vão jogando uns com os outros sobre as cartadas de cada um: qual deles é o maior e que pode assumir um lugar de destaque?

Enquanto discutem lugares, Jesus chega-lhes a mostarda ao nariz para lhes recordar a missão do Filho do Homem que veio para servir e não para ser servido, veio para dar a vida pela humanidade. O serviço é o único caminho do discípulo. Quem quiser segui-l'O tem de correr atrás de Jesus, seguindo os Seus passos, de serviço e de auto oferenda pelos outros. O caminho do amor passa pela cruz. Aquele que ousar desviar-se da Cruz de Jesus, perde-se a si mesmo, pois não há amor que não acarrete preocupação, serviço, dedicação ao outro e até dar a própria vida pela vida de quem se ama. Qual o pai que não daria a vida pelo seu filho? Qual o pai que amando não sofre?

Não há caminho cristão sem cruz, sem serviço, sem humildade, sem a pequenez que deixa transparecer a grandeza de Deus.

Jesus chama-os, reúne-os à Sua volta – Cristo deve estar sempre no centro, no meio, Ele preside – e senta-se. É a atitude de quem ensina. E diz-lhes: «Quem quiser ser o primeiro será o último de todos e o servo de todos». E, para que não haja dúvidas, Jesus toma uma criança, coloca-a no MEIO deles, abraça-a e sublinha: «Quem receber uma destas crianças em meu nome é a Mim que recebe; e quem Me receber não Me recebe a Mim, mas Àquele que Me enviou».

Curioso: eles discutem o futuro para um tempo sem Jesus; Jesus propõe-lhes um futuro em que estará sempre no MEIO, pelo Espírito Santo, ou pelos mais pequenos do Reino. Não são os discípulos que devem ocupar o MEIO mas aqueles que eles devem servir.

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Textos para a Eucaristia (B): Sab 2, 12. 17-20; Sl 53 (54); Tg 3, 16 – 4, 3; Mc 9, 30-37.

 

REFLEXÃO DOMINICAL COMPLETA no nosso outro blogue CARITAS IN VERITATE

 

14.06.14

Leituras: ANSELM GRÜN - Que fiz eu para merecer isto?

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ANSELM GRÜN (2007). Que fiz eu para merecer isto? A incompreensível justiça de Deus. Prior Velho: Paulinas Editora. 160 páginas.

       O sofrimento, físico, psíquico, espiritual, o sofrimento auto-infligido, ou consequência dos outros ou da natureza, é um tema por demais delicado. É precisamente aqui que o monge beneditino, alemão, Anselm Grün, reconhecido pelos seus conselhos, em palestras, livros publicados, aconselhamento espiritual, como pároco, apresenta mais uma reflexão que pretende compreender o sofrimento e dar pistas para o enfrentar, para o superar, para o aceitar, sabendo-se que cada pessoa é única e que por vezes as palavras são insuficientes para ajudar ou outras vezes são inúteis para quem passa por situações de tormenta, culpabilizando-se ou culpando os outros.

       Para os crentes há sempre uma pergunta que vem ao de cima: por quê eu? Porque é que Deus me fez isto? Sendo eu uma pessoa de bem, que vivi sempre de forma saudável, respeitando os outros, cuidando da alimentação, fazendo desporto, por que é que Deus permitiu que se manifestasse em mim esta doença?

       Embora com riscos, o autor procura mostrar que não adianta muito procurar culpados, mas vale muito levar até Deus o protesto, como fez Job, como fez Jesus, rezar-lhe as próprias mágoas, protestando contra Ele. No final, o nosso coração ficará mais preparado para aceitar a nossa fragilidade e para aceitarmos que Deus ultrapassa sempre os nossos conceitos humanos. O sofrimento pode ser oportunidade para desfazermos a imagem que temos de Deus e por outro lado para erguermos a nossa casa, a nossa vida, sobre a rocha firme que é Deus. Quando edificamos a nossa vida sobre a saúde, os bem materiais, os amigos, poderemos desembocar na desilusão, no desencanto. Edificar a nossa vida a partir de Deus, mesmo que por vezes O não entendamos, é a garantia que a nossa casa sobrevirá a todas as intempéries.

       Como em outros livros do autor que aqui já recomendámos, como Pai-nosso, uma ajuda para a vida, e A sublime Arte de envelhecer, também este lança pistas, sugestões, coloca perguntas, procura na Bíblia, na Filosofia, na Psicologia, na experiência pessoal e sacerdotal, apresentando casos concretos com os quais se deparou ao longo da vida... Sem dogmatismos, com forte confiança em Deus e na dimensão espiritual da pessoa.

       Pelo índice: respostas teológicas ao sofrimento; explicação do sofrimento pelos místicos; relação com experiências concretas de sofrimento (sofrimento provocado pelas pessoas, morte de pessoas queridas, quando o corpo ou a alma adoecem, preocupações com os filhos - homossexualidade, doença e deficiência, doença psíquica, anorexia, toxicodependência), fracasso no trabalho e nas relações (desemprego, separação e divórcio); sofrimento auto-infligido, a catástrofes naturais.

06.06.14

Leituras: ANSELM GRÜN - A sublime arte de envelhecer

mpgpadre

ANSELM GRÜN (2009). A sublime arte de envelhecer e tornar-se uma bênção para os outros. Prior Velho: Paulinas Editora, 176 páginas.

       Voltámos a sugerir um livro de Anselm Grün, o monge beneditino que é considerado um verdadeiro guia espiritual, através dos seus escritos, das conferências e seminários em que participam, refletindo a vida com as complexidades da morte, do sofrimento, do mal, da fé, da doença.

       A reflexão proposta anteriormente: PAI-NOSSO, uma ajuda para a vidaAQUI.

       Neste volume a reflexão sobre a arte de envelhecer. Embora esteja no horizonte de todas as pessoas ir envelhecendo, é necessário adaptar-se, renunciar, lidar com a perda e o sofrimento, com as limitações físicas e mentais, aprender a conviver com a própria morte e transformá-la numa dádiva de comunhão, como fez Jesus Cristo. Na morte, já nada nos separará dos outros. Somos mais iguais.

       O prefácio está a cargo do Pe. Vítor Feytor Pinto, durante muito tempo ligado diretamente às questões da Vida, toxicodependência, Sida,, cuja experiência e sabedoria lhe permitem fazer uma leitura assertiva sobre a temática presente.

       O autor, Anselm Grün, com 64 anos quando escreveu o texto, fala a partir da experiência de outros, recorrendo à filosofia e à teologia, mas também a outras áreas do saber, como a psicologia. Faz-nos, como se diz no prefácio, conhecer o pensamento de Karl Rahner, Teilhard Chardin, Romano Gurdini, Breemen, Hermann Hesse, e tanto outros. É um excelente livro para os mais velhos, mas também para os mais novos.

       O papa Francisco tem insistido na cultura da inclusão, referindo que os dois extremos, jovens e idosos, são frequentemente esquecidos. No entanto, uma sociedade que esquece o saber, a experiência e a memória dos mais velhos, é uma sociedade condenada a desaparecer.

        É precisamente nesta linha que se desenvolve o pensamento de Grün, sobre o contributo dos mais velhos, mas também, dedicando-lhe muito espaço, com os mais velhos a lidarem com as suas limitações, com a doença, com a falta de forças, renunciando ao poder, renunciando a controlar a vida por inteiro, descobrindo novos afazeres, aprendendo a sublime arte de envelhecer, a paciência, o despojamento.

       Veja-se o índice: O significado da velhice; Aceitação da própria existência (reconciliação com o passado, aceitar os seus limites, aprender a viver com a solidão); Renunciar aos bens materiais, à saúde, renunciar às relações, à sexualidade, ao poder, ao ego; Fertilidade; Envelhecer juntos; Virtudes da velhice - serenidade, paciência, mansidão, liberdade, gratidão, amor; Lidar com os medos e com a depressão; o caminho do silêncio; transcender o ego; treino para a morte.

        É mais um daqueles títulos que até pode ser provocador, mas que se lê com facilidade, pois os exemplos concretos ajudam a entrar dentro dos diversos conteúdos.

08.09.13

Quem não preferir à própria vida não pode ser Meu discípulo

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       1 – Chamamento. Seguimento. Cruz. Despojamento. Humildade. Coragem. Persistência. Amor. Esperança. Sem promessas. Com as certezas que advêm da fé, do serviço e da verdade. O Mestre e os discípulos. Sempre discípulos, seguidores, aprendizes, alunos. Sempre apóstolos, enviados, em caminho, testemunhas do Evangelho, transparência, rosto e presença de Jesus em cada tempo, em todos os ambientes. A prioridade: amar. O essencial: serviço. O conteúdo: Jesus Cristo. A Mensagem: conciliar, reunir, paz, justiça, bem-dizer e bem-fazer, partilha, comunhão, gratuitidade, verdade, amar servindo, servir amando. A meta: Deus. Em Deus há lugar para todos.

       A multidão seguia Jesus, ia atrás da Sua Palavra, dos Seus gestos e de milagres. Todos com as mesmas intenções? Certamente que não. Hoje continua a ser assim. Multidões que seguem Jesus, vão à Igreja, têm fé, vivem a religião, têm fé e não vão à Igreja, e quase deixaram de ser Igreja, mas de vez enquanto ainda se sentem, se afirmam como cristãos, como Igreja, ou a combatem dizendo que também fazem parte dela. Como diria um santo teólogo, a Igreja é como a nossa Mãe, velhinha e com a pele enrugada, mas não vamos andar por aí a dizer mal da nossa Mãe. Não. Pelo contrário, vamos dar-lhe mais atenção, dedicar-lhe mais tempo. Cuidar. Para que a Igreja seja sobretudo Mãe, e como Mãe também guia e mestra.

       A Igreja muitos rostos e muitos caminhos, tantos quantos as pessoas, assim o afirmava o Cardeal Ratzinger. Jesus é o CAMINHO, a Verdade e a Vida. É o nosso CENTRO, a referência fundamental, o AMOR maior. Mas cada um de nós tem a sua história, os seus dramas, os seus sonhos, cada um de nós sente à sua maneira. Mas se houver um FAROL que nos congregue será mais fácil carregar a nossa cruz.

       2 – «Se alguém vem ter comigo, e não Me preferir ao pai, à mãe, à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não pode ser meu discípulo. Quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens, não pode ser meu discípulo».

       Jesus não está pelos ajustes, tudo ou nada. Ele ama-nos definitiva e totalmente. A intimidade com Deus Pai mais O compromete.

       Não há cá paninhos quentes. Quem Me quiser seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz, traga a sua vida por inteiro. Nada pode ficar de reserva, ou no condicional (vamos ver o que isto dá… depois logo se vê). A vida toda. Vamos inteiros, corpo, alma, espírito. Quem não Me preferir à mãe, ao pai, ou aos filhos, à própria vida, não pode ser Meu discípulo. Sem papas na língua. É assim mesmo! Põe todas as cartas na mesa. Não fica com nenhuma cartada na manga. Ele não Se impõe. Não faz promessas. Não dá garantias de sucesso. Não faz chantagem, nem negoceia o Seguimento. Ou quereis ou não quereis.

        A minha/nossa resposta não pode ser diferente. Não podemos amar a meias, a prazo, quando nos dá na real gana, ou quando estamos bem-dispostos. Ou quando precisamos. Ou quando a vida nos corre bem e nos sobra tempo. Ou amamos ou não amamos. Ainda que cada um possa manifestar o seu amor (e a sua fé) de maneira específica. Existe um caminho de aperfeiçoamento a construir.

       3 – Será que Jesus quer que eu me isole para O seguir? Que vire as costas à família e aos amigos? Que me torne monge? Será que Ele exige uma vida vazia, sem nada nem ninguém? Quais são as condições para sermos Seus discípulos?

       Quem quiser ser Meu discípulo tem de renunciar a uma vida apagada, cómoda, instalada, de indiferença. Pegar na própria Cruz e segui-l'O. Dia após dia. Todos os dias, em todo o tempo. Até quando dormimos somos d'Ele. Até quando descansamos respiramos o Seu Espírito. Em qualquer estado de vida.

       Um padre (Pe. Manuel Gonçalves da Costa) do Seminário Maior dizia: quando precisares de ajuda pede a quem tem muito que fazer, que ande sempre ocupado, pois arranja tempo e espaço para te ajudar. Se pedires ajuda a alguém que nunca tem nada para fazer, nunca arranjará tempo para te ajudar. É assim o convite de Jesus. Quanto mais ocupados com Deus, mais disponíveis para os outros. Alguém conhece pessoas cheias de si com tempo para os outros?

       Na convocação do Ano Sacerdotal, o Papa Bento XVI evocava uma reflexão do Santo Cura d'Ars, São João Maria Vianney, sublinhando o valor e a necessidade da oração. Para quê? Para que Deus dilate o nosso coração. Somos limitados, amamos limitadamente. A oração coloca-nos no coração ENORME de Deus, a oração faz-nos amar mais, mais, muito mais, o mundo inteiro. Seguindo Deus, amando Deus, servindo Deus, nos outros.


Textos para a Eucaristia (ano C): Sab 9, 13-19; Flm 9b-10.12-17; Lc 14, 25-33.

 

01.09.13

Quem se exalta será humilhado...

mpgpadre

       1 – “Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado”. Alguns ditados populares: “gaba-te cesto que amanhã vais para a vindima”, “presunção e água benta cada um toma a que quer”, “já que ninguém te gaba, gabas-te tu”, “ninguém é bom juiz em causa própria”. A sabedoria popular, como a intervenção de Jesus, diz-nos algo evidente: o bem que fazemos não precisa de ser badalado, por si só produz fruto. Quando uma pessoa tem valor, não precisa de apregoar as suas qualidades aos quatro ventos, a não ser em questões de defesa de honra.

       A pessoa deve estimar-se, sentir-se digna de ser amada pelo que é. Em contexto cristão, a certeza de sermos filhos amados de Deus. Para Ele valemos tudo.

       É benéfica uma dose suficiente de otimismo e autoconfiança. A humildade pressupõe a autoestima. Quem se valoriza como pessoa, facilmente aceita as suas limitações e insuficiências, não como defeitos de fabrico, mas como contingência inevitável da respetiva humanidade. No plano da fé, a humildade faz-nos reconhecer que não somos deuses, impecáveis, não somos melhores que os outros, somos o que somos, precisamos de amar e de nos sentir amados, de reconhecer os outros como pessoas e de sermos reconhecidos pelo que somos (e pelo que fazemos de bem).

       2 – “Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado”. Fazer depender a nossa vida daquilo que os outros dizem pode ser muito confrangedor. Os outros sempre nos hão de desiludir, ou por que não nos dão a atenção devida, ou por que não valorizaram o suficiente o nosso esforço, o nosso talento. Não é culpa deles. As nossas elevadas expectativas podem não encontrar o acolhimento devido. Diversamente por que não fizemos mais do que aquilo que outros esperavam de nós, ou simplesmente os outros não sabem como mostrar-se agradecidos da forma como merecemos.

       Jesus desafia-nos a sermos pró-ativos, agindo, lutando, caminhando, sem nos julgarmos mais que os outros e valorizando a nossa atenção sobre os mais necessitados. O que é mais importante, a imagem que os outros fazem de mim ou o que faço para tornar mais fácil e agradável a vida dos que me rodeiam?

       A lógica de Jesus Cristo: para Deus os últimos são os primeiros. Ser-nos-á mais fácil valorizar aqueles com quem nos identificamos mais, as pessoas com mais elevado estatuto social. Para Jesus e, consequentemente, para os cristãos, o maior cuidado deverá ser dado aos que valem menos aos olhos deste mundo, precisamente para incluir, para valorizar, para “igualar”. Trata-se de uma descriminação positiva. Não excluímos os primeiros, promovemos os segundos: “Quando ofereceres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te: ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos”.

       3 – “Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado”. Tenho para mim que a grandeza de uma pessoa se mede pela postura humilde no momento da vitória. Quando estamos por cima, expressão muito popular, é que mostramos verdadeiramente o que somos. Custa-me muito ver quando alguém ganha uma disputa política, desportiva, cultural, e que na proclamação da vitória tenha necessidade de espezinhar, de acentuar “os podres” dos derrotados, denegrindo mais os adversários para se engrandecer perante os seus ouvintes. A vitória já diz o suficiente e não garante que as ideias do vencedor sejam as mais nobres. As palavras serão desnecessárias a não ser para agradecer, para chamar todos à participação, pondo de lado as disputas, procurando valorizar o que possa ser benéfico para todos. Assumindo, inclusive, propostas dos adversários.

       Para quem perde, não será diferente. Ou a mensagem não passou. Ou não era ainda o tempo oportuno. Ou os outros têm opiniões divergentes. Mas logo é tempo de trabalhar, na reflexão e nas atitudes, para o maior bem de todos. Não é fácil. Mas não adianta passar o tempo a protestar contra os outros. Será o tempo de ajuntar esforços.

       Eis o conselho sábio de Ben-Sirá: “Filho, em todas as tuas obras procede com humildade e serás mais estimado do que o homem generoso. Quanto mais importante fores, mais deves humilhar-te e encontrarás graça diante do Senhor”.

       Um conselho, lido algures: lembra-te de respeitar aqueles que encontrares quando fores a subir, pois serão os mesmos que encontrarás quando vieres a descer…


Textos para a Eucaristia (ano C): Sir 3,19-21.30-31; Heb 12,18-19.22-24a; Lc 14,1.7-14.

 

04.08.13

Guardai-vos de toda a avareza...

mpgpadre

       1 – “Saciai-nos desde a manhã com a Vossa bondade para nos alegrarmos e exultarmos todos os dias. Desça sobre nós a graça do Senhor nosso Deus. Confirmai, Senhor, a obra das Vossas mãos”. Invocamos a bênção de Deus para que os nossos dias não sejam em vão e para que o nosso tempo tenha sentido, na abertura solidária aos outros, na busca do olhar de Deus sobre nós.

       Procuremos Jesus em toda a parte e sobretudo nos irmãos, comprometidos na transformação do mundo, com o coração impelido para as alturas. A nossa pátria é junto de Deus.

“Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra. Porque vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Fazei morrer o que em vós é terreno... Não mintais uns aos outros, vós que vos revestistes do homem novo, que se vai renovando à imagem do seu Criador. Aí não há grego ou judeu, escravo ou livre; o que há é Cristo, que é tudo e está em todos”.

       A Ressurreição de Jesus não é apenas a antecipação da nossa, mas um processo que nos envolve, numa relação cósmica com todo o universo.

 

       2 – “Vaidade das vaidades: tudo é vaidade. Quem trabalhou com sabedoria, ciência e êxito, tem de deixar tudo a outro que nada fez. Também isto é vaidade e grande desgraça. Mas então, que aproveita ao homem todo o seu trabalho e a ânsia com que se afadigou debaixo do sol? Na verdade, todos os seus dias são cheios de dores e os seus trabalhos cheios de cuidados e preocupações; e nem de noite o seu coração descansa. Também isto é vaidade”.

        Aparentemente Qohélet faz uma confissão de desencanto, de desilusão. Tudo é igual, todos os dias se repetem constantemente. Não há nada de novo debaixo do Céu. Trabalho e canseiras, cuidados e preocupações, tudo é em vão. Nem de noite o coração descansa. Tanta vida que depois tem que se deixar a outros. A experiência não permite grandes voos, pelo contrário, provoca ansiedade. Bons e maus têm o mesmo destino. Por vezes, parece que os que praticam o mal são abençoados, e os que praticam o bem são amaldiçoados.

       O autor, tal como Job, coloca em causa a sabedoria tradicional, onde sobrevinha uma correlação direta entre a bênção e a justiça, os bons eram recompensados e os maus castigados. Job e Qohélet concluem que há homens justos cujos padecimentos são injustificados.

       3 – Um homem aproxima-se de Jesus para que Ele resolva uma contenda de irmãos. Jesus questiona: «Amigo, quem Me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?» E logo alerta: «Vede bem, guardai-vos de toda a avareza: a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens». A avareza brota do coração, da inveja descontrolada, do ciúme. Trata-se de uma atitude e não tem correlação direta com os bens que se possuem. Há pobres e ricos avarentos.

       Quem trabalha merece ser compensado com justiça e equidade, ainda que o trabalho também deva gerar capital e investimento, assegurando dessa forma a criação de riqueza e de mais emprego para que muitos mais tenham acesso aos recursos da terra e a oportunidade de viverem com o fruto do trabalho, realizando-se como pessoas. Numa perspetiva cristã, mais se acentua a dignificação da pessoa e do trabalho como forma de cooperar na obra criadora de Deus.

       Importa, desde logo, não descartar a relevância da caridade, da partilha solidária, com quem não tem ou não pode ter.

 

      4 – Para uns e outros, Jesus reafirma: «Guardai-vos de toda a avareza: a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens...». Importa tornar-se rico aos olhos de Deus. O que acumula apenas para si acabará por se perder. Tarde, por vezes, nos damos conta que dependemos uns dos outros, no bem e no mal. Beneficiamos do bem alheio e somos atingidos pelo mal dos outros.

O Pão nosso de cada dia nos dai hoje, Senhor. Mas dai-nos também a alegria e a coragem da partilha solidária, valorizando o fruto do nosso trabalho e tornando-o dom. “Ensinai-nos a contar os nossos dias, para chegarmos à sabedoria do coração”. Que as preocupações do tempo presente não nos façam esquecer a nossa origem e o nosso fim comum: em Deus, para Deus, com os outros.


Textos para a Eucaristia (ano C):
Co (Ecle) 1, 2; 2, 21-23; Sl 89 (90); Col 3, 1-5.9-11; Lc 12, 13-21.

27.02.13

HUMILDADE: a última encíclica de BENTO XVI

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       Bento XVI não publicará a encíclica sobre a fé – embora em fase avançada – que devia apresentar na primavera. Já não tem tempo. E nenhum sucessor é obrigado a retomar uma encíclica incompleta do próprio predecessor. Mas existe outra encíclica de Bento XVI, escondida no seu coração, uma encíclica não escrita. Ou melhor, escrita não pela sua pena mas pelo gesto do seu pontificado. Esta encíclica não é um texto, mas uma realidade: a humildade.

       A 19 de abril de 2005 um homem que pertence à raça das águias intelectuais, temido pelos seus adversários, admirado pelos seus estudantes, respeitado por todos devido à acutilância das suas análises sobre a Igreja e o mundo, apresenta-se, recém-eleito Papa, como um cordeiro levado para o sacrifício. Utilizará até a terrível palavra «guilhotina» para descrever o sentimento que o invadiu no momento em que os seus irmãos cardeais, na Capela Sistina, ainda fechada para o mundo, se viraram para ele, eleito entre todos, para o aplaudir. Nas imagens da época, a sua figura curvada e o seu rosto surpreendido testemunham-no.

       Depois teve que aprender o mister de Papa. Extirpou, como raízes arraigadas sob o húmus da terra, o eterno tímido, lúcido na mente mas desajeitado no corpo, para o projetar perante o mundo. Foi um choque para ambas as partes. Não conseguia assumir a desenvoltura do saudoso João Paulo II. O mundo compreendia mal aquele Papa sem efeito. Bento XVI nem teve os cem dias de "estado de graça" que se atribuem aos presidentes profanos. Teve, sem dúvida, a graça divina, fina mas pouco mundana. Contudo teve, ainda e sempre, a humildade de aprender sob os olhares de todos.

       Foram sete anos terríveis de pontificado. Nunca um Papa teve, num certo sentido, tão pouco "sucesso". Passou de polémica em polémica: crise com o Islão depois do seu discurso de Ratisbona, onde evocou a violência religiosa; deformação das suas palavras sobre a Sida durante a primeira viagem à África, que suscitou um protesto mundial; vergonha sofrida pelo explodir da questão dos sacerdotes pedófilos, por ele enfrentada; o caso Williamson, onde o seu gesto de generosidade em relação aos quatro bispos ordenados por D. Lefebvre (o Papa revogou as excomunhões) se transformou numa reprovação mundial contra Bento XVI, porque não tinha sido informado sobre os discursos negacionistas da Shoah feitos por um deles; incompreensões e dificuldades de pôr em ação o seu desejo de transparência quanto às finanças do Vaticano; traição de uma parte do seu grupo mais próximo no caso Vatileaks, com o seu mordomo que subtraiu cartas confidenciais para as publicar...

       Não teve nem sequer um ano de trégua. Nada lhe foi poupado. Às violentas provações físicas do pontificado de João Paulo II, ao atentado e ao mal de Parkinson, parecem corresponder as provações morais de rara violência desta litania de contradições sofrida por Bento XVI.

       Ao renunciar, o Papa eclipsa-se. À própria imagem do seu pontificado. Mas só Deus conhece o poder e a fecundidade da humildade.

 

Jean-Marie Guénois, in Le Figaro Magazine, 15-16.2.2013. Transcrição: L'Osservatore Romano © SNPC | 25.02.13.

 

14.10.12

Bom Mestre, que hei de fazer para alcançar a vida eterna?

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       1 – Um homem correu ao encontro de Jesus, ajoelhou diante d’Ele e perguntou- Lhe: «Bom Mestre, que hei de fazer para alcançar a vida eterna?» A atitude deste homem é delicada e de grande expetativa. A primeira coisa que faz é colocar-se de joelhos diante de Jesus, reconhecendo-O como Mestre justo e bom.

       É um homem em correrias, ansioso, insatisfeito, à procura de um sentido maior para a sua vida e que justifique os seus dias.

       A resposta de Jesus não visa agradar ao seu interlocutor, mas propor um projeto de vida viável e exequível: “Tu sabes os mandamentos: Não mates; não cometas adultério; não roubes; não levantes falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe”.

       A lei por si mesmo não salva: «Mestre, tudo isso tenho eu cumprido desde a juventude».

       Jesus vê que a lei era um fardo para aquele homem, ainda que ele a cumprisse, e lança um desafio maior: «Falta-te uma coisa: vai vender o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me». Ouvindo estas palavras, anuviou-se-lhe o semblante e retirou-se pesaroso, porque era muito rico.

 

       2 – Seguir Jesus implica-nos, não é uma adesão exterior, como camisa que se troca a qualquer momento, é um jeito de viver, de amar, de se relacionar com os outros. Ele entranha-Se em nós, somos transformados não pela rama, como crosta que se desprende com o tempo, mas em todas as veias, é sangue que nos liga a Jesus.

       Garantida está a Sua presença e a vida eterna. Garantida está uma vida de serviço aos outros. O maior no reino de Deus, é o que se faz menor, o que serve os demais, como Jesus que veio para servir e não para ser servido. Nas palavras de Santo Agostinho, “quem não vive para servir, não serve para viver”. A disputa dos discípulos por lugares há de dar lugar à disputa pela caridade. Não devais nada uns aos outros, senão a caridade (São Paulo).

 

       3 – A resposta de Jesus é também para os discípulos, de ontem e de hoje, a quem alerta com veemência: «Meus filhos, como é difícil entrar no reino de Deus! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus».

       Os discípulos continuam a magicar qual deles tirará mais dividendos e procuram saber mais, tirando tudo a limpo: «Quem pode então salvar-se?». Fitando neles os olhos, Jesus respondeu: «Aos homens é impossível, mas não a Deus, porque a Deus tudo é possível». Pedro insiste, apresentando créditos – «Vê como nós deixámos tudo para Te seguir» – que Jesus valoriza: «Em verdade vos digo: Todo aquele que tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou terras, por minha causa e por causa do Evangelho, receberá cem vezes mais, já neste mundo… e, no mundo futuro, a vida eterna».

       Muitas coisas e muitas situações se entrepõem entre nós e Deus: dúvidas, distanciamentos, trabalho e falta dele, doenças, solidão, conflitos familiares e/ou profissionais, deceções, falta de tempo.

       O que se entrepõe entre nós e Deus também se entrepõe entre nós e o próximo. O homem do evangelho queria algo mais da sua vida. Jesus propõe-lhe o seguimento e serviço aos outros. Ele pensava que haveria alguma forma mágica que o salvasse do ram-ram da sua existência, sem alterar nada da vida que tinha.

 

       4 – O destino do ser humano é ser feliz. É para isso que Deus nos criou. É para isso que andamos cá. A pergunta feita a Jesus tem a ver precisamente com esta busca incessante: o que devo fazer para ser feliz, agora e no futuro?

       Em Jesus Cristo a meta está iluminada e daí a importância de escutar e mastigar a palavra de Deus, que “é viva e eficaz… É a ela que devemos prestar contas” e pedir a Deus a sabedoria: “Orei e foi-me dada a prudência; implorei e veio a mim o espírito de sabedoria. Preferi-a aos cetros e aos tronos… Com ela me vieram todos os bens”.

       Se nos ligamos aos outros, em atitude de serviço, neles encontraremos a Deus, a Quem buscamos no mais íntimo de nós mesmos.


Textos para a Eucaristia (ano B): Sab 7, 7-11; Hebr 4, 12-13; Mc 10, 17-30.
 

Reflexão Dominical COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

e no nosso blogue CARITAS IN VERITATE

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