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Escolhas & Percursos

...espaço de discussão, de formação, de cultura, de curiosidades, de interacção. Poderemos estar mais próximos. Deus seja a nossa Esperança e a nossa Alegria...

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24.03.18

Contudo, não se faça o que Eu quero, mas o que Tu queres.

mpgpadre

1 – A Semana Santa faz-nos reviver especialmente as últimas horas da vida de Jesus. A Sua vida inteira está contida na celebração dos Sacramentos, especialmente na Eucaristia, que torna atual a Sua presença no meio de nós, fazendo-nos participar da Sua vida divina.

Há uma multidão que aclama Jesus: Hossana, Hossana, Filho de David! Bendito o que vem em nome do Senhor! O Rei vem num jumentinho! É um Rei sem poder, sem cavalos e sem exército! Um bando de maltrapilhos! São os amigos de Jesus. Entre eles, estamos nós! Uns mais pobres, outros mais desafogados, todos entusiasmados com os cânticos e com a manifestação de júbilo. Por vezes perdemo-nos na multidão, para o bem e para o mal! Deixamo-nos entusiasmar!

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2 – Na ceia pascal, o ambiente torna-se mais denso! Sentemo-nos ao redor de Jesus! Também somos Seus convidados.

Em Betânia, em casa de Simão o leproso, uma mulher derrama um vaso de alabastro, perfume de alto preço, sobre a cabeça de Jesus. Diante de alguma contestação Jesus declara: «Ela fez o que estava ao seu alcance: ungiu de antemão o meu corpo para a sepultura».

Logo depois, a Ceia Pascal. Um memorial que nos remete para a Eucaristia, instituída na Última Ceia. Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco! Estamos também lá! Somos João, Pedro e Judas, somos Tomé e Filipe, Tiago e André. Porque é que o Mestre está tão concentrado, o que é que Lhe vai na cabeça?

«Tomai: isto é o meu Corpo... Este é o meu Sangue, o Sangue da nova aliança derramado pela multidão dos homens». Jesus não nos deixará sós! Ainda não foi morto, mas já abre uma janela, uma possibilidade, Ele ficará presente!

 

3 – Cantaram os salmos e saíram para o Jardim das Oliveiras. Jesus previne. «Ficai aqui e vigiai». Todos garantem que não O abandonarão… Jesus reza, suplica, volta-Se totalmente para o Pai: se é possível, afasta de Mim este cálice, «Contudo, não se faça o que Eu quero, mas o que Tu queres». A oração gera intimidade com Deus.

Judas, um dos amigos mais chegados, trai-O com um beijo. Jesus é levado às autoridades dos judeus e logo de seguida ao poder romano, pois só este pode decretar a morte de alguém. Novamente a multidão se junta. «Crucifica-O». Um multidão em polvorosa. A humanidade tem do melhor e do pior. Cada um de nós!

 

5 – A morte está logo ali! Porém, Jesus não Se deixa destruir. Podem matá-l'O (fisicamente), mas não O destroem. Ele entrega a Sua vida ao Pai. Ele entrega a Sua vida para nos salvar. A Sua Cruz é por nós, para nossa salvação. Quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á e quem perder (gastar) a sua vida ganhá-la-á para a vida eterna. É o que Ele faz, dá-Se até ao último fôlego, até à última gota de sangue.

A oração de Jesus na Cruz envolve o nosso próprio sofrimento, a nossa confiança em Deus e o nosso clamor: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?».

Soltando um forte grito expirou. Fica o testemunho: «Na verdade, este homem era Filho de Deus». Fica o silêncio e a presença de algumas mulheres. Fica a delicadeza da sepultura: José de Arimateia, ilustre membro do Sinédrio, pediu o corpo de Jesus e deu-Lhe sepultura num sepulcro novo cravado na rocha.


Textos para a Eucaristia (B): Is 50, 4-7; Sl 21 (22); Filip 2, 6-11; Mc 14, 1 – 15, 47.

17.03.18

Se o grão de trigo não morrer, fica só...

mpgpadre

1 – «Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto. Quem ama a sua vida, perdê-la-á, e quem despreza a sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna».

Jesus faz-nos perceber o mistério do Seu amor por nós, desafiando-nos a fazer o mesmo: gastar a vida; morrer para o egoísmo e para a inveja, produzindo frutos de misericórdia e de compaixão; morrer para a idolatria, ressuscitando na alegria e na esperança; morrer para a violência e para a indiferença, crescendo em bondade e ternura; morrer para as aparências e prepotência, rejuvenescendo na humildade e no perdão; morrer para a ganância desmedida e para a corrupção, desenvolvendo gestos de carinho e cuidado.

«Se alguém Me quiser servir, que Me siga, e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo». É o caminho de cada cristão: seguir Jesus, amar Jesus, viver Jesus, servir Jesus. Onde Ele estiver, ali estarei, ali estarás, ali estaremos para O vermos e O imitarmos.

«Queremos ver Jesus». Pedido de alguns gregos (judeus emigrantes) que vieram a Jerusalém pela Páscoa. Há de ser este o nosso desejo e o nosso pedido constante. Querer ver Jesus, para O seguirmos, para estarmos onde Ele está. Mas como Filipe e como André também temos a "obrigação" de conduzir os outros a Jesus.

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2 – «Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto».

Avizinha-se uma hora sombria, dolorosa, fatídica! «Agora a minha alma está perturbada. E que hei-de dizer? Pai, salva-Me desta hora?». Desde a primeira hora que Jesus se encaminha para a HORA certa, hora de glorificação que é coincidente com a MORTE. Vamos por partes. Não morrendo o grão de trigo fica só, não produzirá fruto, mas se morrer dará fruto em abundância. Assim o Filho do Homem morrendo dará muito fruto, muita vida, vida nova, abençoada, definitiva. A morte não é o fim. O fim é a vida, a entrega, o dar-Se por inteiro. Uma casa não habitada degrada-se tão ou mais rapidamente que uma casa em uso, assim um carro, assim a nossa vida.

Deus faz-Se ouvir: «Já O glorifiquei e tornarei a glorificá-l’O». Na comunicação o que se diz não é, quase nunca, igual ao que se ouve. Daí que duas pessoas tendo ouvido o mesmo discurso o traduzam por acentuações diferentes e, por vezes, diametralmente opostas.

A multidão que está perto de Jesus não é concorde: um Anjo que Lhe falou? Um trovão? Jesus clarifica a VOZ que vem do Céu e o conteúdo da mensagem: «Não foi por minha causa que esta voz se fez ouvir; foi por vossa causa».

3 – O trigo que é lançado à terra, morrendo, dará muito fruto. «Chegou a hora em que este mundo vai ser julgado. Chegou a hora em que vai ser expulso o príncipe deste mundo. E quando Eu for elevado da terra, atrairei todos a Mim».

A HORA de Jesus está aí. Vai ser entregue às autoridades, vai ser julgado e vai ser morto. O Filho do Homem será elevado da terra para salvar, dando pleno cumprimento à vontade do Pai. Cumpre em perfeição a humanidade e introduz-nos em definitivo na vida divina. Vem viver connosco para nos permitir viver com Ele. Por conseguinte, a Sua morte não nos fará chegar a um abismo, ao vazio, mas far-nos-á encontrar com Deus: Pai nas Tuas mãos entrego a minha vida! É para lá que Ele nos conduz, é de junto do Pai que Ele nos atrai, nos protege e nos abençoa, nos ilumina e nos desafia a gastarmos a nossa vida, para que onde Ele estiver estejamos nós também.

A vida é assim, quanto mais se gasta, mais se ganha em sentido e em qualidade, mais se enriquece de alegria e de felicidade!


Textos para a Eucaristia (ano B): 2 Cr 36, 14-16. 19-23; Sl 136 (137); Ef 2, 4-10; Jo 3, 14-21.

10.03.18

Todo aquele que acredita terá n’Ele a vida eterna

mpgpadre

1 – «Alegra-te, Jerusalém; rejubilai, todos os seus amigos. Exultai de alegria, todos vós que participastes no seu luto e podereis beber e saciar-vos na abundância das suas consolações».

O 4.º Domingo da Quaresma sublinha a alegria, o júbilo pelo caminho percorrido, pela proximidade à meta: a celebração festiva da Páscoa de Jesus! É o Domingo Laetare! A Igreja rejubila com os seus fiéis pela entrega confiante que Jesus faz da humanidade ao Pai.

A Quaresma põe-nos a caminhar. É um caminho que parte da Páscoa "terrena" de Jesus. Existimos como comunidade porque Ele ressuscitou e está vivo no meio de nós. Ele precede-nos na morte e procede-nos na ressurreição! O caminho, por mais árduo que seja, está iluminado por Jesus, pela vida nova da Sua ressurreição.

Porquanto caminhamos sob as coordenadas do tempo e do espaço, sujeitos às limitações e fragilidades humanas, cientes dos nossos pecados, mas certos da misericórdia infinita de Deus, que nos impele a prosseguir ao jeito de Jesus, o Bom Samaritano: aproximando-nos dos mais frágeis, ajudando-os, cuidando das suas feridas, levantando-os e conduzindo-os à estalagem, para que sintam o conforto da presença familiar de Cristo e da Igreja, possam restabelecer forças e prosseguir caminho!

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2 – A nossa alegria radica na Cruz de Jesus Cristo, nossa Páscoa! A Cruz não nos desafia ao sofrimento, não nos conforma com o mal, não nos resigna com as injustiças. A Cruz é instrumento de redenção, sacramento do Amor, proposta de vida nova.

No diálogo com Nicodemos, Jesus compara a Sua missão à da serpente elevada por Moisés no deserto. Quantos fossem mordidos por serpentes, olhando para a serpente de bronze viveriam! O Filho do Homem também será elevado da terra e todos os que acreditarem terão n'Ele a vida eterna!

Tu e eu talvez tenhamos sido mordidos por serpentes! Imersos na morte e ressurreição de Jesus, pelo Batismo, tornámo-nos novas criaturas. Mas, como nos lembra São Paulo, por vezes ainda no deixamos seduzir pelo nosso egoísmo!

«Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito… Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele». Jesus explica a Nicodemos o que quem não nascer da água e do Espírito não entrará no Reino de Deus. Só pode falar verdadeiramente das coisas do Alto quem vem do alto, o Filho do Homem. É o mistério da Encarnação que terá o seu desenlace no mistério pascal. A morte de Jesus será expiadora, redentora, será a exaltação da entrega.

 

3 – Há um feixe de luz que vem da eternidade e que desbrava o caminho. A bola está do nosso lado. Basta olhar para o Filho do Homem, basta acreditar no nome do Filho Unigénito de Deus. É a nossa oportunidade, a nossa salvação. A condenação é não acreditar, é amar mais as trevas que a luz!

Jesus salva-nos pela Sua entrega, abre-nos as portas da eternidade, indica-nos o caminho a seguir, faz-Se Ele mesmo o nosso Caminho! Sabemos o caminho, mas ninguém nos obriga a segui-lo.

Quando olhamos alguém olhos nos olhos e deixamos que o seu olhar nos exponha é porque confiamos e estamos prontos para lhe responder ou para o escutar. Quando desviamos o olhar é porque não queremos que nos veja a alma, temos medo ou desconfiamos da pessoa que está à nossa frente. Não queremos dar-lhe uma resposta. Não queremos ouvir o que tem para nos dizer. Se as nossas obras são boas, feitas em Deus, então a luz é nossa amiga e companheira. Se as nossas obras são más, feitas às escondidas de Deus, então a luz torna-se incómoda e preferimos as trevas. A fé em Jesus Cristo é luz que nos encaminha para o bem e agiliza a prática das boas obras.


Textos para a Eucaristia (ano B): 2 Cr 36, 14-16. 19-23; Sl 136 (137); Ef 2, 4-10; Jo 3, 14-21.

03.03.18

Não façais da casa de meu Pai casa de comércio!

mpgpadre

1 – Existe a sensação que nada é sagrado, nem a própria vida!

O Templo deveria ser lugar de encontro, de fé e de festa, espaço sagrado de encontro do homem com Deus, mas tornou-se oportunidade de negócio, sobretudo por ocasião das festas, com inflação dos preços dos animais para os sacrifícios, mas também a usura no câmbio das moedas para o pagamento do imposto anual ao Templo.

O comércio floresce à volta dos grandes centros religiosos.  Para acolher os peregrinos são necessárias estruturas, espaços para pernoitar, para comer, lojas de recordações. Isso beneficia a economia, gera empregos, envolve pessoas e famílias. Em épocas altas, porém, os preços aumentam considerável e até abusivamente. Assim terá sido em Fátima por ocasião da Visita do Papa Francisco.

É muito difícil colocar limites “arquitetónicos”. Alguns comerciantes eram bem capazes de retirar o altar e colocar lá a banca. Felizmente que a criação de regras permite uma relação mais saudável entre os lugares sagrados e os espaços comerciais.

Por outro lado, antigamente as igrejas funcionavam como asilo para os fugitivos e como albergue para os mendigos. Hoje são assaltadas, vandalizadas e usadas para protestos, para difundir ideologias ou princípios contrários à Igreja e ao cristianismo.

EXPULSIÓN VENDEDORES DEL TEMPLO.-FRANCESCO BASSAN

2 – Jesus vai ao Templo de Jerusalém. Havia, com efeito, um lugar reservado aos cambistas e aos vendedores de ovelhas e de pombas. Jesus sabia disso. Então porquê esta reação? A exploração dos peregrinos por parte dos comerciantes. Os mais indefesos são os mais pobres, simples e sem estudos, mas com grande devoção e piedade, cumprindo generosamente nas ofertas para o Templo.

«Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai casa de comércio». Já várias vezes Jesus tinha mostrado a Sua estranheza em relação à postura das autoridades religiosas e políticas, aos abusos de poder, ao autoritarismo, à corrupção, à inversão do que deveria ser um dirigente. Sobreavisa os Seus discípulos para a tentação do poder sobre os demais. O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida por todos. Como Eu fiz, fazei-o vós uns aos outros. Quem quiser ser o primeiro seja o último, o servo de todos. É esta a lógica de Jesus. O serviço e o amor como único poder para quem quiser ser Seu discípulo.

 

3 – Este episódio é conhecido como expulsão dos vendilhões do Templo, mas também como Purificação do Templo, indiciando o início de um novo culto. Este far-se-á em espírito e verdade. Jesus será o novo Templo e n’Ele o culto novo.

Nos evangelhos sinóticos, Marcos, Mateus e Lucas, o episódio situa-se depois da entrada triunfal em Jerusalém e parece ser a gota de água que faltava para decisão final: Jesus tem que ser eliminado!

No evangelho joanino, o episódio aparece no início da vida pública, dando a entender a consciência de Jesus, desde a primeira hora, do que está para acontecer: «Destruí este templo e em três dias o levantarei». Intuindo a própria morte, Jesus anuncia já a ressurreição.

Perplexidade: o Templo demorou 46 anos a construir, como é que Alguém poderá reconstruí-lo em três dias?! Seria uma loucura. Depois da ressurreição, os discípulos vão compreender que Ele falava do Seu corpo! O Templo é Jesus, lugar para o verdadeiro e definitivo culto, lugar privilegiado para o encontro com Deus. Pela história, o culto celebrar-se-á no Seu Corpo Místico, a Igreja.

Deus está em toda a parte e não pode ser encerrado dentro de um edifício ou de um santuário, mas sem o sagrado também não há presença, não há sacramento. É como o amor! Ama-se no concreto, pessoas concretas. Amar toda a gente é filosofia barata, é amar ninguém. Por outro lado, o amor não se vê, mas expressa-se em gestos, em palavras, em atitudes. Assim também o nosso encontro com Deus. Quando nada é sagrado, também deixa de haver lugar para Deus. Agora nem na manjedoura!


Textos para a Eucaristia (ano B): Ex 20, 1-17; Sl 18 (19); 1 Cor 1, 22-25; Jo 2, 13-25.

25.02.18

Este é o meu Filho muito amado: escutai-O

mpgpadre

1 – Quem não gostaria de ter um vislumbre do futuro, a ponta do véu levantada em relação a um acontecimento, uma pessoa, um novo projeto. Uma dica que facilitasse a confiança no que se está a fazer, a garantia que tudo vai correr bem ou que pelo menos nas agruras não estaremos sós, porque alguém vai apoiar-nos, não nos vai deixar cair no abismo! Quando as coisas correm mal, uma insinuação de bem, de alteração da situação poderá provocar novo ânimo e levar-nos a novas insistências. Mas também quando as coisas correm bem, como gostaríamos de saber que assim vão continuar!

Estamos na Quaresma! No primeiro domingo, as tentações, superáveis com a ajuda de Deus, sob o impulso do Espírito Santo. O caminho faz-se caminhando e ao longo do caminho as dificuldades, as tentações, as contrariedades, provocadas pelos outros, pelas circunstâncias da vida, ou pelas nossas escolhas atuais ou passadas. Jesus não é um milagreiro, um fazedor de milagres tais quê poderíamos cruzar os braços e deixar que o Céu resolvesse a nossa vida. Afinal, Jesus calçou-se de humanidade e fez-Se caminho para nós.

Jesus não esconde as dificuldades que advirão. Aliás, no meio da refrega, convida-nos para n'Ele descansarmos: vinde a Mim todos vós que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei!

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2 – No alto da Montanha, Jesus desvenda um pouco do Céu!

Jesus revelara aos discípulos que iria ser julgado, condenado e morto e três dias depois ressuscitaria! Mas como acontece connosco, também os discípulos só ouvem o anúncio da morte.

Não temais! Eu estarei convosco até ao fim dos tempos.

Num caminho de altos e baixos, Jesus retira-Se para a montanha e leva conSigo Pedro, Tiago e João (e por certo Judas!), ainda não refeitos daquele "murro no estômago", e transfigura-Se diante deles. «As suas vestes tornaram-se resplandecentes, de tal brancura que nenhum lavadeiro sobre a terra as poderia assim branquear».

Junto de Jesus e a conversar com Ele toda a história da salvação representada por Moisés e por Elias. É um lampejo da eternidade. Deus é um Deus de vivos, não de mortos, é o Deus de Abraão,  Isaac e Jacob, Moisés e David, Elias e Ester, Ana, Isaías, eu e tu!

Inebriado pela situação, Pedro diz a Jesus para permanecerem ali, basta preparar três tendas, uma para Jesus, outra para Moisés e outra para Elias. Então de entre as nuvens faz-se ouvir uma voz: «Este é o meu Filho muito amado: escutai-O». É uma informação que nos compromete. Deus revela-nos que Jesus é Seu amado filho, mas logo nos interpela: escutai-O! Prestai atenção! Vede até onde Ele vos pode levar! Não vos deixeis subjugar pelas tempestades!

 

3 – Deus não mora à superfície (Tomáš Halík). Não é um mágico que nos iluda. Ele leva-nos a sério, também/sobretudo nos momentos de sofrimento, de dúvida, de hesitação. Jesus não garante uma vida sossegada, garante-nos, isso sim, que não há nada que nos afaste d'Ele e do Seu amor por nós.

É a convicção de São Paulo: «Se Deus está por nós, quem estará contra nós? Deus, que não poupou o seu próprio Filho?»

A Transfiguração é um lampejo de luz que nos garante que as trevas não levarão a melhor. Um fósforo aceso, uma vela que arde, a lanterna de um telemóvel, a chama de um isqueiro, abrem uma clareira na escuridão, por mais densa que seja. A Transfiguração é esta clareira de luz, que nos vem de Deus e nos traz Jesus, e nos dá ânimo para prosseguirmos em Quaresma pois o que lá vem supera todo o desgaste. É como a mulher que está para ser Mãe, não caminha para a dor, caminha para a vida, para o parto, para dar um filho ao mundo!

Os discípulos descem do monte! É hora de voltar à cidade dos homens e das mulheres! Tudo o que nos aproxima de Deus nos aproxima simultaneamente dos outros! Não há Céu sem cidade e é na cidade, no mundo, que acolhemos a Palavra de Deus, que acolhemos Deus feito Homem, em Jesus.


Textos para a Eucaristia (ano B): Gen 22, 1-2. 9a. 10-13. 15-18; Sl 115; Rom 8, 31b-34; Mc 9, 2-10.

26.11.17

Leituras: RANIERO CANTALAMESSA - PARA QUE NADA SE PERCA

mpgpadre

RANIERO CANTALAMESSA (2017). Para que nada se perca. Novos pensamentos sobre o Concílio Vaticano II. Lisboa: Paulus Editora. 128 páginas.

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Raniero Cantalamessa é o Pregador oficial da Casa Pontifícia, há mais de 30 anos, desde 1980. Nos tempos fortes do Advento e da Quaresma, é ele quem, habitualmente, orienta os retiros do Papa, dos Cardeais e de outros signatários da Cúria vaticana. Cantalamessa, italiano, nascido a 22 de julho de 1934, é frade franciscano capuchinho.

No 50.º aniversário do Encerramento do Concílio Ecuménico Vaticano II, o autor teve a ideia de refletir sobre o mesmo nos retiros seguintes a realizar na Casa Pontifícia, Advento (2015) e Quaresma (2016). Muito já se refletiu sobre o Vaticano, Cantalamessa procurou abordar os principais documentos, as quatro Constituições: Lumen Gentium, sobre a Igreja; Sacrosanctum Concilium, sobre a Liturgia; Dei Verbum, sobre a Palavra de Deus, e Gaudium et Spes, sobre a Igreja no mundo, refletindo também sobre o Decreto sobre o Ecumenismo, Unitatis redintegratio.

A reflexão proposta visa uma dinâmica sobretudo espiritual dos documentos, acentuando os compromissos dos cristãos e da Igreja já em andamento ou ainda a cumprir, desafiando-nos de novo a debruçar-nos sobre a riqueza do Concílio e dos documentos gerados para bem da Igreja e do compromisso dos cristãos para este tempo da história, deixando que o Espírito Santo continue a a inspirar-nos para acolhermos e transparecermos Jesus Cristo e assim nos assumirmos, em definitivo, filhos do mesmo Pai.

É um saboroso contributo para viver a fé na e com a Igreja, Corpo de Cristo, do qual somos membros, povo de Deus convocado pela palavra e pela caridade. Fica mais perto de nós o sopro do Espírito Santo que inspirou os Padres conciliares do Vaticano II.

 

Algumas frases sugestivas proferidas pelo autor e agora passadas a livro:

Mérito do então Cardeal Ratzinger ao ter realçado a relação intrínseca entre as duas imagens: «A Igreja é Corpo de Cristo porque é Esposa de Cristo... Corpo de Cristo que é Igreja com o Corpo de Cristo que é a Eucaristia... Sem a Igreja e sem a Eucaristia, Cristo não teria "corpo" no mundo».

«O que conta não é o lugar que ocupo na Igreja, mas o lugar que Cristo ocupa no meu coração!».

«Se a Igreja é o corpo de Cristo, a adesão pessoal a Ele é o único modo de começar, existencialmente, a fazer parte dela».

«Jesus já não é uma personagem, mas uma pessoa; já não é alguém de quem se fala, mas alguém a quem e com quem se pode falar, porque ressuscitado e vivo; já não é apenas uma memória, por mais liturgicamente viva e operante, mas uma presença... A fecundidade da Igreja depende do seu amor a Cristo».

 

«Não nos salvamos pelas boas obras, mas não nos salvamos sem  as boas obras... A criança não pode fazer absolutamente nada para ser concebida no ventre da mãe, precisa do amor de dois progenitores... no entanto, depois de ter nascido, tem de acionar os seus pulmões para respeirar e mamar; em suma tem de fazer alguma coisa, senão a vida que recebeu acabará... a fé sem as obras morre».

«O contrário de santo não é pecador, mas fracassado».

Madre Teresa de Calcutá: «A santidade não é um luxo, é uma necessidade».

 

«É sobretudo quando a oração se torna cansaço e luta que se descobre toda a importância do Espírito Santo para a nossa vida de oração. Então o Espírito Santo torna-se a força da nossa oração 'débil', a luz da nossa oração extinta; numa palavra, a alma da nossa oração. Na verdade, Ele 'irriga o que é árido'... O fosso que existe entre nós e o Jesus da história é preenchido pelo Espírito Santo. Sem Ele, na liturgia tudo é apenas memória; com Ele, tudo também é presença».

 

Santo Inácio de Antioquia: «Que nada se faça sem o teu consentimento; mas tu não faças naa se o consentimento de Deus».

 

«Não há missão, nem envio, sem uma prévia saída. Falamos frequentemente de uma Igreja 'em saída'. Mas devemos dar-nos conta  de que a primeira porta que temos de sair não é da Igreja,da comunidade, das instituições ou das sacristias; é a do nosso 'eu'. O Papa Francisco explicou-o muito bem em determinada ocasião: 'Estar em saída - dizia - significa antes de tudo sair do centro para deixar no centro o lugar a Deus'».

«Antes de ferir os ouvintes, a palavra deve ferir o anunciador, mostrar-lhe o seu pecado e impeli-lo à conversão».

«Quanto mais aumenta o volume da atividade, tanto mais deve aumentar  o volume da oração».

«A palavra não faltará, certamente, porque, ao contrário, quanto menos se ora, mais se fala, mas são palavras ocas, que não chegam a ninguém».

«O Evangelho do amor só se pode anunciar por amor. Se não nos esforçarmos por amar as pessoas que temos diante de nós, as palavras transformam-se-nos facilmente nas mãos em pedras que ferem e das quais nos protegemos como nos protegemos de uma saraivada».

«É preciso amar Jesus, porque só quem está apaixonado por Jesus pode proclamá-l'O ao mundo com íntima convicção. Só se fala com entusiasmo daquilo por que se está apaixonado. Quando, no anunciador, existe o amor também existe a alegria, o que é o fator determinante para o sucesso do anúncio».

 

«Abrir-se ao outro sexo é o primeiro passo para se abrir ao outro que é o próximo, até ao Outro com maiúscula que é Deus. O matrimónio nasce no sinal da humildade; é o reconhecimento de dependência e, portanto, da própria condição de criatura. Apaixonar-se por uma mulher ou por um homem é fazer o ato mais radical de humildade. É fazer-se mendigo e dizer ao outro: 'Não e basto a mim mesmo, preciso do teu ser'... Diante de Deus, podemos dizer que a sexualidade humana é a primeira escola de religião».

«O predomínio do homem sobre a mulher faz parte do pecado do homem, não do projeto de Deus».

«Deus é amor e o amor exige comunhão, permuta interpessoal; requer que haja um 'eu' e um 'tu'. Não há amor que não seja amor por alguém; onde só há um sujeito não pode haver amor, mas apenas egoísmo ou narcisismo. Onde Deus é concebido como Lei ou como Poder absoluto não há necessidade de uma pluralidade de pessoas... O Deus revelado por Jesus Cristo é amor, é único e só, mas não é solitário; é uno e trino...».

30.04.17

VL – Deus da Páscoa. Não é a Cruz que nos mata…

mpgpadre

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Não, não é a Cruz que mata Jesus.

Não, não é a Cruz que nos mata.

O que mata Jesus é o nosso pecado, o nosso egoísmo, o nosso desamor.

O que nos mata é a solidão, o colocar-nos como centro ou deixando que os outros nos endeusem. O que nos mata é a preguiça em amar e fazer o bem.

Mata Jesus a prepotência, a corrupção, a idolatria, a intolerância.

Morremos, não quando o coração falha ou o cérebro se desliga, mas quando deixamos de amar, quando deixamos de sentir a vida, o apelo dos outros, quando somos indiferentes ao sofrimento e necessidades dos irmãos.

É na Cruz que Jesus é morto, mas nem a Cruz O impede de nos encontrar. Jesus não dá as costas à Cruz, enfrenta-a, carrega-a, mas não foge. Ressuscitado, traz na Sua carne, na Sua vida, as marcas da crucifixão. Vede as minhas mãos e o meu lado, Sou Eu, não temais. E de forma ainda mais incisiva a Tomé: vê, toca, as minhas chagas, Sou Eu, não é um fantasma ou um espírito.

Poderíamos dizer, em contraponto, que não é a Cruz que nos salva, mas o amor de Jesus. Somos salvos por uma Cruz, mas não por uma cruz qualquer ou a cruz enquanto instrumento de tortura e de matança, mas por Aquele que leva o amor até às últimas consequências, até ao limite, enfrentando a injúria, os escarros e o escárnio, a flagelação e a morte cruenta na Cruz.

O cristão não vive sem a Cruz. Sem a Cruz não existe Igreja, não existem cristãos. Mas, em definito, quem nos salva é Jesus que morreu na Cruz. Quem nos salva é Jesus que volta à vida. Não é a cruz mas a ressurreição que ilumina o nosso caminho para Deus. A cruz é memória e promessa. Recorda-nos o imenso amor de Deus por nós manifestado em Jesus Cristo. É promessa que desemboca na Ressurreição. Aquele que vimos esmagado pelo sofrimento, agredido violentamente, obrigado a carregar o travessão da cruz, exausto pelas vergastadas e pela perda de sangue, voltou à vida. Deus Pai, a Quem Se confiou, não O desapontou, ressuscitou-O. Ele vive e está no meio de nós.

E de volta à vida, com as marcas da Paixão, Jesus carrega a mesma mensagem, enviando-nos: ide e anuncia o Evangelho a toda a criatura, curai os doentes, expulsai os demónios, comunicai a paz e a esperança, testemunhai o amor e a fidelidade de Deus, até ao fim do mundo.

 

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4409, de 25 de abril de 2017

30.04.17

VL – Caminhemos com Jesus ao Calvário… e logo à Sua Páscoa!

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Iniciámos a Semana Santa, a semana maior, pois nela se visualiza, de forma mais viva e intensa, o mistério maior da nossa fé, a paixão redentora de Jesus, que dá a vida por nós, e a Sua ressurreição gloriosa, certeza que a última palavra é da vida, é do amor, é de Deus. Até à Páscoa solene (anual) somos envolvidos nas últimas horas de vida de Jesus, centrados especialmente no processo rápido que O leva da ceia pascal ao Calvário, revelando-nos por inteiro o mistério de amor, de dádiva, de libertação, de resistência ao sofrimento, de priorização de Deus e da Sua vontade, de ousadia e de humildade, de perdão e de compaixão.

Jesus manda preparar a Páscoa. É um momento de festa, de convívio, de encontro e de memória. A comunidade reúne-se para celebrar a libertação; em família, relembra-se tudo quanto fez o Senhor, Deus de Israel, a favor do povo, para que as gerações vindouras vivam agradecidas e voltadas para o Senhor.

Quando a Ceia se aproxima do fim, Jesus antecipa a Sua morte e ressurreição, instituindo a Eucaristia: sempre que fizerdes isto, fazei-o em memória de Mim. Este é o Meu Corpo. Este é o Meu sangue, entregue por vós e a vós confiado para a salvação do mundo.

Terminada a refeição, Jesus sai com os discípulos para o Jardim das Oliveiras. A noite convida ao descanso. Mas não são horas para dormir, são horas de vigiar, de rezar com insistência. Pelo menos da parte de Jesus. Aproximam-se trevas densas, tenebrosas, mas mais do que a falta de luminosidade exterior é a falta de luz nos corações. Quem não tem luz no coração vive mergulhado na morte.

Naquela hora, Jesus penetra o sofrimento mais atroz. O desfecho está à vista. Um pouco mais, e ainda escuro, na noite de Judas e das lideranças judaicas, Jesus será preso, julgado, condenado à morte. Alguns minutos, algumas horas, e o fim virá! Pai, Pai, Pai, se é possível que passe de Mim esta hora, que passe rápido. Tanto sofrimento para um Homem só. Os gritos de Jesus levam os nossos gritos também. Pai, Pai, Pai, cumpra-se a Tua vontade. É mortal este caminho de entrega, é dom, mas é o caminho da salvação. Não há armas para lutar. A vida ganha-se pela fragilidade/força do amor, pela benevolência, pela misericórdia. O ódio, a guerra, a inveja, só geram mais discórdia, mais destruição, mais desumanização. Caminhemos com Jesus até ao calvário, até à cruz, e Ele nos mostrará a Luz!

 

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4407, de 11 de abril de 2017

30.04.17

VL – O Jejum que Eu quero é a Misericórdia

mpgpadre

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É mais importante não comer carne à sexta-feira ou ir à Missa ao Domingo?

Há tradições que são expressão da religiosidade mais popular. Mas, por vezes, parecem não passar de uma superstição entre outras como ver um gato preto, passar debaixo de uma escada, sentar-se a uma mesa com treze pessoas. É crucial não comer carne nas sextas-feiras da Quaresma porque é pecado e, pelo sim pelo não, mais vale prevenir e cumprir, não vá Deus chatear-Se. Temor sim, medo não. Deus ama-nos. É Pai de Misericórdia. Um Pai por certo não está à espera que o filho erre para o castigar, quando muito educa-o, dá-lhe ferramentas, aponta direções, caminhos…

Perguntam-me se comer carne às sextas-feiras da Quaresma é pecado! Apetecia-me responder: é mais importante ir à Missa ao Domingo. Uma pessoa não vai à Missa há dois ou três anos, só entra na Igreja num funeral, e depois pergunta se é pecado comer carne à sexta-feira? Claro que há muitas outras coisas essenciais, cuidar da família, comprometer-se com a justiça e com a verdade, ser honesto, ajudar os mais frágeis… Mas se falamos numa proposta feita pela Igreja, de abster-se de alguma coisa que se gosta muito, e que pode muito bem ser a carne, e que esse gesto (sacrifício) possa beneficiar uma causa, pessoas mais carenciadas, então talvez faça sentido interrogar-se sobre o que é essencial na vivência e expressão da fé!

Dois belíssimos textos no início da Quaresma. «Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes, convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é clemente e compassivo, paciente e rico em misericórdia» (Joel 2, 12-13). «O jejum que me agrada é este: libertar os que foram presos injus­tamente, livrá-los do jugo que levam às cos­tas, pôr em liberdade os oprimidos, quebrar toda a espécie de opres­são, repartir o teu pão com os esfo­meados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não des­prezar o teu irmão» (Is 58, 6-7).

Pergunta o Papa Francisco: como se pode pagar um jantar de duzentos euros e depois fazer de conta que não se vê um homem faminto à saída do restaurante? «Sou justo, pinto o coração mas depois discuto, exploro as pessoas… Eu sou generoso, darei uma boa oferta à Igreja… diz-me: tu pagas o justo às tuas colaboradoras domésticas? Aos teus empregados pagas o salário não declarado? Ou como a lei estabelece, para que possam dar de comer aos filhos?».

Desafia Jesus: «Ide aprender o que significa: prefiro a misericórdia ao sacrifício» (Mt 9, 13).

 

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4405, de 28 de março de 2017

30.04.17

VL – Largar a pele da serpente, revestir-se de Jesus Cristo

mpgpadre

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Quem tem familiaridade com o campo é possível que, por mais de uma vez, tenha encontrado a pele de uma cobra. Por vezes a pele encontra-se quase inteira, como se de repente a cobra despisse uma camisa e vestisse outra. A pele das cobras é constituída por escamas. Mudam de pele periodicamente. Uma das finalidades desta muda será remoção dos parasitas. Outra explicação plausível é que as cobras crescem constantemente e precisam de largar a pele que as aprisiona e limita por uma nova pele, maior, que as liberta para continuarem a crescerem.

A Quaresma encaminha-nos e prepara-nos para a Páscoa, vida nova, luz e salvação, a vastidão do Céu chega para toda a humanidade. Neste caminho somos desafiados à renúncia, à penitência. É um tempo de conversão e de esperança. É caminho (pessoal e comunitário) mas já iluminado pela ressurreição de Jesus. A mudança de vida é uma constante na vida do discípulo de Jesus Cristo. Fomos batizados na água e no Espírito Santo, tornamo-nos novas criaturas. A vida toda é esta configuração à nossa origem batismal. 

Um dos ritos do batismo é o da veste branca. “Agora és nova criatura e estás revestido de Cristo. Esta veste branca seja para ti símbolo da dignidade cristã”. Se voltarmos ao exemplo da renovação da pele na cobra, também esta veste nos reveste por inteiro. A cobra cresce e precisa de mudar de pele, libertando-se. Nós crescemos desde o batismo, precisamos de viver numa tensão permanente para fazer com que a nossa vida nos faça crescer na santidade, afeiçoando-nos a Cristo, isto é, adotando as feições de Cristo, ficando parecidos com Ele. Qual é a nossa pele antiga que nos aprisiona? Tudo o que nos impede de transparecer e testemunhar Jesus. Tudo o que nos afasta dos outros, o nosso egoísmo, o orgulho, a sobranceria, a avareza, a prepotência a inveja, o endeusamento do nosso ego.

Mas alguém poderá perguntar: se é só a pele que muda então nada muda interiormente? Se nos fixarmos no exemplo da cobra talvez tenhamos alguma razão. Contudo, o desprendimento da pele velha expressa o seu crescimento e, portanto, todo o corpo da cobra cresce, além de se libertar dos parasitas. Como cristãos revestimo-nos de Cristo para que toda a nossa vida se transforme, libertando-nos dos parasitas que nos impedem de ser imagem e semelhança de Deus, rosto e presença de Jesus Cristo para as pessoas do nosso tempo.

 

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4404, de 21 de março de 2017

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