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10.01.22

Miguel Sousa Tavares - ÚLTIMO OLHAR

mpgpadre

MIGUEL SOUSA TAVARES (2021). Último Olhar. Maia: Porto Editora. 312 páginas.

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Guerra civil espanhola, a luta entre franquistas e "vermelhos", exílio dos republicanos em França, alguns integrados nas forças de resistência francesa e outros encaminhados para campos de concentração, eis o cenário para mais este brilhante romance de Miguel Sousa Tavares, que desemboca na pandemia. Um dos seus portagonistas, Pablo sobrevive a tudo. Tem agora 93 anos! Será que sobrevive à Covid-19?

A pandemia do novo corona vírus veio de mansinho mas espalhou-se rapidamente e continua a fazer muitas vítimas. O autor deixa vários itens de reflexão sobre o melhor e o pior de nós, ou como muitos arregaçaram as mãos e se colocarem na primeira fila para ajudar e como muitos se afastaram, resguardaram e se justificaram para se salvaguardar. Um dos episódios, também narrado/ficcionado no livro, foi a colocação de idosos de um lar numa pequana. As ambulâncias que transportavam 28 idosos, infetados com Covid-19, e retirados de um Lar, Alcalá del Vale, foi recebido à pedrada em La Línea de la Concepción.

 

SINOPSE feita pela Editora:

"Pablo tem 93 anos, viveu a Guerra Civil Espanhola, viveu os campos de refugiados da guerra em França, viveu quatro anos no campo de extermínio nazi de Mauthausen. E depois viveu 75 anos tão feliz quanto possível, entre os campos de Landes, em França, e os da Andaluzia espanhola. Inez tem 37 anos, é médica e vive um casamento e uma carreira de sucesso com Martín, em Madrid, até ao dia em que conhece Paolo, um médico italiano que está mergulhado no olho do furacão do combate a uma doença provocada por um vírus novo e devastador, chegado da China: o SARS-CoV-2. Essa nova doença, transformada numa pandemia sem fim, vai mudar a vida de todos eles, aproximando-os ou afastando-os, e a cada um convocando para enfrentar dilemas éticos a que se julgavam imunes.

Último Olhar marca o aguardado regresso de Miguel Sousa Tavares ao romance. Uma história sem tréguas nem contemplações, onde o passado cruza o presente e o presente interroga o futuro que queremos ter. Da primeira à última página, até decifrarmos o que se esconde atrás do título".

 

Dados biográficos:

Miguel Sousa Tavares licenciou-se em Direito. Viria a abandonar a advocacia pelo jornalismo e, mais tarde, o jornalismo pela escrita literária e pelo comentário. Trabalhou em jornais, revistas e televisão, tendo conquistado diversos prémios como repórter, entre os quais o Grande Prémio de Jornalismo do Clube Português de Imprensa e o Tucano de Ouro, 1.º Prémio de reportagem televisiva no FestRio – Festival de Televisão e Cinema do Rio de Janeiro.
Seria um dos fundadores da revista Grande Reportagem, que dirigiu durante dez anos, tornando-a uma marca de referência no panorama jornalístico português. Como comentador político mantém uma presença constante na televisão e jornais portugueses – hoje na TVI e no Expresso –, em que a sua reconhecida independência arrasta fiéis e acumula inimigos.
Depois de incursões no domínio da literatura infantil e de viagens, estreou-se na ficção com Não te Deixarei Morrer, David Crockett, um conjunto de contos e textos dispersos. Em 2010, publicou o seu primeiro romance, Equador, que vendeu mais de 400 000 exemplares em Portugal, estando ainda traduzido em 12 línguas e editado em cerca de 30 países, com adaptação televisiva em Portugal e no Brasil. Destacam-se ainda os seus livros Rio das FloresNo Teu DesertoMadrugada Suja ou Cebola Crua com Sal e Broa.

16.02.12

47. Olhar para o mundo, para as coisas e sobretudo para os outros com o olhar de Deus

mpgpadre

Olhar para o mundo, para as coisas e sobretudo para os outros com o olhar de Deus.
Como nos lembrava o poeta português, Fernando Pessoa, se olharmos para os outros com o olhar meigo e puro de Deus, os nossos juízos de valor e as nossas descobertas serão diferentes. Voltamos à perspetiva de ontem: encontramos nos outros o que procuramos, ou seja, o nosso olhar sobre os outros é decisivo. Não é o que ele é, mas o que eu vejo, ou como vejo. A mesma pessoa pode ser vista de maneira diferente, pela mesma pessoa em ocasiões diferentes, ou com disposições diferentes, ou ser vista de maneira diferente por duas pessoas diferentes. O nosso olhar, e tudo o que está por detrás deste nosso olhar, é que nos define quem é o outro. Pode ser criminoso e podemos conseguir ver uma pessoa humana, sensível, amável. Pode ser um santo e nós vermos nessa santidade apenas farsa, cinismo.

Precisamos de nos olhar nos olhos, olhos nos olhos, face a face, rosto que irrompe pela nossa vida, e que nos interpela, nos desafia.
Precisamos do olhar do outro para nos sentirmos gente.
Os outros precisam do nosso olhar para se sentirem gente.
Há olhares que salvam, que protegem, que envolvem, que desafiam, que promovem, que resgatam, que elevam, que nos orientam para o futuro, para Deus.
Há um pequeno vídeo que está disponível na internet sobre uma criança que chora, esperneia, porque os pais (ou algum outro familiar), o estão a ver. Logo que o seu campo de visão deixa de ver os familiares, ele cala-se, levanta-se, à procura deles. Logo que volta a vê-los deita-se ao chão e começa a fazer fitas.
Diz bem da realidade.
Precisamos de ver e de ser vistos. Ou traduzindo: precisamos de amar e ser amados e de nos sentirmos amados/olhados.

Se alguém já teve contacto com as galinhas, sucede um pouco como nas pessoas. A galinha põe o ovo, e fica a cacarejar até que o/a dono/a vai ao seu encontro e tira o ovo do galinheiro, a galinha sossega, pois viu aquele que o alimenta.

"Todos buscamos nos olhos do outro a evidência de que existimos, a certeza de que sabemos amar, de que somos capazes de relações verdadeiras, a garantia de que temos valor para alguém, de que merecemos atenção, interesse, talvez amor. Quem, pelo contrário, está sozinho é levado até a duvidar de si mesmo" (ERMES RONCHI, Os Beijos não dados. Tu és a Beleza. A amizade é a mais importante viagem. Paulinas 2012.)

No Evangelho sobressai, em muitas ocasiões, o olhar de Jesus, que acolhe, que perdoa, que desafia, que salva. Olha para a multidão, olha em redor, fita o seu olhar, deste e daquele. Olha para Pedro no momento da negação. Olhar para Judas. Pedro acolhe o olhar do Mestre e arrepende-se. Judas foge ao olhar de Jesus, não por falta de confiança no amor e no perdão do Mestre, mas por vergonha, deixa que esta seja mais forte que o olhar de Jesus.
Jesus olha para Sua Mãe, nas Bodas de Canaã e no alto da Cruz: viu a Sua Mãe e ao pé dela viu o discípulo amado.
Olha para Zaqueu e nesse olhar dá-se o encontro redentor. Zaqueu sente-se visto por Jesus e converte a sua vida.
Há olhares que matam.
Há olhares que salvam.
Há olhares que perdoam e transformam a vida.
Jesus olha para a mulher adúltera, mas também para aqueles que a queriam condenar. É um olhar de ternura, de compreensão, de redenção. Vai e não voltes a pecar.
Jesus olha para o alto, para Deus, constantemente, de onde Lhe vem a força e o alimento. E depois olha com o olhar do Pai para cada pessoa que se cruza no seu caminho. Procuremos que o nosso olhar seja purificado com o olhar de Deus, para nos reconhecermos como irmãos.

Célebre aquela página em que Jesus convida a equilibrar o nosso olhar: "Porque reparas no argueiro que está na vista do teu irmão, e não vês a trave que está na tua vista?" (Mt 7,3).

 

Faz lembrar uma pequena estória: uma vaca que só comia trevos de quatro folhas, para dar sorte. O dono procurava por todo o lado, sabendo da mania da sua vaca. Mas precisava dela para dar leite, e depois para vender por um bom preço. Pensou, pensou, pensou, pensou. Comprou uns óculos para a vaca e neles pintou um trevo de quatro folhas. A partir de então a vaca só via trevos de quatro folhas e comia regalada. Muitas vezes a realidade que nos circunda é valorizada conforme o nosso olhar, depende dos óculos que usamos. De nosso, olhar com o olhar de Deus.

Há olhares que salvam.
Há olhares que matam.
Olhar envergonhado, olhar maldoso, olhar perverso e manhoso, olhar desconfiado, olhar cínico.
Olhar de desafio e de compaixão. Olhar de ternura, da mãe para o filho e dos filhos para os pais.
Olhar apaixonado e fresco de namorados e o olhar cansado, que se desvia e esconde, de tantos relacionamentos que a falta de atenção, de diálogo e de compreensão, mortificaram.
Há olhares de sofrimento, na dor da perda e do desencanto da vida e de tantos desencontros.
Há olhares que acolhem, serenos, meigos, atentos, vigilantes, envolventes.
E há olhares gastos pelo tempo e pelas agruras da vida.
Há olhares que se escondem, como diria a Mafalda Veiga, para não ver, para não vermos o que um dia havemos de ser, e passa ao lado...
Há olhares de gratidão e olhares de traição.
Há olhares que salvam.
Há olhares que matam.
E destroem, aniquilam, escravizam, humilham.
Os olhos são o que são as almas e as pessoas. Também aqui, a parte vale pelo todo, o olhar, mas sobretudo a pessoa que olha.

Há olhares que salvam, resgatam, puxam para a realidade.
E no olhar de outro(s) me encontro, descubro, "crio" a minha identidade. Não somos ilhas. Precisamos que nos vejam e nos descubram. Precisamos de retribuir o olhar, e também dessa forma nos sentimos vivos. Somos nós, porque estamos perante os outros e perante Deus. Como seria se não houvesse mais ninguém para nos ver? Morreríamos, ou deixávamos de ser humanos.

Há olhares de perdão e de súplica (pedindo ajuda, ou pedindo perdão).
Há olhares esfomeados/famintos. Há olhares melancólicos e olhares sem vida, sem expressão.

O olhar do outro pode ser a minha casa. Relembramos o filósofo francês, E. Levinas, o rosto, onde se encontra o olhar, é essencial, o face a face, um diante do outro. Estar diante do outro, ou o outro diante de mim, em que o rosto, o olhar se torna reconhecimento, apelo, desafio. No olhar o mandamento: não matarás. O outro vem até mim. No olhar do outro posso encontrar-me no melhor que sou, ou no que em mim há de negro. O olhar do outro potencia o que eu sou e o que eu faço. Ainda, do mesmo jeito, dependa muito do meu olhar, como me deixo olhar, como vejo os outros, como me vejo a mim.

E muito mais se pode dizer do olhar.
Que o nosso seja, como o de Jesus, ou como o de Maria, um olhar que resgata, que acolhe, que observa atentamente as necessidades do outro, e que salva.

04.06.10

Olhar sobre os outros...

mpgpadre

       O ancião descansava sentado num velho banco à sombra de uma árvore, quando foi abordado pelo motorista de um automóvel que estacionou a seu lado:
       - Bom dia!
       - Bom dia! Respondeu o ancião.
       - O senhor mora aqui?
       - Sim, há muitos anos...
       - Venho de mudança com a minha família e gostaria de saber como é o povo daqui. Como o senhor vive aqui há tanto tempo deve conhecê-lo muito bem.
       - É verdade, falou o ancião. Mas por favor, me fale antes da cidade de onde vem.
       - Ah! É óptima. Maravilhosa! Gente boa, fraterna... Eu e minha família fizemos lá muitos amigos. Só a deixei por imperativos da profissão.
       - Pois bem, meu filho. Esta cidade é exactamente igual. Vai gostar daqui.
       O forasteiro agradeceu e partiu.
       Minutos depois apareceu outro motorista e também se dirigiu ao ancião:
       - Estou chegando para morar com minha família aqui. O que me diz do lugar?
       O ancião lançou-lhe a mesma pergunta:
       - Como é a cidade de onde vem?
       - Horrível! Povo orgulhoso, cheio de preconceitos, arrogante! Não fiz um único amigo naquele lugar horroroso!
       - Sinto muito, meu filho, pois aqui você encontrará o mesmo ambiente...
       Todos vemos no mundo, nas pessoas e na família algo do que somos, do que pensamos, de nossa maneira de ser.
       Se somos nervosos, agressivos ou pessimistas, veremos tudo pela ótica de nossas tendências, imaginando conviver com gente assim.
       Em outras palavras, o mundo, a cidade, a família tem a cor que lhe damos através das nossas lentes.
       Se nossas lentes estão escurecidas pelo pessimismo, tudo à nossa volta nos parecerá escuro.
       Tudo, para nós, parecerá constantemente envolto em trevas.
       Se nossas lentes estão turvadas pelo desânimo, o universo que nos rodeia se apresenta desesperador.
       Mas, se ao contrário, nossas lentes estão clarificadas pelo otimismo, sentiremos que em todas as situações há aspectos positivos.
       Se o entusiasmo é o detergente das nossas lentes, perceberemos a vida em variados matizes de luzes e cores.
       A cor do mundo, da cidade e da família, portanto, depende da nossa ótica.
       O exterior estará sempre refletindo o que levamos no interior!
       Que possamos olhar na ótica de Deus e não do mundo!

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