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Escolhas & Percursos

...espaço de discussão, de formação, de cultura, de curiosidades, de interacção. Poderemos estar mais próximos. Deus seja a nossa Esperança e a nossa Alegria...

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28.10.18

Vai: a tua fé te salvou

mpgpadre

1 – Há um homem à beira do caminho que não vê! Somos homens e mulheres que muitas vezes cerramos os olhos para não ver. Há um homem na estrada de Jericó que quer muito ver! Nas estradas do nosso tempo há um mar de gente à beira do caminho, à espera de uma mão, de um olhar, de alguém que passe e vá devagar! Naquela estrada e naquele tempo, há um homem a clamar, a chamar por Jesus que vai a passar. E ainda hoje, há tanta gente cansada de gritar, de procurar, de esperar; tanta gente sem vez nem voz, sem ver além do imediato, a tentar sobreviver.

Aquele homem tem nome, Bartimeu, filho de Timeu, e pede esmola a quem passa. Existem hoje muitas pessoas a pedir esmola, anónimos, que contam apenas para a estatística. Já não têm nome, são um número. Mas aquele homem tem nome, os homens e as mulheres que estão à beira do caminho, fora da estrada, excluídos da cidade, nas periferias da vida, também têm rosto, também têm nome. Têm de contar como pessoas, e não apenas para a percentagem.

É por Jesus que Bartimeu clama, gritando cada vez mais: «Filho de David, tem piedade de mim».

Há discípulos e há uma grande multidão. E há Jesus. E tu e eu! E Bartimeu! Ele chama por Jesus. Alguns incomodam-se com aquela voz, com aquela gritaria e repreendem-no, querem que se cale. Também hoje há quem silencie o pobre, o pedinte, o justo e se afaste para não ouvir, desviando o olhar para não ver. Eu, tu e Bartimeu, e Jesus!

Jesus pára, ouve e compromete-nos: chamai-o. A vista, a voz e o andar para que servem se não forem para ver os outros, para ouvir os seus clamores, para nos encaminharem ao seu encontro? Então ponhamo-nos em movimento e encaminhemos outros para Jesus: «Coragem! Levanta-te, que Ele está a chamar-te». E já sabemos como fazer: pela voz e pela vida, com palavras e com obras.

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2 – Aquele homem, Bartimeu, posso ser eu, podes ser tu! Umas vezes cegos, outras vezes com vontade de ver. Mais cegos são os que não querem ver e ativamente se recusam a olhar para os outros, a ouvir os seus apelos e a confrontar-se com as suas dificuldades. Senhor, "quando foi que te vimos com fome, ou com sede, ou peregrino, ou nu, ou doente, ou na prisão, e não te socorremos?" A resposta clarifica a nossa falta de visão: «sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer».

Bartimeu ouviu dizer que Jesus passava por ali e decide-se. Senhor, tem piedade de Mim. Está disposto a ver Jesus, quer ver Jesus, quer ver como Jesus. Esta vontade firme é meio caminho andado para Jesus. Com efeito, o cego, diz-nos o evangelista, atirou fora a capa e tudo o que lhe pesava do passado, deu um salto, libertando-se de qualquer amarra, antes que pudesse voltar atrás, e foi ter com Jesus. A resposta de Jesus é muito curiosa: «Vai: a tua fé te salvou». Poderíamos esperar que Jesus lhe dissesse: Vê. Mas Jesus diz-lhe "Vai". O caminho faz-se caminhando. Parados não vemos nada. Ensimesmados, o nosso olhar adoece e morre.

O encontro com Jesus devolve-nos a vista, dá-nos um olhar novo. Depois cabe-nos segui-l'O. Bartimeu recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho. Além da cura física, importa a cura que nos devolve a humanidade e nos conduz a Jesus, nos envolve na fraternidade, tornando-nos ágeis para servir e amar, sem pausas nem reservas.

 

3 – Como cristãos, discípulos missionários de Jesus, temos a missão transportar a alegria da Boa Nova: Deus ama-nos como Pai e mais como Mãe, e, de tanto nos amar, nos deu o Seu Filho único, que faz da Sua vida uma constante de entrega, gastando-Se para nos redimir, para nos inserir na vida divina, para nos garantir, de uma vez para sempre, uma morada junto do Pai.

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Textos para a Eucaristia (ano B): Jer 31, 7-9; Sl 125 (126); Hebr 5, 1-6; Mc 10, 46-52.

 

REFLEXÃO DOMINICAL COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

08.09.18

Então se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos

mpgpadre

1 – O encontro com Jesus há de libertar-nos de todo o mal, abrir-nos os ouvidos, escutando-O, desprendendo-se-nos a língua, para O anunciarmos em toda a parte, com a nossa vida toda. Às vezes fazemos ouvidos de mercador. Outras vezes silenciamos a nossa voz para não nos chatearmos, outras fazemos coro para não acharem que nos achamos melhores! Precisamos de nos aproximar constantemente de Jesus Cristo para nos deixarmos tocar pelo Seu Espírito de amor.

Vivemos numa época de excesso de informação. Notícias, fofocas, ruído, maledicência, insinuações… Ouvimos muito. Muitas pessoas. Muitas vozes. Mas de tudo o que ouvimos, o que é que retemos, o que é influencia (positivamente) a nossa vida? Ouvimos muito, mas escutamos pouco! A escuta pressupõe atenção, silêncio, sobretudo interior, aceitação e compreensão!

Quando queremos que alguém nos compreenda, por alguma coisa que dissemos ou fizemos menos justa, dizemos-lhe que tente pôr-se no nosso lugar. Do mesmo modo, devemos fazê-lo em relação aos outros. A escuta aproxima-nos. Até fisicamente. Se alguém está a falar e queremos escutar, tentamos que nenhum outro ruído atrapalhe ou que a distância dificulte a audição. Se a pessoa está perto e a falar baixo: pedimos que repita uma e outra vez, aproximamos os ouvidos, ou aquele com que ouvimos melhor, para não perdemos nenhuma palavra. Assim também quando queremos que nos escutem, aproximamo-nos, aclaramos a voz, esperamos que não haja muito ruído para falar! É este o exercício que nos cabe em relação a Jesus.

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2 – Deus criou-nos por amor. O amor deseja o bem do outro. Se Deus nos criou por amor, Deus quer-nos bem. Como um Pai, como uma Mãe, Deus quer a nossa felicidade. Em todos os aspetos da vida. Em situações de doença grave e/ou crónica, é comum ouvirmos diz que é a vontade de Deus. Deus quer assim, que é que se há de fazer?! Em Jesus, vê-se bem que Deus não quer assim, Deus quer para nós todo o bem. Porém, a vida, a nossa vida é finita, frágil, mortal. Nem tudo é como desejaríamos! A vida depende de nós, mas depende de outros e dos fatores que nos envolvem, muitos dos quais não controlamos. Não somos deuses! Somos humanos.

Trazem a Jesus um surdo que mal podia falar e suplicam-Lhe que imponha as mãos sobre ele. Encontramos pessoas no nosso caminho que nos encaminham para quem nos pode ajudar. Também nós podemos e devemos exercer esta missão, ajudar ou encaminhar para quem o pode fazer. Como cristãos cabe-nos, pessoal e comunitariamente, conduzir os outros a Jesus, falando d'Ele, apresentando-O, criando as circunstâncias para que Ele Se torne visível e acessível.

O bem tem luz própria. Claro que vivemos num tempo em que o mal tem honras de primeira página, será bom que as boas notícias sejam visíveis, contrabalançado com a esperança no amanhã e com a confiança na bondade das pessoas, certeza que nem tudo está perdido.

Jesus afasta-Se da multidão. O Seu desejo não é fazer um espetáculo, mas atender aquele surdo-mudo. Mete-lhe os dedos nos ouvidos e com saliva toca-lhe a língua, erguendo os olhos ao Céu. A cura não é automática, exige oração, tempo, perseverança. exige de nós, ligando-nos aos outros. Bem sabemos como a carícia, o beijo, o toque tem poderes curativos, pois faz-nos sentir vivos!

 

3 – Maria ensina-nos a escutar com o coração. Percebe a chegada do Anjo e as palavras que este lhe dirige. E responde da mesma forma, com o coração, com vida: Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra. E depois convoca-nos a todos: Fazei tudo o que Ele vos disser!

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Textos para a Eucaristia (ano B): Is 35, 4-7a; Sl 145; Tg 2, 1-5; Mc 7, 31-37.

 

REFLEXÃO DOMINICAL COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

 

28.07.18

Está aqui um rapazito com 5 pães de cevada e 2 peixes. Mas que é isso para tanta gente?

mpgpadre

1 – O bem faz milagres e centuplica-se. O que se partilha, mesmo que pouco, dá para muitos! A docilidade e delicadeza de Jesus hão de mover-nos para a bondade para com todos, para que as palavras e os gestos produzam a abundância da ajuda e da partilha.

Na semana passada víamos como Jesus atende à necessidade de descanso dos Seus discípulos e logo dá atenção à multidão. Hoje o mesmo enfoque do cuidado, da atenção, da proximidade de Jesus e da Sua resposta pronta às necessidades da multidão que se aproxima ora para O escutar, ora por ver os milagres que Ele fazia, por curiosidade ou arrastados pelos amigos e vizinhos. As multidões que vão a Fátima ou que vão ao encontro do Papa são movidas por diferentes razões, algumas vão quase por desporto ou para manter a linha, mas pode acontecer que Deus lhes dê a volta!

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2 – «Onde havemos de comprar pão para lhes dar de comer?». Os discípulos vão-se apercebendo que não podem lavar as mãos diante dos contratempos. Perante as dúvidas – «Duzentos denários de pão não chegam para dar um bocadinho a cada um» – a ordem de Jesus é clara: «Dai-lhes vós mesmos de comer» (Mt 14, 16).

Os discípulos fazem as contas. As possibilidades são diminutas! Nem dinheiro nem pão suficiente, como se vê pela intervenção de André: «Está aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?». Os discípulos fazem sobretudo um diagnóstico, fixam-se nos problemas. Também nos acontece por vezes! Jesus procura respostas, aponta caminhos possíveis: «Mandai-os sentar». É tarefa que também nos cabe!

Jesus faz o que está ao Seu alcance. Toma os pães e os peixes, dá graças e distribui-os pelos 5 mil homens (além das mulheres e das crianças). Comeram quanto quiseram. Todos ficaram saciados. Por fim, Jesus manda que se recolha o que sobrou para que nada se perca. As sobras, com os bocados dos pães de cevada, deram para encher 12 cestos. Abundância da multiplicação ou da partilha? Sobressai a certeza que com Cristo o alimento se multiplicará, sobejando em abundância. Dará para todos os presentes e para os que venham depois!

 

3 – O milagre da multiplicação continua a produzir-se na atualidade! Falta o milagre da partilha.

Jesus faz o que está ao Seu alcance. E nós?

Como discípulos deste tempo temos em mão a tarefa de distribuir o pão que Deus nos dá em abundância.

Num primeiro momento vemos que os discípulos procuram situar Jesus diante dos obstáculos. A seguir, Jesus coloca-os, e a nós também, diante do compromisso com os outros, procurando respostas. André olha em volta e vê que há um rapazito que tem alguns pães (5) e alguns peixes (2), ainda que não perceba que já é uma ajuda enorme. Tendo em conta a simbologia hebraica, o 7 é o número da perfeição, da plenitude. Têm o que é necessário para agir.

Mas não termina ali o trabalho dos discípulos. Eles são responsáveis por levar a Jesus o jovem rapaz com os pães e os peixes. Subentende-se que serão eles a distribuir os pães e os peixes pela multidão. Nota evidenciada nos evangelhos sinóticos. E depois de todos estarem saciados, sãos os discípulos que recolhem o que sobrou, para que nada se perca!

Ao longo do tempo, muitos se debruçaram sobre estes milagres da multiplicação dos pães, uns fixando-se mais no milagre da multiplicação, outros sobretudo no milagre da partilha. Mas seja qual for a acentuação, o milagre existe, sendo que é mais difícil a partilha que a multiplicação.

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Textos para a Eucaristia (ano B): 2 Reis 4, 42-44; Sl 144 (145); Ef 4, 1-6; Jo 6, 1-15.

 

REFLEXÃO DOMINICAL COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

 

30.06.18

Se eu, ao menos, tocar nas suas vestes, ficarei curada

mpgpadre

1 – A vida de Jesus transparece o amor de Deus e a Sua ternura! Toda a vida de Jesus é um hino de louvor ao Pai e identificação com a humanidade, nos seus sonhos e nos seus sofrimentos.

Jesus passa à outra margem. O Filho do Homem está em movimento! Vem ao nosso encontro. Sai de uma para a outra margem, onde se junta uma grande multidão.

O Papa Francisco, em mais de uma ocasião, tem desafiado os pastores a terem o cheiro das ovelhas. Jesus está no meio de nós como quem serve! A Sua fama espalhara-se! As pessoas reconhecem-n'O. Prevalece a certeza da Sua bondade e delicadeza, da Sua atenção aos mais pobres, aos mais frágeis, aos excluídos da sociedade.

No evangelho, dois encontros inesperados, duas pessoas com estatuto social diverso, um homem e uma mulher. Jairo, bem conhecido de todos, pois é um dos chefes da Sinagoga, e procura uma resposta para a sua filha enferma. E uma mulher, desconhecida, que engrossa a multidão e (quase) não se distingue dos demais. Como outras mulheres naquela época, o seu lugar é o anonimato!

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2 – A multidão absorve e pode fazer esquecer a pessoa como pessoa. Vejam-se os ajuntamentos, os grupos, as manifestações! Para o bem e para o mal, a multidão sanciona comportamentos, reforça atitudes, desculpa e/ou disfarça o que corre mal.

Jairo destaca-se da multidão, porque chega, não estava na multidão, aproxima-se de Jesus, cai aos seus pés e suplica-Lhe:  «A minha filha está a morrer. Vem impor-lhe as mãos, para que se salve e viva». Jesus segue Jairo para se inteirar do que se passa e poder agir em conformidade.

Entretanto vêm avisar Jairo que a filha tinha morrido. O que este pai temia aconteceu! A reação da multidão é espontaneamente fria: «A tua filha morreu. Porque estás ainda a importunar o Mestre?». Contudo, Jesus não se esconde atrás da multidão e diz-lhe que basta ter fé. Pedro, Tiago e João acompanham-n'O a casa de Jairo. Chegados aí encontram grande alvoroço com pessoas a gritar e a chorar. Jesus serena os presentes dizendo-lhes que a menina está apenas a dormir. Jesus usa as palavras da ressurreição: «Talita Kum – Menina, Eu te ordeno: Levanta-te».

E a menina ergueu-se, ressuscitada. Jesus é homem como nós, mas é também verdadeiro Deus. Mais uma vez mostra ao que vem: salvar, redimir, ressuscitar, dar-nos nova vida.

 

3 – De partida para casa de Jairo, uma mulher aproxima-se de Jesus, por entre os apertos da multidão, toca-Lhe o manto e sente-se curada de um fluxo de sangue que a atormentava há vários anos. Não nos é revelado o nome, mas esta mulher tem rosto e tem uma história de sofrimento que carrega há muito. Gastou os seus bens à procura de cura. Quantas pessoas passam pelo mesmo? Recorrem a tudo e mais alguma coisa, ora com esperança ora cansadas de lutar. Gastam balúrdios e gastam-se e, em muitas situações, inutilmente. A fé pode ser essa força que nos anima, nos fortalece e não nos deixa desistir.

Para lá da doença física, a impureza cultual e o afastamento do contacto humano e social. A lei era explícita: «Quando uma mulher tiver o fluxo de sangue que corre do seu corpo, permanecerá durante sete dias na sua impureza… Quem tocar nalguma coisa que estiver sobre a cama ou sobre o móvel em que ela se sentou, ficará impuro até à tarde… Quando uma mulher tiver um fluxo de sangue durante vários dias, fora do tempo normal de impureza, isto é, se o fluxo se prolongar para além do tempo da sua impureza, ficará impura durante todo o tempo desse fluxo…» (Lv 15, 19-25).

Entenda-se, é uma impureza cultual e não uma impureza moral. No caso presente, é um fluxo de sangue que perdura há muito. É um estigma religioso e social. Jesus poderá ser a última oportunidade: «Se eu, ao menos, tocar nas suas vestes, ficarei curada». Aproxima-se discretamente, não quer ser denunciada. Basta o que tem sofrido. De Jesus emana uma força que salva, que acolhe, que cura, que inclui, que devolve a dignidade. «Minha filha, a tua fé te salvou». A força da cura sai de Jesus, mas advém também da fé desta mulher.

Jesus vê, sente, percebe esta mulher por entre uma multidão aos encontrões, para surpresa dos Seus discípulos: «Vês a multidão que Te aperta e perguntas: ‘Quem Me tocou?’».

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Textos para a Eucaristia (ano B):

Sab 1, 13-15; 2, 23-24; Sl 29 (30): 2 Cor 8, 7. 9.13-15; Mc 5, 21-43.

 

REFLEXÃO DOMINICAL COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

19.08.17

Socorre-me, Senhor

mpgpadre

1 – A Palavra de Deus deve iluminar a realidade concreta, apontando caminhos, comprometendo os cristãos que a escutam. Hoje, vendo como Jesus lida com "os outros" que não pertencem ao povo judeu, sugere-me que partamos do momento que se avizinha em Portugal: a campanha eleitoral para as eleições autárquicas.

Vale a pena repescar as palavras do Papa Francisco: «Envolver-se na política é uma obrigação para um cristão... os cristãos não podem fazer de Pilatos, lavar as mãos... Devemos implicar-nos na política, porque a política é uma das formas mais elevadas da caridade, visto que procura o bem comum... Os leigos cristãos devem trabalhar na política. Dir-me-ão: não é fácil... A política é demasiado suja, mas é suja porque os cristãos não se implicaram com o espírito evangélico. É fácil atirar culpas... mas eu, que faço? Trabalhar para o bem comum é dever de cristão».

A política é coisa boa. É o cuidado da polis (= cidade), o serviço aos cidadãos. É um elevado serviço de caridade quando procura o bem comum (não o bem individual, particular, privado, ainda que se exprima no serviço a pessoas concretas), o bem de todos, discutindo ideias e projetos para melhorar a vida das pessoas.

Infelizmente, muitas vezes vemos discutir pessoas e não projetos. "Nós fizemos", "Nós prometemos", "Eles não cumpriram", "Nós vamos cumprir"... O nosso grupo tem todas as qualidades... os outros são falsos, mentirosos, maus... E, no final, o que importa é favorecer os que nos ajudaram na eleição, os outros que aguardem mais quatro anos ou então que nos tivessem apoiado!

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 2 – Os discípulos de Jesus vivem (ainda) nesta dinâmica: o nosso grupo, os nossos, os que andam connosco. O Messias de Deus é nosso, pertence-nos, temos o exclusivo. Os milagres que fizer hão de beneficiar os nossos, os do nosso povo. As palavras que Ele disser são-nos dirigidas, a não ser que sejam para maldizer os outros, os estrangeiros, os que estão para lá do nosso grupo.

Contrariamente ao que seria expectável, Jesus mantém-se em silêncio (exterior) diante da investida desta mulher: «Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim. Minha filha está cruelmente atormentada por um demónio».

Os discípulos estranham a posição do Mestre. Esta mulher tudo fará para reaver o filho, para o reconquistar para a vida. Sujeita-se ao ridículo, a ser olhada de esguelha, sujeita-se a uma humilhação pública. Mas que lhe importa? O importante é a saúde e a vida do filho. Até pode morrer, mas que o filho seja salvo! Os discípulos parecem incomodar-se mais com a sua gritaria do que com o seu sofrimento!

 

3 – Na resposta aos discípulos, Jesus diz-lhes que não foi enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel. Porém, esta Mãe não desiste e insiste, prostrando-se aos pés de Jesus: «Socorre-me, Senhor». Parece que Jesus não se comove! O que contraria o que está contido nos Evangelhos: a Sua delicadeza e proximidade às pessoas mais frágeis, pobres, doentes, mulheres, crianças, publicanos e pecadores! Então que se passa com a reação de Jesus? Assume a nossa postura para que nós nos ponhamos do lado de quem sofre e assumamos a Sua postura: amor ao serviço dos mais desfavorecidos.

Convertamos em pergunta a resposta dada por Jesus àquela Mulher: "Será justo tomar o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos?". Entramos na pedagogia de Jesus que nos desafia. A Mulher cananeia ajuda-nos a responder ao questionamento de Jesus: «É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos».

Jesus mostra que a salvação não se destina a um grupo ou a um povo, mas destina-se a todos. A fé é a única exigência para a cura, para a redenção. Fé que se torna humildade diante de Deus e predisposição para acolher o Seu amor, o Seu perdão e a Sua cura. É na fé amadurecida desta mulher que Jesus opera a cura da sua filha.


Textos para a Eucaristia (ano A):  Ap 11, 19a; 12, 1-6a. 10ab; Sl 44 (45); 1 Cor 15, 20-27; Lc 1, 39-5.
 

25.03.17

Enquanto Eu estou no mundo, sou a luz do mundo

mpgpadre

1 – Domingo da Alegria e da luz, da unção e da vida nova trespassada, presença de Deus na minha e na tua vida. Deserto e tentações, pão e palavra de Deus. Montanha e altura, Jesus e apóstolos, vislumbre da eternidade, luz vinda do Céu. Sede e água, Samaritana e Água Viva que é Jesus e um alimento maior que toda a fome.

Mais forte que toda a cegueira, a Luz de Cristo, que nos eleva para Deus e nos faz reconhecer os outros como irmãos. É conhecida a estória do sábio que pergunta aos seus discípulos qual o momento exato em que a noite dá lugar ao dia. Respostas: quando conseguimos ver o chão que pisamos, quando distinguimos as pessoas das árvores, quando surge o primeiro raio de sol no horizonte! Passa a ser dia, conclui o sábio, no momento em que olhamos para os outros e os reconhecemos como irmãos.

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2 – Jesus encontrou um cego de nascença. Neste encontro a proximidade de Jesus e a distância dos seus discípulos. Se ele está cego, alguma coisa fez de errado. Ou ele ou os pais. Infelizmente, ainda na atualidade, o obscurantismo da fé é gigante, manifestando falsa resignação: foi Deus que quis, paciência! Como se Deus quisesse o nosso mal, como se um Pai tivesse gosto em ver os filhos a sofrer.

Jesus não se interroga nem explica esta fragilidade, simplesmente intervém para curar, para salvar, para sanar todo o mal. «É preciso trabalhar, enquanto é dia, nas obras d’Aquele que Me enviou. Vai chegar a noite, em que ninguém pode trabalhar. Enquanto Eu estou no mundo, sou a luz do mundo».

Para os judeus, e para muitos de nós, a cegueira é sinal de maldição de Deus. Este homem é desprezado e excluído . Não bastava a falta de vista quanto mais a exclusão social e religiosa. Jesus inclui-o. Não de forma mágica, mas com o poder de Deus e a unção da terra e da vida (terra e saliva), e com a água que lava e purifica.

 

3 – Diante do assombro, o medo ou a conversão, a maledicência ou o silêncio, a indiferença ou o testemunho, a negação e o cinismo ou a abertura ao mistério. Mais cego é aquele que não quer ver.

O cego de nascença foi curado. Os vizinhos e os que o tinham visto a mendigar interrogam-se e interrogam-no, incrédulos, atónitos.

Entram em cena os fariseus e o preconceito. Por todas as formas tentam desacreditar o milagre, mas como são muitas as pessoas que conheciam o cego de nascença e testemunham a cura, arranjam outra desculpa para não aceitarem Jesus. Afinal, Ele curou o cego, mas em dia de sábado! O mal passa a ser o dia da cura. Não querem ver e portanto arranjam desculpas como aqueles que não vão à Missa e justificam-se dizendo que os que lá vão são piores!

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4 – A cura é um primeiro passo, a conversão vem a seguir é mais demorada, leva uma vida inteira. Na maioria das vezes Jesus exige a fé (prévia) para intervir curando. No relato desta cura não se faz qualquer referência à fé deste homem. Deus toma a iniciativa e a Sua misericórdia ultrapassa a nossa vontade. Cabe-nos acolher ou recusar a Sua bondade e Suas maravilhas.

Tendo conhecimento do que os fariseus e doutores da Lei fizeram a este homem, Jesus veio ao seu encontro e, então sim, desafia-o à fé: «Tu acreditas no Filho do homem?». A fé é muito mais que um conjunto de ideias, ainda que credíveis, a fé é um encontro. Deus vem ao nosso encontro e em Jesus Cristo encontra-nos no nosso peregrinar, no nosso caminho. A fé decide-se diante Jesus: «Eu vim a este mundo para exercer um juízo: os que não veem ficarão a ver; os que veem ficarão cegos».


Textos para a Eucaristia (A): 1 Sam 16, 1b. 6-7. 10-13a; Sl 22 (23); Ef 5, 8-14; Jo 9, 1-41.

 

REFLEXÃO DOMINICAL COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

e no nosso outro blogue CARITAS IN VERITATE 

28.05.16

Digo-vos que nem mesmo em Israel encontrei tão grande fé

mpgpadre

1 – A humildade encaminha-nos para a felicidade. Coloca-nos na rota da salvação. Abre-nos aos outros e a Deus. Possibilita a comunicação. Cimenta os laços de amizade e de ternura. Faz sobressair o melhor de nós, promovendo o melhor que os outros têm para nos dar.

A prepotência e o egoísmo encerram-nos num casulo. A humildade não se opõe à autoestima, benfazeja para uma vida saudável. A humildade opõe-se à soberba, à avareza e ao egoísmo, à autossuficiência e à ambição desmedida. A humildade faz-nos realistas e humanos. A nossa grandeza assenta na dignidade humana, seres únicos e irrepetíveis. Para os crentes, esta dignidade é fortalecida pela filiação divina, filhos amados de Deus e, portanto, irmãos. A humildade faz-nos reconhecer a nossa ligação aos outros, dando-nos a certeza que a felicidade se constrói com eles. Os outros não são, como pensava Sarte, o nosso inferno. Não. Os outros são a visita que Deus nos faz e que nos humaniza.

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2 – Um centurião recorre a Jesus a favor de um servo. Enviou anciãos judeus para intercederem junto de Jesus. Veja-se a dinâmica de intercessão: «Ele é digno de que lho concedas, pois estima a nossa gente e foi ele que nos construiu a sinagoga». Jesus não se faz rogado, não se desculpa, não olha para agenda, parte e acompanha-os.

A postura deste homem é admirável. Intercede por um servo! Por um filho, entende-se, agora por um servo, quando tem os que quer?! Por outro lado, apela a um judeu, professando outra religião, e nem ousa usar da sua posição social para chegar a Jesus ou para negociar com Ele. Pede aos anciãos. Num segundo momento, quando Jesus já está perto, envia-Lhe alguns amigos, com o seu pedido: «Não Te incomodes, Senhor, pois não mereço que entres em minha casa, nem me julguei digno de ir ter contigo. Mas diz uma palavra e o meu servo será curado. Porque também eu, que sou um subalterno, tenho soldados sob as minhas ordens. Digo a um: ‘Vai’ e ele vai, e a outro: ‘Vem’ e ele vem, e ao meu servo: ‘Faz isto’ e ele faz».

O posto que ocupava coloca-o "acima" e "à parte" dos simples mortais. Porém, o que vemos é diferente. É um homem bom. É "inimigo" dos judeus, mas ajuda-os. Não se sente digno de ir ao encontro de Jesus. Confia essa missão aos seus amigos.

Ao ouvir as palavras que Lhe trazem do centurião, Jesus sente admiração por ele: «Digo-vos que nem mesmo em Israel encontrei tão grande fé». Mais que de humildade, trata-se de fé. A fé faz sobressair o melhor de nós e dos outros. A fé converte-nos, torna-nos humildes, faz-nos cuidar dos outros como irmãos. A verdadeira e genuína humildade nasce, cresce e alimenta-se da fé.

"Ao regressarem a casa, os enviados encontraram o servo de perfeita saúde".

 

3 – Na verdade, a fé genuína radica em Cristo morto e ressuscitado e faz-nos humildes, solidários, leva-nos a ultrapassar qualquer barreira social, política, religiosa. O Centurião é estrangeiro, mas a sua fé aproxima-o de Jesus e dos seus servos.

Na primeira leitura, escutámos a oração de Salomão a favor dos estrangeiros. Para Deus não há fronteiras. Todo-poderoso, o Seu maior poder é fazer-Se do nosso tamanho, só assim O poderemos ver, encontrar, compreender. Só assim O podemos seguir. Tão pequeno que Se deixa ver, Se deixa amar, se deixa prender, perseguir e Se deixa matar às nossas mãos. Tão concreto que nos permite negá-l'O ou recusá-l'O. Salomão prepara o seu povo, aliás, o povo de Deus, para ser instrumento de salvação e lugar de acolhimento para todos, luz para todas as nações…

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Textos para a Eucaristia (C): 1 Reis 8, 41-43; Sl 116 (117); Gal 1, 1-2. 6-10; Lc 7, 1-10.

 

REFLEXÃO DOMINICAL COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

e no nosso outro blogue CARITAS IN VERITATE

24.10.15

Que queres que Eu te faça? | Mestre, que eu veja.

mpgpadre

1 – O CAMINHO de Jesus constrói-se em movimento. São Marcos mostra como Jesus avança, progredindo na Mensagem, aprofundando as temáticas, exigindo cada vez mais e de forma mais clarividente. Vai ganhando CONFIANÇA, que Lhe vem de Deus, mas que testa no encontro com as multidões e com os discípulos.

O Evangelho de Marcos possibilita a reflexão à volta do segredo messiânico. Jesus realiza prodígios, revela pouco a pouco a Sua identidade, mas pede "segredo" – não digais nada a ninguém. É, segundo os estudiosos, uma criação literária do evangelista para nos envolver na revelação (progressiva) de Jesus como Filho de Deus, o que só acontecerá plenamente na Ressurreição, cuja luz eliminará as dúvidas e as trevas, mas que se desvela em diferentes momentos. Jesus deixa-Se ver, deixa-Se tocar, deixa-Se acolher. Podemos segui-l’O.

Jesus segue o Seu CAMINHO a caminhar. À beira do caminho está um cego a pedir esmola. Um mal nunca vem só. Não basta ser cego ainda é pobre pedinte. À beira continuam muitos cegos, refugiados, doentes, idosos, pobres. Estão à beira, quase fora, alheados, excluídos. Não estão no caminho, porque se afastaram ou foram impedidos de entrar nele. O texto mostra as diferentes possibilidades.

A voz do cego faz-se ouvir: «Jesus, Filho de David, tem piedade de mim». Certamente que já tinha ouvido falar de Jesus.

Veja-se a dualidade da multidão. Por um lado, espalhou o "segredo" sobre Jesus. Por outro, afasta aquele homem, silencia-o. Muitos tentam calá-lo. “Não nos incomodes com os teus problemas!”

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2 – Adentremo-nos no CAMINHO de Jesus. Somos o cego que reconhece a sua insuficiência e suplica a Jesus pela cura? Somos a multidão que divulga os feitos do Messias? Ou, a multidão que afasta os outros de chegarem perto de Jesus? Damos testemunho ou tornamos opaca a presença de Deus na nossa vida?

Jesus mostra a delicadeza que devemos usar uns com os outros. A multidão não abafa a voz de Bartimeu. Jesus está atento a quem se abeira ou a quem está fora ou na margem do caminho. Se é necessário uma paragem ou um desvio, Jesus não hesita. É agora que Ele é necessário. Há quem precise d'Ele neste momento. Tudo o mais é relativo.

Manda chamar Bartimeu. Mais uma parábola para o nosso compromisso cristão. Também a nós Jesus nos diz: «Chamai-o». Ide e anunciai. Espalhai o Evangelho. Fazei discípulos de todas as nações. Ide à procura da ovelha perdida.

A multidão responde ao desafio de Jesus e anima-o: «Coragem! Levanta-te, que Ele está a chamar-te». Por vezes é necessário um pequeno impulso e depois tudo se facilita. É preciso que alguém inverta a tendência negativa. Jesus dá um passo, a multidão dá o seguinte.

E logo, "o cego atirou fora a capa, deu um salto e foi ter com Jesus". A cura já começara no momento em que este cego ouviu falar de Jesus. Quando soube que Jesus estava por perto fez tudo para se encontrar com Ele. Pergunta-lhe Jesus: «Que queres que Eu te faça?».

Para sermos curados precisamos, primeiramente, de ter consciência que estamos doentes e depois querermos ser curados. E o pedido é óbvio: «Mestre, que eu veja».

 

3 – «Vai: a tua fé te salvou». O cego – como bem lê o nosso Bispo, D. António Couto – pede para ver e Jesus envia-o: VAI. Estaríamos à espera que Jesus lhe dissesse: vê. Mas para ver precisa de IR, de andar, de caminhar, de se colocar em movimento, de sair do seu canto e partir ao encontro de Jesus. Também nós somos cegos quando não queremos ver, quando nos recusamos a caminhar em direção aos outros, quando nos fechamos, ensoberbecendo-nos.

Esta passagem ilustra a atitude para seguir Jesus. Antes, víamos os apóstolos a quererem um lugar ao lado de Jesus, sentados. Agora um cego, que está sentado, como sublinha D. António Couto, sentado e a pedir esmola, e que se LEVANTA para encontrar Jesus. A posição do discípulo é seguir Jesus, levantar-se, libertar-se de si e do que lhe pesa. Seguindo Jesus somos curados da nossa cegueira.

________________________

Textos para a Eucaristia (B): Jer 31, 7-9; Sl 125 (126); Hebr 5, 1-6; Mc 10, 46-52.

 

REFLEXÃO DOMINICAL COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

e no nosso outro blogue CARITAS IN VERITATE

05.09.15

O Senhor ilumina os olhos dos cegos, e levanta os abatidos,

mpgpadre

1 – Jesus Cristo vem para todos. O Reino de Deus não tem excluídos, a não ser aqueles que se autoexcluem. A opção preferencial pelos mais frágeis situa a urgência e a obrigação da inclusão…

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2 – A doença e a deficiência (mas também a pobreza material) facilitam a exclusão. Dos próprios, quando já não têm voz…  De todos, quando remetemos para outros a responsabilidade de ajudar…

Naquele tempo, um leproso, um coxo, um cego, um surdo, tinham o mesmo tratamento que um publicano, uma mulher adúltera, ou uma prostituta. A exclusão é semelhante. Se estes podem ter alguma responsabilidade pessoal, aqueles não. De recordar o episódio em que Jesus cura um cego de nascença e conclui que nem ele nem os pais tiveram culpa alguma, excluindo qualquer leitura moral (cf. Jo 9).

Em resposta aos emissários de João Batista, Jesus responde-lhes: «Ide contar a João o que vistes e ouvistes: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciado o Evangelho…» (Lc 7, 19-23).

Jesus vem de Deus para incluir, para salvar, para envolver. Não há nada que nos possa afastar do amor de Deus: nem a doença, nem a pobreza, nem o pecado, nem a raça ou a religião, nem a deficiência.

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3 – A multidão por vezes é um empecilho, impede-nos de ir onde queremos. Outras vezes é uma ajuda preciosa, guia-nos e ampara-nos. Trouxeram a Jesus um surdo que mal podia falar. Pedem-Lhe que imponha as mãos sobre ele. Jesus faz o que está ao Seu alcance. Afasta-Se com ele da multidão, mete-lhe os dedos nos ouvidos e com saliva toca-lhe a língua, ergue os olhos para Deus, e diz-lhe «Efatá», que quer dizer «Abre-te».

Jesus usa os sentidos. Aquela pessoa é surda e mal fala. Jesus aproxima-se dela ao máximo, tocando-lhe. Não é a magia a funcionar, é o toque humano que transforma, acolhendo, amando, salvando.

Os políticos, os atores, os mágicos precisam de quem aplauda. Jesus usa de discrição, no início e no fim, recomendando que não se conte nada a ninguém. Parece que este pedido, como quando se pede um segredo, não resultou o efeito pretendido, pois o feito é divulgado com assombro: «Tudo o que faz é admirável: faz que os surdos oiçam e que os mudos falem».

 

4 – A missão primeira de Jesus é o anúncio do Reino de Deus. As curas testemunham a Sua divindade. Porém, o grande milagre que Jesus opera é a conversão. Jesus é Deus connosco, que vem salvar-nos da surdez que nos impede de escutar os outros, da cegueira que nos impede de reconhecer os outros como irmãos.

Não é possível eliminar todo o mal, mas devemos eliminar o mal que nos é humanamente possível. Se existir alguma limitação que não é possível superar… Deus ama-nos, além das nossas limitações, do nosso pecado, das nossas insuficiências. Aceitar a nossa condição é meio caminho andado para a cura!

 

5 – Vale a pena concretizar os gestos e as palavras de Jesus com as recomendações de São Tiago. A fé em Jesus não admite aceção de pessoas. Mais um exemplo concreto: "Pode acontecer que na vossa assembleia entre um homem bem vestido e com anéis de ouro e entre também um pobre e mal vestido; talvez olheis para o homem bem vestido e lhe digais: «Tu, senta-te aqui em bom lugar», e ao pobre: «Tu, fica aí de pé», ou então: «Senta-te aí, abaixo do estrado dos meus pés». Não estareis a estabelecer distinções entre vós e a tornar-vos juízes com maus critérios? Escutai, meus caríssimos irmãos: Não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do reino que Ele prometeu àqueles que O amam?".

 

6 – A Virgem Mãe, cujo natal celebramos a 8 de setembro, vem ao mundo com esta missão de acolher Jesus e nos ensinar a acolher a Sua vontade – fazei o que Ele vos disser –, apressando o auxílio na Visitação e apressando a missão de Jesus, intercedendo a favor dos noivos de Caná da Galileia. Exemplo de inclusão e de intercessão!

_______________________

Textos para a Eucaristia (B): Is 35, 4-7a; Sl 145 (146); Tg 2, 1-5; Mc 7, 31-37.

 

REFLEXÃO DOMINCIAL COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

e no nosso outro blogue CARITAS IN VERITATE

08.08.15

Eu sou o pão que desceu do Céu

mpgpadre

1 – O murmúrio parece inevitável. Porque nos magoaram! Porque não merecemos o que nos fazem ou o que dizem de nós! Seja como for, o murmúrio não acrescenta nada à nossa vida.

E quando nos voltamos para Deus? Certamente que o fazemos porque O consideramos amigo. E os amigos "têm a obrigação" de nos compreender, de nos escutar e de agir a nosso favor. Quantas vezes a vida atraiçoa a nossa confiança e a nossa fé em Deus?!

Moisés leva a Deus o murmúrio do povo que privilegia o pão, o conforto, a segurança, à liberdade e confiança em Deus. Deus escuta e dá-lhes o Pão do Céu, provisório, pois o verdadeiro Pão descido do Céu é Jesus, do Qual nos alimentamos na Eucaristia até à vida eterna.

Os hebreus murmuraram na míngua de pão; os judeus, ao tempo de Jesus, murmuram por Ele ter dito: «Eu sou o pão que desceu do Céu», argumentando com o facto de conhecerem as suas origens (terrenas): «Não é Ele Jesus, o filho de José? Não conhecemos o seu pai e a sua mãe? Como é que Ele diz agora: ‘Eu desci do Céu’?».

 

2 – Vale a pena escutar por inteiro a resposta de Jesus:

«Não murmureis entre vós. Ninguém pode vir a Mim, se o Pai, não o trouxer; e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia… Quem acredita tem a vida eterna. Eu sou o pão da vida. No deserto, os vossos pais comeram o maná e morreram. Mas este pão é o que desce do Céu, para que não morra quem dele comer. Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que Eu hei de dar é a minha carne, que Eu darei pela vida do mundo».

Está aqui tudo o que diferencia Jesus de outros Messias e nos diferencia de outros crentes. É o Corpo de Cristo que comungamos, é o Seu sangue que bebemos.

As palavras de Jesus vão provocar uma razia entre os discípulos. É compreensível a dúvida e o questionamento dos judeus: como é que Ele pode dar-nos a Sua carne a comer? Alguns discípulos vão seguir por outros caminhos, pois não estão preparados para o que ouvem.

Obviamente que a Eucaristia não faz de nós canibalistas, faz-nos irmãos porque nos transforma em Cristo, pois quando comungamos não absorvemos Cristo, como diria Santo Agostinho, mas deixamo-nos absorver por Ele. Vale também para aqueles que, não podendo abeirar-se da comunhão sacramental, comungam Cristo na Palavra de Deus, assumindo os mesmos sentimentos e propósitos, para se unirem a Ele e ao Seu Corpo, que é a Igreja, que somos nós.

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3 – Elias entra no deserto, antes da importante missão a que Deus o chama. Também Jesus Cristo passará a prova do deserto.

O deserto é um lugar inóspito. Não há seguranças. Chegará o tempo que só Deus nos valerá. Como não evocar as palavras do papa Bento XVI no dia em que iniciava solenemente o Seu pontificado, em 24 de abril de 2005: «E existem tantas formas de deserto. Há o deserto da pobreza, o deserto da fome e da sede, o deserto do abandono, da solidão, do amor destruído. Há o deserto da obscuridão de Deus, do esvaziamento das almas que perderam a consciência da dignidade e do caminho do homem. Os desertos exteriores multiplicam-se no mundo, porque os desertos interiores tornaram-se tão amplos…»

Um dia inteiro no deserto e Elias cai em desânimo: «Já basta, Senhor. Tirai-me a vida, porque não sou melhor que meus pais». Elias deita-se por terra e adormece. Deus chama-o através do seu santo Anjo: «Levanta-te e come». Elias comeu e bebeu e tornou a deitar-se.

A vida por vezes é tão dura que só nos apetece desistir.

O Anjo do Senhor insiste: «Levanta-te e come, porque ainda tens um longo caminho a percorrer». Elias levanta-se, come e bebe. Revigorado, Elias prossegue o seu caminho, "durante quarenta dias e quarenta noites até ao monte de Deus, Horeb".

Que mais poderemos dizer? Que o verdadeiro alimento nos é dado por Deus, que nos alenta nos desertos a percorrer ao longo da vida, até chegarmos ao Seu monte santo, até que os nossos dias se completam sobre a terra.

 

4 – Hoje a Igreja evoca a memória de Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein) que, “como cristã e judia, aceitou a morte com o seu povo e para o seu povo, que era visto como lixo da nação alemã” (Bento XVI, em Auschwitz, 2006).

Teresa Benedita da Cruz foi morta em Auschwitz-Birkenau, campo de extermínio nazi, em 9 de agosto de 1942, poucos meses depois de ser aprisionada. Tinha 51 anos de idade. As suas origens judaicas não a impediram de procurar mais além da sua religião e, inspirando-se em Santa Teresa de Ávila, tornou-se cristã, consagrando-se como irmã carmelita. Dedicou a sua vida aos judeus e aos alemães. Fez de Cristo o Seu único alimento até entrar na glória eterna.

____________________________

Textos para a Eucaristia (B): 1 Reis 19, 4-8; Sl 33 (34); Ef 4, 30 – 5, 2; Jo 6, 41-51.

 

REFELEXÃO COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

e no meu outro blogue CARITAS IN VERITATE

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