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Escolhas & Percursos

...espaço de discussão, de formação, de cultura, de curiosidades, de interacção. Poderemos estar mais próximos. Deus seja a nossa Esperança e a nossa Alegria...

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28.10.17

Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?

mpgpadre

1 – Um doutor da Lei aproxima-se de Jesus. O propósito é experimentá-l'O, testar os Seus conhecimentos, ver se O apanha em contradição e, dessa forma, expô-l'O diante dos discípulos e perante as multidões. Saduceus, fariseus, herodianos, doutores da Lei, autoridades judaicas encontram em Jesus um inimigo comum. Não é que Jesus lhes tenha feito mal, pelo menos diretamente, mas o Seu saber, o Seu dizer e o Seu fazer, o Seu modo de agir, de Se aproximar, de Se dar, o modo de conviver com todos, especialmente com os mais desfavorecidos, provoca ciúme, ódio, inveja. Ele é LUZ que ilumina as trevas e que expõe os corações de todos. Se vivermos nas trevas qualquer lampejo de luz nos magoa a vista. Se nos habituarmos a viver a meia-luz, uma luz mais diurna vai-nos fazer perceber que afinal estávamos mais nas trevas que na luz.

É essa a alegoria da caverna de Platão. Dentro da caverna, pessoas voltadas para o interior, habituam-se a viver na escuridão. A luz do exterior projeta sombras de uma realidade alternativa a evitar. Há que permanecer no interior, mantendo tudo como está.

The Chief Priests Ask Jesus  (Les princes des prê

 2 – Jesus é seguido por multidões de pessoas sobretudo simples. Daí a ardilosidade das classes dirigentes, para não criar anticorpos entre o povo, de quem procura a simpatia. Víamos a tramoia da semana passado sobre os impostos para o império romano. Hoje a pergunta parece mais óbvia, menos dada a polémicas. O âmbito é diferente, pois fixa-se na religião e na lei mosaica. «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?».

No judaísmo, entre grupos mais religiosos judaicos havia várias discussões sobre os mandamentos. Com o passar do tempo, os 10 Mandamentos foram multiplicados até ao número de 613 preceitos, divididos em 248 prescrições (248 corresponderiam aos ossos do corpo humano) e 365 proibições (365 correspondem aos dias que o ano tem). Vê-se desta forma o simbolismo no número de preceitos, mas também o facto que tantas minudências baralharem a vida das pessoas do povo. A resposta de Jesus é expectável, mostrando que conhece as Escrituras: «Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito». Deus é a primeira referência e todos os mandamentos são decorrentes da ligação de Deus com a humanidade. Amar a Deus de todo o coração e com todas as forças é o primeiro e o maior mandamento.

 

3 – Jesus acrescenta um segundo mandamento semelhante ao primeiro: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo». E conclui: «Nestes dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas».

A verticalidade exige a horizontalidade. Voltar-se para Deus sem os outros seria esquecer que Ele é Deus de todos e para todos. Só mesmo fundamentalismos estupidificantes para defender uma religião sem os outros, que seria tão nefasta como uma religião sem Deus, meramente sociológica, sem horizonte de futuro, sem saída, e com o risco de alguém ocupar o lugar de Deus, como infelizmente aconteceu no passado e acontece em muitos movimentos religiosos.

O diálogo poderia continuar, como na versão lucana (Lc 10, 25-37) em que o Doutor da Lei, reconhecendo a justeza e honestidade da resposta, insiste a perguntar a Jesus: quem é o meu próximo? Nessa ocasião, Jesus apresenta a belíssima parábola do Bom Samaritano. Próximos são todos os que precisam de ajuda, mas o importante é se eu me faço próximo de quem precisa, se me aproximo para ver e para ajudar, para levantar a pessoa que se encontra prostrada. Daí o desafio de Jesus, assumido pela nossa diocese de Lamego: Vai, e faz tu também do mesmo modo.


Textos para a Eucaristia (ano A): Is 45, 1. 4-6; Sl 95 (96); 1 Tes 1, 1-5b; Mt 22, 15-21.

11.06.16

A tua fé te salvou. Vai em paz.

mpgpadre

1 – Misericordiosos como o Pai. O lema escolhido pelo Santo Padre para o Jubileu da Misericórdia aponta para o proceder de Deus Pai, cujo ROSTO Jesus Cristo, que visualiza, nas palavras, nos gestos e na postura, o dizer e o agir do Pai.

Fixando o nosso olhar e o nosso coração em Jesus aprendemos a caminhar, a amar, a viver na mesma lógica da compaixão e da ternura que O conduzem para o meio de nós e O fazem avançar entre nós.

Jesus é convidado para uma refeição. O anfitrião é um fariseu chamado Simão. Atente-se ao contexto. Jesus e fariseus surgem em algumas discussões acaloradas. Por aqui se vê que, por princípio, nada move Jesus contra ninguém. Se é Ele que vai... vai ao encontro dos mais frágeis... se O convidam, Ele não Se recusa nem Se sente contaminado por circular em diferentes ambientes sociais e humanos.

Seguidamente vemos a longanimidade de Jesus e a estreiteza de vistas deste fariseu.

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2 – "Uma mulher – uma pecadora que vivia na cidade – ao saber que Ele estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro com perfume; pôs-se atrás de Jesus e, chorando muito, banhava-Lhe os pés com as lágrimas e enxugava-Lhos com os cabelos, beijava-os e ungia-os com o perfume".

Esta mulher expõe-se. Vai até Jesus. Não tem muito a perder. Sente-se uma coisa, comprada às escondidas mas rejeitada às claras. Alimenta-se de trevas, vive na escuridão. Não tem vida pessoal. Os afetos comprados não são afetos, são comércio que não tocam a alma, a não ser para a destruir. Quem a vê (de dia) desvia-se, com medo de ser contaminado e/ou que os outros levantem alguma suspeição. Se é pecadora pública, reconhecida como tal, outros contribuem para o seu pecado, comprando-a, expondo-a, promovendo a maledicência.

Jesus deixa-Se tocar por esta mulher. Não Se desvia, não desvia o olhar nem o coração. Jesus atrai-nos para a Luz que irradia da Sua presença. Esta mulher ouviu falar de Jesus e de como Ele a todos acolhia. Talvez O tenha observado a certa distância, num misto de medo, vergonha e esperança. Até pode ter-se cruzado com o olhar de Jesus e percebido o desafio a aproximar-se. Viu ali uma oportunidade e chegou-se à frente, sujeitando-se a ser ridicularizada e expulsa daquela casa. Prevalece a confiança em Jesus.

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3 – Logo começa o murmúrio dos presentes pela atitude "permissiva" de Jesus, que toma a palavra e inicia um diálogo: «Simão, tenho uma coisa a dizer-te… Certo credor tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos denários e o outro cinquenta. Como não tinham com que pagar, perdoou a ambos. Qual deles ficará mais seu amigo?». Respondeu Simão: «Aquele – suponho eu – a quem mais perdoou». Disse-lhe Jesus: «Julgaste bem». E voltando-Se para a mulher, disse a Simão: «Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não Me deste água para os pés; mas ela banhou-Me os pés com as lágrimas e enxugou-os com os cabelos… não cessou de beijar-Me os pés… ungiu-Me os pés com perfume. Por isso te digo: São-lhe perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama». Depois disse à mulher: «Os teus pecados estão perdoados». Então os convivas começaram a dizer entre si: «Quem é este homem, que até perdoa os pecados?». Mas Jesus disse à mulher: «A tua fé te salvou. Vai em paz».

Jesus põe em evidência um conjunto de gestos que demonstram a afeição desta mulher, a sua humildade, a disponibilidade para mudar de vida. Foi atraída pela compaixão de Jesus e Jesus não a defrauda. O amor tudo alcança. Os seus muitos pecados são-lhe perdoados porque muito amou. A fé abriu-lhe o coração, a alma, para se deixar iluminar por Jesus e pela Sua misericórdia infinita.

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Textos para a Eucaristia (C): 2 Sam 12, 7-10. 13; Sl 31 (32); Gal 2, 16. 19-21; Lc 7, 36 – 8, 3.

 

REFLEXÃO DOMINICAL COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

e no nosso outro blogue CARITAS IN VERITATE

12.03.16

«Nem Eu te condeno. Vai e não tornes a pecar»

mpgpadre

1 –  Página belíssima do Evangelho de São João. A descrição joanina faz-nos ver Jesus e acompanhá-l'O em diferentes momentos. Retira-Se para o monte das Oliveiras, para pernoitar, para descansar, para rezar, alimentando-Se da presença do Pai. Com Ele vão os discípulos. Vamos no Seu encalço, não nos percamos no caminho, não fiquemos para trás. A oração faz-nos sintonizar com Jesus.

De manhã cedo Jesus volta ao Templo, senta-Se e começa a ensinar o povo que se aproximara d'Ele. Alguns fariseus e doutores da Lei também se aproximam mas para O testar. Trazem-Lhe uma mulher apanhada em flagrante adultério. Desde logo a discriminação, pois falta o homem que com ela cometeu adultério e para quem a Lei de Moisés exigia o mesmo tratamento. Colocam-na no meio dos presentes. Humilhação completa. Não bastava ter sido surpreendida em falta era agora exposta perante todos.

«Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Na Lei, Moisés mandou-nos apedrejar tais mulheres. Tu que dizes?». Armadilha bem orquestrada. Se condenasse aquela mulher, Jesus não seria melhor que aqueles que lha apresentaram e cairia uma das facetas essenciais do Mestre da Sensibilidade, a Sua delicadeza, tolerância, acolhimento de pecadores e publicanos. Não condenando, estaria a ser conivente com o pecado e a contrariar a Lei de Moisés, que o povo judeu tem como referência imprescindível para a religião.

Jesus faz com que fariseus, doutores da Lei, discípulos, e todo o povo, onde nos incluímos, regressem à terra. "Jesus inclinou-Se e começou a escrever com o dedo no chão". E é então que Jesus contrapõe: «Quem de entre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra». E novamente Jesus nos faz olhar para o chão das nossas misérias. Para atirar a primeira pedra é preciso alguém impecável, que não tenha fraquezas, nem pecados, nem telhados de vidro. Não julgueis e não sereis julgados. Não condeneis e não sereis condenados. Porque olhas para o argueiro na vista do teu irmão sem tirar a trave da tua vista?

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2 – Um após outro, todos se retiraram, porque olhando para as suas vidas facilmente encontraram motivos de condenação, de censura, de arrependimento. Mal é quando desviamos a atenção para os outros para que não olhem para nós.

No final, diz Santo Agostinho, "todos saíram da cena. Somente ficaram Ele e ela; ficou o Criador e a criatura; ficou a miséria e a misericórdia... Ficou ali apenas a pecadora e o Salvador. Ficou a enferma e o médico. Ficou a miserável com a misericórdia". Jesus levantou-Se e disse-lhe: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?». Ela respondeu: «Ninguém, Senhor». Disse então Jesus: «Nem Eu te condeno. Vai e não tornes a pecar».

A miséria desta mulher é absorvida pela misericórdia de Deus que em Jesus a perdoa e a acaricia. Vai e não voltes à mesma vida. Tens agora uma nova oportunidade. Refaz o trajeto, refaz e vida. Vai e sê mulher, sê feliz. A misericórdia não passa ao lado do pecado, o pecado é perdoado por Jesus; a misericórdia reabilita-a para uma vida nova. Jesus não desculpa o pecado, não desvaloriza ou disfarça o mal. Desculpabilizar não é perdoar, é contornar o problema, varrer para debaixo do tapete. Reconhecer o pecado, o mal feito, é levar a sério a pessoa, na sua liberdade, consciência e responsabilidade. Perdoar é aceitar a pessoa com as suas limitações e as suas falhas. Ela pecou, como o homem que estivera com ela também pecou. Jesus di-lo claramente: vai e não voltes a pecar. Não te condeno. Os teus pecados estão perdoados. Esta mulher é reabilitada como filha amada de Deus.

O desafio é para ela, para fariseus e doutores da lei, e para todos. Obriga-nos a olhar para nós para que não condenemos nem injusta nem levianamente. Perdoar as injúrias. Suportar com paciência as fraquezas do próximo. Perdoar porque primeiro Deus nos perdoa!

Onde abunda o nosso pecado superabunda a graça, a misericórdia, a benevolência de Deus.

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Textos para a Eucaristia (C): Is 43, 16-21; Sl 125 (126); Filip 3, 8-14; Jo 8, 1-11.

 

REFLEXÃO DOMINCIAL COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

e no nosso outro blogue CARITAS IN VERITATE

29.08.15

O que sai do homem é que o torna impuro...

mpgpadre

1 – «Não há nada fora do homem que ao entrar nele o possa tornar impuro. O que sai do homem é que o torna impuro: imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, cobiças, injustiças, fraudes, devassidão, inveja, difamação, orgulho, insensatez. Todos estes vícios saem do interior do homem e são eles que o tornam impuro».

Jesus é perentório: não são as circunstâncias que moralizam as nossas ações, mas as nossas escolhas. Muitas circunstâncias podem alterar o nosso humor e fazer precipitar alguma atitude ou palavra.

Contudo, as circunstâncias exteriores não fazem o carácter de uma pessoa. Um exemplo caricato: algumas pessoas bebem uns copos ou uns shots para depois dizerem "umas verdades" ou fazerem "umas maldades". Têm desculpa porque beberam?! Que não bebam!

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2 – A questão levantada por alguns fariseus e alguns escribas, à primeira vista, não passa de uma questão de higiene. Lavar as mãos antes de comer é uma recomendação para todos. 

Para os judeus trata-se de uma tradição e de uma prática religiosa. Ao longo do tempo, os 10 mandamentos deram lugar a uma "catrefada" de preceitos. Quase tudo é revestido de preceito religioso por forma a garantir o seu cumprimento.

“Os judeus não comem sem ter lavado cuidadosamente as mãos, conforme tradição dos antigos. Ao voltarem da praça pública, não comem sem antes se terem lavado. E seguem muitos outros costumes como lavar os copos, os jarros e as vasilhas de cobre”.

 

3 – Lavar ou não lavar as mãos antes das refeições?! É uma regra simples de higiene e de saúde. Quando muito poderia provocar algum retraimento ou asco daqueles que estavam à mesa com eles.

Percebe-se bem que foi um pretexto. Ao fazerem esta acusação, aqueles fariseus e escribas dizem a Jesus que os seus discípulos são uns foras-da-lei, uns maltrapilhos desleixados, que não faziam esforço para se integrarem na sociedade. E se são assim tão descuidados e não convivem bem em sociedade, como se pode esperar alguma coisa do Seu Mestre, que vê e nada diz, nada faz?

Se pensarmos que só no séculos XIX é que alguns médicos começaram a lavar e a recomendar lavar as mãos por ocasião dos partos, dá para perceber como os judeus, também nesta questão, estavam muito à frente, sendo cuidadosos com a saúde.

 

4 – «Porque não seguem os teus discípulos a tradição dos antigos, e comem sem lavar as mãos?» Jesus não se faz rogado e diz-lhes: «Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito: ‘Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim’. Vós deixais de lado o mandamento de Deus, para vos prenderdes à tradição dos homens».

Em diversas ocasiões, Jesus chamará à atenção para zelos que não convertem, preceitos que não humanizam, leis que não aproximam. Quantas vezes nos agarramos a tradições anquilosadas? Sempre foi assim, assim será sempre! E o porquê desta ou daquela tradição?

Na parábola do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 25-37), Jesus coloca em causa a pureza cultual que esquece a caridade! O sacerdote e o levita que veem aquele homem meio-morto estendido na estrada e não o ajudam porque ficariam impuros se tocassem. Para eles o mais importante era a pureza cultual, mesmo abandonando uma pessoa de carne e osso, lugar-tenente de Deus.

 

5 – A segunda leitura, de São Tiago, que ora iniciamos, vai mostrar-nos com clareza a plenitude da Lei, o amor concretizado em obras, no compromisso com os mais desprotegidos: «Sede cumpridores da palavra e não apenas ouvintes… A religião pura e sem mancha, aos olhos de Deus, nosso Pai, consiste em visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações».

Mais que conhecer a palavra, importa praticá-la. O Apóstolo dá exemplos concretos: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tripulações, que naquele tempo constituíam o grupo mais vulnerável.

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Textos para a Eucaristia (B):

Deut 4, 1-2. 6-8; Sl 14 (15); Tg 1, 17-18. 21b-22. 27; Mc 7, 1-8. 14-15. 21-23.

 

REFLEXÃO DOMINICAL COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

e no nosso outro blogue CARITAS IN VERITATE

21.08.12

OS HIPÓCRITAS QUE VÃO À MISSA

mpgpadre


OS HIPÓCRITAS QUE VÃO À MISSA

A propósito do despropósito dos católicos não praticantes


       Foi há já algum tempo que uma pessoa, algo impertinente, disparou contra mim, à queima-roupa, a razão da sua não prática religiosa:

        - Eu não vou à Missa porque está cheia de hipócritas!

        Apesar de não ser um argumento propriamente original – na realidade, nem sequer é um argumento – o tópico deu-me que pensar, sobretudo porque é esgrimido, com frequência, pelos fervorosos «católicos não praticantes» que, como é sabido, abundam. São, em geral, fiéis descomprometidos, ou seja, pessoas baptizadas que dispensam a prática religiosa colectiva, com a desculpa de que nem todos os praticantes são cristãos exemplares.

        Alguns praticantes são, no sumário entendimento dos que o não são, pessoas duplas, porque aparentam uma fé que, na realidade, não vivem, enquanto outros há, como os ditos não praticantes, que mesmo não cumprindo esses preceitos cultuais, são mais coerentes com a doutrina cristã. A objecção faz algum sentido, na medida em que a vida cristã não se reduz, com efeito, a uns quantos exercícios piedosos.

        Mas o cristianismo é doutrina e vida: é fé em acção, esperança viva e caridade operativa. Portanto, a prática comunitária é essencial à vida cristã e a praxe litúrgica, embora não seja suficiente, é-lhe necessária. Assim sendo, mesmo que os praticantes não vivam cabalmente todas as virtudes cristãs, pelo menos não descuram a comunhão eclesial, nem a prática sacramental e a vida de oração. Deste modo, cumprem uma das mais importantes exigências do seu compromisso baptismal, ao contrário dos não praticantes, não obstante a sua auto-proclamada superioridade moral.

        Os fiéis que não frequentam a igreja, à conta dos fariseus que por lá há, deveriam também abster-se de frequentar qualquer local público, porque provavelmente está mais pejado de hipócritas do que o espaço eclesial. Estes novos puritanos deveriam também abster-se de ir aos hospitais que, por regra, estão cheios de doentes, e às escolas, onde pululam os ignorantes. É de supor que o único local digno da sua excelsa presença seja tão só o Céu, onde não consta qualquer duplicidade, pecado, fraqueza, doença, ignorância ou erro. Mas também não, ao que parece, nenhum católico não praticante…

        Segundo a antropologia cristã, todos os homens, sem excepção, são bons, mas nem todos praticam essa bondade. Um mentiroso não é uma pessoa que não acredita na verdade, mas que não é sincero, ou seja, não pratica a veracidade. Os ladrões são, em princípio, defensores da propriedade privada, mas não a respeitam em relação aos bens alheios. Um corrupto não o é porque descrê da honestidade, mas porque a não pratica. Aliás, as prisões estão repletas de boa gente, cidadãos que crêem nos mais altos e nobres valores éticos, mas que os não praticam.

        Mas, não são farisaicos os cristãos que são assíduos nas rezas e nas celebrações litúrgicas, mas depois não dão, na sua vida pessoal, familiar e social, um bom testemunho da sua fé? Talvez. Só Deus sabe! Mas, mesmo que o sejam, convenhamos que são uns óptimos hipócritas. Os hipócritas são bons quando sabem que o são e procuram emendar-se, e são maus quando pensam que o não são, justificam-se a si próprios, julgam e condenam os outros. Os crentes que participam assiduamente na eucaristia dominical, sempre que o fazem recebem inúmeras graças e reconhecem, publicamente, a sua condição de pecadores, de que se penitenciam, com propósito de emenda. Mesmo que não logrem de imediato a total conversão, esse seu bom desejo e a participação sincera na celebração eucarística é já um grande passo no caminho da perfeição.

        Foi por isso que, com alguma ironia e um sorriso de verdadeira amizade, não pude deixar de responder àquele simpático «católico não praticante»:

       - Não se preocupe por a Missa estar cheia de hipócritas: há sempre lugar para mais um!

 

P. Gonçalo Portocarrero de Almada, A Voz da Verdade, 2012.06.17, in POVO

08.11.10

Deus é um Deus de vivos. Para Ele todos estão vivos!

mpgpadre

       1 – O mês de Novembro é sobejamente conhecido pelos crentes católicos como o Mês das Almas. Logo no primeiro dia, a celebração de Todos-os-Santos - homens e mulheres que se encontram na glória de Deus Pai. Os Santos preencheram as suas vidas com o amor de Deus, convertendo-o em amor ao próximo, pela oração e pela caridade.

       No segundo dia - Comemoração dos Fiéis Defuntos - reflectimos na condição daqueles que se encontram em Purgatório, a caminho da pátria celeste. Entenda-se, aqui, Purgatório, não como um tempo cronológico, ou como um espaço físico, antes da entrada no Céu, mas um estado de purificação/preparação para o encontro com Deus Pai. Jesus leva-nos do tempo à eternidade. Primeiro, com a Sua morte e ressurreição/ascensão, coloca a nossa natureza humana à direita de Deus Pai. De junto de Deus atrai-nos constantemente. Quando passamos da vida temporal à vida eterna, poderemos ter necessidade de habituar o nosso olhar e o nosso coração à grandeza e à luminosidade de Deus. Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, faz-nos passar duma condição à outra.

       Nestas duas celebrações, a mesma esperança e a mesma fé: a ressurreição, como garantia que a nossa memória, a nossa histórica e a nossa identidade, não desaparecerá com a morte, mas é assegurada por Deus. Aliás, a fé em Deus já engloba a fé na ressurreição como nos lembra Jesus no Evangelho: "… E que os mortos ressuscitam, até Moisés o deu a entender no episódio da sarça-ardente, quando chama ao Senhor ‘o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob’. Não é um Deus de mortos, mas de vivos, porque para Ele todos estão vivos".

       2 – A liturgia da Palavra é muito significativa a propósito da vida eterna, não apenas por ser o mês das almas como também pelo facto de estarmos a caminhar para o final do ano litúrgico, em que se põem em maior evidência as realidades últimas.

       Na primeira leitura apresenta-se uma passagem, num tempo em que o Povo da Aliança está sob domínio estrangeiro, em que uma mãe e os seus sete filhos são mortos por se recusarem a negar as tradições da religião judaica. Perante a ameaça, esta família deixa-nos um belíssimo testemunho sobre a fé na ressurreição: "Estamos prontos para morrer, antes que violar a lei de nossos pais... Vale a pena morrermos às mãos dos homens, quando temos a esperança em Deus de que Ele nos ressuscitará".

       No Evangelho, por sua vez, Jesus é confrontado com outra tradição dos judeus, mas no caso presente com a pretensão de Jesus ser apanhado em contradição. A questão: uma mulher desposou sete irmãos, de quem não teve descendência; na eternidade quem será o seu marido? Na tradição judaica, se um homem não deixasse descendência à esposa, o irmão teria que assumi-la como esposa para lhe dar descendência e assegurar também a sua sobrevivência. Logo que houvesse filhos, o casamento estava abençoado...

       Mesmo com o fito de ridículo, Jesus responde com abertura, dizendo claramente que a vida eterna não é uma continuação da vida terrena, mas é de uma outra dimensão. Respondendo aos que duvidam da ressurreição, acentuando o valor "legalista" e estático da Lei, Jesus contrapõe com a própria Escritura que fala abertamente na ressurreição, uma vez que Deus é um Deus de vivos e não de mortos, é Deus de Abraão, de Isaac, de Jacob e de cada um de nós.

       3 – Na Segunda Leitura, São Paulo, em jeito de prece, sublinha a eternidade de Deus como desafio à vivência da fé e da caridade: "Jesus Cristo, nosso Senhor, e Deus, nosso Pai, que nos amou e nos deu, pela sua graça, eterna consolação e feliz esperança, confortem os vossos corações e os tornem firmes em toda a espécie de boas obras e palavras".

       Obviamente, que a fé na ressurreição nos conforta, nos estimula e nos compromete com o mundo em que vivemos. Somos já hoje chamados a espalhar o bem, a verdade e a caridade que nos atrai desde a eternidade de Deus. Vivemos antecipando, em nossas palavras e gestos, o gozo da contemplação de Deus face a face.

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Textos para a Eucaristia (ano C): 2 Mac 7,1-2.9-14; 2 Tes 2,16-3,5; Lc 20,27-38

 

31.10.10

Deus não desiste de nós! Nunca desiste...

mpgpadre
       1 – O nosso encontro com Deus, com Jesus Cristo, modifica-nos interiormente, comprometendo-nos com atitudes e gestos concretos na nossa relação com todos os que nos rodeiam.
       No Evangelho aparece-nos mais um publicano, desta feita, o chefe dos cobradores de impostos. Ainda hoje é uma profissão odiosa, mas muito mais naquele tempo e naquele contexto. Ao serviço do império romano, os judeus consideram os publicanos traidores, pecadores públicos.
No domingo anterior, Jesus, na parábola que nos conta, elogia a atitude humilde e suplicante do publicano, em contraponto à soberba e sobranceria do fariseu. Hoje, Jesus exemplifica as suas palavras, indo hospedar-se em casa de um pecador.
       Zaqueu é um homem de baixa estatura, isto é, de vistas curtas, só vê o seu bolso, ou como diríamos na actualidade, só vê o tamanho da sua carteira. Mas quer ver Jesus. Já ouviu falar do Mestre dos Mestres e tem curiosidade, ou algo no seu íntimo o chama. Deixa o seu posto de cobrança e sobe a uma árvore. Jesus, que vê ao largo e ao longe, avista-o e diz-lhe: "Zaqueu, desce depressa, que Eu hoje devo ficar em tua casa".
O evangelista mostra-nos Jesus como uma pessoa atenta e atenciosa, chama o seu interlocutor pelo nome próprio.
       Zaqueu, por sua vez, recebe Jesus com alegria, em sua casa. Esta alegria não é eufórica nem momentânea, mas transformadora: "Senhor, vou dar aos pobres metade dos meus bens e, se causei qualquer prejuízo a alguém, restituirei quatro vezes mais".
       2 – A presença de Deus na nossa vida é um estímulo e uma provocação ao bem, é esperança para o dia de hoje e para amanhã, é chamamento à vida, à felicidade, é garantia de que cada gesto de caridade se manterá até à eternidade.
Deus não desiste de nós, ainda que desistamos d'Ele, ou nos afastemos pelo nosso pecado. Mantém-se fiel à sua promessa, à ALIANÇA de ser nosso Deus para sempre.
       Diz-se no livro da Sabedoria: "De todos Vos compadeceis, porque sois omnipotente, e não olhais para os seus pecados, para que se arrependam" (Primeira Leitura). Diante de Deus, o mundo é como uma gota de orvalho, mas ainda assim Deus ama tudo o criou. Perdoa, para que nos ergamos.
       No Evangelho, como vimos, Jesus não leva em conta o pecado de Zaqueu mas a vida nova que nele desponta neste encontro de conversão.
       A oração de São Paulo, pelas comunidades, é um convite à esperança, para que ninguém se alarme com falsas promessas ou anúncios cataclíticos, e ao compromisso com o tempo e com a história: "oramos continuamente por vós, para que Deus vos considere dignos do seu chamamento e, pelo seu poder, se realizem todos os vosso bons propósitos e se confirme o trabalho da vossa fé".

       3 – Face à Palavra de Deus que escutámos/lemos e reflectimos que atitudes poderemos assimilar para a nossa vida? Alguns desafios parecem-nos desde logo claros e importantes:
- desejo de ver e de encontrar Jesus;
- deixar-nos "ver" por Ele. Não nos escondamos da Sua presença e do Seu chamamento;
- desçamos do nosso "pedestal", do nosso orgulho, e acolhámo-l'O em nossa casa. Façamos do nosso coração e da nossa vida, a Sua casa, morada santa de Deus, pois "hoje entrou a salvação nesta casa";
- que a nossa pequena estatura não nos impeça de ver Jesus, que veio "procurar e salvar o que estava perdido";
- como São Paulo, rezemos uns pelos outros, em comunidade e pela comunidade, para que frutifique em nós e através de nós a fé que professamos.
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Textos para a Eucaristia (ano C): Sab 11,22-12,2; 2 Tes 1,11-2,2; Lc 19,1-10

22.09.10

Não importa o ponto de partida

mpgpadre

       Não importa (tanto) o ponto de partida, a situação em que nos encontramos, o lugar em que estejamos, a condição que vivemos no momento actual, a distância da estrada...

       Importa (sobretudo e acima de tudo) a nossa predisposição para escutar a voz de Deus, o caminho que nos dispomos a percorrer, a disponibilidade para nos deixarmos converter pela graça de Deus e de caminharmos juntamente com o Mestre dos Mestres, Jesus Cristo.

       São Mateus, cuja festa celebramos hoje, diz-nos isso mesmo. É um cobrador de impostos. Está ao serviço do Império Romano, que oprime e subjuga Israel. É (considerado) inimigo dos judeus. Publicano (=cobrador de impostos) é o mesmo que pecador público. É ostracizado na convivência social, política e religiosa. E. no entanto, Jesus chama-o no seu local de trabalho, na sua condição actual, sem preconceitos...

       Mateus torna-se discípulo e apóstolo de Jesus. Convida-O para sua casa. A refeição é uma forma de comunhão. Só se senta à minha mesa quem me quer bem. Só me sento à mesa com quem me dou. E Jesus lá está, no meio de pecadores e publicanos, em casa de Mateus, sujeito a olhares, a juízos de valor. O preconceito de alguns leva-os a murmurar. Jesus vive eliminando todo e qualquer preconceito. Todos somos igualmente filhos de Deus.

       Podemos ser os maiores pecadores. Ainda assim, Deus chama-nos, espera por nós, quer a nossa conversão, a nossa felicidade, a nossa salvação.

       D. Manuel Clemente, Bispo do Porto, dizia, aos microfones da RR, a respeito do chamamento de todos os Apóstolos, Deus não olhava para as qualidades de cada um. no presente, mas para aquilo que poderiam vir a ser. Quando, Jesus chama os Apóstolos, sabe que têm diferentes origens e alguns deles vê-se à primeira vista que ninguém dá nada por eles, são insignificantes... e no entanto espalharão a boa nova pelo mundo inteiro.

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