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...espaço de discussão, de formação, de cultura, de curiosidades, de interacção. Poderemos estar mais próximos. Deus seja a nossa Esperança e a nossa Alegria...

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04.05.24

Permanecer porque se ama. Quem ama não quer partir!

mpgpadre

       1 – AMAR e PERMANECER. A liturgia da palavra deste e dos domingos anteriores relaciona duas faces da mesma moeda, uma opção de vida. Amar exige permanecer, ir ao encontro, ficar, fazer festa, alegrar-se, conviver, partilhar o que vai na alma, comungar projetos e sonhos. Permanecer porque se ama. Quem ama não quer partir. Quem ama atrai para si aquele/aquela que ama, aproxima-se. Não se distancia. Não desvia o olhar. Muito menos o coração. Quer estar bem juntinho. Olhos nos olhos. Lado a lado. Frente a frente. Quem ama quer que o amor dure para sempre, seja eterno, ou pelo menos até que a morte separe. E mesmo nos tempos que correm, efémeros, apressados, em mudança constante, ao sabor das modas, ainda há amores eternos, ou que querem ser eternos.

       Jesus vem de Deus, da eternidade, para ficar. Vem por amor. Não parte. Pelo menos não parte sem antes assegurar a Sua presença até à eternidade. Dá a vida porque ama. Entrega a Sua vida àqueles que ama. Deixa a Sua palavra. Ressuscita, mas permanece pela memória, pelo mistério, pelos Sacramentos. Doravante não O veremos fisicamente, mas vê-l’O-emos na Palavra dita em Seu nome, nos Sacramentos através dos quais pelo Espírito Santo estará entre nós, e ve-l’O-emos em cada pessoa, em cada olhar, em cada gesto de amor e de ternura.

 

 

       Como não evocar as palavras de Jesus nos momentos finais da Sua vida terrena: vou para o Pai para vos preparar um lugar, quero que onde Eu estou vós estejais também, vou e vós sabeis o caminho, Eu sou o caminho para chegar ao Pai, vou mas não vos deixarei órfãos, enviar-vos-ei o espírito Santo, fazei isto em memória de mim, sempre que vos reunirdes em meu nome Eu estarei no meio de vós, até ao fim do mundo, não temais.

       Hoje o Evangelho é por demais explícito. Vale a pena deter-nos nas palavras de Jesus:

«Assim como o Pai Me amou, também Eu vos amei. Permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor. Disse-vos estas coisas, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa. É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos… fui Eu que vos escolhi para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça… O que vos mando é que vos ameis uns aos outros».

       2 – As palavras de Jesus não deixam dúvidas. Ele ama-nos com o mesmo amor com que Deus Pai O ama. Beneficiamos do amor de Deus cumprindo o Seu mandamento: amar como Ele nos amou.

       O Apóstolo São João assume o desafio de Jesus e clarifica-o para a comunidade cristã:

"Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Assim se manifestou o amor de Deus para connosco: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que vivamos por Ele. Nisto consiste o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados".

       O amor que não é partilhado morre. A partilha enriquece-nos. Quando partilhamos riquezas materiais, poderemos ficar com menos coisas. Quando partilhamos a alegria, a fé, a esperança, o amor, mais aumentam em nós. Quanto mais nos damos, mais recebemos. Por outro lado, o amor não é nosso, o amor vem de Deus. Deus é Amor. Ele amou-nos primeiro. Deu-nos o Seu Filho Unigénito, que entregou a vida em nosso favor. Como seus seguidores, vivamos o mesmo amor, partilhemos a Sua vida com os nossos irmãos, os membros da nossa família e da nossa comunidade e de outras famílias e comunidades.

       Aquele que ama, vem de Deus. O amor que há em nós é o reflexo de Deus em nós, é a Sua marca, é o código genético que nos identifica como irmãos em Jesus Cristo, filhos amados de Deus. Nisto sabemos que permanecemos em Deus, se amamos como Jesus nos amou.

 

        3 – O amor floresce à medida que é partilhado. Longe da vista, longe do coração. O que não é visto não é lembrado. O que não é lembrado é esquecido. O amor precisa de ser lembrado, constantemente. Não há maior amor do que Aquele que dá a vida pelos amigos. Jesus dá a vida por nós. É a nossa maior alegria, sabermo-nos merecedores de tamanha dádiva. O amor não nos silencia, ainda que faltem as palavras para tão grande mistério! A alegria que nos inunda transborda. O amor não se fecha, não isola. O amor liberta-nos para o encontro com o outro, com os outros.

       Esta é a grande descoberta dos discípulos. O medo encerra-os dentro de quatro paredes. O amor abre-lhes a mente, o coração, dá-lhes coragem, desperta-os para a pregação, para o anúncio do Evangelho, para comunicar a alegria do encontro com Jesus ressuscitado. Há um enorme desejo de mostrar aos outros como Deus operou em nós maravilhas e a grandeza com que nos ama.

       Assim se espalha a boa notícia. Pedro dá testemunho. O Espírito Santo garante a permanência no amor de Deus, na vida nova que nos é dada em Jesus Cristo. Sem exceções. Todos são chamados ao amor de Deus. Todos são convocados para viverem ao jeito de Jesus, para viverem a vida nova da graça, da salvação.

“Pedro chegou a casa de Cornélio. Este veio-lhe ao encontro e prostrou-se a seus pés. Mas Pedro levantou-o, dizendo: «Levanta-te, que eu também sou um simples homem». Pedro disse-lhe ainda: «Na verdade, eu reconheço que Deus não faz aceção de pessoas, mas, em qualquer nação, aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável». Ainda Pedro falava, quando o Espírito desceu sobre todos os que estavam a ouvir a palavra. E todos os fiéis convertidos do judaísmo, que tinham vindo com Pedro, ficaram maravilhados ao verem que o Espírito Santo se difundia também sobre os gentios, pois ouviam-nos falar em diversas línguas e glorificar a Deus…» Pediram-Lhe que ficasse alguns dias com eles”.

 

4 – Estamos no início do mês de Maria, especialmente a Ela dedicado, na oração e nas diferentes devoções que se espalham e se vivem um pouco por todo o mundo, e com grande expressão em Portugal e nas comunidades portuguesas, com a evocação das Aparições de Fátima há quase cem anos. Neste primeiro Domingo de maio festejamos o Dia da Mãe, ligando a maternidade das nossas mães à mesma Mãe que nos é dada por Jesus. "Eis aí o teu filho... Eis aí a tua Mãe".

Maria mantém-nos, em espera vigilante e em atitude de serviço, como irmãos de Jesus, como filhos de Deus, como família. Também aqui a linguagem do Evangelho é ilustrativa. As nossas mães procuraram ou procuram que os filhos permaneçam ligados, acolhendo, partilhando e multiplicam o carinho e o amor, procuram que os laços familiares não se quebram por um qualquer azedume ou incompreensão. O mesmo que Maria naqueles dias após a morte de Jesus, mas também ao longo da história da Igreja. Maria continua a visitar-nos para nos lembrar a necessidade da oração, da conversão, da penitência. Numa palavra, Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe, recorda-nos a misericórdia do Pai que ilumina o nosso olhar, o nosso coração e a nossa vida. É um esforço que nos é pedido por um bem maior. Ela guia-nos e ilustra o caminho. Ela é a bem-aventurada que escuta a Palavra de Deus e a pratica de todo o coração, com a docilidade do serviço ao próximo. Maria não Se coloca em evidência, não Se faz centro, mas dispõe para que todo o seu pensamento, as suas palavras e o seu agir, ajudem a visualizar a vontade de Deus. É um instrumento feliz da Graça de Deus que opera no mundo. Nela refulge, e assim há de ser na Igreja, Jesus Cristo, como a lua reflete a luz do Sol.

A ela, Virgem Imaculada, nossa Rainha e Mãe, peçamos que nos fortaleça na nossa humildade e na nossa transparência, para sermos, como irmãos, instrumentos de salvação e de paz, para amarmos segundo o coração de Deus, fazendo o que Ele nos disser em cada momento e circunstância da nossa vida.


Textos para a Eucaristia (ano B): Atos 10, 25-26.34-35.44-48; 1 Jo 4, 7-10; Jo 15, 9-17.

 

Reflexão Dominical na página da Paróquia de Tabuaço.

14.02.17

Leituras: SHUSAKU ENDO - SILÊNCIO

mpgpadre

SHUSAKU ENDO (2017). Silêncio. (3.ª Edição) Alfragide: Publicações Dom Quixote. 272 páginas.

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Na Viagem à Polónia, o Papa Bento XVI, como já o tinha feito o Seu Predecessor, João Paulo II, deslocou-se ao campo de extermínio Auschwitz-Birkenau, no dia 28 de maio de 2006. As primeiras palavras do Papa Bento XVI: «Tomar a palavra neste lugar de horror, de acúmulo de crimes contra Deus e contra o homem sem igual na história, é quase impossível e é particularmente difícil e oprimente para um cristão, para um Papa que provém da Alemanha. Num lugar como este faltam as palavras, no fundo pode permanecer apenas um silêncio aterrorizado um silêncio que é um grito interior a Deus: Senhor, por que silenciaste? Por que toleraste tudo isto? É nesta atitude de silêncio que nos inclinamos profundamente no nosso coração face à numerosa multidão de quantos sofreram e foram condenados à morte; todavia, este silêncio torna-se depois pedido em voz alta de perdão e de reconciliação, um grito ao Deus vivo para que jamais permita uma coisa semelhante».

O Papa alemão sublinha o silêncio de Deus e o grito das vítimas, 6 milhões de polacos, um quinto da sua população, que perderam a vida. E o discurso continuava: «Quantas perguntas surgem neste lugar! Sobressai sempre de novo a pergunta: Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou? Como pôde tolerar este excesso de destruição, este triunfo do mal? Vêm à nossa mente as palavras do Salmo 44, a lamentação de Israel que sofre: "... Tu nos esmagaste na região das feras e nos envolveste em profundas trevas... por causa de ti, estamos todos os dias expostos à morte; tratam-nos como ovelhas para o matadouro. Desperta, Senhor, por que dormes? Desperta e não nos rejeites para sempre! Por que escondes a tua face e te esqueces da nossa miséria e tribulação? A nossa alma está prostrada no pó, e o nosso corpo colado à terra. Levanta-te! Vem em nosso auxílio; salva-nos, pela tua bondade!" (Sl 44, 20.23-27). Este grito de angústia que Israel sofredor eleva a Deus em períodos de extrema tribulação, é ao mesmo tempo um grito de ajuda de todos os que, ao longo da história ontem, hoje e amanhã sofrem por amor de Deus, por amor da verdade e do bem; e há muitos, também hoje. Nós não podemos perscrutar o segredo de Deus vemos apenas fragmentos e enganamo-nos se pretendemos eleger-nos a juízes de Deus e da história».

Estas palavras de Bento XVI bem podem servir de mote à leitura e a um possível enquadramento.

Com a adaptação ao cinema, pela mão de Martin Scorsese, o romance de Shusaku Endo ganhou novo fôlego e por certo baterá alguns recordes de vendas. E será merecido. Boa literatura. Bom enredo. A história romanceada tem tudo para prender o leitor do início até ao fim.

Não sendo histórico, o romance parte da história de evangelização do Japão, onde os portugueses tiveram um papel importante, como por exemplo São Francisco Xavier. No Oriente outros desembarcaram para levar o Evangelho até o fim do mundo, como São João de Brito, missionário português que deu a vida na Índia, em tormentos, torturas e sofrimentos como os que são relatos neste romance.

Shusaku_Endo_Silêncio.jpg

A história parte da apostasia de Cristóvão Ferreira, enviado pela Companhia de Jesus em Portugal para a evangelização do Japão. Submetido à tortura da fossa, de mãos e pés atados, de cabeça para baixo, sobre excrementos de pessoas e de animais... Era superior provincial, era um exemplo para clero e leigos. Mas apostatou.

Sebastião Rodrigues (a personagem principal do romance), com Francisco Garpe, também pertencentes à Companhia de Jesus, não querendo acreditar no que sucedeu a Cristóvão Ferreira - tinha sido professor deles e era uma referência intelectual, moral, espiritual - querem tirar a limpo o que sucedeu e vão para o Japão. Acolhidos numa aldeia, mas colocando em perigo os aldeões, separam-se e fogem. Sebastião Rodrigues é apanhado. Com ele, a reflexão sobre o silêncio de Deus e o grito de tantos cristãos que morrem em nome de Cristo, por serem cristãos. Para entrarem no Japão, fazem-no através de Macau. Para isso contam com Kichijiro, que tinha fugido, atraiçoado toda a família, atraiçoa Rodrigues, por duas vezes, vendendo-o como Judas a Cristo. Aqui entra a reflexão de Endo, japonês e católico. Rodrigues renuncia à fé ou publicamente nega a Cristo para defender os outros cristãos? Tal como Cristóvão Ferreira, abjurando permite que outros cristãos sejam libertados.

Vale a pena ver a leitura do provincial dos Jesuítas em Portugal, em entrevista à Agência Ecclesia, em que sublinha a grande oportunidade - o filme / romance - para confrontar as várias dimensões da fé. A obra recorda uma página histórica do encontro difícil entre o cristianismo (e o Ocidente) e as tradições japoneses que inicialmente acolheram com benevolência o cristianismo e depois moveram-lhe uma grande perseguição. Para o Padre José Frazão Correia é uma grande oportunidade para revisitar a questão dramática da fé. A dificuldade em permanecer firme num ambiente de extrema perseguição. Revisitar a experiência da fé a partir da sua dimensão dramática e equívoca, várias perspetivas possíveis para enquadrar a questão da adesão a Jesus e da sua visibilidade pública.

O filme/romance não nos permite fazer uma leitura a branco e preto, bem e mal, afirmação da fé pelo martírio ou negação da fé pela apostasia. Aqui percebemos que a aproximação à fé, a afirmação de fé em contextos de grande perseguição, de um grande sofrimento, põe em reserva um juízo demasiado fácil… Publicamente o personagem principal, o padre Sebastião Rodrigues, renuncia à fé, mas o realizador, tal como o autor, faz-nos perceber que no íntimo do padre jesuíta há um percurso de fé e estamos longe de concluir que a sua apostasia pública seja uma renúncia à fé no mais íntimo do seu coração.

O filme tem provocado diversos apontamentos e, claro, também a leitura do romance. Segundo Laurinda Alves - o que não gostei no Silêncio - falta sublinhar as razões da fé dos japoneses, o amor de Deus para connosco e de nós para com Deus. «No século XVII os missionários convertiam a partir do testemunho de Jesus e não de uma ideia de Deus distante, castigador, do Antigo Testamento. Por isso, esperava ver no filme este amor novo dos filhos e amigos, dos irmãos e companheiros de Jesus que querem viver para amar e servir, também ele traduzido em imagens e diálogos. Isto para que o amor de Deus ficasse a fazer eco a par do Seu silêncio e dos dramas da negação sob tortura».

 

Alguns comentários-entrevistas: 

07.02.15

Vamos a outros lugares, a fim de pregar aí também...

mpgpadre

1 – O anúncio do Evangelho – Palavra de Deus encarnada, Jesus Cristo – é acompanhado de libertação, de acolhimento, de inclusão, de vida nova. A Boa Notícia que Jesus nos traz – Deus ama-nos como filhos – faz-nos família, sara as nossas feridas, expulsa os demónios que nos atormentam, cura os nossos ódios e desejos de vingança, liberta-nos para nos amarmos uns aos outros, apostando no perdão e no serviço.

Jesus faz-Se acompanhar de Tiago e João e vai a casa de Simão e de André, que estão preocupados pois a sogra de Simão Pedro está doente, com febre. Logo lhe falam dela. Veja-se a dinâmica e a importância da intercessão. A delicadeza de Jesus é notória: toma-a pela mão e levanta-a. Como em outras situações, aqueles que se sentem salvos por Deus predispõem-se de imediato para o serviço. É o que faz a sogra de Pedro: curada, responde com serviço.

Ao cair da tarde, depois do sol-posto, trazem a Jesus os doentes e possessos, com a cidade inteira reunida para O ver e O ouvir. Jesus cura muitas pessoas e liberta os que são atormentados pelos demónios, para que vivam na claridade do amanhecer que vai surgir.

Sem muito tempo para descansar, ainda manhã cedo, Jesus levanta-se e retira-se para orar. A intimidade com o Pai é o Seu alimento. Quanto mais perto de Deus, mais perto dos homens. Quanto maior a intimidade com Pai, mais desprendimento para cuidar dos irmãos.

Quando os discípulos despertam e se apercebem que Jesus já não está no meio deles, saem à procura d'Ele. Para nós: se nos apercebemos que Jesus não está no meio de nós há que O procurar, indo ao Seu encontro.

curacion_suegra_pedro00.jpg

2 – «Todos Te procuram» – dizem os discípulos a Jesus. Saliente-se, mais uma vez, a intercessão. Os discípulos levam a Jesus a preocupação das pessoas. Por outro lado, TODOS Te procuram, inclui-nos e reforça a necessidade da evangelização dos cristãos e da Igreja. O "todos" que os discípulos levam a Jesus refere-se por certo às pessoas daquela cidade e que se tinham juntado diante da casa de Pedro. Mas logo Jesus alarga a referência a "TODOS": «Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a fim de pregar aí também, porque foi para isso que Eu vim».

Jesus relembra o Seu propósito: IR a outros lugares PREGAR.

 

3 – São Paulo, na segunda leitura hoje proclamada, chão da Evangelii Nuntiandi, de Paulo VI, deixa claro qual a sua missão como Apóstolo, vivendo-a como vocação e compromisso:

«Anunciar o Evangelho não é para mim um título de glória, é uma obrigação que me foi imposta. Ai de mim se não anunciar o Evangelho! Desempenho apenas um cargo que me está confiado... Livre como sou em relação a todos, de todos me fiz escravo, para ganhar o maior número possível. Com os fracos tornei-me fraco, a fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, a fim de ganhar alguns a todo o custo. E tudo faço por causa do Evangelho».

A sua e a nossa missão primeira: EVANGELIZAR. Em todo o tempo, em todas as ocasiões, oportuna e inoportunamente, como diz a Timóteo: "Proclama a palavra, insiste em tempo propício ou fora dele, convence, repreende, exorta com toda a compreensão e competência" (2 Tim 4,2). A pregação provoca movimento, ação, saída, ir ao encontro, procurar o outro e entrar em comunhão com ele. Por Cristo, "fiz-me tudo para todos". 


Textos para a Eucaristia (ano B): Job 7, 1-4. 6-7; Sl 146 (147); 1 Cor 9, 16-19. 22-23; Mc 1, 29-39.

 

REFLEXÃO COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

e no nosso blogue CARITAS IN VERITATE

03.05.14

Reconheceram-n'O ao partir do pão

mpgpadre

       1 – "Jesus entrou e ficou com eles. Pôs-Se à mesa, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho. Nesse momento abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-n’O". A Eucaristia, instituída em Quinta-feira Santa, marca para sempre a vida dos cristãos, dos que se querem seguidores de Jesus. Neste pedaço de Evangelho que hoje nos é apresentado, estão os traços essenciais dos crentes cristãos.

       Jesus toma a iniciativa. Vem ao nosso encontro. Encontra-nos a caminhar. Acompanha-nos pela estrada fora. Dispõe-se a entrar em nossa casa e a revolucionar a nossa vida. Mas não Se impõe. Ele seguirá outro caminho se nós estivermos impermeáveis ao Espírito.

       O encontro com Jesus, se é autêntico, não anulando as dificuldades da nossa vida, frágil e humana, finita e mortal, converte-se em ALEGRIA contagiante, faz-nos descruzar os braços, levantar-nos do chão e coloca-nos de novo a caminho, ainda que tenhamos que voltar atrás, ainda que tenhamos que irromper pela noite e pelas trevas, para levar a Luz e Verdade a outras pessoas. Ide e fazei discípulos é mais que uma opção. É a única opção para os seguidores de Jesus. O bem, o amor, é para partilhar. Só o que se partilha é verdadeiramente nosso. Cristo é nosso quando e sempre que o partilhamos.

       2 – Sexta-feira, que viria a ser santa, dia da entrega final de Jesus na Cruz, os discípulos veem desenrolar-se um filme inesquecível. Desde o entardecer do dia anterior, acompanhando Jesus na oração dramática do Horto das Oliveiras. Sucessivamente, Jesus é preso, julgado de forma sumária, passando de instância para instância, esbofeteado, escarnecem d'Ele, cuspindo-lhe, colocam-lhe uma coroa de espinhos, é flagelado e fisicamente muito fragilizado carrega a Cruz, é crucificado e morre pregado na CRUZ como criminoso, de Quem se desvia rapidamente o olhar.

       Jesus morre. É sepultado. E agora? Quê fazer? O que aconteceu? O que nos aconteceu? Aquele que era o Guia agora está morto! Que vai ser de nós? Extinguiu-se a nossa luz!

       A morte de um familiar, um amigo, um vizinho, aproxima-nos de outros familiares e amigos. Partilhamos a dor, fazemos o luto em conjunto. Podemos até ficar algum tempo, umas horas, uns dias, para nos apoiarmos na mesma dor. Depois a vida segue e nós seguimos também, apesar da perda que sofremos e que passa a fazer parte de nós. Também os discípulos. Regressaram a casa, estiveram algumas horas juntos, três dias, e depois regressam às suas próprias casas. É nesse regresso que Jesus encontra os discípulos de Emaús, desanimados, mas em lógica de se conformarem. "Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel. Mas, afinal, é já o terceiro dia depois que isto aconteceu".

       «Não tinha o Messias de sofrer tudo isso para entrar na sua glória?» – questiona Jesus. "Depois, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito". A palavra de Deus prepara-os e prepara-nos para reconhecermos Jesus. "E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho. Nesse momento abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-n’O".

       Novo acontecimento volta a congregar-nos em família: um casamento, um nascimento, um batizado, uma festa de aniversário. Aqui o acontecimento novo: JESUS ESTÁ VIVO! Há que regressar rapidamente à família, a Jerusalém, dizer aos outros, contar-lhes tudo, confirmar o que já se vinha a espalhar. Ser testemunhas da Ressurreição.

 

       3 – Dia da Mãe, início do mês de maio, mês de MARIA, discípula e Mãe de Jesus, o seu exemplo de serenidade e confiança, mantém a primeira comunidade reunida em clima de oração e de recolhimento. Os discípulos de Emaús, quando reconhecem Jesus, voltam atrás, precisamente aonde se encontra Maria com um ou outro discípulo. É Ela que nos congrega como filhos, é Ela que nos faz sentir irmãos, é n’Ela que encontramos um modelo de Mãe: atenta, disponível, confiando mesmo quando as coisas correm mal.

Maria, Mãe de Jesus e Mãe nossa, rogai por nós.


Textos para a Eucaristia (ano A): Atos 2, 14. 22-33; Sl 15 (16), 1 Ped 1, 17-21; Lc 24, 13-35.

 

03.10.13

LEITURAS: O tempo pede uma Nova Evangelização

mpgpadre

D. MANUEL CLEMENTE, O tempo pede uma Nova Evangelização. Paulinas Editora. Prior Velho 2013, 160 páginas.

       O atual Patriarca de Lisboa e Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, catedrático, licenciado em História e em Teologia, é um escritor muito acessível, envolvente, comunicador por excelência. Esteve, juntamente com o Bispo de Lamego, D. António Couto, Presidente da Comissão Episcopal da Missão e Nova Evangelização, no Sínodo Extraordinário dos Bispos sobre a Nova Evangelização para a transmissão da Fé, realizado no Vaticano, no início de outubro de 2012.

       Este livro, que se lê de uma assentada, retrata a Nova Evangelização, a urgência de evangelizar de novo, e sempre, com alegria, com entusiasmo, aproveitamento tudo o que de bom existe, potenciando os meios de comunicação social, aprendendo da História, colhendo a sabedoria dos mais velhos, mas também criando possibilidades para os jovens, que estes cheguem de outros países.

       D. Manuel vai às origens da Nova Evangelização, quanto a utilização do termo, da insistência de João Paulo II, da prossecução desta clareza em Bento XVI, que se estende às estruturas eclesiais e sobretudo a todas as pessoas da Igreja, apostando na vivência da Palavra de Deus, testemunhando Jesus Cristo.

       O livro recolhe diversas intervenções de D. Manuel Clemente, em ambiente eclesial, universitário, para diferentes auditórios, e que foram revistos e aprofundados em ordem à publicação deste livro.

       A dimensão histórica está bem vincada. O cristianismo ao longo dos tempos. Como bem clara é a história de Portugal e dos portugueses, com as suas lutas, sonhos, avanços e recuos, partidas e chegadas, com mistura de diversas culturas e povos.

       No primeiro texto, as CINCO grandes EVANGELIZAÇÕES. A primeira evangelização foi sobretudo a dos mártires, nos primeiros séculos. A segunda evangelização, com o desaparecimento da estrutura imperial, centra-se sobretudo no campo, a partir do século V, com os monges. A terceira evangelização, século XII e seguintes, crescimento populacional, animação comercial, capitalização e reurbanização, com novos evangelizadores, sobretudo com os mendicantes, discípulos de São Francisco de Assis e de São Domingos de Gusmão. No século XVI voltou a ser urgente evangelizar de novo, quarta grande evangelização, com as paróquias e as dioceses a precisarem de pastores mais dedicados e presentes. Nas últimas décadas a constatação da urgência de novamente evangelizar, quinta evangelização, com os grande reptos: a) sociedade fragilizada nas famílias... b) cultura com notas de fragmentação, errância e retraimento subjetivo... c) com o contraponto de grandes generosidades de pessoas e grupos... d) a "nova evangelização" terá que retomar o contributo das quatro anteriores - testemunho evangélico (mártires), experiência comunitária de adoração e serviço (monges), proximidade com todos, de pobres para pobres (frades), evangelização permanente do mundo em redor (missionários)...

       Seguem-se depois outros textos muito interessantes, situando de maneira privilegiada a alma português e dos portugueses, desde a fundação da nacionalidade, descobrimentos, descoberta de novos mundos, ir e chegar, partir e voltar, a religiosidade, piedade popular, a cultura, os usos e costumes, assimilação de outras influências, dos que vêm e ficam, ou dos que vão e voltam para ficar.

       É uma leitura agradável e recomendável para crentes e não crentes, para quem sabe para onde vai e para quem anda em busca de caminho, para quem quiser conhecer os contributos da religião na cultura na alma e na história portuguesa, e o contributo da história para viver melhor a religião, a fé cristã. Vejam-se os dois últimos textos - "Os portugueses em 2030" e "A nossa vida é uma corrente que flui". Partir do passado, conhecer a alma e o povo, para lançar os desafios de hoje e de amanhã e, por outro lado, o testemunho pessoal. No último texto, D. Manuel Clemente parte da água em que enxertou a sua corrente e como a sua corrente desembocou em outras correntes e profundidades...

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