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Escolhas & Percursos

...espaço de discussão, de formação, de cultura, de curiosidades, de interacção. Poderemos estar mais próximos. Deus seja a nossa Esperança e a nossa Alegria...

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07.09.14

LEITURAS: Gianfranco RAVASI - Quem és TU Senhor?

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GIANFRANCO RAVASI (2013). Quem és TU Senhor? Encontros e desencontros com o Homem que mudou a História. Prior Velho: Paulinas Editora. 144 páginas.

       Belíssima leitura do Cardeal Gianfranco Ravasi, centrando-se em Jesus Cristo. Os encontros e desencontros com o Crucificado Ressuscitado. A identidade de Jesus. O ambiente que que nasceu e cresceu. A linguagem utilizada no anúncio da Boa Nova. Anúncio de uma grande Alegria.

       Na primeira parte, as Aparições da Páscoa; o encontro com os discípulos de Emaús e como os olhos se abrem; o Cordeiro imolado; o encontro/desencontro com o Cônsul Pilatos, governador da Judeia. Na segunda parte, a identidade de Jesus, segundo São Lucas; as duas genealogias de Jesus e as preocupações que estão na sua base; a intrução de Jesus, saberia ler e escrever - numa terra de quatro línguas (latim, grego, hebraico e aramaico - o mais provável é que Jesus fosse bilingue (hebraico e aramaico); Jesus como Messias, aceite por novos movimentos, que o consideram Messias mas não filho de Deus, pelo que partilham o património comum até ao Concílio de Niceia; o celibato de Jesus como vocação. Na terceira parte, o Anunciador da Alegria, com o seu perfil de comunicador, acentuando-se as parábolas, os milagres, o diálogo/discussão alguns grupos de judeus, palavras envolventes que desafiam, interpelam, provocam, abençoam, curam, expulsam demónios. A concluir, o envio dos discípulos "obrigados" a tornar visível a fé, o Evangelho, em palavras e em obras, testemunhando. O testemunho não é uma qualquer publicitação egoísta, mas luz que há de transparecer para o mundo.

       A leitura abre o nosso horizonte, permitindo-nos não apenas conhecer uma pessoa, um acontecimento, mas enriquecendo o nosso vocabulário, para mais facilmente percebermos os outros e para melhor nos fazermos compreender. No caso concreto, para melhor conhecermos Jesus Cristo, como viveu e como as comunidades O experimentaram, e como na atualidade Jesus Cristo (e o Cristianimo) continua a ser uma Pessoa que desafia, provoca, renova, converte, nos faz ter vontade de O imitar, com coragem e humildade.

       De forma simples, quase poética, o autor leva-nos ao encontro de Jesus, para que n'Ele descubramos a nossa condição de filhos de Deus e nos comprometamos como irmãos. Um dos temas também presentes é a relevância de Cristo e do cristianismo nesta Europa descristianizada, mas cujos elementos estruturantes, e identificação da Europa se encontram muito vincados, além das divisões políticas e económicas e pese embora alguns estados se manifestarem contra os sinais que evocam a nossa origem, a nossa cultura, comum, e nos aproximam como irmãos.

 

          Sobre o tema do Cristianismo na Europa vale a pena ler também: CHRISTOPH SCHÖNBORN (2014). Cristo na Europa. Uma fecunda interrogação.

       Do mesmo autor também recomendámos: O que é o Homem? Sentimentos e laços humanos na Bíblia.

31.01.14

Pe. Tolentino Mendonça - O Hipopótamo de Deus

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José TOLENTINO MENDONÇA. O Hipopótamo de Deus. Quando as perguntas que trazemos valem mais o que as respostas provisórias que encontramos. Paulinas Editora, 320 páginas.

       Mais um extraordinário livros que agrega várias reflexões de Tolentino de Mendonça, com a idiossincrasia bem portuguesa, madeirense, cristão, poeta. Em cada texto um olhar de esperança, de desassossêgo, de provocação, de desafio, numa prosa bem poética como nos tem habituado nas suas publicações e/ou intervenções. Uma linguagem simples, familiar, tocando realidades distintas, cultura, religião, fé e fado, raízes madeirenses, e raízes do poeta, família, vida e morte e sofrimento, pintura, literatura e religião, música, economia, imperfeição, Fátima, e o silêncio de Deus, Advento, Natal e Páscoa, Outono e Inverno, Verão e Primavera e as diferentes idades do ser humano, a vocação, ser padre e ser poeta, a cruz e a bondade, filosofia e filósofos...

       Desde logo a justificação do título deste conjunto de escritos, que acompanha a publicitação do livro:

"Um dos passos mais belos da Bíblia tem a ver com um hipopótamo. E não é propriamente um divertimento teológico, pois surge numa obra que explora muito seriamente a experiência do Mal. Falo do Livro de Job, claro. O que primeiro nos surge ali é o protesto de Job contra o Mal que se abate inexplicavelmente sobre a sua história, protesto que se estende até Deus. Mas depois vem o momento em que Deus se propõe interrogá-lo. E, nesse diálogo, desenvolve-se um raciocínio que não pode ser mais desconcertante. Job só consegue pensar nas suas dores e nos porquês com os quais, inutilmente, esgrime. Deus, porém, desafia-o a olhar de frente para… um hipopótamo. O método de Deus neste singular encontro com Job é abrir a medida do seu olhar, rasgá-lo imensamente a tudo o que é grande, a tudo o que não tem resposta, mostrando-lhe que se o Mal é um enigma que nos cala, o Bem é um mistério ainda maior".

       Muitas reflexões oportunas. Lido em diferentes ocasiões podem haver um texto que chame mais atenção. Curioso o título e o texto: Onde é a nossa casa?

       "Acho que foi Alberto Camus que disse que a questão mais premente do nosso tempo é cada homem descobrir onde é a sua casa... Dia a dia há uma rota que voltamos a trilhar sem especiais hesitações, entre a fadiga e a esperança, cruzando as paredes do tempo: esse é o caminho para a nossa casa. Cada um cumpre, mesmo sem especial reflexão, trajetórias e rituais que são seus: a estrada que escolhe para regressar (sempre a mesma, sempre a mudar...); a forma familiar que tem diariamente de rodar a chave; o modo (mais lento, mais repentino) de abrir para o que ali habita; aquela fração de segundo, absolutamente impressiva, antes da primeira palavra, em que a casa inteira parece que vem ao nosso encontro, ofegante ou em puro repouso...

       ... cada pessoa tem o irrecusável dever de descobrir-se, vivendo com paixão e sabedoria a construção de si, esse processo que, por definição, está em aberto e que ao longo da existência se vai efetivando. NÓS SOMOS A NOSSA CASA. E poder dizer isso, com simplicidade e verdade, equivale a perpetuar aquilo que Albert Camus também escreveu: «no meio de um inverno, finalmente aprendi que havia dentro de mim um verão invencível» (pp 141-142).

 

Dois lugares para visitar acerca deste livro:

 

(que publicou alguns dos textos agora coligidos,

por exemplo o que partilhamos aqui: "Onde é a nossa casa?".

28.11.13

LEITURAS: Gabriel Magalhães - Espelho meu

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GABRIEL MAGALHÃES. Espelho meu. A leitura diária do Evangelho pode mudar a vida. Paulinas Editora. Prior Velho 2013. 128 páginas.

       Mais um título da coleção "Poéticas do viver crente", coordenada pelo Pe. Tolentino Mendonça.

É um testemunho contado na primeira pessoa. O autor partilha a sua experiência de fé, mostrando como a leitura diária do Evangelho, ainda que um pequeno trecho, pode revolucionar a vida cristã e o compromisso com os outros. Também aqui há conversão e vida nova. O Evangelho, como a participação na Missa, pode passar quase indiferente. Faz parte da tradição. Escuta-se mas sem entrar, sem fazer mossa.

       O autor, como refere, pertence à geração daqueles que  achavam que a Igreja e o cristianismo pertenciam à menoridade, como que paralisando o desenvolvimento lúcido do pensamento e da vida. Aos 24 anos, mais ou menos, revolveu ter o Novo Testamento e lê-lo a partir da sua "perspectiva arrogante", sobretudo como forma de aumentar a cultura geral, já que não passaria disso. Mas a leitura revolucionou a sua vida e a forma de ver o Evangelho, como enriquecimento, como descoberta, como encontro. "Aquele livro era a vida, e a vida era aquele livro... Os Evangelho criam com a realidade uma relação de total fraternidade: de comunhão e de identidade... Os Evangelho são capazes desta transparência por causa da presença de Jesus. Ele é o cristal de amor, através do qual a verdade passa. O que há de mais absoluto nestes textos sagrados são as palavras de Jesus".

       Leitura partilhada do Evangelho. Momentos da vida de Jesus nos quais podemos rever-nos e encontrar-nos.

       Esta é uma reflexão muito interessante. Transparece a vivência quotidiana. Não são palavras de um erudito ou do professor universitário, mas as palavras de um crente cristão que se deixou transformar pelas palavras de Jesus e nos contagia com o seu testemunho. Claramente, a fé não obscurece a vida, pelo contrário e apesar das dificuldades que a todos afetam a fé ilumina, aponta mais para além, justifica e dá sentido à existência.

31.10.13

LEITURAS: Joseph Ratzinger - Introdução ao Cristianismo

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JOSEPH RATZINGER. Introdução ao cristianismo. Prelecções sobre o «Símbolo Apostólico». Principia. Cascais 2006. 272 páginas.

 

       A Introdução ao Cristianismo é uma obra de referência para a teologia do século XX mas que entra inevitavelmente neste novo século e milénio, não fosse o seu autor um dos mais conceituados teólogos do mundo católico e cristão, Joseph Ratzinger, que viria a ser Bispo, Cardeal, Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, braço direito de João Paulo II e de Papa Bento XVI, de 19 de abril de 2005 a 28 de fevereiro de 2013, tendo decidido resignar para que o Evangelho ganhasse vigor num mundo cada vez mais exigente.

       Tinha sido um dos peritos do Concílio, acompanhando o seu Bispo. Era, e continuou a ser, um promissor teólogo. Professor, estudioso. Não deixando de o ser, mesmo assumindo a missão de Pastor.

       Este livro foi dado à estampa em 1968. Como se refere no prefácio à 10.ª edição, em pouco mais de um ano “vulgarizou-se”, com uma venda invulgar “ultrapassando inclusive as fronteiras entre o Oeste e o Leste e entre os diversos credos religiosos”.

       Em 2000, novo prefácio, que assinala dois anos especiais que atravessaram os 30 anos que tinha a obra: 1968 e 1989. Dois acontecimentos verdadeiramente revolucionários. No entanto, Ratzinger, agora Cardeal, mantem as linhas orientadoras do seu estudo, como contributo para a reflexão teológico, centrado no credo, no Símbolo dos Apóstolos, desde o início em que foi surgindo nas fórmulas batismais, de pergunta e resposta, e à volta do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Profissão de Fé que vem antes do dogma.

       Obviamente, ao longo doa anos, Ratizinger publicou outras obras, que aprofundam alguns aspetos, com outras matizes, com outros enquadramentos. Certamente que este é um livro fundamental para conhecer o pensamento de Ratzinger/Bento XVI. Vislumbram-se muitas das intuições presentes posteriormente em outros estudos, mas também em homilias, mensagens, discursos, conferências.

       Introdução ao Cristianismo foi preparado para ser publicado em livro, mas nasceu das prelecções proferidas pelo sacerdote Joseph Ratzinger, para audiências de todas as faculdades durante o semestre de verão de 1967, em Tübingen.

       É um texto de fácil compreensão, mas não tanto como outros mais pastorais. Evidentemente trata-se de uma obra de estudo, de reflexão, académica, ainda que bastante expositiva, viva no debate, com exemplos, pequenas histórias, centrando-se no CREDO mas dialogando com diversos ambientes, autores, épocas, diferentes áreas do saber.

       Duas notas muito em evidência em todo o texto: humildade de quem faz teologia, respeito por quem discorda acolhendo os aspetos mais relevantes. Desde o início que o sacerdote/professor deixa claro que a teologia não encerra o mistério de Deus. Quem pretender absolutizar a teologia corre o sério risco de limitar a omnipotência, colocando-se em seu lugar. Por outro lado, Ratzinger lança diversas pontes de diálogo e discussão com autores católicos, protestantes, e até judeus. Mesmo recusando argumentos de alguns autores bem conhecidos, sublinha sempre o trabalho, a seriedade que tiveram ou aqueles princípios que terão que ser melhor estudados, ou que deram um importante contributo à reflexão teológico e/ou científica, nesta ou naquela área. També aqui cai por terra, com facilidade, o preconceito que rodeou o teólogo, o Cardeal e o Papa (Bento XVI) que seria déspota ou demasiado rígido. Leia-se e ver-se-á a disponibilidade para o diálogo, e a humildade diante do mistério de Deus. E no final, como valor maior o amor. A fé é razão. O Verbo encarnou. O Verbo é o Logos, é razão. A fé é razoável. A fé não é escuridão, mesmo que haja momentos de treva, é sobretudo luz. É Palavra. É Pessoa, Jesus Cristo. É amor. Estas intuições estão muito presentes na primeira Carta Encíclica do Papa Francisco, preparada por Bento XVI.

       Outros livros mais acessíveis e onde Bento XVI aprimora o seu discurso, tornando-o mais simples e claro. Jesus de Nazaré (em três volumes), publicado já como Papa Bento XVI, obra sobre Jesus Cristo, mistério da encarnação, vida pública, morte e ressurreição; A Alegria da Fé, recolha de textos, discursos, homilias, trechos das encíclicas, exortações, centrados no CREDO e nos Sacramentos. Um livrinho que também recomendámos e que aborda sobretudo a questão da fé: Aprender a acreditar. Estas leituras são mais fáceis, acessíveis, mais pastorais, mais orais, se quisermos. Mas para quem quiser aprofundar mais o pensamento de Bento XVI, ou acompanhar um pouco mais o processo de reflexão, de argumentação, de estudo, será revelador a leitura desta obra.

03.09.13

Papa João XXIII - Hoje, somente hoje...

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       Belíssima reflexão do bom Papa João XXIII, o Papa que convocou o Concílio Vaticano II. Vale a pena soltal a estas palavras. É no HOJE de Jesus que havemos de sintonizar a nossa vida. É HOJE que somos cristãos.

1. Somente hoje, procurarei viver o presente (em sentido positivo), sem querer resolver o problema da minha vida inteiramente de uma só vez.

2. Somente hoje, terei o máximo cuidado pelo meu aspecto: vestirei com sobriedade; não levantarei a voz; serei gentil nos modos; ninguém criticarei; não pretenderei melhorar ou disciplinar alguém, a não ser eu mesmo.

3. Somente hoje, serei feliz na certeza de que fui criado para ser feliz não só no outro mundo, mas também neste.

4. Somente hoje, adaptar-me-ei às circunstâncias, sem pretender que as circunstâncias se adaptem aos meus desejos.

5. Somente hoje, dedicarei dez minutos do meu tempo a uma boa leitura, lembrando que como o alimento é necessário para a vida do corpo, do mesmo modo a boa leitura é necessária para a vida da alma.

6. Somente hoje, realizarei uma boa acção e não o direi a ninguém.

7. Somente hoje, farei algo que não gosto de fazer, e se me sentir ofendido nos meus sentimentos, farei de modo que ninguém perceba.

8. Somente hoje, organizarei um programa: talvez não o siga exactamente, mas o organizarei. E tomarei cuidado com dois defeitos: a pressa e a indecisão.

9. Somente hoje, acreditarei firmemente, não obstante as aparências, que a boa providência de Deus se ocupa de mim como de ninguém no mundo.

10. Somente hoje, não temerei. De modo particular, não terei medo de desfrutar do que é bonito e de acreditar na bondade. Posso fazer, por doze horas, o que me espantaria se pensasse em ter que o fazer por toda a vida.

 

Conclusão: um propósito totalitário: "Quero ser bom, hoje, sempre, com todos".

10.10.12

70 X 7: Entrevista de D. José da Cruz Policarpo

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        D. José da Cruz Policarpo, Cardeal Patriarca de Lisboa e Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, em entrevista ao Programa 70X7, programa da Igreja Católica na RTP 2, sobre diversas questões, o ano da Fé, o Concílio Vaticano II, a crise económico financeira, o apelo à serenidade, e à solidariedade cristã:

 

28.08.12

DEUS, incómodo?

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De há muito tempo a esta parte, Deus parece ser um incómodo para a Europa e para muitos europeus.

       Pensam (as instituições e as pessoas) que seria bem melhor – ou, pelo menos mais prático, se Ele não existisse. E muitos nem sequer pensam. Simplesmente vivem como se Ele não existisse: no fundo, para quê preocupar-nos se, depois, Deus não protesta, não nos acusa em tribunal, não nos faz perder dinheiro ou fama? Pelo contrário, parece antes que viver como se Ele não existisse é mais proveitoso: podemos levar a vida que nos é possível, que queremos ou sonhávamos. Podemos viver dando largas à nossa imaginação e, com ela, “fintar” a própria justiça humana – no fundo, “o problema não é roubar: é ter roubado e ser apanhado!”

       Porque, se Deus não existe, então a justiça é aquela que eu determino para mim mesmo, ainda que, depois, exista a justiça dos homens e das leis (a tal que convém iludir, ultrapassar, ou manipular a meu proveito); se Deus não existe, eu posso fazer de deus e comprar a vida dos outros, desde que tenha dinheiro, ou poder, ou simplesmente que tenha “charme” para tal; se Deus não existe, mesmo que diante de todos eu diga que desejo a paz e a harmonia entre pessoas e nações, então posso bem promover a guerra e a discórdia, dividir para reinar.

       O facto é que, mesmo que me esforce por viver assim, fingindo de deus, há sempre a possibilidade de que Ele exista de verdade, e que eu e a minha vida não lhe sejamos indiferentes – nem a minha vida nem a de todos os outros que vivem à minha volta. E, se Deus existe, então pode bem ser o defensor dos mais fracos diante dos mais fortes; pode bem ser o que garante a justiça perante todos os crimes que sejam realizados contra a dignidade humana; pode bem ser aquele que, de uma qualquer forma, garanta, como última instância, que não sou eu, nem o poder que eventualmente possa ter adquirido, a possuir a última palavra.

       E, o que é mais grave, existem os cristãos, e existe a Igreja a afirmar que Deus existe; que não é uma invenção humana mas Alguém muito concreto, com quem falam e a quem mostram. E, recordando constantemente a existência e a presença de Deus na história dos homens, olham para bem mais longe que a mera duração terrena da vida humana.

       Mas não valerá a pena, mesmo para aqueles que ainda não tenham encontrado Deus no seu caminho, viver como se Ele existisse e, desse modo, deixar que a justiça dos homens e o seu modo de viver seja moldada por aquela outra, afinal muito mais “humana”, que parte da presença de Deus na história e do seu interesse por cada ser humano a que deu a vida, por muitos incómodos que isso possa trazer?

 

D. Nuno Brás, in Voz da Verdade.

23.08.12

Sobre a morte... e depois da morte!

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A mensagem é simples: a morte não é uma opção e se quiseres aprender a versão soft do acontecimento, passa a prestar mais atenção durante a missa

 

       No meio de um belo dia de praia, um dos meus filhos correu para mim, aflito e com os olhos em água, e suplicou:

       “Mãe, mãe, eu não quero morrer! Porque é que eu tenho de morrer?!”

       Foi um momento delirante. Vindo directamente do nada, este grito alarmante, este pedido de socorro desalinhou todo o sentido e coerência que um belo dia de praia transmite ao nosso estado de alma. Despertei do mundo dos seres que hibernam ao sol e certifiquei-me, ainda estonteada, que não estava ninguém a persegui-lo com uma faca. Não estava. No entanto, o meu filho pedia para eu o salvar da morte. O pedido era claro e urgente: ele não queria (nem quer) morrer e achava (já não acha) que o posso salvar. A ideia da morte e de que eu podia fazer logo alguma coisa contra isso ocorreu-lhe ali, a meio de um belo dia de praia e a meio de um belíssimo banho de mar.

       “Mas porquê isso agora… Todos temos de morrer um dia”, respondi com alguma impaciência, contendo-me para não acabar a frase com um “daaah”. No entanto, o rapaz insistiu, com convicção e quase em desespero, na teoria de que a morte não pode ser uma inevitabilidade e que eu, como mãe dele, tenho de lhe dar alternativas, devo dar-lhe respostas animadoras e tentar, pelo menos tentar, livrá-lo desse destino fatídico. Percebi então que para ele o assunto era grave, não era uma mera crise conjuntural originada por um delírio solarengo: era um caso de vida ou morte. Disse-lhe então que não havia nada a fazer, que a vida é feita de contrariedades e desbobinei toda a doutrina cristã sobre a morte. Disse-lhe tudo o que sei sobre a vida eterna e tentei animá-lo com o cenário idílico de que, no fim, nos encontraremos todos no Céu. Sem problemas.

       E ofereci-lhe um gelado.

       Ele ignorou a oferta e fez-me a inevitável pergunta: como é que eu sabia? Sim, se eu nunca tinha morrido, como é que eu sabia que a morte não era bem morte? E se não era bem morte, porque existia vida eterna, porque é que se morria? Não valia a pena morrer se depois se ia viver mais… Não tinha lógica, morrer era, assim, uma perda de tempo.

       Ofereci-lhe então um gelado e uma bola de Berlim. Ele ignorou-me. Queria saber. Respondi-lhe com a doutrina da Fé e falei durante cinco minutos seguidos com a consciência de que ele só percebeu dois por cento daquilo que eu disse. No fim, rematei que ele não devia ter medo. Apenas isso: que devia confiar, porque iria perceber tudo cada vez melhor durante a vida se confiasse.

       Foi então que ele condescendeu e fez o derradeiro pedido: “OK, eu posso morrer. Mas então quero que todas as pessoas de quem eu gosto morram comigo!” Assim, tipo menino mimado irritante: eu vou, mas vocês vêm todos comigo. Não pensem que ficam aqui no bem-bom enquanto eu viajo na estratosfera rumo não sei onde. Nada disso: morro eu, morrem todos – não se ficam aqui todos a rir e a comer McDonald’s enquanto eu levito no meio das nuvens.

       Não liguei, claro – já aprendi a ignorar birras parvas – e obriguei-o a comer o gelado e a bola de Berlim na esperança de que ele ficasse com dores de barriga e, com isso, menos dramático. Resultou. 

       Contudo, desde esse dia que anda meio deprimido, apesar da praia, das bolas de Berlim, dos gelados e de transbordar saúde. O meu filho tem um problema: descobriu que vai acabar por morrer. E eu, a sua própria mãe, confirmei o pior dos seus receios. E pior, não revelei grande emoção com o assunto. Pelo contrário: até o tentei convencer que morrer era… bom. Dramático, este dia.

       No entanto, esta não é a primeira vez que ele me fala da morte. É para aí a milésima. Esta é, sim, a primeira vez que ele revela medo da morte. É a primeira vez que ele se depara com um problema bicudo, o maior problema que pode ter, e ninguém lhe oferece uma solução imediata e racional para ele. Antes pelo contrário: confirmam a fatalidade e com toda a naturalidade. A mensagem é simples: a morte não é uma opção e, se quiseres aprender a versão soft do acontecimento, passa a prestar mais atenção durante a missa.

É um facto que as crianças crescem aos solavancos, mas este, o dia em que eles deixam de ser infantilmente crentes, é dos mais tramados. E até pode ser um belíssimo dia de sol.

 

Inês Teotónio Pereira , i-online 18 Ago 2012, in POVO

21.08.12

OS HIPÓCRITAS QUE VÃO À MISSA

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OS HIPÓCRITAS QUE VÃO À MISSA

A propósito do despropósito dos católicos não praticantes


       Foi há já algum tempo que uma pessoa, algo impertinente, disparou contra mim, à queima-roupa, a razão da sua não prática religiosa:

        - Eu não vou à Missa porque está cheia de hipócritas!

        Apesar de não ser um argumento propriamente original – na realidade, nem sequer é um argumento – o tópico deu-me que pensar, sobretudo porque é esgrimido, com frequência, pelos fervorosos «católicos não praticantes» que, como é sabido, abundam. São, em geral, fiéis descomprometidos, ou seja, pessoas baptizadas que dispensam a prática religiosa colectiva, com a desculpa de que nem todos os praticantes são cristãos exemplares.

        Alguns praticantes são, no sumário entendimento dos que o não são, pessoas duplas, porque aparentam uma fé que, na realidade, não vivem, enquanto outros há, como os ditos não praticantes, que mesmo não cumprindo esses preceitos cultuais, são mais coerentes com a doutrina cristã. A objecção faz algum sentido, na medida em que a vida cristã não se reduz, com efeito, a uns quantos exercícios piedosos.

        Mas o cristianismo é doutrina e vida: é fé em acção, esperança viva e caridade operativa. Portanto, a prática comunitária é essencial à vida cristã e a praxe litúrgica, embora não seja suficiente, é-lhe necessária. Assim sendo, mesmo que os praticantes não vivam cabalmente todas as virtudes cristãs, pelo menos não descuram a comunhão eclesial, nem a prática sacramental e a vida de oração. Deste modo, cumprem uma das mais importantes exigências do seu compromisso baptismal, ao contrário dos não praticantes, não obstante a sua auto-proclamada superioridade moral.

        Os fiéis que não frequentam a igreja, à conta dos fariseus que por lá há, deveriam também abster-se de frequentar qualquer local público, porque provavelmente está mais pejado de hipócritas do que o espaço eclesial. Estes novos puritanos deveriam também abster-se de ir aos hospitais que, por regra, estão cheios de doentes, e às escolas, onde pululam os ignorantes. É de supor que o único local digno da sua excelsa presença seja tão só o Céu, onde não consta qualquer duplicidade, pecado, fraqueza, doença, ignorância ou erro. Mas também não, ao que parece, nenhum católico não praticante…

        Segundo a antropologia cristã, todos os homens, sem excepção, são bons, mas nem todos praticam essa bondade. Um mentiroso não é uma pessoa que não acredita na verdade, mas que não é sincero, ou seja, não pratica a veracidade. Os ladrões são, em princípio, defensores da propriedade privada, mas não a respeitam em relação aos bens alheios. Um corrupto não o é porque descrê da honestidade, mas porque a não pratica. Aliás, as prisões estão repletas de boa gente, cidadãos que crêem nos mais altos e nobres valores éticos, mas que os não praticam.

        Mas, não são farisaicos os cristãos que são assíduos nas rezas e nas celebrações litúrgicas, mas depois não dão, na sua vida pessoal, familiar e social, um bom testemunho da sua fé? Talvez. Só Deus sabe! Mas, mesmo que o sejam, convenhamos que são uns óptimos hipócritas. Os hipócritas são bons quando sabem que o são e procuram emendar-se, e são maus quando pensam que o não são, justificam-se a si próprios, julgam e condenam os outros. Os crentes que participam assiduamente na eucaristia dominical, sempre que o fazem recebem inúmeras graças e reconhecem, publicamente, a sua condição de pecadores, de que se penitenciam, com propósito de emenda. Mesmo que não logrem de imediato a total conversão, esse seu bom desejo e a participação sincera na celebração eucarística é já um grande passo no caminho da perfeição.

        Foi por isso que, com alguma ironia e um sorriso de verdadeira amizade, não pude deixar de responder àquele simpático «católico não praticante»:

       - Não se preocupe por a Missa estar cheia de hipócritas: há sempre lugar para mais um!

 

P. Gonçalo Portocarrero de Almada, A Voz da Verdade, 2012.06.17, in POVO

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Velho - Mafalda Veiga

Festa de Santa Eufémia

Pinheiros, 16/17 de setembro de 2012

Primeira Comunhão 2013

Tabuaço, 2 de junho

Profissão de Fé 2013

Tabuaço, 19 de maio