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Escolhas & Percursos

...espaço de discussão, de formação, de cultura, de curiosidades, de interacção. Poderemos estar mais próximos. Deus seja a nossa Esperança e a nossa Alegria...

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16.12.17

Vivei sempre alegres, orai sem cessar...

mpgpadre

1 – Há alegrias que cristalizam o momento: a vitória do nosso clube ou do nosso partido, o acertar em alguns números do euromilhões e ganhar € 12,75, uma raspadinha com € 8,00, o placard que nos permite oferecer um jantar aos amigos, um peça de roupa que comprámos, o regresso da série de televisão que seguimos atentamente, o animal de estimação que voltou para junto de nós.

Se não tivermos nenhuma patologia, as verdadeiras alegrias: a saúde, a paz em família e no trabalho, um familiar que recuperou a saúde, um amigo que visitamos ou que nos visita.

A ALEGRIA deste domingo preenche-se de Deus, que na Sua infinita Sabedoria e no Seu Amor infindo, nos dá o Seu Filho bem Amado, para nos preencher de alegria.

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2 – «Vivei sempre alegres, orai sem cessar, dai graças em todas as circunstâncias, pois é esta a vontade de Deus a vosso respeito em Cristo Jesus. Não apagueis o Espírito, não desprezeis os dons proféticos; mas avaliai tudo, conservando o que for bom».

Alegria comprometida com o bem, como acentua São Paulo à comunidade de Tessalónica: «Afastai-vos de toda a espécie de mal. O Deus da paz vos santifique totalmente, para que todo o vosso se conserve irrepreensível para a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo».

Deus não nos falta com a Sua benevolência. Procuremos manter acesa a chama da fé, de uma fé que brilha com as obras, com a prática da caridade.

O profeta do Advento, Isaías, diz-nos os motivos do júbilo: «O espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu e me enviou a anunciar a boa nova aos pobres, a curar os corações atribulados, a proclamar a redenção aos cativos e a liberdade aos prisioneiros, a promulgar o ano da graça do Senhor». Palavras que Jesus assumirá como Suas na Sinagoga de Nazaré.

 

3 – Como salmo é-nos servido o Magnificat, que se vislumbra em Isaías e composto por Maria na visitação à Sua prima Santa Isabel: «A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da sua serva: de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-poderoso fez em mim maravilhas… Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu-os de mãos vazias. Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia».

Isabel revela-nos a alegria de João Batista: mal que a voz da tua saudação chegou aos meus ouvidos, o menino exultou de alegria no meu seio, bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do ventre!

Maria, por sua vez, exclama a alegria porque nela Deus traduz a história da salvação, levando à plenitude as maravilhas que vinha manifestando ao longo do tempo. Com efeito, Maria deixa que através dela Deus possa mostrar-Se no Seu esplendor e na maior das maravilhas, a vinda do Seu Filho Unigénito para ser Um de nós, Um connosco. O Filho de Deus já está em advento no Seu seio virginal.

A presença do Filho de Deus congrega as maiores alegrias, mas como Se esconde na humanidade, teremos que O encontrar no cuidado aos que Deus coloca (precisamente) ao nosso cuidado.

 

4 – O primeiro encontro de Jesus e de João sublinha a alegria, a certeza que as maravilhas do Senhor Deus serão plenizadas, pois o coração do Seu Amado Filho já palpita como coração humano.

Passados mais ou menos 30 anos, quase estranhos e desconhecidos, Jesus e João voltam a encontrar-se. Talvez houvesse alguma intuição e alguma memória longínqua de encontros passados. Mas agora o tempo é novo, há uma nova "estrela" a brilhar, no caso o Sol que não tem ocaso. João veio como Precursor, mas no encontro com Jesus dá-se conta que a sua missão chegou ao fim, pois era provisória, ainda que seja incrustada à missão de Jesus. Por outras palavras, uma única missão: espalhar a Boa Nova que é Jesus, ora como promessa, para os que vieram antes, como realidade temporal e histórica na pessoa de Jesus, como concretização espiritual, sacramental e histórica para os que virão depois da Sua morte e ressurreição.


Textos para a Eucaristia (ano B): Is 61, 1-2a. 10-11; Salmo: Lc 1, 46b-48. 49-50. 53-54; 1 Tes 5, 16-24; Jo 1, 6-8. 19-28.

09.12.17

Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas

mpgpadre

1 – Vigiai. Era a palavra-chave que escutámos há oito dias. Hoje a palavra-chave é PREPARAI, preparai o caminho do Senhor. É-nos servido o início do Evangelho de São Marcos que nos remete para Isaías, trazendo a promessa de Deus ao Seu povo. Ele enviará um mensageiro na frente para preparar o caminho d'Aquele que há ser enviado para nos trazer a salvação.

João Batista é a voz que no deserto proclama um batismo de penitência para a remissão dos pecados. Ele é voz da Palavra que está a chegar. Para que a Palavra Se seja percetível é urgente que a voz provoque os ouvidos e sobretudo os corações. Demasiada cera pode ser impeditivo de uma boa audição, um coração empedrado terá dificuldade em acolher e em amar Aquele que vem.

É tempo de preparar o caminho, o coração, a vida.

Um caminho que não é utilizado nem é limpo acabará por ficar intransitável. Se é um caminho muito usado, as pegadas e os rodados pisam as ervas que ameaçam nascer e crescer. Pedras que caiam ou silvas que despontam sempre se vão tirando. Mas de vez enquanto é necessário fazer uma limpeza mais a fundo, para que o caminho volte a ser caminho. E se por ele tiver que passar alguém especial então o cuidado será maior.

Está a chegar Jesus, Alguém que nos é muito caro, muito especial, então há que preparar bem o caminho da nossa vida para Ele passar e permanecer em nós. As famílias estavam habituadas no Natal e sobretudo na Páscoa a fazer uma limpeza a fundo nas casas – as barrelas – e nas ruas. É esta a preparação a que São João nos desafia.

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2 – Na 1.ª Leitura, Isaías, uma das figuras do Advento, anuncia a chegada do Emanuel, «O Senhor Deus vem com poder, o seu braço dominará. Como um pastor apascentará o seu rebanho e reunirá os animais dispersos; tomará os cordeiros em seus braços, conduzirá as ovelhas ao seu descanso». O poder de Deus far-se-á serviço, pois não vem para impor e dominar, mas como Pastor para congregar.

Os tempos de treva e dispersão não durarão para sempre. Já se vislumbra no horizonte uma luz a despontar como aurora, uma voz que clama tão forte que não podemos não escutar: «Preparai no deserto o caminho do Senhor, abri na estepe uma estrada para o nosso Deus. Sejam alteados todos os vales e abatidos os montes e as colinas; endireitem-se os caminhos tortuosos e aplanem-se as veredas escarpadas. Então se manifestará a glória do Senhor».

Se Ele vem, se está próxima a Sua chegada, como é que vamos recebê-l’O? Como é que nos vamos preparar? Como é que traduzimos o convite da palavra de Deus?

 

3 – A nossa grandeza há de ser o reflexo da grandeza de Deus, pelo que é na pequenez, na humildade e no abaixamento que deixamos que Deus seja visto em nós como num espelho. "A minha alma engrandece o Senhor". Palavras de Maria que sublinham como a grandeza de Deus Se revela através da humilde serva do Senhor. Isso mesmo foi colocado em evidência por Joseph Ratzinger, futuro Bento XVI, não é Maria que torna Deus maior, mas Ela deixa que Deus Se mostre. Isso mesmo nos é pedido. Parafraseando Santo Agostinho, o nosso egoísmo faz-nos crescer ao ponto de nos entrepormos entre Deus e os outros. A nossa opacidade não permite que os outros vejam em nós ou através de nós. A humildade torna-nos transparentes e, por conseguinte, Deus será visível em nós e para os outros.

Vejamos como São João Batista aponta para Aquele que há de vir em glória e poder. «Vai chegar depois de mim quem é mais forte do que eu, diante do qual eu não sou digno de me inclinar para desatar as correias das suas sandálias. Eu batizo-vos na água, mas Ele batizar-vos-á no Espírito Santo»

Preparar o caminho do Senhor também é isto: treinar a humildade, a capacidade para transparecer Jesus, testemunhar Jesus, deixar que Jesus fale em nós e através de nós. O nosso centro é Jesus e o Seu Evangelho de amor, de perdão e de serviço.


Textos para a Eucaristia (ano B): Is 40, 1-5. 9-11; Sl 84 (85); 2 Pedro 3, 8-14; Mc 1, 1-8.

03.12.17

Cardeal Luis Antonio Tagle - Aprendi com os últimos

mpgpadre

Cardeal LUÍS ANTÓNIO TAGLE (2017). Aprendi com os últimos. A minha vida, as minhas esperanças. Lisboa: Paulus Editoria. 160 páginas.

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 No último conclave em que foi eleito o atual Papa, Francisco, então Cardeal Jorge Mario Bergoglio, o Cardeal das Filipas, Tagle, era apontando como um dos possíveis à sucessão do papa Bento XVI. Se já era um Cardeal muito conhecido, pela sua juventude e pela presença nos meios de comunicação e por ser também o responsável da Cáritas Internacional, o que lhe permite viajar um pouco por todo o mundo. Abrindo-se a possibilidade de ser Papa,então a procura da sua biografia, da sua história.

Este livro em formato de entrevista, conduzida por Gerolamo Fazzini e Lorenzo Fazzini, procura apresentar-nos este jovem Bispo e um dos mais novos Cardeais da Santa Igreja, passando pelo berço e contexto em que nasceu e crescer, a sua vocação e a vida como seminaristas, os primeiros anos como padre e os estudos superiores nos EUA, a escolha para Bispo e posteriormente a ascensão a Cardeal. Pelo meio, a escolha para integrar a Comissão Teológica Internacional, presidida então pelo Cardeal Joseph Ratzinger. Quando este o apresentou ao Papa João Paulo II, em dois momentos lhe perguntou a idade e se já tinha feito a Primeira Comunhão.

A biografia revela as origens humildes do Cardeal Tagle, da sua ascendência filipina e chinesa, abarcando a cultura das Filipinas, mas a abertura ao mundo chinês e ao mundo ocidental. Os estudos nos EUA deram-lhe outra perspetiva mais universal da cultura, da religião, do cristianismo, mas simultaneamente, como filipino, pode dar um contributo para a vivência cristã, o testemunho de vida num mundo de muitas dificuldades, o diálogo e a combatividade com os as autoridades locais, a teologia da libertação vista a partir das Filipinas, numa libertação sobretudo ideológica. As dificuldades do povo filipino está presente na sua formação, na pastoral de sacerdote e de bispo, alargando-se pelo facto de ter assumido a Presidência da Cáritas Internacional. Está habituado ao contacto com a pobreza e com os pobres, a trabalhar não tanto para eles, mas a trabalhar com eles, já que o próprio partilhou o trabalho para viver com dignidade. Nos EUA teve que ser criativo para conseguir fazer o doutoramento, passando trabalhos a computador, ajudando os párocos, aproveitando as férias não para descansar mas para prover ao necessário para pagar as propinas.

Hoje é uma referência mundial, mas a humildade, o trato fácil, a afabilidade é visível na entrevista e garantida pelos testemunho dos próprios entrevistadores. É também um homem da comunicação, está presente em diversas redes sociais, interagindo com os diocesanos e com pessoas de todo o mundo.

Na despedida "oficial" dos Cardeais ao papa Bento XVI o diálogo entre os dois suscitou o riso, pelo que os outros cardeais quiseram saber que palavras trocaram. Segredo pontíficio! Revelando um grande humor. Foi oicasião para o Cardeal lembrar ao papa Bento XVI que afinal já tinha feito a Primeira Comunhão.

03.12.17

Leitura: ANDREA MONDA - BENDITA HUMILDADE

mpgpadre

ANDREA MONDA (2012). Bendita Humildade. O estilo simples de Joseph Ratzinger. Prior Velho: Paulinas Editora. 176 páginas.

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 No dia 10 de novembro (2017), desloquei-me com três amigos sacerdotes, o Giroto, o Diamantino e o Diogo à VIII Jornada de Teologia Prática na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, e um dos conferencistas era precisamente o italiano Andrea Monda, testemunhando o anúncio do Evangelho às gerações atuais. O professor Andrea Monda leciona o equivalente a EMRC, tem um programa na TV2000, num formato semelhante a uma aula de 25 minutos, interagindo com a turma.

Bastava o livro ser referido a Bento XVI / Joseph Ratzinger para me despertar o interesse, mas a conferência de Andrea Monda despertou-me mais o interesse. Mas como digo, bastava ser uma obra sobre Joseph Ratzinger, que já o lia e estudava, para uma ou outra disciplina de Teologia, longe do tempo em que viria a ser eleito Papa. O testemunho da D. Fernanda, que dedicou uma parte importante da sua vida ao Seminário de Lamego, aquando uma missão em Roma, era que àquele Cardeal era muito afável, muito simpático e atencioso, muito simples e muito humano. São características que Andrea Monda também descobrir, sem precisar de muito esforço, bastando o encontro com Bento XVI e os milhentos testemunhos dados por quem conviveu ou convive com o agora Papa Emérito.

O autor mostra que este Homem de Deus, simples, afável, de fácil trato, que olha as pessoas olhos nos olhos, com um olhar profundo e interpelante, atento aos interlecutores, não foi uma novida, sempre foi assim, como seminarista, como padre, como Bispo, como professor, como Prefeito da Congregação para a Doutrina na Fé (ex-Santo Ofício). A comunicação social, desde a primeira hora, não lhe concedeu qualquer interregno de simpatia, pois sendo já conhecido, agora era tempo de levantar suspeitas, insinuações, colocando com rótulos, com preconceitos, pelo facto de ser alemão e pelo facto de ter sido durante tantos anos o fiel guardador da fé, da doutrina católica, como se isso fosse um crime.

Segundo o autor, a HUMILDADE é uma palavra que marca a vida de Joseph Ratzinger / Bento XVI, nas diferentes etapas da vida, como sacerdote, como professor, como Bispo, Cardeal e Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, como Papa. Numa biografia do atual Papa Francisco é sublinha a atenção e o cuidado com que o então Cardeal Ratizinger tratava as pessoas que encontrava, com atenção, colocando-se ao mesmo nível da pessoa. Era um dos poucos cardeais, consta, que não tratava o então Cardeal Jorge Mario Bergoglio com sobranceria, como um Cardeal das periferias, como fazia outras eminências, mas de igual para igual, com respeito, deferência, respeito e simpatia.

É uma humildade assente na verdade, sobretudo a Verdade do Evangelho. A fé é antes de mais um encontro com Jesus. Humildade que assenta na transparência, na comunhão com a Igreja, em comunhão com a "maioria" formada pelos santos. Uma humildade caracterizada pela simplicidade. Basta recordar a primeira vez que apareceu na varanda pontifícia como Papa, o simples servidor da vinha do Senhor, com uma camisola preta, normal, debaixo da batina branca. Mais tarde confessará q dificuldade em usar botões de punho.

Como Prefeito era conhecida a rotina que mantinha, manhã cedo e no final do dia, atravessava a praça de São Pedro, com uma boina na cabeça, sempre disponível para quem se aproximava. Por vezes fazia-se acompanhar por gatos. Sempre cordial e simples. Já como professora passava como segundo ou terceiro coadjutor de uma paróquia de cidade, tal a simplicidade com que interagia com os alunos, nesse caso. Permaneceu sempre assim, simples, cordato e acessível, um sacerdote a caminho, que se move em direção aos outros, colocando-se sempre ao nível dos seus interlecutores.

"Se João Paulo II foi definido como «o pároco do mundo», nesta aceção de simplicidade e humildade, pode-se tranquilamente definir Bento XVI como «coadjutor paroquial do mundo»... Em Bona, Ratzinger podia andar a pé, em Munique, como jovem sacerdote, andava de bicicleta de um lado para o outro, em Tubinga, voltou a recorrer às duas rodas".

A sua vida é marcada pela renúncia. O autor apresenta essa característica fundamental antes de se sonhar que o Papa bávaro iria renunciar ao pontificado, assumindo-se como simples Padre Bento (terá sido essa a designação que propôs usar depois da renúncia). Humildade obediente. Outros foram conduzindo o seu percurso. Vai numa direção e de repente alguém o desafia para outra missão, sempre com o sentido de obediência aos seus superiores.

Como teólogo marcante, o próprio confessou que nunca se propôs apresentar/criar uma linha teológica, mas aprofundar a teologia dentro da comunidade, da Igreja, em comunhão com o testemunho dos santos, uma teologia de joelhos.

"A verdadeira grandeza de homem reside na sua humildade". É uma caracterização que lhe assenta bem. Numa das catequeses, ao apresentar a figura do Papa Gregório Magno, quase poderia falar de si mesmo, lembrando como o monge que se tornou Papa "procurou de todos os modos evitar aquela nomeação; mas, no fim, teve de render-se e, tendo deixado pesarosamente o claustro, dedicou-se à comunidade, consciente de cumprir um dever e de ser simples 'servo dos servos de Deus'".

"Todas as pessoas que de algum modo se encontraram com Joseph-Bento, «ao vivo», puderam constatar a doçura deste homem simples e dialogante, sem traços de altivez nem de afetação... ele é o primeiro a movimentar-se e ir ao encontro dos outros, pondo-se ao seu nível, delicadamente".

Um dos aspetos relevantes do autor - tendo em conta os 24 anos de Joseph na Congregação responsável por ajudar o Papa e a Igreja a manter-se fiel a Jesus Cristo e ao Evangelho, ao nível dos princípios e das palavras em cada tempo -, o dogma! O dogma é o que nos liberta e nos ajuda a viver em dinâmica de amor. «Se na Igreja existem os dogmas, é para que ninguém se engane sobre o amor. Eles expõem-se à acusação de ideologia: na realidade, têm por efeito impedir que o amor seja transformado em ideologia».

 

BENTO XVI: «Deus não nos deixa tatear na escuridão. Mostrou-se como homem. Ele é tão grande que pode permitir-se tornar-se pequeníssimo».

02.12.17

Acautelai-vos e vigiai...

mpgpadre

1 – Iniciamos um novo ano litúrgico com o 1.º Domingo do Advento. A palavra-chave – VIGIAI – esteve presente nos últimos dias do ano litúrgico que finalizou.

A nossa vida é como uma bola de neve, acrescentamos coisas novas e largamos outras pelo caminho. Por vezes, excluímos o que entendemos ser-nos prejudicial, outras vezes não temos força para deitar fora o que nos faz sofrer e, por vezes, é bom que o que nos faz sofrer esteja presente como memória, como desafio, como gratidão.

Algumas vezes colocam-se à bola de neve – a nós – os desperdícios dos outros, outras vezes o caminho percorrido atrai e cola detritos inúteis. A acumulação de situações, momentos, alegrias, sofrimentos, tornam a bola maior, mas não necessariamente mais pesada. Uma bola de neve pode ficar descompensada, desequilibrada, torta ou bastante perto de ser redondinha.

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2 – «Acautelai-vos e vigiai, porque não sabeis quando chegará o momento». A vigilância não é uma atitude passiva, indiferente ao tempo que passa. Faz-nos arregaçar as mangas e deitar mãos à obra.

Voltemos à imagem da bola de neve. Por um lado, tal como a bola da neve também a leveza da nossa vida depende de circunstâncias interiores e exteriores. Mas como a bola de neve não tem consciência nem vontade própria fica mais dependente dos declives do terreno. O seu tamanho e a sua forma, mais redonda ou achatada, influenciam o seu avanço… A bola de neve pode encontrar grandes obstáculos e superá-los num terreno mais inclinado ou pela consistência e tamanho fazendo resvalar e contornar ou passar por cima…

Como temos vida interior e consciência do que somos, vontade e capacidade de discernir e noção das nossas capacidades e limitações, não somos simplesmente bolas de neve que deslizam como se fôramos meros espetadores do que se desenrola à nossa volta. Não. Nem pensar. Deus chama-nos à vida e confia-nos o mundo inteiro, confia-nos a vida e sobretudo a vida humana. Guiamos a bola de neve a partir do interior mas sujeitos à temperatura exterior, à consistência da neve e do entulho que vamos acumulando, ao declive do terreno e da vida!

Sim, mas como a bola de neve também podemos confiar-nos a Deus e deixarmo-nos guiar por Ele, pela Sua mão, pela Sua vontade.

 

3 – Temos presente as parábolas que escutámos nos domingos anteriores: dos talentos e das 10 virgens que acompanharão o esposo até ao banquete (Mt 25, 1-30). Aí está o entrelaçamento entre o final do ano litúrgico e o início deste novo ano. O reino de Deus é comparável a um nobre que partiu em viagem para ser coroado como rei e confiou os seus bens aos seus servos. Quando chegou de viagem alguns apresentaram-lhe os bem multiplicados… Na Parábola das virgens, 5 delas prepararam-se, preveniram-se com azeite nas lamparinas e nas almotolias…

A parábola de hoje inscreve-se nesta dinâmica. «Um homem partiu de viagem... e deu plenos poderes aos seus servos, atribuindo a cada um a sua tarefa, e mandou ao porteiro que vigiasse».

Deus não parte de viagem, permanece sempre perto de nós. Todavia, dá-nos plenos poderes para administrarmos o mundo. Cada um com os seus dons e talentos. Um dia este Senhor há de chegar para nos pedir contas dos nossos irmãos, sobretudo o cuidado que prestamos aos mais pequeninos (Mt 25, 31-46. Não sabemos o dia nem a hora em que virá o dono da casa: «se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se de manhãzinha». E se vier e nos encontrar a dormir? Poderá chegar inesperadamente. Jesus coloca-nos de sobreaviso: «O que vos digo a vós, digo-o a todos: Vigiai!».

Este é também o desafio da primeira oração da Eucaristia: «Despertai, Senhor, nos vossos fiéis a vontade firme de se prepararem, pela prática das boas obras, para ir ao encontro de Cristo, de modo que, chamados um dia à sua direita, mereçam alcançar o reino dos Céus». Uma espera que se concretizará na prática do bem.


Textos para a Eucaristia (ano B): Is 63, 16b-17. 19b; 64, 2b-7: Sl 79 (80); 1 Cor 1, 3-9; Mc 13, 33-37.

26.11.17

Leituras: RANIERO CANTALAMESSA - PARA QUE NADA SE PERCA

mpgpadre

RANIERO CANTALAMESSA (2017). Para que nada se perca. Novos pensamentos sobre o Concílio Vaticano II. Lisboa: Paulus Editora. 128 páginas.

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Raniero Cantalamessa é o Pregador oficial da Casa Pontifícia, há mais de 30 anos, desde 1980. Nos tempos fortes do Advento e da Quaresma, é ele quem, habitualmente, orienta os retiros do Papa, dos Cardeais e de outros signatários da Cúria vaticana. Cantalamessa, italiano, nascido a 22 de julho de 1934, é frade franciscano capuchinho.

No 50.º aniversário do Encerramento do Concílio Ecuménico Vaticano II, o autor teve a ideia de refletir sobre o mesmo nos retiros seguintes a realizar na Casa Pontifícia, Advento (2015) e Quaresma (2016). Muito já se refletiu sobre o Vaticano, Cantalamessa procurou abordar os principais documentos, as quatro Constituições: Lumen Gentium, sobre a Igreja; Sacrosanctum Concilium, sobre a Liturgia; Dei Verbum, sobre a Palavra de Deus, e Gaudium et Spes, sobre a Igreja no mundo, refletindo também sobre o Decreto sobre o Ecumenismo, Unitatis redintegratio.

A reflexão proposta visa uma dinâmica sobretudo espiritual dos documentos, acentuando os compromissos dos cristãos e da Igreja já em andamento ou ainda a cumprir, desafiando-nos de novo a debruçar-nos sobre a riqueza do Concílio e dos documentos gerados para bem da Igreja e do compromisso dos cristãos para este tempo da história, deixando que o Espírito Santo continue a a inspirar-nos para acolhermos e transparecermos Jesus Cristo e assim nos assumirmos, em definitivo, filhos do mesmo Pai.

É um saboroso contributo para viver a fé na e com a Igreja, Corpo de Cristo, do qual somos membros, povo de Deus convocado pela palavra e pela caridade. Fica mais perto de nós o sopro do Espírito Santo que inspirou os Padres conciliares do Vaticano II.

 

Algumas frases sugestivas proferidas pelo autor e agora passadas a livro:

Mérito do então Cardeal Ratzinger ao ter realçado a relação intrínseca entre as duas imagens: «A Igreja é Corpo de Cristo porque é Esposa de Cristo... Corpo de Cristo que é Igreja com o Corpo de Cristo que é a Eucaristia... Sem a Igreja e sem a Eucaristia, Cristo não teria "corpo" no mundo».

«O que conta não é o lugar que ocupo na Igreja, mas o lugar que Cristo ocupa no meu coração!».

«Se a Igreja é o corpo de Cristo, a adesão pessoal a Ele é o único modo de começar, existencialmente, a fazer parte dela».

«Jesus já não é uma personagem, mas uma pessoa; já não é alguém de quem se fala, mas alguém a quem e com quem se pode falar, porque ressuscitado e vivo; já não é apenas uma memória, por mais liturgicamente viva e operante, mas uma presença... A fecundidade da Igreja depende do seu amor a Cristo».

 

«Não nos salvamos pelas boas obras, mas não nos salvamos sem  as boas obras... A criança não pode fazer absolutamente nada para ser concebida no ventre da mãe, precisa do amor de dois progenitores... no entanto, depois de ter nascido, tem de acionar os seus pulmões para respeirar e mamar; em suma tem de fazer alguma coisa, senão a vida que recebeu acabará... a fé sem as obras morre».

«O contrário de santo não é pecador, mas fracassado».

Madre Teresa de Calcutá: «A santidade não é um luxo, é uma necessidade».

 

«É sobretudo quando a oração se torna cansaço e luta que se descobre toda a importância do Espírito Santo para a nossa vida de oração. Então o Espírito Santo torna-se a força da nossa oração 'débil', a luz da nossa oração extinta; numa palavra, a alma da nossa oração. Na verdade, Ele 'irriga o que é árido'... O fosso que existe entre nós e o Jesus da história é preenchido pelo Espírito Santo. Sem Ele, na liturgia tudo é apenas memória; com Ele, tudo também é presença».

 

Santo Inácio de Antioquia: «Que nada se faça sem o teu consentimento; mas tu não faças naa se o consentimento de Deus».

 

«Não há missão, nem envio, sem uma prévia saída. Falamos frequentemente de uma Igreja 'em saída'. Mas devemos dar-nos conta  de que a primeira porta que temos de sair não é da Igreja,da comunidade, das instituições ou das sacristias; é a do nosso 'eu'. O Papa Francisco explicou-o muito bem em determinada ocasião: 'Estar em saída - dizia - significa antes de tudo sair do centro para deixar no centro o lugar a Deus'».

«Antes de ferir os ouvintes, a palavra deve ferir o anunciador, mostrar-lhe o seu pecado e impeli-lo à conversão».

«Quanto mais aumenta o volume da atividade, tanto mais deve aumentar  o volume da oração».

«A palavra não faltará, certamente, porque, ao contrário, quanto menos se ora, mais se fala, mas são palavras ocas, que não chegam a ninguém».

«O Evangelho do amor só se pode anunciar por amor. Se não nos esforçarmos por amar as pessoas que temos diante de nós, as palavras transformam-se-nos facilmente nas mãos em pedras que ferem e das quais nos protegemos como nos protegemos de uma saraivada».

«É preciso amar Jesus, porque só quem está apaixonado por Jesus pode proclamá-l'O ao mundo com íntima convicção. Só se fala com entusiasmo daquilo por que se está apaixonado. Quando, no anunciador, existe o amor também existe a alegria, o que é o fator determinante para o sucesso do anúncio».

 

«Abrir-se ao outro sexo é o primeiro passo para se abrir ao outro que é o próximo, até ao Outro com maiúscula que é Deus. O matrimónio nasce no sinal da humildade; é o reconhecimento de dependência e, portanto, da própria condição de criatura. Apaixonar-se por uma mulher ou por um homem é fazer o ato mais radical de humildade. É fazer-se mendigo e dizer ao outro: 'Não e basto a mim mesmo, preciso do teu ser'... Diante de Deus, podemos dizer que a sexualidade humana é a primeira escola de religião».

«O predomínio do homem sobre a mulher faz parte do pecado do homem, não do projeto de Deus».

«Deus é amor e o amor exige comunhão, permuta interpessoal; requer que haja um 'eu' e um 'tu'. Não há amor que não seja amor por alguém; onde só há um sujeito não pode haver amor, mas apenas egoísmo ou narcisismo. Onde Deus é concebido como Lei ou como Poder absoluto não há necessidade de uma pluralidade de pessoas... O Deus revelado por Jesus Cristo é amor, é único e só, mas não é solitário; é uno e trino...».

25.11.17

Solenidade de Cristo Rei do Universo - ano A - 2017

mpgpadre

1 – Um Rei que vem para servir. Um reino cuja marca registada é o amor, o serviço, a caridade, a atenção e o cuidado aos mais pequeninos. Um Reino frágil que assenta os seus pilares na bondade, na misericórdia e na ternura. Não tem armas nem exércitos treinados. Não tem mestres nem comandantes. Um reino forte porque não está dependente de negociatas ou de equilíbrios de poder, não vive para agradar mas para cuidar, sempre, em todas as circunstâncias.

A Sua coroa é tecida de espinhos, de amor, de compaixão e de delicadeza. O Seu trono é uma "abençoada" Cruz. Melhor, é a vontade do Pai. É um Rei obediente, até à morte e morte de Cruz. Governa transparecendo as palavras e as obras do Pai. A sua fragilidade é o amor. A Sua grandeza é o amor que ama e que se gasta a favor de todos, a começar pelos últimos.

Este é o nosso Rei, é Jesus, o Filho Bem-amado do Pai que nos resgata do egoísmo, das trevas e da morte e nos assume como irmãos. Agora temos Pai, não somos órfãos. Nunca mais seremos órfãos. Temos Pai, sabendo que no final de tudo seremos julgamos, não por um Juiz distante, imparcial e frio, mas pela misericórdia do Pai, através do Filho, no Espírito Santo.

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2 – Esse dia, tremendo e sobretudo glorioso, chegará para todos, como um ladrão noturno, como temos vindo a ouvir no Evangelho mateano. Assusta-nos? Sim, todo o fim nos assusta. Vamos andando, mas e depois, o que virá depois? Como será o nosso encontro com o Rei? Será Juiz ou será Pai?

 

3 – A última chamada acontece todos os dias para 175 mil pessoas. Qualquer dia será a nossa vez. Como lidamos com esta certeza? E se fosse hoje o nosso dia? Como estamos a preparar-nos?

Jesus alerta-nos que o Filho do homem virá em glória, com todos os Seus Anjos e todas as nações serão levadas à Sua presença. Será a hora de separar as ovelhas dos cabritos.

É a fé que nos salva, que nos predispõe para amar, servir e perdoar, dilata o nosso coração para acolher Deus e nos acolhermos ao Coração de Deus. Mas, chegados aqui, o caminho não termina! Está só no começo, em Deus, temos o mundo todo para cuidar. Não é tarefa de um dia. Não é tarefa para uma só pessoa. É para todos os dias, é missão de todos. A mim e a ti cabe começar, semeando migalhas de esperança e de alegria, levando Deus a toda a parte, a todas as pessoas que encontrarmos, a todas as horas do dia.

«Vinde, benditos de meu Pai; recebei como herança o reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-Me de beber; era peregrino e Me recolhestes; não tinha roupa e Me vestistes; estive doente e viestes visitar-Me; estava na prisão e fostes ver-Me». Mas quando é que isso aconteceu? «Quantas vezes o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes». Não vivemos às escuras, a luz da fé, a luz de Jesus ilumina o nosso peregrinar.

Em contraponto, se recusarmos a luz que vem de Deus e nos esquecermos da nossa origem e da nossa meta, da nossa missão no mundo e do sentido da nossa vida, então as contas a ajustar serão diferentes: «Afastai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o Diabo e os seus anjos. Porque tive fome e não Me destes de comer; tive sede e não Me destes de beber; era peregrino e não Me recolhestes; estava sem roupa e não Me vestistes; estive doente e na prisão e não Me fostes visitar». Quando é que isso aconteceu? Quando nos esquecemos de Deus nos irmãos mais necessitados: «Quantas vezes o deixastes de fazer a um dos meus irmãos mais pequeninos, também a Mim o deixastes de fazer».

Antes do fim, que não sabemos quando, existe o tempo que Deus nos dá, confiando-nos os outros e este mundo grande e belo. Não podemos simplesmente ignorar! Estas palavras são para nós, para mim e para ti. Não assobiemos para o lado! Só temos uma vida e não sete como os gatos!


Textos para a Eucaristia (ano A): Ez 34, 11-12. 15-17; Sl 22 (23); 1 Cor 15, 20-26.28; Mt 25, 31-46.

06.11.17

Leituras: HARUKI MURAKAMI - HOMENS SEM MULHERES

mpgpadre

HARUKI MURAKAMI (2017). Homens sem mulheres. Alfragide: Casa das Letras. 256 páginas

Murakami_Homens_sem_Mulheres.jpg

Para mim este é um dos escritores de eleição. Ainda não foi, mas deveria ser Prémio Nobel da Literatura. É genial. É um nato contador de estórias. Dentro de cada histórias, muitas peripécias, comparações, metáforas, evocando a música, a dimensão religiosa, a noite, o universo, o desconhecido.

Parece que a imaginação não se esgota. Uma linguagem acessível. Diria que ao correr da pena. Mas sempre a surpreender. Li vários livros de Murakami, todos os que conheço. Cada vez que um novo livro dá à estampa procuro de imediato adquiri-lo e lê-lo.

7 contos: Drive my car, Yesterday, Um órgão independente, Xerazade, Kino, Sansa Apaixonado, Homens sem Mulheres. Este último dá título ao conjunto, dizendo-nos o autor que um dia o próprio leitor será um homem sem mulher. O enredo colocado em cada conto faz-nos sentir dentro da história ou pelo menos com essa possibilidade, mas como em todos os livros do autor há fenómenos estranhos: uma gata que aparece no bar e desaparece sem dizer desta água vai, serpentes que se aproximam do salgueiro, tendo que o personagem principal fechar o bar até que a poeira assente ou tudo volte ao normal, mesmo que não saiba o que vai acontecer e o que significa voltar ao normal.

Quando se lê e quem gosta de ler Murakami, gosta que as estórias e a história continue, por muito tempo. É uma leitura envolvente do princípio ao fim, com vidas que se encaminham para um ideal, outras que ficam a meio caminho e outras que nem sim nem sopas! Como a vida.

Um dos comentários ao autor: «Se a literatura fosse como o boxe, Murakami teria o mais precioso dos dons: a capacidade de desferrar um soco que deixa o adversário KO quando menos espera» (Corriere della Sera).

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