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16.11.13

Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas

mpgpadre

       1 – «Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas».

       Deus vê o interior, não julga aparências nem ilusões. O Evangelho deste XXXIII Domingo do Tempo Comum traz-nos o olhar de Jesus que trespassa as pedras grossas e imponentes do Templo de Jerusalém e vai para além das vistas curtas que olham para as piedosas ofertas. «Dias virão em que, de tudo o que estais a ver, não ficará pedra sobre pedra: tudo será destruído».

       Discípulos e multidão ficam atónitos diante das palavras de Jesus. Como é que o majestoso edifício poderá em breve ruir? Porém, isso não preocupa Jesus, pois é uma ruína exterior, é pedra, é ouro e prata, não toca a alma do ser humano, ainda que tenha resultado do esforço e do sacrifício, e da religiosidade simples e generosa de muita gente. O que O preocupa é a vida, o interior, a pessoa. Perante o descalabro daquilo que nos rodeia pode advir o desespero. As dificuldades existem. Sempre existiram e hão de continuar a persistir. “Os desertos exteriores multiplicam-se no mundo, porque os desertos interiores tornaram-se tão amplos” (Bento XVI, em 24/4/2005).

       Jesus prepara-nos para esses dias, prevenindo-nos, dando-nos confiança: «Tende cuidado... Haverá fenómenos espantosos e grandes sinais no céu... deitar-vos-ão as mãos e hão de perseguir-vos… Tereis ocasião de dar testemunho. Eu vos darei língua e sabedoria a que nenhum dos vossos adversários poderá resistir ou contradizer. Causarão a morte a alguns de vós e todos vos odiarão por causa do meu nome; mas nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá».

       2 – «Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas... nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá».

       Parece um exemplo caricato, tendo em conta que basta repararmos nas cabeças dos que estão à nossa beira para logo vermos que muitos já muitos cabelos perderam. Contudo, Jesus mostra com delicadeza e de forma simples que mesmo as pequenas coisas contam para Deus, ainda que pareçam insignificantes ou passem despercebidas.

       No Dia do Exército, a 28 de outubro, em Lamego, D. António Couto, na homilia, deixava-nos este sublinhado lapidar: “Rezar não é para beatos e beatas de trazer por casa. Rezar é para militares e militantes. Rezar é um ato de verdade e de coragem, que implica o máximo risco. Trata-se, no fortíssimo dizer de Jeremias, de «empenhar [ou penhorar] o coração» (Jer 30,21)”.

       Assim a oração, assim a fé. A fé exige pessoas corajosas, valentes, capazes de lutar e discutir com Deus.

       Perante os reveses da vida não é fácil suportar a paciência e a alegria da fé. Há dias que apetece desistir, protestar com Deus, questionar a Sua proximidade e o Seu amor por nós.

 

       3 – «Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas».

       Vale a pena reler, a propósito, duas intervenções, respetivamente, do Papa Bento XVI e do Papa Francisco.

       Aos jovens, em 2011, Bento XVI contrapõe a Luz da Fé às trevas e à escuridão: «Ao nosso redor pode haver a escuridão e as trevas, e todavia vemos uma luz: uma chama pequena, minúscula, que é mais forte do que a escuridão, aparentemente tão poderosa e insuperável. Cristo, que ressuscitou dos mortos, brilha neste mundo, e fá-lo de modo mais claro precisamente onde tudo, segundo o juízo humano, parece lúgubre e sem esperança. Ele venceu a morte – Ele vive – e a fé n’Ele penetra, como uma pequena luz, tudo o que é escuro e ameaçador. Certamente quem acredita em Jesus não é quem vê sempre só o sol na vida, como se fosse possível poupar-lhe sofrimentos e dificuldades, mas há sempre uma luz clara que lhe indica um caminho, o caminho que conduz à vida em abundância (cf. Jo 10, 10). Os olhos de quem acredita em Cristo vislumbram, mesmo na noite mais escura, uma luz e veem já o fulgor dum novo dia».

       Na sua primeira Carta Encíclica, Lumen Fidei (A Luz da Fé), o Papa Francisco assume a reflexão do Seu predecessor, ultrapassando o preconceito que olha para a fé como algo obscuro que impede pleno acesso à razão iluminada. A fé, com efeito, é Logos, Palavra encarnada, razão, dá sentido à vida, e onde muitas vezes a razão não chega, «a fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho».


Textos para a Eucaristia (ano C): Mal 3, 19-20a; Sl 97 (98); 2 Tes 3, 7-12; Lc 21, 5-19

 

 

(Para refletir, e para preparar e/ou acrescentar à homilia, uma pequena história: clique AQUI)

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