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09.07.11

O Semeador saiu a semear...

mpgpadre

        1 – Naquele tempo, Jesus com os seus discípulos, frente a uma grande multidão, que constantemente surgia na Sua presença, começou a ensinar, usando diversas parábolas. A parábola, proposta neste domingo – "O Semeador que saiu a semear" –, é extraordinária, de uma beleza contagiante, e com uma mensagem provocante, envolvente, comovedora.

       Ouçamo-la do próprio Jesus: “Saiu o semeador a semear. Quando semeava, caíram algumas sementes ao longo do caminho: vieram as aves e comeram-nas. Outras caíram em sítios pedregosos, onde não havia muita terra, e logo nasceram porque a terra era pouco profunda; mas depois de nascer o sol, queimaram-se e secaram, por não terem raiz. Outras caíram entre espinhos e os espinhos cresceram e afogaram-nas. Outras caíram em boa terra e deram fruto: umas, cem; outras, sessenta; outras, trinta por um".

        E se noutras parábolas temos que encontrar uma explicação, nesta o próprio Jesus no-la apresenta: "Quando um homem ouve a palavra do reino e não a compreende, vem o Maligno e arrebata o que foi semeado no seu coração. Este é o que recebeu a semente ao longo do caminho. Aquele que recebeu a semente em sítios pedregosos é o que ouve a palavra e a acolhe de momento, mas não tem raiz em si mesmo, porque é inconstante, e, ao chegar a tribulação ou a perseguição por causa da palavra, sucumbe logo. Aquele que recebeu a semente entre espinhos é o que ouve a palavra, mas os cuidados deste mundo e a sedução da riqueza sufocam a palavra, que assim não dá fruto. E aquele que recebeu a palavra em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende. Esse dá fruto, produz ora cem, ora sessenta, ora trinta por um”.

       2 – Fácil de entender a parábola. Mais fácil se torna com a explicação de Jesus.

Tradicionalmente, os diferentes terrenos seriam diferentes pessoas. Mas não é descabido pensar que cada um de nós, em diferentes épocas da sua vida, passa por diversas fases, umas vezes é terreno fértil, outras, pedregoso, outras vezes, terra com muitos espinhos.

       Por vezes as circunstâncias da vida deixam-nos sem paciência para escutar. Fechamo-nos. Não queremos ouvir. Não queremos que nos macem. Isolámo-nos

       Outras vezes, escutámos a Palavra de Deus e a voz da nossa consciência que nos atrai para Deus, mas temos muitas urgências: decidir, fazer, comprar, sair, divertir, encontros e mais encontros, festas, compromissos inadiáveis, muito trabalho... e não temos tempo nem para nós, nem para os outros, nem para a família, nem para viver com alegria e generosidade.

       Por vezes até gostaríamos de fazer diferente, comprometermo-nos mais, mas falta a coragem. Outras vezes, deixamos que outros façam. Outras vezes, vamos com a corrente...

       Mas também sabemos ser, e também somos, em muitas situações, terreno fértil, onde a Palavra de Deus germina e dá fruto em abundância.

 

       3 – O profeta Isaías utiliza a mesma imagem de Jesus, dizendo que a semente sempre produz, como a Palavra de Deus sempre germina e dá fruto. Vejamos o que nos diz o Senhor: “Assim como a chuva e a neve que descem do céu não voltam para lá sem terem regado a terra, sem a terem fecundado e feito produzir, para que dê a semente ao semeador e o pão para comer, assim a palavra que sai da minha boca não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a minha vontade, sem ter realizado a sua missão”.

       A vida (e o mundo) conta connosco. Deus conta connosco. Ou passamos pela vida como espectadores passivos, ou tornamo-nos actores, protagonistas da nossa história e agentes de transformação do mundo em que nos inserimos, na família, na comunidade, na nossa rua, na nossa freguesia, no nosso país.

       Cruzarmos os braços de pouco adianta como não adianta passarmos o tempo a lamentar-nos, a achar que poderíamos ter feito diferente, ou que aquele ou aquela deveriam ter feito assim ou assado, ou que não temos jeito, ou temos jeito mas não temos tempo, ou não temos oportunidade. A vida continua... connosco, ou sem nós. A escolha é nossa. Deixamos passar a vida por nós? Ou vivemo-la com garra, com paixão, com alegria?

 

       4 – O nosso compromisso cristão é com o tempo presente e com este mundo. Regámos a semente que germina em nós, a Palavra que gera vida, a presença de Deus que nos envolve com a transformação do mundo, certos que o nosso esforço e a nossa dedicação, dando o melhor de nós mesmos, como Jesus constantemente nos desafia, contribuirá para que este mundo seja habitável e se torna casa de todos.

       Mas nada somos sem a força do Espírito, o discernimento da Sua graça em nós, que nos permite viver na verdade e no bem. Neste tempo e até à eternidade. Para já estamos como que em trabalho de parto, na alegria e na confiança que é Deus que guia a História, experimentando, porém, a fragilidade e a finitude, o que, por vezes, nos pode trazer sofrimento, por ainda não vermos claramente os frutos do Espírito de Deus.

       Mas ouçamos a voz reconfortante do Apóstolo: "Eu penso que os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória que se há-de manifestar em nós... Sabemos que toda a criatura geme ainda agora e sofre as dores da maternidade. E não só ela, mas também nós, que possuímos as primícias do Espírito, gememos interiormente, esperando a adopção filial e a libertação do nosso corpo".

       Vivemos nesta tensão escatológica entre o já da salvação que se opera em Cristo, através do Seu Espírito de Amor, e o ainda não da glória definitiva junto de Deus na eternidade. Mas é uma tensão saudável, que nos atrai para Deus, mas que nos engloba no todo da humanidade.


Textos para a Eucaristia (ano A): Is 55,10-11; Rom 8,18-23; Mt 13,1-23.

 

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