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...espaço de discussão, de formação, de cultura, de curiosidades, de interacção. Poderemos estar mais próximos. Deus seja a nossa Esperança e a nossa Alegria...

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29.08.16

HARUKI MURAKAMI - Ouve a Canção do Vento | Flíper, 1973

mpgpadre
HARUKI MURAKAMI (2016). Ouve a Canção do Vento (138 páginas) e Flíper, 1973 (176 páginas). Alfragide: Casa das Letras.

Haruki_Murakami.jpg

Para mim, claro, este é uma dos escritores atuais mais criativos, com uma imaginação extraordiária, criando histórias, imagens, sobreposição de perosnagens, que atravessam os seus livros, uma linguagem simples, acessível, recurso a contos, provérbios orientais e ocidentais, máximas. O facto de ser uma japonês a viver nos Estados Unidos permite a assunção de culturas diferentes, com os valores ocidentais mas também com as raízes orientais.
Os livros nascem na vida de Murakami naturalmente.
 
Casa, começa a trabalhar e só depois a conclusão da licenciatura. Louco por jazz, abre um bar. Com a esposa, acumula trabalhos para fazer face aos gastos e às despesas. Aqui e além recorrem a amigos e familiares para obterem alguns empréstimos.
 
Refere o próprio:
"Era jovem, estava nas melhores condições físicas, passava o tempo a ouvir a música de que mais gostava e era dono do meu (pequeno) negócio... Além do mais, oportunidades de encontrar gente interessante era coisa que não faltava... Olhando para trás, lembro-me sobretudo de ter trabalhado desalmadamente. Na altura em que a maior parte dos jovens da nossa idade anda na boa-vai-ela, não me sobrava tempo nem dinheiropara «gozar a juventude». Apesar disso, sempre que arranjava um brecha, pegava num livro e paroveitava para ler. A par da música, a leitura era o que mais gozo me dava... Estava já perto dos trinta anos quando o nosso bar de jazz de Sendagaya começou a dar sinais de  estabilidade financeira... Numa tarde luminosa de abril, corria o ano de 1978, fui ver um jogo de basebol ao estádio de Jingü-kyüjö... Na segunda parte da primeira entrada, quando Sotokoba realizou o primeiro lançamento, Hilton, numa bela jogada, bateu a bola para a esquerda e conseguiu chegar à segunda base. O som nítido e poderoso do taco a bater na bola ressuou por todo o estádio de Jingü-kyüjö e ouviu-se meia dúzia de aplausos dispersos. Foi nesse preciso momento, sem que nada o fizesse prever, que pensei para comingo: Acho que sou capaz de escrever um romance".
 
E começava então a escrever-se a vida de um dos mais brilhantes escritores e romancistas do nosso tempo. Murakami tem vindo a ser apontado como Prémio Nóbel da Literatura, mas ainda não foi possível, talvez porque outros valores extra-literários se levantem.
 
Após o jogo comprou uma resma de papel branco e uma caneta de tinta permanente para começar a escrever. Todas as noites, já tarde, depois de chegar a casa, sentava-se na cozinha para escrever. Seis a sete meses seguintes dedicou-se a escrever Ouve a canção do Vento. "É, refere o autor, um texto curto, mais próximo de uma novela do que de um romance propriamente dito". Na primeira versão, leu e não gostou. "Se não és capaz de escrever um bom romance, disse para comigo, o melhor é livrares-te de todas as ideias preconcebidas que alimentas sobre «os romances» e «a literatura» e dar livre curso as teus sentimentos e razões, escrever o que te der na gana".
Murakami_Ouve a Canção do Vento - Flíper 1973.j
Renunciou ao papel e à caneta, "decidi então começar a escrever um romance em língua inglesa, para ver como resultava". Pelo que as frases tinham que ser curtas, traduzindo o mais simples possível as ideias que possuía. "Nascido e criado no Japão, desde pequeno que sempre falei japonês... o meu sistema linguístico está repleto até dizer basta de expressões e de vocábulos japoneses... naquele momento descobri que era capaz de exprimir eficazmente sentimentos e ideias através de um número limitado de palavras e expressões..." Depois arrumou a Olivetti e começou a justar o texto para japonês.
 
"Um domingo de manhã, naquela célebre primavera, recebi uma chamada de um redator que trabalhava na revista lieterária Gunzõ comunicando-me que Ouve a Canção do Vento fazia parte das obras finalistas num concurso literário para novos escritores... Caso não tivesse sido escolhida para integrar a lista dos finalistas ao prémio, a obra poderia desaparecer para sempre. (Convém acrescentar que a revista Gunzõ não tinha por hábito devolver os originais)". Como tinha enviado o único exemplar que possuía! "Foi então que caí em mim: ia ganhar o prémio. Continuaria a escrever e seria escritor... Escrivi Flíper, 1973, no ano seguinte, como uma espécie de continuação de Ouve a Canção do Vento"... Só depois de chegar ao fim de Flíper, 1973 é que tomei a decisão de vender o bar. Transformei-me num escritor a tempo e inteiro e comecei a redigir o meu primeiro romance de fòlego: Em Busca do Carneiro Selvagem".
 
Só passados 37 anos o autor autorizou a publicação destes dois títulos para o Ocidente.
Algumas das imagens, das intuições e do estilo do autor já estão presentes nestes dois escritos.
"Estes dois pequenos romances impressivos, em tom de fábula, que por vezes roçam o surreal pelos laivos de ficção científica que os povoam, abordam o quotidiano de dois jovens - o narrador cujo nome nunca chegamos a conhecer e o seu amigo rato - perpassado por silidão, obsessão e erotismo. Apresentando uma galeria pela qual desfilam uma rapariga com quatro dedos na mão esquerda, um escritor inventado, o dono de um bar que ouve as confissões de todos o que nele buscam refúgio, um par de gémeas e... gatos, estes dois textos contêm o embrião de todas as características que singularizam e atravessam todas as obras-primas de Murakami, incluindo alguns dos seus mais recentes livros".
 
Para outros títulos que recomendei neste blogue: AQUI. Se tivesse que aconselhar um livro, para alguém que ainda não tivesse lido nada de Murakami: Em Busca do Carneiro Selvagem.

29.08.16

Leituras: PABLO d'ORS - Sendino está a morrer

mpgpadre

PABLO d'ORS (2014). Sendino está a morrer. A elegância do adeus. Prior Velho: Paulinas Editora. 80 páginas.

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       Pablo d'Ors nasceu em Madrid em 1963. É sacerdote católico e escritor. É consultor do Pontifico Conselho da Cultura (Vaticano), por designação do Papa Francisco. Fundou a Associação Amigos do Deserto, para viver e aprofundar a prática da meditação. Publicou, entre outros títulos, a triologia do silêncio: O amigo do deserto (2009), O esquecimento de si (2013) e A biografia do Silêncio, que já aqui recomendámos.

       No pequeno livro que agora sugerimos, o autor parte da sua condição de capelão hospitalar, onde encontra a Dra. África Sendino, que lhe pedirá para ajudar a escrever um testemunho sobre a vida, a doença, o sofrimento, a morte e, sobretudo, a fé, a confiança em Deus, a entrega confiante nas mãos do Pai.

       Médica descobre que tem cancro da mama. Começa então um diálogo profundo com Deus. «Fui à capela de Traumatologia e ajoelhei-me - escreve: - "Senhor (rezei), só me ocorre dizer-te que quero que sirva para tua maior glória o que me tocar viver a partir de agora. Tu saberás o caminho que inicias. Tu saberás aonde me conduzes»".

       Pablo d'Ors conhece-a nas últimas semanas de vida e acabará com a missão de escrever o seu testemunho, pegando nas notas que ela vai escrevendo, cada vez com mais dificuldade, menos texto, pouco perceptível. Para o autor, conhecendo e convivendo com Sendino vai tendo a perceção que ela é santa, com as suas imperfeições e limitações, mas também com a sua serenidade e confiança em Deus. "O que a meus olhos faz com que Sendino seja grande não é a morte, mas o morrer, o ir morrendo, o modo de morrer".

       Um dos primeiros aspetos que Pablo d'Ors sublinha é a elegância com que Sendino está deitada na cama do hospital. "Sim, Sendino era bela: tinha um olhar franco e limpo, um sorriso tímido e amável - nunca coquete -, uma pele branca e lisa. umas mãos gráceis - embora grandes - e uma feminilidade totalmente natural, nada importada ou estudada e, por isso, talvez, tão encantadora como desconcertante".

       Outro os aspetos que o autor sublinha é a clareza no falar, exprimindo as ideias de forma consistente, talvez demasiado analítica. Dedicado ao ensino de medicina, facilidade da comunicação oral. Curiosamente, maior dificuldade na escrita.

       Outro dos aspetos relevantes: o seu altíssimo nível espiritual, embora Sendino vivesse a sua fé com descrição. "Viveu a sua doença na perspetiva da Anunciação. Como a Virgem Maria, também ela deu à luz uma criatura: por virtude da graça, Sendino alumiou-se a si mesma para a eternidade. Eu sou testemunha".

        Como confidencia a  Pablo d'Ors, pediram-lhe para escrever sobre a sua enfermidade e, por isso, pede ajuda ao autor. "Nunca vi um processo de declínio e morte tão eloquentemente refletido nas folhinhas que Sendino me entregava sempre que a ia visitar... A progressão do seu cancro não se percebia somente na brevidade dos seus escritos, mas também na sua forma estilística, progressivamente mais frouxa, e até na caligrafia que, no final, era ilegível".

       Dos escritos confiados ao autor: "Chamo-me África Sendino e sou médica internista. Desde que me foi diagnosticado um cancro da mama, fui submetida a um tratamento cirúrgico de quimioterapia e radioterapia. Num sábado apalpo um nódulo e na segunda, às nove, fui recebida pelo patologista. Às nove e um quarto, saio do seu laboratório com um novo panorama vital: tenho cancro. De repente, eu era uma nova personagem: o médico adoece; e, depois, compreendi o que me tocava com a doença (uma conhecida com a qual até então eu tinha lutado diariamente) era dançar com ela. Também me veio à cabeça a imagem das duas margens de um rio. Inesperadamente, sem me consultar, tinham-me passado para a outra margem. Podia chorar, queixar-me, espernear... mas na verdade, o barco já se tinha ido embora. Teria de esperar que chegasse e, entretanto..., era apenas o que poderia fazer! Podia passear naquela margem, por exemplo, contemplar a outra minha nova perpetiva, deter-me tranquilamente diante desse rio, molhar os pés... O doente não deve ser apenas paciente; deve ser o protagonista da sua enfermidade" (Uma das primeiras entradas do diário de Sendino, dia em que lhe detetaram o cancro, 19 de outubro de 1999).

       As notícias que vão chegando não são animadoras. "Quero deixar claro - continua Sendino, quando relata a segunda fase do seu temor - que o facto de a doença pressupor um período de perdas não sentencia irremediavelmente que seja, realmente, um período de perda para mim mesma. Não, de modo nenhum! Mesmo sendo dolorosa a comprovação do fracasso do tratamento para erradicar o tumor, experimentei que a minha recaída tinha algumas vantagens: por exemplo, já não me esperariam tantas novidades, excetuando, naturalmente, a perpetiva de um desenlace final. Então, a morte apresentou-se como uma convidada para a festa".

       Mais adiante: "A doença vai ter connosco onde estamos. Quando me sobreveio a mim, soube que poderia vivê-la como uma circunstância adversa e até certo ponto irritante ou, ao contrário, como uma imensa e imerecida ocasião de aprendizagem. Decidi que a minha perpetiva seria a segunda. O meu primeiro desejo foi percorrer dignamente este caminho em benefício da Igreja. Aceitei ingressar num curso prático de patologia: a doença vivida na minha própria carne. Se superasse o cancro - disse a mim própria -, voltaria enriquecida à prática assistencial. Se saísse com vida, eu seria uma interlocutora vália para os doentes".2016-07-29 14.45.34.jpg

       Sendino apoia-se, para a oração, numa expressão de São Pedro: "Confiai a Deus todas as vossas preocupações, porque Ele tem cuidado de vós" (1 Ped 5, 7). "Desde o princípio da minha enfermidade - escreve neste mesmo sentido - compreendi que a minha forma de encará-la não era o resultado de uma grande fortaleza psicológica, mas um dom estritamente sobrenatural. Desde esse primeiro momento - continua - soube que só tinha um desejo: fazer esta minha peregrinação do melhor modo possível... Os enfermos são um tesouro para a Igreja".

       "O meu maior medo? Que a intensidade do meu sofrimento me tente a não louvar a Deus e a não dar graças ao seu nome. Só peço uma coisa: que a minha enfermidade não em afaste d'Ele; pois, se o fizesse, para quê e a quem serviria?... Aceito ser um despojo. Quero gastar-me e desgastar-me a cumprir a sua vontade".

 

Outro apontamento:

       "Um dos mistérios mais insondáveis da enfermidade é o do tempo: os sãos não têm tempo; em contrapartida, os doentes o que mais têm é precisamente tempo. Um dia pode ser infinito numa cama do hospital. Espera-se durante horas a visita de um médico que dura um minuto. Eu esperei esse médico e, agora, sou essa paciente que espera. Deus quis que eu dedicasse a minha vida a ajudar os outros, mas não quis que me fosse embora deste mundo sem deixar-me ajudar pelos outros. Deixar-se ajudar pressupõe um nível espiritual muito superior ao de simples ajudar. Porque, se ajudar os outros é bom, melhor é ser ocasião para que os outros nos ajudem. Quem se deixa ajudar parece-se mais com Cristo do que quem ajuda. Mas ninguém que não tenha ajudado os seus semelhantes saberá deixar-se ajudar quando chegar o seu momento. Sim, o mais difícil deste mundo é aprender a ser necessitado".

 

Leia entrevista a África Sendino: AQUI.

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