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Escolhas & Percursos

...espaço de discussão, de formação, de cultura, de curiosidades, de interacção. Poderemos estar mais próximos. Deus seja a nossa Esperança e a nossa Alegria...

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31.08.10

O frio que faz cá dentro!...

mpgpadre

        Conta-se que seis homens ficaram presos numa caverna por causa de uma avalanche de neve.Teriam que esperar até o amanhecer para receber socorro. Cada um deles trazia um pouco de lenha e havia uma pequena fogueira ao redor da qual eles se aqueciam.

       Eles sabiam que se o fogo apagasse todos morreriam de frio antes que o dia clareasse.

       Chegou a hora de cada um colocar sua lenha na fogueira. Era a única maneira de poderem sobreviver.

       O primeiro homem era racista. Ele olhou demoradamente para os outros cinco e descobriu que um deles tinha a pele escura. Então, raciocinou consigo mesmo: “aquele negro! Jamais darei minha lenha para aquecer um negro”. E guardou-a protegendo-a dos olhares dos demais.

       O segundo homem era um rico avarento. Estava ali porque esperava receber os juros de uma dívida. Olhou ao redor e viu um homem da montanha que trazia sua pobreza no aspecto rude do semblante e nas roupas velhas e remendadas. Ele calculava o valor da sua lenha e, enquanto sonhava com o seu lucro, pensou: “eu, dar a minha lenha para aquecer um preguiçoso”, nem pensar.

       O terceiro homem era negro. Seus olhos faiscavam de ressentimento. Não havia qualquer sinal de perdão ou de resignação que o sofrimento ensina. Seu pensamento era muito prático: “é bem provável que eu precise desta lenha para me defender. Além disso, eu jamais daria minha lenha para salvar aqueles que me oprimem”. E guardou suas lenhas com cuidado.

       O quarto homem era um pobre da montanha. Ele conhecia mais do que os outros os caminhos, os perigos e os segredos da neve. Este pensou: “esta nevasca pode durar vários dias. Vou guardar minha lenha.”

       O quinto homem parecia alheio a tudo. Era um sonhador. Olhando fixamente para as brasas, nem lhe passou pela cabeça oferecer a lenha que carregava. Ele estava preocupado demais com suas próprias visões (ou alucinações?) para pensar em ser útil.

       O último homem trazia nos vincos da testa e nas palmas calosas das mãos os sinais de uma vida de trabalho. Seu raciocínio era curto e rápido. “esta lenha é minha. Custou o meu trabalho. Não darei a ninguém nem mesmo o menor dos gravetos”.

       Com estes pensamentos, os seis homens permaneceram imóveis. A última brasa da fogueira se cobriu de cinzas e, finalmente apagou.

       - No alvorecer do dia, quando os homens do socorro chegaram à caverna encontraram seis cadáveres congelados, cada qual segurando um feixe de lenha. Olhando para aquele triste quadro, o chefe da equipe de socorro disse: “o frio que os matou não foi o frio de fora, mas o frio de dentro”.

 

Autor Desconhecido, postado a partir do nosso Caritas in Veritate.

30.08.10

A humildade abre-nos aos outros...

mpgpadre

       1 - A arrogância e a prepotência desembocam na destruição e na morte.

       A humildade, ao invés, conduz à abertura aos outros, ao diálogo, ao acolhimento (dos outros e das suas ideias), à generosidade com o semelhante, à partilha solidária, constrói, prepara-nos para a comunhão, para a vida, para nos tornarmos comunidade, povo.

       Olhámos para a história e facilmente constatámos que os grandes homens e mulheres foram pessoas simples, humildes, capazes de ouvir, de corrigir, de aceitar ajuda e de prestar auxílio, pessoas sábias: Madre Teresa de Calcutá, Padre Damião, João Paulo II, Gandhi, Martin Luther King, Pai Américo, São Francisco de Assis, São Domingos de Gusmão, Santo Inácio de Loyola, Santa Teresinha.

       Em contraposição, figuras megalómanas como Hitler, Saddam Hussein, Lenine, Mao Tsé-tung, imperadores romanos, Napoleão Bonaparte, que levaram à destruição da própria vida e da vida de pessoas e/ou povos que deveriam servir.

       Obviamente, e porque a vida não é branco e preto, existem muitas pessoas que se tornaram famosas, geniais, que ajudaram a desenvolver o mundo, em dinâmica de prepotência e egoísmo. Cremos, no entanto, que sob a capa da arrogância houve momentos de humildade e de generosidade, ainda que num sentido geral e a favor da humanidade.

       2 - A liturgia da palavra deste domingo convida à humildade perante o mistério de Deus, na certeza de que Deus Se revela preferentemente aos simples, pois só eles sabem escutar e compreender o mistério insondável da vida e da salvação.

       Jesus, muitas vezes, há-de repetir que Deus Se revela aos pequeninos, dizendo que o reino dos Céus é dos que são como crianças, na simplicidade de coração.

       Uma pessoa arrogante e/ou prepotente centra-se em si mesma, fecha-se aos outros, à novidade de Deus, ao futuro, à esperança, à sabedoria humana e divina. Com efeito, ouvimos na primeira leitura, "a desgraça do soberbo não tem cura, porque a árvore da maldade criou nele raízes. O coração do sábio compreende as máximas do sábio e o ouvido atento alegra-se com a sabedoria".

       Esta humildade exprime-se e pratica-se no dia-a-dia. Diz-nos Jesus, "quando fores convidado para um banquete nupcial, não tomes o primeiro lugar"... pode acontecer que te retirem para um lugar mais distante! "Quando ofereceres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te: ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos". Humildade perante o "Senhor" e humildade, transformada em generosidade, diante dos mais pobres.

 

       3 - O início do caminho faz-se de humildade, que leva à conversão e à sabedoria e que nos torna capazes de Deus.

       A grandeza do mistério de Deus só é compaginável com a humildade de coração.

       "Vós aproximastes-vos do monte Sião, da cidade do Deus vivo, a Jerusalém celeste, de muitos milhares de Anjos em reunião festiva, de uma assembleia de primogénitos inscritos no Céu, de Deus, juiz do universo, dos espíritos dos justos que atingiram a perfeição e de Jesus, mediador da nova aliança" (Segunda Leitura).

       Só com disponibilidade interior nos tornamos dóceis ao Espírito Santo e aptos para a inclusão do mistério de Cristo na nossa vida.

_____________________

Textos para a Eucaristia (ano C): Sir 3,19-21.30-31; Heb 12,18-19.22-24a; Lc 14,1.7-14

 

28.08.10

A Paz que confia em DEUS

mpgpadre

       «O coração alcança paz quando, depois de ter sido ferido ou humilhado, confia a Deus, sem hesitar um instante sequer, aqueles que o feriram ou maltrataram.

 

       Não perdoamos para que o outro mude.

       Seria um acto calculista que nada tem a ver com a gratuidade do amor evangélico.

Perdoamos por causa de Cristo.

Perdoar é ir ao ponto de renunciar saber o que o outro vai fazer desse perdão

 

Irmão Roger, em "Em tudo a paz do coração", in Conhecer e Seguir Jesus.

26.08.10

Pelos mais pobres dos pobres

mpgpadre
       Tudo terá começado em 1946. Conta-se que Madre Teresa viajava de comboio para o convento de Dajeerling, na Índia, quando sentiu um “chamamento dentro do chamamento”, para que se dedicasse a servir os mais pobres.
       Começava ali uma missão a que dedicou a vida. Criou as Missionárias da Caridade, fê-las crescer por todo o mundo e deu-lhes uma simples ideia como guia: que se dedicassem sempre “aos mais pobres dos pobres”. O reconhecimento foi crescendo e atingiu o cume quando lhe foi atribuído o Prémio Nobel da Paz, em 1979.
       Ultrapassou fronteiras, uniu credos e raças e tornou-se um símbolo de rara força em todo o globo. Madre Teresa de Calcutá faria hoje 100 anos. 

Fonte da Notícia e outros Textos e vídeos: Rádio Renascença.

25.08.10

Caminho estreito

mpgpadre

       «Custa a crer que Deus nos revelaria a sua divina presença na vida de autodespojamento e humildade do Homem de Nazaré. Uma grande parte de mim procura influência, poder, sucesso e popularidade. Mas o caminho de Jesus é o do recato, da falta de poder e da pequenez. Não parece um caminho muito atraente. E, no entanto, quando penetrar na verdadeira, profunda comunhão com Jesus, descobrirei que é este caminho estreito que conduz à paz e à alegria verdadeiras.(...)

       Continuo tão dividido. Desejo sinceramente seguir-te, mas quero igualmente seguir os meus próprios desejos e ainda dou ouvidos às vozes que falam de prestígio, de sucesso, de reconhecimento humano, de prazer, de poder e de influência. Ajuda-me a ficar surdo a essas vozes mais atento à tua voz, que me chama a escolher o caminho estreito...

       Em todos os momentos da minha vida tenho que escolher o teu caminho. Tenho de escolher pensamentos que sejam os teus pensamentos, palavras que sejam as tuas palavras e acções que sejam as tuas acções. Não existem nem tempos nem lugares sem escolhas. E eu sei quanto resisto a escolher-te. »

 

Henri Nouwen, em "A caminho de Daybreak", in Conhecer e Seguir Jesus.

24.08.10

Vem, meu amado Rei e Senhor

mpgpadre

Em todo o ser humano existe um recanto imaculado,

virgem, inexplorado, silencioso, profundo...

Em toda criatura permanece um mundo, santo e ignorado,

nunca antes penetrado, aguardando, enriquecido de ternura...

Há, no abismo de toda alma,

um rochedo, um lugar, uma ilha, um paraíso,

recanto de maravilha a ser descoberto...

Em todo coração se demora um espaço aberto para a aurora,

um campo imenso a ser trabalhado,

terra de Deus, lugar de sonho,

reduto para o futuro.

 

Em toda vida há lugar para vidas,

como em toda alegria paira uma suave melancolia prenunciadora de aflição.

 

Há, porém, um lugar em mim,

na ilha dos meus sentimentos não desvelados,

um abismo de espera,

um oceano de alegria,

um mundo de fantasia,

para brindar-Te, meu Senhor!

 

Vem, meu amado Rei e Senhor,

dominar a minha ansiedade,

conduzir-me pela estrada da redenção.

E toma posse deste estranho e solitário país,

reinando nele e o iluminando com as tuas claridades celestes,

para que, feliz, eu avance, até o desfalecer das forças,

no Teu serviço libertador.

 

Vem, meu Rei,

ao meu recanto e faz da minha vida um hino de serviço.

E por Ti uma perene canção de amor.

 

Rabindranath Tagore, in Abrigo dos Sábios.

23.08.10

Saudade é o amor que fica!

mpgpadre

       No início da minha vida profissional, senti-me atraído em tratar crianças e me entusiasmei com a oncologia infantil.

       Nós médicos somos treinados para nos sentirmos "deuses". Só que não o somos! Não acho o sentimento de omnipotência de todo ruim, se bem dosado. É este sentimento que nos ajuda a vencer desafios, a se rebelar contra a morte e a tentar ir sempre mais além. Se mal dosado, porém, este sentimento será de arrogância e prepotência.

Quando perdemos um paciente, voltamos à planície, experimentamos o fracasso e os limites que a ciência nos impõe e entendemos que não somos deuses.

       Recordo-me com emoção do Hospital do Câncer de Pernambuco, onde dei meus primeiros passos como profissional. Nesse hospital, comecei a frequentar a enfermaria infantil, e a me apaixonar pela oncopediatria. Mas também comecei a vivenciar os dramas dos meus pequenos pacientes, que via como vítimas inocentes desta terrível doença que é o câncer.

       Com o nascimento da minha primeira filha, comecei a me acovardar ao ver o sofrimento destas crianças. Até o dia em que um anjo passou por mim.

       Meu anjo era uma criança já com 11 anos, calejada por 2 anos de tratamentos, hospitais, exames e todos os desconfortos trazidos pela quimioterapia e radioterapia. Mas nunca vi meu anjo fraquejar. Já a vi chorar sim, muitas vezes, mas não via fraqueza em seu choro. Via medo em seus olhinhos algumas vezes, e isto é humano! Mas via confiança e determinação.

       Um dia, cheguei ao hospital de manhã cedinho e encontrei meu anjo sozinho no quarto. Perguntei pela mãe e ouvi uma resposta que ainda hoje não consigo contar sem vivenciar profunda emoção.

       Meu anjo respondeu:

       - Tio, às vezes minha mãe sai do quarto para chorar escondido nos corredores. Quando eu morrer, acho que ela vai ficar com muita saudade de mim. Mas eu não tenho medo de morrer, tio. Eu não nasci para esta vida!

       Pensando que crianças assistem seus heróis morrerem e ressuscitarem nos seriados e filmes, indaguei: - E o que morte representa para você, querida?

       - Olha tio, quando a gente é pequena, às vezes, vamos dormir na cama do nosso pai e no outro dia acordamos no nosso quarto, em nossa própria cama não é?

       (Lembrei que minhas filhas costumavam dormir no meu quarto e após dormirem eu procedia exactamente assim.)

       - É isso mesmo, e então?

       - Quando nós dormimos, nosso pai vem e nos leva nos braços para o nosso quarto, para nossa cama, não é?

       - Você é muito esperta!

       - Olha tio, eu não nasci para esta vida! Um dia eu vou dormir e o meu Pai vem me buscar. Vou acordar na casa Dele, na minha vida verdadeira!

       Boquiaberto, não sabia o que dizer. Chocado com o pensamento deste anjinho, com a maturidade que o sofrimento acelerou, com a visão e grande espiritualidade desta criança, fiquei parado, sem acção.

       - E minha mãe vai ficar com muitas saudades minha, emendou ela.

       Emocionado, travado na garganta, perguntei: - E o que saudade significa para você, meu anjo?

       - Não sabe não tio? Saudade é o amor que fica!

       Hoje, aos 53 anos de idade, desafio qualquer um a dar uma definição melhor, mais directa e mais simples para a palavra saudade: é o amor que fica!

       Um anjo passou por mim...

       Foi enviado para me dizer que existe muito mais entre o céu e a terra, do que nos permitimos enxergar. Que geralmente, absolutilizamos tudo que é relativo (carros novos, casas, roupas de grife, jóias) enquanto relativizamos a única coisa absoluta que temos, nossa transcendência.

       Meu anjinho já se foi, há longos anos. Mas deixou uma lição que ajudou a melhorar a minha vida, a tentar ser mais humano e carinhoso com meus doentes, a repensar meus valores.

       Que bom que existe saudade! O amor que ficou é eterno.

 

Rogério Brandão, Médico oncologista, postado a partir do nosso Caritas in Veritate.

20.08.10

Quando nos zangamos por nada!...

mpgpadre

       1 – Muitas vezes zangamo-nos por muito pouco ou mesmo por nada.

       Por uma palavra fora do contexto, por um gesto a mais ou a menos, por uma ideia ou uma perspectiva diversa. Em quantas situações entramos em conflito e acabamos, no final, por nem saber aonde começou, o motivo que o desencadeou, ou como chegamos àquele ponto.

       Acontece-nos a todos. Acontece até estarmos a falar do mesmo, a concordarmos uns com os outros e discutirmos porque utilizamos uma ou outra palavra diferente, ainda que tenha o mesmo sentido.

       A discussão, só por si, não é negativa. Pode ser muito produtiva, ajudar-nos a crescer, a aprender, a caminhar com os outros. E isso acontece também: num primeiro momento barafustamos, e depois a frio verificámos que afinal até podemos não ter a razão toda, ou até ter pouca razão.

       Aqui pode residir a sabedoria, a capacidade de aceitar os limites e de aproveitar o contributo do outro, assentando desde logo que numa discussão partimos todos com a certeza dos nossos pontos de vista. Senão, não haveria discussão!

       Contudo, há discussões e discussões, nem todas têm a mesma amplitude. Umas e outras deixam mazelas e podem afastar-nos para sempre dos outros, quando não admitimos que poderemos estar errados, quando não nos pomos no lugar do outro, vem a altercação e posteriormente a ofensa e a ruptura.

       Por outro lado, o discordar de alguém também não é negativo, é sinal que pensamos por nós e não vamos simplesmente na corrente. O discordamos de alguém não implica ruptura, antes pelo contrário pode ser um motivo extra para conhecermos melhor os outros e enriquecermos o "nosso vocabulário" humano.

 

       2 – A determinada altura da vida, Jesus, na Sua pregação itinerante, apresenta-Se como o Pão da Vida, o alimento para a vida eterna, implica os seus discípulos no confronto com a verdade e a exigência do seguimento. Eles compreendem o alcance das Suas palavras: "Estas palavras são duras. Quem pode escutá-las?" ... "E a partir de então – diz o Evangelho – muitos discípulos afastaram-se e já não andavam com Ele" (Jo 6, 60-69).

       Saliente-se a opção destes discípulos, não concordando deixam o seguimento. A Jesus não se Lhe ouvem palavras de recriminação, tão-somente o acentuar das convicções e das opções dos demais discípulos: "Também vós quereis ir embora?"

       Seria bom reflectirmos sobre isto: a verdade deve libertar-nos sem medo de perdermos os que nos são próximos. Aquela não deve ser desculpa para o afastamento, mas a proximidade também não deve servir de escusa para a verdade. Não devemos aligeirar as nossas convicções somente com receio de incomodarmos os outros, ou pelo desconforto que podem provocar as nossas palavras. Devemos, isso sim, ter a generosidade de afirmarmos o que somos, em todas as circunstâncias, e de admitirmos que os outros também podem ter razão…

 

Editorial, Voz Jovem, n.º 88, Junho 2007

19.08.10

Gestos na Liturgia Católica

mpgpadre

       Falar de gestualidade litúrgica é lembrar-nos de que a nossa natureza humana tem e se exprime "num corpo".

       A gestualidade funda-se biblicamente numa experiência vital de Deus. Hoje para os cristãos esta experiência vital dá-se no interior da comunidade eclesial e na celebração dos sacramentos.

       O gesto coloca o corpo em oração, como pessoa inteira. Com a renovação litúrgica foi reencontrada «a nobre simplicidade dos ritos» (Constituição Litúrgica Sacrosanctum Concilium, n.° 34).

       O gesto é um acto que exprime um estado interior da pessoa. Os gestos na liturgia estão modelados segundo os próprios gestos que Cristo usou. O fundamento dos gestos é o próprio Cristo. Ao pensarmos n'Ele favorece-se o nível máximo de interiorização. Ele assumiu a dimensão da corporei­dade humana, tornando-Se assim a referência de toda a gestualidade litúrgica.

       Narra-nos a Carta aos Hebreus (10,5): «Entrando no mundo, Cristo disse: não quisestes sacrifício nem oblação, mas preparaste-Me um corpo.» É deste núcleo que deriva todo o posterior gesto litúrgico, porque a nossa espiritualidade litúrgica deve ser modelada e orientada sobre a gestualidade de Cristo. Assim, quando rezamos, tentamos imitar todos os gestos corporais da vida de Cristo, que foram muitos e vêm descritos no Evangelho, dando realce especial à Sua "paixão", durante a qual «Ele estendeu as mãos e morreu na cruz».

 

       O sinal é algo sensível que significa ou indica outra realidade ausente ou presente, e informa e orienta.

       O símbolo é uma linguagem muito mais expressiva e rica de co­notações do que simplesmente a falada. Tem uma função mediadora, comunicativa e unificadora. Apoia os fiéis na sua "procura" de Deus. Estabelece uma relação afectiva entre uma pessoa e a realidade pro­funda que não se consegue exprimir bem de outra forma. A liturgia e os costumes cristãos estão cheios de símbolos: a água para o baptismo, o pão para a Eucaristia, o vinho, o gesto de reconciliação, as palavras da absolvição e da consagração, a imposição das mãos, a bênção...

       A seguir descrevemos o significado de alguns gestos que aparecem na celebração eucarística - o sacramento "principal" (porque os sa­cramentos são mais diferentes do que iguais), mais conhecido.

  • De pé: é uma postura que significa a ressurreição de Cristo que se levantou do sepulcro, e que ganhou a liberdade para estar, conforme a sua promessa, em todas as assembleias cristãs. É sinal de atenção, adesão, respeito e disponibilidade. A lição do Evangelho ouve-se sempre "de pé".
  • De joelhos: traduz uma atitude de penitência, de humildade e de oração intensa. Recomenda-se para acompanhara Oração Eucarística, após a aclamação do "santo".
  • A genuflexão: é o gesto de dobrar o joelho direito até ao solo, com perfeição e na vertical. Indica respeito, reverência, adoração. Na Missa é feita pelo sacerdote 3 vezes: na ostensão do pão e do cálice consagrados e antes da Comunhão. Porém, todos os fiéis o devem fazer, com perfeição e calma, quando passam diante do SS.° Sacramento, diante do sacrário, e na procissão do Corpo de Deus. Genuflexões perfeitas são hoje em dia muito raras em Portugal, mas os santos faziam-nas perfeitíssimas, cheios de fé.
  • Sentados: é a postura de quem ensina com autoridade ou de quem escuta com atenção muito especial.
  • Beijo (Abraço da paz): na Missa é um rito antes da Comunhão. Significa concórdia, intimidade, união dos corações e dos ideais.
  • Sinal da Cruz: é uma profissão de fé baptismal, trinitária, identi­ficação com Cristo Crucificado.
  • Bater no peito: sinal de arrependimento e desejo de conversão. Usa-se no acto penitencial no início da Missa.
  • Mãos postas: muitos juntam-lhes também os olhos fechados. Significa intensidade, elevação, oração sincera, recolhida, elevador para a contemplação.
  • Estender os braços: imitação de Cristo que também estendeu os braços para morrer na Cruz.
  • Mãos abertas: louvor, petição, entrega e acolhimento dos dons de Deus.
  • Lava-mãos: sinal de purificação do pecado. Fá-lo o sacerdote antes de oferecer o sacrifício de Cristo e da Igreja.
  • Imposição das mãos: gesto bíblico muito antigo. Usa-se como epiclese (súplica ao Espírito Santo), para consagração de coisas e sobretudo de pessoas.
  • Elevação (a grande): é um gesto novo próprio da Missa, diferente da ostensão e colocado ao fim da Oração Eucarística, antes do Pai Nosso, quando o sacerdote eleva o pão e o vinho, mostrando-os aos fiéis e esperando que estes digam «Amen» em ratificação da oração sacerdotal. Sempre que o sacerdote presta atenção correcta a este rito, como é sua obrigação, revela uma sensível eclesiologia de admirar.
  • Fracção do pão: rito usado pelo próprio Cristo quando celebrava a Eucaristia. Simboliza o amor de entrega de Jesus por nós, e a paz e reconciliação que Ele nos adquiriu e em que nos colocou no decorrer da Santa Missa.
  • Silêncio: é um espaço em que Deus vive e Se manifesta. Cria o ambiente especialmente favorável ao encontro com Ele. Usa-se no espaço sagrado e todo o sacerdote o favorece antes das orações, na Comunhão e nas adorações eucarísticas.
  • Bênção: É "bem-dizer", primeiro a Deus; depois, Deus tem bênçãos espirituais em Cristo para os fiéis, e muitas bênçãos materiais para todas as criaturas.

       Tudo o que se faz e acontece na liturgia exige um entendimento. A catequese litúrgica torna-se cada vez mais necessária, e não admira que tenha sido inculcada pelo próprio Concílio Vaticano II. É uma maneira de se evitar "o adormecimento" ou "o aborrecimento" dos fiéis e de se exibir a "unidade" em Cristo de toda a comunidade cristã. Porque é que muitos em Portugal, especialmente os jovens, e muitos dos quais até costumam ir à Missa, dizem com facilidade que tudo isto «é uma "seca"»? -  Isto apenas traduz o deserto laico, secularizante que hoje se vive. É o baixar dos braços, pior que um freio, à evangelização.

       Há, porém, quem interprete a sua corporeidade precária, com todas as pobrezas que salienta (repetição, cansaço, doença, incomunicabilidade, medo, solidão e morte), como lugar histórico do triunfo de Cristo que vem, qual templo vivente, consagrado pelo Espírito do Filho enviado pelo Pai, ao qual suplicam com veemência: «Até quando; Senhor, Tu que és santo e veraz; até quando não virás para nos fazeres justiça?» (AP 6,10), e, porque se sente Esposa, diz com a voz do Espírito: «Vinde, Senhor Jesus» (AP 22,17.20). É assim que se descobre a profundidade das palavras de Tertuliano: caro salutis cardo (a carne é invólucro da salvação). Assim é, de facto, na "materialidade" dos sacramentos e na pluralidade dos gestos e sinais litúrgicos.

 

Pe. Mário Santos, in Paróquia de Tarouca.

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