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Escolhas & Percursos

...espaço de discussão, de formação, de cultura, de curiosidades, de interacção. Poderemos estar mais próximos. Deus seja a nossa Esperança e a nossa Alegria...

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31.10.25

HARUKI MURAKAMI - ROMANCISTA COMO VOCAÇÃO

mpgpadre

HARUKI MURAKAMI (2024). Romancista como vocação. Alfragide: Casa das Letras. 232 páginas.

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Sobejamente conhecido, Haruki Murakami, tem sido falado, em diversas ocasiões, para possível Prémio Nobel da Literatura, mas têm prevalecido outras opções. Japonês, radicou-se nos EUA. Desafiando-se a escrever num ambiente e para um mundo além-fronteiras, testando o sucesso fora da sua terra natal, de onde sempre colheu muitas críticas, mas onde vendeu generosamente. Procurou um estilo próprio, criando uma linguagem identificável e um discurso que, evoluindo, traz as suas marcas.

Escreve contos, novelas, traduções do inglês para o japonês, mas é sobretudo no romance que quis deixar a sua marca e no qual apostou a sua vida. Deixou uma vida folgada, no Japão, proprietário de um bar de Jazz, arriscando-se até a passar fome. Mas insistiu e persistiu.

Já anteriormente tinha escrito um livro que ia retratando o romancista como um maratonista: Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo. Casa das Letras: 2009. É uma espécie de autobiografia onde Murakami reflete a sua vida como corredor e quanto se tornou importante a corrida, o exercício físico, a persistência na sua escrita. Com efeito, também neste livro que ora sugerimos, a exercício físico, a corrida diária, a participação em maratonas sobressai, concomitantemente à missão de romancista. Para escrever demoradamente, umas cinco horas por dias, durante vários dias, o exercício ajuda a manter o corpo são e a mente sã.

Murakami explica como se tornou escrito, sensivelmente aos 30 anos de idade, como se dedicou exclusivamente à escrita, saiu do Japão até se fixar nos EUA, que técnicas engendrou para apresentar uma escrita original e distinta, o método de trabalho, o escrever e as revisões, os editores e os críticos. O autor caracteriza os romancistas, fala dos prémios literários, sobre a originalidade, sobre o que deve escrever um romancista, como escrever um romance, sobre a escola e a vida, que personagens criar e como as personagens também moldam a escrita e alteram o decorrer da história, para quem escreve e quem o lê.

Como nos seus romances, também aqui a escrita é escorreita, percetível, sobressaindo a alegria com que escreve. Com efeito, mais que dirigir a escrita para este ou aquele leitor, ainda que possa estar no horizonte os seus leitores, o mais importante é ter gosto e “divertir-se” na escrita.

 

Para outros títulos que recomendei neste blogue: AQUI.

14.09.25

GEORGE AUGUSTIN - DEUS NO CENTRO DA VIDA

mpgpadre

 

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Livro em forma de entrevista, guiada por Ulrich Sander, um alemão por dentro de temáticas religiosas, a George Augustin, diretor e fundador do Instituto Cardeal Walter Kasper. Nesta conversa é explorado “o lema que adotou para a sua vida pessoal e para a sua ação enquanto teólogo e pastor – o apelo à necessária teocentricidade do Cristianismo. Deus em primeiro lugar é para ele a mensagem de Jesus e do Cristianismo – uma paixão e entusiasmo por Deus que transforma a vida cristã numa missão e propõe uma visão crítica do Cristianismo socialmente útil das sociedades ocidentais seculares: para ele, o futuro da fé reside num regresso à paixão por Deus”.

São várias as temáticas propostas, tendo o autor o propósito de centrar a vida da Igreja, a opção de cada batizado, numa dinâmica mais espiritual, colocando Deus em primeiro lugar e, consequentemente, a liturgia, a adoração e do louvor de Deus. O primeiro mandamento é amar a Deus. Há de ser a prioridade do cristão. A finalidade da fé, da Igreja, é a adoração de Deus. O autor também veicula a ideia de uma Igreja missionária, seguindo o desejo do Papa Francisco, lembrando que o testemunho cristão tem como próprio atrair outros para Jesus Cristo. Senão houver a preocupação de expansão do cristianismo, este já teria deixado de existir. Se vivo a fé, quero que os outros se sintam desafiados a aderir a Jesus Cristo. “Tenho de ir ter com as pessoas e dizer-lhes repetidamente a minha fé, a minha vida pessoal, a minha fé, a minha esperança, a minha relação com Deus é mais importante que todos os problemas que discutimos todos os dias. É isto que entendo por horizontalização da nossa fé: estamos tão ocupados com todo o tipo de problemas humanos que nos falta o lugar e o tempo e talvez a perceção da transcendência. É por isso que nós, enquanto Igreja, precisamos de uma mudança de perspetiva no nosso pensamento e no nosso discurso quotidiano”.

Um dos temas vincados nesta entrevista, por certo com a ligação a Walter Kasper, é o ecumenismo. “Seguir Cristo é o que todos nós somos chamados a fazer enquanto cristãos. Estamos todos a caminho para encontrar a salvação eterna. A unidade entre os cristãos só pode surgir nesta base… enquanto cristãos, é amarmo-nos uns aos outros como irmãos e irmãs, isto é, tratarmo-nos uns aos outros como irmãos e irmãs e viver sem discussões… mas o que podemos viver já e celebrar agora é sermos uma unidade no espírito, uma unidade de fé – e isso é o crucial e apenas isso sustentável a longo prazo”.

No decurso desta conversa, ressalta à vista o modo como se vive a fé na Alemanha, como estão estruturadas as comunidades, como se relacionam as pessoas com a “Igreja”. O autor vinca que a “prática” é sustentada pelos emigrantes e por alguns idosos. Se tirarmos os emigrantes da equação, ficariam apenas algumas pessoas idosas e as igrejas ficariam vazias. Uma Igreja muito institucional, a precisar de ser espiritual e missionária.

A concluir a entrevista: “As minhas palavras finais deveriam ser um convite: descobrir mais a alegria de Deus, viver uma paixão maior por Deus, encontrar mais alegria na vida cristã e, a partir deste entusiasmo e desta força, construir a Igreja de Deus em Jesus Cristo, em todos os lugares. ‘A alegria do Senhor é que é a vossa força’”.

 

O autor:

GEORGE AUGUSTIN, sacerdote da Congregação dos Palotinos, nasceu em 1955, em Palai, Kerala (Índia). Depois de ter estudado Filosofia, Biologia e Teologia em Nagpur (Índia), o P. George completou os seus estudos com o doutoramento sobre a Teologia de Wolfhart Pannenberg, em Tübingen (Alemanha), com o cardeal

Walter Kasper.

Incardinado na Diocese de Rotemburgo-Es-tugarda, ocupa-se, atualmente, da pastoral pelo cuidado do clero diocesano. Desde 2004, é professor catedrático de Teologia Fundamental e de Dogmática, no Colégio Filosófico e Teológico, em Vallendar.

O enfoque de seu trabalho está no Institute Kardinal Walter Kasper, fundado e dirigido por ele, desde 2005, com o objetivo de salvaguardar e continuar o trabalho científico e teológico do prelado alemão, especialmente nas áreas do ecumenismo, da teologia e da espiritualidade.

Um dos seus trabalhos de extraordinário valor é a compilação da “Opera Omnia” do cardeal Kasper, já com 13 volumes, publicados em alemão, e com versões em diversas línguas - italiano, espanhol, inglês e outras - em curso.

Augustin é também coordenador de numerosas publicações científicas e autor de uma grande variedade de livros e artigos teológicos, traduzidos nas principais línguas. Desde 2008, é ainda consultor do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, tendo sido, em 2017, nomeado consultor da Congregação para o Clero, pelo papa Francisco.

 

Ficha técnica:

Título: Deus no centro da vida

Subtítulo: Uma conversa sobre o futuro da Fé e da Igreja

Autor: George Augustin

Ano de edição: 2025

Editora: Paulinas Editora

Disponível na Gráfica de Lamego.

12.04.25

TIMOTHY RADCLIFFE - ESCUTAI-O

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Timothy Radcliffe (2024), Escutai-O! Para uma espiritualidade sinodal. Prior Velho: Paulinas Editora. 120 páginas.

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O autor nasceu em Londres, em 1945, é um dos mais notáveis autores cristãos contemporâneos, para além de biblista e teólogo. Formado em Oxford e Paris, é membro da comunidade de Blackfriars, em Oxford. Foi mestre-geral da Ordem dos Pregadores entre 1992 e 2001, sendo o único dominicano da Província Inglesa a exercer este cargo, desde a fundação da Ordem em 1216. Desempenha funções de docente em Oxford e de consultor do Pontifício Conselho «Justiça e Paz», sendo frequentemente solicitado para conferências e palestras em todo o mundo. Foi criado Cardeal pelo Papa Francisco, a 8 de dezembro de 2024.

“Com o Sínodo sobre a Sinodalidade, o maior exercício de auscultação a nível mundial na história da humanidade, o papa Francisco convidou o povo de Deus a repensar criativamente, sob a batuta do Espírito, o modo de ser e estar em Igreja”. Timothy Radcliffe foi escolhido para pregar aos participantes no Sínodo sobre a Sinodalidade, em outubro de 2023. Neste livro são recolhidas as meditações, com o autor a explorar, “sem fabricados receios ou infundados entusiasmos, o desafio que a Igreja tem à sua frente, realçando a conversão interior e coletiva que este pressupõe. Partindo do episódio bíblico da Transfiguração, Radcliffe mostra como a comunhão plena só é possível aí onde as partes se escutam, esvaziando-se das suas certezas para acolher o outro como ele é. Nesse movimento, o Espírito fala: escutemo-Lo!”

Como em outros títulos, a leitura é corrida, sobressaindo a vivência de fé, como sacerdote dominicano, com uma vasta experiência de vida, com encontros diversos, com muitas histórias para contar. Uma linguagem atraente, de fácil perceção, com vida. Sendo o resultado de conferências/meditações o estilo só poderia ser vivo.

Ao sugerirmos o livro nada melhor do que partilharmos alguns parágrafos, acedendo ao discurso e às palavras do autor:

“Em casa, somos confirmados como somos e convidados a ser mais. O lar é o lugar onde somos conhecidos e amados e nos sentimos seguros, mas onde também somos desafiados a embarcar na aventura da fé. Precisamos de renovar a Igreja enquanto casa comum se quisermos falar a um mundo que padece de uma crise de falta de lar.

“A base do nosso encontro amoroso sempre foi o nosso encontro com o Senhor, cada um junto ao seu próprio poço, com os seus fracassos, fraquezas e desejos. Ele conhece-nos como somos e liberta-nos para nos encontrarmos com um amor que liberta e não controla. No silêncio da oração somos libertados.

A Samaritana conhece Aquele que a conhece totalmente. E isso impulsiona-a na sua missão. «Vem ver o homem que me contou tudo o que já fiz. Ela vivera até àquele momento na vergonha e na ocultação, temendo o julgamento dos seus concidadãos. Vai ao poço no calor do meio-dia, quando não está lá ninguém. Mas agora o Senhor lançou luz sobre tudo o que ela é e ama-a. Após a Queda, Adão e Eva esconderam-se da vista de Deus, envergonhados. Agora ela entra na luz…

Por isso, neste Sínodo, ouviremos pessoas que falarão com verdade sobre «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje»

Se a autoridade da beleza fala do fim da viagem, da pátria que nunca vimos, a autoridade da santidade fala do caminho a seguir se quisermos lá chegar. É a autoridade dos que dão a vida.

Pregamos o Evangelho através de amizades que ultrapassam fronteiras. Deus ultrapassou o abismo entre Criador e criatura. A amizade de Deus chegou mesmo à última barreira, a da morte. Quando Maria Madalena percorria o jardim em busca do corpo do seu amado Senhor, ouviu uma voz: «Maria!» (Jo 20,16). A Igreja é a comunidade de amizade que abraça os vivos e os mortos que estão vivos em Deus, a comunhão dos santos.

 

Autor: Timothy Radcliffe

Título: Escutai-O!

Subtítulo: Para uma espiritualidade sinodal

Editora: Paulinas Editora

Ano: 2024

Número de páginas: 120

03.04.25

GIULIA GABRIELI - DESCALÇA NO PARAÍSO

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Giulia Gabrieli, nascida a 3 de março de 1997, em Bérgamo, viria a ser-lhe detetado cancro, um sarcoma agressivo que a conduzirá à morte, apesar da esperança, da fé, da alegria, da decisão firme de lutar contra a doença. É uma adolescente normal. O inchaço numa mão, o que poderia significar a mordidela de algum bicho do jardim, era afinal algo bem mais grave.

A adolescente Giulia nunca perdeu a esperança de vir a ser curada pelos médicos e a sua fé foi amadurecendo ao ponto de confiar em Deus as suas dores e sofrimentos, não se deixando abater sempre que as notícias eram menos boas ou quando a quimioterapia lhe tirava as forças.

Obviamente interroga Deus, porquê, onde estás neste momento? Mas logo reúne forças, animando os pais ou mesmo os médicos.

Quase curada, assim o sentia, surgem as notícias médicas que, afinal, tudo voltou. É ela que anima os médicos: conseguimos uma vez havemos de conseguir outra vez. Os médicos são os seus heróis. Internada, consegue prosseguir os estudos.

É um relato emotivo! Uma adolescente que lida com notícias que assustam e paralisam qualquer pessoa. É uma história de vida. Quis escrever e nada mais tocante do que falar das provações a que esteve sujeita. A sua vida é preenchida de alegria e fé, de sofrimento e resistência, em que a família tem um papel preponderante, mas igualmente a sua fé. A fé não a deixa vacilar. A sua alegria em viver é colocada por escrito, para que outros jovens não desperdicem as suas vidas com vícios, na toxicodependência.

Mas nada melhor do que ler palavras de Giulia Gabrieli:

“Quando a doença reapareceu pela segunda vez, finalmente entendi! Devo rezar ao Senhor para que Ele me dê a graça da cura através dos tratamentos de quimioterapia. Mas isso não basta: nos devemos rezar-lhe para que Ele nos dê força para seguir em frente, para suportar os tratamentos, para aceitá-los!

Este ano espero ficar curada, mas mesmo que isso não aconteça, sei que Ele está sempre perto de mim e me dá a força necessária para seguir em frente. Além disso, com o meu sofrimento, estou a salvar muitíssimas outras pessoas, e isso deixa-me feliz!

Esta «viagem», esta «aventura», mudou a minha fé: esta tornou-se muito mais forte, e, por isso, sinto-me melhor, pois sei que nunca estou só, porque Nossa Senhora e o meu anjo da guarda estão a meu lado. E também a Beata Chiara Luce... Às vezes, tenho pedido ao Senhor que me alivie um pouco o meu sofrimento. O próprio Jesus o fez: «Afasta de mim este cálice; porém, não se faça a minha, mas a tua vontade.» E Ele escutou o meu pedido. Diz Deus: «Pedi e vos será dado.» Eu pedi, e Ele deu-me imediatamente.

“… também me abri muito a Deus. Sim, eu já acreditava antes, mas acreditava como acreditam as crianças: vou à missa porque mo mandam os meus pais, rezo porque mo dizem os meus pais. Agora, compreendi de verdade por que razão rezamos a Deus, porque Ele está sempre perto de nós: compreendi muitas coisas da minha fé que dificilmente teria compreendido sem a experiência da doença. Ou talvez até lá chegasse, mas muito mais tarde...”

“…só através da oração consigo abandonar-me de novo ao Senhor.

Uma coisa que admiro muitíssimo em Chiara [Luce Badano], e que também é uma coisa difícil de fazer, é conseguir viver o momento presente de que eu falava antes. Isto parece muito fácil, mas experimentem não pensar no amanhã. Vão ter uma chamada na escola, vão ter um teste: sentem-se preocupados? Não deviam estar preocupados com o amanhã. Neste momento, não têm essa chamada e basta. Que devo fazer, devo preparar-me para essa chamada?

Está bem. No resto pensarei amanhã.

Por exemplo, se agora estivesses mal, é difícil não pensar: como estarei amanhã? Estarei bem? Estarei mal? É difícil não pensar. No entanto, devemo-nos esforçar, porque a nossa vida é agora, não é amanhã; devemo-nos empenhar, agora, em construir um mundo melhor para amanhã. Se vivemos bem agora, amanhã será um dia melhor. Nascerá certamente um jardim de alegria e de comunhão entre os nossos amigos”.

“É pelo amor que se gera a vida, o amor entre uma mulher e um homem gera vida. Aquilo que Deus criou: a vida. A vida é futuro. E Deus reserva-nos o melhor para o nosso futuro”.

Consciente da gravidade da doença, Giulia pensou e escreveu sobre a morte e o que esperava:

“Com a doença, comecei a pensar na morte. Não tinha medo dela...

Se tiver de acontecer, posso dizer que me é igual. É certo que gostava de viver uma vida longa, de realizar todos os meus sonhos.

No entanto, agora, vejo a morte como uma coisa maravilhosa. Já não tenho medo de morrer, graças à Chiara Luce Badano.

Sei que, depois da morte, está o Senhor, que volto para Ele. Ele é muito bom, toma-me nos braços. E também está a Nossa Senhorinha. Como será maravilhoso conhecê-los! Não vejo a hora de os encontrar, de poder conhecê-los e dar-lhes graças por tudo o que fazem por mim.

Gostava - quando tiver de acontecer, se vier a acontecer -, gostava que o Senhor me recebesse por aquilo que sou, Giulia Gabrieli.

No entanto, assim como aqui gostava de ser bonita e elegante, também então gostava de ser bela e elegante, mas tal como sou.

Quero levar o vestido que usei na comunhão do Davide, que é tão bonito e que me fica tão bem. Depois, na cabeça, estou um pouco indecisa entre uma peruca ou um lenço. Quero que Ele me receba por aquilo que sou. Se tiver de levar um lenço, está bem, um lenço branco. Um ramo de flores: quatro lírios, flores da esposa, e uma rosa vermelha no meio. O meu terço do Beato Papa João Paulo II, e assim fico pronta: nada de maquilhagem, nada de nada. Nada de carteira nem de lantejoulas. Apenas com o meu terço do pescoço e basta. Nada de pulseiras. Fora aquela que me ofereceu a vidente Marija, de Medjugorje. E basta, não preciso de mais nada.

Quando se está no Paraíso, passa-se o dia inteiro a rezar, segundo dizem. Terei de me habituar a isso, porque não me apetece muito, mas, está bem, tudo se tornará natural...

Além disso, se tiver de calçar sapados, quero as sabrinas brancas. Se não for preciso, descalça, descalça para estar em contacto direto com o chão do Céu. Imagino um chão feito de nuvens. Não vos dá vontade de caminhar sobre ele, descalços? Eh, eh... Tudo tão macio, com os pés enterrados nas nuvens. Aos saltos. Para um lado, para o outro, para cima, para baixo. Um Paraíso como o que aparece nos desenhos animados. Eu cá imagino o Paraíso como... Lembram-se do filme A idade do gelo, quando o esquilo encontra uma bolota enorme? Com todas aquelas nuvens cor-de-rosa e aquele megaportão dourado!

Assim: o megaportão dourado e nós, descalços, a abrir esse mesmo portão...

Oh, é maravilhoso!...”

 

Autor: Giulia Gabrieli

Título: Descalça no Paraíso

Título original: Un gancio in messo al cielo

Editora: Paulinas Editora

Ano: 2025

Número de páginas: 100

22.12.24

... o menino exultou de alegria no meu seio!

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1 – A Boa Nova – Encarnação de Deus, nascimento de Jesus, Deus feito Homem, Páscoa – é o maior motivo da nossa alegria, reforçam-na, moldam-na e fazem-na explodir no anúncio a todos. Chamamento e envio: somos discípulos missionários, chamados deixar-nos contagiar pela proximidade a Jesus e enviados a difundi-l’O em toda a parte.

Há oito dias éramos inundados pelas palavras que nos interpelavam à alegria. A razão era a proximidade da celebração do nascimento de Jesus. Agora estamos mais perto, à porta do Natal. Então a ansiedade (como espera feliz na certeza do encontro e da festa) torna-se maior e deve ser mais intensa, mais vívida, mais profunda.

Alegra-te, Maria, porque achaste graça diante de Deus. A saudação do Anjo envolve Maria na Boa Nova que n'Ela Se fará carne. A resposta de Maria, partindo do silêncio, do recolhimento e da oração, faz-Se Palavra, faz-Se Jesus.

E que fazemos quando algo de muito bom nos acontece? A maioria conta-o à primeira pessoa que encontra, a uma pessoa de confiança, indo visitá-la ou telefonando-lhe e poucos são os que guardam para si. Maria recebe a maior das boas notícias. Então corre apressadamente para a montanha, como o mensageiro corre pelos montes a anunciar a paz!

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2 – São Lucas informa-nos que logo depois da anunciação, e sabendo que Isabel também foi favorecida pelo Senhor, "Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se apressadamente para a montanha, em direção a uma cidade de Judá".

Porque foi Maria tão longe para estar com Isabel? Para ajudar, certamente, mas porque ambas tinham um segredo imerso no mistério de Deus. Maria sabe que não pode fazer alarde da sua condição de Mãe de Deus, pelo escárnio a que se sujeita, pela inveja que pode suscitar e pela perigosidade em que se colocaria. Vai ter com Isabel e não precisará de revelar o Seu segredo. Se Maria sabe de Isabel, também Isabel saberá o que se passa com Maria!

Ao entrar em casa de Zacarias, Maria começa por saudar Isabel e, mais uma vez nos informa o evangelista que «Isabel ficou cheia do Espírito Santo e exclamou em alta voz: ‘Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Logo que chegou aos meus ouvidos a voz da tua saudação, o menino exultou de alegria no meu seio. Bem-aventurada aquela que acreditou no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor’».

Maria é feliz porque acreditou, porque confiou em Deus e porque acolheu os Seus desígnios: faça-se em Mim o que é do Teu agrado, Senhor, meu Deus e meu Tudo.

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Textos para a Eucaristia (ano C): Miq 5, 1-4a; Sl 79 (80); Hebr 10, 5-10; Lc 1, 39-45.

 

REFLEXÃO DOMINICAL COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

26.10.24

Vai: a tua fé te salvou

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1 – Há um homem à beira do caminho que não vê! Somos homens e mulheres que muitas vezes cerramos os olhos para não ver. Há um homem na estrada de Jericó que quer muito ver! Nas estradas do nosso tempo há um mar de gente à beira do caminho, à espera de uma mão, de um olhar, de alguém que passe e vá devagar! Naquela estrada e naquele tempo, há um homem a clamar, a chamar por Jesus que vai a passar. E ainda hoje, há tanta gente cansada de gritar, de procurar, de esperar; tanta gente sem vez nem voz, sem ver além do imediato, a tentar sobreviver.

Aquele homem tem nome, Bartimeu, filho de Timeu, e pede esmola a quem passa. Existem hoje muitas pessoas a pedir esmola, anónimos, que contam apenas para a estatística. Já não têm nome, são um número. Mas aquele homem tem nome, os homens e as mulheres que estão à beira do caminho, fora da estrada, excluídos da cidade, nas periferias da vida, também têm rosto, também têm nome. Têm de contar como pessoas, e não apenas para a percentagem.

É por Jesus que Bartimeu clama, gritando cada vez mais: «Filho de David, tem piedade de mim».

Há discípulos e há uma grande multidão. E há Jesus. E tu e eu! E Bartimeu! Ele chama por Jesus. Alguns incomodam-se com aquela voz, com aquela gritaria e repreendem-no, querem que se cale. Também hoje há quem silencie o pobre, o pedinte, o justo e se afaste para não ouvir, desviando o olhar para não ver. Eu, tu e Bartimeu, e Jesus!

Jesus pára, ouve e compromete-nos: chamai-o. A vista, a voz e o andar para que servem se não forem para ver os outros, para ouvir os seus clamores, para nos encaminharem ao seu encontro? Então ponhamo-nos em movimento e encaminhemos outros para Jesus: «Coragem! Levanta-te, que Ele está a chamar-te». E já sabemos como fazer: pela voz e pela vida, com palavras e com obras.

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2 – Aquele homem, Bartimeu, posso ser eu, podes ser tu! Umas vezes cegos, outras vezes com vontade de ver. Mais cegos são os que não querem ver e ativamente se recusam a olhar para os outros, a ouvir os seus apelos e a confrontar-se com as suas dificuldades. Senhor, "quando foi que te vimos com fome, ou com sede, ou peregrino, ou nu, ou doente, ou na prisão, e não te socorremos?" A resposta clarifica a nossa falta de visão: «sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer».

Bartimeu ouviu dizer que Jesus passava por ali e decide-se. Senhor, tem piedade de Mim. Está disposto a ver Jesus, quer ver Jesus, quer ver como Jesus. Esta vontade firme é meio caminho andado para Jesus. Com efeito, o cego, diz-nos o evangelista, atirou fora a capa e tudo o que lhe pesava do passado, deu um salto, libertando-se de qualquer amarra, antes que pudesse voltar atrás, e foi ter com Jesus. A resposta de Jesus é muito curiosa: «Vai: a tua fé te salvou». Poderíamos esperar que Jesus lhe dissesse: Vê. Mas Jesus diz-lhe "Vai". O caminho faz-se caminhando. Parados não vemos nada. Ensimesmados, o nosso olhar adoece e morre.

O encontro com Jesus devolve-nos a vista, dá-nos um olhar novo. Depois cabe-nos segui-l'O. Bartimeu recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho. Além da cura física, importa a cura que nos devolve a humanidade e nos conduz a Jesus, nos envolve na fraternidade, tornando-nos ágeis para servir e amar, sem pausas nem reservas.

 

3 – Como cristãos, discípulos missionários de Jesus, temos a missão transportar a alegria da Boa Nova: Deus ama-nos como Pai e mais como Mãe, e, de tanto nos amar, nos deu o Seu Filho único, que faz da Sua vida uma constante de entrega, gastando-Se para nos redimir, para nos inserir na vida divina, para nos garantir, de uma vez para sempre, uma morada junto do Pai.

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Textos para a Eucaristia (ano B): Jer 31, 7-9; Sl 125 (126); Hebr 5, 1-6; Mc 10, 46-52.

 

REFLEXÃO DOMINICAL COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

17.10.24

Quem entre vós quiser tornar-se grande, será vosso servo, e quem quiser entre vós ser o primeiro, será escravo de todos

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1 – «O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de todos».

O discipulado há de ter a mesma marca de Jesus. O cristão é de Cristo e terão de agir, imitando-O. Os discípulos estão a aprender, estão a caminho. Temos sempre que aprender, caminhamos como peregrinos, para nos tornarmos verdadeiramente discípulos missionários. Neste Dia Mundial das Missões, avivemos o compromisso de sermos, em todos os momentos e em toda a parte, missionários, apóstolos. Mas só o seremos coerentemente se estivermos perto de Jesus, contagiados pelo Seu amor, para O transbordarmos na alegria.

Tiago e João chegam-se à frente: «Concede-nos que, na tua glória, nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda». A disputa de lugares e de poder vem ao de cima. Jesus, ainda assim, relembra-lhes que o caminho não é de "glória" (mundana), mas de provação, de perseguição e sofrimento, clarificando que o reino de Deus não consiste em lugares, mas em serviço.

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2 – A resposta a Tiago e João são clarividentes. Jesus assenta-lhes o estômago. Porém, os outros dez, ouvindo esta troca de palavras, indignam-se com Tiago e com o João, não tanto pelo atrevimento que tiveram, mas porque se anteciparam ao desejo de todos.

Uma e outra vez, e outra vez ainda, Jesus deixa claro qual é o caminho do discípulo: «Sabeis que os que são considerados como chefes das nações exercem domínio sobre elas e os grandes fazem sentir sobre elas o seu poder. Não deve ser assim entre vós: quem entre vós quiser tornar-se grande, será vosso servo, e quem quiser entre vós ser o primeiro, será escravo de todos».

Quem quiser ser o maior seja o servo de todos, pois também Ele veio para servir e dar a vida por todos. Não Se apresentou com requisitos de poder ou privilégio, não Se valeu da Sua igualdade com Deus, mas assumiu-Se como servo, tornando-Se obediente até à morte e à morte na Cruz. A Sua glória confunde-se com a Sua morte, gastando-Se até ao último fôlego, até à última gota de sangue.

 

3 – «Deus eterno e omnipotente, dai-nos a graça de consagrarmos sempre ao vosso serviço a dedicação da nossa vontade e a sinceridade do nosso coração». A oração com que iniciamos a Eucaristia deste domingo envolve-nos no serviço dedicado aos outros, na predisposição de procurarmos ser fiéis ao Evangelho da caridade, escutando a Palavra de Deus para a pormos em prática.

É compreensível e defensável que todos, eu e tu incluídos, queiram ser reconhecidos. É humano. O problema do nosso tempo é a invisibilidade. Há tanta gente que não conta, a não ser para a estatística, que vive à margem, esquecida, excluída e quando conta é como estorvo, como pedra no sapato! Promove-se a cultura do descarte, nas palavras do Papa Francisco, a globalização da indiferença.

Excluídas, as pessoas têm direito a lutar, a reclamar, a trabalhar para serem reconhecidas como pessoas, a tornarem-se visíveis e, quem sabe, serem promovidas das periferias para o centro. Os apóstolos situam-se, para já, neste patamar e nesta luta. A ideia é derrubar os que ocupam os lugares de poder e substituindo-os, assumindo os seus lugares. Troca por troca. Nada melhora!

Jesus faz outra opção, a do serviço. Os discípulos, para o serem de verdade terão que seguir na Sua peugada, na certeza que quanto mais se derem mais receberão e mais sentido terão as suas vidas.

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Textos para a Eucaristia (ano B): Is 53, 10-11; Sl 32 (33); Hebr 4, 14-16; Mc 10, 35-45.

21.09.24

Quem quiser ser o primeiro será o último de todos e o servo de todos

mpgpadre

1 – «Senhor, que fizestes consistir a plenitude da lei no vosso amor e no amor do próximo, dai-nos a graça de cumprirmos este duplo mandamento, para alcançarmos a vida eterna». A oração inicial da Eucaristia prepara-nos para escutar a Palavra de Deus e para, à partida, percebermos o fio condutor da mensagem nela contida, iluminando as nossas escolhas. A Palavra de Deus é sempre desafio, é luz, que nos provoca e compromete, nos envolve e nos transforma.

A oração pressupõe humildade de quem se reconhece frágil, invocando o poder e o amor de Deus. Em algumas situações, a oração pode ser contraproducente, quando agradecemos a Deus por sermos melhores que os outros e por não precisarmos de ninguém. Ou, em alternativa, só precisamos de Deus, garantia que sairemos vencedores. Os que estão ao nosso lado, mais que companhia ou ajuda, são um estorvo, fazem-nos perder tempo, incomodam-nos. Eu cá tenho a minha fé. Eu e Deus é que sabemos, os outros não importam!

Como confessa São Tiago, a fé sem obras é oca. Do mesmo modo a oração. Se rezamos voltados para Deus, mas sem ligação e sem abertura ao nosso semelhante, então a oração é um palavreado inútil, vazio, pois corta um pé do tripé em que assenta: Deus, o próximo e cada um de nós. Amar a Deus implica amar os que Ele ama, logo, a humanidade inteira, concretizável em cada pessoa.

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2 – Ao amor de Deus para connosco respondemos com amor em relação aos outros, em forma de serviço, de cuidado e de ajuda. É a nossa identidade, a nossa missão, o nosso compromisso. Não temos como fugir se a nossa opção de vida é seguir Jesus. Seguir Jesus, com efeito, é a nossa primeira vocação. Fomos batizados na Sua morte e ressurreição, para sermos plasmados pelo Seu Espírito.

Há momentos em que vem ao de cima a nossa fragilidade, o nosso pecado, o nosso egoísmo, mas também o medo, a desconfiança e a vontade de fazermos tudo à nossa maneira, e talvez que os outros se sujeitem aos nossos interesses. Não é de hoje.

Depois da confissão de fé de Pedro, Jesus diz-lhes o que vai acontecer: «O Filho do homem vai ser entregue às mãos dos homens, que vão matá-l’O; mas Ele, três dias depois de morto, ressuscitará».

Pedro reagiu da forma que vimos, repreendendo Jesus. Ao anúncio da paixão, Jesus acrescenta o anúncio da ressurreição. Mas já tinha feito estragos, os discípulos já não O escutaram direito. Em Cafarnaum, já em casa, Jesus interroga-os sobre o que vinham a discutir. Percebemos então que os discípulos discutiam sobre qual deles era o maior. Se o reino de Deus se vai manifestar, se Jesus vai ser morto, então há que avaliar qual é o mais apto para Lhe suceder.

Poderíamos pensar que a repreensão de Pedro a Jesus era muito dele, afinal os outros afinam pelo mesmo diapasão.

 

3 – Durante o caminho Jesus mantém-se em silêncio. Parece não ouvir. Talvez fosse a falar com os seus botões (se os houvesse naquele tempo!), ou a rezar! Em casa responde-lhes.

As respostas de Jesus não se pautam pelo excesso de palavras, por explicações complexas, por tentativas de convencer. Frequentemente recorre a imagens ou a situações concretas do dia-a-dia.

Sem rodeios, Jesus diz-lhes: «Quem quiser ser o primeiro será o último de todos e o servo de todos». Entre os líderes das nações, dir-lhes-á noutra ocasião, discutem-se os lugares e o poder de cada um; não seja assim entre vós, quem quiser ser o mais importante coloque-se ao serviço dos outros. Vale para eles, vale para nós. E mesmo os que detêm autoridade, devem exercê-la como serviço, desde o Papa ao mais simples trabalhador da vinha do Senhor.

Vem então o exemplo. Jesus toma uma criança, coloca-a no meio dos discípulos, abraça-a e diz-lhes: «Quem receber uma destas crianças em meu nome é a Mim que recebe; e quem Me receber não Me recebe a Mim, mas Àquele que Me enviou». Simplicidade, alguma ingenuidade, pobreza, despojamento, dependência, vulnerabilidade. Serviço, cuidado.

____________________________________________________________________________________________

Textos para a Eucaristia (ano B): Sab 2, 12. 17-20; Sl 53 (54); Tg 3, 16 – 4, 3; Mc 9, 30-37

 

REFLEXÃO DOMINICAL COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

06.09.24

Tudo o que faz é admirável. Faz que os surdos ouçam...

mpgpadre

       1 – Em tempos conturbados, a voz do profeta soa a esperança.

       Isaías, na primeira leitura, mostra, com palavras de alento, que a promessa de Deus não tarda em cumprir-se.

“Dizei aos corações perturbados: «Tende coragem, não temais. Aí está o vosso Deus; vem para fazer justiça e dar a recompensa; Ele próprio vem salvar-nos». Então se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos”.

       A convicção do profeta há de congregar o povo eleito e motivar os crentes para a fidelidade a Deus e aos Seus mandamentos. É tempo de recuperar a fé e a esperança em Deus.

 

       2 – No evangelho, Jesus é apresentado como o Messias esperado, o Deus que vem salvar-nos. Isaías identifica alguns dos acontecimentos que sucederão com a Sua chegada, como por exemplo os surdos voltarem a ouvir. Atentemos as palavras do Evangelho:

“Trouxeram-Lhe então um surdo que mal podia falar… Jesus, erguendo os olhos ao Céu, suspirou e disse-lhe: «Efatá», que quer dizer «Abre-te». Imediatamente se abriram os ouvidos do homem, soltou-se-lhe a prisão da língua e começou a falar corretamente…”

       “Ao fazer com que os surdos ouçam”, Jesus confirma que é o Messias que estava para vir. As palavras adquirem vida concreta nesta cura. Com Ele, solta-se a língua, abrem-se os ouvidos, ressoa a palavra de Deus, circula vida nova.

       “Effatá” é também um dos ritos do Batismo, lembrando que a graça recebida nos há de permitir escutar a Palavra de Deus e professar a fé. O que ouvimos e o que dizemos, como seguidores de Jesus, deve ser para louvor e glória de Deus. Se assim for, purificaremos o que ouvimos com a misericórdia de Deus, e diremos palavras que dimanem da caridade do Senhor.

 

       3 – O encontro com Jesus Cristo há de transformar-nos, comprometendo-nos. Interiormente. Ele não Se impõe, não chantageia. Convida, desafia, envolve. Obviamente, a resposta que daremos levar-nos-á a alterar hábitos, a postura diante dos outros.

       Não é uma mudança pela rama, como se trocássemos de roupa. Agora vestimos a roupa de cristãos e vamos à Missa, dizemos as nossas orações, e logo depois, se necessário, vestimos outra roupa, que diga mais com a ocasião ou com as pessoas que temos pela frente.

       Pelo batismo, estamos interiormente revestidos de Cristo. Ele habita-nos. Nas palavras de São Paulo, já não somos nós que vivemos, é Cristo que vive em nós. Ou em Santo Agostinho, ao comungarmos somos assimilados ao Seu corpo, somos transformados n’Ele.

 

       4 – O apóstolo São Tiago, na segunda leitura, ilustra como viver ao jeito de Cristo, em situações concretas. No domingo anterior exemplificava com o serviço aos órfãos e às viúvas, as pessoas mais fragilizadas do seu tempo. Hoje traduz a vivência em Cristo com o amor e respeito igual a todos os que nos aparecem pela frente.

“A fé em Nosso Senhor Jesus Cristo não deve admitir acepção de pessoas. Pode acontecer que na vossa assembleia entre um homem bem vestido e com anéis de ouro e entre também um pobre e mal vestido; talvez olheis para o homem bem vestido e lhe digais: «Tu, senta-te aqui em bom lugar», e ao pobre: «Tu, fica aí de pé», ou então: «Senta-te aí, abaixo do estrado dos meus pés». Não estareis a estabelecer distinções entre vós e a tornar-vos juízes com maus critérios? Escutai, meus caríssimos irmãos: Não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do reino que Ele prometeu àqueles que O amam?”

       Sublinha-se uma vez mais como o serviço e a atenção aos mais pobres é a opção de Jesus Cristo, não para excluir, mas para promover e incluir os que não se sentem ou não são tratados como filhos.


Textos para a Eucaristia (ano B): Is 35, 4-7a; Tg 2, 1-5; Mc 7, 31-37.

24.08.24

Para quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna

mpgpadre

       1 – «Estas palavras são duras. Quem pode escutá-las?» A partir de então, muitos dos discípulos afastaram-se".

       Continuamos com o texto de São João, no qual Jesus Se apresenta como o verdadeiro Pão da Vida, o Pão de Deus. A afirmação de Jesus gera polémica na população, nos judeus e nos discípulos.

       Perante a dispersão dos judeus e dos discípulos, Jesus questiona os Doze: «Também vós quereis ir embora?». Pedro, em nome dos outros Apóstolos, responde inequivocamente: «Para quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós acreditamos e sabemos que Tu és o Santo de Deus».

       A dissidência dá lugar à firmeza, à convicção, ao seguimento consciente e livre. O projeto de Jesus Cristo é um projeto de salvação, de vida nova, desafiando os limites do tempo e do espaço.

       2 – Jesus Cristo, Deus entre nós, é o Pão que nos dá ânimo (alma) para vivermos confiantes, em momentos favoráveis como em ocasiões de tormenta, com alegria, sabendo que Ele é OLHAR que nos eleva, mão que nos segura, COMPANHIA que nos fortalece, é a VIDA nova que oxigena o nosso coração, por inteiro.

       Não Se impõe. Vive no tempo e na história. Habita a humanidade. Caminha nas nossas buscas. Insere-Se nos nossos sonhos. Sofre e diverte-se com os nossos filhos e irmãos e pais. Chora e ri nas praças e nas vielas dos nossos corações. Não Se impõe. Tem a força e o poder que Lhe vêm do alto, de DEUS, mas faz-Se pobre, frágil, mendigo da nossa vontade, ajoelha-Se diante do nosso olhar.

       "Quereis ir embora?"

       A liberdade integra o plano salvador de Deus. Sem ameaças. Cabe a cada um, ainda que com a ajuda dos irmãos, decidir. É este o jeito de Deus, como os pais em relação aos filhos seus. Querem o melhor para nós, mas cabe-nos fazer as nossas próprias escolhas.

"Josué disse ao povo: «Se não vos agrada servir o Senhor, escolhei hoje a quem quereis servir. Eu e a minha família serviremos o Senhor». O povo respondeu: «Longe de nós abandonar o Senhor para servir outros deuses; porque o Senhor é o nosso Deus..."

       3 – Quando uma criança descobre que não pode ter dois brinquedos, opta pelo melhor. O buscador de pérolas, ou de pedras preciosas, nas parábolas de Jesus sobre o Reino de Deus, quando encontra a mais bela pérola, ou a pedra mais preciosa, deixa/vende tudo o que tem de valioso para ficar com a que é mais preciosa e bela.

       As escolhas podem exigir renúncia. Há escolhas que devem fazer-nos sentir preenchidos, a transbordar de júbilo. Se escolho este marido, esta esposa, se escolho este caminho, não fico a chorar pelo que deixo, ou será que não encontrei o amor maior?! Quando escolho Jesus Cristo, escolho a vida, e abrir-me à graça de Deus.

       Confiemos! Não nos deixemos levar pela multidão. Vivamos! Neste concreto, não importa tanto a maioria, mas saber que o CAMINHO é verdade e vida para nós. E na certeza que os outros continuarão a ser atraídos por Deus, ainda que por meio da Sua luz em nós.

 

       4 – Ele é o Pão vivo. A Sua carne e o Seu sangue são alimento que nos salva. Comungamos o mesmo corpo, constituímos um só Corpo. Daí a certeza que a Eucaristia nos compromete com os outros. Recebemos para dar, para partilhar, para entrar em comunhão.

       Como nos diz Bento XVI, "o pão é para mim e também para o outro. Assim Cristo une todos a Si mesmo e une-nos uns aos outros".

       O caminho da Eucaristia é caminho do amor.

       A este propósito vale a pena mastigar as palavras de São Paulo, exemplificado o amor entre marido e mulher, expressão do AMOR único de Cristo à Igreja e pela humanidade, paradigma do amor que nos há de mobilizar uns para os outros e para Deus:

"Quem ama a sua mulher ama-se a si mesmo. Ninguém, de facto, odiou jamais o seu corpo, antes o alimenta e lhe presta cuidados, como Cristo à Igreja; porque nós somos membros do seu Corpo...".


Textos para a Eucaristia (ano B): Jos 24, 1-2a.15-17.18b; Ef 5, 21-32; Jo 6, 60-69.

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