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Jul 17
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TOMÁŠ HALÍK (2014). A noite do Confessor. A fé cristã numa era de incerteza. Prior Velho: Paulinas Editora. 336 páginas.

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O autor viveu na clandestinidade, como cristão, sendo ordenado sacerdote também clandestinamente. O comunismo foi abafando a fé, a religião, o cristianismo. Segundo muitos, a fé torna-se mais combativa em ambientes adversos. Contudo, o autor afirma que o muito tempo a doutrinar os cidadãos contra a fé, contra o cristianismo, desvalorizando os seus valores e ideais fazendo desaparecer símbolos e sinais, pode conduzir à sua insignificância para gerações que viveram longe da fé e do cristianismo. Um mentira tantas vezes repetida passa por verdade. Os sinais visíveis desaparecem, as lembranças tornam-se mais ténues, deixa de haver "necessidade", outros deuses invadem o vazio deixado pela religião que, quando volta à liberdade, já foi substituída.

O autor testemunha a fé como caminho, nem sempre fácil, e contacto com outras religiões e outras sensibilidades e num Ocidente invadido por milhentas ofertas, também religiosas, por vezes oferece-se Deus como se fosse um feira. O autor parte do princípio que Deus não mora à superfície, quem nem sempre há respostas fáceis para as dificuldades, para o caminho difícil da morte de um familiar, de uma doença crónica, de uma desgraça provocada, como o ataque às Torres Gémeas, ou uma catástrofe natural que destrói famílias ou cidades inteiras.

Há momentos que o silêncio e a oração profunda é o que nos resta. E a esperança. Jesus revela-nos um Deus que é Pai, mas ainda assim que não impede o Seu nem o nosso sofrimento.

Terrorismo. Duas guerras mundiais. Tráfico de armas e de seres humanos. Pobreza extrema ao lado de ganância.

Tomáš Halík fala num segundo fôlego da fé, do cristianismo, num tempo mais fragmentado, com mais perguntas e tantas respostas. Um segundo fôlego para os cristãos que já nasceram cristãos e que entretanto procuraram respostas em outras vidas, outras filosofias ou outras religiões e que voltaram à Igreja. Não um regresso ao passado, mas um caminho de amadurecimento... como filhos pródigos, voltam para reconhecerem o verdadeiro e autêntico e agora enriquecidos pelo caminho percorrido. O diálogo ecuménico e interreligioso é também uma oportunidade. Não se trata de sincronismo, ou de diluição de uma nas outras religiões, mas a certeza do que o que é verdadeiro, bom, autêntico, em cada profissão de fé, nos há de enriquecer nas nossas convicções. Alguém que não tem convicções, que desconhece a sua fé, então irá para onde o vento for favorável.

O diálogo autêntico entre religiões ou entre confissões cristãs só é possível com pessoas comprometidas, capazes de darem as razões da sua esperança, promovendo a paz, a justiça, a solidariedade.

Vale a pena ler as palavras do autor:

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Tomáš Halík - Dá-nos um pouco de fé

Vieste aqui não para adquirir algo, mas para te libertares de muitas coisas», disse um velho e experiente monge a um noviço que o procurara no mosteiro. Ontem lembrei-me destas palavras, quando voltei a entrar no eremitério, pela primeira vez desde há um ano. E o mesmo pensamento assomou à minha mente esta manhã, ao meditar sobre a passagem do Evangelho em que os discípulos pedem a Jesus: «Aumenta a nossa fé!»; e Jesus replica: «Se tivésseis fé como um grão de mostarda...»

De repente, este texto falou-me de uma forma diferente da interpretação habitual. Não estará Jesus a dizer-nos com estas palavras: Porque é que me estais a pedir muita fé? Talvez a vossa fé seja «demasiado grande». Só se ela diminuir, até se tornar pequena como uma semente de mostarda, poderá dar o seu fruto e manifestar a sua força.

Uma fé minúscula não tem de ser necessariamente apenas o fruto da pecaminosa falta de fé. Por vezes, a «pouca fé» pode conter mais vida e confiança do que a «grande fé». Será que não podemos aplicar à fé aquilo que Jesus disse na parábola acerca da semente, que tem de morrer a fim de produzir grandes benefícios, porque desapareceria e não prestaria para nada se permanecesse imutável? Será que a fé não tem de passar também por um tempo de morte e de radical diminuição na vida do homem e ao longo da história? E se nós apreendermos esta situação segundo o espírito da lógica paradoxal do Evangelho, em que o pequeno prevalece sobre o grande, a perda é lucro e a diminuição ou redução significa abertura ao avanço da obra de Deus, não será porventura esta crise o «tempo da visitação», o kairos, o momento oportuno? Talvez nós nos tenhamos precipitado ao atribuir uma conotação «divina» a muitas das «questões religiosas» a que já nos habituámos, quando, na verdade, elas eram humanas – demasiado humanas, e só se forem radicalmente reduzidas é que a sua componente verdadeiramente divina entrará em jogo.

Um pensamento que há vários anos vinha germinando dentro de mim, como uma espécie de vago pressentimento, de repente explodiu de forma tão premente, que já não podia ser reprimido.

E como eu tenho uma preocupação perdurável não só por cristãos que têm um lugar fixo dentro da Igreja, mas também pelos buscadores espirituais fora da Igreja, ocorreu-me que nós talvez devamos, a essas pessoas em particular, essa «pouca fé», se quisermos oferecer-lhes finalmente pão em vez de uma pedra. E tendo em conta o facto de que muitas das coisas a que já nos acostumámos excessivamente lhes são estranhas, não serão precisamente elas as pessoas mais inclinadas para entender essa «pouca fé»?

Não, eu não estou a propor uma espécie de cristianismo «simplificado», «brando», «humanizado» e fácil, e ainda menos um romântico ou fundamentalista «regresso às origens». Antes pelo contrário!

Estou convencido de que é precisamente uma fé tem perada no fogo da crise, e livre daqueles elementos que são «demasiado humanos», que se revelará mais resistente às tentações constantes de simplificar e vulgarizar a religião, para falar bem e depressa.

O oposto da «pouca fé» que eu tenho em mente é, precisamente, «credulidade», a acumulação demasiado informal de «certezas» e construções ideológicas, até, por fim, não podermos ver a «floresta» da fé – a sua profundidade e o seu mistério –, tantas são as «árvores» dessa religião.

Com efeito, durante estes dias de reflexão na solidão de uma floresta, sinto-me atraído pela imagem da floresta ou do bosque como uma metáfora adequada do mistério religioso – uma floresta vasta e profunda, com a sua fascinante multiplicidade de formas de vida; um ecossistema com inúmeras camadas; uma sinfonia da natureza inacabada; um espaço espontaneamente intrincado – em tão grande contraste com os povoados humanos bem planeados e premeditados, com as suas ruas e parques –, um lugar em que nos podemos perder uma e outra vez, mas também descobrir, para nossa surpresa, ainda outros dos seus aspetos e dons.

Uma «fé pequena» não significa uma «fé fácil». O meu maior incentivo neste caminho para compreender a fé foi o misticismo carmelita – desde João da Cruz, que ensinou que devemos ir até aos próprios limites das nossas «capacidades espirituais» humanas, a nossa razão, a nossa memória e a nossa vontade, e só aí, onde sentimos que estamos num beco sem saída, é que surge a verdadeira fé, o amor e a esperança; e ao longo da «pequena via» de Teresa de Lisieux, que culminou nos momentos sombrios da sua morte.

A minha pergunta é se a nossa fé, tal como nosso Senhor, não terá de «sofrer muito, de ser crucificada e de morrer», antes de poder «ressuscitar dos mortos».

O que é que faz a fé sofrer, o que é que a crucifica? (Não me refiro à perseguição exterior dos cristãos.) Na sua forma primordial («ingenuidade primária», segundo as palavras de Paul Ricoeur) – ou seja, na forma que um dia deverá expirar –, a fé sofre, acima de tudo, da «multivalência da vida». A sua cruz é a profunda ambivalência da realidade: os paradoxos que a vida encerra, que desafiam sistemas de regras, simples proibições e prescrições – esta é a rocha contra a qual tantas vezes se despedaça. Mas não será possível que, em termos do seu significado e resultado, esse momento de «fragmentação» possa ser como quando partimos a casca de uma noz para chegar ao fruto?

Para muitas pessoas, essa «fé simples» – e a «simples moral» que dela deriva – encontra-se em grave crise quando choca com aquilo com que mais cedo ou mais tarde se deverá confrontar, nomeadamente a complexidade de certas situações de vida (que muitas vezes têm a ver com relações humanas), e a impossibilidade de escolher, dentre as muitas opções possíveis, uma solução sem qualquer tipo de reservas. O resultado é a «convulsão religiosa» e paroxismos de dúvida – aquilo, precisamente, com que esse tipo de fé não pode lidar.

Quando confrontados com a barricada das suas dúvidas imprevistas, alguns crentes «retrocedem» na direção da segurança esperada dos seus primórdios – a «fase infantil» da sua própria fé ou alguma imitação do passado da Igreja.

Essas pessoas procuram muitas vezes um refúgio em formas sectárias de religião. Vários grupos oferecem-lhes um ambiente em que podem «dar largas à oração», gritando, chorando e batendo palmas para se libertarem das suas ansiedades, experimentando uma regressão psicológica até à «fala de bebés» («falando em línguas»), além de serem embaladas e acariciadas pela presença de pessoas de tendência semelhante, e muitas vezes com problemas ainda maiores.

Além disso também há a oferta de vários «museus folclóricos» da Igreja do passado, que tentam simular um mundo de «simples piedade humana» ou um tipo de teologia, liturgia e espiritualidade de séculos passados, «preservado dos estragos da modernidade». Mas o adágio «não se pode entrar duas vezes no mesmo rio» também se aplica aqui. Na maior parte dos casos, acaba por se revelar como tendo sido apenas uma brincadeira romântica, uma tentativa de entrar num mundo que já não existe. As tentativas de encontrar morada em ilusões costumam caminhar a par e passo com esforços desesperados por fingir frente a si próprio e aos outros. É tão disparatado para um adulto tentar entrar no infantário da sua fé infantil ou recuperar o entusiasmo primordial do convertido, como tentar ultrapassar as fronteiras do tempo e penetrar no mundo espiritual da religião pré-moderna. O museu folclórico que as pessoas criam desse modo não é uma aldeia viva de piedade humana tradicional nem um mosteiro medieval. É antes uma coleção de projeções românticas das nossas noções de como era o mundo e a Igreja quando «ainda estavam em ordem». Trata-se apenas de caricaturas tristemente cómicas do passado.

O «fundamentalismo» é um distúrbio de uma fé que tenta entrincheirar-se no meio das sombras do passado, defendendo-se da perturbadora complexidade da vida. O fanatismo, a que aquele está muitas vezes ligado, constitui apenas uma reação mal-humorada à frustração resultante, à descoberta amargurada (mas não confessada) de que se tratava de um falso trilho. A intolerância religiosa é muitas vezes fruto de inveja encoberta de outros, dos «de fora», uma inveja que procede dos corações amargurados de pessoas que não estão dispostas a reconhecer o seu sentimento de profunda insatisfação com a sua própria casa espiritual. Falta-lhes força para mudá-la ou abandoná-la; por isso, agarram-se desesperadamente a ela e tentam ocultar, nos bastidores, tudo o que lhes possa recordar possíveis alternativas. Projetam as suas próprias dúvidas não reconhecidas nem resolvidas sobre os outros, e aí lutam contra eles.

Muitas vezes, a fé que parece «grande» e «firme» é, na realidade, uma fé de chumbo, solidificada e inchada. Muitas vezes a única coisa grande e firme da mesma é a «armadura» que, com muita frequência, oculta a ansiedade da falta de esperança.

A fé que aguenta o fogo da cruz sem bater em retirada perderá, provavelmente, grande parte daquilo com que se costumava identificar ou a que se tinha habituado, mesmo que fosse meramente superficial. Grande parte disso ficará queimado. Contudo, a sua nova maturidade tornar-se-á sobretudo evidente pelo facto de já não usar «armadura»; em vez disso, será um pouco como aquela «fé nua» de que falam os místicos. Já não será agressiva nem arrogante, e ainda menos impaciente na sua relação com os outros. Sim, em comparação com a fé «grande» e «firme» pode parecer pequena e insignificante – será como nada, como uma semente de mostarda.

Mas é precisamente assim que Deus atua no mundo, diz o Mestre Eckhart: Ele é «nada» num mundo de seres, porque Deus não é um ser entre outros seres. E Eckhart prossegue afirmando que temos de nos transformar em «nada» se quisermos encontrá-lo. Enquanto quisermos ser «alguma coisa» (ou seja, significar alguma coisa, ter alguma coisa, saber alguma coisa, em suma, fixarmo-nos em seres individuais e no mundo das coisas), não seremos livres para encontrá-lo.

Talvez a nossa fé também estivesse assoberbada por muitas coisas que tivessem a natureza desse «algo» – as nossas ideias, projeções e desejos pessoais, as nossas expectativas demasiado humanas, as nossas definições e teorias, o mundo das nossas histórias e mitos, a nossa «credulidade». Talvez ainda não tenhamos tido a nossa quota-parte de tudo isso e queiramos mais: Dá-nos mais fé, mais certeza e segurança frente às complexidades da vida!

Cristo, porém, diz: «Tende a fé de Deus», não do tipo «humano» que se poderia perder entre as ideologias e as filosofias do nosso tempo. Um «tipo de fé divino» significa uma fé minúscula, quase impercetível, do ponto de vista deste mundo!

Deus, que é anunciado e representado neste mundo por Aquele que foi crucificado e ressuscitou dos mortos, é o Deus do paradoxo: aquilo que é sábio para as pessoas, é louco para Ele; aquilo que é loucura e pedra de tropeço para as pessoas, é sabedoria a seus olhos; aquilo que as pessoas consideram fraqueza, para Ele é força; aquilo que as pessoas consideram grande, é visto por Ele como sendo pequeno; e aquilo que lhes parece pequeno, Ele considera-o grande.

Mesmo sob as rajadas de vento que continuam a levar para longe grande parte da nossa religião – quer se trate da ofensiva das críticas do ateísmo, quer da tempestade das nossas próprias dúvidas e crises inteiras de fé, ou do clima de «espírito hostil» da nossa época –, porventura seremos capazes, por fim, de discernir o sopro libertador do Espírito Santo, tal como os israelitas, graças aos seus profetas, foram capazes de discernir a «lição de Deus», nas suas derrotas, e o «servo de Deus», no seu inimigo Nabucodonosor?

Quando os seres humanos, ou «o povo de Deus», não são capazes de abandonar algo que os ata e impede de empreender a futura viagem, o Senhor recorre por vezes a métodos de libertação que não nos parecem nada agradáveis. Zugrunde gehen, como sabemos através de Nietzsche, não significa apenas naufragar e desaparecer, mas também, literalmente, «descer até aos fundamentos» e tocar o cerne.

E assim encerro esta primeira meditação com uma oração: Senhor, se a nossa religiosidade está sobrecarregada das nossas certezas, leva parte dessa «grande fé» para longe de nós. Liberta a nossa religião daquilo que é «demasiado humano» e dá-nos «a fé de Deus». Dá-nos antes, se for essa a tua vontade, um «pouco de fé», uma fé tão pequena como uma semente de mostarda – pequena e cheia do teu poder!

 

O autor recolhe-se para escrever num mosteiro, um eremitério na floresta da Renânia. Silêncio, oração e meditação. Escuta, interação com a natureza, mas também com as pessoas que passam. Daí brota uma leitura profunda, rezada, clarificadora, procurando criar pontes, desafiando, inquietando-nos. Boa leitura.

 

Vale a pena ler também o comentário do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - AQUI - o texto transcrito foi retirado desse comentário.


28
Ago 16
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D. ANTÓNIO COUTO (2016). A Misericórdia. Lugar e Modo. Lavra: Autores e Letras e Coisas. 84 páginas.

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       Vivemos o Jubileu Extraordinário da Misericórdia, iniciado a 8 de dezembro de 2015, solenidade da Imaculada Virgem Maria, e a encerrar no dia 20 de novembro de 2016, solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. O propósito do Papa Francisco foi que se vincasse em definitivo e com clarividência a misericórdia de Deus. Num tempo e mundo complexos, a misericórdia de Deus há de resplandecer como proposta de salvação, como desafio, como esperança, como compromisso. Jesus é o Rosto da Misericórdia. Os cristãos devem alimentar-se da misericórdia de Deus e irradia misericórdia para com os outros, para com toda a criação.

       Com a convocação deste Ano Santo da Misericórdia, a reflexão à volta deste atributo de Deus e a sua fundamentação na bíblia, na história do povo judeu, na vida da Igreja.

       D. António Couto anteriormente publicou o Livro dos Salmos, já dentro deste Jubileu e com a referência que os salmos estudados têm com a Misericórdia de Deus. Porém, este novo estudo é especificamente sobre a Misericórdia.

       Em conferências, jornadas bíblicas, formação do clero e de leigos, D. António Couto tem intervindo sobre esta temática, com o enquadramento do jubileu, com as obras de misericórdia, com a contextualização litúrgica. Aqui coloca nas nossas mãos um estudo mais detalhado sobre a misericórdia, a linguagem da bíblia, a origem das palavras utilizadas, a misericórdia no Antigo Testamento, a misericórdia revelada em plenitude da Pessoa e na Mensagem de Jesus Cristo, com o Seu proceder, compassivo, com as parábolas da misericórdia que mostram o modo de ser de Deus.

       Este pequeno livro subdivide-se em três capítulos: 1 - Deus também reza em clave de misericórdia; 2 - A magna charta do amor de Deus (Ex 34, 6-7), e 3 - Jesus misericordioso, transparência da misericórdia do Pai.

"Deus fiel, fiável, Sim irrevogável, matriz fidedigna, maternal amor preveniente, condescendente, permanente, paciente, palavra primeira e confidente, providente, eficiente, a dizer-se sempre e para sempre dita, rochedo firme, abrigo seguro, alcofa para o nascituro, luz no escuro, amor forte sem medo da morte e do futuro. Deus fiel e confidente, fala, que o teu servo escuta atentamente. Nada do que dizes cairá por terra. A tua palavra à minha mesa, minha habitação, minha alegria, minha exultação, energia do meu coração, luz que me guia e que me alumia. A minha luz é reflexa, a minha palavra é lalação, de ti decorre, para ti corre a minha vida, dita, dada, recebida e oferecida. O teu rosto, Senhor, eu procuro, não escondas de mim o teu rosto, o teu gosto, a tua música. Dispõe de mim sempre, Senhor"


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TOMÁŠ HALÍK (2016). Quero que Tu sejas! Podemos acreditar no Deus do Amor. Prior Velho: Paulinas Editora. 272 páginas.

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       "Tomáš Halík nasceu emm Praga atual República Checa, no ano de 1948. Licenciou-se em Sociologia, Filosofia e Psicologia na Universidade de Charles, Praga, nos inícios dos anos 70. Estudou Teologia, clandestinamente, na mesma cidade, estudo que continuou na Universidade Lateranense, em Roma, e na Faculdade Pontifícia de Teologia, em Wroclaw (Polónia). Durante a ocupação comunista, sendo perseguido como «inimigo do regime», trabalhou como psicoterapeuta de toxicodependentes. Foi clandestinamente ordenado sacerdote em Erfurt (Alemanha do Leste, em 1978, e trabalhou na «Igreja subterrânea», onde foi um dos assessores mais próximos do cardeal Tomášek".

       Na lombada interior da capa, breve apresentação, de Tomáš Halík, de quem já sugerimos outro belíssimo título - O MEU DEUS É UM DEUS FERIDO. Depois de ter escrito sobre fé e esperança, alguém lhe perguntou porque não escrevia sobre o amor. 

       O autor começa por fazer uma pergunta que habitualmente vamos fazendo, mas para a qual nem sempre encontramos uma resposta satisfatória: deonde vem o mal?. "É possível que hoje em dia nos tenhamos acostumado tanto ao mal, à violência e ao cisnismo, que façamos a nós próprios, com surpresa, outra pergunta: donde provém a ternura e a bondade?

       Ao longo do livro, enraizado na Sagrada Escritura, mas também na história, na experiência, na cultura, o autor vai mostrando que o amor é fonte de todo o bem e em todo o bem é possível encontra Deus de amor. Um dos fios condutores é apresentar o duplo mandamento, a interligação entre o amor a Deus e ao próximo como a si mesmo. Amar a Deus, amando o próximo. Deus está em nós. O amor habita-nos na identidade mais profunda, onde podemos encontrar Deus.

       Mais que uma resposta, Deus é pergunta. Não é um dado adquirido, mas sempre me transcende. Vai além de toda a compreensão humana, ainda que Se deixe ver em Jesus Cristo. "Os meus livros não são destinados àqueles que têm certeza absoluta de que compreendem perfeitamente o que significa o mandamento do amor a Deus. Esses certamente já têm a sua recompensa. Eu dirigo-me àqueles que buscam o significado dessas palavras, quer se considerem crentes... quase-crentes ou «antigos crentes»... incrédulos e agnósticos ou não crentes".

 

Algumas expressões:

"Associar os mandamentos do amor a Deus e o mandamento do amor uns aos outros - o núcleo do Evangelho - é a forma de redescobrir o Deus que «desapareceu», especificamente, na nossa relação com o próximo. Deus acontece onde quer que nós amemos as pessoas, o nosso próximo".
"Deus não pode ser obejeto de amor porque Deus não é um obejeto; a perceção objetiva de Deus conduz à idolatria. Eu não posso amar a Deus da mesma maneira que amo outro ser humano, a minha cidade, a minha paróquia ou o meu trabalho. Deus não está diante de mim, tal como a luz também não está diante de mim: eu não consigo ver a luz, só posso ver as coisas iluminadas pela luz".
"Deus acontece ali onde nós amamos".
"É necessário despir a própria alma, porque só quando já nada restar entre nós e a vontade de Deus, se poderá dar aquela união com Deus a que se chama Amor. Nesse momento somos «transformados em Deus por amor»".
"Há vários anos que me sinto fascinado com um definição do amor que é atribuída a Santo Agostinho: amo: volo ut sis (Amo-te, quero que Tu seja!)... «Eu quero que tu sejas». Esta frase exprime a ausência de dúvidas acerca da existência do amado; a sua existência é óbvia para mim, e o meus sentidos podem prová-la. esta frase exprime a minha confirmação fundamental da existência do meu amado, a minha alegria por ele existir. Eu não me limito a notar a sua existência, experimento-a como gratidão, como qualquer coisa que enriquece fundamentalmente a minha própria vida, sem o meu amado, o meu eu profundo perderia a sua integridade, sem ele o meu mundo ficaria desolado e terrivelmente cinzento.
No amor eu abro um lugar de segurança dentro de mim para a pessoa que amo, no qual ela pode ser plena e livremente quem é. Não precisa de representar nem de fingir para mim, nem de tentar merecer continuamente o meu amor através das suas ações. Além disso, só messe lugar seguro de amor é que uma pessoa se pode tornar aquilo que até então só era em potência. Só agora se pode aperceber do seu pleno potencial, que, sem amor, ficaria atrofiado, murcho e sufocado nas suas próprias raízes.
Estou contente por te ter conhecido; alegro-me pelo milagre do amor; quero que a pessoa a quem amo continue a estar comigo. Sim, gostaria que vivêssemos juntos para sempre. A frase «Eu amo-te, quero que Tu sejas» de Agostinho conduz a outra frase, ou seja, à definição magnífica de Gabriel Marcel: «Amar alguém é dizer-lhe: "Tu não morrerás"»... Dentro do verdadeiro amor há sempre uma fonte de eternidade".
"Deus não é «uma terceira pessoa» na relação entre duas pessoas; Deus é a base e a fonte dessa relação".
"Amar a Deus significa sentirmo-nos profundamente gratos pelo milagre da vida e exprimir essa gratidão ao longo da própria vida, aceitando a minha sorte mesmo quando esta não condiz com os meus planos e expectativas. Amar a Deus significa aceitar com paciência e atenção os encontros humanos como mensagens de Deus cheias de sentido - mesmo quando sou incapaz de as compreender devidamente. Amar a deus significa confiar que até os momentos difíceis e obscuros me revelarão um doa o seu significado".
"Deus não pode forçar os seres humanos a aceitar a salvação, o perdão e a misericórdia. Teoricamente é possível que alguém, pelo seu profundo desejo de que «Deus não seja», manifeste esse perverso desejo de forma tão consistente que acabe por se esquivar fatalmente a Deus e por se condenar a si próprio ao eterno afastamento de Deus e separação em relação a Ele".
"Aquilo que Deus traz para a história, onde nós o devemos procurar, é o amor. Eu sou cristão porque aprendi a acreditar nesse amor".
"A fé requer a coragem de escolher e de confiar".
Citando Teilhard de Chardin, "O amor é a única força capaz de unificar as coisas sem as destruir"


27
Mar 14
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GUSTAVO GUTIÉRREZ e GERHARD LUDWIG MÜLLER. Ao lado dos Pobres. A Teologia da Libertação é uma Teologia da Igreja. Paulinas Editora. Prior Velho 2014. 208 páginas.

       Com a eleição do então Cardeal Jorge Mario Bergoglio, em 13 de março de 2013, escolhendo o nome de Francisco, em homenagem a Francisco de Assis, colocando o acento tónico na Igreja pobre e dos pobres, a Teologia da Libertação ganhou nova visibilidade. Longe vão os tempos em que a Teologia da Libertação esteve sob suspeita, sendo acusada, por ignorância e preconceito, de uma teologia marxista, partindo da análise socioeconómica, na persecução do mesmo objetivo da luta de classes.

       Desde logo, no centro da Teologia da Libertação, cuja paternidade tem um rosto de fidelidade à Igreja e ao Magistério, e fidelidade e compromisso com os pobres do Peru, sua terra natal, englobando toda a América Latina e Caribe, a opção preferencial pelos pobres, expressão acarinhada pelos Bispos locais em diversas Assembleias, é uma opção que decorre do amor gratuito e misericordioso de Deus pelos pobres, não pela bondade dos mesmos. Em Jesus, Deus que encarna e Se "localiza", os pobres têm lugar à mesa, hão de ser os primeiros a ser servidos. A Teologia da Libertação é verdadeira teologia, parte de Deus, do Evangelho, acolhe o magistério eclesial, colocando o enfoque precisamente na opção pelos pobres, não como adenda, mas como compromisso irrenunciável. Por outro lado, mesmo servindo-se das ciências humanas e sociais, da análise socioeconómica, não visa, como no marxismo, a troca de uma classe social por outra, mas a dignidade da pessoa humana, de todas as pessoas. A economia de mercado, a globalização da economia, na maioria das vezes não levou a melhorias da vida da maioria, mas sobretudo a abertura dos mercados emergentes para obrigar o escoamento dos produtos das nações mais ricas.

       Vê-se como o autor - não renunciando ao enfoque próprio da Teologia da Libertação, mostrando com clareza que toda a teologia tem em conta a particularidade, a começar pelo próprio Jesus, judeu de nascimento - mantém uma pose de grande humildade e abertura, explicando uma ou outra vez, sublinhando que o mais importância nem é a relevância da Teologia da Libertação, mas o serviço aos mais pobres.

       O Papa Francisco tem precisamente sublinhado como a Igreja deverá ir às periferias geográficas e sobretudo existenciais, tendo vindo também ele de uma periferia.

       A reflexão resultante do Concílio Vaticano II, sobretudo com a Constituição Gaudium et Spes, com a abertura da Igreja ao mundo e a necessidade de uma leitura atenta e atual aos sinais dos tempos, é precisamente berço para o nascimento da Teologia da Libertação, que procura ler e responder aos sinais de uma América Latina pobre, empobrecida, periférica. Gustavo Gutiérrez não se deixou enredar em polémicas e respondeu sempre com abertura às estruturas da Igreja, nomeadamente perante a Congregação para a Doutrina da Fé, com o então Cardeal Ratzinger, como o próprio [Ratzinger] a empenhar-se pessoalmente no diálogo frutuoso com o pai da Teologia da Libertação, acolhendo a riqueza deste património, cuidando para minorar os riscos de desvio e apropriação da Teologia da Libertação por algum regime ditatorial.

       Curiosamente, o parceiro desta publicação é o atual Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal Gerhard Ludwig Müller (feito Cardeal no dia 21 de fevereiro de 2014, pelo Papa Francisco). Outra curiosidade, é que foi nomeado para Prefeito por Bento XVI, a 2 de julho de 2012, para substituir o cardeal norte-americano William Joseph Levada, por limite de idade.

        O próprio Gutiérrez sublinha o risco de alguns desvios teóricos e práticos da Teologia da Libertação, sem que seja essa a sua génese. No livro, Gerhard Müller, deixa claro que "o movimento eclesial e teológico latino-americano conhecido como "Teologia da Libertação", que se espalhou por outras partes do mundo depois do Concílio Vaticano II, deve, em minha opinião, ser incluído entre as correntes mais importantes da teologia católica do século XX".

       Continua a haver muitos críticos da Teologia da Libertação, que o fazem uma e outra vez por ignorância e preconceito. Mas também a polémica se gera do lado dos que arremessam com esta Teologia contra a Igreja e o Magistério. No entanto, a coletânea dos textos recolhidos neste livro, publicada em 2004, na Alemanha, mais os textos do de Gerhard Müller, afastam-se claramente de qualquer polémica, num equilíbrio ímpar. Sublinhe-se também, que durante a reflexão/análise na Congregação para a Doutrina da Fé, sob a batuta do então Cardeal Joseph Ratzinger, nunca o movimento foi criticado. Por outro lado, o Papa João Paulo II recorrerá por diversas vezes à linguagem nova que vem das Conferências Episcopais da América Latina e Caribe, reunidas em Medellín (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992). A "opção preferencial pelos pobres" entra definitivamente no vocabulário da Igreja e a necessidade da Nova Evangelização enraíza-se precisamente nas Assembleias do episcopado latino-americano, sancionando a Teologia da Libertação. Posteriormente, a Assembleia da CELAM (Episcopado Latino-Americano) em Aparecida, no Brasil, em 2007, e tal como o fez João Paulo II, também Bento XVI lhe dirigiu palavras de estímulo num discurso muito cristológico.

       Para melhor compreender o que significa Teologia da Libertação, mas sobretudo a opção preferencial pelos pobres, que ao tempo de Cristo tinham nome - Lázaro -, e que agora são uma maioria sem nome e sem chão, este é um excelente texto, de fácil compreensão. O propósito da Teologia da Libertação, com um enfoque específico, visa o mesmo que toda a Teologia, que Cristo seja tudo em todos.


15
Nov 13
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ANTONIO SPADARO. Ciberteologia. Pensar o cristianismo na era da internet. Paulinas Editora, Prior Velho 2013, 192 páginas.

        Uma sugestão de leitura que antes nos foi sugerida. Quando sugerimos uma leitura, fazemo-la por ser envolvente, pelo conteúdo, pela forma, pela beleza, pela importância deste ou daquele texto. Na última Assembleia do Clero, da Diocese de Lamego, no dia 5 de outubro de 2013, alguém, em plenário, recomendou esta leitura. Seguindo a recomendação, logo procurámos o livro, e depois da nossa leitura, recomendamo-lo nós também.

 

       António Spadaro, diretor da Revista Cevittá Cattolica, entrevistou há pouco tempo o Papa Francisco, o que o tornou bem mais conhecido. A entrevista, de que já demos nota, é a primeira grande entrevista do Papa Francisco, concedida às revistas da Companhia de Jesus, a que também o papa pertencia. Spadaro é consultor nos Pontifícios da Cultura e das Comunicações Sociais. É docente na Universidade Gregoriana.

       Ao longo dos tempos têm-se dedicado a refletir sobre os meios de comunicação social, nomeadamente no contexto da REDE. O livro Ciberteologia é resultado das reflexões colocadas no blogue com o mesmo nome, com conferências dadas, com investigação e estudo.

       É uma obra de pensamento amadurecido. Apresenta a Internet como um ambiente humano. Não apenas um instrumento, ou um meio, para chegar mais longe, mas uma realidade que facilmente passa do virtual ao encontro.

       São muitos os termos presentes nestes meios que são transferidos da teologia: justificar, apagar, partilhar, grupos, busca, pesquisa, caminho, links, salvar, converter, navegar, home (casa, o ambiente da família). Linguagem da teologia na internet, mas também termos que se tornam mais compreensíveis quando voltam para a teologia.

        Antonio Spadaro traça a evolução técnica da rede, a grande revolução, a necessidade de refletir sobre este ambiente humano. As pessoas estão interligadas, conectadas, de certa maneira, em comunhão. Quando se fala de internet fala-se de vida, e não de fios, cabos, modems, gadgets. É uma experiência de vida. Um EU que se encontra com um TU. A internet é uma ambiente de evangelização.

       Sublinha-se no livro, e na entrevista que se segue, que a Internet não substitui o encontro pessoal, como não substitui a liturgia da Igreja, a inserção na comunidade crente. Ambiente digital que ajuda a conhecer o mundo, aproxima as pessoas,...

       A era da Rede também altera a comunicação, influencia a evangelização, a educação, a relação com a Igreja e com as instituições tradicionais.

       Nos dias 3 e 4 de outubro de 2013, decorreram, em Fátima, as Jornadas de Comunicação Social. Um dos convidados foi precisamente Antonio Spadaro. Segue-se a conferência que ajuda a perceber o que significa ciberteologia, motivando a leitura deste livro, ou a leitura deste livro poderá despertar um maior interesse para escutar esta exposição:

Veja também a pré-publicação de Cibertelogia na página do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura: AQUI.


31
Out 13
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

JOSEPH RATZINGER. Introdução ao cristianismo. Prelecções sobre o «Símbolo Apostólico». Principia. Cascais 2006. 272 páginas.

 

       A Introdução ao Cristianismo é uma obra de referência para a teologia do século XX mas que entra inevitavelmente neste novo século e milénio, não fosse o seu autor um dos mais conceituados teólogos do mundo católico e cristão, Joseph Ratzinger, que viria a ser Bispo, Cardeal, Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, braço direito de João Paulo II e de Papa Bento XVI, de 19 de abril de 2005 a 28 de fevereiro de 2013, tendo decidido resignar para que o Evangelho ganhasse vigor num mundo cada vez mais exigente.

       Tinha sido um dos peritos do Concílio, acompanhando o seu Bispo. Era, e continuou a ser, um promissor teólogo. Professor, estudioso. Não deixando de o ser, mesmo assumindo a missão de Pastor.

       Este livro foi dado à estampa em 1968. Como se refere no prefácio à 10.ª edição, em pouco mais de um ano “vulgarizou-se”, com uma venda invulgar “ultrapassando inclusive as fronteiras entre o Oeste e o Leste e entre os diversos credos religiosos”.

       Em 2000, novo prefácio, que assinala dois anos especiais que atravessaram os 30 anos que tinha a obra: 1968 e 1989. Dois acontecimentos verdadeiramente revolucionários. No entanto, Ratzinger, agora Cardeal, mantem as linhas orientadoras do seu estudo, como contributo para a reflexão teológico, centrado no credo, no Símbolo dos Apóstolos, desde o início em que foi surgindo nas fórmulas batismais, de pergunta e resposta, e à volta do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Profissão de Fé que vem antes do dogma.

       Obviamente, ao longo doa anos, Ratizinger publicou outras obras, que aprofundam alguns aspetos, com outras matizes, com outros enquadramentos. Certamente que este é um livro fundamental para conhecer o pensamento de Ratzinger/Bento XVI. Vislumbram-se muitas das intuições presentes posteriormente em outros estudos, mas também em homilias, mensagens, discursos, conferências.

       Introdução ao Cristianismo foi preparado para ser publicado em livro, mas nasceu das prelecções proferidas pelo sacerdote Joseph Ratzinger, para audiências de todas as faculdades durante o semestre de verão de 1967, em Tübingen.

       É um texto de fácil compreensão, mas não tanto como outros mais pastorais. Evidentemente trata-se de uma obra de estudo, de reflexão, académica, ainda que bastante expositiva, viva no debate, com exemplos, pequenas histórias, centrando-se no CREDO mas dialogando com diversos ambientes, autores, épocas, diferentes áreas do saber.

       Duas notas muito em evidência em todo o texto: humildade de quem faz teologia, respeito por quem discorda acolhendo os aspetos mais relevantes. Desde o início que o sacerdote/professor deixa claro que a teologia não encerra o mistério de Deus. Quem pretender absolutizar a teologia corre o sério risco de limitar a omnipotência, colocando-se em seu lugar. Por outro lado, Ratzinger lança diversas pontes de diálogo e discussão com autores católicos, protestantes, e até judeus. Mesmo recusando argumentos de alguns autores bem conhecidos, sublinha sempre o trabalho, a seriedade que tiveram ou aqueles princípios que terão que ser melhor estudados, ou que deram um importante contributo à reflexão teológico e/ou científica, nesta ou naquela área. També aqui cai por terra, com facilidade, o preconceito que rodeou o teólogo, o Cardeal e o Papa (Bento XVI) que seria déspota ou demasiado rígido. Leia-se e ver-se-á a disponibilidade para o diálogo, e a humildade diante do mistério de Deus. E no final, como valor maior o amor. A fé é razão. O Verbo encarnou. O Verbo é o Logos, é razão. A fé é razoável. A fé não é escuridão, mesmo que haja momentos de treva, é sobretudo luz. É Palavra. É Pessoa, Jesus Cristo. É amor. Estas intuições estão muito presentes na primeira Carta Encíclica do Papa Francisco, preparada por Bento XVI.

       Outros livros mais acessíveis e onde Bento XVI aprimora o seu discurso, tornando-o mais simples e claro. Jesus de Nazaré (em três volumes), publicado já como Papa Bento XVI, obra sobre Jesus Cristo, mistério da encarnação, vida pública, morte e ressurreição; A Alegria da Fé, recolha de textos, discursos, homilias, trechos das encíclicas, exortações, centrados no CREDO e nos Sacramentos. Um livrinho que também recomendámos e que aborda sobretudo a questão da fé: Aprender a acreditar. Estas leituras são mais fáceis, acessíveis, mais pastorais, mais orais, se quisermos. Mas para quem quiser aprofundar mais o pensamento de Bento XVI, ou acompanhar um pouco mais o processo de reflexão, de argumentação, de estudo, será revelador a leitura desta obra.


17
Jul 13
publicado por mpgpadre, às 17:00link do post | comentar |  O que é?

BRUNO FORTE. Porquê confessar-se? A reconciliação e a beleza de Deus. Paulus Editora. 2.ª edição. Lisboa 2012, 64 páginas.


       Bruno Forte é um reconhecido teólogo italinao. Aos 30 anos já era doutorado em Teologia e em Filosofia. Natural de Nápoles, desde cedo dedicou a sua vida ao estudo, à investigação teológica, ao diálogo filosófico. Paris e Tubinga, França e Alemanha (e passagens por outros países,  encontros com outras tendências teológicas), permitiram-lhe novas experiências e aberturas.

       No seu percurso académico, e sacerdotal, o diálogo com crentes de outras confissões cristãs, com a ortodoxia, com outras religiões, o judaísmo, o islamismo, em ambientes muitos diferentes, mas com o fito de tornar acessível a procura de Deus que nos visita na história. Diga-se, aliás, que este é um princípio basilar na sua reflexão teológica: Deus entranha-Se na história dos homens, da humanidade. Não é um Ser distante, alheado.

       Nomeado Bispo, por João Paulo II, ordenado pelo então Cardeal Joseph Ratzinger, Bruno Forte dedica-se sobretudo à missão de Pastor. Ainda, como o próprio refere, a teologia seja de uma ajuda prestimosa para o serviço pastoral, procurando tornar mais simples a Palavra de Deus e mais acessível a reflexão teológica, sem, no entanto, deixar de lado os fundamentos teológicos do compromisso eclesial com os mais pobres e simples.

       Para melhor conhecer a obra e o pensamento de Bruno Forte e o seu percurso, o nascimento, a família, o ambiente em que é educado, a vocação, o sacerdócio e a teologia, a filosofia, as viagens, os livros, o trabalho pastoral em Nápoles, a eleição para Bispo, o trabalho episcopal como Arcebispo Metropolitano de Chieti-Vasto recomedamos outras leitura, em forma de entrevista (o entrevistador é sobrinho do Papa João XXIII):

BRUNO FORTE. Uma Teologia para a vida. Fiel ao Céu e à terra. Paulus Editora. Lisboa 2013, 248 páginas.


       Nesta entrevista biográfica também se veem encontro com grandes pensadores e teólogos, como Henri de Lubac, Yves Congar,, Chenu, Moltmann, ou com filósofos de renome. Em 2004, o Papa João Paulo II convidou-o para Pregador do retiro ao Papa e aos seus colaboradores, no início da Quaresma. O então Cardeal Ratzinger prontificou-se a "emprestar-lhe" a secretária a fim de esta traduzir as reflexões para alemão, para a edição alemã. Já antes, Ratzinger, Presidente da Comissão Teológica Internacional, pedira a Bruno Forte para encabeçar a comissão responsável pelo documento "Memória e Reconciliação", base para o pedido de perdão do Papa João Paulo II, pelo ano jubilar 2000. Ratzinger, deu a sua aprovação.

       Com 55 anos foi eleito Bispo e ordenado, a 8 de setembro de 2004, pelo Cardeal Ratzinger, em Nápoles. Por curiosidade, a homilia de Ratzinger veio a ser publicada no primeiro conjunto de escritos, discursos, homilias, de Bruno Forte, sob o título "A Luz da Fé", que é exatamente o título da primeira Encíclica do Papa Francisco, Lumen Fidei - a Luz da Fé... Curioso.

       Como Bispo, Bruno Forte, tem apostado em clarificar e tornar acessível a teologia para a comunidade.

        No ano de 2005, no início da Quaresma escreveu à Diocese esta carta pastoral, sobre o Sacramento da Reconciliação. Outros escritos pastorais: "Crismar-se, porquê?", "As quatro noites da salvação"; "Porquê ir à Missa ao Domingo?"

         Neste pequeno livro, além da Carta Pastoral de D. Bruno, também a lectio divina, leitura meditada da parábola do Filho Pródigo/Pai da Misericórdia (cf. Lc 15, 11-32). Nas últimas páginas, subsídio para o Exame de Consciência, baseado nos 10 Mandamentos, e ainda oração para o Ato de Contrição.


18
Jun 13
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

ANTÓNIO COUTO, O Livro do Génesis. Letras & Coisas, Leça da Palmeira 2013, 180 páginas (livro de bolso).

 

       O livro do Génesis suscita curiosidade e estudos diversos, para os homens da fé, da história, da cultura, da ciência. Umas vezes como fonte, outras para contraposição, às vezes para confirmar o que se sabe, outras vezes para conhecer a cultura e a época em que foi escrito, às vezes para escarnecer, outras para aprofundar a própria fé em Deus criador.

       Há aqueles que fazem do livro do Génesis um texto como que ditado por Deus, sem margem para erro; há quem perceba a inspiração de Deus, a leitura religiosa da criação, e se sinta inspirado para agradecer, para louvar a criação e amor de Deus, e para perceber como Deus age na história, por vezes silenciosamente.

       D. António Couto, neste estudo, aborda diversas questões, a criação de Deus, o ser humano como dom da criação, a cultura envolvente, a originalidade do texto bíblico, a igual dignidade do homem e da mulher, criados por Deus - não são extensão ou da mesma natureza, mas são dom -, o pecado, o paraíso/jardim como dádiva de Deus, que dele cuida, confiando-o ao homem, o pecado dos primeiros pais, o fratricídio de Caim, a teologia da eleição, da aliança, de Deus que nunca desiste da humanidade e sempre nos salva.

       As figuras patriarcais, Abraão, Isaac e Jacob, mas também a sugestiva história de José, o filho predileto, o irmão rejeitado, mas que é eleito para a salvação da família de Jacob, para a preservação da aliança de Deus com o Povo.

       Notório nesta páginas a eleição, um povo, mas instrumento de salvação e de bênção para todos os povos. Só nessa medida faz sentido a eleição, como mediação para todos os povos.

       Para quem quiser aprofundar o estudo do livro dos Génesis, para crentes que queiram acolher a história da salvação, como dom a rezar, a agradecer, para outros que queiram alargar os horizontes das suas questões, ou dúvidas, ou enriquecer-se com reflexões sugestivas.

       É um estudo mais científico, mais académico, em relação a outras sugestões que aqui trazemos, mesmo de D. António, como conjunto de reflexões e homilias, mas que se lê e percebe com facilidade. Será uma belíssima oportunidade para ficar por dentro de toda a problemática levantada sobre o livro do Génesis, e sobre a teologia da criação, em diálogo com a ciência, a história, a antropologia, e com uma referência que passa como fio condutor, a encarnação de Jesus Cristo, a Sua morte e ressurreição, o seu ministério de amor e de salvação. Neste fio condutor percebe-se como tudo desemboca em Jesus Cristo, no Qual todas as coisas foram criadas.

       Boa leitura. Meditada. rezada. "Que o leitor se delicie com estas páginas, em que Deus e o homem se procuram e encontram, ou se distanciam. Foi um prazer, espanto e proveito sempre renovados que as fui escrevendo" (D. António Couto).

 

Veja também a sugestão deste estudo na Livraria Fundamentos: AQUI.


01
Jun 13
publicado por mpgpadre, às 11:36link do post | comentar |  O que é?

        Depois da Sua eleição, no passado dia 13 de março, tem surgido diversos escritos do atual papa Francisco. Era expectável, que muitos procurassem de imediato saber o que já disse, fez, o que escreveu, as mensagens mais emblemáticas, gestos mais relevantes, acontecimentos mais transformadores, e, claro, para outros, ver o que poderia gerar crítica ou escândalo.

       Começamos por sugerir uma primeira leitura, juntando as primeiras palavras de Francisco, com as últimas de Bento XVI: BENTO XVI, Embora me retire continuo unido a vós. Discursos de Bento XVI e SAVERIO GAETA. Papa Francisco. A vida e os desafios. Este constitui uma primeria abordagem biográfica de Jorge Bergoglio, agora Papa Francisco, com algumas citações de frases, intervenções, mensagens, homilias...

       Mais completo, quanto aos temas tratados, a célebre entrevista ao então Cardeal Jorge Bergoglio, assumindo o título "O Jesuíta", que recebeu nova edição: SERGIO RUBIN e FRANCESCA AMBROGETTI, Papa Francisco. Conversas com Jorge Bergoglio.

       Este título que agora apresentamos é uma extraordinário encontro de um cristão e de um judeu, um cardeal e um rabino, num diálogo muito profícuo, com muitos pontos de contacto, de respeito, admiração, humildade, mostrando que a sabedoria leva à concórdia e a buscar o que verdadeiramente é ponte para os outros. Para haver diálogo é inevitável e necessário que cada um se apresente com os seus princípios, ideias, convicções, com abertura, não para desistir da sua identidade, mas para a enriquecer com as convicções dos outros. Se há pura cedência de uma das partes, não há diálogo. Se há imposição também não. Mas se existe humildade é possível encontrar pontos de contacto que ajuda a entender o mundo e a humanidade, procurando soluções ou pelo menos caminhos.

JORGE BERGOGLIO e ABRAHAM SKORKA, Sobre o Céu e a Terra. Clube do Autor. Lisboa 2013, 224 páginas.

 

       O então cardeal Jorge Bergoglio e Abraham Skorka já se tinha encontrado em diversas ocasiões, tornando-se amigos, abordando diversos temas da fé, da vida, da política. Inclusive, já tinham escrito prefácios para livros um do outro. Por que não colocar por escrito os diálogos entre ambos.

       Este livro nasce dessa vontade comum de partilhar com outros as conversas tidas ao longo dos anos, sinalizando desde logo que é possível, e até necessário, que pessoas de diferentes credos, comungarem o essencial da vida.

       São variados os temas: sobre Deus, o Diabo, a oração, a culpa, a morte, a eutanásia, o aborto, a mulher, os idosos, o fundamentalismo, o divórcio, a política, a educação, o dinheiro, a pobreza, sobre o holocausto, sobre o casamento de pessoas do mesmo sexo, sobre o conflito israel-árabe, ou sobre a evolução política e social da Argentina.

       Muito clarificador. Mais um livro que se lê com muito agrado, quer nas intervenções do atual Papa, quer nas palavras do rabino Skorka. Com sabedoria e simplicidade, numa abordagem que desafia, e envolve, pois traz a experiência de vida de cada uma dos intervenientes.

       Por outro lado, e no que diz respeito ao Papa Francisco, pode constatar-se que a mensagem que tem chegado ao mundo inteiro é genuína, não surge de repente, é fruto da vida, da experiência, do estudo, da oração, de milhentas situações concretas. Lendo o Jesuíta, ou lendo este (bom seria ler os dois títulos - já há outros) fica-se a conhecer bem melhor o pensamento de Francisco, os seus gestos e as suas mensagens sobre humildade, serviço, pobreza, diálogo, pontes em vez de muros.

 

 No Youtube podem encontrar-se outras conversas, do Papa com Abrahm Skorka:


09
Abr 13
publicado por mpgpadre, às 15:00link do post | comentar |  O que é?

José TOLENTINO MENDONÇA. Nenhum Caminho será Longo. Para uma teologia da amizade. Paulinas Editora, 2.ª edição, Prior Velho 2012.

       Para lá dos muitos textos que colocámos por AQUI, recomendámos duas obras do Pe. Tolentino Mendonça: Pai-nosso que estais na terra e O tesouro escondido. Duas excelentes leituras, para cristãos, para crentes, ou para pessoas que procuram sentidos ou SENTIDO para as suas vidas. A linguagem é por demais acessível e gera vontade de ler mais, de sublinhar e reler passagens. 

       Este livro que ora sugerimos é mais uma excelente reflexão sobre a amizade, com um fundo cristão, inspirado em Jesus Cristo e no Evangelho, mas com um diálogo atento a filósofos, artistas, poetas, personalidades, pequenas histórias, parábolas, poemas.

       É mais um registo simples, de fácil compreensão, e com a densidade a que o Pe. Tolentino Mendonça nos habituou. É um texto sem teias nem falsas presunções, que desafia a encontrar pérolas nas pessoas que vêm até nós, elevando a amizade no reino do amor. Jesus é também uma referência fundamental, como AMIGOS que considera, acolhe, promove, desafia, envia. Com Pedro que nega. Com Judas que trai. Com outros discípulos que se afastam. Mas há outras figuras bíblicas que revelam a pureza, a beleza e a profundidade da amizade, como David e Jónatas, como Abraão ou Moisés, amigos de Deus, os amigos de Job e muitos outros amigos.

       Quem encontrou um amigo encontrou um tesouro.

       A amizade coloca-nos em comunhão com os outros, mas também com a eternidade. Só o amigo diz bem o meu nome. Bons amigos comunicam por palavras, mas entendem-se bem sem palavras, os silêncio, entre amigos verdadeiros, não incomodativo, mas apaziguador. A amizade não se alimenta de tensões, mas de comunhão, olha para o outro, para o que ele é, não para o que ele tem.


21
Dez 12
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

       Aguardado há algum tempo, o terceiro volume da obra de Bento XVI, Jesus de Nazaré, desta feita, a Infância de Jesus. Ainda que seja o terceiro volume, este livro corresponde à primeira etapa de vida de Jesus, partindo sobretudo dos evangelhos de São Lucas e de São Mateus, que relatam momentos da infância de Jesus.

       Diga-se desde logo, que este estudo foi iniciado antes de Bento XVI ter sido eleito Papa. Joseph Ratzinger é, sem dúvida, um dos teólogos mais brilhantes que a Igreja conheceu no século XX e início deste novo século e milénio. Nesta sua obra, em três volumes, mostra a Sua vertente mais teológica, não fugindo dos vários questionamentos histórico, científicos, de crítica textual, de vivência da fé, em comunhão com a Igreja, povo de Deus, e com o Magistério, alimentando-se particularmente da Bíblia, da Fé, dos Padres da Igreja, mas também de estudos recentes, de autores católicos, mas também protestantes, ou procurando estudos noutras religiões.

       É um texto de fácil leitura, acessível, como nos tem habituado nas homilias, intervenções, catequese, e igualmente nos estudos publicados. Fácil, acessível, recorrendo a imagens, ao sensus fidei, à vida, com a preocupação de aprofundar a fé. A dimensão mais histórica da vida de Jesus, as dúvidas, as imprecisões, as interpretações textuais, a evolução das traduções, as novas descobertas arqueológicas, os novos estudos teológicos, não engendram dificuldades na vivência da fé, fundamentam-na, mas não a aprisionam, o mistério ultrapassa as lacunas que possam ser encontradas na história e na documentação existente. A fé é maior, ainda que enraizada na história, no tempo, em contextos culturais sociais e religiosos específicos...

       Logo depois de publicado, gerou alguma celeuma sobretudo à volta do boi e do jumento no presépio. Saliente-se que os evangelhos não falam em animais presentes junto à manjedoura ou que animais. Em todo o caso Bento XVI refere o contrário do que Lhe foi atribuído: atualmente nenhum presépio, segundo ele, dispensa o boi e o jumento (ou a vaca e o burro).

       Mais uma vez fica claro que não basta ouvir o que nos dizem de outros, mas ir à fonte, ver, ler, escutar, perceber.

 

Joseph Ratzinger/Bento XVI, Jesus de Nazaré. A Infância de Jesus. Princípia Editora. Cascais 2012.


07
Dez 12
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

      «Na singular conexão entre Isaías 1,3; Habacuc 3,2; Êxodo 25,18-20 e a manjedoura, aparecem os dois animais como representação da humanidade, por si mesma desprovida de compreensão, que, diante do Menino, diante da aparição humilde de Deus no estábulo, chega ao conhecimento e, na pobreza de tal nascimento, recebe a epifania que agora a todos ensina a ver. Bem depressa a iconografia cristã individuou este motivo. Nenhuma representação do presépio prescindirá do boi e do jumento» – Joseph Ratzinger/Bento XVI, Jesus de Nazaré: a infância de Jesus, Cascais, Principia, p.62.

       Foi com alguma perplexidade e razoável estupefação que ouvi e, posteriorrmente, li a reação a estas palavras do último livro do Papa. Nota-se pelas declarações que a maioria não leu o que Bento XVI escreveu, limitando-se a reproduzir frases feitas, servindo-se de preconceitos mais ou menos ideológicos – senão na forma pelo menos no conteúdo – de quem está contra... mesmo que não saiba qual a razão!

       Desde logo surgiram-me questões simples que parecem ter mais a ver com uma certa religiosidade cristã: será que a presença da ‘vaca e do burro’ são tão essenciais para a crença de certas pessoas? Tirar estes adereços mexe assim tanto com a valorização do presépio? Onde terão lido estes defensores da ‘vaca e do burro’ a sua presença nos textos bíblicos? Como podem fazê-los tão imprescindíveis se eles nem estão presentes na narrativa canónica? A quem interessa este ruído sobre questões de lana caprina?

       Reparemos no texto do Papa citado e reportemo-nos também à narrativa lucana (Lc 2, 1-20) onde poderão incluir-se os ditos ‘boi e jumento’, traduzindo ainda por ‘vaca e burro’. 

       ‘Presépio’ significa: curral, estábulo... daí podermos incluir alguns animais nesse contexto. Qual a razão de vermos o boi ou a vaca nesse estábulo? Talvez seja mais uma projeção do tempo em que surgiu o difusão do presépio na cultura ocidental europeia com São Francisco de Assis, na Idade Média, ou ainda com a ruralidade em que se quis colocar ou se pode ver o contexto do nascimento de Jesus entre animais... possivelmente mais ovelhas do que outro gado.

       Talvez o burro/jumento tenha sido o meio de locomoção de José e de Maria entre Nazaré e Belém, a cidade onde se foram recensear. Com efeito, as distâncias eram grandes e os recursos materiais e humanos não seriam mais do que esses de terem um burro para poderem viajar. Daí colocá-lo no contexto do presépio poderá ser tão natural quão difícil de harmonizar animais de diferente estirpe e razoável teimosia... Só quem não os conhece é que se admirará desta alusão à proximidade simples de antagónicos!

       Não deixa ainda de ser significativo que o Papa diga no texto supra citado que aqueles animais – o boi e o jumento ou a vaca e o burro – são ‘representação da humanidade’. Será, então, que a nossa – humana, racional, psicológica e espiritual – simbologia está caraterizada por aqueles dois espécimes? Ou será que, recorrendo aos textos referidos na citação, se pretende fazer uma conjugação dos diferentes humanos, pois se até os animais se entendem e se relacionam em harmonia junto do Deus-Menino, quem somos nós, afinal, para não nós entendermos?

       Bastará parar um pouco diante do presépio para vermos como são fúteis as nossas jactâncias de orgulho: ali está um Deus que Se humilhou e que teve por companhia animais amansados pela pobreza dum Menino que Se fez próximo desde dentro da nossa condição humana e em projeção humanizada.

       Bastará perceber a força de despojamento de um Deus que nasce e é acolhido entre animais porque não havia lugar para Ele na estalagem das ocupações humanas... tais eram (e são) as pretensões de sermos importantes à custa dos direitos dos outros.

       O boi/vaca e o jumento/burro continuarão a ter espaço e oportunidade nos nossos presépios, enquanto andarmos atarefados com inutilidades que nos fazem perder o sentido da vida e a qualidade da existência?

       Que o burro e que a vaca exalem um hálito de ternura sobre este mundo, que rejeita Deus e esquece Jesus! 

 

Pe. António Sílvio Couto, in AQUI e AGORA,

publicado também no Jornal Voz de Lamego.


23
Jul 12
publicado por mpgpadre, às 11:00link do post | comentar |  O que é?

JOÃO ANDRÉ RIBEIRO, Da minha Janela. A inquieta curiosidade de olhar. ASEL, Lamego 2012.

       "Da minha janela" é o título da rubrica que o Pe. João André no Jornal Diocesano, Voz de Lamego, cujas reflexões foram agora coligidas neste magnífico livro que agora recomendámos e que é editado pela Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Lamego (ASEL), no âmbito dos 50 anos da abertura do (edifício atual do) Seminário de Lamego. Ao tempo que era seminarista, o Dr. João André era Reitor do Seminário Maior e nosso professor em disciplinas na área da filosofia.

       Naquele tempo, como posteriormente, os textos da sua autoria e apresentados no jornal da Diocese sempre foram motivo de curiosidade e de leitura, pela profundidade, pela clareza e por uma contextualização atual e concreta ao mundo de hoje, à Diocese, a lugares e a pessoas.

       É com muito agrado que relemos agora muitos desses textos e outros mais.

       Habituámo-nos como alunos, mas também como seminaristas, o mesmo será dizer escutando o professor ou o sacerdote, a reflexões muito próprias, desafiadoras, sem se deixar levar pela correnteza de modas fáceis. O gosto por algum filósofo a ele o devemos - no caso pessoal, a linguagem, a epifania do ROSTO em E. Levinas, e do olhar, depois de um trabalho sobre o filósofo francês e que está presente em muitos dos seus textos.

       Nunca o vimos recusar definitivamente uma forma de pensamento, uma ideologia, uma corrente filosófica, um filósofo. Também nunca o vimos santificar nenhuma corrente ideológica. Sempre uma atitude crítica, construtora, sublinhando os aspetos que sem seu entender seriam de aproveitar e que contribuiriam para a evolução do pensamento, e alertando para os perigos de reduzir ou absolutizar alguma teoria, com o risco de maltratar a pessoa e a dignidade humana.

        São muitos os que passam por estas páginas: Levinas, Martin Buber, Kant, Heideggar, São Tomás de Aquino, Pascal, Kierkegaard, Ortega y Gasset, Khalil Gibran, Hannah Arendt, Edith Stein ou Santa Teresa Benedita da Cruz, Max Scheller, Sartre, Virgílio Ferreira, Santa Teresa de Ávila, Virgílio Ferreira, Roger Garaudy, Abbé Pierre, Husserl. JESUS CRISTO, João Paulo II, Bento XVI e tantos outros.

       Mas desengane-se quem pense que é FILOSOFIA distante, e não se deixem levar pelos nomes. Deles por vezes apenas um título, uma ideia, uma orientação, porque no Pe. João André a linguagem é de fácil compreensão, de leitura agradável, com a preocupação de simplicidade. A pulsar da vida em situações concretas no Seminário, na paróquia, em viagens, em encontros da vida.

       São muitos os temas que cativam: o mundo de hoje, a esperança, o sofrimento e a cruz, o AMOR, a beleza, a dimensão lúdica do homem, as pessoas da aldeia, a comunicação social e a verdade feita à medida de alguns, e a VERDADE em Jesus Cristo, Deus e o Homem, a Solidão e a solidariedade, a esperança e abertura para Deus...

       Escrito ao correr da pena e com a preocupação de se tornar acessível para todos os leitores da Voz de Lamego,... Lido de assentada, ou reflexões para cada dia, ajuda a refletir a vida e, como desejo de todos os que escrevem, que ajude a viver melhor.


25
Out 11
publicado por mpgpadre, às 11:04link do post | comentar | ver comentários (12) |  O que é?

Primeira nota:

       Ainda não li o livro, mas a entrevista de José Rodrigues dos Santos à revista Sábado. Permite concluir desde logo que é mais um romance oportunista, querendo tornar dogmático o que são suposições já muito exploradas - apresenta alguns dados como sendo novos e escondidos pela Igreja, quando são estudados há decénios, e alguns, há séculos. Tratando-se de uma obra ficcionada nada a opor. Mas quando se faz querer que a teologia e a Igreja vivem na mentira e o José  Rodrigues dos Santos é a verdade descoberta e definitiva, no mínimo é presunção. Tantos estudiosos, historiadores, teólogos, e outros, cujas descobertas e/ou reflexões não têm nem valor nem credibilidade porque há ou pode haver outras interpretações!

       Pelo que li, o romance não traz, para a história, nada de novo. A filiação de Jesus, a sua família, os evangelhos gnósticos, a figura ímpar de Maria Madalena, são temas amplamente discutidos. Diga-se a propósito e como exemplo: Maria Madalena, popularmente continua a dizer-se que era uma prostituta ou a mulher apanhada em adultério; o filme de Mel Gibson assume esta versão; na Igreja contudo ninguém ensina semelhante inverdade. Maria Madalena era uma mulher bastante doente que Jesus curou e depois disso tornou-se uma das benfeitores de Jesus e dos seus discípulos. Alguns Padres da Igreja fizeram confusão entre Maria Madalena e outras mulheres de quem não nos chega o nome - talvez para não serem expostas. Muitas vezes, incluindo José Saramago, é apresentada como pessoa íntima de Jesus. Bom, por ser suspeita vale mais dos que os testemunhos do Evangelho? Ou do que os estudos teológicos?

        Também poderia abordar, não sei se aparecerá no romance, que Jesus nasceu 7 anos antes da era cristã... que morreu pelo ano 30, mas com 37 anos... qualquer estudante de teologia sabe isso... que Judas poderia ter sido o discípulo predilecto de Jesus... que a expulsão dos sete demónios de Maria Madalena poderá significar que tinha muitas doenças, ou uma doença muito grave... veja-se que o sete é muito simbólico... poderia também referir que afinal em Belém, Jesus nasce numa gruta ou num estábulo por generosidade de São José, que teria aí uma casa, e a gravidez de Maria, o terá levado a disponibilizar a casa para os que se deslocavam para o recenseamento. Se Maria ocupasse a casa, todos na casa ficariam contaminados (era assim a lei judaica), com o parto. Então, a opção terá sido o "estábulo", a parte debaixo da casa, onde se resguardaram... e tantas outras coisas sobre as quais há hoje uma luz diferente, mas que no essencial e para os crentes não são obstáculo, mas a constatação que a Sagrada Escritura tem um contexto espacio-temporal, situada na história, redigida por homens, em palavras humanas...

 

       Mais uma nota introdutória:

       Li romances anteriores de José Rodrigues dos Santos (que vale a pena ler). Nada a opor ao romancista... como li várias obras de José Saramago (a escrita sobre Jesus Cristo é mais uma tentativa de mostrar factos novos, mas nada do que li para mim foi novo, tinha estudado no seminário, mas foi um bom negócio "literário", como também Caim)... como li Dan Brown, O Código Da Vinci (facilmente o que nos é apresentado como a última verdade, factual, se verifica que mesmo nos dados históricos e nas referências aos monumentos há muitos erros e alguns de palmatória... depois disso, as suas publicações, aproveitando o sucesso, versaram sobre as mesmas suposições, mas ficaram por isso mesmo, para mim, desinteressante...)

       Se pesquisarem na NET vão encontrar muitos "últimos segredos"... de qualquer coisa, mas a maioria versa sobre religião... continua a vender bem!

       BENTO XVI, na obra de Jesus de Nazaré, aborda muitos dos temas polémicos, mas vai além do método crítico-histórico. Vale a pena ler a obra, onde se pode verificar claramente que a Igreja e os seus maiores "teólogos" não fogem às questões colocadas nas insinuações, na história, nas tradições paralelas, nos grupos sectários que se afastaram da Igreja...

 

      

NOTA DO SECRETARIADO NACIONAL DA PASTORAL DA CULTURA:

 

       O romance de José Rodrigues dos Santos, intitulado “O último segredo”, é formalmente uma obra literária. Nesse sentido, a discussão sobre a sua qualidade literária cabe à crítica especializada e aos leitores. Mas como este romance do autor tem a pretensão de entrar, com um tom de intolerância desabrida, numa outra área, a história da formação da Bíblia por um lado, e a fiabilidade das verdades de Fé em que os católicos acreditam por outro, pensamos que pode ser útil aos leitores exigentes (sejam eles crentes ou não) esclarecer alguns pontos de arbitrariedade em que o dito romance incorre.

 

       1. Em relação à formação da Bíblia e ao debate em torno aos manuscritos, José Rodrigues dos Santos propõe-se, com grande estrondo, arrombar uma porta que há muito está aberta. A questão não se coloca apenas com a Bíblia, mas genericamente com toda a Literatura Antiga: não tendo sido conservados os manuscritos que saíram das mãos dos autores torna-se necessário partir da avaliação das diversas cópias e versões posteriores para reconstruir aquilo que se crê estar mais próximo do texto original. Este problema coloca-se tanto para o Livro do Profeta Isaías, por exemplo, como para os poemas de Homero ou os Diálogos de Platão. Ora, como é que se faz o confronto dos diversos manuscritos e como se decide perante as diferenças que eles apresentam entre si? Há uma ciência que se chama Crítica Textual (Critica Textus, na designação latina) que avalia a fiabilidade dos manuscritos e estabelece os critérios objetivos que nos devem levar a preferir uma variante a outra. A Crítica Textual faz mais ainda: cria as chamadas “edições críticas”, isto é, a apresentação do texto reconstruído, mas com a indicação de todas as variantes existentes e a justificação para se ter escolhido uma em lugar de outra. O grau de certeza em relação às escolhas é diversificado e as próprias dúvidas vêm também assinaladas.

       Tanto do texto bíblico do Antigo como do Novo Testamento há extraordinárias edições críticas, elaboradas de forma rigorosíssima do ponto de vista científico, e é sobre essas edições que o trabalho da hermenêutica bíblica se constrói. É impensável, por exemplo, para qualquer estudioso da Bíblia atrever-se a falar dela, como José Rodrigues dos Santos o faz, recorrendo a uma simples tradução. A quantidade de incorreções produzidas em apenas três linhas, que o autor dedica a falar da tradução que usa, são esclarecedoras quanto à indigência do seu estado de arte. Confunde datas e factos, promete o que não tem, fala do que não sabe.

 

       2. Chesterton dizia, com o seu notável humor, que o problema de quem faz da descrença profissão não é deixar de acreditar em alguma coisa, mas passar a acreditar em demasiadas. Poderíamos dizer que é esse o caso do romance de José Rodrigues dos Santos. A nota a garantir que tudo é verdade, colocada estrategicamente à entrada do livro, seria já suficientemente elucidativa. De igual modo, o apontamento final do seu romance, onde arvora o método histórico-crítico como a única chave legítima e verdadeira para entender o texto bíblico. A validade do método de análise histórico-crítica da Bíblia é amplamente reconhecida pela Igreja Católica, como se pode ver no fundamental documento “A interpretação da Bíblia na Igreja Católica” (de 1993). Aí se recomenda o seguinte: «os exegetas católicos devem levar em séria consideração o caráter histórico da revelação bíblica. Pois os dois Testamentos exprimem em palavras humanas, que levam a marca do seu tempo, a revelação histórica que Deus fez… Consequentemente, os exegetas devem servir-se do método histórico-crítico». Mas o método histórico-crítico é insuficiente, como aliás todos os métodos, chamados a operar em complementaridade. Isso ficou dito, no século XX, por pensadores da dimensão de Paul Ricoeur ou Gadamer. José Rodrigues dos Santos parece não saber o que é um teólogo, e dir-se-ia mesmo que desconhece a natureza hipotética (e nesse sentido científica) do trabalho teológico. O positivismo serôdio que levanta como bandeira fá-lo, por exemplo, chamar “historiadores” aos teólogos que pretende promover, e apelide apressadamente de “obras apologéticas” as que o contrariam.

 

       3. A nota final de José Rodrigues dos Santos esconde, porém, a chave do seu caso. Nela aparecem (mal) citados uma série de teólogos, mas o mais abundantemente referido, e o que efetivamente conta, é Bart D. Ehrman. Rodrigues dos Santos faz de Bart D.Ehrman o seu teleponto, a sua revelação. Comparar o seu “Misquoting Jesus. The Story Behind who Changed the Bible and Why” com o “O Último segredo” é tarefa com resultados tão previsíveis que chega a ser deprimente. Ehrman é um dos coordenadores do Departamento de Estudos da Religião, da Universidade da Carolina do Norte, e um investigador de erudição inegável. Contudo, nos últimos anos, tem orientado as suas publicações a partir de uma tese radical, claramente ideológica, longe de ser reconhecida credível. Ehrman reduz o cristianismo das origens a uma imensa batalha pelo poder, que acaba por ser tomado, como seria de esperar, pela tendência mais forte e intolerante. E em nome desse combate pelo poder vale tudo: manobras políticas intermináveis, perseguições, fabricação de textos falsos… Essa luta é transportada para o interior do texto bíblico que, no dizer de Ehrman, está texto repleto de manipulações. O que os seus pares universitários perguntam a Ehrman, com perplexidade, é em que fontes textuais ele assenta as hipóteses extremadas que defende.

 

       4. Resumindo: é lamentável que José Rodrigues dos Santos interrogue (e se interrogue) tão pouco. É lamentável que escreva centenas de páginas sobre um assunto tão complexo sem fazer ideia do que fala. O resultado é bastante penoso e desinteressante, como só podia ser: uma imitação requentada, superficial e maçuda. O que a verdadeira literatura faz é agredir a imitação para repropor a inteligência. O que José Rodrigues dos Santos faz é agredir a inteligência para que triunfe o pastiche. E assim vamos.

 


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