...espaço de discussão, de formação, de cultura, de curiosidades, de interacção. Poderemos estar mais próximos. Deus seja a nossa Esperança e a nossa Alegria...
25
Fev 16
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

ANSELM GRÜN (2010). As oito bem-aventuranças. Caminho para uma vida bem conseguida. Braga: Editorial A.O., 184 páginas.

Anselm Grün - Oito Bem aventuranças.jpg

       Anselm Grün é Monge beneditino, formado em economia e teologia, alemão. Através dos seus livros, conferências, procura testemunhar os tesouros da vida. É por muitos considerado um guia espiritual, reunindo grandes audiências. Já tivemos oportunidade de ler e de recomendar outros títulos, tais como: A sublime arte de envelhecer e tornar-se uma bênção para os outros; O Pai-Nosso. Uma ajuda para a vida autêntica; Que fiz eu para merecer isto? A incompreensível justiça de Deus.

       Este é mais uma belíssimo livro de bolso, que se lê com agrado sobre uma temática essencial da pregação e do proceder de Jesus. As Bem-aventuranças não garantem a vida eterna, mas são um caminho que nos levam a viver melhor e mais próximos do jeito de Jesus.

       O autor parte desde logo do significado de "Bem-aventurança", a procura da felicidade, comum a todos as pessoas, ainda que de maneiras distintas e caminhos diferentes.

       Jesus sobe ao MONTE com os discípulos. O monte aproxima-nos de Deus, da luz. Na cidade, a confusão, o barulho, a poluição. A montanha dissipa o nevoeiro e conduz-nos à calmaria, à natureza em que é possível ouvir os pássaros, o vento, ouvir a Deus. Tal como no Horeb ou Sinai, em que Deus dá a Lei ao Povo através de Moisés, agora Jesus, no monte, dá-nos uma leitura nova da Lei. As leis é para que vivamos harmoniosamente uns com os outros. "É possível uma boa convivência".

Anselm Grün segue de perto a interpretação de São Gregório de Nisa, lembrando-nos que ele "vê a montanha como o lugar para onde seguimos Jesus, a fim de nos elevarmos para cima das nossas concepções baixas e limitadas «até à montanha espiritual da contemplação mais sublime» (Gregório, 153). O monte está envolvido pela luz de Deus".

       Seguindo o título dos capítulos, o autor faz-nos perceber que as bem-aventuranças são promessa de uma vida em plenitude, acentuando também que "a felicidade não é uma consequência do comportamento, mas é expressão desse comportamento... as oito atitudes das Bem-aventuranças são o lugar onde podemos fazer a experiência de Deus e onde, em Deus, podemos experimentar a nossa verdadeira felicidade... são o caminho para uma vida bem conseguida... aponta um caminho. E podemos ver, no próprio Jesus, como é que Ele percorreu o caminho".

 

1.ª Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino de Deus.

"Quem é pobre em espírito está aberto a Deus que habita nele... Não usa Deus, a fim de ter alguma coisa para si, a fim de conseguir a satisfação dos seus desejos, ou a fim de se sentir melhor ou mais seguro em Deus. A pobreza em espírito é desinteressada... Para São Gregório de Nisa, a pobreza em espírito é a condição para a pessoa se elevar até Deus, em liberdade... A primeira bem-aventurança é, pois, uma caminho de liberdade interior para a verdadeira felicidade". Por deles é o reino de Deus..."O Reino dos Céus é o lugar onde Deus reina em nós. Quem é pobre em espírito, renuncia a ter as rédeas de tudo e a tudo controlar em si. está aberto ao domínio de Deus. Onde Deus reina nele, encontra o acesso ao próprio eu... se alguém se liberta de toda a dependência das coisas deste mundo, nele reina Deus. E o reinado de Deus faz dele verdadeiramente livre".

2.ª Bem-aventurados os que choram porque serão consolados.

É necessário fazer o luto de tudo o que não podemos ser, para valorizarmos o que somos e o que podemos ser, com as circunstâncias que nos contextualizam com o mundo e com o tempo atual. "Aquele que sou, saúda, tristemente, aquele que eu poderia ser" (Kierkegaard). "Jesus proclama bem-aventurados aqueles que estão dispostos a chorar, os que enfrentam a dor da despedida das ilusões. Só eles continuarão sãos, interiormente... Jesus descreve o luto como uma caminho para a felicidade... o luto é um caminho para eu enfrentar a realidade e para me libertar das ilusões com que encubro a realidade. No luto não me esquivo à dor... Ninguém pode realizar todas as possibilidades da vida... Cada decisão me dá alguma coisa e me priva de algo. Compromete-me. E em cada decisão, excluo alguma coisa. E tenho de fazer luto por aquilo que excluo. Se falho o luto, então encho esse défice que fica em mim com uma qualquer sucedâneo... O luto chora e, desse modo, fecunda a alma. A tristeza, pelo contrário, é apenas chorosa... É Cristo quem nos consola. Sim, Ele mesmo é a consolação. Se pomos o olhar n'Ele, no meio do nosso luto, já experimentamos a consolação... e o luto transforma o seu coração..."

3.ª Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.

"A agressividade está a transformar-se num problema... Tudo tem de ser protegido, para não ser destruído... No terror, pratica-se uma agressividade sem limite. Onde ela é praticada em nome de Deus, não conhece barreiras. O valor do ser humano já não conta. O único objetivo é propagar o medo... As palavras de Jesus sobre a doçura e a mansidão parecem ser, de facto, de um outro mundo". Em contrapartida, "a mansidão nãos e deixa arrastar pelos impulsos, pela ira, ou pelos ciúmes. Permanece arreigada no solo... Jesus não proclama felizes os insensíveis. «Ditosos são, portanto, aqueles que não cedem rapidamente aos movimentos passionais da alma, mas conservam a serenidade no seu íntimo graças à temperança» (São Gregório, 170)... As palavras de Jesus desafiam-me a transmitir, também para fora, a mansidão que experimento dentro de mim... Confio no poder da ternura. Ela é água que amolece a pedra dura... Trabalhamos em nós próprios mas renunciamos a ser perfeitos... A minha terra pertence-me. Expande-se. Herdo a terra, isto é, tenho chão suficiente debaixo dos pés. Deixo de ser dividido... só nos pertencemos a nós próprios se lidamos amistosamente com o que assoma em nós..."

4.ª Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.

O autor contextualiza o tempo em que as Bem-aventuranças foram proclamadas por Jesus, o contexto das comunidades que acolheram a mensagem de Jesus, interpretações ao longo da história da Igreja, com pontes à filosofia grega e ocidental, ao ambiente semita, à religiosidade popular. Ponte importante com a atualidade. Começa por referir que "o rendimento médio nos vinte países mais ricos do mundo é 37 vezes superior ao dos vinte países mais pobres... nos últimos 40 anos duplicou a distância... entre as 100 maiores unidades económicas do mundo há 52 empresas mas apenas 48 estados... Não há justiça quanto à igualdade de oportunidades... A injustiça conduz, ultimamente, à guerra". Há, por outro lado, uma «judicialização» cada vez mais abrangente. Tudo está regulamentado. "Os juristas determinam casa vez mais a vida coletiva... já não valem a fidelidade e a confiança, mas unicamente a segurança legal". Anselm Grün constata que "as pessoas anseiam pela verdadeira justiça, por um mundo onde reine a justa distribuição dos bens e das oportunidades, no qual se faz justiça a todos, tanto aos pobres como aos ricos, tanto aos mais fortes como aos mais fracos... existe a convicção de que só onde reina a justiça pode florescer a paz... A fome e a sede de justiça referem-se a todos os homens, a uma ordem justa para todos, à vida em retidão que Deus pensou para todos... As virtudes da justiça, da prudência, da coragem e da temperança põem-nos em contacto com o nosso interior". Segundo São Gregório de Nisa, as virtudes enchem-nos "de doçura e de alegria, em todos os momentos da nossa vida". Com efeito, ainda citando São Gregório, "A bem-aventurança é uma convite a uma vida feliz. Que exercita a justiça não ficará saciado apenas no Além. Será feliz e viverá satisfeito já no meio da luta pela justiça".

5.ª Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.

No Jubileu Extraordinário da Misericórdia que decorre (8 de dezembro de 2015 a 20 de novembro de 2016), esta Bem-aventurança coloca-nos em sintonia e em sinfonia com o desejo do Papa Francisco de refletir e viver as Obras de Misericórdia. O Coração misericordioso e compassivo de Deus, que Se faz peregrino connosco, mas que nos Seus gestos encontremos o desafio e o compromisso para vivermos como irmãos, acolhendo e integrando todos, sobretudo os que se encontram em situação mais frágil. Partindo da atualidade, o autor começa por mostrar como o "mercado é implacável. Só o mais forte consegue impor-se, Os outros ficam pelo caminho. O carácter implacável do mercado parece influenciar também a vida social... Quem sabe «vender-se» bem, «vale» alguma coisa... Aqui só contam os números e não a pessoa". Quanto à misericórdia, dela fazem parte a compaixão e o «sofrer com». Segundo alguns, a compaixão é fraqueza (por exemplo o Terceiro Reich). "A falta de misericórdia leva ao endurecimento e à violência na convivência mútua... Só o mais forte consegue impor-se. Os outros extinguem-se". Por conseguinte, "neste mundo frio, cresce a aspiração a um mundo misericordioso... [em que] sejamos respeitados na nossa dignidade humana... Jesus manteve-se fiel à misericórdia. E declarou bem-aventurados os que são misericordiosos. Porque alcançarão. Ele acreditou na vitória da misericórdia e da compaixão... Se somos misericordiosos também experimentamos a misericórdia... É misericordioso o que lida consigo e com os outros... Lido amorosamente com a esta criança em mim, necessitada de ajuda. Confio em que a minha criança interior vá amadurecendo, no meu colo materno e no colo materno de Deus, e que venha a ser o que deve ser a partir de Deus... A misericórdia brota do amor ao próximo... A misericórdia devolve-nos a vida... A compaixão pela nossa doença devolve-nos a saúde... A misericórdia de Deus permite-nos ser mais misericordiosos connosco próprios... Quem é misericordioso compreendeu quem é Deus. E participa de Deus. Está em Deus. A misericórdia é, para nós, os seres humanos, o caminho para o coração de Deus".

6.ª Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.

Olhando para o nosso tempo, o autor conclui que "a desconfiança está na moda". Não se aceitam as palavras sem reservas, crê-se que há sempre segundas intenções. No entanto, "aspiramos à clareza e à pureza de sentimentos, a pessoas que possuem um coração puro, que fazem, sem segundas intenções, o que reconheceram ser reto, e que dizem o que para elas brilha como verdade... aspiramos à pureza do coração... O coração puro é o coração simples, sincero, claro... Jesus exorta-nos a deixarmos que a luz irradie sobre o nosso corpo e expulse todas as trevas. Quando nos encontramos com uma pessoa cujos olhos brilham, sem segundas intenções, então também algo em nós se torna claro e límpido". Na Transfiguração, os discípulos "veem, de repente, claramente, quem é Jesus Cristo. E no espelho de Jesus reconhecem-se a si próprios... A meta do ser humano é ver a Deus, na visão passar a ser um com Deus... Se vemos a Deus esquecemo-nos de nós mesmos. Fazemo-nos um com Deus e, ao mesmo tempo, connosco próprios, Na unidade com Deus tomamos consciência de nós próprios, chegamos ao nosso esplendor original e não falseados... Sentimo-nos luz, iluminados pela luz de Deus. Isto é o ápice da Encarnação, o mais alto a que um ser humano pode aspirar". A pureza do coração faz bem à saúde, pois aquele que se encontrou consigo próprio, com a sua luz interior, "deixa de procurar no exterior a cura das suas feridas. Já não espera, vinda do afeto e da ajuda dos outros, a sua saúde. Encontra-a em si mesmo se, graças à pureza, se tornou inteiramente ele próprio".

7.ª Bem aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus.

Olhando para o mundo atual, vemos como é frágil da paz. São disso exemplo as duas Guerras mundiais, mas igualmente tantas zonas de conflito bélico, em diferentes latitudes. No tempo de Jesus Cristo a paz é periclitante. O povo está sob o domínio romano e aquilo que se chama a paz romana (pax romana) não passava efetivamente de pacificação, de imposição da paz pela força, pelo domínio, pelo controlo apertado, aniquilando todos os focos de resistência e até povos inteiros. "Era uma paz violenta". A paz não é algo de passivo, de deixar correr, sem fazer nada, sem intervir, mesmo quando a violência o atinge. A paz é ativa, implica. "Criar paz significa a disponibilidade ativa para ir ao encontro das pessoas que estão em conflito e reconciliá-las entre si". Também em nós devemos fazer as pazes com os nossos inimigos: o nosso medo, a nossa depressão, a nossa susceptibilidade, a nossa falta de disciplina, e então os nossos inimigos convertem-se em amigos e "a nossa terra, de repente, torna-se maior do que nunca sucedeu antes. Em vez de dez mil soldados, temos à disposição trinta mil (cf. Lc 14, 31ss). Ficamos mais fortes... Só quem está em sintonia consigo próprio, ou pelo menos a caminho dessa meta, pode construir a paz entre as pessoas". Por outro lado, prossegue Anselm Grün, a construção da paz resultará do amor e do diálogo, superando o conflito interior para superar os conflitos exteriores, não pela violência mas pelo diálogo. "Se quero vencer os inimigos, não construirei a paz. O derrotado quer vir a ser, um dia, o vencedor. Assim voltará a levantar-se e a continuar a combater. Só quando se alcança um bom equilíbrio todos podem viver em paz... Construir a paz é um processo criativo... Quem cria paz, participa do poder criador de Deus, que fez tudo bem feito". Dando como exemplo Martin Luther King, o autor sublinha que "só o amor pode construir a paz. «O ódio não pode expulsar o ódio. Só o amor consegue. O ódio multiplica o ódio, a violência aumenta a violência, a dureza faz aumentar a dureza, uma espiral permanente de aniquilamento» (Feldmann, 702). O ódio não destrói apenas a convivência, prejudica também a pessoa".

8.ª Bem-aventurados os que sofrem perseguição, por causa da justiça, porque deles é o reino dos Céus.

"A injustiça no mundo clama ao céu. Mas não há quase ninguém que arrisque a pele pela justiça". No mundo atual parece que são felizes aqueles que estão do lado dos vencedores, dos lobos, daqueles que passam por cima dos outros. "A bem-aventurança desafia-nos, mas não sobrecarrega com coisas impossíveis. O que faz é fortalecer a nossa aspiração à coragem de nos empenharmos pela justiça, custe o que custar... A coragem é a expressão da liberdade interior... mantenho-me firma na justiça, mesmo que isso me cause desvantagens junto dos outros". O que me sucede de mal pode empurrar-se para a frente, para o bem. Seguindo de perto São Gregório de Nisa, o autor evoca a imagem das corridas. Os adversários que correm comigo levam-me a avançar, lutando. Os conflitos em que caio podem ajudar-me a ser mais forte.

"São Mateus compôs as oito Bem-aventuranças de tal modo que a primeira e a última contêm a promessa do Reino dos Céus. Os pobres em espírito são, como os perseguidos por causa da justiça, também pessoas interiormente livres, que não se deixam depender da opinião dos outros... porque encontraram em Deus a sua verdadeira essência. Deus reina nelas. E porque Deus reina nelas são por inteiro elas mesmas, livres do poder dos outros. Porque Deus é o seu centro, são elas próprias, no seu centro, estão em sintonia consigo mesmas".

As bem-aventuranças são um caminho para viver melhor e ser mais saudáveis.


10
Out 15
publicado por mpgpadre, às 15:33link do post | comentar |  O que é?

1 – «Falta-te uma coisa: vai vender o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me».

Jesus compreende a nossa limitação, mas também a capacidade de progredirmos. Alguém se aproxima de Jesus, ajoelha-se e pergunta: «Bom Mestre, que hei de fazer para alcançar a vida eterna?».

Aquele homem tem pressa em chegar perto de Jesus e esperança de encontrar respostas para a inquietação que lhe vai na alma. Deixou o que estava a fazer! Ou não queria perder tempo porque tinha muitas ocupações! Jesus responde-lhe com a Sagrada Escritura: «Porque Me chamas bom? Ninguém é bom senão Deus. Tu sabes os mandamentos: Não mates; não cometas adultério; não roubes; não levantes falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe’».

Só Deus é Deus, só Deus é bom. Como seres humanos estamos a caminhar. Jesus recorda os mandamentos, sancionando a mensagem mosaica. Porém, cumprir a lei só por cumprir, como obrigação imposta, ou como tradição convencionada, não traz alegria à vida. A vida enfaixada na lei, nos preceitos, nos medos, sem convicção. Falta a chama do amor, da paixão, da vida nova.

Cumprir regras, em obediência cega, não implica viver. Jesus lança-lhe e lança-nos o repto: «Falta-te uma coisa: vai vender o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me». Nada se pode interpor entre nós e o seguimento. Se temos muitos afazeres, o seguimento de Jesus não é (ainda) para nós.

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2 – «Como será difícil para os que têm riquezas entrar no reino de Deus!»

Jesus sendo rico fez-Se pobre para nos enriquecer com a Sua pobreza (cf. 2 Cor 8, 9). O chão do Evangelho: serviço aos outros e sobretudo aos mais pobres. Quem quiser ser o maior será o menor de todos e o servo de todos (cf. Mc 9, 30-37).

Este homem tinha muitos bens para “comprar” a vida eterna! Mas o que há de mais importante na vida não tem preço. Em contrapartida, Jesus oferece-lhe a vida eterna! Como dom!

Apesar de ser "materialmente" um homem muito rico, é espiritualmente um homem muito pobre, que não consegue ser feliz. Há mais alegria em dar do que em receber (cf. Atos 5, 35). A felicidade mede-se mais pelo número de amigos do que pela quantidade de bens.

 

3 – A opção preferencial pelos mais pobres, o compromisso social, a erradicação da pobreza, estão bem vincadas neste texto. Àquele homem é proposto o despojamento e a partilha; a pobreza como opção de vida. Uma pobreza para enriquecer os demais e para se enriquecer com o maior dos tesouros: a vida eterna. "De nenhum fruto queiras só metade" (Miguel Torga). Vive a vida por inteiro, e não à espera; como ator e não como espectador; age, atua, transforma o mundo que habitas. Não guardes somente para ti. Quando partires, segue contigo o que foste e viveste, nunca o que adquiriste. Verdadeiramente teu é o que partilhares com os outros. As coisas que guardas não as possuis, são elas que te possuem.

O que está em causa não são os bens ou a riqueza material, mas a avareza, a ganância desmedida. Naquele homem não há espaço para a vida, para a alegria, para a festa, para a partilha.

«Meus filhos, como é difícil entrar no reino de Deus! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus».

Todos precisamos de bens que permitam viver com dignidade. O trabalho honesto e retribuído com justiça dignifica o trabalhador e o proprietário. Importa não esquecer, parafraseando Jesus Cristo, que o trabalho é para engrandecer a pessoa e nunca para a escravizar.

 

4 – «Quem pode então salvar-se?». A resposta de Jesus é clarificadora: «Aos homens é impossível, mas não a Deus, porque a Deus tudo é possível». Não somos nós que nos salvamos, é Deus que nos salva para além do tempo e da história. É Deus, somente Deus, que nos resgata na nossa mortalidade e nos abre as portas da eternidade. A promessa de Jesus envolve também as perseguições, as dificuldades.

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Textos para a Eucaristia (B): Sab 7, 7-11; Sl 89 (90); Hebr 4, 12-13; Mc 10, 17-30.

 

Reflexão dominical COMPLETA no nosso outro blogue CARITAS IN VERITATE


21
Set 15
publicado por mpgpadre, às 10:09link do post | comentar |  O que é?

1 – Morte e Ressurreição. Eis o mistério maior (e único) da nossa fé cristã. Em cada domingo, os cristãos celebram a Páscoa semanal, mas também em cada Eucaristia, sacramento no qual Jesus Se faz presente sob as espécies do vinho e do pão que pelo Espírito Santo Se transformam no Seu Corpo e no Seu Sangue. Oferenda que se torna atual no Sacramento da Eucaristia.

No Evangelho, cedo Jesus anuncia este mistério: «O Filho do homem vai ser entregue às mãos dos homens, que vão matá-l’O; mas Ele, três dias depois de morto, ressuscitará».

Apesar da Confissão de Fé, feita por Pedro em nome de todos, dos discípulos daqueles dias e de hoje, que somos nós, há ainda um longo caminho a percorrer, para amadurecer a fé, para perceber a vontade de Deus, para aperfeiçoar a identificação com Jesus e com o Seu Evangelho de serviço sem fronteiras.

O anúncio da morte e a chegada iminente do reino de Deus, leva os discípulos a discutir lugares, para ver quem ganha a dianteira. Alguns candidatos óbvios: Tiago e João, André e Pedro, Judas Iscariotes (um dos mais próximos de Jesus e com maior preponderância no grupo, sendo o responsável pelas economias e pela gestão logística das jornadas missionárias). Os Evangelhos (cf. Mc 10, 35-45; Lc 22, 24-27; Jo 13, 1-17) mostrar-nos-ão como Tiago e João solicitam a Jesus os lugares à Sua direita e à Sua esquerda. Este facto foi ligeiramente modificado por São Mateus (20, 20-28) que coloca a mãe dos dois a pedir, protegendo-os desta pretensão e ousadia. Esse episódio ser-nos-á apresentado daqui a quatro domingos, na versão de São Marcos.

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2 – O caminho serve para evangelizar. Mas por vezes Jesus deixa que os discípulos conversem e só os interpela em casa. Faz-nos lembrar aquelas famílias, cujos filhos vão discutindo sem que os pais intervenham, a não ser mesmo necessário, e quando chegam a casa aproveitam e esclarecem algum ponto, rebatendo ou alertando para alguma situação menos positiva. Também assim no contexto de um grupo ou uma turma, os reparos quanto possível devem fazer-se discretamente e de preferência individualmente. Neste caso, todo o grupo está em causa. Precisam de amadurecer ideias. Jesus deixa porquanto que discorram entre eles.

O evangelista refere que os discípulos estavam com receio em interrogar Jesus. Talvez por saberem o que Ele pensava. Mas querem tirar a limpo. Têm que arriscar. Vimos como Pedro repreendeu Jesus quando Ele anuncia a Sua morte para breve. Vê-se agora que a repreensão a Pedro é extensível a todos os discípulos. Se se aproxima a hora da morte de Jesus, há que assegurar o futuro sem Ele. Pelo caminho vão jogando uns com os outros sobre as cartadas de cada um: qual deles é o maior e que pode assumir um lugar de destaque?

Enquanto discutem lugares, Jesus chega-lhes a mostarda ao nariz para lhes recordar a missão do Filho do Homem que veio para servir e não para ser servido, veio para dar a vida pela humanidade. O serviço é o único caminho do discípulo. Quem quiser segui-l'O tem de correr atrás de Jesus, seguindo os Seus passos, de serviço e de auto oferenda pelos outros. O caminho do amor passa pela cruz. Aquele que ousar desviar-se da Cruz de Jesus, perde-se a si mesmo, pois não há amor que não acarrete preocupação, serviço, dedicação ao outro e até dar a própria vida pela vida de quem se ama. Qual o pai que não daria a vida pelo seu filho? Qual o pai que amando não sofre?

Não há caminho cristão sem cruz, sem serviço, sem humildade, sem a pequenez que deixa transparecer a grandeza de Deus.

Jesus chama-os, reúne-os à Sua volta – Cristo deve estar sempre no centro, no meio, Ele preside – e senta-se. É a atitude de quem ensina. E diz-lhes: «Quem quiser ser o primeiro será o último de todos e o servo de todos». E, para que não haja dúvidas, Jesus toma uma criança, coloca-a no MEIO deles, abraça-a e sublinha: «Quem receber uma destas crianças em meu nome é a Mim que recebe; e quem Me receber não Me recebe a Mim, mas Àquele que Me enviou».

Curioso: eles discutem o futuro para um tempo sem Jesus; Jesus propõe-lhes um futuro em que estará sempre no MEIO, pelo Espírito Santo, ou pelos mais pequenos do Reino. Não são os discípulos que devem ocupar o MEIO mas aqueles que eles devem servir.

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Textos para a Eucaristia (B): Sab 2, 12. 17-20; Sl 53 (54); Tg 3, 16 – 4, 3; Mc 9, 30-37.

 

REFLEXÃO DOMINICAL COMPLETA no nosso outro blogue CARITAS IN VERITATE

 


14
Jun 14
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ANSELM GRÜN (2007). Que fiz eu para merecer isto? A incompreensível justiça de Deus. Prior Velho: Paulinas Editora. 160 páginas.

       O sofrimento, físico, psíquico, espiritual, o sofrimento auto-infligido, ou consequência dos outros ou da natureza, é um tema por demais delicado. É precisamente aqui que o monge beneditino, alemão, Anselm Grün, reconhecido pelos seus conselhos, em palestras, livros publicados, aconselhamento espiritual, como pároco, apresenta mais uma reflexão que pretende compreender o sofrimento e dar pistas para o enfrentar, para o superar, para o aceitar, sabendo-se que cada pessoa é única e que por vezes as palavras são insuficientes para ajudar ou outras vezes são inúteis para quem passa por situações de tormenta, culpabilizando-se ou culpando os outros.

       Para os crentes há sempre uma pergunta que vem ao de cima: por quê eu? Porque é que Deus me fez isto? Sendo eu uma pessoa de bem, que vivi sempre de forma saudável, respeitando os outros, cuidando da alimentação, fazendo desporto, por que é que Deus permitiu que se manifestasse em mim esta doença?

       Embora com riscos, o autor procura mostrar que não adianta muito procurar culpados, mas vale muito levar até Deus o protesto, como fez Job, como fez Jesus, rezar-lhe as próprias mágoas, protestando contra Ele. No final, o nosso coração ficará mais preparado para aceitar a nossa fragilidade e para aceitarmos que Deus ultrapassa sempre os nossos conceitos humanos. O sofrimento pode ser oportunidade para desfazermos a imagem que temos de Deus e por outro lado para erguermos a nossa casa, a nossa vida, sobre a rocha firme que é Deus. Quando edificamos a nossa vida sobre a saúde, os bem materiais, os amigos, poderemos desembocar na desilusão, no desencanto. Edificar a nossa vida a partir de Deus, mesmo que por vezes O não entendamos, é a garantia que a nossa casa sobrevirá a todas as intempéries.

       Como em outros livros do autor que aqui já recomendámos, como Pai-nosso, uma ajuda para a vida, e A sublime Arte de envelhecer, também este lança pistas, sugestões, coloca perguntas, procura na Bíblia, na Filosofia, na Psicologia, na experiência pessoal e sacerdotal, apresentando casos concretos com os quais se deparou ao longo da vida... Sem dogmatismos, com forte confiança em Deus e na dimensão espiritual da pessoa.

       Pelo índice: respostas teológicas ao sofrimento; explicação do sofrimento pelos místicos; relação com experiências concretas de sofrimento (sofrimento provocado pelas pessoas, morte de pessoas queridas, quando o corpo ou a alma adoecem, preocupações com os filhos - homossexualidade, doença e deficiência, doença psíquica, anorexia, toxicodependência), fracasso no trabalho e nas relações (desemprego, separação e divórcio); sofrimento auto-infligido, a catástrofes naturais.


06
Jun 14
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

ANSELM GRÜN (2009). A sublime arte de envelhecer e tornar-se uma bênção para os outros. Prior Velho: Paulinas Editora, 176 páginas.

       Voltámos a sugerir um livro de Anselm Grün, o monge beneditino que é considerado um verdadeiro guia espiritual, através dos seus escritos, das conferências e seminários em que participam, refletindo a vida com as complexidades da morte, do sofrimento, do mal, da fé, da doença.

       A reflexão proposta anteriormente: PAI-NOSSO, uma ajuda para a vidaAQUI.

       Neste volume a reflexão sobre a arte de envelhecer. Embora esteja no horizonte de todas as pessoas ir envelhecendo, é necessário adaptar-se, renunciar, lidar com a perda e o sofrimento, com as limitações físicas e mentais, aprender a conviver com a própria morte e transformá-la numa dádiva de comunhão, como fez Jesus Cristo. Na morte, já nada nos separará dos outros. Somos mais iguais.

       O prefácio está a cargo do Pe. Vítor Feytor Pinto, durante muito tempo ligado diretamente às questões da Vida, toxicodependência, Sida,, cuja experiência e sabedoria lhe permitem fazer uma leitura assertiva sobre a temática presente.

       O autor, Anselm Grün, com 64 anos quando escreveu o texto, fala a partir da experiência de outros, recorrendo à filosofia e à teologia, mas também a outras áreas do saber, como a psicologia. Faz-nos, como se diz no prefácio, conhecer o pensamento de Karl Rahner, Teilhard Chardin, Romano Gurdini, Breemen, Hermann Hesse, e tanto outros. É um excelente livro para os mais velhos, mas também para os mais novos.

       O papa Francisco tem insistido na cultura da inclusão, referindo que os dois extremos, jovens e idosos, são frequentemente esquecidos. No entanto, uma sociedade que esquece o saber, a experiência e a memória dos mais velhos, é uma sociedade condenada a desaparecer.

        É precisamente nesta linha que se desenvolve o pensamento de Grün, sobre o contributo dos mais velhos, mas também, dedicando-lhe muito espaço, com os mais velhos a lidarem com as suas limitações, com a doença, com a falta de forças, renunciando ao poder, renunciando a controlar a vida por inteiro, descobrindo novos afazeres, aprendendo a sublime arte de envelhecer, a paciência, o despojamento.

       Veja-se o índice: O significado da velhice; Aceitação da própria existência (reconciliação com o passado, aceitar os seus limites, aprender a viver com a solidão); Renunciar aos bens materiais, à saúde, renunciar às relações, à sexualidade, ao poder, ao ego; Fertilidade; Envelhecer juntos; Virtudes da velhice - serenidade, paciência, mansidão, liberdade, gratidão, amor; Lidar com os medos e com a depressão; o caminho do silêncio; transcender o ego; treino para a morte.

        É mais um daqueles títulos que até pode ser provocador, mas que se lê com facilidade, pois os exemplos concretos ajudam a entrar dentro dos diversos conteúdos.


08
Set 13
publicado por mpgpadre, às 09:00link do post | comentar |  O que é?

       1 – Chamamento. Seguimento. Cruz. Despojamento. Humildade. Coragem. Persistência. Amor. Esperança. Sem promessas. Com as certezas que advêm da fé, do serviço e da verdade. O Mestre e os discípulos. Sempre discípulos, seguidores, aprendizes, alunos. Sempre apóstolos, enviados, em caminho, testemunhas do Evangelho, transparência, rosto e presença de Jesus em cada tempo, em todos os ambientes. A prioridade: amar. O essencial: serviço. O conteúdo: Jesus Cristo. A Mensagem: conciliar, reunir, paz, justiça, bem-dizer e bem-fazer, partilha, comunhão, gratuitidade, verdade, amar servindo, servir amando. A meta: Deus. Em Deus há lugar para todos.

       A multidão seguia Jesus, ia atrás da Sua Palavra, dos Seus gestos e de milagres. Todos com as mesmas intenções? Certamente que não. Hoje continua a ser assim. Multidões que seguem Jesus, vão à Igreja, têm fé, vivem a religião, têm fé e não vão à Igreja, e quase deixaram de ser Igreja, mas de vez enquanto ainda se sentem, se afirmam como cristãos, como Igreja, ou a combatem dizendo que também fazem parte dela. Como diria um santo teólogo, a Igreja é como a nossa Mãe, velhinha e com a pele enrugada, mas não vamos andar por aí a dizer mal da nossa Mãe. Não. Pelo contrário, vamos dar-lhe mais atenção, dedicar-lhe mais tempo. Cuidar. Para que a Igreja seja sobretudo Mãe, e como Mãe também guia e mestra.

       A Igreja muitos rostos e muitos caminhos, tantos quantos as pessoas, assim o afirmava o Cardeal Ratzinger. Jesus é o CAMINHO, a Verdade e a Vida. É o nosso CENTRO, a referência fundamental, o AMOR maior. Mas cada um de nós tem a sua história, os seus dramas, os seus sonhos, cada um de nós sente à sua maneira. Mas se houver um FAROL que nos congregue será mais fácil carregar a nossa cruz.

       2 – «Se alguém vem ter comigo, e não Me preferir ao pai, à mãe, à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não pode ser meu discípulo. Quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens, não pode ser meu discípulo».

       Jesus não está pelos ajustes, tudo ou nada. Ele ama-nos definitiva e totalmente. A intimidade com Deus Pai mais O compromete.

       Não há cá paninhos quentes. Quem Me quiser seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz, traga a sua vida por inteiro. Nada pode ficar de reserva, ou no condicional (vamos ver o que isto dá… depois logo se vê). A vida toda. Vamos inteiros, corpo, alma, espírito. Quem não Me preferir à mãe, ao pai, ou aos filhos, à própria vida, não pode ser Meu discípulo. Sem papas na língua. É assim mesmo! Põe todas as cartas na mesa. Não fica com nenhuma cartada na manga. Ele não Se impõe. Não faz promessas. Não dá garantias de sucesso. Não faz chantagem, nem negoceia o Seguimento. Ou quereis ou não quereis.

        A minha/nossa resposta não pode ser diferente. Não podemos amar a meias, a prazo, quando nos dá na real gana, ou quando estamos bem-dispostos. Ou quando precisamos. Ou quando a vida nos corre bem e nos sobra tempo. Ou amamos ou não amamos. Ainda que cada um possa manifestar o seu amor (e a sua fé) de maneira específica. Existe um caminho de aperfeiçoamento a construir.

       3 – Será que Jesus quer que eu me isole para O seguir? Que vire as costas à família e aos amigos? Que me torne monge? Será que Ele exige uma vida vazia, sem nada nem ninguém? Quais são as condições para sermos Seus discípulos?

       Quem quiser ser Meu discípulo tem de renunciar a uma vida apagada, cómoda, instalada, de indiferença. Pegar na própria Cruz e segui-l'O. Dia após dia. Todos os dias, em todo o tempo. Até quando dormimos somos d'Ele. Até quando descansamos respiramos o Seu Espírito. Em qualquer estado de vida.

       Um padre (Pe. Manuel Gonçalves da Costa) do Seminário Maior dizia: quando precisares de ajuda pede a quem tem muito que fazer, que ande sempre ocupado, pois arranja tempo e espaço para te ajudar. Se pedires ajuda a alguém que nunca tem nada para fazer, nunca arranjará tempo para te ajudar. É assim o convite de Jesus. Quanto mais ocupados com Deus, mais disponíveis para os outros. Alguém conhece pessoas cheias de si com tempo para os outros?

       Na convocação do Ano Sacerdotal, o Papa Bento XVI evocava uma reflexão do Santo Cura d'Ars, São João Maria Vianney, sublinhando o valor e a necessidade da oração. Para quê? Para que Deus dilate o nosso coração. Somos limitados, amamos limitadamente. A oração coloca-nos no coração ENORME de Deus, a oração faz-nos amar mais, mais, muito mais, o mundo inteiro. Seguindo Deus, amando Deus, servindo Deus, nos outros.


Textos para a Eucaristia (ano C): Sab 9, 13-19; Flm 9b-10.12-17; Lc 14, 25-33.

 


01
Set 13
publicado por mpgpadre, às 09:00link do post | comentar |  O que é?

       1 – “Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado”. Alguns ditados populares: “gaba-te cesto que amanhã vais para a vindima”, “presunção e água benta cada um toma a que quer”, “já que ninguém te gaba, gabas-te tu”, “ninguém é bom juiz em causa própria”. A sabedoria popular, como a intervenção de Jesus, diz-nos algo evidente: o bem que fazemos não precisa de ser badalado, por si só produz fruto. Quando uma pessoa tem valor, não precisa de apregoar as suas qualidades aos quatro ventos, a não ser em questões de defesa de honra.

       A pessoa deve estimar-se, sentir-se digna de ser amada pelo que é. Em contexto cristão, a certeza de sermos filhos amados de Deus. Para Ele valemos tudo.

       É benéfica uma dose suficiente de otimismo e autoconfiança. A humildade pressupõe a autoestima. Quem se valoriza como pessoa, facilmente aceita as suas limitações e insuficiências, não como defeitos de fabrico, mas como contingência inevitável da respetiva humanidade. No plano da fé, a humildade faz-nos reconhecer que não somos deuses, impecáveis, não somos melhores que os outros, somos o que somos, precisamos de amar e de nos sentir amados, de reconhecer os outros como pessoas e de sermos reconhecidos pelo que somos (e pelo que fazemos de bem).

       2 – “Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado”. Fazer depender a nossa vida daquilo que os outros dizem pode ser muito confrangedor. Os outros sempre nos hão de desiludir, ou por que não nos dão a atenção devida, ou por que não valorizaram o suficiente o nosso esforço, o nosso talento. Não é culpa deles. As nossas elevadas expectativas podem não encontrar o acolhimento devido. Diversamente por que não fizemos mais do que aquilo que outros esperavam de nós, ou simplesmente os outros não sabem como mostrar-se agradecidos da forma como merecemos.

       Jesus desafia-nos a sermos pró-ativos, agindo, lutando, caminhando, sem nos julgarmos mais que os outros e valorizando a nossa atenção sobre os mais necessitados. O que é mais importante, a imagem que os outros fazem de mim ou o que faço para tornar mais fácil e agradável a vida dos que me rodeiam?

       A lógica de Jesus Cristo: para Deus os últimos são os primeiros. Ser-nos-á mais fácil valorizar aqueles com quem nos identificamos mais, as pessoas com mais elevado estatuto social. Para Jesus e, consequentemente, para os cristãos, o maior cuidado deverá ser dado aos que valem menos aos olhos deste mundo, precisamente para incluir, para valorizar, para “igualar”. Trata-se de uma descriminação positiva. Não excluímos os primeiros, promovemos os segundos: “Quando ofereceres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te: ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos”.

       3 – “Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado”. Tenho para mim que a grandeza de uma pessoa se mede pela postura humilde no momento da vitória. Quando estamos por cima, expressão muito popular, é que mostramos verdadeiramente o que somos. Custa-me muito ver quando alguém ganha uma disputa política, desportiva, cultural, e que na proclamação da vitória tenha necessidade de espezinhar, de acentuar “os podres” dos derrotados, denegrindo mais os adversários para se engrandecer perante os seus ouvintes. A vitória já diz o suficiente e não garante que as ideias do vencedor sejam as mais nobres. As palavras serão desnecessárias a não ser para agradecer, para chamar todos à participação, pondo de lado as disputas, procurando valorizar o que possa ser benéfico para todos. Assumindo, inclusive, propostas dos adversários.

       Para quem perde, não será diferente. Ou a mensagem não passou. Ou não era ainda o tempo oportuno. Ou os outros têm opiniões divergentes. Mas logo é tempo de trabalhar, na reflexão e nas atitudes, para o maior bem de todos. Não é fácil. Mas não adianta passar o tempo a protestar contra os outros. Será o tempo de ajuntar esforços.

       Eis o conselho sábio de Ben-Sirá: “Filho, em todas as tuas obras procede com humildade e serás mais estimado do que o homem generoso. Quanto mais importante fores, mais deves humilhar-te e encontrarás graça diante do Senhor”.

       Um conselho, lido algures: lembra-te de respeitar aqueles que encontrares quando fores a subir, pois serão os mesmos que encontrarás quando vieres a descer…


Textos para a Eucaristia (ano C): Sir 3,19-21.30-31; Heb 12,18-19.22-24a; Lc 14,1.7-14.

 


04
Ago 13
publicado por mpgpadre, às 09:00link do post | comentar |  O que é?

       1 – “Saciai-nos desde a manhã com a Vossa bondade para nos alegrarmos e exultarmos todos os dias. Desça sobre nós a graça do Senhor nosso Deus. Confirmai, Senhor, a obra das Vossas mãos”. Invocamos a bênção de Deus para que os nossos dias não sejam em vão e para que o nosso tempo tenha sentido, na abertura solidária aos outros, na busca do olhar de Deus sobre nós.

       Procuremos Jesus em toda a parte e sobretudo nos irmãos, comprometidos na transformação do mundo, com o coração impelido para as alturas. A nossa pátria é junto de Deus.

“Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra. Porque vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Fazei morrer o que em vós é terreno... Não mintais uns aos outros, vós que vos revestistes do homem novo, que se vai renovando à imagem do seu Criador. Aí não há grego ou judeu, escravo ou livre; o que há é Cristo, que é tudo e está em todos”.

       A Ressurreição de Jesus não é apenas a antecipação da nossa, mas um processo que nos envolve, numa relação cósmica com todo o universo.

 

       2 – “Vaidade das vaidades: tudo é vaidade. Quem trabalhou com sabedoria, ciência e êxito, tem de deixar tudo a outro que nada fez. Também isto é vaidade e grande desgraça. Mas então, que aproveita ao homem todo o seu trabalho e a ânsia com que se afadigou debaixo do sol? Na verdade, todos os seus dias são cheios de dores e os seus trabalhos cheios de cuidados e preocupações; e nem de noite o seu coração descansa. Também isto é vaidade”.

        Aparentemente Qohélet faz uma confissão de desencanto, de desilusão. Tudo é igual, todos os dias se repetem constantemente. Não há nada de novo debaixo do Céu. Trabalho e canseiras, cuidados e preocupações, tudo é em vão. Nem de noite o coração descansa. Tanta vida que depois tem que se deixar a outros. A experiência não permite grandes voos, pelo contrário, provoca ansiedade. Bons e maus têm o mesmo destino. Por vezes, parece que os que praticam o mal são abençoados, e os que praticam o bem são amaldiçoados.

       O autor, tal como Job, coloca em causa a sabedoria tradicional, onde sobrevinha uma correlação direta entre a bênção e a justiça, os bons eram recompensados e os maus castigados. Job e Qohélet concluem que há homens justos cujos padecimentos são injustificados.

       3 – Um homem aproxima-se de Jesus para que Ele resolva uma contenda de irmãos. Jesus questiona: «Amigo, quem Me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?» E logo alerta: «Vede bem, guardai-vos de toda a avareza: a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens». A avareza brota do coração, da inveja descontrolada, do ciúme. Trata-se de uma atitude e não tem correlação direta com os bens que se possuem. Há pobres e ricos avarentos.

       Quem trabalha merece ser compensado com justiça e equidade, ainda que o trabalho também deva gerar capital e investimento, assegurando dessa forma a criação de riqueza e de mais emprego para que muitos mais tenham acesso aos recursos da terra e a oportunidade de viverem com o fruto do trabalho, realizando-se como pessoas. Numa perspetiva cristã, mais se acentua a dignificação da pessoa e do trabalho como forma de cooperar na obra criadora de Deus.

       Importa, desde logo, não descartar a relevância da caridade, da partilha solidária, com quem não tem ou não pode ter.

 

      4 – Para uns e outros, Jesus reafirma: «Guardai-vos de toda a avareza: a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens...». Importa tornar-se rico aos olhos de Deus. O que acumula apenas para si acabará por se perder. Tarde, por vezes, nos damos conta que dependemos uns dos outros, no bem e no mal. Beneficiamos do bem alheio e somos atingidos pelo mal dos outros.

O Pão nosso de cada dia nos dai hoje, Senhor. Mas dai-nos também a alegria e a coragem da partilha solidária, valorizando o fruto do nosso trabalho e tornando-o dom. “Ensinai-nos a contar os nossos dias, para chegarmos à sabedoria do coração”. Que as preocupações do tempo presente não nos façam esquecer a nossa origem e o nosso fim comum: em Deus, para Deus, com os outros.


Textos para a Eucaristia (ano C):
Co (Ecle) 1, 2; 2, 21-23; Sl 89 (90); Col 3, 1-5.9-11; Lc 12, 13-21.


27
Fev 13
publicado por mpgpadre, às 18:00link do post | comentar |  O que é?

       Bento XVI não publicará a encíclica sobre a fé – embora em fase avançada – que devia apresentar na primavera. Já não tem tempo. E nenhum sucessor é obrigado a retomar uma encíclica incompleta do próprio predecessor. Mas existe outra encíclica de Bento XVI, escondida no seu coração, uma encíclica não escrita. Ou melhor, escrita não pela sua pena mas pelo gesto do seu pontificado. Esta encíclica não é um texto, mas uma realidade: a humildade.

       A 19 de abril de 2005 um homem que pertence à raça das águias intelectuais, temido pelos seus adversários, admirado pelos seus estudantes, respeitado por todos devido à acutilância das suas análises sobre a Igreja e o mundo, apresenta-se, recém-eleito Papa, como um cordeiro levado para o sacrifício. Utilizará até a terrível palavra «guilhotina» para descrever o sentimento que o invadiu no momento em que os seus irmãos cardeais, na Capela Sistina, ainda fechada para o mundo, se viraram para ele, eleito entre todos, para o aplaudir. Nas imagens da época, a sua figura curvada e o seu rosto surpreendido testemunham-no.

       Depois teve que aprender o mister de Papa. Extirpou, como raízes arraigadas sob o húmus da terra, o eterno tímido, lúcido na mente mas desajeitado no corpo, para o projetar perante o mundo. Foi um choque para ambas as partes. Não conseguia assumir a desenvoltura do saudoso João Paulo II. O mundo compreendia mal aquele Papa sem efeito. Bento XVI nem teve os cem dias de "estado de graça" que se atribuem aos presidentes profanos. Teve, sem dúvida, a graça divina, fina mas pouco mundana. Contudo teve, ainda e sempre, a humildade de aprender sob os olhares de todos.

       Foram sete anos terríveis de pontificado. Nunca um Papa teve, num certo sentido, tão pouco "sucesso". Passou de polémica em polémica: crise com o Islão depois do seu discurso de Ratisbona, onde evocou a violência religiosa; deformação das suas palavras sobre a Sida durante a primeira viagem à África, que suscitou um protesto mundial; vergonha sofrida pelo explodir da questão dos sacerdotes pedófilos, por ele enfrentada; o caso Williamson, onde o seu gesto de generosidade em relação aos quatro bispos ordenados por D. Lefebvre (o Papa revogou as excomunhões) se transformou numa reprovação mundial contra Bento XVI, porque não tinha sido informado sobre os discursos negacionistas da Shoah feitos por um deles; incompreensões e dificuldades de pôr em ação o seu desejo de transparência quanto às finanças do Vaticano; traição de uma parte do seu grupo mais próximo no caso Vatileaks, com o seu mordomo que subtraiu cartas confidenciais para as publicar...

       Não teve nem sequer um ano de trégua. Nada lhe foi poupado. Às violentas provações físicas do pontificado de João Paulo II, ao atentado e ao mal de Parkinson, parecem corresponder as provações morais de rara violência desta litania de contradições sofrida por Bento XVI.

       Ao renunciar, o Papa eclipsa-se. À própria imagem do seu pontificado. Mas só Deus conhece o poder e a fecundidade da humildade.

 

Jean-Marie Guénois, in Le Figaro Magazine, 15-16.2.2013. Transcrição: L'Osservatore Romano © SNPC | 25.02.13.

 


14
Out 12
publicado por mpgpadre, às 09:00link do post | comentar |  O que é?

       1 – Um homem correu ao encontro de Jesus, ajoelhou diante d’Ele e perguntou- Lhe: «Bom Mestre, que hei de fazer para alcançar a vida eterna?» A atitude deste homem é delicada e de grande expetativa. A primeira coisa que faz é colocar-se de joelhos diante de Jesus, reconhecendo-O como Mestre justo e bom.

       É um homem em correrias, ansioso, insatisfeito, à procura de um sentido maior para a sua vida e que justifique os seus dias.

       A resposta de Jesus não visa agradar ao seu interlocutor, mas propor um projeto de vida viável e exequível: “Tu sabes os mandamentos: Não mates; não cometas adultério; não roubes; não levantes falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe”.

       A lei por si mesmo não salva: «Mestre, tudo isso tenho eu cumprido desde a juventude».

       Jesus vê que a lei era um fardo para aquele homem, ainda que ele a cumprisse, e lança um desafio maior: «Falta-te uma coisa: vai vender o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me». Ouvindo estas palavras, anuviou-se-lhe o semblante e retirou-se pesaroso, porque era muito rico.

 

       2 – Seguir Jesus implica-nos, não é uma adesão exterior, como camisa que se troca a qualquer momento, é um jeito de viver, de amar, de se relacionar com os outros. Ele entranha-Se em nós, somos transformados não pela rama, como crosta que se desprende com o tempo, mas em todas as veias, é sangue que nos liga a Jesus.

       Garantida está a Sua presença e a vida eterna. Garantida está uma vida de serviço aos outros. O maior no reino de Deus, é o que se faz menor, o que serve os demais, como Jesus que veio para servir e não para ser servido. Nas palavras de Santo Agostinho, “quem não vive para servir, não serve para viver”. A disputa dos discípulos por lugares há de dar lugar à disputa pela caridade. Não devais nada uns aos outros, senão a caridade (São Paulo).

 

       3 – A resposta de Jesus é também para os discípulos, de ontem e de hoje, a quem alerta com veemência: «Meus filhos, como é difícil entrar no reino de Deus! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus».

       Os discípulos continuam a magicar qual deles tirará mais dividendos e procuram saber mais, tirando tudo a limpo: «Quem pode então salvar-se?». Fitando neles os olhos, Jesus respondeu: «Aos homens é impossível, mas não a Deus, porque a Deus tudo é possível». Pedro insiste, apresentando créditos – «Vê como nós deixámos tudo para Te seguir» – que Jesus valoriza: «Em verdade vos digo: Todo aquele que tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou terras, por minha causa e por causa do Evangelho, receberá cem vezes mais, já neste mundo… e, no mundo futuro, a vida eterna».

       Muitas coisas e muitas situações se entrepõem entre nós e Deus: dúvidas, distanciamentos, trabalho e falta dele, doenças, solidão, conflitos familiares e/ou profissionais, deceções, falta de tempo.

       O que se entrepõe entre nós e Deus também se entrepõe entre nós e o próximo. O homem do evangelho queria algo mais da sua vida. Jesus propõe-lhe o seguimento e serviço aos outros. Ele pensava que haveria alguma forma mágica que o salvasse do ram-ram da sua existência, sem alterar nada da vida que tinha.

 

       4 – O destino do ser humano é ser feliz. É para isso que Deus nos criou. É para isso que andamos cá. A pergunta feita a Jesus tem a ver precisamente com esta busca incessante: o que devo fazer para ser feliz, agora e no futuro?

       Em Jesus Cristo a meta está iluminada e daí a importância de escutar e mastigar a palavra de Deus, que “é viva e eficaz… É a ela que devemos prestar contas” e pedir a Deus a sabedoria: “Orei e foi-me dada a prudência; implorei e veio a mim o espírito de sabedoria. Preferi-a aos cetros e aos tronos… Com ela me vieram todos os bens”.

       Se nos ligamos aos outros, em atitude de serviço, neles encontraremos a Deus, a Quem buscamos no mais íntimo de nós mesmos.


Textos para a Eucaristia (ano B): Sab 7, 7-11; Hebr 4, 12-13; Mc 10, 17-30.
 

Reflexão Dominical COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

e no nosso blogue CARITAS IN VERITATE


23
Set 12
publicado por mpgpadre, às 09:00link do post | comentar |  O que é?

       1 – O anúncio da Cruz é uma evidência na vida de Jesus. Para os cristãos, é um projeto de vida, a sua maneira de ser.

       Depois da confissão de fé de Pedro – “Tu és o Messias” –, o anúncio progressivo, mas sem recuos, dos sofrimentos que o Mestre vai enfrentar. O caminho do sucesso e da fama, que se vinha a espalhar e a consolidar, dá lugar rapidamente à desilusão.

       É neste sentido que vemos Pedro a repreender Jesus por Ele anunciar o fracasso: «O Filho do homem vai ser entregue às mãos dos homens, que vão matá-l’O; mas Ele, três dias depois de morto, ressuscitará».

       A visão de Pedro, e dos demais apóstolos, corresponde à tentação de Satanás: o reino de Deus será do poder, de domínio e de violência sobre os outros. Para Jesus o caminho é outro: a CRUZ.

       2 – A Cruz é símbolo da entrega total de Jesus a favor de todo o povo. É necessário que UM morra por todos. É consequência lógica da Sua vida.

       Jesus coloca-Se do lado do pedinte, do órfão e da viúva, do estrangeiro e do perseguido, do pobre e do doente, coloca-Se do lado dos mais frágeis. Quem assume a defesa dos mais pobres, cedo sofrerá o desprezo e a perseguição dos mais fortes, dos que vivem pela violência. Jesus sabe isto. Não o esconde. Não faz campanha. Não diplomatiza para ter mais seguidores.

       Para Jesus, dar a outra face, deixar-se machucar, é mais humano do que agredir, morrer é muito mais humano do que matar. Ao egoísmo contrapõe o serviço, o amor e o perdão. Ao poder contrapõe a humildade: «Quem quiser ser o primeiro será o último de todos e o servo de todos».

 

       3 – As palavras da Sabedoria são clarificadoras:

       “Disseram os ímpios: «Armemos ciladas ao justo, porque nos incomoda e se opõe às nossas obras; censura-nos as transgressões à lei e repreende-nos as faltas de educação…».

       O justo não procura aniquilar-se, não parte em busca de problemas, ou provocando os outros para a guerra. No entanto, a sua existência é já um atentado a quem pratica o mal. Ora o justo é provocador pelas palavras, denunciando, e muito pela vida de retidão, de justiça e de verdade.

 

       4 – “Como Eu vos fiz, fazei-o vós também”. Jesus consagra o serviço como única forma de chegar perto de Deus. Ele que era Mestre e Senhor não Se valeu da Sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se, tornou-Se servo, humilhou-Se em obediência até à morte, até à cruz, como se reza e poetisa na Epístola aos Filipenses. Ele não vem para ser servido, mas para servir e dar a vida pela vida de muitos.

       Pode até doer, levar-nos à Cruz, mas não há outro caminho que nos leve a Deus que não seja o da caridade, do serviço, da verdade, do perdão. Não nos salvamos sozinhos. Não seguimos pela estrada de ninguém. A nossa estrada é aberta para que possamos seguir juntos.

       A Cruz guia-nos pela caridade, pela paz, pela justiça.

       Pelo contrário, como insiste São Tiago, “onde há inveja e rivalidade, também há desordem e toda a espécie de más ações. Mas a sabedoria que vem do alto é pura, pacífica, compreensiva e generosa, cheia de misericórdia e de boas obras, imparcial e sem hipocrisia. O fruto da justiça semeia-se na paz para aqueles que praticam a paz”.

       À inveja e ao egoísmo, à injustiça e à guerra, opõe-se como purificação e cura o serviço, o amor, o diálogo, o perdão, e a oração, para que a corrente de Deus nos mantenha vigilantes e atentos e prontos para nos ajudarmos, quem quiser ser o primeiro de todos seja o servo de todos.


Textos para a Eucaristia (ano B): Sab 2, 12.17-20; Tg 3, 16 – 4, 3; Mc 9, 30-37.

 

Reflexão DominicaL COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

e no nosso blogue CARISTAS IN VERITATE.


19
Ago 12
publicado por mpgpadre, às 09:00link do post | comentar |  O que é?

       1 – O maior DOM de Deus à humanidade é JESUS CRISTO. Deus faz-Se homem no seio da Virgem Imaculada, pela graça do Espírito Santo, e assume a nossa humanidade, no tempo e prepara-nos para a eternidade.

       O cordeiro pascal agora é Jesus Cristo, que Se sacrifica pela humanidade inteira e de uma vez para sempre. Ele é o pão da vida. E o pão que Ele nos dá é a Sua carne, a Sua vida por inteiro.

       Adensa-se o clima: “Os judeus discutiam entre si: «Como pode ele dar-nos a sua carne a comer?»… «Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós… A minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida… quem comer deste pão viverá eternamente»”.

       Ele dá-nos o Seu corpo, a Sua vida, para nossa salvação, para que tenhamos a vida em abundância, até à vida eterna.


       2 – A primeira leitura convida ao alimento, que é corporal, mas que aponta para o mundo espiritual, um pão que sacia a fome e que anima o espírito para caminhar.

“A Sabedoria edificou a sua casa e levantou sete colunas. Enviou as suas servas a proclamar nos pontos mais altos da cidade: «Quem é inexperiente venha por aqui». E aos insensatos ela diz: «Vinde comer do meu pão e beber do vinho que vos preparei. Deixai a insensatez e vivereis; segui o caminho da prudência»”.

       Atente-se na clareza do texto: o pão, símbolo de todo o alimento, não é apenas pão, é mais que pão. Releia-se: Vinde comer... deixai a insensatez e vivereis, segui o caminho da prudência!

       O alimento que Deus nos dá há de orientar-nos para o bem, dando sentido às nossas escolhas, fundamentando a nossa esperança, cuidando do nosso peregrinar.


       3 – Jesus apresenta-Se despudoradamente como o PÃO da VIDA, o verdadeiro alimento que vem de Deus.

       E se O acolhemos como alimento, todo o nosso ser se abrirá à Sua graça infinita. Não estamos sós. Nunca mais. Ele está connosco. Veio para ficar. Deixa-nos o Seu corpo, a Sua vida. Não Se divide em dois, nem no tempo nem na eternidade. Não se reparte em metades, uma junto de Deus e outra junto de nós.

       Uma comparação entre a presença de Cristo na cruz e na Eucaristia: Nos crucifixos vemos Jesus Cristo mas Ele não está (o crucifixo é apenas uma imagem). Na Eucaristia não Se vê mas Ele está realmente presente, pela força do Espírito Santo.


       4 – Se acolhemos Jesus Cristo como o verdadeiro Pão que Deus nos dá, ALIMENTO de salvação, então a nossa vida muda. Muda como quando gostamos de alguém e queremos ser-lhe agradáveis, fazendo muitas vezes não o que mais gostamos mas o que sabemos ser do agrado da pessoa amada, que queremos fazer feliz.

       A Palavra de Deus faz-nos passar rapidamente do alimento para o compromisso. Alimentamo-nos para viver. Em sentido espiritual, o alimento que é Cristo há de levar-nos a agir como Ele agiu.

“Guarda do mal a tua língua e da mentira os teus lábios. Evita o mal e faz o bem, procura a paz e segue os seus passos” (Salmo), saboreamos a presença de Deus em nós e evitamos todo o mal.

       Do mesmo jeito, o apóstolo São Paulo, mostra-nos como nos configurarmos ao Corpo de Cristo, do qual somos membros:

“Não vivais como insensatos… Aproveitai bem o tempo, porque os dias que correm são maus… procurai compreender qual é a vontade do Senhor. Não vos embriagueis… mas enchei-vos do Espírito Santo,… dando graças, por tudo e em todo o tempo, a Deus Pai”.

       O alimento corporal é essencial, mas essencial é também a vida, a graça de Deus, a sabedoria, a companhia, a beleza, a presença dos irmãos, sentirmo-nos parte de algo maior e mais duradouro.


Textos para a Eucaristia (ano B): Prov 9,1-6; Sl 33 (34); Ef 5,15-20; Jo 6,51-58.

 


08
Fev 12
publicado por mpgpadre, às 19:30link do post | comentar |  O que é?

Curiosidade «» dúvida «» humildade «» confiança «» sabedoria.

A humildade coloca-nos na rota de Deus e dos outros, abre a nossa mente, o nosso coração, a nossa vida, às qualidades, dons e sabedoria que nos chega através dos outros, do mundo, das experiências, inspirações, dos conselhos, da sabedoria popular, da leitura, do encontro com pessoas, da vivência partilhada da existência.
Mas com a humildade relacionam-se outras propriedades que são importantíssimas para cresceremos como pessoas, cidadãos, crentes, procurando que a sabedoria ilumine as nossas escolhas, projetos, os nossos sonhos, e nos faça acolher o inevitável e transformar o que está ao nosso alcance.
Sábio não é o que sabe tudo, o que sabe mais coisas. Sábio é aquele que está sempre disponível para aprender, para acolher, para amar, para ser amado, para ser instrumento de ligação aos outros, ao mundo e a Deus. Sábio não é o que tem um curso superior, ou tem muitos contactos, que tem um canudo, ou viajou pelo mundo inteiro. Sábio é o que quer escutar os outros, quer compreender o mundo à sua volta, que dispõe a sua vida para acolher o mistério que vem do alto, que vem de Deus. Sábio é o que reconhece os seus erros e ainda assim caminha. É o que não desiste, mesmo que por vezes tenha que recuar, recomeçar, voltar a tentar. Sábio é aquele que reconhece que está a caminhar, que ainda não chegou à meta, que ainda está longe. Sábio é aquele que se dispõe a servir a Verdade. Sábio não é o que não peca. Sábio é o que está disponível para acolher o perdão.
Sábio é o que se deixa encantar com as pequenas coisas da vida, momentos sublimes do nascer ou do por do sol, o sorriso de uma criança ou os malabarismos de um gato. Sábio não é aquela pessoa séria, sisuda, que dita sentenças. Sábio é aquele que sabe rir de si mesmo, e sorrir diante dos seus disparates, e que procura estar atento a tudo o que o rodeia.
Sábio não é o que atingiu um grau de conhecimento superior, ou está moralmente acima de qualquer suspeita. Sábio é aquele que cultiva a arte da dúvida, da curiosidade, da interrogação, que está sempre em busca, procurando aprender com tudo e com todas as situações.
O sábio não e aquele que não muda porque atingiu a perfeição. Embora um provérbio chinês diga que só não mudam os sábios e os estúpidos. Coloquemo-nos entre uns e outros, a caminho... Sábio é, antes, aquele que procura aperfeiçoar todos os aspetos da sua vida e mantém aberta a mente para acolher situações novas e poder contribuir para a transformação do mundo.

A curiosidade na criança é o ponto de partida para aprender, para descobrir, para compreender o mundo que a rodeia. Sem curiosidade não haveria conhecimento, muito menos haveria sabedoria.
Sublinhe-se de novo que o sábio não é o que não tem dúvidas, mas aquele que vive nas dúvidas, procurando ser feliz e contribuir para a felicidade dos outros, fazendo a ponto. A dúvida é específica do ser humano. Somos ser inacabados, Mas que beleza, como somos inacabados temos a oportunidade de crescer sempre mais, até ao Infinito, até à eternidade de Deus.
Sábio não é aquele que tem respostas para tudo, mas aquele que questiona (quase) tudo, que se interroga constantemente e ao mundo que o rodeia.
Sábio não é aquele que tem todas as certezas, mas aquele que não se deixa abater pelas dúvidas e incertezas e procura acertar o seu caminho, para o sábio cristão, procura acertar o seu caminho pelo de Jesus Cristo.

Maria interroga o Anjo quando este lhe anuncia que vai ser Mãe do Filho de Deus: "Como será isto se não conheço homem?"
A interrogação faz parte da procura, da escuta, do nosso peregrinar.

A humildade trabalha lado a lado com a sabedoria. A arrogância e a sobranceria, o orgulho individualista, o egoísmo levam à morte, à destruição, à solidão. A sabedoria não afasta, não isola. O sábio não é aquele que se fecha no seu casulo, como se estivesse num patamar superior, imperturbável. Sábio é aquele e aquela vive com os outros, procura os outros, procura superar as suas dúvidas, procura amar, deixa-se amar, procura a beleza, a alegria, e sabe que a sua fragilidade é um ponto de contacto com a humanidade e não um estorvo.

"Só sei que nada sei... e quanto mais sei, mais sei que nada sei". É o ponto de partida do sábio grego Sócrates. É o ponto de partida de Descartes. Há de ser esta a nossa sabedoria, quanto mais caminhamos mais a certeza que estamos distantes da perfeição, da santidade, da sabedoria. Isso não nos desanima. Pelo contrário, é sinal de jovialidade, ainda há caminho a fazer na nossa vida.

Mais tarde ou mais cedo, a curiosidade leva-nos à interrogação, a dúvida leva à humildade, esta à abertura ao outros, à aceitação dos dons do outro, leva a uma atitude de confiança, de despojamento, de entrega, de acolhimento.

Não tenhamos medo da dúvida. Não receemos que a humildade nos possa despojar da nossa identidade. Não cessemos de buscar - peregrinos da verdade... Podemos ser sábios, não por sermos melhores que os outros, ou termos mais conhecimentos práticos ou científicos, podemos ser sábios quando a nossa alma se despoja de preconceitos e se abre aos outros, pronta para a amar e acolher o amor dos outros e do Outro (Totalmente Outro »» Totalmente Próximo)


19
Jan 12
publicado por mpgpadre, às 17:30link do post | comentar |  O que é?

Faça das suas insuficiências oportunidade de partilha, de comunhão, de enriquecimento espiritual, de fortalecimento psicológico, numa palavra, faça que os seus limites sejam uma porta aberta para a saúde (física e espiritual) e para a felicidade.

Numa série de desenhos animados, muito popularizada entre adolescentes/jovens, Naruto, uma das personagens, dá-nos uma lição extraordinária, e onde se pode reler excertos da Sagrada Escritura. Jiraiya Sam, um dos três ninjas lendários, da aldeia oculta na folhagem, depara-se com o momento da morte e como numa crónica da sua vida deixa este testamento:
"Os fracassos são distrações, são testes que aperfeiçoam as nossas qualidades. Vivi a acreditar nisso e em troca jurei cumprir uma missão tão importante que me fizesse esquecer os meus fracassos, assim morreria como um grande ninja... no final também falhei nessa escolha... que história mais inútil... o mais importante é a capacidade de nunca desistir, nunca faltar à palavra, e principalmente nunca desisti, aconteça o que acontecer... Nunca desistir, era essa a verdadeira escolha que tinha de fazer...".

Encontramos esta riqueza de linguagem no livro de Eclesiastes e no livro de Job, que integram a literatura sapiencial, isto é, fazem parte do conjunto de livros do Antigo Testamento, que nos falam da sabedoria humana e divina, dos Provérbios, dos ensinamentos, das grandes máximas do povo de Israel, das lições de vida deixadas de pais para filhos, de mestres para discípulos.

Diz Qohélet (Eclesiastes) - vaidade das vaidades, tudo é vaidade... não há nada de novo debaixo do sol, tudo o que o homem faz é vaidade, não passa de um sopro que logo desaparece.
"Aquilo que foi é aquilo que será; aquilo que foi feito, há de voltar a fazer-se: e nada há de novo debaixo do Sol!... apliquei o meu espírito a estudar e a ex­plorar, pela sabedoria, todas as coi­sas que sucedem debaixo do céu. É uma tarefa ingrata que Deus deu aos homens e os oprime... Apli­quei, igualmente, o meu co­ra­ção a conhecer a sabedoria, a lou­cura e a insensatez; e reconheci que também isto é correr atrás do vento. Por­que na muita sabe­do­ria há mui­­ta arrelia, e o que au­men­ta o co­nhe­ci­mento, aumenta o sofri­mento" (Ecl 1, 17-18).

Vamos ao livro de Job e encontramos o mesmo lamento. O mal seria consequência/castigo do pecado. Job descobre que a sua vida corre mal, mas ao mesmo tempo trata-se de uma enorme injustiça. Sempre se aplicou a fazer o bem, a viver segundo a justiça, a praticar boas obras, a usar de misericórdia. No final, de nada lhe adiantou ser bom e justo.

Se ficássemos por aqui, não teria sentido a nossa busca, tudo seria inútil, passageiro, efémero. Se bem, que essa constatação nos pudesse levar a desfrutar melhor da vida, positiva ou negativamente. O vazio seria sempre o destino dos nossos atos, e os nossos fracassos seriam sempre avassaladores.
Job e Qohélet abrem a nossa mente para algo de grandioso e que nos ultrapassa, abrem para Deus. Tudo é vaidade, a não ser que se sob o olhar de Deus. "O resumo do discurso, de tudo o que se ouviu, é este: teme a Deus e guarda os seus preceitos, porque este é o dever de todo o homem. Deus pedirá contas, no dia do juí­zo, de tudo o que está oculto, quer seja bom, quer seja mau".
Job da mesma forte disponibiliza-se com humildade para a justiça de Deus que ultrapassa toda a justiça humana, mesmo quando o nosso espírito ainda não esteja capacitado para ver.

Voltando ao ponto de partida, importa fazer de todas as nossas experiências, como já vimos num destes dias anteriores, oportunidade para nos tornarmos mais fortes, para, com inteligência e humildade, aprendermos a viver melhor, mais confiantes, disponíveis para acolher o que o tempo nos pode trazer e sobretudo as pessoas e o mistério de Deus nos podem dar.

Como recordávamos ontem, com São Paulo, quando sou fraco é que sou forte, ou por outras palavras, as minhas fraquezas e insuficiências podem efetivar a decisão firme de me abrir ao semelhante e me disponibilizar para aprender, para crescer. Os fracassos de hoje podem ser janelas abertas que me trazem o vento fresco, o sol que me inunda de luz a minha casa, possibilitando que veja mais ao longe, que veja para lá das dificuldades do tempo presente.

 

O tempo presente não se compara ao que há de vir, onde veremos Deus face a face, porquanto o nosso compromisso é com o tempo, com o mundo, com a história. É a nossa missão maior, que nos coloca a caminho. (São Paulo lembra: não me importava de morrer e ir já contemplar a glória de Deus, mas é necessário que continue a ser útil para os meus irmãos; São João, numa das suas epístolas lembra que o que somos é uma pequena amostra do que seremos).


05
Nov 11
publicado por mpgpadre, às 10:27link do post | comentar |  O que é?

Ser bondoso para contigo significa

olhares para ti com humanidade.

Ser bondoso significa sentires-te bem contigo próprio.

É reconhecer a criança ferida que existe em ti

e usares de misericórdia para com ela;

olhar para as próprias feridas

com o olhar compassivo do coração

e agir com uma dedicação sincera.

Não deves enfurecer-te com as tuas próprias fraquezas,

mas sim olhá-las com amor e aceitá-las.

Só um olhar carinhoso pode fazer com que as nossas fraquezas se transformem.

 

Não dificultes a tua vida

ao levar demasiado a sério aquilo que não te agrada em ti

e o que te aborrece nos outros.

Vive e deixa viver.

Vê para lá das coisas.

 

Sê criativo na forma como levas alegria

à vida das pessoas que vais encontrando.

As rosas que fazes florescer para os outros

não perfumam apenas a vida delas.

Também inebriam a tua.

Também enchem o teu coração de amor e alegria.

Sempre que te aproximas dos outros,

há algo em ti que se agita, que te faz sentir livre e expansivo.

 

Anselm Grün, em "Em cada dia... um caminho para a felicidade", a partir de ABRIGO dos SÁBIOS


11
Set 11
publicado por mpgpadre, às 10:35link do post | comentar |  O que é?

       1 – "Errar é humano, perdoar é divino".

       Neste ditado popular temos uma constatação e um desafio. Por um lado, é próprio da nossa fragilidade humana errarmos, falharmos na nossa relação com os outros. Vale para uns e para outros. Estamos no mesmo barco. Somos da mesma carne. Num ou noutro tempo, lá cometemos um deslize, uma falha, uma palavra que ofende, um gesto que destrói o outro, uma palavra ou um gesto que destrói a confiança do outro, que mina a sua paz e a sua saúde. 

       Desde logo uma lição importante: se todos pecamos, isto é, se temos em nós o gérmen da fragilidade, do errar, mais consciente ou menos conscientemente, então a nossa compreensão e tolerância para com os outros deveria ser um modo de ser, uma constante, uma opção de vida.

       Por outro lado, sabemos como o perdão não é assim tão fácil de conceder. E porquê? Quem já se sentiu ofendido na sua dignidade? Quem foi insultado, traído, desprezado? Quem já foi vítima do ódio, da maledicência, do boato, da injúria, da violência, da injustiça? Quem já viu o seu nome lançado na lama? Como se sentiu, como se viu impelido a agir?

       Por vezes basta uma palavra fora de tempo, ou a ausência de uma palavra de solidariedade, para nos sentirmos ofendidos!

       Este é o grande desafio: perdoar. É a característica fundamental da caridade, a propriedade de Deus. Ama em perfeição. Perdoa em todas as situações. Só Ele nos liberta do peso do pecado e da culpa. Perdoar é divino. Mas é também um caminho, do crente e de toda a pessoa que quer ser livre, que quer ser saudável. É um ideal que devemos prosseguir com alegria, com paixão. O perdão liberta-nos do rancor, da irritação, do ódio, liberta o nosso coração para que ame, para que viva, para que aprecie o mundo à sua volta.

 

       2 – No Evangelho deste domingo encontrámos um Pedro muito benevolente: “Se meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?”.

       Deverei perdoar? E quantas vezes? Cada um de nós já foi confrontado com esta questão várias vezes ao longo da sua vida. Não será difícil responder. Já que esta ou aquela pessoa me ofendeu, e se não foi uma ofensa à minha dignidade, então poderei vir a perdoar. E se a mesma pessoa me ofender de novo? Aí o perdão já se torna mais complexo, é que se perdoo novamente pode voltar a fazer o mesmo pois sabe como tenho um coração de manteiga. E uma terceira vez? Já é quebrar a cara e perder a vergonha! Perdoar, nem pensar! O abuso também tem um limite!

       Quando Pedro pergunta a Jesus se deve perdoar até sete vezes, ele está a ser demasiado generoso. Talvez pense que Jesus tenha um gesto de reconhecimento e de felicitação por tamanha generosidade. Mas Jesus surpreende-o: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”. O número 7, para a Bíblia, significa perfeição, plenitude. Perdoar 7 vezes é perdoar sempre. Mas para que não restem dúvidas, Jesus eleva o perdão até ao infinito, perdoar sempre, em todas as situações, em todos os momentos, a todas as pessoas.

        Perdoar é divino, perdoar abre-nos o coração aos outros, à vida, à alegria, a Deus. Liberta-nos. Cura-nos. Perdoar traz-nos a confiança, devolve-nos a felicidade. É certo que há situações que não esquecerei, muito menos uma ofensa grave. Fica gravado na memória. Não é uma opção. Perdoar tem a ver com a vontade, é uma opção de vida, é uma escolha. Perdoo, sabendo que me fizeram mal, que feriram a minha dignidade, que me atraiçoaram. Quero bem àquela pessoa, ainda que saiba que me injuriou. Perdoar para sermos perdoados, como na parábola contada por Jesus. Deus perdoa-nos tudo, para que nós vamos perdoando àqueles que nos ofendem.

       Quando não perdoamos, o nosso coração vai-se enchendo de rancor, de ódio, de revolta, de irritação. Para onde quer que vamos, em tudo o que fazemos, acordados ou a dormir, a pessoa que nos ofendeu vai connosco, faz parte da nossa vida, em todas as horas, negativamente. Nem comemos com o mesmo entusiasmo, nem dormimos com a mesma tranquilidade, como que desejaríamos que essa pessoa passasse pelo mesmo... Paralisamos! Adoecemos! Morre em nós a vida nova que recebemos de Deus, em Jesus Cristo, pelo Espírito Santo.

       Embora seja divino, o perdão é uma escolha, é uma questão de saúde, de cura. 

 

       3 – O perdão é uma exigência da caridade ao jeito de Jesus Cristo. Quem ama perdoa. Os cristãos, seguidores de Jesus Cristo, são chamados a perdoar sempre, deixando-se tocar pela graça de Deus, fonte e origem de todo o amor, fonte e origem do perdão.

       Ben Sirá, alerta-nos para a urgência de pedirmos a Deus a nossa cura, perdoando aqueles que nos ofenderam.

       "O rancor e a ira são coisas detestáveis, e o pecador é mestre nelas. Quem se vinga sofrerá a vingança do Senhor, que pedirá minuciosa conta de seus pecados. Perdoa a ofensa do teu próximo e, quando o pedires, as tuas ofensas serão perdoadas. Um homem guarda rancor contra outro e pede a Deus que o cure? Não tem compaixão do seu semelhante e pede perdão para os seus próprios pecados? Se ele, que é um ser de carne, guarda rancor, quem lhe alcançará o perdão das suas faltas? Lembra-te do teu fim e deixa de ter ódio; pensa na corrupção e na morte, e guarda os mandamentos. Recorda os mandamentos e não tenhas rancor ao próximo; pensa na aliança do Altíssimo e não repares nas ofensas que te fazem".

       As nossas ofensas são perdoadas quando perdoamos as dos outros. A cura é-nos concedida quando libertamos o nosso coração de toda a cólera, sabendo que só desse modo imitámos o proceder de Deus. Como se nos recorda no Salmo: "Como a distância da terra aos céus, assim é grande a sua misericórdia para os que O temem. Como o Oriente dista do Ocidente, assim Ele afasta de nós os nossos pecados".

       Vivendo na graça de Deus, aprenderemos a força libertadora de nos sabermos perdoados, amados por Deus e de sabermos que o nosso perdão disponibiliza o nosso coração, a nossa vida, para a alegria, a confiança, para a disposição para nos encontrarmos e para descobrirmos a beleza da vida, para termos garra para enfrentarmos os momentos de dificuldade com mais serenidade.

 

       4 – Lembremo-nos da recomendação feita pelo Apóstolo São Paulo aos Romanos: "Nenhum de nós vive para si mesmo e nenhum de nós morre para si mesmo. Se vivemos, vivemos para o Senhor, e se morremos, morremos para o Senhor. Portanto, quer vivamos quer morramos, pertencemos ao Senhor. Na verdade, Cristo morreu e ressuscitou para ser o Senhor dos vivos e dos mortos".

       Se colocarmos Deus nos nossos pensamentos, na nossa vontade, nas nossas escolhas, nos nossos afazeres, se deixarmos que o Seu Espírito de amor actue em nós, tornar-se-á mais fácil entender que a vida se resolve e se decide na caridade, que, por sua vez, tem no perdão uma das expressões máximas do viver como Jesus viveu, amando, perdoando, fazendo o bem, dando a vida por nós, a que também nós estamos chamados.


Textos para a Eucaristia (ano A): Sir 27, 33 – 28, 9; Sl 102 (103); Rom 14, 7-9; Mt 18, 21-35.

 


03
Jul 11
publicado por mpgpadre, às 14:46link do post | comentar |  O que é?

       "Nada tão belo como reconciliarmo-nos com os nossos sonhos. Nada tão triste como desistirmos deles.

 

       Quem sonha não encontra estradas sem obstáculos, lucidez sem perturbação, alegria sem aflição. Mas quem sonha voa mais alto, caminha mais longe. todas as pessoas, da infância ao último estádio da vida, precisam de sonhar...

        Não se esqueça de que você vai falhar 100 % das vezes que não tentar, vai perder 100% das vezes em que não procurar, vai ficar parado 100 % das vezes em que não ousar andar.

       Como disse o filósofo da música, Raul Seixas: 'Tenha fé em Deus, tenha fé na vida, tente outra vez... ' Se você sonhar, poderá sacudir o mundo, pelo menos o seu mundo...

       Se sonhos, os ricos ficam deprimidos, os famosos aborrecidos, os intelectuais tornam-se estéreis, os livres tornam-se escravos, os fortes tornam-se tímidos. Sem sonhos, a coragem dissipa-se, a inventividade esgota-se, o sorriso vira um disfarce, a emoção envelhece".

 


02
Jul 11
publicado por mpgpadre, às 20:13link do post | comentar |  O que é?

       "Jesus discorria sobre a liberdade poética. A liberdade de escolha, de construir caminhos, de seguir a própria consciência. Discursava sobre a gestão de pensamentos, a administração da emoção, o exercício da humildade, a capacidade de perdoar, a sabedoria de expor e não impor ideias, a experiência plena do amor pelo ser humano e por Deus.

       O Mestre da vida vivia o que dizia. Não impedia as pessoas de o abandonar, de o trair e nem mesmo de o negar. Nunca houve alguém tão desprendido e que exercitasse de tal forma a liberdade".

 


14
Abr 11
publicado por mpgpadre, às 10:11link do post | comentar | ver comentários (1) |  O que é?

       O professor mandou redigir um texto acerca da poluição. De facto, é um assunto muito actual, sobretudo nas cidades. As pessoas continuam a poluir a atmosfera com o anidrido de carbono, a poluir a terra com os pesticidas, a poluir as águas com as descargas poluentes das fábricas.

       Os alunos foram à internet e apresentaram trabalhos sem originalidade. Apenas um deles viu a poluição de outra maneira. Escreveu ele:

       "Polui o egoísta que só pensa em si mesmo. Polui o preguiçoso que é um parasita. Polui o marido que trata a esposa como escrava. Polui quem faz mal em vez de fazer o bem. Polui quem anda na vida sempre envinagrado em vez de irradiar alegria. Polui o corrupto que enriquece à custa do povo. Polui o jornalista que divulga mentiras e difama as pessoas".

       O professor gostou deste texto, que serviu de motivação para toda a turma dialogar.

 

In Revista Juvenil, n.º 545, abril de 2011.


23
Fev 11
publicado por mpgpadre, às 15:31link do post | comentar |  O que é?

       Um sábio japonês, conhecido pela profundidade e justeza das suas doutrinas, recebeu a visita de um professor universitário que tinha ido inquirir acerca dos seus pensamentos.

       O professor universitário tinha fama de ser orgulhoso, nunca prestando atenção às sugestões dos outros, julgando-se sempre na posse de toda a verdade.

       O sábio quis dar-lhe uma lição. Para tal quis servir-lhe uma chávena de chá.

       Começou por deitar o chá pouco a pouco. E a chávena encheu-se.

       O sábio, fingindo não dar conta de que a chávena já estava cheia, continuou a deitar até que este transbordou e começou a molhar a toalha. O velho japonês mantinha a sua expressão serena e sorridente.

O professor universitário viu o chá a transbordar e ficou sem perceber como era possível uma tal distracção, tão contrária às normas das boas maneiras. Mas, a dado momento, não pôde conter-se mais e disse ao sábio:

       — Já está cheia! Não cabe mais!

       O sábio, imperturbável, disse-lhe então:

       — Tal como esta taça, também tu estás cheio da tua cultura, das tuas opiniões, de um amontoado de conjecturas eruditas e complexas. Como posso eu falar-te da sabedoria, que só é compreendida pelas pessoas simples e disponíveis, se antes não esvaziares a tua chávena?

       O professor compreendeu a lição. A partir desse dia, esforçou-se por se “esvaziar” das suas certezas e por escutar as opiniões dos outros, sem desprezar nenhuma delas.

 

autor desconhecido, postado a partir do nosso CARITAS IN VERITATE


20
Out 10
publicado por mpgpadre, às 14:24link do post | comentar |  O que é?

       Contam alguns anciãos que, numa pequena terra do interior, um grupo de pessoas se divertia às custas do tonto da aldeia. Um pobre infeliz que vivia de pequenos recados e de esmolas.

       Diariamente era chamado ao café da terra por uns homens que lhe davam a escolher entre duas moedas: uma pequena, de 1 euro, e uma grande, de 50 cêntimos. Ele escolhia sempre a maior, de valor inferior, o que causava uma onda de riso e chacota por entre a assistência.

       Um dia, observando este triste espectáculo, um homem compadeceu-se e chama o tonto de parte perguntando-lhe se, por acaso, não saberia que a moeda que sempre tendia a escolher era a de menor valor. Ele respondeu-lhe:

       - Sei sim, meu senhor, não sou assim tão tonto, vale metade da outra. Mas no dia em que eu escolher a outra, o jogo acaba e fico sem a minha moeda diária.

 

       A história poderia muito bem acabar aqui mas é mais importante salientar algumas das conclusões que podemos tirar dela:

1ª - Nem sempre aquele que parece tonto o é na realidade.

2ª - Os verdadeiros tontos da história são, na verdade, os homens que dele se riam.

3ª - Uma ambição desmedida pode acabar com a nossa fonte de rendimentos

4ª - A mais interessante de todas: Podemos viver bem mesmo quando os outros têm uma ideia menos boa acerca de nós. O que importa não é o que os outros pensam de nós mas sim a ideia que temos de nós mesmos.

MORAL:

O Homem verdadeiramente inteligente

é aquele que aparenta ser tonto

diante daquele que, sendo tonto, aparenta ser inteligente

In Cristo Jovem.


15
Out 10
publicado por mpgpadre, às 10:09link do post | comentar |  O que é?

Num antigo mosteiro budista, um jovem monge perguntou ao mestre:
- Mestre, como faço para não me aborrecer com as pessoas? Algumas falam demais, outras são ignorantes. Algumas são indiferentes, sinto ódio vindo das que são mentirosas e sofro com as que me insultam.
- Vive como as flores. – aconselhou o mestre.

Não foi nenhum pessimista que descobriu o segredo das estrelas, ou  que navegou para terras desconhecidas, ou que abriu um novo caminho  para o espirito humano. (Helen Keller)

- Como é viver como as flores? – perguntou o discípulo.

- Repara nas flores. – continuou o mestre, apontando as flores que cresciam no jardim.

O cinico sabe o preço de tudo e o valor de nada. (Oscar Wilde)

- Elas nascem na terra suja, no entanto, são puras e perfumadas.

Nas profundezas do Inverno aprendi que havia em mim um Verão  invencivel. (Albert Camus)

- Extraem do adubo malcheiroso tudo que lhes é útil e saudável, sem permitir que o azedume da terra manche a frescura das suas pétalas.

A maior descoberta da minha geração é o Homem poder alterar a sua  vida alterando simplesmente a sua atitude mental. (James Truslow Adams)

- É justo angustiares-te com as tuas próprias culpas, mas não é sábio permitir que os vícios dos outros te importunem. Os defeitos deles são deles e não teus.

Não há trabalhos menores, apenas atitudes menores. (William John  Bennett)

- Rejeita todo o mal que vem de fora e aceita todo o bem que venha até ti.

Uma atitude positiva poderá não resolver todos os nossos problemas  mas aborrecerá um número suficientes de pessoas para valer a pena o  esforço. (Herm Albright)

- Quando o conseguires, estarás a viver como as flores.

 

Retirado do blogue "A Árvore de Pérola", a partir do nosso Caritas in Veritate.


24
Set 10
publicado por mpgpadre, às 12:23link do post | comentar |  O que é?

Tudo tem o seu tempo, tudo tem a sua hora debaixo do céu:

tempo para nascer e tempo para morrer,

tempo para plantar e tempo para arrancar;

tempo para matar e tempo para curar,

tempo para demolir e tempo para construir;

tempo para chorar e tempo para rir,

tempo para gemer e tempo para dançar;

tempo para atirar pedras e tempo para as juntar,

tempo para se abraçar e tempo para se separar;

tempo para ganhar e tempo para perder,

tempo para guardar e tempo para deitar fora;

tempo para rasgar e tempo para coser,

tempo para calar e tempo para falar;

tempo para amar e tempo para odiar,

tempo para a guerra e tempo para a paz.

       Que aproveita ao homem com tanto trabalho? Tenho observado a tarefa que Deus atribuiu aos homens, para nela se ocuparem. Ele fez todas as coisas apropriadas ao seu tempo e pôs no coração do homem a sucessão dos séculos, sem que ele possa compreender o princípio e o fim da obra de Deus. (Co  3, 1-11)

       Deus fez todas as coisas com sentido, expressão da abundância do Seu amor, que transborda e cria todo o Universo. E fez tudo admiralvelmente. O facto de nem sempre compreendermos o mundo e o tempo que nos envolve, isso não significa que os acontecimentos, a sucessão dos tempos e a história não esteja no coração de Deus.

       O texto de Coeleth aponta-nos para a sabedoria de Deus e para a nossa confiança no Senhor de todas as coisas. Se Deus estivesse ausente do Universo, tudo seria vaidade, passageiro, rotina, vazio, efémero, como líamos ontem. Se Deus é o autor também do tempo, tudo tem um sentido de eternidade.


30
Ago 10
publicado por mpgpadre, às 10:54link do post | comentar |  O que é?

       1 - A arrogância e a prepotência desembocam na destruição e na morte.

       A humildade, ao invés, conduz à abertura aos outros, ao diálogo, ao acolhimento (dos outros e das suas ideias), à generosidade com o semelhante, à partilha solidária, constrói, prepara-nos para a comunhão, para a vida, para nos tornarmos comunidade, povo.

       Olhámos para a história e facilmente constatámos que os grandes homens e mulheres foram pessoas simples, humildes, capazes de ouvir, de corrigir, de aceitar ajuda e de prestar auxílio, pessoas sábias: Madre Teresa de Calcutá, Padre Damião, João Paulo II, Gandhi, Martin Luther King, Pai Américo, São Francisco de Assis, São Domingos de Gusmão, Santo Inácio de Loyola, Santa Teresinha.

       Em contraposição, figuras megalómanas como Hitler, Saddam Hussein, Lenine, Mao Tsé-tung, imperadores romanos, Napoleão Bonaparte, que levaram à destruição da própria vida e da vida de pessoas e/ou povos que deveriam servir.

       Obviamente, e porque a vida não é branco e preto, existem muitas pessoas que se tornaram famosas, geniais, que ajudaram a desenvolver o mundo, em dinâmica de prepotência e egoísmo. Cremos, no entanto, que sob a capa da arrogância houve momentos de humildade e de generosidade, ainda que num sentido geral e a favor da humanidade.

       2 - A liturgia da palavra deste domingo convida à humildade perante o mistério de Deus, na certeza de que Deus Se revela preferentemente aos simples, pois só eles sabem escutar e compreender o mistério insondável da vida e da salvação.

       Jesus, muitas vezes, há-de repetir que Deus Se revela aos pequeninos, dizendo que o reino dos Céus é dos que são como crianças, na simplicidade de coração.

       Uma pessoa arrogante e/ou prepotente centra-se em si mesma, fecha-se aos outros, à novidade de Deus, ao futuro, à esperança, à sabedoria humana e divina. Com efeito, ouvimos na primeira leitura, "a desgraça do soberbo não tem cura, porque a árvore da maldade criou nele raízes. O coração do sábio compreende as máximas do sábio e o ouvido atento alegra-se com a sabedoria".

       Esta humildade exprime-se e pratica-se no dia-a-dia. Diz-nos Jesus, "quando fores convidado para um banquete nupcial, não tomes o primeiro lugar"... pode acontecer que te retirem para um lugar mais distante! "Quando ofereceres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te: ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos". Humildade perante o "Senhor" e humildade, transformada em generosidade, diante dos mais pobres.

 

       3 - O início do caminho faz-se de humildade, que leva à conversão e à sabedoria e que nos torna capazes de Deus.

       A grandeza do mistério de Deus só é compaginável com a humildade de coração.

       "Vós aproximastes-vos do monte Sião, da cidade do Deus vivo, a Jerusalém celeste, de muitos milhares de Anjos em reunião festiva, de uma assembleia de primogénitos inscritos no Céu, de Deus, juiz do universo, dos espíritos dos justos que atingiram a perfeição e de Jesus, mediador da nova aliança" (Segunda Leitura).

       Só com disponibilidade interior nos tornamos dóceis ao Espírito Santo e aptos para a inclusão do mistério de Cristo na nossa vida.

_____________________

Textos para a Eucaristia (ano C): Sir 3,19-21.30-31; Heb 12,18-19.22-24a; Lc 14,1.7-14

 


09
Ago 10
publicado por mpgpadre, às 10:12link do post | comentar |  O que é?

       1 - "Fazei bolsas que não envelheçam, um tesouro inesgotável nos Céus, onde o ladrão não chega nem a traça rói. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração. Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas" (Evangelho).

       Depois de Jesus convidar a fazer-nos ricos aos olhos de Deus, contrastando com a ganância e dizendo-nos claramente que "a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens", no domingo passado, hoje clarifica, avança e aprofunda esse desafio, de maneira que não acumulemos tesouros que o tempo corrói e que em muitas situações são obstáculos a uma vida feliz, descontraída, generosa.

       Os bens são necessários para a sobrevivência e para uma vida com dignidade, mas não são um fim em si mesmo, são um meio para viver, para ser feliz. O que deve prevalecer na nossa vida é a nossa relação positiva com os outros, com o mundo que nos rodeia, com Deus, com generosidade. Os bens que prevalecem até à eternidade são aqueles que nos aproximam uns dos outros e que se baseiam no amor, na justiça, na partilha solidária, no perdão.

 

       2 - Ao longo da vida vamo-nos dando conta que não somos apenas matéria e que a nossa existência não se encerra no tempo histórico, medido cronologicamente, mas abre-se para outras dimensões ainda que possam ser abafadas e até esquecidas pelas preocupações do tempo presente. O nosso espírito anseia pela eternidade. O querer mais pode ser uma forma de querer prolongar a vida, prolongar a memória, de deixar marcas que nos lembrem depois da nossa morte.

       Todos já ouvimos pessoas a dizer que a última morada é o cemitério, ali todos vamos parar, mas até os mais ateus e/ou agnósticos nesses encontros com a morte desejarão, no seu íntimo, que haja algo mais que a memória da ausência dos entes queridos.

       A fé, na verdade, ajuda-nos a entender o mistério da vida (e da morte), facilita-nos o momento de encarar a perda de alguém, com tristeza e luto, mas sem fatalismos, ainda que possamos ficar atordoados por tão grande mistério.

       A morte e a ressurreição de Jesus são a certeza de que também a nossa morte terá um desenlace para além da história e do tempo, colocando-nos na eternidade de Deus. Esta esperança há-de levar-nos de novo e sempre a colocar o nosso coração onde se deve encontrar o nosso tesouro, em Jesus Cristo, sentado á direita do Pai, de onde nos atrai para o bem.

 

       3 - As palavras de Jesus, no Evangelho deste domingo e do anterior, recordam-nos a nossa origem e o nosso fim (finalidade) divinos. De permeio, cabe-nos acolher a dádiva da vida, assumindo-a como tarefa e como compromisso, procurando tornar-nos ricos aos olhos de Deus, pela fé que nos orienta para a verdade e para a caridade.

       Foi esta mesma fé que mobilizou os nossos pais: "A noite em que foram mortos os primogénitos do Egipto foi dada previamente a conhecer aos nossos antepassados, para que, sabendo com certeza a que juramentos tinham dado crédito, ficassem cheios de coragem. Ela foi esperada pelo vosso povo, como salvação dos justos e perdição dos ímpios" (1.ª Leitura).

       Com efeito, diz-nos a Epístola aos Hebreus, "a fé é a garantia dos bens que se esperam e a certeza das realidades que não se vêem. Ela valeu aos antigos um bom testemunho" (2.ª Leitura).

       Por outras palavras, a fé antecipa-nos o que será a nossa vida em Deus, na eternidade, mistério revelado em Jesus Cristo, com a Sua mensagem, com a Sua vida e sobretudo com a Sua morte e ressurreição. O mistério revelado há-de comprometer-nos na ESPERANÇA, enlevar-nos para o alto, solidários com os que estão ao nosso lado.

______________________________

Textos para a Eucaristia (ano C): Sab 18,6-9; Heb 11,1-2.8-19; Lc 12,32-48

 


02
Ago 10
publicado por mpgpadre, às 11:44link do post | comentar |  O que é?

       1 - "Vede bem, guardai-vos de toda a avareza: a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens". Jesus é peremptório neste alerta. Depois de alguém Lhe dizer para ser intermediário na partilha de bens, Jesus diz aos presentes que as suas vidas não dependem da abundância dos seus bens.

       De seguida Jesus conta uma parábola sobre um homem que produziu uma colheita excelente, mandou construir um celeiro maior onde guardar toda a colheita e os seus bens, para no final poder dizer a si mesmo: "Descansa, come, bebe, regala-te". Mas nessa noite, Deus chama-o para dar contas. Então para quem serão todos os seus bens?

       Jesus conclui a parábola desta forma: "Assim acontece a quem acumula para si, em vez de se tornar rico aos olhos de Deus".

       Em muitas ocasiões Jesus mostra a prioridade do reino de Deus. Obviamente, também Ele come e bebe e participa em festas familiares e/ou comunitárias. Por aqui conclui-se que não menospreza os bens deste mundo que nos permitem viver com dignidade. Nesse sentido, o desafio à partilha, à caridade, à concretização prática da fé professada na relação com o semelhante, prestando-lhe cuidados, como o bom samaritano, perdoando, reconciliando os desavindos.

       Mas já nesta perspectiva, acentua os bens espirituais, aquilo que nos liga aos outros, que nos torna solidários, família, nos torna irmãos, ajudando os outros e ajudando-nos a ser felizes.

 

       2 - O que é certo, se a abundância dos bens fosse a garantia de felicidade e disso dependesse a nossa vida, então todas as pessoas com muitos bens materiais seriam felizes, Já, pelo contrário, as pessoas com escassez de bens materiais, seriam pobres das duas maneiras, nos bens e na (in)felicidade.

       A experiência diz-nos, com efeito, que há muitas pessoas que não têm grandes riquezas materiais e são felizes, generosas, simpáticas, de bem com a vida. Ao invés, há pessoas a quem não falta nada, materialmente falando mas que estão sempre mal com a vida e com os outros. Pelo meio, há ricos, cuja generosidade e desprendimento, que se permitem ser felizes, de bem com a vida. E há pobres que tudo fariam para destruir os que têm mais, não para partilhar, mas para ocupar os seus lugares, para viverem na opulência.

       Por outro lado, a experiência mostra-nos que muitas pessoas gastam o tempo todo em trabalho e preocupações, esquecendo-se de apreciar a vida, valorizar os momentos em família, o contacto com amigos, a usufruir positivamente dos investimentos. No final, quantas pessoas que acumularam uma riqueza considerável, mas agora que têm dinheiro e bens ou não têm saúde ou não têm ninguém, por vezes até os filhos debandaram!

 

       3 - Neste concreto, as leituras deste domingo são demasiado claras e provocadoras. Na primeira leitura, ouvimos o desabafo em jeito de desafio: "Vaidade das vaidades – diz Coelet – vaidade das vaidades: tudo é vaidade. Quem trabalhou com sabedoria, ciência e êxito, tem de deixar tudo a outro que nada fez. Também isto é vaidade e grande desgraça. Mas então, que aproveita ao homem todo o seu trabalho e a ânsia com que se afadigou debaixo do sol?"

       O autor parece desiludido perante a vida, todos têm a mesma sorte, tenham ou não trabalhado com justiça e sabedoria. Mas no final, o autor há-de concluir que tudo é vaidade se for feito e vivido à margem de Deus. Tudo pode ter sentido, se nos orientar para o bem, para Deus.

       É também essa a dinâmica expressa por São Paulo, nesta interpelação: "Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra. Porque vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus... fazei morrer o que em vós é terreno".

       A prioridade há-de ser os valores do reino: a justiça, a verdade, o perdão, a caridade, a partilha solidária, o bem, a atenção aos mais necessitados, a reabilitação dos marginalizados.

____________________________

Textos para a Eucaristia (ano C): Co (Ecle) 1,2; 2,21-23; Col 3,1-5.9-11; Lc 12,13-21

 


18
Jul 10
publicado por mpgpadre, às 13:05link do post | comentar |  O que é?
       Do canal no youtube de João Delicado, SJ (Sacerdote Jesuíta), retiramos esta parábola.
       "Uma folha em branco é um mundo, uma biblioteca é outro; diante delas somos formigas esmagadas por um elefante. Diante da folha, há tanto para dizer e não sabemos o quê. Diante da biblioteca, há tanto já dito e não o sabemos. Sabendo tudo, veríamos que saber tudo é tão pouco, porque é sabendo tudo que vemos que esse tudo não é nada. Podemos escolher: ser formiga esmagada; ou formiga que sobe ao dorso do elefante..."


10
Jul 10
publicado por mpgpadre, às 15:02link do post | comentar |  O que é?
       «Certa vez, Frei Egídio (um dos companheiros mais queridos de S. Francisco), homem muito simples e piedoso, falou assim ao Ministro General, Frei Boaventura (+ 1274), um dos maiores teólogos da Igreja.
       - Meu Pai, Deus deu-lhe muitos dotes. Eu, pessoalmente, não recebi grandes talentos. O que devemos nós, ignorantes e tolos, fazer para sermos salvos?
       O douto e santo Frei Boaventura elucidou-o dizendo:
       - Se Deus não desse ao homem nenhuma outra capacidade senão a de amar, isto lhe bastaria para se salvar.
       - Quer dizer que um ignorante, pode amar a Deus tanto como um sábio?, perguntou Frei Egídio, tentando entender.
       - Mesmo uma velhinha muito ignorante, disse-lhe com ternura o grande teólogo, pode amar mais a Deus do que um professor de Teologia.
       Dando pulos de alegria, Frei Egídio correu para a sacada do convento e começou a gritar:
       - Ó velhinha ignorante e rude, tu que amas a Deus Nosso Senhor, podes amá-l`O mais do que o grande teólogo Frei Boaventura.
       E, comovido, ficou ali, imóvel, durante três horas.»
 
(Pe. Neylor J. Tonin, em "Histórias de Sabedoria"), in Abrigo dos Sábios.


13
Fev 10
publicado por mpgpadre, às 10:28link do post | comentar |  O que é?

       Era uma vez um rapazinho que tinha um temperamento muito explosivo. Um dia, o pai deu-lhe um saco cheio de pregos e uma tábua de madeira.

       Disse-lhe que martelasse um prego na tábua cada vez que perdesse a paciência com alguém.

       No primeiro dia o rapaz pregou 37 pregos na tábua. Já nos dias seguintes, enquanto ia aprendendo a controlar a ira, o número de pregos martelados por dia foram diminuindo gradualmente.

       Ele foi descobrindo que dava menos trabalho controlar a ira do que ter que ir todos os dias pregar vários pregos na tábua...

       Finalmente chegou o dia em que não perdeu a paciência uma vez que fosse.

       Falou com o pai sobre seu sucesso e sobre como se sentia melhor por não explodir com os outros.

       O pai sugeriu-lhe que retirasse todos os pregos da tábua e que lha trouxesse.

       O rapaz trouxe então a tábua, já sem os pregos, e entregou-a ao pai. Este disse-lhe:

       - Estás de parabéns, filho! Mas repara nos buracos que os pregos deixaram na tábua. Nunca mais ela será como antes. Quando falas enquanto estás com raiva, as tuas palavras deixam marcas como essas. Podes enfiar uma faca em alguém e depois retirá-la, mas não importa quantas vezes peças desculpas, a cicatriz continuará lá.

       Uma agressão verbal é tão violenta como uma agressão física. Amigos são jóias raras, cada vez mais raras. Eles fazem-te sorrir e encorajam-te a alcançar o sucesso. Eles emprestam-te o ombro, compartilham os teus momentos de alegria, e têm sempre o coração aberto para ti.


26
Jan 10
publicado por mpgpadre, às 10:32link do post | comentar |  O que é?

       Durante a era glacial, muitos animais morriam por causa do frio.Os porcos-espinhos, percebendo a situação, resolveram juntar-se em grupos, assim se agasalhavam e se protegiam mutuamente, mas os espinhos de cada um feriam os companheiros mais próximos, justamente os que ofereciam mais calor.

    

       Por isso decidiram afastar-se uns dos outros e começaram de novo a morrer congelados.Então precisaram fazer uma escolha: ou desapareciam da Terra ou aceitavam os espinhos dos companheiros.
       
Com sabedoria, decidiram voltar a ficar juntos.
        Aprenderam assim a conviver com as pequenas feridas que a relação com uma pessoa muito próxima podia causar, já que o mais importante era o calor do outro. E assim sobreviveram.

Moral da História:

       O melhor relacionamento não é aquele que une pessoas perfeitas, mas aquele onde cada um aprende a conviver com os defeitos do outro e admirar as suas qualidades.. E, por outro lado, a não desistir do outro à primeira dificuldade. E lembra-nos ainda que quando o sofrimento nos estende a mão nem sempre isso significa falta de amor...

 

Postado a partir do nosso blogue: Caritas in Veritate.


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