...espaço de discussão, de formação, de cultura, de curiosidades, de interacção. Poderemos estar mais próximos. Deus seja a nossa Esperança e a nossa Alegria...
06
Mai 12
Por mpgpadre, às 09:00 | comentar

       1 – Prestemos atenção à força e luminosidade das palavras de Jesus no Evangelho deste domingo:

“Eu sou a verdadeira vide e meu Pai é o agricultor… Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em Mim. Eu sou a videira, vós sois os ramos. Se alguém permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto, porque sem Mim nada podeis fazer... Se permanecerdes em Mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes e ser-vos-á concedido. A glória de meu Pai é que deis muito fruto. Então vos tornareis meus discípulos”.

       No domingo passado, Jesus apresentava-Se como o Bom Pastor, Aquele que cuida de todo o rebanho e conhece cada ovelha pelo seu nome, Aquele que dá a vida, por opção livre, testemunhando na Sua carne, com toda a Sua vida, o amor de Deus. Esse é o Seu alimento. Há de ser também o nosso. Alimentar-nos de Deus, da Sua Palavra, da Sua presença, do Seu Espírito de Amor. Só em comunhão estreita com Ele daremos fruto em abundância.

       Hoje Jesus utiliza uma imagem igualmente feliz e expressiva. Ele é a videira, nós os ramos. Os ramos – todos os discípulos – só produzirão fruto se ligados à vide. Se cortados, ou “desligados” da videira, se não lhes chegar o “alimento” que percorre a cepa, os ramos secam, serão cortados, servirão para queimar. O fruto produzido atesta a ligação. A fé é o ponto de partida, o sustento e a chegada; são as obras, contudo, que mostram até que ponto a “ligação” a Deus é efetiva.

       As palavras de Jesus convocam-nos para uma vida comprometida com os outros, neste tempo e no lugar em que nos encontramos. Dar fruto para verificar a fé. Dar muito fruto para ser mais forte a nossa ligação a Deus e a nossa comunhão com os outros. Dar fruto para fortalecermos a nossa filiação divina.

 

       2 – As missivas dos apóstolos, às primeiras comunidades cristãs, têm a preocupação de avivar a fé e a pertença a Cristo, como cabeça da Igreja, o estreito seguimento do Mestre e do Seu jeito de viver e de amar. Neste sentido, a urgência de transformar a fé em obras concretas de amor, de serviço e de partilha. Os ramos bem unidos à videira darão frutos em abundância!

       A fé desligada da vida, da história e do tempo, seria artificial, vazia, condenada ao fracasso. A fé em Jesus Cristo conduz-nos aos outros, ao mundo, à transformação das realidades temporais, envolve-nos na promoção do bem, na prática das obras de misericórdia (corporais e espirituais), expressão da CARIDADE que é o próprio Deus.

       Diz-nos São João, na sua primeira Carta:

“Não amemos com palavras e com a língua, mas com obras e em verdade… É este o seu mandamento: acreditar no nome de seu Filho, Jesus Cristo, e amar-nos uns aos outros, como Ele nos mandou. Quem observa os seus mandamentos permanece em Deus e Deus nele”.

       Por mais argumentos que tenhamos sobre a fé que possuímos, esta é verificável pela nossa vida. Amemos com obras e em verdade, não apenas com palavras. Estas têm valor e espaço quando confortam, abençoam, acolhem, protegem, interpelam, como expressão da caridade. É contraproducente pregar a estômagos vazios. As palavras não excluem o serviço, promovem-no; não impedem a caridade, incentivam-na. O mandamento é acreditar em Jesus Cristo como filho de Deus, a fé, e amar-nos uns aos outros, a caridade. É a nossa ligação a Deus que põe em evidência e fortalece a nossa ligação aos outros. O alimento de Jesus é fazer a vontade de Deus. Para isso Ele vai ao encontro de todos, mas sobretudo dos que têm mais necessidade de cura, de atenção, de acolhimento, do pão e da paz.

 

        3 – A vivência da fé engloba duas dimensões que se completam, a pessoal e a comunitária. Com efeito, cada pessoa, única e irrepetível, acolhe a fé “à sua maneira”. Não conta apenas o conteúdo, também o recipiente, e nem todos são iguais. Mas a fé é cristã, é referida a Cristo, é a fé de Cristo, a fé do Corpo de Cristo que é a Igreja. Nós somos membros, somos os ramos da videira, só produzimos fruto de qualidade e abundante se estivermos ligados à verdadeira vide. A fé sem obras é morta. A fé desligada da comunidade crente é uma contradição, uma farsa. A fé (como a religião) liga-nos a Deus e aos outros.

       A primeira leitura dá-nos conta do percurso de São Paulo, da conversão até à comunidade-mãe, Jerusalém, e como procura integrar-se antes de qualquer outra missão. Barnabé, por sua vez, torna-se seu padrinho, garantindo aos apóstolos que Saulo/Paulo não é uma ameaça mas um apóstolo entusiasta de Jesus.

"Saulo chegou a Jerusalém e procurava juntar-se aos discípulos. Mas todos o temiam, por não acreditarem que fosse discípulo. Então, Barnabé tomou-o consigo, levou-o aos Apóstolos e contou-lhes como Saulo, no caminho, tinha visto o Senhor, que lhe tinha falado, e como em Damasco tinha pregado com firmeza em nome de Jesus”.

       Numa altura em que a Igreja goza de paz e é benquista por todos, Paulo dá testemunho de Jesus Cristo e da forma como se “converteu”. No entanto, bem cedo Paulo começa a ser perseguido pelos helenistas que querem dar-lhe a morte. A comunidade protege-o e envia-o em nova missão, para outras comunidades cristãs.

       Movidos e inspirados pelo Espírito Santo, procuremos que a nossa fé se aprofunde na prática da caridade e inserida na comunidade paroquial. Ramos que se ligam à videira. Cristãos unidos a Cristo. Fé projetada e comprometida com a vida e com os outros. 


Textos para a Eucaristia (ano B): Atos 9, 26-31; 1 Jo 3, 18-24; Jo 15, 1-8. 

 

Reflexão dominical na página da Paróquia de Tabuaço


29
Abr 12
Por mpgpadre, às 09:00 | comentar

       1 – “Vede que admirável amor o Pai nos consagrou em nos chamarmos filhos de Deus. E somo-lo de facto. Se o mundo não nos conhece, é porque não O conheceu a Ele. Caríssimos, agora somos filhos de Deus e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Mas sabemos que, na altura em que se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porque O veremos tal como Ele é”.

       Jesus Cristo é a surpresa admirável de Deus. Milagre do amor de Deus para connosco. É a Palavra que Se faz vida, é o sorriso que nos envolve, o abraço que nos embala, é o olhar que nos afaga. Jesus é a Pessoa, de carne e osso, que Deus nos envia. A Sua vida, a Sua história, mistura-se com a nossa vida e com a nossa história, no nosso tempo, ontem como hoje, na Judeia como nas nossas ruas.

       Deu-nos o Filho para n'Ele nos tornarmos filhos e herdeiros, para partilharmos a origem e o destino, a mesma herança, a vida eterna. Trazemos em nós as marcas do Céu, fomos por Ele criados; com Jesus somos assumidos como filhos de Deus e irmãos uns dos outros; quando entrarmos na glória de Deus, conhecer-nos-emos então totalmente, ao vê-l'O, ao sermos vistos por Ele, a nossa existência tornar-se-á luminosa, mais brilhante que o sol, plena de alegria, de felicidade, em comunhão perfeita com o Deus da vida, o Seu olhar redentor refazer-nos-á em perfeição.

       Na vastidão do Céu, todos teremos um lugar especial, no coração de Deus. Sem privilégios, sem máscaras, sem manhosices. Estaremos expostos, como fomos criados, como somos, como vivemos, despidos de todos os trapos que muitas vezes ofuscam a beleza com que Ele nos criou.

 

       2 – Jesus é o Bom Pastor, o Rosto de Deus Pai e que transparece o Seu amor, a Sua dedicação e devoção à humanidade. Um Pai com amor de Mãe. Respeita a liberdade daqueles que gerou mas como Mãe debruça-se, permanentemente sobre o seu amor maior, a razão maior da sua existência, para que no seu olhar de mãe, olhar de ternura, de paixão, de estímulo, o filho encontre segurança e forças para voltar à vida.

       «Eu sou o Bom Pastor. O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas. O mercenário, como não é pastor, nem são suas as ovelhas, logo que vê vir o lobo, deixa as ovelhas e foge, enquanto o lobo as arrebata e dispersa. O mercenário não se preocupa com as ovelhas. Eu sou o Bom Pastor: conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-Me, do mesmo modo que o Pai Me conhece e Eu conheço o Pai; Eu dou a minha vida pelas minhas ovelhas. Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil e preciso de as reunir; elas ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só Pastor. Por isso o Pai Me ama: porque dou a minha vida, para poder retomá-la. Ninguém Ma tira, sou Eu que a dou espontaneamente. Tenho o poder de a dar e de a retomar: foi este o mandamento que recebi de meu Pai».

       Jesus é o “INSTRUMENTO” de salvação, por excelência. Como Bom Pastor – de Deus para a humanidade –, vem habitar o mundo, vem preencher o coração humano com o dinamismo do Espírito Santo, com o Amor de Deus. Dá-Se por inteiro, em palavras, em gestos, no anúncio da boa notícia, no chamamento dos discípulos e das populações, no acolhimento dos mais pobres dos pobres, os pecadores públicos, os ostracizados da sociedade do seu tempo, os publicanos, as pessoas rudes do campo, os trabalhadores, os escravos, os doentes, os aleijados, os idosos, as crianças, as mulheres, os estrangeiros (entre os quais, os samaritanos, vizinhos e da mesma religião judaica, mas considerados impuros por terem misturado o seu sangue com pessoas dos povos invasores, ou com os naturais das nações para onde foram exilados). Ele dará a vida pelas Suas ovelhas, conhece-as pelo nome, sabe das suas necessidades e dos seus sonhos.

       Ele está dentro do aprisco, está no meio, onde se encontra a humanidade, está onde pulsa a vida. Morreu, ressuscitou, e permanece, pelo Espírito Santo, em cada discípulo, na Palavra proclamada, acolhida, celebrada, nos Sacramentos, em todo o bem feito em Seu nome.

 

       3 – Admirável Pastor, que não parte sem antes assegurar que "as ovelhas" têm novos guias, com o mesmo espírito, a mesma dedicação, a mesma entrega. Aproximando-se a hora da partida para o Pai, prepara um grupo de discípulos/apóstolos, para que mantenham o rebanho em segurança e possam também eles ser instrumentos de salvação e de unidade, "ajuntando" as ovelhas que estão arredadas. Dá-lhes (e a nós também, para este tempo) o Espírito Santo, para que vão, anunciem o reino de Deus, façam discípulos em toda a parte, curando, salvando, provocando a generosidade, a partilha, a comunhão e a caridade sem fim.

       Quando escutamos as narrações dos Atos dos Apóstolos, vemos como um grupo tão pequeno, mas tão “sabido”, tão cheio do Espírito Santo, se torna capaz de ir tão longe, até ao fim do mundo para O dar a conhecer.

       Pedro, uma vez mais, com os outros apóstolos, surge afoito, destemido, dirigindo-se a todos, mesmo aos que os querem calar:

       “Chefes do povo e anciãos, já que hoje somos interrogados sobre um benefício feito a um enfermo e o modo como ele foi curado, ficai sabendo todos vós e todo o povo de Israel: É em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, que vós crucificastes e Deus ressuscitou dos mortos, é por Ele que este homem se encontra perfeitamente curado na vossa presença. Jesus é a pedra que vós, os construtores, desprezastes e que veio a tornar-se pedra angular. E em nenhum outro há salvação, pois não existe debaixo do céu outro nome, dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos”.

       Envolvidos pela certeza inabalável do amor de Deus por nós, deixemo-nos guiar pelo Espírito Santo, para sermos, hoje, testemunhas audazes de Jesus Cristo, a pedra angular, transparecendo nos gestos, nas palavras e nas obras a nossa identidade, a nossa filiação divina, a nossa pertença ao Corpo de Cristo que é a Igreja, da qual somos pedras vivas.


Textos para a Eucaristia (ano B): Atos 4,8-12; 1 Jo 3,1-2; Jo 10,11-18.

 


01
Abr 12
Por mpgpadre, às 09:00 | comentar

       1 – "Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz" (2.ª leitura).

       Este belíssimo hino, recolhido por São Paulo na sua missiva aos Filipenses, faz uma apresentação detalhada, sintética, clarividente, expressiva, da vida e missão de Jesus. A Sua condição inicial, que dá origem e alimenta o hoje do Seu compromisso, o trajeto de oblação, de entrega, de kénose (abaixamento), de amor pela humanidade. O amor por nós leva-O a assumir a nossa identidade e a nossa finitude.

       O mistério da Sua paixão, da Sua morte como oferenda, pleniza o Seu projeto de caridade a favor de todo o povo. Não apenas a favor dos amigos, ou dos bons, mas em benefício de todos, bons e maus, amigos e estranhos, judeus, gregos ou troianos.

       Vem de Deus, para habitar connosco, na história e no tempo. A divindade humaniza-se, o Universal particulariza-se num determinado período da história e num espaço civilizacional concreto. Faz-Se homem, para que descubramos por Ele e com Ele o caminho de regresso a Deus Pai, descobrindo a nossa origem, o nosso alimento e o nosso fim: Deus.

       Toda a Sua vida é serviço e doação. Assume-nos por inteiro. Identifica-Se homem. Em tudo igual a nós, exceto no pecado. Não Se alheia da obra criada por Seu amor. Por amor vem. Por amor permanece. Por amor dá a Sua vida. Por amor elevar-nos-á às alturas da glória, até Deus, Seu e nosso Pai.

 

       2 – Nas concepções tradicionais da religião, Deus mantém-se distante, alheado como Juiz impenetrável, impassível, pronto a irritar-se e a castigar, à espera das oferendas, sacrifícios e súplicas da humanidade, vergada à Sua omnipotência.

       Com Cristo Jesus, é Deus Quem procura a humanidade, imiscuindo-Se na nossa história. Deus está onde está a humanidade. As alegrias e as tristezas, as lutas e as esperanças, o sofrimento e a festa, a morte e a vida, que nos envolvem na nossa existência terrena e mortal, integram a história de Jesus, em todo o seu esplendor.

       A liturgia deste domingo é particularmente feliz. A SEMANA SANTA conduz-nos do sucesso e da fama à morte infame, numa cruz, para logo nos encher com a LUZ da Páscoa, em que nada ficará igual, e até o túmulo se encherá de luz e de vida nova.

       Visualizamos a entrada triunfal de Jesus na cidade santa de Jerusalém. É acompanhado por uma multidão imensa, que O aclama como Rei, filho de David, deixando entrever o reconhecimento do Messias prometido e esperado. É sol de pouca dura.

       Ainda ressoam os cânticos, os clamores, e já Jesus Se senta à volta da mesa, mais discretamente, quase silenciosamente. Estão lá apenas os mais íntimos. Como não nos revermos também nesta passagem. Quando as coisas correm bem, todos nos rodeiam e aplaudem, mas quando é necessário trabalhar, esforço e dedicação, com quantos dos nossos amigos poderemos contar?!

       A Ceia pascal é um interregno. Uma pausa para o café. Para descansar. Para ganhar coragem. Para sentir mais próxima a presença dos amigos e sentir o conforto dos mais chegados, preparando-os para a despedida, deixando-lhes as recomendações finais, como um testamento, um compromisso para a vida. Vou partir, mas a minha presença será ainda mais íntima, mais profunda, mais firme. Ainda a Ceia não terminou e já cheira a morte, a traição. O medo e a ansiedade começam a tomar conta dos discípulos. Sente-se aquele tremor no estômago e as pernas não querem obedecer. O vinho parece ter produzido efeito. Nem todos ficam para enfrentar as dificuldades maiores.

 

       3 – Em poucas horas, Jesus experimenta a euforia de uma multidão em festa e de uma multidão furiosa pedindo a Sua cabeça. No triunfo está lá toda a gente. Olhamos para o lado e vemos que não falta ninguém. Também lá nos queremos. Sentimo-nos confortáveis, pertencemos ali, aquele é o nosso povo, a nossa gente, e apesar dos encontrões, não desarmamos, deixamo-nos levar pelo entusiasmo.

       A vida tem altos e baixos e nos momentos do sofrimento, do suor e das lágrimas, nem todos estamos disponíveis. A casa é um espaço mais pequeno. Onde pulsa a vida, o espaço é mais íntimo, facilita o encontro, coração a coração, é mais afetivo, permite o abraço, o choro e o riso desbragado, a casa é o outro em quem coloco a minha vida, é o outro que me acolhe como irmão. Se pudéssemos ficaríamos em casa para sempre. Esta começa a desfazer-se quando alguém abandona o círculo familiar. Judas é o primeiro a sair. Saem os outros, para o Jardim das Oliveiras. A casa não pode ser profanada, há de ser o lugar do reencontro, da vida nova, da vida ressuscitada, quando de novo todos se reconhecerem como irmãos.

       Aqueles que contam acompanham Jesus. Mas ainda não estão amadurecidos o suficiente na sua fé. Maior é o medo. Quando nos sentimos ameaçados na nossa vida biológica, as reações passam pela paralisia, como em sonhos, não conseguimos mexer-nos, ou fugimos rapidamente para nos libertarmos do perigo iminente. Assim acontece com os discípulos. Adormecem, tal é a ansiedade, enquanto o seu Mestre reza, roga a Deus, transpira gotas de sangue, é a Sua hora. Levar o amor até ao fim, mesmo que isso custe a própria vida (biológica), é o alimento, a vontade de Jesus. Numa hora desta, só Deus Lhe pode valer, só Deus Lhe pode dar ânimo (alma) para prosseguir.

       É a vida. Agora que era tão útil a presença dos seus amigos mais íntimos, todos correm rapidamente para não serem "agarrados" por aquela onda de ódio e violência. Mantêm-se à distância. Com medo, com "pena" do Mestre, mas afastados o suficiente para preservarem as suas vidas.

 

       4 – Como não nos revermos nesta SEMANA SANTA de Jesus?! Transpira suor, sangue e lágrimas. Prossegue no limite do desfalecimento. Clama em altos brados. Leva as forças ao limite, por amor. É paixão. Redentora. Homem e Deus envolvidos na mesma história.

       Quantos pais não "morrem" todos os dias pelos filhos? E por causa deles. Canseiras, preocupações, trabalho, lágrimas. A vida até ao esgotamento! Onde parece que não há mais ânimo, lá se encontram argumentos para prosseguir. O amor supera as limitações físicas. Quantos não são testados, todos os dias, até ao limite da sua coragem – uma doença repentina, a falta de trabalho e de pão para a mesa, o sofrimento e a doença crónica de um familiar, o conflito que se agudiza dentro de portas, ou o ambiente desastroso com os colegas de trabalho –, uma via crucis sem solução à vista, um calvário que perdura no tempo, sem sinais esperançosos, sem abertura no céu enublado de lágrimas, de cansaço, de derrota.

       Jesus não passa ao largo das nossas lutas. Não desvia o olhar. Enfrenta connosco as angústias da sobrevivência. "O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e, por isso, não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido" (1.ª Leitura).

       Está (quase) sozinho. Os apóstolos tornaram-se apóstatas. À distância. Sua Mãe e algumas mulheres, que sabem o que é sofrer, o que é sofrer por amor, o que é dar a vida pelos filhos e verem os filhos morrer (repentinamente ou aos poucos), elas não desviam o olhar. É doloroso. É a vida. Faz parte da vida. Dali ninguém as tira. Nem a força bruta dos soldados em fúria, nem a multidão cega pela gritaria. Elas que estavam na primeira hora permanecerão até à última hora, até ao suspiro final. 

       "O véu do templo rasgou-se em duas partes de alto a baixo. O centurião que estava em frente de Jesus, ao vê-l’O expirar daquela maneira, exclamou: «Na verdade, este homem era Filho de Deus». Estavam também ali umas mulheres a observar de longe, entre elas Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e Salomé, que acompanhavam e serviam Jesus, quando estava na Galileia, e muitas outras que tinham subido com ele a Jerusalém" (Evangelho).

 

       5 – Regressemos a nossas casas. O espetáculo terminou. Jesus morreu. Morreu por amor. Morreu por nós. Morreu para nos salvar. Morreu para nos mostrar que o amor há de ser mais forte, mais firme, mais "violento" e revolucionário que todas as forças do mal e da morte.

       Aguardemos. Com Maria, a Quem Ele nos confia, e com as outras mulheres, voltemos ao lugar onde pulsa a vida, nas suas lutas e nas suas festas, a casa, a nossas casas. Façamos luto. Não deixemos, porém, que o medo e a angústia tomem conta da nossa alma (do nosso ânimo), rezemos com Ela, vigilantes, firmes na esperança, confiantes na promessa de Deus. Não temamos a noite. O SOL esconde-se por entre as lágrimas, os nossos olhos ficam nublosos, mas a LUZ há de ser tão intensa que prevalecerá para além das nossas dores e da nossa treva. A caminho da Páscoa!


Textos para a Eucaristia (ano B): Is 50,4-7; Salmo 21 (22); Filip 2,6-11; Mc 14,1 - 15,47.

 

 Reflexão Dominical na página da Paróquia de Tabuaço


25
Jan 12
Por mpgpadre, às 19:12 | comentar

A conversão é a atitude permanente do cristão, mas também convite para todos. Obviamente, o sentido cristão da conversão leva-nos a um significado muito peculiar, deixar-se transformar pelo Espírito de Deus, tornando-se, com os seus gestos e com as suas palavras, nova criatura, num processo (sempre inacabado).
Entramos, de novo, na lógica da perfeição como caminho, ou da santidade. O ser humano, quem quer que seja, está chamado, desde logo, pela sua identidade humana, a aperfeiçoar-se cada vez mais, a abrir aos outros, a acolher os ensinamentos de pessoas mais velhas ou mais sábias. E até mesmo as pessoas que todos reconhecemos como arrogantes, até esses, têm necessidade dos outros e de aperfeiçoar alguns aspetos da sua vida, nem que sejam para serem mais ardilosos no que fazem.

A conversão tem também a ver com a adaptabilidade do ser humano.
Hoje, mais do que ontem, o ser humano tem que se adaptar e rapidamente a situações e desafios novos. A mudança que acontecia no mundo há 100 anos, permitia que as pessoas se adaptassem facilmente à evolução de costumes e de mentalidades, era em câmara muito lenta. Continua a afirmar-se que para mudar mentalidades é necessário uma geração, tempo e paciência. O que nos falta.
Hoje, numa década, em 5 anos, as mudanças são tão rápidas, que o nosso sistema tem alguma dificuldade em se adaptar, em se converter a novas situações.
O ser humano acomoda-se, tem necessidade de casa, de descanso, de repouso, de pisar a terra com a certeza de que está em terra. Mas ao mesmo tempo, a adaptabilidade é uma das suas características fundamentais de sobrevivência. E o que é certo, muitas foram as alterações ao longo dos séculos, e o ser humano foi-se adaptando.

Falar de conversão não é assim tão estranho, mesmo para não crentes, ou não praticantes. De facto, ao longo de uma vida, podemos ter necessidade de converter-nos várias vezes, mudar de profissão, mudar de local de emprego, mudar de habitação, deslocar-se para outra terra, aprender outra língua, aprender outra técnica para ser competitivo no trabalho...

Falar de conversão, no contexto da fé cristã, significa estar disponível para acolher a graça de Deus e para mudar sempre que necessário o nosso coração e nossa mente para podermos aproximar-nos de Deus e ser fiéis nas situações reais e concretas, do nosso tempo e no lugar onde habitamos, ao Evangelho da verdade e da caridade, isto é, traduzir em palavras e gestos concretos a fé que professamos e estar disponível para confrontar a nossa vida com a de Jesus Cristo.

A nossa fragilidade muitas vezes nos trai, na busca da verdade, na vivência da caridade, mas devemos prosseguir, na certeza que só tentando cumprimos a nossa missão como pessoas e como cristãos.

A conversão de São Paulo, que hoje celebramos, mostra como há alturas da vida em que podemos "cair do cavalo", cair em nós, tomar consciência do caminho a percorrer e do que ainda nos distancia da vontade de Deus. Ele era um judeu fervoroso, não era um judeu por ter nascido judeu, praticava, defendia, queria proteger o judaísmo. A perseguição aos cristãos têm a ver com essa vontade firme de proteger o judaísmo. Mas um dia deu-se conta que a perseguição aos cristãos o aproximou de Jesus Cristo e deixou-se converter por Ele.

De repente deixou de ver... no contacto com a intensidade de LUZ que vem de Jesus também nós podemos ficar cegos, e sobretudo se quisermos que os nossos olhos sejam mais fortes que a luz de Cristo, e que os nossos olhos nos conduzam pela vida... é necessário que nos caiam as escamas, ou seja, que os nossos olhos possam deixar passar a LUZ de Deus, possam ver com o olhar de Deus.
Como dizia o poeta, Fernando Pessoa, como tudo seria diferente se olhássemos para a vida, para o mundo e para as pessoas (não com o nosso mas...) com o olhar de Deus.


06
Nov 11
Por mpgpadre, às 09:30 | comentar

       1 – "Portanto, vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora".

       Na semana em que celebrámos a eternidade, na solenidade de Todos os Santos e na evocação dos fiéis defuntos, e quando nos aproximamos do final do ano litúrgico, a Palavra de Deus interpela-nos para a vivência do tempo presente, como resposta vivida e antecipada perante o desenlace certo da nossa existência na história e no tempo.

       Sabemos que a nossa permanência na terra não é para sempre, tal como nos conhecemos, de carne e osso, alma e corpo. Há-de chegar um dia, que não sabemos quando será, em que terminará a nossa caminhada. Nesse sentido, temos várias escolhas, tais como cruzar os braços e esperar que cheguem ao fim os nossos dias, viver com amargura por sabermos que a nossa vida é efémera e que não podemos fazer nada para alterar esse facto, deixar que outros decidam por nós a vida que nos foi dada por amor, lamentar-nos pelos momentos de fragilidade, na doença, na solidão, na morte de familiares, amigos e vizinhos e pelas contrariedades quotidianas, ou viver com garra, comprometidos em dar o nosso melhor para tornar o mundo à nossa volta mais habitável, mais justo, mais fraterno, conscientes que não estamos dispensados do sofrimento e da própria morte.

       A comemoração dos fiéis defuntos coloca-nos numa atitude de gratidão por tudo o que os antepassados nos legaram. Agora é a nossa vez e o tempo de fazermos alguma coisa pelos outros e pelo mundo que habitamos, para o deixarmos a outros melhor do que o encontramos. É o nosso compromisso, a nossa sina, se queremos dar sentido à nossa vida terrena.

       Do mesmo modo, a celebração dos SANTOS nos recorda que muitos homens e mulheres, de todas as raças, cores e feitios, tornaram úteis as suas vidas e fizeram com que as qualidades pessoais estivessem ao serviço dos outros, na promoção da paz, da justiça, do bem pessoal, familiar e social. Eles cumpriram. Viveram não apenas para si mesmos, mas no serviço caritativo aos demais. Foram rosto de Deus para os irmãos. Agora está nas nossas mãos.

 

       2 – Jesus conta-nos mais uma parábola sobre o reino de Deus, mas desta feita sobre a hora em que estaremos na presença de Deus, na passagem deste mundo para a eternidade. 10 virgens, cinco sensatas e cinco imprudentes. Quem vai para o mar prepara-se em terra. Depois não há nada a fazer. Não se pode voltar para trás, o barco segue o seu rumo, também a vida segue connosco ou sem nós, nem abandonar o barco, seria desistir de nós e comprometer a viagem dos outros, somos sempre co-responsáveis uns pelos outros.

       Cinco virgens preparam-se para serem recebidas pelo noivo, as outras cinco deixam-se dormir. Quando se aproxima a hora dão-se conta que não têm azeite para manter acesas as suas lâmpadas. Que fazer? Ir à procura de azeite? E por que não pedir às outras cinco virgens? Mas depois nem umas nem outras terão azeite suficiente! Pelo menos cinco ficam garantidas. Vão então à procura de azeite, mas quando regressam a porta já está fechada.

       Voltemos à história do mar. Imaginando 10 tripulantes que deveriam levar alimento para todos os dias da viagem, mas cinco esqueceram-se de levar a sua parte, ou por pensarem que o dos outros chagava, ou que iriam encontrar alimento alternativo. Que fazer? Os cinco que se prepararam em terra dividem, correndo o risco de morrerem todos à fome uma vez que, dividindo, o alimento só dá para meia viagem?!

       A questão colocada na parábola é pertinente e obriga-nos a pensar a nossa vida a partir do fim, a partir do cemitério, a partir da eternidade. Quando morrermos, já nada poderemos fazer, a não ser confiar na misericórdia de Deus. Porquanto, com mais ou menos talentos, com mais ou menos contrariedades, ainda podemos fazer algo por nós, pelos outros, pelo mundo em que vivemos e pelo qual também somos responsáveis. Podemos lamentar-nos. Ou podemos fazer (ou pelo menos tentar) a nossa parte, fazendo o que está ao nosso alcance, deixando que Deus opere em nós, abrindo-nos à Sua graça e à Sua força, movendo-nos para que os nossos braços, a nossa voz, os nossos passos, possam prestar-se a realizar a vontade de Deus, o que Lhe é agradável: nossa e a felicidade dos outros, vivendo na caridade.

 

       3 – Nesta lógica, o Apóstolo São Paulo, acalenta a nossa esperança: "Se acreditamos que Jesus morreu e ressuscitou, do mesmo modo, Deus levará com Jesus os que em Jesus tiverem morrido... Consolai-vos uns aos outros com estas palavras". A morte e a ressurreição de Jesus antecipa o que sucederá connosco.

       A morte temo-la como certa, só não sabemos nem o dia nem a hora. A ressurreição é uma garantida da nossa fé em Jesus e da fé na eternidade e no próprio Deus. Não adiantaria de muito ter um Deus que não assegurasse o nosso futuro, preservando a nossa identidade e a nossa memória. Com a morte perder-nos-íamos para sempre. De pouco teria valido, nesse caso, fazermos algo de bom, pois seria esquecido, ainda que tivesse tido a dita de nos fazer sentir bem connosco.

       A esperança na ressurreição dos mortos, seguindo a Ressurreição de Jesus Cristo, exige que vivamos n'Ele, para que Ele, que nos atrai de junto de Deu, nos leve (e eleve) para Deus. Consolamo-nos com estas palavras, para estarmos vigilantes e vivermos procurando imitá-l'O no perdão e na caridade.

       Com este propósito, procuremos a sabedoria que nos vem do alto: "a Sabedoria é luminosa e o seu brilho é inalterável; deixa-se ver facilmente àqueles que a amam e faz-se encontrar aos que a procuram", para que os nossos caminhos não se afastem do d'Ele, Senhor nosso Deus.


Textos para a Eucaristia (ano A): Sab 6,12-16;1 Tes 4,13-18; Mt 25,1-13.

 

Reflexão Dominical na Página da Paróquia de Tabuaço


23
Out 11
Por mpgpadre, às 09:00 | comentar

       1 – Disse-lhes e diz-nos Jesus: «‘Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito’. Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo, porém, é semelhante a este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Nestes dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas».

       A pergunta feita a Jesus, por um doutor da lei, sobre o mais importante dos mandamentos, permite, uma vez mais, ao Mestre dos Mestres, lembrar que não basta saber é essencial que o saber leve ao compromisso concreto com o próximo.        É uma cilada, mas Jesus não deixa de responder. Segundo a Sagrada Escritura (que corresponde, para nós, ao Antigo Testamento) é inequívoco que o mandamento mais importante é amar a Deus antes e acima de tudo. O doutor da lei tem obrigação de saber. Para qualquer crente, judeu ou cristão, amar a Deus com todas as forças, com todas as capacidades intelectuais, volitivas, espirituais, é o ponto de partida e de chegada, é o princípio e o fim de todas as escolhas. As nossas opções devem procurar estar conformes à vontade de Deus, à Palavra do Senhor. Quando isso acontece, então tudo o mais se tornará fácil e o cumprimento dos restantes mandamentos já se inclui no amor a Deus sobre todas as coisas.

       Porém, se não há dúvidas quanto ao primeiro mandamento, já quanto à importância dos outros havia algumas discussões. Jesus acrescenta, desfazendo dúvidas e confusões, que o segundo mandamento é amar o próximo como a si mesmo. E o próximo é toda a pessoa que encontramos e não apenas os que fazem parte do nosso grupo, da nossa nacionalidade, da nossa religião. Mais, Jesus dirá mesmo que nós é que nos tornamos próximos sempre que nos predispomos a ir ao encontro do outro.

       Vivendo estes dois mandamentos, cumpre-se com todos os outros preceitos existentes na Sagrada Escritura.

 

       2 – Na primeira leitura, do Livro do Êxodo, Moisés explicita os mandamentos na relação com o próximo, concretizando com algumas situações reais em que se poderá provar e experimentar o amor ao próximo.

       "Não prejudicarás o estrangeiro, nem o oprimirás, porque vós próprios fostes estrangeiros na terra do Egipto. Não maltratarás a viúva nem o órfão... Se emprestares dinheiro a alguém do meu povo, ao pobre que vive junto de ti, não procederás com ele como um usurário, sobrecarregando-o com juros... Se receberes como penhor a capa do teu próximo, terás de lha devolver até ao pôr-do-sol, pois é tudo o que ele tem para se cobrir, é o vestuário com que cobre o seu corpo. Com que dormiria ele? Se ele Me invocar, escutá-lo-ei, porque sou misericordioso".

       Muitos anos antes de Jesus, já a Sagrada Escritura sanciona em concreto a vivência do amor ao próximo, atendendo com generosidade e hospitalidade ao estrangeiro que vem até nós, ajudando aqueles que estão numa situação mais frágil (mais precária), que ao tempo eram os órfãos e as viúvas; emprestando dinheiro aos pobres, mas sem juros... se não tem dinheiro para sobreviver como poderiam ter dinheiro para pagar juros... é o contrário do que fazem hoje os países do primeiro mundo em relação aos países do terceiro e do quarto mundos...

       A radicalidade do compromisso com o nosso semelhante já é por demais evidente no livro do Êxodo. Jesus colocará uma referência inelutável: amar o próximo dando a vida por ele, isto é, amar como Ele amou, até ao fim, dando a própria vida se necessário.

 

       3 - Com efeito, recorda-nos São Paulo na segunda leitura, a referência fundamental é Jesus Cristo, o Seu amor por nós. Ele salva-nos dando a Sua vida, oferecendo-Se em obediência ao projecto de Deus. "Vós sabeis como procedemos no meio de vós, para vosso bem. Tornaste-vos imitadores nossos e do Senhor, recebendo a palavra no meio de muitas tribulações, com a alegria do Espírito Santo; e assim vos tornastes exemplo para todos os crentes da Macedónia e da Acaia".

       O que Paulo nos recomenda, como à comunidade de Tessalónica, é que em tudo procuremos imitar Jesus Cristo. Por vezes torna-se mais fácil imitar o Senhor se tivermos por perto quem exemplifique este amor, como São Paulo para as comunidades que fundou. O Apóstolo relembra que se tornou testemunho do Evangelho de Jesus Cristo, mas que também a comunidade soube responder em zelo e dedicação, ainda que no meio de muitas tribulações.

        O mesmo desejamos para nós e para as nossas comunidades cristãs. No meio das tribulações do tempo presente não deixemos de procurar realizar a vontade de Deus na caridade sem limites, ao jeito de Jesus Cristo.


Textos para a Eucaristia (ano A): Ex 22,20-26; 1 Tes 1,5c-10; Mt 22,34-40.

 

Reflexão Dominical na página da Paróquia de Tabuaço


25
Set 11
Por mpgpadre, às 12:00 | comentar

       1 – Coerência de vida.

        É, ou deveria ser, o objectivo de todas as pessoas.

       Por maioria de razão, há-de ser uma motivação e um desafio de todo o cristão, para desse modo imitar o seu Mestre e Senhor, Jesus Cristo, reconhecido Alguém que ensina com autoridade. A autoridade dos ensinamentos de Jesus é contraposta à autoridade dos fariseus e dos doutores da lei, em geral, que são considerados (pelo próprio Jesus) hipócritas, pois exigem e não cumprem, defendem preceitos para os outros mas sem intenções de fazer o mais pequeno esforço para também cumprir. Ao olharmos para o nosso tempo vemos como a coerência de vida é cada vez mais urgente em todos os sectores da vida, social, cultural, desportiva, religiosa, política. E como a falta dessa coerência leva à desmobilização, à indiferença, ao conflito, à descredibilização de pessoas e instituições. Certamente não é alheia à incoerência a crise económico-financeira que atravessa o velho continente.

        O Papa Paulo VI referia que um dos pecados maiores do nosso tempo era a falta de consciência do pecado e o divórcio entre a Igreja e a sociedade, entre a fé e a vida, entre o Evangelho e a cultura. A fé e a militância religiosa não marcam o compromisso dos cristãos nos sectores da vida social em que estão presentes. E desse modo, se alarga também aos cristãos a hipocrisia e o cinismo. O nome não corresponde à vida que se leva (que se vive).

       Por outro lado, o Papa João Paulo II, usava muitas vezes as palavras do Seu Predecessor Paulo VI - “O mundo não precisa de mestres, mas de testemunhas”, uma vez que "as palavras movem, mas o exemplo arrasta", sublinhando a importância de os Mestres também serem testemunhas da fé.

       Do mesmo modo, Bento XVI, propondo a sabedoria e o testemunho dos santos, como pessoas que procuraram a fidelidade à Palavra de Deus no compromisso com os outros na caridade, acentua a coerência dos cristãos no quotidiano e no mundo em que se inserem.

 

       2 – Com outra parábola relacionada com o vinha, Jesus recorda-nos que "não basta dizer 'Senhor, Senhor', para entrar no Reino dos Céus", mas importa fazer a vontade de Seu Pai que está nos Céus. A proclamação da fé concretiza-se na vivência concreta dos mandamentos, na realização da vontade de Deus, procurando viver de acordo com os Seus ensinamentos. A pergunta de Jesus é de sempre: porque Me chamais Senhor e não realizais o que vos mando?

       «Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Foi ter com o primeiro e disse-lhe: ‘Filho, vai hoje trabalhar na vinha’. Mas ele respondeu-lhe: ‘Não quero’. Depois, porém, arrependeu-se e foi. O homem dirigiu-se ao segundo filho e falou-lhe do mesmo modo. Ele respondeu: ‘Eu vou, Senhor’. Mas de facto não foi. Qual dos dois fez a vontade ao pai?» Eles responderam-Lhe: «O primeiro». 

       Quantas vezes nos ficamos pelas intenções! Quantas vezes já nos aconteceu o que Jesus nos apresenta com esta parábola?! Pessoas que na nossa presença se desfaziam em simpatia, respondendo sempre com amabilidade, com a disposição de cumprirem/realizarem o combinado, com alegria e generosidade, mas mal saíram de ao pé de nós, logo alteraram a opinião que tinham sobre nós e a boa vontade demonstrada. Outras pessoas que quando se lhes pede algo colocam sempre condições várias, porque não podem, porque não sabem, porque é muito difícil, não têm jeito ou não têm tempo, e quando vamos a dar conta já cumpriram!

       Ou também, as pessoas que nos contestam, olhos nos olhos, com uma frontalidade que nos desarma, mas estão sempre prontos para nos defender diante dos outros! O ideal é que às nossas palavras correspondesse a nossa vida, que a nossa fé se transformasse em caridade, justiça, solidariedade, em conciliação. Lembremo-nos sempre: não bastam bons propósitos, é preciso realizá-los ou pelo menos tentar.

 

       3 – Se se nos afigura tão difícil a coerência de vida, peçamos ao Senhor a fortaleza do Seu Espírito, e o discernimento, para que nas mais variadas situações possamos agir com criatividade, com generosidade, com a alegria, promovendo o bem, a paz, a concórdia.

       Se nos afastarmos do Senhor, tenhamos presente a recomendação do profeta: "Quando o justo se afastar da justiça, praticar o mal o vier a morrer, morrerá por causa do mal cometido. Quando o pecador se afastar do mal que tiver realizado, praticar o direito e a justiça, salvará a sua vida". E com o salmista supliquemos: "Mostrai-me, Senhor, os vossos caminhos, ensinai-me as vossas veredas. Guiai-me na vossa verdade e ensinai-me, porque Vós sois Deus, meu Salvador: em vós espero sempre".

       A santidade não é um estado permanente, ainda que haja muitas pessoas que vivam e testemunhem uma grande e intensa intimidade com Deus, respirando e transpirando paz, alegria, humildade, generosidade. As palavras que proferem revelam uma maturidade que os e nos transcende, apaziguadores, promotores da nossa satisfação e felicidade. Vivem como se em cada pessoa encontrassem Deus.

       A santidade é um caminho para a maioria de nós, ou para todos nós, ainda que haja alguns muito mais perto. Somos limitados e imperfeitos até à eternidade. Mesmo quando a eternidade é experienciada no tempo e na história, ainda não é infinita e definitiva. Podemos sempre vacilar ou até recuar no caminho. O importante, porém, é fazermo-nos à estrada, tornarmo-nos peregrinos da perfeição de Deus.

 

       4 – No caminho da santificação não estamos sós. Deus acompanha-nos e acompanham-nos todos os que projectam a sua vida para Deus, para a eternidade, para o Infinito. Enquanto caminhamos, muitas pessoas fortalecem as nossas convicções e/ou nos desafiam a ser mais, a ser melhores.

       São Paulo, dá-nos mais uma lição importante como enfrentar as dificuldades e como vivermos como família, para nos sentirmos mutuamente fortalecidos. Diz-nos, nesta sua epístola aos Filipenses, "Se há em Cristo alguma consolação, algum conforto na caridade, se existe alguma consolação nos dons do Espírito Santo, alguns sentimentos de ternura e misericórdia, então, completai a minha alegria, tendo entre vós os mesmos sentimentos e a mesma caridade, numa só alma e num só coração".

       Vale a pena continuar a escutar e mastigar as palavras do Apóstolos:

       "Não façais nada por rivalidade nem por vanglória; mas, com humildade, considerai os outros superiores a vós mesmos, sem olhar cada um aos seus próprios interesses, mas aos interesses dos outros. Tende em vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus".

       Não se trata de uma opção ou de um capricho, trata-se de imitar Jesus Cristo, nosso Mestre e Senhor: "Ele, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte, e morte de cruz. Por isso, Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem, no céu, na terra e nos abismos, e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai".


Textos para a Eucaristia (ano A): Ez 18,25-28 ; Sl 24 (25);Filip 2,1-11; Mt 21,28-32.

 


18
Set 11
Por mpgpadre, às 10:35 | comentar

       1 – Disse-lhes Jesus: "Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?... Ide vós também para a minha vinha". Para Deus, que Jesus nos mostra com as Suas palavras, gestos, com a Sua vida, todas as horas são favoráveis à conversão e ao compromisso na construção do Reino de Deus. Por isso Ele, como o proprietário da parábola, chama-nos a todas as horas, sai, vem à nossa procura, ao nosso encontro, desafia-nos a desinstalarmo-nos do nosso comodismo e a trabalharmos na Sua vinha, no Seu reino de amor, de justiça e de paz.

        "O reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário, que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha... Saiu a meio da manhã, viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha e dar-vos-ei o que for justo’... Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde, e fez o mesmo. Saindo ao cair da tarde, encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha'..."

       Ao amanhecer como ao anoitecer, Deus nunca desiste de nós. Tem sempre lugar para nós. Basta querer!

 

       2 – Não desiste porque nos ama infinitamente e, por conseguinte, dá-Se-nos total e plenamente. Não se dá aos bocados, não é quantificável o Seu amor por nós. Isso faz-nos espécie! Como é que Ele pode amar na perfeição quem toda a vida viveu de acordo com a Sua vontade e pode, na mesma plenitude, amar aquele que andou a maioria do tempo arredado dos caminhos da verdade e do bem? 

       Humanamente falando é um injustiça...: "Ajustou com eles um denário por dia e mandou-os para a sua vinha... Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais, mas receberam também um denário cada um". Na parábola, os que trabalharam todo o dia murmuram porque pensavam que iriam receber mais, ainda que tivessem ajustado o que realmente receberam. Mas a lógica de Deus é diferente, é a lógica do amor puro, infinito, sem limites, não quantificável com os nossos méritos. Deus dá-Se totalmente, dá todo o amor. Não mede. Por isso nos dá o Seu próprio Filho.

       É a dinâmica da parábola do Filho Pródigo (= Parábola do Pai Misericordioso). Quando o Filho se arrepende e volta, o Pai devolve-lhe a dignidade perdida, ele torna a ser filho, e como filho readquire todos os direitos. É também a lógica do Bom Samaritano que encontra uma vítima no caminho e cuida sem temer contaminações, assegurando-se que a vítima recuperará totalmente. Não olha a despesas ou ao tempo perdido. Deus é assim. Ama-nos, infinitamente.

 

       3 – Com efeito, a liturgia da palavra para este domingo, sublinha a proximidade de Deus, sempre pronto a escutar-nos, sempre pronto a acolher-nos, sempre pronto a vir ao nosso encontro. "O Senhor está perto de quantos O invocam, de quantos O invocam em verdade" (Salmo).

       Daí que o profeta nos convide a aproveitar dessa proximidade: "Procurai o Senhor, enquanto se pode encontrar, invocai-O, enquanto está perto. Deixe o ímpio o seu caminho e o homem perverso os seus pensamentos".

       O amor de Deus para connosco, a Sua proximidade há-de levar-nos à mudança de vida, à conversão do coração. Abandonemos todas as obras das trevas e procuremos viver segundo os ensinamentos de Deus, segundo a Sua vontade.

       No fundo, como nos refere o Apóstolo São Paulo, enquanto vivermos neste corpo mortal, glorifiquemos o Senhor, vivamos n'Ele e para Ele, procuremos viver em Jesus Cristo, ainda que atraídos pela eternidade divina, onde Ele já Se encontra à direita de Deus Pai e de onde nos atrai constantemente.

       "Cristo será glorificado no meu corpo, quer eu viva quer eu morra. Porque, para mim, viver é Cristo e morrer é lucro. Mas, se viver neste corpo mortal é útil para o meu trabalho, não sei o que escolher. Sinto-me constrangido por este dilema: desejaria partir e estar com Cristo, que seria muito melhor; mas é mais necessário para vós que eu permaneça neste corpo mortal. Procurai somente viver de maneira digna do Evangelho de Cristo".

       O dilema de Paulo, reflecte o amor a Jesus Cristo, que se concretiza na missão mas também na comunhão plena na eternidade.


Textos para a Eucaristia (ano A): Is 55,6-9; Sl 144 (145); Filip 1,20c-24.27a; Mt 20,1-16a.

 

Reflexão Dominical na Página da Paróquia de Tabuaço.


11
Set 11
Por mpgpadre, às 10:35 | comentar

       1 – "Errar é humano, perdoar é divino".

       Neste ditado popular temos uma constatação e um desafio. Por um lado, é próprio da nossa fragilidade humana errarmos, falharmos na nossa relação com os outros. Vale para uns e para outros. Estamos no mesmo barco. Somos da mesma carne. Num ou noutro tempo, lá cometemos um deslize, uma falha, uma palavra que ofende, um gesto que destrói o outro, uma palavra ou um gesto que destrói a confiança do outro, que mina a sua paz e a sua saúde. 

       Desde logo uma lição importante: se todos pecamos, isto é, se temos em nós o gérmen da fragilidade, do errar, mais consciente ou menos conscientemente, então a nossa compreensão e tolerância para com os outros deveria ser um modo de ser, uma constante, uma opção de vida.

       Por outro lado, sabemos como o perdão não é assim tão fácil de conceder. E porquê? Quem já se sentiu ofendido na sua dignidade? Quem foi insultado, traído, desprezado? Quem já foi vítima do ódio, da maledicência, do boato, da injúria, da violência, da injustiça? Quem já viu o seu nome lançado na lama? Como se sentiu, como se viu impelido a agir?

       Por vezes basta uma palavra fora de tempo, ou a ausência de uma palavra de solidariedade, para nos sentirmos ofendidos!

       Este é o grande desafio: perdoar. É a característica fundamental da caridade, a propriedade de Deus. Ama em perfeição. Perdoa em todas as situações. Só Ele nos liberta do peso do pecado e da culpa. Perdoar é divino. Mas é também um caminho, do crente e de toda a pessoa que quer ser livre, que quer ser saudável. É um ideal que devemos prosseguir com alegria, com paixão. O perdão liberta-nos do rancor, da irritação, do ódio, liberta o nosso coração para que ame, para que viva, para que aprecie o mundo à sua volta.

 

       2 – No Evangelho deste domingo encontrámos um Pedro muito benevolente: “Se meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?”.

       Deverei perdoar? E quantas vezes? Cada um de nós já foi confrontado com esta questão várias vezes ao longo da sua vida. Não será difícil responder. Já que esta ou aquela pessoa me ofendeu, e se não foi uma ofensa à minha dignidade, então poderei vir a perdoar. E se a mesma pessoa me ofender de novo? Aí o perdão já se torna mais complexo, é que se perdoo novamente pode voltar a fazer o mesmo pois sabe como tenho um coração de manteiga. E uma terceira vez? Já é quebrar a cara e perder a vergonha! Perdoar, nem pensar! O abuso também tem um limite!

       Quando Pedro pergunta a Jesus se deve perdoar até sete vezes, ele está a ser demasiado generoso. Talvez pense que Jesus tenha um gesto de reconhecimento e de felicitação por tamanha generosidade. Mas Jesus surpreende-o: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”. O número 7, para a Bíblia, significa perfeição, plenitude. Perdoar 7 vezes é perdoar sempre. Mas para que não restem dúvidas, Jesus eleva o perdão até ao infinito, perdoar sempre, em todas as situações, em todos os momentos, a todas as pessoas.

        Perdoar é divino, perdoar abre-nos o coração aos outros, à vida, à alegria, a Deus. Liberta-nos. Cura-nos. Perdoar traz-nos a confiança, devolve-nos a felicidade. É certo que há situações que não esquecerei, muito menos uma ofensa grave. Fica gravado na memória. Não é uma opção. Perdoar tem a ver com a vontade, é uma opção de vida, é uma escolha. Perdoo, sabendo que me fizeram mal, que feriram a minha dignidade, que me atraiçoaram. Quero bem àquela pessoa, ainda que saiba que me injuriou. Perdoar para sermos perdoados, como na parábola contada por Jesus. Deus perdoa-nos tudo, para que nós vamos perdoando àqueles que nos ofendem.

       Quando não perdoamos, o nosso coração vai-se enchendo de rancor, de ódio, de revolta, de irritação. Para onde quer que vamos, em tudo o que fazemos, acordados ou a dormir, a pessoa que nos ofendeu vai connosco, faz parte da nossa vida, em todas as horas, negativamente. Nem comemos com o mesmo entusiasmo, nem dormimos com a mesma tranquilidade, como que desejaríamos que essa pessoa passasse pelo mesmo... Paralisamos! Adoecemos! Morre em nós a vida nova que recebemos de Deus, em Jesus Cristo, pelo Espírito Santo.

       Embora seja divino, o perdão é uma escolha, é uma questão de saúde, de cura. 

 

       3 – O perdão é uma exigência da caridade ao jeito de Jesus Cristo. Quem ama perdoa. Os cristãos, seguidores de Jesus Cristo, são chamados a perdoar sempre, deixando-se tocar pela graça de Deus, fonte e origem de todo o amor, fonte e origem do perdão.

       Ben Sirá, alerta-nos para a urgência de pedirmos a Deus a nossa cura, perdoando aqueles que nos ofenderam.

       "O rancor e a ira são coisas detestáveis, e o pecador é mestre nelas. Quem se vinga sofrerá a vingança do Senhor, que pedirá minuciosa conta de seus pecados. Perdoa a ofensa do teu próximo e, quando o pedires, as tuas ofensas serão perdoadas. Um homem guarda rancor contra outro e pede a Deus que o cure? Não tem compaixão do seu semelhante e pede perdão para os seus próprios pecados? Se ele, que é um ser de carne, guarda rancor, quem lhe alcançará o perdão das suas faltas? Lembra-te do teu fim e deixa de ter ódio; pensa na corrupção e na morte, e guarda os mandamentos. Recorda os mandamentos e não tenhas rancor ao próximo; pensa na aliança do Altíssimo e não repares nas ofensas que te fazem".

       As nossas ofensas são perdoadas quando perdoamos as dos outros. A cura é-nos concedida quando libertamos o nosso coração de toda a cólera, sabendo que só desse modo imitámos o proceder de Deus. Como se nos recorda no Salmo: "Como a distância da terra aos céus, assim é grande a sua misericórdia para os que O temem. Como o Oriente dista do Ocidente, assim Ele afasta de nós os nossos pecados".

       Vivendo na graça de Deus, aprenderemos a força libertadora de nos sabermos perdoados, amados por Deus e de sabermos que o nosso perdão disponibiliza o nosso coração, a nossa vida, para a alegria, a confiança, para a disposição para nos encontrarmos e para descobrirmos a beleza da vida, para termos garra para enfrentarmos os momentos de dificuldade com mais serenidade.

 

       4 – Lembremo-nos da recomendação feita pelo Apóstolo São Paulo aos Romanos: "Nenhum de nós vive para si mesmo e nenhum de nós morre para si mesmo. Se vivemos, vivemos para o Senhor, e se morremos, morremos para o Senhor. Portanto, quer vivamos quer morramos, pertencemos ao Senhor. Na verdade, Cristo morreu e ressuscitou para ser o Senhor dos vivos e dos mortos".

       Se colocarmos Deus nos nossos pensamentos, na nossa vontade, nas nossas escolhas, nos nossos afazeres, se deixarmos que o Seu Espírito de amor actue em nós, tornar-se-á mais fácil entender que a vida se resolve e se decide na caridade, que, por sua vez, tem no perdão uma das expressões máximas do viver como Jesus viveu, amando, perdoando, fazendo o bem, dando a vida por nós, a que também nós estamos chamados.


Textos para a Eucaristia (ano A): Sir 27, 33 – 28, 9; Sl 102 (103); Rom 14, 7-9; Mt 18, 21-35.

 


04
Set 11
Por mpgpadre, às 16:01 | comentar

       1 – Ouçamos as doutas palavras de São Paulo: "Não devais a ninguém coisa alguma, a não ser o amor de uns para com os outros, pois, quem ama o próximo, cumpre a lei. De facto, os mandamentos que dizem: «Não cometerás adultério, não matarás, não furtarás, não cobiçarás», e todos os outros mandamentos, resumem-se nestas palavras: «Amarás ao próximo como a ti mesmo». A caridade não faz mal ao próximo. A caridade é o pleno cumprimento da lei".

       Num dos diálogos com os doutores da lei, os especialistas da religião judaica, Jesus deixara claro que o maior dos mandamentos é amar a Deus sobre todas as coisas, colocar Deus sempre em primeiro lugar, antes e acima de tudo, e em todas as escolhas, e ao próximo como a si mesmo. Estes dois mandamentos contêm e resumem toda lei e os profetas, todos os preceitos necessários para viver na fidelidade à palavra/vontade de Deus.

       Não é necessário inventar nada. Está tudo nestes dois mandamentos.

       É nesta linha que escutamos o Apóstolo a desafiar-nos para que a nossa única dívida seja o amor, a caridade. Quem ama cumpre toda a lei. Toda a Lei, no que diz respeito à nossa relação com os outros, consiste na caridade, em amar-nos uns aos outros, tendo como referência e modelo o próprio Jesus Cristo.

 

       2 – A caridade, o amor ao próximo, concretiza-se no perdão, na solidariedade, na partilha, na delicadeza para com aqueles que nos rodeiam.

       Como tantas vezes se acentua, não basta amar os que estão a milhas de distância, ainda que muitas vezes sejamos chamados a solidarizar-nos com ajudas monetárias, mas importa amar os que estão perto de nós, que fazem parte das nossas relações familiares, profissionais, sociais. É aqui que se testa o nosso amor.

       É sempre demasiado fácil amar os que não nos incomodam, os que nos são indiferentes, os que não conhecemos. Amar os que nos podem contrariar e contradizer, os que são diferentes de nós e no entanto convivem connosco, em casa, no trabalho, na comunidade, já se torna mais difícil e sobretudo amar aqueles que nos incomodam, de quem não gostamos tanto. É um desafio permanente para os seguidores de Jesus.

       Diz-nos Jesus: "Se o teu irmão te ofender, vai ter com ele e repreende-o a sós. Se te escutar, terás ganho o teu irmão. Se não te escutar, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão fique resolvida pela palavra de duas ou três testemunhas. Mas se ele não lhes der ouvidos, comunica o caso à Igreja; e se também não der ouvidos à Igreja, considera-o como um pagão ou um publicano".

       O mesmo escutamos na primeira Leitura: «Filho do homem, coloquei-te como sentinela na casa de Israel. Quando ouvires a palavra da minha boca, deves avisá-los da minha parte»".

       Não devemos desistir de perdoar, e de tentar conciliar-nos com os irmãos, uma e outra vez, e outra vez. Não demos o caso como perdido à primeira contrariedade. E veremos como é saudável apostarmos positivamente nos outros. Faz-nos bem à saúde.

       3 – Obviamente que a vivência da caridade não é um capricho ou uma escolha acessória para a nossa vida de cristãos, é um compromisso que assenta no seguimento de Jesus Cristo, procurando, em tudo, e em todas as circunstâncias, imitar Aquele que amamos e seguimos, Aquele que nos identifica como comunidade, como Igreja. Somos, cada um a seu modo, parte integrante do Corpo de Jesus Cristo, que é a Igreja. Pertencemos-Lhe, somos cristãos, somos d’Ele, o Cristo. Ele faz parte de nós. É como o sangue que circula nas veias e que nos mantém vivos. Assim há-de circular em nós a vontade de Deus, a postura de Jesus Cristo, a disponibilidade de dar a vida pelos outros. Será isso que nos mantém como pedras vivas.

       Ressoa, destarte, a palavra de Deus que devemos escutar e acolher em nosso coração, na nossa vida. A Palavra de Deus é alimento, é luz que nos guia para Ele, é dinamismo que nos aproxima dos outros e de Deus. "Quem dera ouvísseis hoje a sua voz: «Não endureçais os vossos corações»".

       A escuta da Palavra de Deus conduz-nos à oração, à intimidade com Ele e com os outros. É na oração que nos tornámos comunidade: "Se dois de vós se unirem na terra para pedirem qualquer coisa, ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos Céus. Na verdade, onde estão dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles».

       Daí a insistência na oração, na medida em que nos abre o coração para Deus e para os outros e nos prepara para escutar a palavra de Deus, iluminando-nos para cumprirmos com fidelidade a Sua vontade.


Textos para a Eucaristia (ano A): Ez 33,7-9; Sl 94 (95); Rom 13,8-10; Mt 18,15-20.

 


28
Ago 11
Por mpgpadre, às 11:12 | comentar

       1 – A nossa profissão de Fé, audível na resposta de Pedro à pergunta de Jesus – "E vós quem dizeis que Eu sou? –, "Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo", levar-nos-á à missão, ao compromisso com aquilo que professamos, ou melhor, ao seguimento d’Aquele que reconhecemos, acolhemos e amamos como Filho de Deus.

       Pedro recebe de imediato a missão de confirmar na fé todos os seus irmãos, no céu e na terra. É uma missão que o implica com Jesus e com o facto d'Ele ser, não um homem entre os homens, mas Filho de Deus vivo, Deus connosco, Deus feito homem. Pedro realizará não o que lhe dá na real gana, o que é mais fácil ou conveniente em cada situação, mas é chamado a realizar, nas suas palavras e gestos, a vontade de Deus, expressa através de Jesus Cristo, no Espírito Santo.

       Com esta Pedro não estava a contar. Diga-se, em abono da verdade, que ele não sabia exactamente o que significava a confissão de fé que faz acerca de Jesus, porque logo confunde tudo...

       "Jesus começou a explicar aos seus discípulos que tinha de ir a Jerusalém e sofrer da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas; que tinha de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia. Pedro, tomando-O à parte, começou a contestá-l’O, dizendo: «Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há-de acontecer!» Jesus voltou-Se para Pedro e disse-lhe: «Vai-te daqui, Satanás. Tu és para mim uma ocasião de escândalo, pois não tens em vista as coisas de Deus, mas dos homens»".

        Pedro, tal como os outros discípulos ainda esperavam que o reino de Jesus, o reino de Deus, fosse mais humano e terreno, com benesses para os primeiros e principais seguidores. No entanto, se dúvidas havia, ficam desfeitas. O filho do homem vai ser morto. Mas nem assim deixará de cumprir a sua missão, sancionada com a ressurreição. Por ora os discípulos fixam-se apenas na parte negativa, a da morte de Jesus. Se tudo parasse na morte, então sim, tudo estaria perdido para sempre.

 

       2 – Com efeito, como o nosso próprio nome indica somos cristãos, isto é, somos de Cristo, identificamo-nos com Ele, até pelo nome, mas sobretudo com a nossa vida. Não nos pregamos a nós, mas a Ele, o Filho de Deus. Não O seguimos porque um dia nos apeteceu, é Ele que nos chama, que vem ao nosso encontro, que nos desperta, que abre as portas da eternidade, fazendo-Se homem entre os homens, assumindo a nossa fragilidade e finitude, morrendo como nós, e pela ressurreição reintroduz-nos em Deus, na eternidade divina, eleva-nos aos Céus.

       Como escutávamos no profeta Jeremias: "Vós me seduzistes, Senhor, e eu deixei-me seduzir; Vós me dominastes e vencestes". Sendo que esta vitória de Deus é para nossa salvação (e não uma derrota nossa).

       Se o chamamento parte de Deus, a missão terá a ver com Deus (que sempre nos inclui), com a realização da Sua vontade. Esse é o propósito da vinda de Jesus até nós e que hoje, uma vez mais, o Evangelho faz eco:

       "Jesus disse então aos seus discípulos: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Porque, quem quiser salvar a sua vida há-de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la. Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida? O Filho do homem há-de vir na glória de seu Pai, com os seus Anjos, e então dará a cada um segundo as suas obras»".

 

       3 – Acreditar em Jesus como Filho de Deus, levar-nos-á a escutar o seu chamamento. Acreditar em Jesus implica que O sigamos. Não é uma opção acessória, secundária. Implica a nossa vida toda. Implica que gastemos tempo e energias, na certeza que seremos compensados no tempo e na história e também para a eternidade de Deus.

       Seguir Jesus implica renunciarmos aos nossos egoísmos, ao comodismo, àquilo que é mais conveniente, para prosseguirmos o bem, a verdade, a justiça, o amor sem limites, precisamente imitando-O em tudo e em toda a parte.

       Como bem Ele nos lembra, de nada nos adianta ganharmos o mundo inteiro se não usufruirmos a beleza da vida, o encanto do amor, a alegria da partilha, a festa de darmos o melhor de nós mesmos e nos descobrirmos e encontrarmos como irmãos, como filhos bem amados do Seu e nosso Pai.

       No fundo e como nos lembra o Apóstolo, seguir Jesus com toda a nossa vida: "Peço-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus, que vos ofereçais a vós mesmos como vítima santa, viva, agradável a Deus, como culto racional. Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, pela renovação espiritual da vossa mente, para saberdes discernir, segundo a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe é agradável, o que é perfeito".

       Não nos é pedido muito, é-nos pedido tudo, a nossa vida, com todas as dimensões, para que mais cedo ou mais tarde seja Ele a viver em nós e através de nós, nas nossas palavras, nos nossos gestos, nas nossas obras, em toda a nossa vida.


Textos para a Eucaristia (ano A): Jer 20,7-9; Rom 12,1-2; Mt 16,21-27.

 

Reflexão Dominical na página da Paróquia de Tabuaço.


21
Ago 11
Por mpgpadre, às 12:15 | comentar

       1 – Entremos no diálogo com Jesus. Caminhemos com Ele, deixemo-nos envolver pelas suas palavras, questionemo-nos com Ele. Hoje, como discípulos para este tempo, é a nós que Jesus nos interroga: «Quem dizem os homens que é o Filho do homem?»

       Com os primeiros discípulos responderemos: «Uns dizem que é João Baptista, outros que é Elias, outros que é Jeremias ou algum dos profetas», uma personagem da História, um homem importante, um revolucionário, cujas palavras e gestos serviram de inspiração para muitos revolucionários, justificaram guerras, mortes, segregações, desculparam compromissos, foram instrumentalizadas por diversas ideologias, ora de direita, ora de esquerda, ora de coisa nenhuma.

       Se fizéssemos de jornalistas e saíssemos à rua a colocar esta questão às pessoas que encontrássemos pelo caminho, muitas e diversas seriam as respostas. Ficaríamos a saber mais acerca de Jesus, ainda que esse facto não nos comprometesse mais com Ele e com as Suas Palavras.

       Então Jesus pergunta de novo: «E vós, quem dizeis que Eu sou?»

       Agora é que são elas. Ele já não nos pergunta o que se diz d'Ele, qual a opinião predominante. Não. Agora Ele questiona-nos acerca do que sabemos sobre Ele. Quem é Ele para nós, que significado, que importância tem na nossa vida, que alterações fazemos porque Ele está connosco?

       Quantas vezes já interrogamos pessoas amigas para sabermos o que se diz de nós. Mas no fim o mais importante não são as opiniões alheias, mas a opinião das pessoas que consideramos amigas.

 

       2 – Descobrimos, neste diálogo com Jesus, o Mestre dos Mestres, que a nossa relação com Ele não se baseia apenas no conhecimento indirecto, naquilo que os outros nos dizem acerca de Jesus. É necessário que nos encontremos com Ele e nos deixemos encontrar por Ele.

       Obviamente que o que outros nos ensinaram, o que escutamos das Suas palavras, o que acolhemos dos Seus gestos, a vivência das comunidades crentes, onde se faz e se renova a experiência de fé, são essenciais. Mas de pouco valem se não fizermos a experiência de encontro pessoal com Ele.

       A experiência de outros pode iluminar a nossa vida espiritual, como o testemunho dos santos e a sua intercessão, dando-nos também a certeza de que não caminhamos sós. Mas cada um tem que Se encontrar com Ele, conhecê-l'O, amá-l'O, acolhê-l'O em sua casa, na sua vida. Não respondemos com palavras alheias. A pergunta é para cada um de nós: e tu quem dizes que Eu sou, quem Sou Eu para Ti?

       Aqui, o conhecimento implica seguimento, compromisso com Aquele que conhecemos, com Aquele que nos questiona, e com as Suas Palavras. Conhecer Jesus há-de levar-nos a viver com Ele e como Ele, colocando Deus antes e acima de toda e qualquer escolha.

 

 

       3 – O diálogo continua. Pedro responde em nosso nome. Não responde por nós. Mas nas suas palavras há-de estar a nossa resposta e o nosso compromisso com Jesus, ainda que a missão seja diferente: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo».

       Não é uma resposta qualquer. É a primeira Profissão de Fé. É um conhecimento que vai para lá do sensível. Implica a fé. Implica a inspiração de Deus, pelo Espírito Santo. É uma descoberta e uma tomada de consciência. Como que lhe saem automaticamente as palavras da boca, sem ter exactamente consciência do que diz e aquilo a que se compromete.

       É neste entretanto que Jesus Se revela e responde a Pedro: «Feliz de ti, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim meu Pai que está nos Céus».

       A profissão de Fé de Pedro dá lugar à missão, ao envio, ao compromisso: «Também Eu te digo: Tu és Pedro; sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus».

       Assim com Pedro, assim connosco. A nossa Profissão de Fé leva-nos a comprometer-nos com Jesus Cristo e com o Seu Evangelho de Amor.

 

       4 – Bento XVI, na missão de Pedro, presidindo à Igreja, Corpo de Cristo, de que somos membros, ajuda-nos a reflectir, desafiando-nos a não marginalizar Deus na nossa vida e na cultura do nosso tempo. Quando isso acontece, espreitam diversos perigos, de egoísmo, de ruptura, de conflito, de despotismo, de relativismo, o perigo de tudo ser igualmente válido, o bem e o mal. Se não há uma referência (instância) última, superior, então tudo é possível. Destruo, mato, maltrato, roubo, engano,.. mas quem é que me julgará, se todos são iguais?

       Na mensagem para a XXVI Jornada Mundial da Juventude, partindo de uma das Epístolas de São Paulo (Colossenses 2, 7), o Papa propõe com o Apóstolo: "Enraizados e edificados em Cristo... firmes na fé".

       Olhando para a Sua juventude, o papa recorda como procuravam, os jovens do seu tempo, algo superior e grande, a vastidão e a beleza, algo que desse sentido a tudo o mais, mesmo à estabilidade da família e do emprego seguro.

O convite sugere três imagens expressivas:

  • a árvore (enraizados), cujas raízes a sustentam, lhe dão força e vigor. Quais são a raízes na nossa vida? A família e a cultura do nosso país. Mas há uma raiz inabalável: a confiança no Senhor.
  • a casa construída sobre rocha firme (e edificados em Cristo). "Porque me chamais 'Senhor, Senhor' e não fazeis o que Eu digo" (Lc 6, 46).
  • o crescimento da força física e moral (firmes na fé), hoje como naquele tempo não nos podemos deixar esmagar pelo pensamento dominante, em que se dá o eclipse e amnésia de Deus. Com outras preocupações esquecemo-nos d'Ele, não temos tempo para O escutar, para O contemplar. As sociedades sem Deus levaram ao inferno, à destruição, à morte. As sociedades com Deus, em que as pessoas procuram com verdade ouvir a Sua voz, constroem a civilização do amor.

       5 – No fundo, não basta a certidão de baptismo para se ser verdadeiramente cristão, como não basta a certidão de nascimento para nos inserirmos na família.

       Quantas famílias, unidas por laços de sangue, pela pertença biológica, vivem aos encontrões, atropelos e indiferentes uns aos outros. Pais que não falam com os filhos. Filhos que não querem saber dos Pais, ou dos irmãos. Por outras palavras, se os laços de sangue são importantes, identificadores, muito mais os laços afectivos, o amor, o diálogo, a compreensão, o apoio nos momentos difíceis e a festa dos momentos de bonança, a solidariedade.

       Do mesmo modo, a certidão de baptismo diz que somos cristãos. Mas, e se nos deixamos arrastar pelas opiniões que estão na moda, como árvores sem raízes, como casas construídas na areia, sem força para viver nos valores que nos identificam como crentes cristãos?

       Que adianta dizer que somos cristãos se mantemos Deus à margem da nossa vida e nos marginalizamos do compromisso comunitário, espaço vital para aprofundar e partilhar, celebrar e amadurecer, confrontar e viver a fé?


Textos para a Eucaristia (ano A): Is 22,19-23; Rom 11,33-36; Mt 16,13-20.

 


20
Ago 11
Por mpgpadre, às 17:00 | comentar

       5. Naquele momento Jesus exclama: «Porque Me viste, acreditaste. Bem-aventurados os que, sem terem visto, acreditaram!» (Jo 20, 29). Ele pensa no caminho da Igreja, fundada sobre a fé das testemunhas oculares: os Apóstolos. Compreendemos então que a nossa fé pessoal em Cristo, nascida do diálogo com Ele, está ligada à fé da Igreja: não somos crentes isolados, mas, pelo Baptismo, somos membros desta grande família, e é a fé professada pela Igreja que dá segurança à nossa fé pessoal. O credo que proclamamos na Missa dominical protege-nos precisamente do perigo de crer num Deus que não é o que Jesus nos revelou: «Cada crente é, assim, um elo na grande cadeia dos crentes. Não posso crer sem ser motivado pela fé dos outros, e pela minha fé contribuo também para guiar os outros na fé» (Catecismo da Igreja Católica, n. 166). Agradeçamos sempre ao Senhor pelo dom da Igreja; ela faz-nos progredir com segurança na fé, que nos dá a vida verdadeira (cf. Jo 20, 31).

       Na história da Igreja, os santos e os mártires hauriram da Cruz gloriosa de Cristo a força para serem fiéis a Deus até à doação de si mesmos; na fé encontraram a força para vencer as próprias debilidades e superar qualquer adversidade. De facto, como diz o apóstolo João, «Quem é que vence o mundo senão aquele que crê que Jesus é Filho de Deus?» (1 Jo 5, 5). E a vitória que nasce da fé é a do amor. Quantos cristãos foram e são um testemunho vivo da força da fé que se exprime na caridade; foram artífices de paz, promotores de justiça, animadores de um mundo mais humano, um mundo segundo Deus; comprometeram-se nos vários âmbitos da vida social, com competência e profissionalidade, contribuindo de modo eficaz para o bem de todos. A caridade que brota da fé levou-os a dar um testemunho muito concreto, nas acções e nas palavras: Cristo não é um bem só para nós próprios, é o bem mais precioso que temos para partilhar com os outros. Na era da globalização, sede testemunhas da esperança cristã em todo o mundo: são muitos os que desejam receber esta esperança! Diante do sepulcro do amigo Lázaro, morto havia quatro dias, Jesus, antes de o chamar de novo à vida, disse à sua irmã Marta: «Se acreditasses, verias a glória de Deus» (cf. Jo 11, 40). Também vós, se acreditardes, se souberdes viver e testemunhar a vossa fé todos os dias, tornar-vos-eis instrumentos para fazer reencontrar a outros jovens como vós o sentido e a alegria da vida, que nasce do encontro com Cristo! 

 


Por mpgpadre, às 10:00 | comentar

       4. No Evangelho é-nos descrita a experiência de fé do apóstolo Tomé ao acolher o mistério da Cruz e da Ressurreição de Cristo. Tomé faz parte dos Doze apóstolos; seguiu Jesus; foi testemunha directa das suas curas, dos milagres; ouviu as suas palavras; viveu a desorientação perante a sua morte. Na noite de Páscoa o Senhor apareceu aos discípulos, mas Tomé não estava presente, e quando lhe foi contado que Jesus estava vivo e se mostrou, declarou: «Se eu não vir o sinal dos cravos nas Suas mãos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e não meter a mão no Seu lado, não acreditarei» (Jo 20, 25).

       Também nós gostaríamos de poder ver Jesus, de poder falar com Ele, de sentir ainda mais forte a sua presença. Hoje para muitos, o acesso a Jesus tornou-se difícil. Circulam tantas imagens de Jesus que se fazem passar por científicas e O privam da sua grandeza, da singularidade da Sua pessoa. Portanto, durante longos anos de estudo e meditação, maturou em mim o pensamento de transmitir um pouco do meu encontro pessoal com Jesus num livro: quase para ajudar a ver, a ouvir, a tocar o Senhor, no qual Deus veio ao nosso encontro para se dar a conhecer. De facto, o próprio Jesus aparecendo de novo aos discípulos depois de oito dias, diz a Tomé: «Chega aqui o teu dedo e vê as Minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no Meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente» (Jo 20, 27). Também nós temos a possibilidade de ter um contacto sensível com Jesus, meter, por assim dizer, a mão nos sinais da sua Paixão, os sinais do seu amor: nos Sacramentos Ele torna-se particularmente próximo de nós, doa-se a nós. Queridos jovens, aprendei a «ver», a «encontrar» Jesus na Eucaristia, onde está presente e próximo até se fazer alimento para o nosso caminho; no Sacramento da Penitência, no qual o Senhor manifesta a sua misericórdia ao oferecer-nos sempre o seu perdão. Reconhecei e servi Jesus também nos pobres, nos doentes, nos irmãos que estão em dificuldade e precisam de ajuda.

       Abri e cultivai um diálogo pessoal com Jesus Cristo, na fé. Conhecei-o mediante a leitura dos Evangelhos e do Catecismo da Igreja Católica; entrai em diálogo com Ele na oração, dai-lhe a vossa confiança: ele nunca a trairá! «Antes de mais, a fé é uma adesão pessoal do homem a Deus. Ao mesmo tempo, e inseparavelmente, é o assentimento livre a toda a verdade revelada por Deus» (Catecismo da Igreja Católica, n. 150). Assim podereis adquirir uma fé madura, sólida, que não estará unicamente fundada num sentimento religioso ou numa vaga recordação da catequese da vossa infância. Podereis conhecer Deus e viver autenticamente d’Ele, como o apóstolo Tomé, quando manifesta com força a sua fé em Jesus: «Meu Senhor e meu Deus!».

 


19
Ago 11
Por mpgpadre, às 17:00 | comentar

       3. «Enraizados e fundados em Cristo... firmes na fé» (cf. Cl 2, 7). A Carta da qual é tirado este convite, foi escrita por São Paulo para responder a uma necessidade precisa dos cristãos da cidade de Colossos. Com efeito, aquela comunidade estava ameaçada pela influência de determinadas tendências culturais da época, que afastavam os fiéis do Evangelho. O nosso contexto cultural, queridos jovens, tem numerosas analogias com o tempo dos Colossenses daquela época. De facto, há uma forte corrente de pensamento laicista que pretende marginalizar Deus da vida das pessoas e da sociedade, perspectivando e tentando criar um «paraíso» sem Ele. Mas a experiência ensina que o mundo sem Deus se torna um «inferno»:prevalecem os egoísmos, as divisões nas famílias, o ódio entre as pessoas e entre os povos, a falta de amor, de alegria e de esperança. Ao contrário, onde as pessoas e os povos acolhem a presença de Deus, o adoram na verdade e ouvem a sua voz, constrói-se concretamente a civilização do amor, na qual todos são respeitados na sua dignidade, cresce a comunhão, com os frutos que ela dá. Contudo existem cristãos que se deixam seduzir pelo modo de pensar laicista, ou são atraídos por correntes religiosas que afastam da fé em Jesus Cristo. Outros, sem aderir a estas chamadas, simplesmente deixaram esmorecer a sua fé, com inevitáveis consequências negativas a nível moral.

       Aos irmãos contagiados por ideias alheias ao Evangelho, o apóstolo Paulo recorda o poder de Cristo morto e ressuscitado. Este mistério é o fundamento da nossa vida, o centro da fé cristã. Todas as filosofias que o ignoram, que o consideram «escândalo» (1 Cor 1, 23), mostram os seus limites diante das grandes perguntas que habitam o coração do homem. Por isso também eu, como Sucessor do apóstolo Pedro, desejo confirmar-vos na fé (cf. Lc 22, 32). Nós cremos firmemente que Jesus Cristo se ofereceu na Cruz para nos doar o seu amor; na sua paixão, carregou os nossos sofrimentos, assumiu sobre si os nossos pecados, obteve-nos o perdão e reconciliou-nos com Deus Pai, abrindo-nos o caminho da vida eterna. Deste modo fomos libertados do que mais entrava a nossa vida: a escravidão do pecado, e podemos amar a todos, até os inimigos, e partilhar este amor com os irmãos mais pobres e em dificuldade.

       Queridos amigos, muitas vezes a Cruz assusta-nos, porque parece ser a negação da vida. Na realidade, é o contrário! Ela é o «sim» de Deus ao homem, a expressão máxima do seu amor e a nascente da qual brota a vida eterna. De facto, do coração aberto de Jesus na cruz brotou esta vida divina, sempre disponível para quem aceita erguer os olhos para o Crucificado. Portanto, não posso deixar de vos convidar a aceitar a Cruz de Jesus, sinal do amor de Deus, como fonte de vida nova. Fora de Cristo morto e ressuscitado, não há salvação! Só Ele pode libertar o mundo do mal e fazer crescer o Reino de justiça, de paz e de amor pelo qual todos aspiram.


Por mpgpadre, às 12:05 | comentar

       2. Para ressaltar a importância da fé na vida dos crentes, gostaria de me deter sobre cada uma das três palavras que São Paulo usa nesta sua expressão: «Enraizados e fundados em Cristo... firmes na fé» (cf. Cl 2, 7). Nela podemos ver três imagens: «enraizado» recorda a árvore e as raízes que a alimentam; «fundado» refere-se à construção de uma casa; «firme» evoca o crescimento da força física e moral. Trata-se de imagens muito eloquentes. Antes de as comentar, deve-se observar simplesmente que no texto original as três palavras, sob o ponto de vista gramatical, estão no passivo: isto significa que é o próprio Cristo quem toma a iniciativa de radicar, fundar e tornar firmes os crentes.

       A primeira imagem é a da árvore, firmemente plantada no solo através das raízes, que a tornam estável e a alimentam. Sem raízes, seria arrastada pelo vento e morreria. Quais são as nossas raízes? Naturalmente, os pais, a família e a cultura do nosso país, que são uma componente muito importante da nossa identidade. A Bíblia revela outra. O profeta Jeremias escreve: «Bendito o homem que deposita a confiança no Senhor, e cuja esperança é o Senhor. É como a árvore plantada perto da água, a qual estende as raízes para a corrente; não teme quando vem o calor, a sua folhagem fica sempre verdejante. Não a inquieta a seca de um ano; continua a produzir frutos» (Jr 17, 7-8). Estender as raízes, para o profeta, significa ter confiança em Deus. D’Ele obtemos a nossa vida; sem Ele não poderíamos viver verdadeiramente. «Deus deu-nos a vida eterna, e esta vida está em Seu Filho» (1 Jo 5, 11). O próprio Jesus apresenta-se como nossa vida (cf. Jo 14, 6). Por isso a fé cristã não é só crer em verdades, mas é antes de tudo uma relação pessoal com Jesus Cristo, é o encontro com o Filho de Deus, que dá a toda a existência um novo dinamismo. Quando entramos em relação pessoal com Ele, Cristo revela-nos a nossa identidade e, na sua amizade, a vida cresce e realiza-se em plenitude. Há um momento, quando somos jovens, em que cada um de nós se pergunta: que sentido tem a minha vida, que finalidade, que orientação lhe devo dar? É uma fase fundamental, que pode perturbar o ânimo, às vezes também por muito tempo. Pensa-se no tipo de trabalho a empreender, quais relações sociais estabelecer, que afectos desenvolver... Neste contexto, penso de novo na minha juventude. De certa forma muito cedo tive a consciência de que o Senhor me queria sacerdote. Mais tarde, depois da Guerra, quando no seminário e na universidade eu estava a caminho para esta meta, tive que reconquistar esta certeza. Tive que me perguntar: é este verdadeiramente o meu caminho? É deveras esta a vontade do Senhor para mim? Serei capaz de Lhe permanecer fiel e de estar totalmente disponível para Ele, ao Seu serviço? Uma decisão como esta deve ser também sofrida. Não pode ser de outra forma. Mas depois surgiu a certeza: é bem assim! Sim, o Senhor quer-me, por isso também me dará a força. Ao ouvi-Lo, ao caminhar juntamente com Ele torno-me deveras eu mesmo. Não conta a realização dos meus próprios desejos, mas a Sua vontade. Assim a vida torna-se autêntica.

       Tal como as raízes da árvore a mantêm firmemente plantada na terra, também os fundamentos dão à casa uma estabilidade duradoura. Mediante a fé, nós somos fundados em Cristo (cf. Cl 2, 7), como uma casa é construída sobre os fundamentos. Na história sagrada temos numerosos exemplos de santos que edificaram a sua vida sobre a Palavra de Deus. O primeiro foi Abraão. O nosso pai na fé obedeceu a Deus que lhe pedia para deixar a casa paterna a fim de se encaminhar para uma terra desconhecida. «Abraão acreditou em Deus e isso foi-lhe atribuído à conta de justiça e foi chamado amigo de Deus» (Tg 2, 23). Estar fundados em Cristo significa responder concretamente à chamada de Deus, confiando n’Ele e pondo em prática a sua Palavra. O próprio Jesus admoesta os seus discípulos: «Porque me chamais: “Senhor, Senhor” e não fazeis o que Eu digo?» (Lc 6, 46). E, recorrendo à imagem da construção da casa, acrescenta: «todo aquele que vem ter Comigo, escuta as Minhas palavras e as põe em prática, é semelhante a um homem que construiu uma casa: Cavou, aprofundou e assentou os alicerces sobre a rocha. Sobreveio a inundação, a torrente arremessou-se com violência contra aquela casa e não pôde abalá-la por ter sido bem construída» (Lc 6, 47-48).

       Queridos amigos, construí a vossa casa sobre a rocha, como o homem que «cavou muito profundamente». Procurai também vós, todos os dias, seguir a Palavra de Cristo. Senti-O como o verdadeiro Amigo com o qual partilhar o caminho da vossa vida. Com Ele ao vosso lado sereis capazes de enfrentar com coragem e esperança as dificuldades, os problemas, também as desilusões e as derrotas. São-vos apresentadas continuamente propostas mais fáceis, mas vós mesmos vos apercebeis que se revelam enganadoras, que não vos dão serenidade e alegria. Só a Palavra de Deus nos indica o caminho autêntico, só a fé que nos foi transmitida é a luz que ilumina o caminho. Acolhei com gratidão este dom espiritual que recebestes das vossas famílias e comprometei-vos a responder com responsabilidade à chamada de Deus, tornando-vos adultos na fé.Não acrediteis em quantos vos dizem que não tendes necessidade dos outros para construir a vossa vida! Ao contrário, apoiai-vos na fé dos vossos familiares, na fé da Igreja, e agradecei ao Senhor por a ter recebido e feito vossa!

 


Por mpgpadre, às 10:03 | comentar

       1. Em todas as épocas, também nos nossos dias, numerosos jovens sentem o desejo profundo de que as relações entre as pessoas sejam vividas na verdade e na solidariedade. Muitos manifestam a aspiração por construir relacionamentos de amizade autêntica, por conhecer o verdadeiro amor, por fundar uma família unida, por alcançar uma estabilidade pessoal e uma segurança real, que possam garantir um futuro sereno e feliz. Certamente, recordando a minha juventude, sei que estabilidade e segurança não são as questões que ocupam mais a mente dos jovens. Sim, a procura de um posto de trabalho e com ele poder ter uma certeza é um problema grande e urgente, mas ao mesmo tempo a juventude permanece contudo a idade na qual se está em busca da vida maior. Se penso nos meus anos de então: simplesmente não nos queríamos perder na normalidade da vida burguesa. Queríamos o que é grande, novo. Queríamos encontrar a própria vida na sua vastidão e beleza. Certamente, isto dependia também da nossa situação. Durante a ditadura nacional-socialista e durante a guerra nós fomos, por assim dizer, «aprisionados» pelo poder dominante. Por conseguinte, queríamos sair fora para entrar na amplidão das possibilidades do ser homem. Mas penso que, num certo sentido, todas as gerações sentem este impulso de ir além do habitual. Faz parte do ser jovem desejar algo mais do que a vida quotidiana regular de um emprego seguro e sentir o anseio pelo que é realmente grande. Trata-se apenas de um sonho vazio que esvaece quando nos tornamos adultos? Não, o homem é verdadeiramente criado para aquilo que é grande, para o infinito. Qualquer outra coisa é insuficiente. Santo Agostinho tinha razão: o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Ti. O desejo da vida maior é um sinal do facto que foi Ele quem nos criou, de que temos a Sua «marca». Deus é vida, e por isso todas as criaturas tendem para a vida; de maneira única e especial a pessoa humana, feita à imagem de Deus, aspira pelo amor, pela alegria e pela paz. Compreendemos então que é um contra-senso pretender eliminar Deus para fazer viver o homem! Deus é a fonte da vida; eliminá-lo equivale a separar-se desta fonte e, inevitavelmente, a privar-se da plenitude e da alegria: «De facto, sem o Criador a criatura esvaece» (Conc. Ecum. Vat. II, Const. Gaudium et spes, 36). A cultura actual, nalgumas áreas do mundo, sobretudo no Ocidente, tende a excluir Deus, ou a considerar a fé como um facto privado, sem qualquer relevância para a vida social. Mas o conjunto de valores que estão na base da sociedade provém do Evangelho – como o sentido da dignidade da pessoa, da solidariedade, do trabalho e da família – constata-se uma espécie de «eclipse de Deus», uma certa amnésia, ou até uma verdadeira rejeição do Cristianismo e uma negação do tesouro da fé recebida, com o risco de perder a própria identidade profunda.

       Por este motivo, queridos amigos, convido-vos a intensificar o vosso caminho de fé em Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Vós sois o futuro da sociedade e da Igreja! Como escrevia o apóstolo Paulo aos cristãos da cidade de Colossos, é vital ter raízes, bases sólidas! E isto é particularmente verdadeiro hoje, quando muitos não têm pontos de referência estáveis para construir a sua vida, tornando-se assim profundamente inseguros. O relativismo difundido, segundo o qual tudo equivale e não existe verdade alguma, nem qualquer ponto de referência absoluto, não gera a verdadeira liberdade, mas instabilidade, desorientação, conformismo às modas do momento. Vós jovens tendes direito de receber das gerações que vos precedem pontos firmes para fazer as vossas opções e construir a vossa vida, do mesmo modo como uma jovem planta precisa de um sólido apoio para que as raízes cresçam, para se tornar depois uma árvore robusta, capaz de dar fruto.

 

Mensagem de Bento XVI para a XXVI JMJ - Madrid 2011


18
Ago 11
Por mpgpadre, às 18:03 | comentar

Enraizados e edificados n’Ele... firmes na fé» (cf. Cl 2, 7)

Queridos amigos!

Penso com frequência na Jornada Mundial da Juventude de Sidney de 2008. Lá vivemos uma grande festa da fé, durante a qual o Espírito de Deus agiu com força, criando uma comunhão intensa entre os participantes, que vieram de todas as partes do mundo. Aquele encontro, assim como os precedentes, deu frutos abundantes na vida de numerosos jovens e de toda a Igreja. Agora, o nosso olhar dirige-se para a próxima Jornada Mundial da Juventude, que terá lugar em Madrid em Agosto de 2011. Já em 1989, poucos meses antes da histórica derrocada do Muro de Berlim, a peregrinação dos jovens fez etapa na Espanha, em Santiago de Compostela. Agora, num momento em que a Europa tem grande necessidade de reencontrar as suas raízes cristãs, marcamos encontro em Madrid, com o tema: «Enraizados e edificados em Cristo... firmes na fé» (cf. Cl 2, 7). Por conseguinte, convido-vos para este encontro tão importante para a Igreja na Europa e para a Igreja universal. E gostaria que todos os jovens, quer os que compartilham a nossa fé em Jesus Cristo, quer todos os que hesitam, que estão na dúvida ou não crêem n’Ele, possam viver esta experiência, que pode ser decisiva para a vida: a experiência do Senhor Jesus ressuscitado e vivo e do seu amor por todos nós.



14
Ago 11
Por mpgpadre, às 10:30 | comentar

       1 – A eficácia da oração, a universalidade da salvação e a justiça humana e divina (esta como garantia última e como referência para a justiça terrena) centram a temática da liturgia da Palavra para este domingo, dia do Senhor.

       Como cristãos, inseridos nas diversas comunidades paroquiais, congregamo-nos em Igreja para escutar, reflectir, acolher, assumir e viver a Palavra de Deus, preparando-nos para comungar o pão da vida, Jesus Cristo, e, consequentemente, para estarmos em comunhão com toda a Igreja, em comunhão com Cristo e com o Seu Evangelho.

       2 – "Uma mulher cananeia, vinda daqueles arredores, começou a gritar: «Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim. Minha filha está cruelmente atormentada por um demónio». Mas Jesus não lhe respondeu uma palavra. Os discípulos aproximaram-se e pediram-Lhe: «Atende-a, porque ela vem a gritar atrás de nós». Jesus respondeu: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel». Mas a mulher veio prostrar-se diante d’Ele, dizendo: «Socorre-me, Senhor». Ele respondeu: «Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos». Mas ela insistiu: «É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos». Então Jesus respondeu-lhe: "Mulher, é grande a tua fé. Faça-se como desejas». E, a partir daquele momento, a sua filha ficou curada".

 

       3 – A salvação que nos é trazida em Jesus é universal e não elitista. Jesus vem para todos, judeus e gregos, escravos e livres, homens e mulheres, idosos e crianças.

       No Evangelho proposto para este dia vemos a hesitação dos judeus, manifesta no diálogo entre Jesus e a cananeia. Nas palavras de Jesus, a ideia dos judeus em geral e dos discípulos em particular, pensando que o Messias viria apenas para libertar Israel, esquecendo que a eleição do Povo da Aliança é instrumental, isto é, foi sempre na perspectiva de ser instrumento de salvação e de bênção para todos os povos. Nas palavras da cananeia e dos discípulos, a visão de Jesus. Ele vem para todos. O diálogo está claramente invertido. Jesus vai levar algum tempo a fazer compreender aos seus discípulos que a salvação não é exclusiva (não exclui ninguém) mas é inclusiva (inclui toda a humanidade, basta a fé, como ponto de partida).

       Neste episódio, vê-se claramente, que a salvação não é uma conquista ou um direito de uma raça ou de uma religião, mas resulta da adesão firme ao Evangelho, da fé que se professa. Ela (mulher cananeia) é salva porque acredita. Isso mesmo lhe diz Jesus: faça-se como desejas. É a abertura do coração, a nossa fé que nos leva a Jesus, para n'Ele nos encontrarmos na salvação de Deus.

       O segredo está na humildade, na abertura ao mistério que vem de Jesus. Como a mulher cananeia não tenhamos medo de suplicar: «Socorre-me, Senhor».

       A oração predispõe-nos para acolher a vontade de Deus.

 

       4 – Na perspectiva do Apóstolo, a Sua própria missão é levar o Evangelho de Jesus Cristo a toda a parte, para que a salvação esteja ao alcance de todo o mundo, judeus e gregos, crentes e pagãos.

       Diz-nos São Paulo: "Enquanto eu for Apóstolo dos gentios, procurarei prestigiar o meu ministério a ver se provoco o ciúme dos homens da minha raça e salvo alguns deles. Porque, se da sua rejeição resultou a reconciliação do mundo, o que será a sua reintegração senão uma ressurreição de entre os mortos? Porque os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis. Vós fostes outrora desobedientes a Deus e agora alcançastes misericórdia, devido à desobediência dos judeus. Assim também eles desobedecem agora, de modo que, devido à misericórdia obtida por vós, também eles agora alcancem misericórdia. Efectivamente, Deus encerrou a todos na desobediência, para usar de misericórdia para com todos".

       Também aqui se vê claramente que Jesus Cristo não veio apenas para os judeus, para um grupo determinado, para o povo eleito, mas para todos. Com efeito, a própria eleição do povo é instrumental, para levar a salvação a todas as nações. Para que no povo da aliança sejam abençoados todos os povos.

 

       5 – O profeta Isaías faz ressonância da benevolência divina e como a Palavra de Deus se estende também aos estrangeiros. Por um lado, diante do Senhor o que conta não é a origem, a religião, a certidão de nascimento, mas a atitude e os comportamentos: a justiça, o direito, o bem.

       Por outro lado, a casa do Senhor é casa de oração para todos os povos. Todos podem aceder ao santuário do Senhor, ao seu monte santo, à Sua aliança.

       «Respeitai o direito, praticai a justiça, porque a minha salvação está perto e a minha justiça não tardará a manifestar-se. Quanto aos estrangeiros que desejam unir-se ao Senhor para O servirem, para amarem o seu nome e serem seus servos, se guardarem o sábado, sem o profanarem, se forem fiéis à minha aliança, hei-de conduzi-los ao meu santo monte, hei-de enchê-los de alegria na minha casa de oração. Os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceites no meu altar, porque a minha casa será chamada 'casa de oração para todos os povos'».


Textos para a Eucaristia (ano A): Is 56, 1.6-7; Rom 11, 13-15.29-32; Mt 15, 21-28.

 


11
Ago 11
Por mpgpadre, às 10:30 | comentar


25
Abr 11
Por mpgpadre, às 18:16 | comentar

       1 – "No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro... Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos ao sepulcro... Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos".

       A ressurreição é um acontecimento inaudito, surpreendente, novo. Como nos lembra Bento XVI, no livro "Jesus de Nazaré", no segundo volume, os judeus conheciam a Ressurreição dos mortos, no fim dos tempos, no último dia. Também puderam testemunhar a ressurreição de Lázaro, do jovem de Naim e da filha de Jairo. Mas neste caso, eles voltam, por algum tempo, à vida que tinham antes, e também para eles a morte temporal chegará (de novo). A ressurreição de Jesus é uma realidade nova. É Ele, mas já não com as limitações espácio-temporais. "Ele, diz Bento XVI, saiu para uma vida diversa, nova: saiu para a vastidão de Deus e é a partir dela que Se manifesta aos Seus".

       Os Apóstolos são surpreendidos com a Ressurreição. Apesar da sua fé, não era claro o que queria dizer Jesus com o anúncio da Sua ressurreição. Daí a necessidade de "verem", de palpar. As mulheres testemunham, mas os discípulos precisam de ir ao túmulo, precisam de encontrar Jesus. Só nesse encontro pessoal é que compreendem que estão perante uma realidade nova. É Cristo que vêem, Ressuscitado, que Se senta à mesa com eles, mas sem possibilidade de O "prenderem" na história e no tempo.

       2 – A Ressurreição de Jesus é a certeza de que Deus Pai sanciona o projecto de Jesus. É Deus Quem O envia para junto de nós. Em Jesus, Deus assume a nossa humanidade e e nossa fragilidade, as nossas limitações, não para ficar igual a nós mas para nos libertar, para iluminar o nosso caminho, para nos ensinar a fazer com que o mundo e a história em que vivemos se tornem novos céus e nova terra, para todos e todos possamos identificarmo-nos na origem, como irmãos, como filhos de Deus.

       "Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando a todos os que eram oprimidos pelo Demónio, porque Deus estava com Ele. Nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez no país dos Judeus e em Jerusalém; e eles mataram-n’O, suspendendo-O na cruz. Deus ressuscitou-O ao terceiro dia e permitiu-Lhe manifestar-Se, não a todo o povo, mas às testemunhas de antemão designadas por Deus, a nós que comemos e bebemos com Ele, depois de ter ressuscitado dos mortos".

       Esta é a marca de Cristo e há-de ser a marca dos cristãos. Jesus passou fazendo o bem. O cristão deve tornar-se, em Cristo, um fazedor do bem, enquanto testemunha, em palavra e obras, pela voz e pela vida, da ressurreição de Jesus, como fizeram os primeiros cristãos.

       As palavras de Pedro, em nome dos Apóstolos, são sintomáticas. Todos eles fizeram a experiência de encontro com o Ressuscitado, revisitaram as suas vidas à luz da Ressurreição, e tornaram-se Apóstolos. Com eles também nós, para este tempo, nos tornamos anunciadores da ressurreição e da vida.

 

       3 – Ouçamos as palavras do Apóstolo Paulo: "Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra. Porque vós morrestes, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a vossa vida, Se manifestar, também vós vos haveis de manifestar com Ele na glória".

       Pelo Baptismo tornámo-nos novas criaturas, entramos na ressurreição de Jesus Cristo. Logo, a nossa vida há-de ser projectada e enformada pela luz da ressurreição. As obras das trevas não são próprias do dia. Devemos aspirar às coisas do alto. Cristo Jesus atrai-nos desde a eternidade de Deus. Colocou à direita do Pai a nossa humanidade, atraindo-nos constantemente. Importa que nos deixemos atrair por Ele e para Ele, vivendo desta vida nova que recebemos pela água e sobretudo pelo Espírito Santo.

___________________________

Textos para a Eucaristia (ano A): Act 10,34a.37-43; Col 3,1-4; Jo 20,1-9.

 


12
Abr 11
Por mpgpadre, às 08:45 | comentar

       A liturgia da Palavra proposta para este V Domingo da Quaresma pode ler-se a partir destes três itens, um para cada leitura: 1.º leitura: promessa; Evangelho:garantia; 2.º leitura: certeza.

PROMESSA: 

       «Vou abrir os vossos túmulos e deles vos farei ressuscitar, ó meu povo, para vos reconduzir à terra de Israel. Haveis de reconhecer que Eu sou o Senhor, quando abrir os vossos túmulos e deles vos fizer ressuscitar, ó meu povo. Infundirei em vós o meu espírito e revivereis. Hei-de fixar-vos na vossa terra e reconhecereis que Eu, o Senhor, o disse e o executarei» (Ez 37,12-14).

       O profeta Ezequiel apresenta-nos claramente a ressurreição como promessa de Deus. Diga-se, que esta ressurreição pode ser entendida em dois sentidos: Deus ressuscitar-nos-á para a eternidade, e, também, a ressurreição do povo de Israel, enquanto restauração do povo e do seu território.

GARANTIA:

       "Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá" (Jo 11,1-45).

       Jesus garante-nos a vida futuro. Quem acredita no Filho do Homem não morrerá, irá à presença de Deus. É uma garantia que Se faz certeza na Sua ressurreição. Porquanto, ressuscitamos, pelo Baptismo, para a vida nova de filhos, para vivermos em espírito e verdade.

       Também a ressurreição de Lázaro é uma garantia, do poder de Deus, do Seu amor por nós, e do poder que é mais forte que a morte. Lázaro é "reanimado" para a vida temporal, mas também um dia morrerá e então há-de ressuscitar para a eternidade de Deus.

CERTEZA:

      "Vós não estais sob o domínio da carne, mas do Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós... E, se o Espírito d’Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós"(Rom 8,8-11).

       A ressurreição de Jesus é a certeza de que Aquele que O ressuscitou também nos ressuscitará. A nossa vida e a nossa fé são sustentadas e enformadas pela Ressurreição de Jesus. Primeiro Ele, depois nós. 


10
Mar 11
Por mpgpadre, às 17:48 | comentar

       Como em anos anteriores, também neste o Papa propôs, na Sua Mensagem para a Quaresma, pistas de reflexão que nos ajudam a preparar melhor a grande e jubilosa celebração da Santa Páscoa de Jesus Cristo. Vejamos algumas das passagens da Mensagem.

Sobre o jejum:

       "Através das práticas tradicionais do jejum, da esmola e da oração, expressões do empenho de conversão, a Quaresma educa para viver de modo cada vez mais radical o amor de Cristo.

       O Jejum, que pode ter diversas motivações, adquire para o cristão um significado profundamente religioso: tornando mais pobre a nossa mesa aprendemos a superar o egoísmo para viver na lógica da doação e do amor; suportando as privações de algumas coisas – e não só do supérfluo – aprendemos a desviar o olhar do nosso «eu», para descobrir Alguém ao nosso lado e reconhecer Deus nos rostos de tantos irmãos nossos. Para o cristão o jejum nada tem de intimista, mas abre em maior medida para Deus e para as necessidades dos homens, e faz com que o amor a Deus seja também amor ao próximo (cf. Mc 12, 31)".

Sobre a esmola:

       "No nosso caminho encontramo-nos perante a tentação do ter, da avidez do dinheiro, que insidia a primazia de Deus na nossa vida. A cupidez da posse provoca violência, prevaricação e morte: por isso a Igreja, especialmente no tempo quaresmal, convida à prática da esmola, ou seja, à capacidade de partilha. A idolatria dos bens, ao contrário, não só afasta do outro, mas despoja o homem, torna-o infeliz, engana-o, ilude-o sem realizar aquilo que promete, porque coloca as coisas materiais no lugar de Deus, única fonte da vida. Como compreender a bondade paterna de Deus se o coração está cheio de si e dos próprios projectos, com os quais nos iludimos de poder garantir o futuro? A tentação é a de pensar, como o rico da parábola: «Alma, tens muitos bens em depósito para muitos anos...». «Insensato! Nesta mesma noite, pedir-te-ão a tua alma...» (Lc 12, 19-20). A prática da esmola é uma chamada à primazia de Deus e à atenção para com o próximo, para redescobrir o nosso Pai bom e receber a sua misericórdia".

Sobre a Oração:

       "Em todo o período quaresmal, a Igreja oferece-nos com particular abundância a Palavra de Deus. Meditando-a e interiorizando-a para a viver quotidianamente, aprendemos uma forma preciosa e insubstituível de oração, porque a escuta atenta de Deus, que continua a falar ao nosso coração, alimenta o caminho de fé que iniciámos no dia do Baptismo. A oração permite-nos também adquirir uma nova concepção do tempo: de facto, sem a perspectiva da eternidade e da transcendência ele cadencia simplesmente os nossos passos rumo a um horizonte que não tem futuro. Ao contrário, na oração encontramos tempo para Deus, para conhecer que «as suas palavras não passarão» (cf. Mc 13, 31), para entrar naquela comunhão íntima com Ele «que ninguém nos poderá tirar» (cf. Jo 16, 22) e que nos abre à esperança que não desilude, à vida eterna".

       Na Sua Mensagem, o Papa percorre connosco os vários Domingos da Quaresma, acentuando a dinâmica baptismal, como dom de vida nova que nos é oferecido por Deus, fazendo, com a Palavra de Deus, a estreita ligação entre Baptismo e Quaresma.

       "O facto que na maioria dos casos o Baptismo se recebe quando somos crianças põe em evidência que se trata de um dom de Deus: ninguém merece a vida eterna com as próprias forças. A misericórdia de Deus, que lava do pecado e permite viver na própria existência «os mesmos sentimentos de Jesus Cristo» (Fl 2, 5), é comunicada gratuitamente ao homem"...

       ..."O Baptismo, portanto, não é um rito do passado, mas o encontro com Cristo que informa toda a existência do baptizado, doa-lhe a vida divina e chama-o a uma conversão sincera, iniciada e apoiada pela Graça, que o leve a alcançar a estatura adulta de Cristo".

       "Em síntese, diz-nos Bento XVI, o itinerário quaresmal, no qual somos convidados a contemplar o Mistério da Cruz, é «fazer-se conformes com a morte de Cristo» (Fl 3, 10), para realizar uma conversão profunda da nossa vida: deixar-se transformar pela acção do Espírito Santo, como São Paulo no caminho de Damasco; orientar com decisão a nossa existência segundo a vontade de Deus; libertar-nos do nosso egoísmo, superando o instinto de domínio sobre os outros e abrindo-nos à caridade de Cristo. O período quaresmal é momento favorável para reconhecer a nossa debilidade, acolher, com uma sincera revisão de vida, a Graça renovadora do Sacramento da Penitência e caminhar com decisão para Cristo".

 

Para ler a Mensagem de Bento XVI: Quaresma 2011 na íntegra clique AQUI.


20
Set 10
Por mpgpadre, às 09:39 | comentar
       1 - "Nenhum servo pode servir a dois senhores, porque, ou não gosta de um deles e estima o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro" (Evangelho).
       Não se podem iludir ou contornar as palavras de Jesus. Por vezes, a linguagem bíblica remete para um outro significado e para outra realidade. Mas nesta questão, por mais de uma vez, Jesus aposta na radicalidade: os bens materiais não são e não podem ser um fim em si mesmo, são um meio ao serviço da realização de pessoas e de comunidades. Quando se endeusam as riquezas deste mundo, Deus é facilmente materializando, serve enquanto nos é útil, e assim também as pessoas, enquanto me/nos permitem subir na vida.
       Olhemos para a crise económico-financeira, em que sobra pouco espaço para as pessoas, para as famílias, para os seus problemas, para as suas conquistas, para os seus sonhos.
        O dinheiro comandou (comanda) a nossa vida. É uma ditadura que nos governa. Uma empresa, uma fábrica, um negócio, um banco, mantêm-se de pé enquanto dão lucro às chefias, aos sócios e aos patrões. E cada vez mais lucro, sempre mais lucro. Reduzem-se os benefícios dos trabalhadores, exige-se uma maior produtividade. Os sacrifícios na maioria das vezes não são para salvar os empregos, mas para assegurar mais lucros. Claro que no universo dos trabalhadores também se encontram os mesmos vícios, podendo trabalhar-se exigindo sempre mais, mas sem maiores compromissos nem maior produtividade...
       À crise económico-financeira, a crise de valores: o lucro acima das pessoas. Estas não contam, mas somente os números.

       2 - As palavras de Jesus, no Evangelho, apontam para a primazia de Deus, para que n'Ele se salvem as pessoas. Quando Deus ocupa o fim da nossa vida, quando é para Ele que nos encaminhamos, quando é o nosso porto seguro, então cada pessoa, como imagem e semelhança de Deus, como rosto de Jesus Cristo, será tratada como tal, como filho/a de Deus.
       Na primeira leitura, o profeta Amós denuncia a trafulhice, a corrupção, a ganância e o egoísmo, o lucro à custa dos mais pobres e dos inocentes: "Faremos a medida mais pequena, aumentaremos o preço, arranjaremos balanças falsas. Compraremos os necessitados por dinheiro e os indigentes por um par de sandálias. Venderemos até as cascas do nosso trigo". 
       Para de seguida lembrar que a justiça será assegurada por Deus. Ele lembrar-se-á de todas as nossas obras, boas e más. Não é uma aviso nem uma ameaça, é uma promessa que nos desafia ao bem, à generosidade e a colocá-l'O em primeiro lugar.
       3 - Toda a criação é fruto do amor de Deus. Na abundância deste AMOR, Deus faz surgir a luz, a noite e o dia, os peixes, as aves, os animais, a natureza, cria o HOMEM, à Sua imagem e semelhança, capaz de amar e ser amado, para ser feliz. Na treva do nosso pecado, na escuridão da nossa vida, Deus nunca se esqueceu de nós, nunca nos abandonou, nunca abandonará a obra das Suas mãos.
       Enviou-nos profetas, e nestes tempos que são os últimos, deu-nos o Seu próprio Filho. Diz-nos São Paulo a propósito, na Segunda Leitura, "recomendo, antes de tudo, que se façam preces, orações, súplicas e acções de graças por todos os homens, pelos reis e por todas as autoridades, para que possamos levar uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade. Isto é bom e agradável aos olhos de Deus, nosso Salvador; Ele quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade. Há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, que Se entregou à morte pela redenção de todos".
 
       Também os bens materiais hão-de estar ao serviço da Salvação que Deus nos dá.
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Textos para a Eucaristia (ano C): Am 8,4-7; 1 Tim 2,1-8; Lc 16,1-13


13
Set 10
Por mpgpadre, às 10:47 | comentar

       1 - Não são os sãos que precisam de médico mas os doentes. É uma expressão utilizada por Jesus Cristo, para acentuar que são que os pecadores precisam de salvação. Destarte, aqueles que se têm por auto-suficientes, não precisam de salvação e nem de Salvador. A este propósito ouvimos Santo Agostinho: "Ó feliz culpa que nos valeu tão grande Salvador". Não se trata de humilhação, trata-se de reconhecer a nossa condição humana e finitiva, que se encontra e descobre com os outros e sobretudo com o Outro, Jesus Cristo, nosso Salvador.

       Isso mesmo nos é mostrado por Jesus nas três parábolas propostas no Evangelho de São Lucas: Um homem que perde uma das 100 ovelhas e deixam as 99 para ir ao encontro da ovelha perdida e ao encontrá-la fica radiante, faz uma festa. Uma mulher que tendo perdido uma de 10 dracmas, tudo faz para encontrar a dracma perdida e ao encontrá-la chama as amigas e faz uma festa. Um pai que quebra a cara, quando um dos filhos deseja a sua morte, pedindo a parte da herança que lhe cabe, sai de casa, volta sem nada, e o pai recebe-o como filho.

       A conclusão de Jesus não poderia ser mais óbvia: "haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se arrependa, do que por noventa e nove justos, que não precisam de arrependimento... tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado" (Evangelho).

       Em Jesus ecoam as palavras de alguns fariseus e doutores da Lei que se julgavam detentores da verdade e  únicos destinatários da salvação: «Este homem acolhe os pecadores e come com eles».

       Jesus responde com expressividade através destas três parábolas.

       2 - Deus criou-nos para a felicidade, que é sinónimo de santidade, para nos realizarmos como pessoas, vivendo como filhos, descobrindo a alegria de existirmos como povo, em comunhão fraterna com os outros. A ousadia de Deus na criação faz brotar o Seu AMOR em abundância por nós.

       O pecado (da soberba, do orgulho, do egoísmo e da arrogância) distanciou-nos d'Ele, levou-nos ao conflito e à ruptura com o nosso semelhante, com o nosso irmão.

       E quando nós desistíamos uns dos outros, Deus ainda assim nos amou e não desistiu de nós nem do Seu projecto de Amor.

       No monte Sinai, em Deus, expressa-se a desilusão (mais humana que divina, mais do mensageiro do que da Mensagem): "O Senhor falou a Moisés, dizendo: «Desce depressa, porque o teu povo, que tiraste da terra do Egipto, corrompeu-se. Não tardaram em desviar-se do caminho que lhes tracei»". Em Moisés, sobrevém o amor de Deus. Como Abraão, também Moisés descobre que Deus não quer a destruição do homem. Nas palavras do Profeta, a sensibilidade divina: "Então Moisés procurou aplacar o Senhor seu Deus, dizendo: «Por que razão, Senhor, se há-de inflamar a vossa indignação contra o vosso povo, que libertastes da terra do Egipto com tão grande força e mão tão poderosa?»" (Primeira Leitura).

       Abraão, Moisés, JESUS CRISTO, São Paulo, traduzem a preocupação de Deus por nós e pela humanidade inteira. Trazem-nos Deus, para que de novo nos tornemos felizes.

       "A graça de Nosso Senhor superabundou em mim, com a fé e a caridade que temos em Cristo Jesus. É digna de fé esta palavra e merecedora de toda a aceitação: Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores" (Segunda Leitura).

 

       3 - O projecto de Deus mantém-se desde toda a eternidade e para sempre: por amor nos criou, nos chamou e nos chama à vida, por amor nos dá um Salvador, o Seu próprio Filho. Deus nunca desiste de nós, como um Pai nunca desiste de seu Filho. Com amor de Pai e Mãe, Deus faz festa por nós e mesmo quando nos afastamos, Ele espera-nos, dá-nos o tempo que precisamos para voltar. Na volta, não nos estranha, acolhe-nos como filhos bem amados, inclui-nos na sua vida divina, "tudo o que é meu é teu".

       Não nos falte o discernimento para nos sabermos filhos amados, membros da família de Deus e, quando nos afastarmos, não nos falte a coragem para voltarmos ao lugar onde fomos e onde seremos sempre felizes.

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Textos para a Eucaristia (ano C): Ex 32,7-11.13-14; 1 Tim 1,12-17; Lc 15,1-32

 


07
Set 10
Por mpgpadre, às 15:01 | comentar

       1 - Ser cristão não é uma capa que se coloca sobre a pessoa, implica-nos 24 horas por dias. Não é uma roupa que vestimos quando nos convém ou quando vamos à Missa, ou ao domingo. Não, somos cristãos em toda e qualquer situação, com as nossas qualidades e com as nossas insuficiências, com o bem que fazemos e com os pecados que cometemos.

       No cristão, a sua identidade há-de confundir-se com todo o seu ser. Pelo baptismo, tornamo-nos novas criaturas, pela água e sobretudo pelo Espírito Santo; enxertados em/com Cristo, formamos um só Corpo, em que Ele é a Cabeça e nós os membros; inseridos na comunidade crente, formamos a Igreja, Corpo de Cristo, em todo o tempo e em todas as circunstâncias.

       No Evangelho deste domingo Jesus diz claramente a condição para ser discípulo: "Se alguém vem ter comigo, e não Me preferir ao pai, à mãe, à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não pode ser meu discípulo".

       Não há volta a dar: Deus em primeiro lugar, Deus em todos os recantos da nossa vida. Não é menosprezar outras dimensões da nossa vida, é enquadrá-las na relação com Deus.

 

       2 - "Quem poderá conhecer, Senhor, os vossos desígnios, se Vós não lhe dais a sabedoria e não lhe enviais o vosso Espírito Santo? Deste modo foi corrigido o procedimento dos que estão na terra, os homens aprenderam as coisas que Vos agradam e pela sabedoria foram salvos" (Primeira Leitura).

       Os desígnios de Deus são insondáveis, mas Ele próprio vem ao nosso encontro, pelos profetas, e na plenitude dos tempos, por Jesus Cristo, o Seu Filho Unigénito, dando-nos a conhecer o Seu plano salvador, o Seu amor por nós. Entrega-nos Jesus Cristo, para n’Ele sermos redimidos de todo o pecado e podermos ser aquilo que somos, imagem de Deus, filhos bem-amados.

       É também nesta lógica que nos tornamos cristãos, seguidores de Jesus Cristo, o Mestre dos Mestres, o Bom Pastor que nos conduz, o nosso Guia e Senhor.

       Podemos por vezes não discernir claramente qual é a vontade de Deus a nosso respeito, mas não deveremos cessar de procurar, deixando-nos envolver pelo Seu Santo Espírito, que ilumina a nossa inteligência e fortalece a nossa vontade para o bem.

 

       3 - Ser cristão, num primeiro momento, pode ser entendido como exigência, mas é sobretudo uma OPÇÃO de vida, por Deus e pelo outros, um CAMINHO que percorremos, em e com Jesus Cristo, um COMPROMISSO alegre em darmos o melhor de nós mesmos para que o mundo descubra a LUZ de Cristo.

       Seguir Jesus Cristo não é algo de sobrenatural, mas algo de muito humano e concreto. Aliás, Jesus Cristo vem até nós, da parte de Deus, como verdadeiro Homem, assumindo em tudo a nossa humanidade, a nossa finitude, vivendo humanamente, dizendo-nos que deveríamos como ser humanos. Entre nós não carrega a grandeza de Deus, mas revela grandeza da nossa filiação, da nossa humanidade.

       A este respeito, vejamos a recomendação do Apóstolo a Filémon, na Segunda Leitura, "Talvez ele se tenha afastado de ti durante algum tempo, a fim de o recuperares para sempre, não já como escravo, mas muito melhor do que escravo: como irmão muito querido. É isto que ele é para mim e muito mais para ti, não só pela natureza, mas também aos olhos do Senhor. Se me consideras teu amigo, recebe-o como a mim próprio".

       Aos olhos de Deus todos somos irmãos, filhos, discípulos bem-amados. Respiramos o que somos: seguidores de Jesus Cristo, a cada instante da nossa vida, na bonança ou na adversidade, em todas as ocasiões. Não é uma questão de apetite, é uma vocação permanente.

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Textos para a Eucaristia (ano C): Sab 9, 13-19; Flm 9b-10.12-17; Lc 14, 25-33

 


02
Ago 10
Por mpgpadre, às 11:44 | comentar

       1 - "Vede bem, guardai-vos de toda a avareza: a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens". Jesus é peremptório neste alerta. Depois de alguém Lhe dizer para ser intermediário na partilha de bens, Jesus diz aos presentes que as suas vidas não dependem da abundância dos seus bens.

       De seguida Jesus conta uma parábola sobre um homem que produziu uma colheita excelente, mandou construir um celeiro maior onde guardar toda a colheita e os seus bens, para no final poder dizer a si mesmo: "Descansa, come, bebe, regala-te". Mas nessa noite, Deus chama-o para dar contas. Então para quem serão todos os seus bens?

       Jesus conclui a parábola desta forma: "Assim acontece a quem acumula para si, em vez de se tornar rico aos olhos de Deus".

       Em muitas ocasiões Jesus mostra a prioridade do reino de Deus. Obviamente, também Ele come e bebe e participa em festas familiares e/ou comunitárias. Por aqui conclui-se que não menospreza os bens deste mundo que nos permitem viver com dignidade. Nesse sentido, o desafio à partilha, à caridade, à concretização prática da fé professada na relação com o semelhante, prestando-lhe cuidados, como o bom samaritano, perdoando, reconciliando os desavindos.

       Mas já nesta perspectiva, acentua os bens espirituais, aquilo que nos liga aos outros, que nos torna solidários, família, nos torna irmãos, ajudando os outros e ajudando-nos a ser felizes.

 

       2 - O que é certo, se a abundância dos bens fosse a garantia de felicidade e disso dependesse a nossa vida, então todas as pessoas com muitos bens materiais seriam felizes, Já, pelo contrário, as pessoas com escassez de bens materiais, seriam pobres das duas maneiras, nos bens e na (in)felicidade.

       A experiência diz-nos, com efeito, que há muitas pessoas que não têm grandes riquezas materiais e são felizes, generosas, simpáticas, de bem com a vida. Ao invés, há pessoas a quem não falta nada, materialmente falando mas que estão sempre mal com a vida e com os outros. Pelo meio, há ricos, cuja generosidade e desprendimento, que se permitem ser felizes, de bem com a vida. E há pobres que tudo fariam para destruir os que têm mais, não para partilhar, mas para ocupar os seus lugares, para viverem na opulência.

       Por outro lado, a experiência mostra-nos que muitas pessoas gastam o tempo todo em trabalho e preocupações, esquecendo-se de apreciar a vida, valorizar os momentos em família, o contacto com amigos, a usufruir positivamente dos investimentos. No final, quantas pessoas que acumularam uma riqueza considerável, mas agora que têm dinheiro e bens ou não têm saúde ou não têm ninguém, por vezes até os filhos debandaram!

 

       3 - Neste concreto, as leituras deste domingo são demasiado claras e provocadoras. Na primeira leitura, ouvimos o desabafo em jeito de desafio: "Vaidade das vaidades – diz Coelet – vaidade das vaidades: tudo é vaidade. Quem trabalhou com sabedoria, ciência e êxito, tem de deixar tudo a outro que nada fez. Também isto é vaidade e grande desgraça. Mas então, que aproveita ao homem todo o seu trabalho e a ânsia com que se afadigou debaixo do sol?"

       O autor parece desiludido perante a vida, todos têm a mesma sorte, tenham ou não trabalhado com justiça e sabedoria. Mas no final, o autor há-de concluir que tudo é vaidade se for feito e vivido à margem de Deus. Tudo pode ter sentido, se nos orientar para o bem, para Deus.

       É também essa a dinâmica expressa por São Paulo, nesta interpelação: "Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra. Porque vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus... fazei morrer o que em vós é terreno".

       A prioridade há-de ser os valores do reino: a justiça, a verdade, o perdão, a caridade, a partilha solidária, o bem, a atenção aos mais necessitados, a reabilitação dos marginalizados.

____________________________

Textos para a Eucaristia (ano C): Co (Ecle) 1,2; 2,21-23; Col 3,1-5.9-11; Lc 12,13-21

 


28
Jun 10
Por mpgpadre, às 10:20 | comentar

       1 – O seguimento de Jesus pode e deverá realizar-se em diferentes estados de vida e em opções diversas, mas a radicalidade desse seguimento há-de fazer-nos voltar toda a nossa vida para Cristo e para o Seu Evangelho de caridade.

       Não podemos contemporizar com as injustiças, com as guerras, com a corrupção, com a exploração dos mais pobres, com a indiferença diante do atropelo dos direitos humanos.

       Recorda o Apóstolo, "pela caridade, colocai-vos ao serviço uns dos outros, porque toda a Lei se resume nesta palavra: Amarás o teu próximo como a ti mesmo». Se vós, porém, vos mordeis e devorais mutuamente, tende cuidado, que acabareis por destruir-vos uns aos outros".

 

       2 – Se o Senhor Deus é a porção da nossa herança, então acertaremos o nosso passo pela palavra de Deus. O salmo que nos é proposto para hoje é extremamente significativo. Refere-se à vocação sacerdotal da tribo de Levi, que não tinha terras nem bens materiais, mas dependia inteiramente do templo e das ofertas feitas pelas outras tribos de Israel.

       Mas se é a realidade da tribo sacerdotal é também um desafio a cada um de nós, para que Deus ocupe o primeiro lugar da nossa vida. Não O coloquemos em estantes do esquecimento até que precisemos d'Ele, mas seja a primeira opção, a principal escolha e veremos que ao entregarmo-nos de coração ao Senhor nada perdemos, pelo contrário aprenderemos a saborear a vida de uma forma mais positiva.

 


21
Jun 10
Por mpgpadre, às 10:44 | comentar
       1 – A CRUZ é um lugar de encontro, de partilha, de desafio, é um lugar de salvação.
Paira sobre o cristão não como "machado" de sacrifício, sofrimento e morte, mas como ceptro de alegria, de paz, de esperança e de amor. Jesus Cristo salva-nos a partir da Cruz que é, sempre e antes de mais, expressão do amor de Deus. Ao primeiro olhar a dúvida e a incerteza: quererá Deus que os seguidores de Cristo sofram como Ele?
       Ao deixarmo-nos olhar por Ele, vemos claramente que se trata de amor, de paixão pela humanidade. O seu suplício é voluntarioso, vicarial, substitui-nos. É Ele que decide dar a vida. Tendo poder para Se livrar de todo o sofrimento, assume por amor, elevando à radicalidade a Sua entrega. Poderia ser de outra maneira, mas foi assim. Podia fugir. Optou por viver na verdade, na caridade e na oblação, realizando a vontade de Deus Pai. Diga-se que a vontade de Deus não é a morte de Jesus, mas a entrega, o amor, a vida.
       A crucifixão é o epílogo na vida de Jesus: amando, fazendo o bem, pregando a verdade, acolhendo os mais débeis, escolhendo o perdão e a partilha solidária. Ele não vira as costas nem às pessoas, nem à verdade. Procura sempre viver do amor de Deus para nos conduzir ao amor de Deus.
       2 – Quando contemplamos a CRUZ, na verdade de nossas vidas, envolvemo-nos com Jesus, comprometemo-nos com o seu projecto de salvação. Acolhemos o Seu amor, para vivermos na Sua paz, para progredirmos na Sua santidade, para amarmos sem medida, caminhando para a eternidade.
       É certo que na Cruz também estão as nossas lágrimas. Também nós O levamos, com o nosso pecado e com a nossa treva, até ao lenho da cruz. "Ao olhar para Mim, a quem trespassaram, lamentar-se-ão como se lamenta um filho único, chorarão como se chora o primogénito". No entanto, Deus dá-nos novas oportunidades: "Sobre a casa de David e os habitantes de Jerusalém derramarei um espírito de piedade e de súplica. Naquele dia, jorrará uma nascente para a casa de David e para os habitantes de Jerusalém, a fim de lavar o pecado e a impureza" (1.ª leitura).
       A identidade do cristão passa pela CRUZ. Primeiro Ele, nós como seguidores. Não para sofrer, mas para nos perdermos no Seu AMOR: "Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-Me. Pois quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, salvá-la-á" (Evangelho).
       3 – A morte e a ressurreição de Jesus é o conteúdo central e essencial da fé cristã. Em cada Eucaristia, na qual o pão e o vinho, por acção do Espírito Santo, se convertem em Corpo e Sangue de Jesus, anunciamos, actualizamos, tornamos presente este grande mistério da nossa fé. Mas também em cada celebração cristã, na palavra proclamada, nos gestos, nas orações, em tudo anunciamos e vivemos na morte e ressurreição de Jesus.
       Com efeito, "Todos vós sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo, porque todos vós, que fostes baptizados em Cristo, fostes revestidos de Cristo" (2.ª leitura). Fomos/somos baptizados na morte e ressurreição de Jesus. E se todos somos baptizados em Cristo, todos somos filhos. É n'Ele que nos comprometemos com os outros, com o mundo, com a história.
       Não basta saber o que é o cristianismo, ou quem é Jesus Cristo. É inevitável, como discípulos seus, respondermos por nós, deixarmo-nos interpelar por Ele: "E vós, quem dizeis que Eu sou?" (Evangelho). Cabe-nos responder com a vida.


14
Jun 10
Por mpgpadre, às 15:18 | comentar
       O perdão é a marca do cristão. Não se compreende a mensagem de Jesus Cristo e, consequentemente, dos seus discípulos, sem o perdão, como expressão da caridade, como desafio permanente à humildade diante de Deus e à compreensão na relação com o semelhante.
       Ao longo de toda a vida pública, Jesus mostra como o perdão, enquanto expressão do amor, é essencial para construir uma comunidade justa e fraterna. A experiência de perdão passa pelas suas palavras e sobretudo pelos seus gestos de acolhimento. Para Ele não há pessoas boas ou pessoas más, mas todos são filhos de Deus e dignos de serem reconhecidos como tal, dignos de perdão e de amor.
       Vemos como muitas pessoas são afastadas da convivência social, política, religiosa. Mas vemos também como Jesus as acolhe. Diante de alguns murmúrios, Jesus aproveita a oportunidade para nos lembrar que todos somos igualmente limitados, falíveis e pecadores.
       O perdão não é apenas uma atitude de benevolência para o agressor, mas é uma forma de equilíbrio e de saúde. Quando alguém insiste na vitimização e se concentra no "agressor" pode passar a viver em função do seu inimigo, acordar, adormecer e sentar-se à mesa com o inimigo. Perdoar liberta a pessoa que perdoa do rancor, da melancolia, da tristeza e do desgaste que tal concentração provoca.
       Quando Jesus fala do perdão sabe que nem sempre é fácil. Por vezes a ofensa é de tal ordem que é muito difícil perdoar. Mas é a única atitude do crente. Faz-nos bem à saúde. E se há humildade no pedir perdão, há igualmente humildade e generosidade em quem perdoa. Perdoar é aceitar a limitação própria e a limitação alheia, aceitar-se pecador e aceitar que o outro é meu irmão e que também pode errar.
       Obviamente o perdão não apaga a necessidade da justiça e de repor a verdade.
       Perdoar também não significa esquecer. Esquecer tem a ver com a memória. Perdoar tem a ver com a vontade.
       Perdoar não é converter o mal em bem. O mal não passa a ser bem porque perdoo, continua a ser mal. Perdoar é aceitar (não o mal mas) a pessoa pecadora e querer que ela viva e seja feliz, apesar do mal que me fez.
       Perdoar não exige iniciativa do outro, que ele venha pedir perdão, mas parte da pessoa que perdoa, é uma decisão que está para lá da decisão do agressor, perdoa independentemente de o outro pedir ou não pedir perdão. De contrário, a pessoa ofendida dependia da vontade do ofensor.


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