...espaço de discussão, de formação, de cultura, de curiosidades, de interacção. Poderemos estar mais próximos. Deus seja a nossa Esperança e a nossa Alegria...
16
Set 17
publicado por mpgpadre, às 21:45link do post | comentar |  O que é?

1 – Aí está a pergunta de Pedro: «Se meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?».

Perdoar até 7 vezes? Impossível. Uma vez, duas vezes! À terceira começa a ser demais, pois há que manter a dignidade! Três vezes ou mais já é perder a face e deixar abusar. 7 vezes? Só se fosse a 7 pessoas diferentes e em diferentes ocasiões! Mas o SETE, na linguagem semita, vale por plenitude, perfeição, ou seja, sempre.

Ora a resposta de Jesus é ainda mais taxativa: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete».

Façamos as contas que, em termos matemáticos, são fáceis de fazer: 70X7=490 vezes. Muitos "perdões"! Mas novamente a linguagem semita e o seu significado: 70X7 = SEMPRE! Pedro já apontava para um perdão sem limites, mostrando a Jesus que tinha aprendido bem a lição e que já era capaz de ver além do seu umbigo. Porém, Jesus aponta para o infinito, para que não haja interpretações personalizadas à medida de quem escuta. SEMPRE. É a medida do amor, é a medida de Jesus, a medida de Deus. Sem ajustes nem reservas! Perdoar até àqueles que te matam, como fez Jesus no alto da Cruz!

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2 – A comunicação de Jesus procura "democratizar" o acesso ao reino de Deus, mas também a perceção sobre o mesmo. O reino de Deus é para todos, não para um grupo privilegiado. Esse é também o combate de Jesus com alguns líderes religiosos, que nem entram nem deixam entrar, complicando, sendo os intérpretes exclusivos da Lei e da vontade de Deus. Jesus eleva a fasquia. Os filhos apresentam-se diante de um Pai, não de um Juiz prepotente e surdo! Os juízos do Pai são preenchidos de ternura e misericórdia.

Mestre da Sensibilidade, Jesus fala da vida e de modo a que todos possamos perceber. Não se enrola num emaranhado de argumentos. Ao responder a Pedro, como em tantas outras ocasiões, Jesus conta uma estória. O reino de Deus pode comparar-se a um rei que quer ajustar contas com os seus servos. À sua presença é levado um homem que lhe deve 10 mil talentos. Uma fortuna. Não tendo com que pagar, será vendido com a mulher, os filhos e as suas posses. Perante a iminência da desgraça, este homem suplica ao rei compreensão e tempo para saldar a dívida. O rei despe a capa do poder e enche-se de compaixão! Perdoa-lhe toda a dívida.

Pelo caminho, o homem a quem foi perdoada a dívida encontra um companheiro que lhe deve uma ninharia: cem denários! A alegria e a gratidão deveriam agora ser o seu alimento e o seu vestuário. Mas prevalece a ganância e, tendo em conta o muito que lhe foi perdoado, não é capaz de fazer o mesmo com o seu companheiro, mandando-o prender. Este é também um drama do nosso tempo: muitas vezes a quem deve são-lhe também retiradas as possibilidades de pagar! A parábola termina com os companheiros a irem à presença do seu senhor, contando-lhe o sucedido, revoltados com a desmedida com que aquele servo tinha sido beneficiado e a exigência para com o companheiro sobre uma pequena dívida.

 

3 – Nós também cabemos dentro da parábola. Eu e tu. Enquanto Jesus fala não podemos assobiar para o lado como se não fosse nada connosco. Ele fala para os discípulos, isto é, fala para nós.

A reação do rei é elucidativa: «Servo mau, perdoei-te tudo o que me devias, porque mo pediste. Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?» Então o senhor entregou-o aos verdugos até que a dívida seja saldada.

Depois da parábola vem a conclusão! O próprio Jesus avisa e desafia: «Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão de todo o coração». O perdão de Deus para connosco é absoluto, sem reservas nem condições! Acolhendo-O na nossa vida, o caminho a percorrer terá de ser conforme ao Seu proceder: perdoar sempre.


Textos para a Eucaristia (ano A): Sir 27, 33 – 28, 9; Sl 102 (103); Rom 14, 7-8; Mt 18, 21-35.

 

REFLEXÃO DOMINICAL COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

e no nosso outro blogue CARITAS IN VERITATE


09
Set 17
publicado por mpgpadre, às 15:00link do post | comentar |  O que é?

1 – Deus nunca desiste de nós. Esta é a história de Deus com os homens. A história da criação e da salvação. Deus não desiste de nós. Criou-nos por amor e por amor nos sustenta na vida. Quer-nos bem, tão bem como um Pai, como um Mãe a um/a filho/a.

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2 – Perdoar? Sempre. 70X7. Em todas as ocasiões. Só o pecado contra o Espírito Santo não tem perdão, ou por outras palavras, o orgulho, a autossuficiência, a sobranceria, o ensimesmamento, o fechar-se conscientemente a qualquer luz, a toda a verdade, a toda a ajuda.

Perdoar uma vez é razoável. Perdoar duas vezes é bondade. Perdoar três vezes é abuso. Jesus vai muito além. Sete vezes é perdoar sempre. Perdoar 70X7? É melhor não fazer as contas! Jesus também não as faz. Por alguma razão dizemos que errar é humano e perdoar é divino. Ainda que humano seja amar e errar seja, muitas vezes, desumano. Perdoar eleva-nos, projeta-nos para outro nível de compromisso, que nos obriga a superar gostos e preferências, a tolerar nos outros o que gostávamos que tolerassem em nós, a compreender as fragilidades alheias e amar além dos defeitos e insuficiências.

As comunidades cristãs dos primeiros tempos procuram ser fieis à mensagem de Jesus: perdoar sempre. Não julgueis. Não condeneis. A quem te bater numa face oferece também a outra. Reza por aqueles que te maldizem. Abençoa os que te perseguem. A quem te pedir a capa dá também a túnica. Não matarás. Não te irrites contra o teu irmão. Se o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta no altar e vai reconciliar-te com ele. A Eucaristia reconcilia-nos, senta-nos à mesa com Jesus, une-nos aos outros. A Eucaristia vale também enquanto nos converte, nos irmana e nos faz dar passos concretos para vivermos em harmonia, apesar das diferenças.

 

3 – O Evangelho exprime não apenas a Mensagem de Jesus, mas o acolhimento das Suas palavras por parte da comunidade cristã.

A comunidade procura ver, traduzir, atualizar e concretizar tudo o que vem da parte do Senhor Jesus: «Se o teu irmão te ofender, vai ter com ele e repreende-o a sós. Se te escutar, terás ganho o teu irmão. Se não te escutar, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão fique resolvida pela palavra de duas ou três testemunhas. Mas se ele não lhes der ouvidos, comunica o caso à Igreja; e se também não der ouvidos à Igreja, considera-o como um pagão ou um publicano».

Aqueles que se apresentam como discípulos de Jesus têm de considerar (sempre) a opção pelo perdão, pelo serviço, pela reconciliação. Uma e outra vez. E outra vez ainda! Descrição. Bom senso. Equilíbrio. Respeito pela pessoa que está à frente. Já me cansei de repetir que quem enche a boca com a própria frontalidade, entendida como dizer sempre tudo o que dá na real gana, independentemente de quem esteja à frente, não passa de uma criança mimada, uma criança a quem tiraram o brinquedo. Mas a criança é criança, é ingénua, está a aprender, a crescer. No adulto essa atitude revela infantilidade. Quem está à nossa frente não é um saco de boxe em quem descarregamos a nossa azia, o nosso azedume com a vida. Ser frontal não é isso. Ser frontal é ser verdadeiro, mas respeitar o outro como pessoa, como rosto e presença de Deus. A azia com que tratamos os outros, não é azia com que tratemos Jesus.

Correção fraterna. Se tens que corrigir, corrige a sós, discretamente. Se não houver avanços, pede ajuda a uma ou duas pessoas. Não desistas nem à primeira nem à segunda. Recorre à Igreja, será mais uma ajuda. A comunidade cristã daqueles dias percebe que terá que dar segundas e terceiras oportunidades e não desistir às primeiras dificuldades e contratempos.


Textos para a Eucaristia (ano A): Jer 20, 7-9; Sl 62 (63); Rom 12, 1-2; Mt 16, 21-27.

 

REFLEXÃO DOMINICAL COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

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15
Abr 16
publicado por mpgpadre, às 11:03link do post | comentar |  O que é?

RUI ALBERTO E SOFIA (2015). Aprender a Perdoar. Uma alternativa saudável à amargura. Porto: Edições Salesianas. 150 páginas.

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Um sacerdote católico, que escreve habitualmente, publicando dinâmicas para grupos, e uma psicóloga, que trabalha com diferentes faixas etárias, crianças, adolescentes, adultos e casais. Juntaram-se para refletir sobre o perdão. Este é associado muitas vezes à religião, confundido com irenismo, com resignação, ou uma forma de pedido de desculpas.

 

Os autores procuram mostrar o que é e o que não é o perdão. O que exige e pressupõe. O perdão faz bem à saúde física e mental. Quem entra numa espiral de vingança e de rancor adoece afetiva e fisicamente podem manifestar-se diversas mazelas. Abrir-se ao perdão é apostar na vida, com esperança e confiança no futuro. Para o ofendido é um exercício custoso, que pode levar tempo, mas que vai valer a pena. Há ofensas que não é possível simplesmente esquecer ou deixar que o tempo cure. O tempo pode ajudar a fazer um enquadramento alternativo, mas a alternativa é proativa, é decidir-se a perdoar, porque o outro reconheceu o mal feito e pediu perdão, ou não reconheceu nem pediu perdão, mas o ofendido decidiu tocar a sua vida para a frente sem ficar preso à mágoa nem à pessoa que magoou e decide perdoar.

 

Por parte do ofensor também pode haver uma resposta ao perdão. Reconhecendo que errou. Não medindo o tamanho da ofensa, pois cada pessoa reage à sua maneira, prontificando-se a pedir perdão, a escutar aquele que ofendeu, a fazer algum gesto que permita ao ofendido perceber que está arrependido.

 

Perdoar não significa reconciliar-se, isto é, retomar o mesmo tipo de relação anterior à ofensa. No mundo cristão pressupõe-se. Mas posso perdoar e não me sentir com forças para retomar o compromisso e a relação onde estavam quando se deu a ofensa. Posso negociar novos termos para retomar o relacionamento. Por parte do ofendido e do ofensor deve haver esta abertura, para retomar, alternar, ou suspender a forma de se relacionarem e sobretudo se o comportamento se vai repetindo.

 

Perdoar não é apagar a memória e esquecer o mal feito. A memória também faz parte do perdão e da reconciliação.Ter presente o mal feito, não para estar sempre a cobrar, mas em ordem a amadurecer, a tentar não repetir os mesmos erros. Pode ser uma oportunidade para valorizar e dar mais qualidade à relação.

 

O perdão não anula a justiça. Pressupõe ou exige. Se pratiquei algum mal, algum dado, mesmo que o ofendido me perdoe devo recompensar, repor, devolver. O ofendido pode perdoar e ainda assim esperar ser ressarcido. Desta forma, a justiça ajuda a solidificar o perdão e a reconciliação.

 

Outro tema abordado: fazer as pazes. Podem-se fazer as pazes sem que haja verdadeira reconciliação, ainda que esta seja mais duradoura. Quero viver em paz com o outro, pessoa ou grupo, sem agressões mútuas, mas nem por isso estar numa relação ativa, apenas numa dinâmica de não-agressão.

 

O livro tem diversas técnicas, sugestões, dinâmicas, para ajudar a perdoar e a procurar o perdão, enquadrando a ofensa além da pessoa. Esta é mais que a ofensa. Isto vale para o ofendido e para o ofensor.


12
Mar 16
publicado por mpgpadre, às 15:00link do post | comentar |  O que é?

1 –  Página belíssima do Evangelho de São João. A descrição joanina faz-nos ver Jesus e acompanhá-l'O em diferentes momentos. Retira-Se para o monte das Oliveiras, para pernoitar, para descansar, para rezar, alimentando-Se da presença do Pai. Com Ele vão os discípulos. Vamos no Seu encalço, não nos percamos no caminho, não fiquemos para trás. A oração faz-nos sintonizar com Jesus.

De manhã cedo Jesus volta ao Templo, senta-Se e começa a ensinar o povo que se aproximara d'Ele. Alguns fariseus e doutores da Lei também se aproximam mas para O testar. Trazem-Lhe uma mulher apanhada em flagrante adultério. Desde logo a discriminação, pois falta o homem que com ela cometeu adultério e para quem a Lei de Moisés exigia o mesmo tratamento. Colocam-na no meio dos presentes. Humilhação completa. Não bastava ter sido surpreendida em falta era agora exposta perante todos.

«Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Na Lei, Moisés mandou-nos apedrejar tais mulheres. Tu que dizes?». Armadilha bem orquestrada. Se condenasse aquela mulher, Jesus não seria melhor que aqueles que lha apresentaram e cairia uma das facetas essenciais do Mestre da Sensibilidade, a Sua delicadeza, tolerância, acolhimento de pecadores e publicanos. Não condenando, estaria a ser conivente com o pecado e a contrariar a Lei de Moisés, que o povo judeu tem como referência imprescindível para a religião.

Jesus faz com que fariseus, doutores da Lei, discípulos, e todo o povo, onde nos incluímos, regressem à terra. "Jesus inclinou-Se e começou a escrever com o dedo no chão". E é então que Jesus contrapõe: «Quem de entre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra». E novamente Jesus nos faz olhar para o chão das nossas misérias. Para atirar a primeira pedra é preciso alguém impecável, que não tenha fraquezas, nem pecados, nem telhados de vidro. Não julgueis e não sereis julgados. Não condeneis e não sereis condenados. Porque olhas para o argueiro na vista do teu irmão sem tirar a trave da tua vista?

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2 – Um após outro, todos se retiraram, porque olhando para as suas vidas facilmente encontraram motivos de condenação, de censura, de arrependimento. Mal é quando desviamos a atenção para os outros para que não olhem para nós.

No final, diz Santo Agostinho, "todos saíram da cena. Somente ficaram Ele e ela; ficou o Criador e a criatura; ficou a miséria e a misericórdia... Ficou ali apenas a pecadora e o Salvador. Ficou a enferma e o médico. Ficou a miserável com a misericórdia". Jesus levantou-Se e disse-lhe: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?». Ela respondeu: «Ninguém, Senhor». Disse então Jesus: «Nem Eu te condeno. Vai e não tornes a pecar».

A miséria desta mulher é absorvida pela misericórdia de Deus que em Jesus a perdoa e a acaricia. Vai e não voltes à mesma vida. Tens agora uma nova oportunidade. Refaz o trajeto, refaz e vida. Vai e sê mulher, sê feliz. A misericórdia não passa ao lado do pecado, o pecado é perdoado por Jesus; a misericórdia reabilita-a para uma vida nova. Jesus não desculpa o pecado, não desvaloriza ou disfarça o mal. Desculpabilizar não é perdoar, é contornar o problema, varrer para debaixo do tapete. Reconhecer o pecado, o mal feito, é levar a sério a pessoa, na sua liberdade, consciência e responsabilidade. Perdoar é aceitar a pessoa com as suas limitações e as suas falhas. Ela pecou, como o homem que estivera com ela também pecou. Jesus di-lo claramente: vai e não voltes a pecar. Não te condeno. Os teus pecados estão perdoados. Esta mulher é reabilitada como filha amada de Deus.

O desafio é para ela, para fariseus e doutores da lei, e para todos. Obriga-nos a olhar para nós para que não condenemos nem injusta nem levianamente. Perdoar as injúrias. Suportar com paciência as fraquezas do próximo. Perdoar porque primeiro Deus nos perdoa!

Onde abunda o nosso pecado superabunda a graça, a misericórdia, a benevolência de Deus.

___________________________

Textos para a Eucaristia (C): Is 43, 16-21; Sl 125 (126); Filip 3, 8-14; Jo 8, 1-11.

 

REFLEXÃO DOMINCIAL COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

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29
Jan 16
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

FRANCISCO (2016). O Nome de Deus é e Misericórdia. Lisboa: Planeta. 160 páginas

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         Vivemos o Jubileu Extraordinário da Misericórdia, convocado pelo Papa Francisco, e cujas motivações se encontram na Bula de Proclamação deste Ano Santo: Misericordiae Vultus (O Rosto da Misericórdia), dada ao mundo no dia 11 de abril de 2015, em Roma, véspera do II Domingo de Páscoa ou da Divina Misericórdia. A Bula vem anexada nesta publicação que ora recomendámos.

       Andrea Tornielli é um conhecido e reconhecido vaticanista (jornalista acreditado pela Santa Sé e que acompanha de perto o Papa, quer no Vaticano, quer nas suas viagens apostólicas), e que ao longo do tempo tem escrito sobre os Papas.

       Numa das primeiras Missas do Papa Francisco, na Igreja de Sant'Ana, no Vaticano, Andrea estava presente e ouviu as palavras do Papa Francisco: «A mensagem de Jesus é a misericórdia. Para mim, digo-o humildemente, é a mensagem mais importante do Senhor... O Senhor nunca se cansa de perdoar: jamais! Somos nós que nos cansamos de Lhe pedir perdão. Então, temos de dar graças por não nos cansarmos de pedir perdão, porque Ele jamais se cansa de perdoar».

       Mais tarde numa das Homilias do Papa Francisco na Casa de Santa Marta: "Deus condena não com um decreto, mas com uma carícia... Jesus vai além da lei e perdoa, acariciando as feridas do nosso pecado".

       Ou então: "A misericórdia é difícil de perceber: não apaga os pecados... o que apaga os pecados é o perdão de Deus... a misericórdia é a forma com que Deus perdoa... como o Céu: olhamos para o céu com muitas estrelas, mas quando nasce o Sol, com tantas luz, as estrelas não se veem. Assim a misericórdia de Deus: uma grande luz de amor, de ternura, porque Deus não perdoa por decreto, mas com uma carícia... acariciando as nossas feridas do pecado, porque Ele é o supremo perdão, a nossa salvação... É grande a misericórdia de Deus, é grande a misericórdia de Jesus: perdoa-nos e acaricia-nos"...

       A partir daqui nasceu o propósito de entrevistar o Papa sobre a misericórdia, por maioria de razão após a convocação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia. É este diálogo que nos é apresentado em livro e que explicita, ou sublinhada, os propósitos do Magistério do Papa Francisco e do Jubileu da Misericórdia.

 

Algumas citações:

"A misericórdia divina contagia a humanidade. Jesus era Deus, mas também era um homem, e na sua pessoa também encontramos a misericórdia humana... A misericórdia será sempre maior que qualquer pecado, ninguém pode impor um limite ao amor de Deus que perdoa... Ele é misericórdia, e porque a misericórdia é o primeiro atributo de Deus. É o nome de Deus".

"Misericórdia é a atitude divina que abraça, é o dom de Deus que acolhe, que perdoa. Jesus disse que não veio para os justos, mas para os pecadores... a misericórdia é o bilhete de identidade do nosso Deus... a misericórdia está profundamente ligada à lealdade de Deus".

"Falta a experiência concreta da misericórdia. A fragilidade dos tempos em que vivemos é também esta: acreditar que não existe a possibilidade da redenção, uma mão que te levanta, que te inunda de amor infinito, paciente, indulgente, que te volta a pôr no caminho certo".

APOSTOLADO DO OUVIDO:

"Tenho de dizer aos confessores: falem, ouçam pacientemente e acima de tudo digam às pessoas que Deus quer o seu bem. E se o confessor não pode absolver, que explique porquê, mas que não deixe de dar uma bênção, mesmo sem absolvição sacramental. O amor de Deus também existe para quem não está disponível para receber o sacramento: também aquele homem e aquela mulher, aquele rapaz e aquela rapariga são amados por Deus, desejosos de bênção. Sejam afetuosos com estas pessoas. Não as afastem. As pessoas sofrem. Ser confessor é uma grande responsabilidade. Os confessores têm à frente as ovelhas tresmalhadas que Deus tanto ama, se não lhes demonstrarmos o amor e a misericórdia de Deus, afastam-se e talvez nunca mais voltem. Por isso, abracem-nos e sejam misericordiosos, mesmo que não os possam absolver. Deem-lhes uma bênção..."

Citação do Papa Bento XVI:

«A misericórdia é na realidade o núcleo central da mensagem evangélica, é o nome de Deus, o rosto com que Ele se revelou na antiga Aliança e plenamente em Jesus Cristo, encarnação do amor criador e redentor. Este amor de misericórdia também ilumina o rosto da Igreja e se manifesta quer através dos sacramentos, especialmente o da reconciliação, quer com as obras de caridade, comunitárias e individuais. Tudo o que a Igreja diz e faz é a manifestação da misericórdia que Deus nutre pelo homem».

Citação do Papa João XXIII, na abertura solene do Concílio Vaticano II:

"A esposa de Cristo [a Igreja] prefere usar o medicamento da misericórdia em vez de abraçar as armas do rigor".


06
Set 14
publicado por mpgpadre, às 15:00link do post | comentar |  O que é?

       1 –  Jesus Cristo convida-nos a um sentido positivo, inclusivo, acentuando a caridade e o perdão. Devemos combater o pecado, mas procurar, sempre, salvar o pecador, pois este é filho de Deus.

       2 – Vejamos o texto do Evangelho:

«Se o teu irmão te ofender, vai ter com ele e repreende-o a sós. Se te escutar, terás ganho o teu irmão. Se não te escutar, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão fique resolvida pela palavra de duas ou três testemunhas. Mas se ele não lhes der ouvidos, comunica o caso à Igreja; e se também não der ouvidos à Igreja, considera-o como um pagão ou um publicano… Digo-vos ainda: Se dois de vós se unirem na terra para pedirem qualquer coisa, ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos Céus. Na verdade, onde estão dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles».

       A REDENÇÃO só é possível pela CARIDADE traduzível e concretizável no PERDÃO.

       Não se pode desistir do outro só porque nos ofendeu, ou porque não vamos com a sua cara. Não é cristão. Ser cristão é seguir as pegadas de Jesus, o seu jeito de DIZER e de FAZER.

       Perdoar não é esquecer o mal feito, é aceitar o outro com as suas fragilidades e reconhecer que também nós somos barro e, mesmo que não seja intencional, podemos magoar os outros.

       Há que esgotar todas as possibilidades de reconciliação.

 

       3 – Somos responsáveis uns pelos outros no bem e no mal: «Sempre que Eu disser ao ímpio: ‘Ímpio, hás de morrer’, e tu não falares ao ímpio para o afastar do seu caminho, o ímpio morrerá por causa da sua iniquidade, mas Eu pedir-te-ei contas da sua morte…» (Ezequiel).

       As palavras de Deus são inequívocas: pedir-te-ei contas! A nossa missão não é obrigar o outro, mas mostrar, em palavras e com a vida, o caminho que leva à felicidade, ao bem, a Deus.

       4 – A nossa responsabilidade pelos outros deriva da CARIDADE que nos vem de Jesus. Seguindo-O, a nossa vida terá que se caracterizar pela compaixão, promovendo a dignidade de cada pessoa. Sou responsável especialmente pelo irmão desprotegido, desventurado.

Vejamos a belíssima página de São Paulo:

Não devais a ninguém coisa alguma, a não ser o amor de uns para com os outros, pois, quem ama o próximo, cumpre a lei. De facto, os mandamentos que dizem: «Não cometerás adultério, não matarás, não furtarás, não cobiçarás», e todos os outros mandamentos, resumem-se nestas palavras: «Amarás ao próximo como a ti mesmo». A caridade não faz mal ao próximo. A caridade é o pleno cumprimento da lei.

       Que mais acrescentar? Caridade. Caridade. Caridade. Como bem resumiu Santo Agostinho: Ama e faz o que quiseres. O amor aperfeiçoa todas as leis que abençoam e protegem.

 

       5 – Nossa Senhora, evocada por estes dias, na nossa Diocese de Lamego, como Senhora dos Remédios, mostra-nos luminosamente o caminho para Jesus. No SIM ao anjo; acolhendo Jesus no seu ventre; dando-O à luz;  correndo ao encontro de Isabel para a ajudar; colocando-O ao alcance dos Pastores e dos Magos; intervindo nas Bodas de Caná da Galileia; correndo ao encontro de Jesus, fixando o Seu olhar no olhar de Jesus, na Cruz; acolhendo-nos como Filhos para que A recebamos em nossa casa e aprendamos com Ela a dar Jesus ao mundo; mantendo a primeira comunidade unida, em oração, à espera de Jesus.

       Condição primeira e comum: acolhê-l’O na nossa vida e deixando que Ele marque o ritmo dos nossos dias.


Textos para a Eucaristia (ano A): Ez 33, 7-9; Sl 94 (95); Rom 13, 8-10; Mt 18, 15-20.

 


22
Fev 14
publicado por mpgpadre, às 15:00link do post | comentar |  O que é?

       1 – O meu vizinho deitou um ramo do castanheiro para o meu quintal... E tu não fizeste nada? Claro que fiz: voltei a deitar-lhe o ramo e o lixo que tinha do meu lado. E aprendeu a lição? Achas? Aparou o castanheiro e deitou os ramos para o que é meu. E tu que fizeste? Se fosse eu ou chamava a polícia ou ia lá a casa e só se não pudesse senão partia-lhe as fuças. Não te preocupes, eu fiz melhor, cortei a lenha aos bocados e tenho-a aproveitado para a lareira, bem jeito me faz. Além do mais, já vai para duas semanas e se me vê recolhe-se em casa. Estou em crer que um dia destes ainda me vai pedir para se aquecer em minha casa…

       Há histórias semelhantes que acabam no hospital, na cadeia e na morgue... Infelizmente multiplicam-se situações destrutivas entre vizinhos e por vezes dentro das famílias.

       2 – Ao ver a multidão, Jesus subiu para o monte. Os discípulos aproximam-se d'Ele. Jesus sentou-se e começou a ensiná-los (Mt 5, 1-2). É desta forma que São Mateus nos introduz no Sermão da Montanha. Bem-aventuranças. Ser sal da terra e luz do mundo. Plenitude da Lei de Moisés em dinâmica de perdão e de amor. Amor ao inimigo em contraponto à lei de talião. Jesus refere-a aos antigos, mas na atualidade são muitos os seguidores: "Olho por olho e dente por dente".

       A violência, como facilmente se pode verificar, gera violência, multiplicando-a. Os bons propósitos das Nações Unidas (ONU), de impor a paz pelo exercício da força, quando não é possível o diálogo, abafa a agressão fácil a países com menos recursos, mas gera novos ódios e vinganças. Países que evoluíram para democracias, cujo chão ainda respira sangue e morte, continuam demasiado vulneráveis…

        Como víamos na semana passada, Jesus não vem para anular a Lei mas para a levar à plenitude e, por conseguinte, contrapõe: «Eu, porém, digo-vos: Não resistais ao homem mau. Mas se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda. Se alguém quiser levar-te ao tribunal, para ficar com a tua túnica, deixa-lhe também o manto. Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, acompanha-o durante duas. Dá a quem te pedir e não voltes as costas a quem te pede emprestado. Ouvistes que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus; pois Ele faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos. Se amardes aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem a mesma coisa os publicanos? E se saudardes apenas os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos?»

       A referência é Deus: «Sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito». Amar os outros como a nós mesmos indica claramente o caminho. Mas nem sempre o amor-próprio ou a autoestima serão critérios saudáveis para cuidar dos outros. Jesus dá o mote: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei. Sede misericordiosos como o Vosso Pai é misericordioso.


Textos para a Eucaristia (ano A): Lev 19, 1-2.17-18; Sl 102 (103); 1Cor 3, 16-23; Mt 5, 38-48.

 


20
Jun 13
publicado por mpgpadre, às 14:00link do post | comentar |  O que é?


16
Jun 13
publicado por mpgpadre, às 09:00link do post | comentar |  O que é?

       1 – A liturgia da Palavra para hoje traz-nos a boa notícia do PERDÃO que há de levar-nos à conciliação com Deus e com os outros, connosco e com a vida. O perdão é uma atitude cuja iniciativa cabe àquele que perdoa. Não é uma questão de esquecimento, uma vez que a memória fixa de forma privilegiada a ofensa, é uma decisão firme da vontade que procura compreender o outro, aceitar as limitações próprias e alheias.

       2 – O amor e o perdão são duas faces da mesma moeda. A música de fundo é sempre o AMOR que implica a ternura, o perdão, a conciliação e a partilha. Quem ama sujeita-se a padecer. Quem ama compromete-se a lidar com a fragilidade, propõe-se aceitar e a conviver com a alegria e os dias luminosos mas também com a treva, o desamor, o desencontro, o pecado, a rutura.

       Amar e ser amado é muito humano. Errar é humano, mas é sobretudo um défice de amor. Mais humano é amar e fazer o bem. O pecado é uma quebra, rompe a relação saudável com os outros e com Deus, mina a segurança afetiva e emocional, afasta o nosso olhar e sobretudo o nosso coração do olhar e do coração do outro.

       A consciência da nossa frágil condição humana abre-nos à misericórdia de Deus, e faz-nos compreender os erros alheios. Perdoar é divino. Quando perdoamos transparecemos Deus.

       3 – O evangelho é por demais expressivo sobre a dinâmica do amor, que promove o perdão. Jesus é convidado por um fariseu.

       Entretanto, uma mulher, que vivia na cidade, pecadora, conhecida por todos, apressa-se e derrama um vaso de alabastro sobre os pés de Jesus, em simultâneo com a abundância de lágrimas, enxugando-lhe os pés com o cabelo.

       É um gesto que transpira uma grande humildade: esta mulher não receia os olhares discriminatórias, e sujeita-se a ser rejeitada de novo, exposta, expulsa daquela casa, apontada. Vai confiante. Ouviu falar de Jesus. O seu coração leva-a a Jesus.

       A vozearia espalha-se virulentamente. Como é que Jesus, sendo profeta, se deixa tocar por uma pecadora? Precisamente por isso, porque sendo pecadora ela precisa de ser reconhecida como pessoa, precisa de ser tocada pelo perdão, pela luz que vem de Deus, por um olhar de compreensão e de aceitação. Porque sabe, Jesus apresenta-a como exemplo de humildade e de delicadeza, como imagem do pobre que se dispõe a acolher Deus e começa a alterar a sua vida.

       Diz Jesus a Simão, o anfitrião: «Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não Me deste água para os pés; mas ela banhou-Me os pés com as lágrimas e enxugou-os com os cabelos… não cessou de beijar-Me os pés… ungiu-Me os pés com perfume. Por isso te digo: São-lhe perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama».

       Jesus surpreende os presentes. Pela generosidade do perdão e pelo contraponto entre a atenção da mulher pecadora que reconhece Jesus, e do patrão da casa e do banquete, que se coloca a si mesmo como dignatário e centro da festa. Outro contraponto cultural e religioso: acompanham Jesus, no anúncio da boa nova do reino de Deus, os Doze e algumas mulheres, como Maria Madalena, de quem Jesus tinha expulsado sete demónios, e Joana, mulher de Cusa, administrador de Herodes, Susana e muitas outras. Servem-no com os seus bens. As mulheres merecem todo o cuidado de Jesus. Melhor, homens ou mulheres, são filhos de Deus.

       4 – Na primeira leitura, a figura de David, o grande Rei de Israel. Tendo o mundo a seus pés, ungido por Deus, através do profeta, não se coíbe de usar o poder para tomar a mulher de Urias, seu general e a quem provoca a morte. Deus desperta a consciência David. David esquecera a palavra de Deus e que o poder deveria ser um serviço a todo o povo.

       Através do profeta Natã, Deus alerta David. Reconhecer o pecado é o início da conversão. Deus perdoa-lhe tamanha desfaçatez, mas David precisa de alterar o seu proceder para que não se afaste dele a bênção de Deus. O perdão, para ser eficaz, precisa de ser acolhido e levar à mudança de vida. Assim com David, assim será com Pedro, assim será com todos. O perdão exige conversão e reparação.


Textos para a Eucaristia (ano C):

2 Sm 12,7-10.13; Sl 31; Gal 2,16.19-21; Lc 7,36 – 8,3.

 

 


17
Mar 13
publicado por mpgpadre, às 09:00link do post | comentar |  O que é?

       1 – A Lei de Moisés tinha previsto que uma mulher apanhada em flagrante adultério fosse morta por apedrejamento. Ouvimos Jesus a dizer que não vem para anular a Lei mosaica. Ele garante a plenitude da Lei. Como? É o que vemos neste episódio, e em muitas outras situações. A Lei suprema é a CARIDADE, preenchida pelo perdão e pelo bem.

       2 – Mais uma cilada a Jesus. Que fará, cumprirá a lei de Moisés ajudando a condenar/matar aquela mulher? E então o perdão e misericórdia que Ele defende?

       Diante d'Ele os acusadores e uma mulher pecadora. Por vezes os gestos são mais eloquentes que muitas explicações. Os acusadores evocam a Lei de Moisés, por que lhes convém. Jesus baixa-se e escreve no chão. Insistem com Ele, interrogam-no. Jesus provoca: “Quem de entre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra”, baixa-se e continua a escrever no chão, a aguardar, provocando uma resposta nova, criativa, original nos seus ouvintes. Frente a Ele fica apenas aquela pobre mulher que já tinha o destino traçado.

       Também aqui é significativa a interação que Jesus desencadeia: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?». Ela respondeu: «Ninguém, Senhor». Disse então Jesus: «Nem Eu te condeno. Vai e não tornes a pecar».

       Ao perdoar, e compreender, Jesus não sanciona ou aplaude o pecado daquela mulher, nem lhe diz que fez bem, nem a desculpa com os pecados dos outros. Não lhe diz para esquecer e ir à sua vida. Não. Envia-a para uma vida nova, diferente, de compreendida para convertida. VAI. Não VOLTES a pecar. Tens uma oportunidade para refletir, para começar uma vida nova. Não desperdices a tua vida com situações de pecado que te podem levar à morte. Vive positivamente. Encontrar-se com Jesus implica um caminho novo e não regressar à vida anterior. Foi assim com os Magos, é assim com esta mulher. VAI. NÃO VOLTES ao lugar do passado.

       3 – Desde logo a incoerência e a descriminação da lei. A mulher apanhada em adultério era condenada à morte – infelizmente ainda acontece em alguns países, marcados por fundamentalismos radicais –, e o homem que estava com ela nas mesmas circunstâncias? Por justiça, não teriam que ser os dois levados às autoridades e partilhado o mesmo destino? Em que é que se diferencia o pecado cometido por uma mulher ou por um homem? É uma descriminação que perdurou, mesmo em ambientes cristãos.

 

       4 – O novo Papa, na primeira Eucaristia, na Capela Sistina, propôs-nos três verbos essenciais para os cristãos assumirem e viverem: “CAMINHAR, EDIFICAR, PROFESSAR Jesus Cristo crucificado, caminhar sempre, na presença do Senhor, à luz do Senhor, procurando viver com irrepreensibilidade”, só com esta disponibilidade seremos verdadeiros discípulos do Senhor Jesus.

       Deste modo, a postura do cristão não poderá ser diversa da de Jesus Cristo. Neste ambiente se situam as palavras do apóstolo São Paulo: “Considero todas as coisas como prejuízo, comparando-as com o bem supremo, que é conhecer Jesus Cristo, meu Senhor. Por Ele renunciei a todas as para ganhar a Cristo e n’Ele me encontrar… Continuo a correr… Só penso numa coisa: esquecendo o que fica para trás, lançar-me para a frente, continuar a correr para a meta, em vista do prémio a que Deus, lá do alto, me chama em Cristo Jesus”.

       Em nenhuma circunstância o discípulo de Jesus está dispensado de prosseguir o seu caminho, transparecendo Cristo e Cristo crucificado. Diz o Papa Francisco: “Esta vida é um caminho e quando paramos as coisas não correm bem... Quando professamos um Cristo sem cruz não somos discípulos do Senhor”.


Textos para a Eucaristia (ano C): Is 43, 16-21; Filip 3, 8-14; Jo 8, 1-11.

 

Reflexão Dominical COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

e no nosso blogue CARITAS IN VERITATE


28
Dez 11
publicado por mpgpadre, às 13:00link do post | comentar |  O que é?

A maior parte de nós conhece esta expressão e reconhece-a como um ensinamento de Jesus. Contudo, acredito que poucos compreendem o alcance, a essência e o verdadeiro significado deste ensinamento. No livro "O Mestre dos Mestres" de Augusto Cury, podemos encontrar uma explicação interessante sobre dar a outra face.

       «Cristo não falava da face física, da agressão física que compromete a preservação da vida. Ele falava da face psicológica.

       Se fizermos uma análise superficial, poderemos equivocar-nos e crer que dar a outra face é uma atitude frágil e submissa. Todavia, temos de nos perguntar: dar a outra face é um sinal de fraqueza ou de força? Dar a outra face incomoda pouco ou muito uma pessoa agressiva e injusta? Se analisarmos a construção da inteligência, constataremos que dar a outra face não é um sinal de fraqueza, mas de força e segurança. Só uma pessoa forte é capaz de dar a outra face. Só uma pessoa segura dos seus próprios valores é capaz de elogiar o seu agressor. Quem dá a outra face não se esconde, não se intimida, mas enfrenta o outro com tranquilidade e segurança.

       Quem dá a outra face não tem medo do agressor, pois não se sente agredido por ele, e nem tem medo da sua própria emoção, pois não é escravo dela. Além disso, nada perturba tanto uma pessoa agressiva como dar-lhe a outra face, como não responder à sua agressividade com agressividade. Dar a outra face incomoda tanto essa pessoa que é capaz de lhe causar insónia. Nada incomoda tanto uma pessoa agressiva como ter para com ela uma atitude complacente.

       Dar a outra face é respeitar o outro, é procurar compreender os fundamentos da sua agressividade, é não usar a violência contra a violência, é não se sentir agredido diante das ofensas que lhe desferem. Somente uma pessoa que é livre, segura e que não gravita em torno do que os outros pensam e falam de si é capaz de agir com tanta serenidade.

       Cristo era uma pessoa audaciosa, corajosa, que enfrentava sem medo as maiores dificuldades da vida. Era totalmente contra qualquer tipo de violência. Todavia, Ele não discursava sobre a prática da passividade. A humildade que proclamava não era fruto do medo, da submissão passiva, mas da maturidade da personalidade, confeccionada por intermédio de uma emoção segura e serena.

       Cristo, através do discurso de dar a outra face, queria proteger a pessoa agredida, fazê-la transcender a agressividade imposta pelo outro e, ao mesmo tempo, educar o agressor, levá-lo a perceber que a sua agressividade é um sinal de fragilidade (...)

       Na proposta de Cristo, o agressor passa a rever a sua história e a compreender que se esconde atrás da violência.»

 

Augusto Cury, em "O Mestre dos Mestres", in Abrigo do Sábios.


13
Set 11
publicado por mpgpadre, às 16:27link do post | comentar |  O que é?


publicado por mpgpadre, às 10:17link do post | comentar |  O que é?


11
Set 11
publicado por mpgpadre, às 10:35link do post | comentar |  O que é?

       1 – "Errar é humano, perdoar é divino".

       Neste ditado popular temos uma constatação e um desafio. Por um lado, é próprio da nossa fragilidade humana errarmos, falharmos na nossa relação com os outros. Vale para uns e para outros. Estamos no mesmo barco. Somos da mesma carne. Num ou noutro tempo, lá cometemos um deslize, uma falha, uma palavra que ofende, um gesto que destrói o outro, uma palavra ou um gesto que destrói a confiança do outro, que mina a sua paz e a sua saúde. 

       Desde logo uma lição importante: se todos pecamos, isto é, se temos em nós o gérmen da fragilidade, do errar, mais consciente ou menos conscientemente, então a nossa compreensão e tolerância para com os outros deveria ser um modo de ser, uma constante, uma opção de vida.

       Por outro lado, sabemos como o perdão não é assim tão fácil de conceder. E porquê? Quem já se sentiu ofendido na sua dignidade? Quem foi insultado, traído, desprezado? Quem já foi vítima do ódio, da maledicência, do boato, da injúria, da violência, da injustiça? Quem já viu o seu nome lançado na lama? Como se sentiu, como se viu impelido a agir?

       Por vezes basta uma palavra fora de tempo, ou a ausência de uma palavra de solidariedade, para nos sentirmos ofendidos!

       Este é o grande desafio: perdoar. É a característica fundamental da caridade, a propriedade de Deus. Ama em perfeição. Perdoa em todas as situações. Só Ele nos liberta do peso do pecado e da culpa. Perdoar é divino. Mas é também um caminho, do crente e de toda a pessoa que quer ser livre, que quer ser saudável. É um ideal que devemos prosseguir com alegria, com paixão. O perdão liberta-nos do rancor, da irritação, do ódio, liberta o nosso coração para que ame, para que viva, para que aprecie o mundo à sua volta.

 

       2 – No Evangelho deste domingo encontrámos um Pedro muito benevolente: “Se meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?”.

       Deverei perdoar? E quantas vezes? Cada um de nós já foi confrontado com esta questão várias vezes ao longo da sua vida. Não será difícil responder. Já que esta ou aquela pessoa me ofendeu, e se não foi uma ofensa à minha dignidade, então poderei vir a perdoar. E se a mesma pessoa me ofender de novo? Aí o perdão já se torna mais complexo, é que se perdoo novamente pode voltar a fazer o mesmo pois sabe como tenho um coração de manteiga. E uma terceira vez? Já é quebrar a cara e perder a vergonha! Perdoar, nem pensar! O abuso também tem um limite!

       Quando Pedro pergunta a Jesus se deve perdoar até sete vezes, ele está a ser demasiado generoso. Talvez pense que Jesus tenha um gesto de reconhecimento e de felicitação por tamanha generosidade. Mas Jesus surpreende-o: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”. O número 7, para a Bíblia, significa perfeição, plenitude. Perdoar 7 vezes é perdoar sempre. Mas para que não restem dúvidas, Jesus eleva o perdão até ao infinito, perdoar sempre, em todas as situações, em todos os momentos, a todas as pessoas.

        Perdoar é divino, perdoar abre-nos o coração aos outros, à vida, à alegria, a Deus. Liberta-nos. Cura-nos. Perdoar traz-nos a confiança, devolve-nos a felicidade. É certo que há situações que não esquecerei, muito menos uma ofensa grave. Fica gravado na memória. Não é uma opção. Perdoar tem a ver com a vontade, é uma opção de vida, é uma escolha. Perdoo, sabendo que me fizeram mal, que feriram a minha dignidade, que me atraiçoaram. Quero bem àquela pessoa, ainda que saiba que me injuriou. Perdoar para sermos perdoados, como na parábola contada por Jesus. Deus perdoa-nos tudo, para que nós vamos perdoando àqueles que nos ofendem.

       Quando não perdoamos, o nosso coração vai-se enchendo de rancor, de ódio, de revolta, de irritação. Para onde quer que vamos, em tudo o que fazemos, acordados ou a dormir, a pessoa que nos ofendeu vai connosco, faz parte da nossa vida, em todas as horas, negativamente. Nem comemos com o mesmo entusiasmo, nem dormimos com a mesma tranquilidade, como que desejaríamos que essa pessoa passasse pelo mesmo... Paralisamos! Adoecemos! Morre em nós a vida nova que recebemos de Deus, em Jesus Cristo, pelo Espírito Santo.

       Embora seja divino, o perdão é uma escolha, é uma questão de saúde, de cura. 

 

       3 – O perdão é uma exigência da caridade ao jeito de Jesus Cristo. Quem ama perdoa. Os cristãos, seguidores de Jesus Cristo, são chamados a perdoar sempre, deixando-se tocar pela graça de Deus, fonte e origem de todo o amor, fonte e origem do perdão.

       Ben Sirá, alerta-nos para a urgência de pedirmos a Deus a nossa cura, perdoando aqueles que nos ofenderam.

       "O rancor e a ira são coisas detestáveis, e o pecador é mestre nelas. Quem se vinga sofrerá a vingança do Senhor, que pedirá minuciosa conta de seus pecados. Perdoa a ofensa do teu próximo e, quando o pedires, as tuas ofensas serão perdoadas. Um homem guarda rancor contra outro e pede a Deus que o cure? Não tem compaixão do seu semelhante e pede perdão para os seus próprios pecados? Se ele, que é um ser de carne, guarda rancor, quem lhe alcançará o perdão das suas faltas? Lembra-te do teu fim e deixa de ter ódio; pensa na corrupção e na morte, e guarda os mandamentos. Recorda os mandamentos e não tenhas rancor ao próximo; pensa na aliança do Altíssimo e não repares nas ofensas que te fazem".

       As nossas ofensas são perdoadas quando perdoamos as dos outros. A cura é-nos concedida quando libertamos o nosso coração de toda a cólera, sabendo que só desse modo imitámos o proceder de Deus. Como se nos recorda no Salmo: "Como a distância da terra aos céus, assim é grande a sua misericórdia para os que O temem. Como o Oriente dista do Ocidente, assim Ele afasta de nós os nossos pecados".

       Vivendo na graça de Deus, aprenderemos a força libertadora de nos sabermos perdoados, amados por Deus e de sabermos que o nosso perdão disponibiliza o nosso coração, a nossa vida, para a alegria, a confiança, para a disposição para nos encontrarmos e para descobrirmos a beleza da vida, para termos garra para enfrentarmos os momentos de dificuldade com mais serenidade.

 

       4 – Lembremo-nos da recomendação feita pelo Apóstolo São Paulo aos Romanos: "Nenhum de nós vive para si mesmo e nenhum de nós morre para si mesmo. Se vivemos, vivemos para o Senhor, e se morremos, morremos para o Senhor. Portanto, quer vivamos quer morramos, pertencemos ao Senhor. Na verdade, Cristo morreu e ressuscitou para ser o Senhor dos vivos e dos mortos".

       Se colocarmos Deus nos nossos pensamentos, na nossa vontade, nas nossas escolhas, nos nossos afazeres, se deixarmos que o Seu Espírito de amor actue em nós, tornar-se-á mais fácil entender que a vida se resolve e se decide na caridade, que, por sua vez, tem no perdão uma das expressões máximas do viver como Jesus viveu, amando, perdoando, fazendo o bem, dando a vida por nós, a que também nós estamos chamados.


Textos para a Eucaristia (ano A): Sir 27, 33 – 28, 9; Sl 102 (103); Rom 14, 7-9; Mt 18, 21-35.

 


06
Set 11
publicado por mpgpadre, às 10:34link do post | comentar |  O que é?

         Nos últimos 500 anos o Ocidente viveu o maior ataque cultural da história. Seguindo o magno processo contra a cultura cristã, nas suas três fases, entende-se a situação actual. Primeiro atacou-se a Igreja em nome de Deus. Depois descartou-se a divindade mantendo a moral cristã. Hoje desmantela-se a ética.

        A primeira fase seguiu dois passos. Primeiro, com Lutero, Calvino e outros reformadores, agrediu-se a estrutura eclesial conservando o Cristianismo. A fé em Cristo era preciosa, apesar dos perversos eclesiásticos. Depois, através de Hume, Voltaire e outros teístas, o cientifismo deísta rejeitou a doutrina e ritos, acenando à divindade longínqua e apática d'"O Grande Arquitecto" e distorcendo a História para apagar o papel da Igreja.

        A segunda fase do ataque dirigiu--se ao transcendente. Recusava-se Deus e a eternidade, pretendendo conservar as regras cristãs de comportamento social. O primeiro passo, de Feuerbach, Comte e outros ateus, quis demonstrar filosoficamente a inexistência formal de Deus na sociedade humanista ideal. O falhanço dos esforços teóricos levou Thomas Huxley, Bertand Russell e outros agnósticos ao ateísmo prático simplesmente desinteressado da questão religiosa.

        A fase actual é de ataque frontal à moral cristã. Primeiro, com Saint-Simon, Marx e outros revolucionários, visou-se uma moral exclusivamente humana. Mas, como Nietzsche e Sartre tinham explicado, eliminando a referência metafísica, vivemos "Para lá do Bem e do Mal".

        Para compreender os traços essenciais da atitude moral dominante é preciso lembrar o elemento novo e original que o Cristianismo trouxe à civilização há 2000 anos. Aí se situa o núcleo da luta moral da nossa era. Quando Cristo nasceu, a sociedade ocidental já possuía uma estrutura ética sofisticada. Homero, Zoroastro, Sócrates, Zenão, Epicuro e tantos outros tinham estabelecido um sistema complexo de virtudes, regras e comportamentos. No campo estrito da ética, a revelação cristã trouxe apenas um contributo: a misericórdia.

        Para Aristóteles e seus contemporâneos, o perdão era uma injustiça inaceitável. A visão cristã do mundo tornou-o indispensável: "todos pecaram e estão privados da glória de Deus. Sem o merecerem, todos são justificados pela Sua graça, em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus" (Rm 3, 23-24).

        Aquilo que a moral de hoje perdeu é a misericórdia. Em jornais, novelas, televisão e cinema encontramos valores e atitudes elevados. Mantêm-se virtudes, guardam-se mandamentos, pululam os exemplos honestos, sensatos, equilibrados. Tolera-se tudo. Só se despreza a caridade cristã.

        Existem duas formas de destruir a misericórdia: eliminando o pecado e eliminando o perdão

       Estas são precisamente as duas atitudes mais comuns nos dias que correm. Numa enorme quantidade de situações não se vê nada de mal. Naquelas em que se vê, não há desculpa possível. As acções do próximo ou são indiferentes ou intoleráveis. O que nunca são é censuradas e perdoadas. O que nunca se faz é combinar o repúdio do pecado com a compaixão pelo pecador.

        O resultado está à vista. A moral oficial, em filmes, romances, séries e telejornais, é uma amálgama de regras, princípios e procedimentos, sem fundamento, coerência ou justificação. Do libertarismo mais acéfalo salta-se ao moralismo totalitário sem lógica ou razão. Aborto e adultério tornavam-se de crimes em direitos, enquanto tabaco e touradas passaram de hábitos a infâmias. Os enredos da moda exaltam os valores pagãos, mágicos, bárbaros, orientais, ocultistas, libertinos, vampiros. Todos, menos cristãos.

        Após 500 anos de ataques à Igreja, este é o estado do Ocidente. Qual a situação da fé, com cinco séculos de agressões? Está igual a si mesma. A moral cristã perdura, 100 anos depois de Nietzsche. A fé em Cristo mantém-se, 250 anos depois de Hume. A Igreja Católica permanece, cinco séculos após Lutero. O último meio milénio não foi mais duro para os discípulos de Cristo que os anteriores. Desde o Calvário, a Igreja é atacada. Ressuscitando ao terceiro dia.

 

João César das Neves, in (DN 5/09/2011) POVO.


04
Set 11
publicado por mpgpadre, às 16:01link do post | comentar |  O que é?

       1 – Ouçamos as doutas palavras de São Paulo: "Não devais a ninguém coisa alguma, a não ser o amor de uns para com os outros, pois, quem ama o próximo, cumpre a lei. De facto, os mandamentos que dizem: «Não cometerás adultério, não matarás, não furtarás, não cobiçarás», e todos os outros mandamentos, resumem-se nestas palavras: «Amarás ao próximo como a ti mesmo». A caridade não faz mal ao próximo. A caridade é o pleno cumprimento da lei".

       Num dos diálogos com os doutores da lei, os especialistas da religião judaica, Jesus deixara claro que o maior dos mandamentos é amar a Deus sobre todas as coisas, colocar Deus sempre em primeiro lugar, antes e acima de tudo, e em todas as escolhas, e ao próximo como a si mesmo. Estes dois mandamentos contêm e resumem toda lei e os profetas, todos os preceitos necessários para viver na fidelidade à palavra/vontade de Deus.

       Não é necessário inventar nada. Está tudo nestes dois mandamentos.

       É nesta linha que escutamos o Apóstolo a desafiar-nos para que a nossa única dívida seja o amor, a caridade. Quem ama cumpre toda a lei. Toda a Lei, no que diz respeito à nossa relação com os outros, consiste na caridade, em amar-nos uns aos outros, tendo como referência e modelo o próprio Jesus Cristo.

 

       2 – A caridade, o amor ao próximo, concretiza-se no perdão, na solidariedade, na partilha, na delicadeza para com aqueles que nos rodeiam.

       Como tantas vezes se acentua, não basta amar os que estão a milhas de distância, ainda que muitas vezes sejamos chamados a solidarizar-nos com ajudas monetárias, mas importa amar os que estão perto de nós, que fazem parte das nossas relações familiares, profissionais, sociais. É aqui que se testa o nosso amor.

       É sempre demasiado fácil amar os que não nos incomodam, os que nos são indiferentes, os que não conhecemos. Amar os que nos podem contrariar e contradizer, os que são diferentes de nós e no entanto convivem connosco, em casa, no trabalho, na comunidade, já se torna mais difícil e sobretudo amar aqueles que nos incomodam, de quem não gostamos tanto. É um desafio permanente para os seguidores de Jesus.

       Diz-nos Jesus: "Se o teu irmão te ofender, vai ter com ele e repreende-o a sós. Se te escutar, terás ganho o teu irmão. Se não te escutar, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão fique resolvida pela palavra de duas ou três testemunhas. Mas se ele não lhes der ouvidos, comunica o caso à Igreja; e se também não der ouvidos à Igreja, considera-o como um pagão ou um publicano".

       O mesmo escutamos na primeira Leitura: «Filho do homem, coloquei-te como sentinela na casa de Israel. Quando ouvires a palavra da minha boca, deves avisá-los da minha parte»".

       Não devemos desistir de perdoar, e de tentar conciliar-nos com os irmãos, uma e outra vez, e outra vez. Não demos o caso como perdido à primeira contrariedade. E veremos como é saudável apostarmos positivamente nos outros. Faz-nos bem à saúde.

       3 – Obviamente que a vivência da caridade não é um capricho ou uma escolha acessória para a nossa vida de cristãos, é um compromisso que assenta no seguimento de Jesus Cristo, procurando, em tudo, e em todas as circunstâncias, imitar Aquele que amamos e seguimos, Aquele que nos identifica como comunidade, como Igreja. Somos, cada um a seu modo, parte integrante do Corpo de Jesus Cristo, que é a Igreja. Pertencemos-Lhe, somos cristãos, somos d’Ele, o Cristo. Ele faz parte de nós. É como o sangue que circula nas veias e que nos mantém vivos. Assim há-de circular em nós a vontade de Deus, a postura de Jesus Cristo, a disponibilidade de dar a vida pelos outros. Será isso que nos mantém como pedras vivas.

       Ressoa, destarte, a palavra de Deus que devemos escutar e acolher em nosso coração, na nossa vida. A Palavra de Deus é alimento, é luz que nos guia para Ele, é dinamismo que nos aproxima dos outros e de Deus. "Quem dera ouvísseis hoje a sua voz: «Não endureçais os vossos corações»".

       A escuta da Palavra de Deus conduz-nos à oração, à intimidade com Ele e com os outros. É na oração que nos tornámos comunidade: "Se dois de vós se unirem na terra para pedirem qualquer coisa, ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos Céus. Na verdade, onde estão dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles».

       Daí a insistência na oração, na medida em que nos abre o coração para Deus e para os outros e nos prepara para escutar a palavra de Deus, iluminando-nos para cumprirmos com fidelidade a Sua vontade.


Textos para a Eucaristia (ano A): Ez 33,7-9; Sl 94 (95); Rom 13,8-10; Mt 18,15-20.

 


27
Fev 11
publicado por mpgpadre, às 17:27link do post | comentar |  O que é?

       1 - Do alto da Montanha continuamos a escutar a voz de Jesus, cujas palavras são uma provocação permanente ao nosso comodismo e às nossas seguranças muito humanas e muito materiais, pondo, ao invés, claramente, o acento tónico na vivência da caridade sem fim, ao jeito do Mestre, dando a vida, em cada gesto, em cada palavra, em cada silêncio, em cada olhar, dando a vida pelo outro, e numa confiança total em Deus e na Sua providência. Ele providenciará para que nada de verdadeiramente importante falte à nossa vida, para nossa felicidade e dos outros.

       Neste tempo que atravessamos, confiamos cada vez mais em nós, nas capacidades humanas, na ciência e na técnica, nas finanças, e confiamos cada vez menos em Deus, no futuro, na Providência divina. Queremos tudo certinho e a abertura ao futuro e a novas realidades assusta-nos de sobremaneira.

       É possível conjugar a graça e benevolência de Deus, com o nosso compromisso cristão.

 

       2 - "Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo".

       A confiança é crucial para a sobrevivência humana. Tudo radica e parte da confiança. Confiamos nos nossos pais e no saber que nos transmitiram, na escola, na Igreja, nas diversas ciências que preenchem o panorama da nossa civilização. Com efeito, até um cientista tem, obrigatoriamente, de confiar nos outros e no conhecimento que lhe chega por terceiros; de contrário teria que testar, do início, todas as variáveis. Desse modo, não haveria progressos e a sociedade da tecnologia e da informação ficaria bloqueada nas desconfianças e na experiência própria.

       Assim a nossa relação com os outros e também assim a nossa relação com Deus.

       Jesus interpela-nos com a prioridade: primeiro Deus, o Reino dos Céus e a Sua justiça. Só Ele garante a nossa vida, aqui e no tempo futuro. Quando a nossa confiança primeira é nos bens materiais, nos projectos humanos, em determinada pessoa, o nosso futuro não está garantido, nem a nossa vida. Veja-se, por exemplo, em tempo de crise, quantas pessoas e famílias tinham as finanças equilibradas e hoje vivem na agonia de ficarem sem nada! E tanto trabalho, tanto sacrifício, tantas canseiras!

       A confiança em Deus e na Sua providência há-de ser, para todo o crente, um projecto de vida. Só a Ele devemos servir, para n’Ele nos encontrarmos com os outros… e viver hoje… o amanhã é de Deus!

 

       3 - "Disse Jesus aos seus discípulos: «Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há-de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro. Por isso vos digo: Não vos preocupeis, quanto à vossa vida, com o que haveis de comer ou de beber, nem, quanto ao vosso corpo, com o que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento e o corpo mais do que o vestuário?»"

       Andamos tão atarefados em resolver a nossa vida, a conquistar o mundo, a assegurar o nosso futuro e dos nossos descendentes que por vezes nos esquecemos de viver, de apreciar o sol e a chuva, o vento na cara e a brisa pela tarde, e sobretudo, o que é mais preocupante, esquecemo-nos daqueles que amamos, daqueles que deveríamos proteger, daqueles que deveríamos acarinhar, esquecemo-nos do descanso e da festa, da alegria e da partilha em família e em comunidade.

       Assenta-nos que nem uma luva a palavra de Jesus: "não vos inquieteis com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã tratará das suas inquietações. A cada dia basta o seu cuidado".

       Não se trata de viver desgraçando a vida, e o fruto do nosso trabalho, pelo contrário, trata-se de plenizar o nosso compromisso com os outros, de gastar a nossa energia e o nosso tempo a favor dos outros. O futuro é hoje! Amanhã é com Deus, só com Ele.

 

       4 - Destarte, a nossa confiança em Deus não é em vão, como nos assegura a Palavra de Deus na primeira leitura: "Sião dizia: «O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-Se de mim». Poderá a mulher esquecer a criança que amamenta enão ter compaixão do filho das suas entranhas? Mas ainda que ela se esqueça, Eu não te esquecerei".

       Ainda que os mais íntimos se esqueçam de mim, Deus não me abandona.

       Deus ama-nos com amor de Pai e de Mãe; amar-nos faz parte da Sua essência divina. Criou-nos transbordando de AMOR e ama infinitamente a obra por Ele criada. Por isso nos dá Jesus.

       Não desanimemos nem nos precipitemos. Ele vem. E quando vier desvendará os nossos corações, como nos diz São Paulo: "Portanto, não façais qualquer juízo antes do tempo, até que venha o Senhor, que há-de iluminar o que está oculto nas trevas e manifestar os desígnios dos corações. E então cada um receberá da parte de Deus o louvor que merece".

       A certeza da Sua vinda, da Sua presença entre nós, é uma interpelação constante. Vivamos hoje! Aqui e agora, com as pessoas da nossa casa, da nossa rua, do nosso bairro, da nossa terra. Vivamos hoje, façamos render os talentos que Deus nos dá e sabendo que o futuro a Deus pertence. Ele dá-nos o presente... para viver!

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Textos para a Eucaristia (ano A): Is 49, 14-15; 1 Cor 4, 1-5; Mt 6, 24-34

 


25
Fev 11
publicado por mpgpadre, às 10:02link do post | comentar |  O que é?

       O evangelista deste ano litúrgico, ANO A, é São Mateus, para a maioria dos Domingos e festas.

       Do Evangelho de São Mateus temos vindo a escutar o chamado “Sermão da Montanha”.

       “Ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se. Rodearam-n’O os discípulos e Ele começou a ensiná-los” (Mt 5, 1).

       Por esta razão fica conhecido o ensinamento de Jesus, porque foi pronunciado no alto da montanha. A montanha é um lugar privilegiado para encontrar Deus e para Deus Se revelar. Por outro lado, a atitude de quem se senta para ensinar, relembrando os escribas que se sentavam numa atitude de ensino. O próprio Moisés é representado sentado, a ditar os Mandamentos. No dia 22 de fevereiro, festejamos a Cadeira de São Pedro, evocando a autoridade de Pedro e do sucessor de Pedro.

 

1 – Bem-aventuranças

       “Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa” (Mt 5, 11-12).

       Nas Bem-aventuranças está a essência do cristianismo, um resumo claro do que se espera dos seguidores de Jesus Cristo. São felizes os que buscam o bem e se regem pela verdade, os que são misericordiosos e promovem a paz e a justiça, os humildes e puros de coração, todos aqueles que vivem na procura constante de imitar o Deus de Jesus Cristo, mesmo que humanamente não se sintam compensados e podendo ser perseguidos, injuriados e até mortos.

 

2 – Sois o sal da terra, sois luz do mundo

       “Vós sois o sal da terra. Mas se ele perder a força, com que há-de salgar-se?... Vós sois a luz do mundo…” (Mt 5, 13-16).

       O cristão está no mundo, não para se deixar levar pela corrente, pelas modas do momento, mas para se tornar agente transformador, por palavras e obras, dando tempero e sentido ao mundo, para louvor e glória de Deus Pai.

 

3 – Plenitude da Lei: a caridade

       “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas completar” (Mt 5, 17-37).

       A Lei de Moisés e o ensinamento dos Profetas preparam-nos para aspirar às coisas do alto. A plenitude da Lei é a caridade. Quando cumprimos porque somos obrigados por tradição, ou cumprimos porque outros cumprem, acabamos por nos enfadar. A vivência da Lei há-de radicar na caridade ao jeito de Jesus predispondo-nos a dar a vida pelos outros, por todos.

 

       4 – Oferece também a outra face

       “Ouviste que foi dito aos antigos: ‘olho por olho e dente por dente’. Eu, porém, digo-vos: … se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda… amai os vossos inimigos” (Mt 5, 38-48).

       Como é difícil amarmos os nossos inimigos e rezarmos por eles, mas é essa precisamente a exigência de Jesus Cristo. Pagar o mal com o bem, com a caridade fraterna, sempre!

 

5 – Não podeis servir a dois senhores

       “Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo… não vos inquieteis com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã tratará das suas inquietações. A cada dia basta o seu cuidado” (Mt 6, 24-34).

       A confiança em Deus e na Sua providência há-de ser, para todo o crente, um projecto de vida. Só a Ele devemos servir, para n’Ele nos encontrarmos com os outros… e viver hoje… o amanhã é de Deus!

 

6 – Edificar a vida sobre a rocha

       “Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino dos Céus mas só aquele que faz a vontade de meu Pai que estás nos Céus” (Mt 7,21-27).

       Não bastam boas intenções, mas a vivência concreta e quotidiana da fé, traduzida em boas obras. De novo, a caridade como a autêntica expressão da fé.


20
Fev 11
publicado por mpgpadre, às 13:28link do post | comentar |  O que é?

       1 – O Sermão da Montanha coloca-nos mais uma vez no alto da montanha, ao redor de Jesus, como discípulos deste tempo, para escutar os Seus ensinamentos, para nos deixarmos tocar pelo Seu olhar, para nos deixarmos envolver pelo Seu entusiasmo, pela Sua presença luminosa. As Bem-aventuranças remetem-nos para a radicalidade do seguimento de Jesus, até mesmo no sofrimento; depois Jesus disse-nos claramente que somos no mundo o que o sal é para o alimento e a luz para o nosso andar. No domingo passado, ouvimo-l'O a contrapor a caridade à letra da Lei; Ele não vem para revogar a Lei mas para a levar à plenitude. A plenitude é a vivência da caridade, em todas as situações, em todos os momentos.

       Hoje, Jesus volta a acentuar a dinâmica da caridade, expressa na tolerância e sobretudo no perdão sem condições: "Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Olho por olho e dente por dente’. Eu, porém, digo-vos: Não resistais ao homem mau. Mas se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda... Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus; pois Ele faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos".

       Não existem reservas nem desculpas, a caridade e o perdão são a única opção do cristão, daquele e daquela que quer imitar Jesus Cristo, o Mestre dos Mestres.

 

       2 – A mesma orientação é dada por Deus a Moisés, como podemos escutar na primeira leitura, "O Senhor dirigiu-Se a Moisés nestes termos: «Fala a toda a comunidade dos filhos de Israel e diz-lhes: ‘Sede santos, porque Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo’. Não odiarás do íntimo do coração os teus irmãos, mas corrigirás o teu próximo, para não incorreres em falta por causa dele. Não te vingarás, nem guardarás rancor contra os filhos do teu povo. Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor».

       Com efeito, o respeito, a generosidade e a caridade para com o próximo há-de tornar-se uma prática constante dos membros do povo de Israel e assim também do novo povo eleito, a Igreja e os cristãos. Por um lado, não guardar rancor, não ter sentimentos e/ou gestos de ódio e de vingança para com os irmãos. Por outro lado, corrigir os erros dos irmãos, ajudá-los a regressar ao bom caminho, para que todos possamos ser santos como o Senhor nosso Deus é santo.

       O mandamento do amor ao próximo como a nós mesmos tornar-se manifesto como exigência permanente do crente.

 

       3 – A prática da caridade, da tolerância, do bem, integra este nosso projecto de santidade. Todos somos chamados à santificação no lugar em que nos encontramos e nas actividades/profissões/ocupações que realizamos.

       Diz-nos o Apóstolo, na segunda leitura, "Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o templo de Deus é santo, e vós sois esse templo".

       Lembremo-nos das palavras de Deus a Moisés, "sede santos, porque Eu, o Senhor, sou santo". Não é um acessório da vida crente ou um projecto dos religiosos e religiosas, das pessoas consagradas, é uma vocação universal de todos os baptizados.

       A santidade começa no nosso íntimo, na identificação com a santidade de Deus, na imitação de Jesus Cristo. Como Ele foi templo, habitação, morada de Deus, assim cada um de nós, seus seguidores, havemos de nos tornar verdadeiras moradas de Deus, para que depois a nossa relação com o próximo se faça para louvor e glória de Deus, na comunhão, na partilha, no perdão, na caridade sem fim, exactamente ao jeito de Jesus Cristo.

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Textos para a Eucaristia (ano A): Lv 19, 1-2.17-18; 1 Cor 3, 16-23; Mt 5, 38-48.

 


13
Fev 11
publicado por mpgpadre, às 17:43link do post | comentar |  O que é?

     1 – "Os antigos disseram... porém Eu digo-vos". Nesta antítese, Jesus propõe uma mudança de mentalidade, não para desfazer o que de bom a humanidade construiu, e em particular o povo da eleição, mas para levar à plenitude. Com efeito, o próprio Jesus nos diz: "Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas completar..."

       A plenitude da Lei é o amor. O Evangelho deste domingo di-lo claramente. Por um lado não é uma ruptura sem história nem memória, mas uma ruptura que introduz uma atitude diferente, nova, dinâmica, que não se prende a convenções exteriores, mas se abre ao amor, se abre a Deus.

       Ao lermos atentamente a Sagrada Escritura, vemos que o Povo judeu tinha leis extraordinariamente equitativas, justas, e mesmo generosas, prevendo, por exemplo, que ninguém fosse indefinidamente privado dos seus direitos, dos seus haveres ou da sua condição livre, sancionando a devolução jubilar dos bens e da condição familiar. No entanto, há muitos aspectos em que sobrevém a lei de talião, ou seja, olho por olho, dente por dente. Jesus acentua a caridade que nos vem de Deus, a conciliação, uma justiça que não seja apenas retributiva, mas seja solidária e benevolente.

       A atitude de Jesus tornar-nos-á criativos. Não podemos esperar que os outros nos façam bem, para nós lho fazermos também, antecipemo-nos no bem. Não esperemos pelas desculpas de quem nos ofendeu, tomemos a iniciativa de ir ao seu encontro: "Portanto, se fores apresentar a tua oferta sobre o altar e ali te recordares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar, vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão".

 

       2 – Uma das verdades insofismáveis no cristianismo é que Deus nos criou por amor, para sermos felizes, mas tal como os pais não se substituem aos filhos nas suas escolhas e nos seus percursos de vida, mesmo que sofram pelo sofrimento dos seus filhos, também Deus não nos trata como marionetas, pois criou-nos livres e respeita a nossa liberdade, incondicionalmente. Aceita a nossa escolha, e mesmo a nossa recusa, aceita que até possamos excluí-l'O da nossa vida, ou que nos ponhamos contra Ele, ou vivamos como se Ele não existisse.

       "Deus pôs diante de ti o fogo e a água: estenderás a mão para o que desejares. Diante do homem estão a vida e a morte: o que ele escolher, isso lhe será dado... Não mandou a ninguém fazer o mal, nem deu licença a ninguém de cometer o pecado" (Primeira Leitura).

       A escolha é nossa. Mas a certeza de que Ele Se coloca do nosso lado é reconfortante e é uma garantia que a opção pela vida nos conduzirá a Ele, à felicidade, neste mundo e para a eternidade.

       A escolha do bem envolve-nos a luminosidade de Deus, na descoberta da Sua presença e do Seu amor na nossa existência terrena e quotidiana: "Felizes os que seguem o caminho perfeito e andam na lei do Senhor. Felizes os que observam as suas ordens e O procuram de todo o coração" (Salmo).

 

       3 – A opção por Jesus Cristo e pelo Evangelho da caridade e do perdão é convite à simplicidade, à transparência, à alegria nas pequenas coisas.

       São Paulo, depois da conversão e da Sua adesão a Jesus Cristo, tornou-se o Apóstolo por excelência, procurando que a Palavra de Deus passasse através das suas palavras muito humanas e muitos simples e através dos seus gestos. "Falamos da sabedoria de Deus, misteriosa e oculta, que já antes dos séculos Deus tinha destinado para a nossa glória". Para nos tornarmos servidores da verdade, servidores da Palavra de Deus, a nossa linguagem tem de assomar a sabedoria de Deus, ou como nos diz Jesus a nossa "linguagem deve ser: ‘Sim, sim; não, não’". E assim também a nossa relação com os outros.

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Textos para a Eucaristia (ano A): Sir 15, 16-21 (15-20); Sl 118 (119); 1 Cor 2, 6-10; Mt 5,17-37

 


25
Jan 11
publicado por mpgpadre, às 10:30link do post | comentar |  O que é?

       «Que significa amar?

       Amar um ser é esperar nele para sempre.

 

       Amar um ser é não o julgar; julgar um ser é identificá-lo com aquilo que dele se conhece: «Agora, conheço-te. Agora julgo-te. Sei aquilo que vales»... Isto representa matar um ser.

 

       Amar um ser é esperar sempre dele algo de novo, algo de melhor.

 

       Se bem leio no Evangelho, poderei concluir da maneira pela qual Jesus saiu ao encontro dos homens e os amou e enriqueceu, que Ele sempre os considerou crianças, crianças que não haviam crescido convenientemente, que não haviam sido suficientemente amadas.

      

       Cristo nunca os identificou com aquilo que tinham feito até então.

 

       Pensai, por exemplo, em Maria Madalena: Cristo esperava dela algo que ninguém tinha conseguido descobrir e amou-a tanto, perdoou-lhe tão generosamente que dela obteve o amor mais puro e mais fiel e, admirados, todos à sua volta comentavam: «Será possível que ela seja assim?! Tínhamo-la julgado, pensávamos conhecê-la, haviamo-la condenado e tudo porque nunca fora convenientemente amada...»

       Cristo amou-a com tal perfeição que a tornou aquilo que os outros, pobres e desconfiados, demasiado avarentos de amor, não tinham sido capazes de suscitar nela.

 

       Cristo aguardava, esperava tudo de toda a gente. Fazia surgir, ao Seu redor, vocações, amizades e generosidades; e todos os que supunham conhecer de longa data aqueles personagens, ficavam atónitos: «Como? Zaqueu tornou-se generoso? Maria Madalena tornou-se pura e fiel? Tomé tornou-se crente? Mateus, o publicano, feito Apóstolo? E todos esses pobres, todos esses pecadores se transformaram em apóstolos e santos?... Como é possível?»

 

       Alguém os tinha amado, tinha acreditado neles.

       Alguém não havia repetido o que nós dizemos: «Não há nada a fazer dele, nada se conseguirá. Tentei tudo. Não quero tornar a vê-lo. Não volto a escrever. É perder tempo...»

       Cristo foi ao encontro de cada um deles, dizendo: «Só porque não foi amado o bastante é que se tornou assim mau. Se o amassem mais, seria melhor. Se tivessem sido mais delicados, mais generosos, mais afectuosos para com ele, ele teria conseguido libertar-se daquela armadura, daquela carapaça de que se revestiu para não sofrer tanto»...

 

Louis Evely, em "Fraternidade e Evangelho", in Abrigo dos Sábios.


23
Nov 10
publicado por mpgpadre, às 10:22link do post | comentar |  O que é?

Eu, peregrino. Ele o caminho.

 Eu, a pergunta. Ele a resposta.

 Eu, a sede. Ele a fonte.

 Eu, tão fraco. Ele a força.

 Eu, as trevas. Ele a luz.

 Eu, o pecado. Ele o perdão.

 Eu, a luta. Ele a vitória.

 Eu, o inverno. Ele o sol.

 Eu, doente. Ele o milagre.

 Eu, o grão de trigo. Ele o pão.

 Eu, a procura. Ele, o endereço.

 Meu passado e meu presente: em suas mãos. 

Meu futuro: todo d'Ele.

 Eu, no tempo... 

E CRISTO a Eternidade!!!

 

autor desconhecido, postado a partir do nosso CARITAS IN VERITATE.


28
Ago 10
publicado por mpgpadre, às 10:42link do post | comentar |  O que é?

       «O coração alcança paz quando, depois de ter sido ferido ou humilhado, confia a Deus, sem hesitar um instante sequer, aqueles que o feriram ou maltrataram.

 

       Não perdoamos para que o outro mude.

       Seria um acto calculista que nada tem a ver com a gratuidade do amor evangélico.

Perdoamos por causa de Cristo.

Perdoar é ir ao ponto de renunciar saber o que o outro vai fazer desse perdão

 

Irmão Roger, em "Em tudo a paz do coração", in Conhecer e Seguir Jesus.


26
Jul 10
publicado por mpgpadre, às 20:47link do post | comentar |  O que é?
       1 – "Pedi e dar-se-vos-á; procurai e encontrareis; batei à porta e abrir-se-vos-á. Porque quem pede recebe; quem procura encontra e a quem bate à porta, abrir-se-á" (Evangelho).
       Os discípulos pedem a Jesus que os ensine a rezar e Jesus responde com a mais bela e simples oração conhecida. Em que em breves palavras desvenda-se todo o conteúdo do Evangelho. Uma certeza nos dá Jesus: a oração tem os seus efeitos e sempre é atendível por Deus.
       Como o Pai ou a Mãe que sempre procuram responder favoravelmente aos filhos, assim Deus não deixa de Se compadecer de todos aqueles que a Ele recorrem de coração sincero. Não são necessárias muitas palavras, mas que estas saltem do coração, orientadas para o nosso e para o bem alheio.
       "Pedi e recebereis", é a certeza que Jesus deixa aos discípulos de todos os tempos.
       2 – Na primeira leitura, Abraão como que testa a paciência e bondade de Deus. Dessa forma, Abraão revela a todo o povo a sua fé num Deus bom, generoso, pronto a perdoar e a compreender as limitações humanas, disponível para ir sempre mais longe.
       O povo de Sodoma e Gomorra vive no pecado e, na linguagem simbólica da Palavra de Deus, são merecedores do castigo. Abraão intercede em atenção a 50 justos, quarenta, trinta, em atenção a 10 justos, para que não sejam castigados os justos pelos pecadores. Deus responde: "Em atenção a esses dez, não destruirei a cidade".
       Na continuação da Leitura, pode ver-se que nem cinco justos havia na cidade, e estes são salvos partindo para outra terra.
       No contexto circundante, Deus é todo-poderoso, irado, pronto a destruir, a castigar, inimigo do ser humano. Com Abraão, é-nos revelado um rosto mais humano de Deus, benevolente, pronto para a misericórdia. Abraão aproxima-se do rosto que muitos séculos depois será revelado por Jesus: Deus como Pai.
       A mesma confiança em Deus é demonstrada pelo salmista: "A vossa mão direita me salvará, o Senhor completará o que em meu auxílio começou. Senhor, a vossa bondade é eterna, não abandoneis a obra das vossas mãos".
 
       3 – Este amor sem limites, com efeito, revela-se plenamente em Jesus Cristo. O Filho de Deus revela-nos que Deus é Pai e que diante d'Ele somos irmãos. A oração do Pai-nosso assume esta revelação e este compromisso, como filhos tornarmo-nos verdadeiramente irmãos, na construção de um mundo mais justo e fraterno, fazendo do amor e do perdão as armas que nos aproximam uns dos outros.
       "Quando orardes, dizei: ‘Pai, santificado seja o vosso nome; venha o vosso reino; dai-nos em cada dia o pão da nossa subsistência; perdoai-nos os nossos pecados, porque também nós perdoamos a todo aquele que nos ofende; e não nos deixeis cair em tentação’".
       E como nos tornamos filhos e herdeiros em Jesus Cristo?
       Pela Sua morte e ressurreição, como nos lembra São Paulo. "Sepultados com Cristo no baptismo, também com Ele fostes ressuscitados pela fé que tivestes no poder de Deus que O ressuscitou dos mortos" (Segunda Leitura). É este o mistério maior da nossa fé, e que nós tornamos presente em cada Sacramento, em particular no da Eucaristia, mas desde logo no Sacramento do Baptismo, no qual através da água e sobretudo do Espírito Santo nos tornamos novas criaturas para Deus.
       A nossa oração é filial. Jesus, como O tinha anunciado, intercede por nós junto do Pai, através do Espírito de Amor. É d'Ele que vem a nossa confiança em Deus, mas é uma confiança comprometida/partilhada com o nosso semelhante.

______________________________________

Textos para a Eucaristia (ano C): Gen 18,20-32; Salmo 137 (138); Col 2,12-14; Lc 11,1-13

 


28
Jun 10
publicado por mpgpadre, às 10:20link do post | comentar |  O que é?

       1 – O seguimento de Jesus pode e deverá realizar-se em diferentes estados de vida e em opções diversas, mas a radicalidade desse seguimento há-de fazer-nos voltar toda a nossa vida para Cristo e para o Seu Evangelho de caridade.

       Não podemos contemporizar com as injustiças, com as guerras, com a corrupção, com a exploração dos mais pobres, com a indiferença diante do atropelo dos direitos humanos.

       Recorda o Apóstolo, "pela caridade, colocai-vos ao serviço uns dos outros, porque toda a Lei se resume nesta palavra: Amarás o teu próximo como a ti mesmo». Se vós, porém, vos mordeis e devorais mutuamente, tende cuidado, que acabareis por destruir-vos uns aos outros".

 

       2 – Se o Senhor Deus é a porção da nossa herança, então acertaremos o nosso passo pela palavra de Deus. O salmo que nos é proposto para hoje é extremamente significativo. Refere-se à vocação sacerdotal da tribo de Levi, que não tinha terras nem bens materiais, mas dependia inteiramente do templo e das ofertas feitas pelas outras tribos de Israel.

       Mas se é a realidade da tribo sacerdotal é também um desafio a cada um de nós, para que Deus ocupe o primeiro lugar da nossa vida. Não O coloquemos em estantes do esquecimento até que precisemos d'Ele, mas seja a primeira opção, a principal escolha e veremos que ao entregarmo-nos de coração ao Senhor nada perdemos, pelo contrário aprenderemos a saborear a vida de uma forma mais positiva.

 


21
Jun 10
publicado por mpgpadre, às 10:44link do post | comentar |  O que é?
       1 – A CRUZ é um lugar de encontro, de partilha, de desafio, é um lugar de salvação.
Paira sobre o cristão não como "machado" de sacrifício, sofrimento e morte, mas como ceptro de alegria, de paz, de esperança e de amor. Jesus Cristo salva-nos a partir da Cruz que é, sempre e antes de mais, expressão do amor de Deus. Ao primeiro olhar a dúvida e a incerteza: quererá Deus que os seguidores de Cristo sofram como Ele?
       Ao deixarmo-nos olhar por Ele, vemos claramente que se trata de amor, de paixão pela humanidade. O seu suplício é voluntarioso, vicarial, substitui-nos. É Ele que decide dar a vida. Tendo poder para Se livrar de todo o sofrimento, assume por amor, elevando à radicalidade a Sua entrega. Poderia ser de outra maneira, mas foi assim. Podia fugir. Optou por viver na verdade, na caridade e na oblação, realizando a vontade de Deus Pai. Diga-se que a vontade de Deus não é a morte de Jesus, mas a entrega, o amor, a vida.
       A crucifixão é o epílogo na vida de Jesus: amando, fazendo o bem, pregando a verdade, acolhendo os mais débeis, escolhendo o perdão e a partilha solidária. Ele não vira as costas nem às pessoas, nem à verdade. Procura sempre viver do amor de Deus para nos conduzir ao amor de Deus.
       2 – Quando contemplamos a CRUZ, na verdade de nossas vidas, envolvemo-nos com Jesus, comprometemo-nos com o seu projecto de salvação. Acolhemos o Seu amor, para vivermos na Sua paz, para progredirmos na Sua santidade, para amarmos sem medida, caminhando para a eternidade.
       É certo que na Cruz também estão as nossas lágrimas. Também nós O levamos, com o nosso pecado e com a nossa treva, até ao lenho da cruz. "Ao olhar para Mim, a quem trespassaram, lamentar-se-ão como se lamenta um filho único, chorarão como se chora o primogénito". No entanto, Deus dá-nos novas oportunidades: "Sobre a casa de David e os habitantes de Jerusalém derramarei um espírito de piedade e de súplica. Naquele dia, jorrará uma nascente para a casa de David e para os habitantes de Jerusalém, a fim de lavar o pecado e a impureza" (1.ª leitura).
       A identidade do cristão passa pela CRUZ. Primeiro Ele, nós como seguidores. Não para sofrer, mas para nos perdermos no Seu AMOR: "Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-Me. Pois quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, salvá-la-á" (Evangelho).
       3 – A morte e a ressurreição de Jesus é o conteúdo central e essencial da fé cristã. Em cada Eucaristia, na qual o pão e o vinho, por acção do Espírito Santo, se convertem em Corpo e Sangue de Jesus, anunciamos, actualizamos, tornamos presente este grande mistério da nossa fé. Mas também em cada celebração cristã, na palavra proclamada, nos gestos, nas orações, em tudo anunciamos e vivemos na morte e ressurreição de Jesus.
       Com efeito, "Todos vós sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo, porque todos vós, que fostes baptizados em Cristo, fostes revestidos de Cristo" (2.ª leitura). Fomos/somos baptizados na morte e ressurreição de Jesus. E se todos somos baptizados em Cristo, todos somos filhos. É n'Ele que nos comprometemos com os outros, com o mundo, com a história.
       Não basta saber o que é o cristianismo, ou quem é Jesus Cristo. É inevitável, como discípulos seus, respondermos por nós, deixarmo-nos interpelar por Ele: "E vós, quem dizeis que Eu sou?" (Evangelho). Cabe-nos responder com a vida.


14
Jun 10
publicado por mpgpadre, às 15:18link do post | comentar |  O que é?
       O perdão é a marca do cristão. Não se compreende a mensagem de Jesus Cristo e, consequentemente, dos seus discípulos, sem o perdão, como expressão da caridade, como desafio permanente à humildade diante de Deus e à compreensão na relação com o semelhante.
       Ao longo de toda a vida pública, Jesus mostra como o perdão, enquanto expressão do amor, é essencial para construir uma comunidade justa e fraterna. A experiência de perdão passa pelas suas palavras e sobretudo pelos seus gestos de acolhimento. Para Ele não há pessoas boas ou pessoas más, mas todos são filhos de Deus e dignos de serem reconhecidos como tal, dignos de perdão e de amor.
       Vemos como muitas pessoas são afastadas da convivência social, política, religiosa. Mas vemos também como Jesus as acolhe. Diante de alguns murmúrios, Jesus aproveita a oportunidade para nos lembrar que todos somos igualmente limitados, falíveis e pecadores.
       O perdão não é apenas uma atitude de benevolência para o agressor, mas é uma forma de equilíbrio e de saúde. Quando alguém insiste na vitimização e se concentra no "agressor" pode passar a viver em função do seu inimigo, acordar, adormecer e sentar-se à mesa com o inimigo. Perdoar liberta a pessoa que perdoa do rancor, da melancolia, da tristeza e do desgaste que tal concentração provoca.
       Quando Jesus fala do perdão sabe que nem sempre é fácil. Por vezes a ofensa é de tal ordem que é muito difícil perdoar. Mas é a única atitude do crente. Faz-nos bem à saúde. E se há humildade no pedir perdão, há igualmente humildade e generosidade em quem perdoa. Perdoar é aceitar a limitação própria e a limitação alheia, aceitar-se pecador e aceitar que o outro é meu irmão e que também pode errar.
       Obviamente o perdão não apaga a necessidade da justiça e de repor a verdade.
       Perdoar também não significa esquecer. Esquecer tem a ver com a memória. Perdoar tem a ver com a vontade.
       Perdoar não é converter o mal em bem. O mal não passa a ser bem porque perdoo, continua a ser mal. Perdoar é aceitar (não o mal mas) a pessoa pecadora e querer que ela viva e seja feliz, apesar do mal que me fez.
       Perdoar não exige iniciativa do outro, que ele venha pedir perdão, mas parte da pessoa que perdoa, é uma decisão que está para lá da decisão do agressor, perdoa independentemente de o outro pedir ou não pedir perdão. De contrário, a pessoa ofendida dependia da vontade do ofensor.


22
Mai 10
publicado por mpgpadre, às 10:52link do post | comentar |  O que é?

 

«O perdão,

o acto de amar o inimigo,

assim como perdoar a si mesmo

não é um evento repentino,

uma mudança rápida de ânimo.

 

A maior parte do tempo é um processo longo,

que se inicia com o desejo de sermos livres,

de nos aceitarmos como somos

e de crescermos no amor por aqueles que são diferentes

e por aqueles que nos magoaram

ou aparecem como nossos rivais.

 

É o processo de sairmos da prisão das nossas simpatias e antipatias,

dos nossos ódios e medos,

e caminharmos para a liberdade e para a solidariedade.

No processo de libertação pode ainda haver inibições,

ressentimentos e raiva,

mas há também este desejo crescendo de ser livre.»

 

Jean Vanier, postado de "Abrigo dos Sábios".


30
Abr 10
publicado por mpgpadre, às 12:29link do post | comentar |  O que é?

Vivia um monge nas proximidades do templo de Shiva. Na casa em frente, morava uma prostituta. Observando a quantidade de homens que a visitavam, o monge resolveu chamá-la.

 

– Você é uma grande pecadora – repreendeu-a. – Desrespeita Deus todos os dias e todas as noites. Será que não consegue parar e reflectir sobre a vida depois da morte?

A pobre mulher ficou muito abalada com as palavras do monge; com sincero arrependimento, orou a Deus, implorando perdão. Pediu também que o todo-poderoso a fizesse encontrar uma nova maneira de ganhar o seu sustento. Mas não encontrou nenhum trabalho diferente. E, após uma semana a passar fome, voltou a prostituir-se. Mas cada vez que entregava o corpo a um estranho, rezava ao Senhor e pedia perdão.

O monge irritado porque o seu conselho não produzira nenhum efeito, pensou consigo mesmo: – a partir de agora vou contar quantos homens entram naquela casa, até ao dia da morte daquela pecadora.

Desde esse dia, ele não fazia outra coisa a não ser vigiar a rotina da prostituta: a cada homem que entrava, colocava uma pedra num monte.

Passado algum tempo, o monge tornou a chamar a prostituta e disse-lhe:

– Vê este monte? Cada pedra destas representa um dos pecados mortais que você cometeu, mesmo depois das minhas advertências. Agora, torno a dizer: cuidado com as más acções!

A mulher começou a tremer, percebendo como se avolumavam: ir os seus pecados. Ao voltar para casa, derramou lágrimas de sincero arrependimento, orando:

– Ó Senhor, quando é que a Vossa misericórdia irá livrar-me desta miserável vida que levo?

A sua prece foi ouvida. Naquele mesmo dia, o anjo da morte passou por sua casa e levou-a. Por vontade de Deus, o anjo atravessou a rua e também carregou o monge consigo.

A alma da prostituta subiu imediatamente aos Céus, enquanto os demónios levaram o monge ao Inferno. Ao cruzarem-se no meio do caminho, o monge viu o que estava a acontecer, e clamou:

– Senhor, esta é, a Tua justiça? Eu, que passei a minha vida em devoção e pobreza, agora sou levado ao Inferno, enquanto esta prostituta, que viveu em constante pecado, está a subir ao Céu!

Ouvindo isto, um dos anjos respondeu:

– São sempre justos os desígnios de Deus. Você achava que o amor de Deus se resumia a julgar o comportamento do próximo.

Enquanto você enchia o seu coração com a impureza do pecado alheio, esta mulher orava fervorosamente dia e noite. A alma dela ficou tão leve depois de chorar, que podemos levá-la até ao Paraíso. A sua alma ficou tão carregada de pedras, que não conseguimos fazê-la subir ao alto.

 

Paulo Coelho, in Lux, 15 de Novembro de 2004


26
Abr 10
publicado por mpgpadre, às 10:03link do post | comentar |  O que é?

       Diz uma lenda árabe que dois amigos viajavam pelo deserto e em determinado ponto da viagem, discutiram e um deu uma bofetada no outro. O outro, ofendido, sem nada poder fazer, escreveu na areia:

       - Hoje, o meu melhor amigo deu-me uma bofetada no rosto.

       Seguiram adiante e chegaram a um oásis onde resolveram banhar-se. O que havia sido esbofeteado e magoado começou a afogar-se, sendo salvo pelo amigo.

       Ao recuperar, pegou num canivete e escreveu numa pedra: Hoje, o meu melhor amigo salvou minha vida. O outro amigo perguntou:

       - Por que é que, depois que te magoei, escreveste na areia e agora, escreveste na pedra? 

       Sorrindo, o outro amigo respondeu: 

       - Quando um grande amigo nos ofende, devemos escrever onde o vento do esquecimento e o perdão se encarreguem de apagar a lembrança. Por outro lado, quando nos acontece algo grandioso, devemos gravar isso na pedra da memória do coração onde vento nenhum poderá apagá-lo.

 

        Só é necessário um minuto para que simpatize com alguém, uma hora para gostar de alguém, um dia para querer bem a alguém, mas precisa de toda uma vida para que possa esquecê-lo.


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