...espaço de discussão, de formação, de cultura, de curiosidades, de interacção. Poderemos estar mais próximos. Deus seja a nossa Esperança e a nossa Alegria...
22
Out 17
publicado por mpgpadre, às 18:00link do post | comentar |  O que é?

IGNACIO LARRAÑAGA (2013). O Pobre de Nazaré. O que precisamos de saber sobre Jesus. 4.ª Edição. Prior Velho: Paulinas Editora. 400 páginas.

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Durante 3 anos, Jesus espalhou magia por aldeias e cidades da Galileia, fez-Se docilidade, agiu compassivamente, desafiou os grandes deste mundo, mas também os excluídos, aqueles para descobrirem a grandeza e a alegria do serviço, este para se sentirem filhos queridos de Deus, com dons que os tornariam importantes. As lideranças judaicas viram-se acossadas não apenas pelas palavras de Jesus mas sobretudo pela Sua postura. Por inveja e ciúme, porque Ele atraía multidões; por medo e cobardia, porque se sentiram ameaçados no seus postos de conforto e privilégio. Foi entregue por um dos discípulos mais próximos, Judas, preso, violentamente agredido, escarnecido, obrigado a carregar a trave da cruz, para nela ser crucificado, andou de Anás para Caifás, ridicularizado, injuriado, acusado de blasfémia e por instigar a revolução, é morto como uma assassino.

Entretanto algo de extraordinário deverá ter acontecido, três dias depois de morto apresenta-Se vivo aos Seus discípulos, às mulheres que andavam com o grupo. Os discípulos deixam de se guiar pelo medo, para se guiarem por uma vontade indómita de anunciar Jesus, de mostrar que Ele está vivo, que morreu e ressuscitou, que o Pai não O deixou para sempre no túmulo do esquecimento, para o resgatou para uma vida nova, gloriosa, definitiva, para a qual também somos atraídos.

A pregação "convincente" e coerente dos Apóstolos geram novos discípulos, à dezenas, às centenas, nem sempre fáceis de gerir, pois trazem interesses e motivações diversas, como ao tempo de Jesus os discípulos e as multidões que O seguiam. Formam-se grupos, comunidades, onde se escutam os Apóstolos, recordando palavras de Jesus, feitos, milagres, gestos, encontros, onde se procura manter viva a recordação de tudo quanto diz respeito a Jesus. Os Evangelhos são uma resposta a esta inquietação de preservar tudo quanto diz respeito a Jesus. Os evangelistas recolhem testemunhos, algumas orações, ou pequenos textos e colocam por escrito. Os Evangelhos, podemos dizer com segurança, são escritos pela comunidade, mais do que por um escritor individual, pois resultam da vivência da mensagem de Jesus numa determinada comunidade, num determinado contexto. Os evangelhos escritos contém as preocupações da comunidade, as suas dificuldades, os seus pontos fortes. Também aqui se pode dizer que não há comunidade sem Evangelho, a Boa Nova de Jesus, mas o Evangelho chega até nós pelo filtro e pela vivência de comunidades concretas.

A formação dos Evangelhos tem então esta sequência, Jesus é morto e é ressuscitado pelo Pai. Os discípulos anunciam'O vivo, atraem outras a seguir Jesus, formam-se comunidades, onde se recorda tudo o que aconteceu sobretudo naqueles três anos de vida pública de Jesus. Surge a necessidade de colocar por escrito, para que não se percam as Suas palavras e não se corram o risco do esquecimento, pois também um dia os Apóstolos hão de morrer e então já não há como confrontar o que corresponde à mensagem de Jesus e o que não corresponde.

São quatro as versões do Evangelho, mas ainda assim há muitas "lacunas" na biografia de Jesus, até porque os evangelhos não têm a preocupação de fazer biografias, mas de mostrar o essencial da mensagem de Jesus, concentrados sobretudo no mistério da morte e da ressurreição de Jesus.

Ao longo do tempo, mas sobretudo a partir do século XVIII houve a preocupação de escrever e publicar a Vida de Jesus, onde se limassem todas as lacunas temporais, reconstituindo a vida de Jesus, tentando fazer concordar os 4 evangelhos, entrelaçando-os. Algumas vidas de Jesus desviam-se dos Evangelho e criam biografias alternativas, baseadas nos evangelhos apócrifos ou em algumas insinuações ou lendas criadas com o decorrer do tempo.

Hoje o que há mais, e vende muito bem, são biografias alternativas à vida de Jesus.

Ignacio Larrañaga apresenta de forma brilhante, escorreita, uma narrativa possível da vida de Jesus, tendo como base próxima os 4 evangelhos e os outros escritos neotestamentários, procurando lançar pontes com a história, com descobertas arqueológicas, com outras ciências que nos aproximam dos nossos antepassados.

É uma escrita fácil de ler, quase se escuta a sua leitura, envolve-nos nos evangelhos, no olhar, nas palavras, nos gestos de Jesus, inclui-nos nas Palavra que também nos dirige a nós, podemos rever-nos nas perguntas que Lhe fazem ou nas respostas que lhes (nos) dá e nos desafios que lhes (nos) lança.

São 400 páginas que parecem 10, tão motivadora e empolgante é a leitura. É uma linguagem acessível para todos.

Uma nota mais pessoal, mas que tem ganhado terreno: Judas não trai Jesus por dinheiro ou por ânsia de poder (num sentido mais pessoal), mas por zelo, querendo que Jesus Se resolva e apresse o Reino de Deus, eliminando rapidamente todos os corruptores, derrubando as autoridades estrangeiras e restabelecendo a realeza judaica. Judas acredita em Jesus e sabem que Ele vem de Deus e pode fazer mais do que aquilo que estará disposto a mostrar. Quando Jesus anuncia aos Seus discípulos que vai ser morto - contrário do que seria expectável por todos - Judas coloca-se em ação para O obrigar a agir. Judas é um dos discípulos mais próximos de Jesus. A cumplicidade de Judas com Jesus não espanta nenhum dos outros apóstolos, é natural, são bons amigos. O facto de Judas se enforcar denota o seu arrependimento, isto é, se ele fosse traidor (por dinheiro ou para usurpar o poder da liderança), então dar-se-ia por satisfeito. Segundo o autor, Judas é maníaco depressivo. Mais que traição uma tática para obrigar Jesus a ser Deus. Porém, Jesus assume o caminho da pobreza, é o Pobre de Nazaré, aprende a obediência, até à morte e morte de Cruz. Serviço, delicadeza, oferecimento da própria vida, despojamento, amor...


27
Jul 17
publicado por mpgpadre, às 16:00link do post | comentar |  O que é?

TOMÁŠ HALÍK (2014). A noite do Confessor. A fé cristã numa era de incerteza. Prior Velho: Paulinas Editora. 336 páginas.

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O autor viveu na clandestinidade, como cristão, sendo ordenado sacerdote também clandestinamente. O comunismo foi abafando a fé, a religião, o cristianismo. Segundo muitos, a fé torna-se mais combativa em ambientes adversos. Contudo, o autor afirma que o muito tempo a doutrinar os cidadãos contra a fé, contra o cristianismo, desvalorizando os seus valores e ideais fazendo desaparecer símbolos e sinais, pode conduzir à sua insignificância para gerações que viveram longe da fé e do cristianismo. Um mentira tantas vezes repetida passa por verdade. Os sinais visíveis desaparecem, as lembranças tornam-se mais ténues, deixa de haver "necessidade", outros deuses invadem o vazio deixado pela religião que, quando volta à liberdade, já foi substituída.

O autor testemunha a fé como caminho, nem sempre fácil, e contacto com outras religiões e outras sensibilidades e num Ocidente invadido por milhentas ofertas, também religiosas, por vezes oferece-se Deus como se fosse um feira. O autor parte do princípio que Deus não mora à superfície, quem nem sempre há respostas fáceis para as dificuldades, para o caminho difícil da morte de um familiar, de uma doença crónica, de uma desgraça provocada, como o ataque às Torres Gémeas, ou uma catástrofe natural que destrói famílias ou cidades inteiras.

Há momentos que o silêncio e a oração profunda é o que nos resta. E a esperança. Jesus revela-nos um Deus que é Pai, mas ainda assim que não impede o Seu nem o nosso sofrimento.

Terrorismo. Duas guerras mundiais. Tráfico de armas e de seres humanos. Pobreza extrema ao lado de ganância.

Tomáš Halík fala num segundo fôlego da fé, do cristianismo, num tempo mais fragmentado, com mais perguntas e tantas respostas. Um segundo fôlego para os cristãos que já nasceram cristãos e que entretanto procuraram respostas em outras vidas, outras filosofias ou outras religiões e que voltaram à Igreja. Não um regresso ao passado, mas um caminho de amadurecimento... como filhos pródigos, voltam para reconhecerem o verdadeiro e autêntico e agora enriquecidos pelo caminho percorrido. O diálogo ecuménico e interreligioso é também uma oportunidade. Não se trata de sincronismo, ou de diluição de uma nas outras religiões, mas a certeza do que o que é verdadeiro, bom, autêntico, em cada profissão de fé, nos há de enriquecer nas nossas convicções. Alguém que não tem convicções, que desconhece a sua fé, então irá para onde o vento for favorável.

O diálogo autêntico entre religiões ou entre confissões cristãs só é possível com pessoas comprometidas, capazes de darem as razões da sua esperança, promovendo a paz, a justiça, a solidariedade.

Vale a pena ler as palavras do autor:

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Tomáš Halík - Dá-nos um pouco de fé

Vieste aqui não para adquirir algo, mas para te libertares de muitas coisas», disse um velho e experiente monge a um noviço que o procurara no mosteiro. Ontem lembrei-me destas palavras, quando voltei a entrar no eremitério, pela primeira vez desde há um ano. E o mesmo pensamento assomou à minha mente esta manhã, ao meditar sobre a passagem do Evangelho em que os discípulos pedem a Jesus: «Aumenta a nossa fé!»; e Jesus replica: «Se tivésseis fé como um grão de mostarda...»

De repente, este texto falou-me de uma forma diferente da interpretação habitual. Não estará Jesus a dizer-nos com estas palavras: Porque é que me estais a pedir muita fé? Talvez a vossa fé seja «demasiado grande». Só se ela diminuir, até se tornar pequena como uma semente de mostarda, poderá dar o seu fruto e manifestar a sua força.

Uma fé minúscula não tem de ser necessariamente apenas o fruto da pecaminosa falta de fé. Por vezes, a «pouca fé» pode conter mais vida e confiança do que a «grande fé». Será que não podemos aplicar à fé aquilo que Jesus disse na parábola acerca da semente, que tem de morrer a fim de produzir grandes benefícios, porque desapareceria e não prestaria para nada se permanecesse imutável? Será que a fé não tem de passar também por um tempo de morte e de radical diminuição na vida do homem e ao longo da história? E se nós apreendermos esta situação segundo o espírito da lógica paradoxal do Evangelho, em que o pequeno prevalece sobre o grande, a perda é lucro e a diminuição ou redução significa abertura ao avanço da obra de Deus, não será porventura esta crise o «tempo da visitação», o kairos, o momento oportuno? Talvez nós nos tenhamos precipitado ao atribuir uma conotação «divina» a muitas das «questões religiosas» a que já nos habituámos, quando, na verdade, elas eram humanas – demasiado humanas, e só se forem radicalmente reduzidas é que a sua componente verdadeiramente divina entrará em jogo.

Um pensamento que há vários anos vinha germinando dentro de mim, como uma espécie de vago pressentimento, de repente explodiu de forma tão premente, que já não podia ser reprimido.

E como eu tenho uma preocupação perdurável não só por cristãos que têm um lugar fixo dentro da Igreja, mas também pelos buscadores espirituais fora da Igreja, ocorreu-me que nós talvez devamos, a essas pessoas em particular, essa «pouca fé», se quisermos oferecer-lhes finalmente pão em vez de uma pedra. E tendo em conta o facto de que muitas das coisas a que já nos acostumámos excessivamente lhes são estranhas, não serão precisamente elas as pessoas mais inclinadas para entender essa «pouca fé»?

Não, eu não estou a propor uma espécie de cristianismo «simplificado», «brando», «humanizado» e fácil, e ainda menos um romântico ou fundamentalista «regresso às origens». Antes pelo contrário!

Estou convencido de que é precisamente uma fé tem perada no fogo da crise, e livre daqueles elementos que são «demasiado humanos», que se revelará mais resistente às tentações constantes de simplificar e vulgarizar a religião, para falar bem e depressa.

O oposto da «pouca fé» que eu tenho em mente é, precisamente, «credulidade», a acumulação demasiado informal de «certezas» e construções ideológicas, até, por fim, não podermos ver a «floresta» da fé – a sua profundidade e o seu mistério –, tantas são as «árvores» dessa religião.

Com efeito, durante estes dias de reflexão na solidão de uma floresta, sinto-me atraído pela imagem da floresta ou do bosque como uma metáfora adequada do mistério religioso – uma floresta vasta e profunda, com a sua fascinante multiplicidade de formas de vida; um ecossistema com inúmeras camadas; uma sinfonia da natureza inacabada; um espaço espontaneamente intrincado – em tão grande contraste com os povoados humanos bem planeados e premeditados, com as suas ruas e parques –, um lugar em que nos podemos perder uma e outra vez, mas também descobrir, para nossa surpresa, ainda outros dos seus aspetos e dons.

Uma «fé pequena» não significa uma «fé fácil». O meu maior incentivo neste caminho para compreender a fé foi o misticismo carmelita – desde João da Cruz, que ensinou que devemos ir até aos próprios limites das nossas «capacidades espirituais» humanas, a nossa razão, a nossa memória e a nossa vontade, e só aí, onde sentimos que estamos num beco sem saída, é que surge a verdadeira fé, o amor e a esperança; e ao longo da «pequena via» de Teresa de Lisieux, que culminou nos momentos sombrios da sua morte.

A minha pergunta é se a nossa fé, tal como nosso Senhor, não terá de «sofrer muito, de ser crucificada e de morrer», antes de poder «ressuscitar dos mortos».

O que é que faz a fé sofrer, o que é que a crucifica? (Não me refiro à perseguição exterior dos cristãos.) Na sua forma primordial («ingenuidade primária», segundo as palavras de Paul Ricoeur) – ou seja, na forma que um dia deverá expirar –, a fé sofre, acima de tudo, da «multivalência da vida». A sua cruz é a profunda ambivalência da realidade: os paradoxos que a vida encerra, que desafiam sistemas de regras, simples proibições e prescrições – esta é a rocha contra a qual tantas vezes se despedaça. Mas não será possível que, em termos do seu significado e resultado, esse momento de «fragmentação» possa ser como quando partimos a casca de uma noz para chegar ao fruto?

Para muitas pessoas, essa «fé simples» – e a «simples moral» que dela deriva – encontra-se em grave crise quando choca com aquilo com que mais cedo ou mais tarde se deverá confrontar, nomeadamente a complexidade de certas situações de vida (que muitas vezes têm a ver com relações humanas), e a impossibilidade de escolher, dentre as muitas opções possíveis, uma solução sem qualquer tipo de reservas. O resultado é a «convulsão religiosa» e paroxismos de dúvida – aquilo, precisamente, com que esse tipo de fé não pode lidar.

Quando confrontados com a barricada das suas dúvidas imprevistas, alguns crentes «retrocedem» na direção da segurança esperada dos seus primórdios – a «fase infantil» da sua própria fé ou alguma imitação do passado da Igreja.

Essas pessoas procuram muitas vezes um refúgio em formas sectárias de religião. Vários grupos oferecem-lhes um ambiente em que podem «dar largas à oração», gritando, chorando e batendo palmas para se libertarem das suas ansiedades, experimentando uma regressão psicológica até à «fala de bebés» («falando em línguas»), além de serem embaladas e acariciadas pela presença de pessoas de tendência semelhante, e muitas vezes com problemas ainda maiores.

Além disso também há a oferta de vários «museus folclóricos» da Igreja do passado, que tentam simular um mundo de «simples piedade humana» ou um tipo de teologia, liturgia e espiritualidade de séculos passados, «preservado dos estragos da modernidade». Mas o adágio «não se pode entrar duas vezes no mesmo rio» também se aplica aqui. Na maior parte dos casos, acaba por se revelar como tendo sido apenas uma brincadeira romântica, uma tentativa de entrar num mundo que já não existe. As tentativas de encontrar morada em ilusões costumam caminhar a par e passo com esforços desesperados por fingir frente a si próprio e aos outros. É tão disparatado para um adulto tentar entrar no infantário da sua fé infantil ou recuperar o entusiasmo primordial do convertido, como tentar ultrapassar as fronteiras do tempo e penetrar no mundo espiritual da religião pré-moderna. O museu folclórico que as pessoas criam desse modo não é uma aldeia viva de piedade humana tradicional nem um mosteiro medieval. É antes uma coleção de projeções românticas das nossas noções de como era o mundo e a Igreja quando «ainda estavam em ordem». Trata-se apenas de caricaturas tristemente cómicas do passado.

O «fundamentalismo» é um distúrbio de uma fé que tenta entrincheirar-se no meio das sombras do passado, defendendo-se da perturbadora complexidade da vida. O fanatismo, a que aquele está muitas vezes ligado, constitui apenas uma reação mal-humorada à frustração resultante, à descoberta amargurada (mas não confessada) de que se tratava de um falso trilho. A intolerância religiosa é muitas vezes fruto de inveja encoberta de outros, dos «de fora», uma inveja que procede dos corações amargurados de pessoas que não estão dispostas a reconhecer o seu sentimento de profunda insatisfação com a sua própria casa espiritual. Falta-lhes força para mudá-la ou abandoná-la; por isso, agarram-se desesperadamente a ela e tentam ocultar, nos bastidores, tudo o que lhes possa recordar possíveis alternativas. Projetam as suas próprias dúvidas não reconhecidas nem resolvidas sobre os outros, e aí lutam contra eles.

Muitas vezes, a fé que parece «grande» e «firme» é, na realidade, uma fé de chumbo, solidificada e inchada. Muitas vezes a única coisa grande e firme da mesma é a «armadura» que, com muita frequência, oculta a ansiedade da falta de esperança.

A fé que aguenta o fogo da cruz sem bater em retirada perderá, provavelmente, grande parte daquilo com que se costumava identificar ou a que se tinha habituado, mesmo que fosse meramente superficial. Grande parte disso ficará queimado. Contudo, a sua nova maturidade tornar-se-á sobretudo evidente pelo facto de já não usar «armadura»; em vez disso, será um pouco como aquela «fé nua» de que falam os místicos. Já não será agressiva nem arrogante, e ainda menos impaciente na sua relação com os outros. Sim, em comparação com a fé «grande» e «firme» pode parecer pequena e insignificante – será como nada, como uma semente de mostarda.

Mas é precisamente assim que Deus atua no mundo, diz o Mestre Eckhart: Ele é «nada» num mundo de seres, porque Deus não é um ser entre outros seres. E Eckhart prossegue afirmando que temos de nos transformar em «nada» se quisermos encontrá-lo. Enquanto quisermos ser «alguma coisa» (ou seja, significar alguma coisa, ter alguma coisa, saber alguma coisa, em suma, fixarmo-nos em seres individuais e no mundo das coisas), não seremos livres para encontrá-lo.

Talvez a nossa fé também estivesse assoberbada por muitas coisas que tivessem a natureza desse «algo» – as nossas ideias, projeções e desejos pessoais, as nossas expectativas demasiado humanas, as nossas definições e teorias, o mundo das nossas histórias e mitos, a nossa «credulidade». Talvez ainda não tenhamos tido a nossa quota-parte de tudo isso e queiramos mais: Dá-nos mais fé, mais certeza e segurança frente às complexidades da vida!

Cristo, porém, diz: «Tende a fé de Deus», não do tipo «humano» que se poderia perder entre as ideologias e as filosofias do nosso tempo. Um «tipo de fé divino» significa uma fé minúscula, quase impercetível, do ponto de vista deste mundo!

Deus, que é anunciado e representado neste mundo por Aquele que foi crucificado e ressuscitou dos mortos, é o Deus do paradoxo: aquilo que é sábio para as pessoas, é louco para Ele; aquilo que é loucura e pedra de tropeço para as pessoas, é sabedoria a seus olhos; aquilo que as pessoas consideram fraqueza, para Ele é força; aquilo que as pessoas consideram grande, é visto por Ele como sendo pequeno; e aquilo que lhes parece pequeno, Ele considera-o grande.

Mesmo sob as rajadas de vento que continuam a levar para longe grande parte da nossa religião – quer se trate da ofensiva das críticas do ateísmo, quer da tempestade das nossas próprias dúvidas e crises inteiras de fé, ou do clima de «espírito hostil» da nossa época –, porventura seremos capazes, por fim, de discernir o sopro libertador do Espírito Santo, tal como os israelitas, graças aos seus profetas, foram capazes de discernir a «lição de Deus», nas suas derrotas, e o «servo de Deus», no seu inimigo Nabucodonosor?

Quando os seres humanos, ou «o povo de Deus», não são capazes de abandonar algo que os ata e impede de empreender a futura viagem, o Senhor recorre por vezes a métodos de libertação que não nos parecem nada agradáveis. Zugrunde gehen, como sabemos através de Nietzsche, não significa apenas naufragar e desaparecer, mas também, literalmente, «descer até aos fundamentos» e tocar o cerne.

E assim encerro esta primeira meditação com uma oração: Senhor, se a nossa religiosidade está sobrecarregada das nossas certezas, leva parte dessa «grande fé» para longe de nós. Liberta a nossa religião daquilo que é «demasiado humano» e dá-nos «a fé de Deus». Dá-nos antes, se for essa a tua vontade, um «pouco de fé», uma fé tão pequena como uma semente de mostarda – pequena e cheia do teu poder!

 

O autor recolhe-se para escrever num mosteiro, um eremitério na floresta da Renânia. Silêncio, oração e meditação. Escuta, interação com a natureza, mas também com as pessoas que passam. Daí brota uma leitura profunda, rezada, clarificadora, procurando criar pontes, desafiando, inquietando-nos. Boa leitura.

 

Vale a pena ler também o comentário do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - AQUI - o texto transcrito foi retirado desse comentário.


26
Mar 17
publicado por mpgpadre, às 11:00link do post | comentar |  O que é?

PAPA FRANCISCO (2015). (2.ª Edição). A Verdade é um Encontro. Homilias em Santa Marta. Prior Velho: Paulinas Editora. 568 páginas.

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Uma das novidades do pontificado do Papa Francisco, eleito a 13 de março e iniciando oficialmente o pontificado a 19 de março de 2017, foi a celebração quotidiana da Eucaristia na Capela de Casa de Santa Marta onde fixou a sua residência.

Todos os dias, pela manhã, o Papa celebra com outros sacerdotes e para diversas pessoas, de paróquias, comunidades, grupos, funcionários do Vaticano, alunos dos colégios, congregações. Funciona como uma Missa paroquial, aos dias de semana, à mesma hora, para começar bem o dia. A diferença está nos fiéis que mudam de dia para dia e no facto de o pároco ser o Papa.

As homilias diárias são familiares, íntimas, expressivas, com diversas imagens, exemplos, com muitas perguntas, com expressões que imediatamente circulam pelo mundo inteiro. É, de algum modo, um laboratório, já que as pistas de reflexão são muitas vezes desenvolvidas em discursos, mensagens, nos documentos pontifícios e aprofundadas nas Homilias em Eucaristias solenes.

Logo após a celebração da Eucaristia, a Santa Sé, pelos órgãos competentes, faz chegar um breve resumo das palavras do Papa, acompanhadas de uma imagem, um pequeno vídeo...

Não é a homilia inteira, como é explicado na apresentação do livro, não faria muito sentido, pois é um comentário a partir das leituras, procurando desafiar, propor, refletir, com pausas, interrogações, aproximando-se quase de uma conversa familiar. O acesso a estes trechos está disponível na plataformas da Internet da Santa Sé, mas também em muitas páginas ligadas a Dioceses, paróquias, comunidades, partilhadas, espalhadas. O livro tem a vantagem de ser sublinhado e mastigado. Quando lemos num ecrã, pelo menos para mim é assim, quase sempre o fazemos a correr, ou se for em vídeo, ouvimos e já estamos a fazer outra coisa, o livro ajuda a tomar mais atenção (claro que também há distrações).

Este volume, na segunda edição, contém as "homilias" do primeiro ano de pontificado. Lendo, percebe-se melhor as intervenções mais públicas do Papa: pecadores mas não corruptos... misericórdia... cristãos aguados (água das rosas)... humildes mas não ingénuos... perdão... adoração de Deus (cuja dificuldade é notória nas pessoas e nas comunidades)... economia e os pobres... a riqueza e a avareza... pecadores concretos (e não abstratos, genéricos)... obras de misericórdia e juízo final, a fé vive-se, é concreta... cristãos alegres, na certeza que Deus nos ama ao ponto de em Jesus dar a vida por nós... a contradição dos cristãos da sexta-feira santa sem a Páscoa, tristes, melancólicos, sempre a protestar por tudo e por nada... incapazes de sorrir, de levantar a cabeça... pessoas com cara de santinhos mas que na verdade são hipócritas... perfeitos, pessoas boas, sem levantar ondas, como o jovem do Evangelho, certinho mas que no final não segue Jesus, pelo Seu caminho... Conhecer, confiar em Jesus, seguir Jesus pelo Seu caminho... ainda que com dificuldades e perseguição... a cruz é parte essencial da vida do cristão e da Igreja... Igreja em saída... ir às periferias... rezar com coragem, lutando com Deus como fizeram Abraão, Jacob, Moisés, David... fieis a Deus e ao povo... o encontro com Jesus na Eucaristia.. Lamentar-se faz mal ao coração... a fé não se negoceia... o perigo de falar dos outros... os mexericos matam... não maquilhar a vida, mas aceitar o bem e o mal... cristãos mornos fazem mal à Igreja... A Igreja é mãe, é uma história de amor... Um bom cristão não se lamenta... um cristão que se lamenta continuamente, deixa de ser um bom cristão: é o senhor ou a senhora "lamúrias"... o problema não é sermos pecadores: o problema é não nos arrependermos do pecado, não termos vergonha daquilo que fizemos... cultura do encontro, construtores de pontes e não de muros... a originalidade cristã não é a uniformidade...

Seguir Jesus, caminhar com Jesus, adorar Jesus...


24
Mar 17
publicado por mpgpadre, às 11:00link do post | comentar |  O que é?

GEORGES BERNANOS (2016). Diário de um pároco de aldeia. Prior Velho: Paulinas Editora. 264 páginas.

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O título já deixa antever um conjunto de vivências num lugar em que as pessoas se conhecem, em que as novidades, os boatos, as insinuações se espalham rapidamente, onde a privacidade é muito relativa. O padre, numa pequena aldeia, rústica, vai escrevendo um diário com as suas impressões, encontros, dificuldades, tornando visível a intriga e o mau-estar entre o pároco, vindo de uma família simples, o senhor conde, benemérito da paróquia e que tem outros familiares mais bem colocados, com outros contacto, como um tio padre.

Padre jovem, por um lado, e acabado de chegar, as dificuldades cedo se fazem notar. No catecismo ou na celebração da Eucaristia, por vezes com poucas pessoas, outras vezes desinteressadas. Os jovens, em fase adolescente, provocam-no e gozam com ele. As condições sócio-económicas são mínimas. Alimenta-se mal. Por vezes a refeição é vinho aquecido com pão. Pouco mais. As dívidas são do conhecimento da povoação. Os sacerdotes amigos tentam alertá-lo, chamá-lo à razão. De algum modo, até pode ter razão e iniciativa, mas o melhor é não levantar ondas nem enfrentar os poderes instituídos.

O conde, a esposa e a filha são o rosto mais visível da oposição ao padre. Os pecados que escondem, e talvez para os esconder, voltam-se contra o padre. Ora o convidam ora o alertam para não se meter em determinados assuntos, que não lhe dizem respeito.

Querendo ser fiel ao ministério sacerdotal não deixa de ouvir, de exortar, de intervir. A saúde é que não ajuda. E os comentários sobre a sua conduta também não. É considerado um bêbado, ainda que não se considere tal. A fraqueza, a batina gasta, uma cor de meter dó, amarelo, sumido, faz pena vê-lo assim e assim se vê, ainda que a bebida (vinho aquecido com pão) seja o único que o seu frágil estômago vai aguentando. Adia a ida ao médico. Quando vai ao médico, a revelação de cancro deixa-o de rastos. Não há muito a fazer.

Mas não é a doença terminal que mais o afeta, mas o silêncio de Deus. Há muito que vive com dificuldades em falar com Deus, em rezar, em se colocar confiante nas mãos de Deus. Os que se aproximam dele, desabafam, falam e voltam a falar e, no entanto, há um silêncio e um vazio que o preenchem. Faz com que os outros se abram, mas fecha-se, discreto, como que desejando apagar-se. Até a morte quer que seja silenciosa. "A minha morte está ali. É uma morte igual a qualquer outra, e eu entrarei nela com os sentimentos de um homem muito comum, muito vulgar. É mesmo mais que certo que não saberei morrer melhor do que soube governar a minha pessoa. Vou ser na morte tão desastrado, tão acanhado como na vida... Meu Deus dou-te tudo, de boa vontade. Simplesmente, não sei dar, dou como quem deixa que lhe tirem as coisas. O melhor que tenho a fazer é estar sossegado. Pois se eu não sei dar, Tu, Tu sabes tirar... E no entanto teria gostado de ser, pelo menos uma vez, uma só vez, liberal para contigo... O heroísmo à minha medida está em não ter heroísmo, visto que me faltam as forças, agora o que eu queria é que a minha morte fosse pequena, o mais pequena possível, que se não distinguisse dos outros acontecimentos da minha vida. No fim de conta é a minha natural inépcia..."

 

Para leituras próximas outras sugestões:

Obviamente que são livros muito diferentes, Tomáš Halík e Timothy Radcliffe ajduam-nos a refletir em Deus e na Sua presença amoroso na nossa vida, também nos momentos difíceis e até obscuros, apontando para um Deus que em Jesus Cristo Se revela dócil, compreensivo, próximo, exigente.

Cormac McCarthy mostra que a fé pode ser ténue, mas a força do amor é inabalável, até ao fim. Shusaku Endo, no seu romance com fundo histórico e que deu origem ao filme com o mesmo nome, questiona até que ponto a fé é sustentável nas adversidades e nas monstruosidades. Todos os títulos nos falam da busca de Deus, do questionamento de Deus, da fé e do amor, da vida e da generosidade, da noite e da dúvida e da treva, mas com aquela réstia de esperança que tudo possa ser diferente.

 

Não deixe de ler o seguinte o comentário ao livro:

Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.


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Tabuaço, 19 de maio
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