...espaço de discussão, de formação, de cultura, de curiosidades, de interacção. Poderemos estar mais próximos. Deus seja a nossa Esperança e a nossa Alegria...
20
Jun 17
publicado por mpgpadre, às 11:00link do post | comentar |  O que é?

Papa Francisco e Papa Emérito Bento XVI.jpg

Bento XVI, Papa Emérito, em “Conversas finais” respondeu a uma questão sobre se tinha regredido e exemplo disso era o de dar a comunhão na boca. A resposta é clarificadora: “Sempre dei a Comunhão das duas maneiras. Só que, havendo tanta gente na Praça de São Pedro que o poderia entender mal (havia quem, por exemplo, metesse a hóstia no bolso), pareceu-me que a Comunhão na boca, como sinal, era um gesto muito acertado. Mas que eu fosse nisso de algum modo retrógrado… Devo dizer, aliás, que essas categorias de velho e de novo não se aplicam à liturgia”.

Guardariam as hóstias para algum tipo de bruxaria ou porque assim tinham uma “relíquia” recebida das mãos do Papa. Um pouco como aqueles que vão a um concerto, a um grande evento, querem tocar no artista, tirar um selfie com ele, assinar um autógrafo para emoldurar. Com a figura do Papa também pode acontecer. Ir ao encontro de João Paulo II a um estádio de futebol ou ir ver um cantor famoso para alguns é a mesma coisa, pois no final o mais importante é que se esteve perto, se trouxe uma recordação, se tocou na figura.

No Evangelho Jesus depara-se com algo semelhante. Vendo os sinais milagrosos que fazia, alguns queriam fazê-l’O rei (à força). Por isso, Jesus retira-se sozinho para o monte (cf. Jo 6, 14-15). Percebe-se como Jesus recomendava discrição quando realizava alguns prodígios, correndo-se o risco de se perder o essencial, a conversão, a luta diária por um mundo melhor, a resiliência e persistência nas dificuldades e a confiança para prosseguir, a entreajuda solidária. Por outras palavras, o risco de deixarmos a Deus o que nos cabe realizar, ficando de braços cruzados a olhar para o Céu!

Em Listra, Paulo e Barnabé, depois da cura de um coxo, são aclamados como deuses. Ao saberem disto os apóstolos rasgam as vestes e alertam: «Também nós somos homens da mesma condição que vós, homens que vos anunciam a Boa-Nova de que deveis abandonar os ídolos vãos e voltar-vos para o Deus vivo, que fez o céu, a terra, o mar e tudo quanto neles se encontra». É a custo que impedem que lhes ofereçam um sacrifício (Atos 14, 8-20).

As palavras de Francisco no regresso ao Vaticano alertam precisamente para este risco: aderirmos a uma jornada e/ou peregrinação, irmos ver o Papa, mas depois na prática deixarmos de lado o que a Igreja nos pede e os valores e princípios que nos identificam como católicos e nos enraízam no Evangelho.

 

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4414, de 30 de maio de 2017


19
Jun 17
publicado por mpgpadre, às 11:00link do post | comentar |  O que é?

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Ano de 1999: Viagem Apostólica de João Paulo II ao México e à cidade de St. Louis, nos EUA. O Papa apresentava-se já muito desgastado mas atraía cada vez mais multidões. Já não se tratava do que dizia, mas da pessoa e do que representava na Igreja e no mundo.

O início do pontificado de João Paulo II não foi fácil. Quando precisava de ser duro, mesmo em público, João Paulo II era-o de facto, como em certa ocasião a um sacerdote da América Latina que se tinha envolvido na política partidária e que se ajoelhou, preparando-se para o cumprimentar e lhe beijar o anel, o Papa passou-lhe uma reprimenda e avançou sem lhe estender a mão. Com os anos e sobretudo depois do atentado que sofreu a 13 de maio de 1981 na Praça de São Pedro, do qual sobreviveu por milagre que o próprio atribui a Nossa Senhora de Fátima, João Paulo II passou a ser seguido cada vez por mais pessoas com uma clara aura de santidade. Afinal tinha sobrevivido a um atentado e a nova tentativa no ano seguinte em Fátima.

Na Viagem aos EUA entrevistaram alguns jovens acerca da “personalidade” de João Paulo II e porque é que estavam nas ruas para o aclamar e as respostas assentavam precisamente no facto de ser uma figura mundial. Quando perguntaram se estavam sintonizados com as posições do e da Igreja acerca da vida, da moral, da família, a resposta foi perentória: isso já não!

Na Viagem Peregrina de Francisco a Fátima, no regresso ao Vaticano, a bordo do avião, na habitual conferência de impressa com os jornalistas, foram-lhe colocadas perguntas sobre questões fraturantes na sociedade atual. Sem se querer alongar muito, para que não fossem desvalorizados os motivos e o conteúdo da peregrinação a Fátima, respondeu que “a consciência católica não é, às vezes, uma consciência de pertença total à Igreja, por trás disto não há uma catequese variada, uma catequese humana”, no que concerne a temas sobre a vida e sobre a família.

Acrescentou o Papa que a Igreja tem de promover a formação, o diálogo, a catequese, a consciencialização de valores humanos.

O Papa Francisco é, hoje, para a Igreja e para o mundo, uma figura incontornável, com sinais e marcas que envolvem, desafiam, provocam, remetendo para Jesus e o Evangelho da Alegria e do Serviço. Logo no início o Papa Francisco dizia que um Bispo ou um Padre não tem que estar a falar do que o Papa disse ou diz, mas a falar do Evangelho e a apontar para Cristo.

 

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4413, de 23 de maio de 2017


08
Mar 15
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CELAM (14.ª reimpressão: 2013). Documento de Aparecida. Texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. São Paulo e Brasília: Edições CNBB, Paulus Editora, Paulinas Editora. 312 páginas.

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        D. António Couto, Bispo da nossa Diocese de Lamego, tem sustentado que a primeira Exortação Apostólica do Papa Francisco, Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho), mais que ser uma Exortação pós-sinodal (reflexão que resulta do Sínodo dos Bispos sobre "a nova evangelização para a transmissão da fé cristã", que se realizou em outubro de 2012, e no qual esteve presente D. António Couto), mais que ser pós-sinodal, é pós-APARECIDA.

       A pessoa não é um mundo à parte, mas integrado com as circunstâncias que a ajuda a crescer e para as quais também contribui. As conferências o Episcopado Latino Americano e caribenho trouxeram uma riqueza inesgotável à Igreja Católica. Os bispos daquela região do mundo, onde existem mais católicos, onde convivem diversas culturas, etnias, origens diversas, uma das regiões mais pobres, ainda que os recursos sejam muitos.

       Com a Assembleia de Aparecida, são 5 as assembleias gerais que puseram os Bispos a rezar em conjunto, a refletir, a apontar novos caminhos, com a autonomia do seu ministério, em estreita ligação ao Sucessor de Pedro, com Pio XII, na primeira Assembleia da CELAM, em 1955, no Rio de Janeiro; com Paulo VI e João Paulo II, sucessivamente em Medellín, Puebla e Santo Domingo, e com Bento XVI em Aparecida, no Brasil, e com a preocupação de responder aos desafios que se colocam à Igreja e à sociedade naquela região do mundo e que deu agora à Igreja o Papa Francisco.

       Algumas das preocupações manifestadas pelo Papa Francisco já estavam presentes no seu ministério episcopal na Argentina, integrando o continente da esperança e que o Papa Bento XVI desejava muito fosse também o continente do amor, da caridade. Expressões como discípulos missionários, Igreja em saída, alegria do Evangelho, comunidades de base, acolhimento, proximidade, compromisso social e político de leigos bem formados, catequese em todas as idades, diálogo com outras confissões cristãs e com outras religiões, presença na cultura, na sociedade, onde estiverem as pessoas aí terá que estar a Igreja.

       Quem lê o Documento facilmente percebe que tem a mão, o pensamento e o coração do Papa latino-americano, o então Cardeal Jorge Mário Bergoglio, uma vez que foi quem presidiu à Comissão da Assembleia do Episcopado e foi o relator do documento final de Aparecida.

       O método seguido na Assembleia é semelhante ao da Ação Católica, ver, julgar e decidir. Por conseguinte, o Documento traça uma leitura sobre a realidade ou realidades latino-americanas e caribenhas, com a sua história, com as suas sombras e esperanças; a presença da Igreja e do Evangelho, também com as suas sombras e esperanças, e com as suas potencialidades; e as respostas que poderão ser dadas e que comprometem e responsabilizam todos, Bispos, padres, diáconos, catequistas, universidades, famílias, paróquias, comunidades de base. Sair, ir ao encontro do mais frágil, lutar pela justiça, e pelos direitos fundamentais,, imitando Jesus, tornando-se discípulos para nos tornarmos verdadeiramente missionários. A proposta à grande Missão Continental, procurando potenciar todo o bem, eliminando as barreiras, as injustiças, levando Deus, o Deus próximo, o Deus connosco, Jesus Cristo.

       Sublinhe-se também a ligação estreita da V Conferência Latino Americana e Caribenha e do atual Papa Francisco ao Papa Bento XVI que presidiu à abertura da Assembleia e cujas intervenções foram assumidas, integradas, sublinhadas em todo o documento de Aparecida. Bento XVI entranhou-se bem no espírito de Aparecida, ou a CELAM soube acolher e identificar-se com o "sonho" de Bento XVI. Ou melhor, a Igreja na América Latina e no Caribe, em comunhão com o Papa, soube colocar-se à escuta do Espírito Santo para melhor servir as comunidades e as pessoas, acolhendo a graça de Deus e comunicando o Evangelho da Verdade e da Caridade.


08
Nov 14
publicado por mpgpadre, às 20:45link do post | comentar |  O que é?

1 – A dedicação de uma Igreja assinala e visualiza e referencia um espaço dedicado especialmente a Deus, para uma maior proximidade, recolhimento e intimidade do homem com Deus, e para a comunidade se reunir e viver como Igreja.

A Basílica de S. João de Latrão é a Sede do Bispo de Roma, considerada a igreja-mãe de todas as igrejas da Urbe e do Orbe (da cidade e do mundo), «preside à assembleia universal da caridade» (Sto Ambrósio). Celebrando a Dedicação desta Basílica, Cátedra de Pedro, sinalizamos o amor e a unidade à volta do Sucessor de Pedro.

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2 – A mais sublime adoração é realizada em espírito e verdade. Mas, porquanto, não sendo nem anjos nem puros seres espirituais, situamo-nos com os outros num determinado tempo e num espaço (físico) concreto. Assim também a nossa relação com Deus, situa-nos na história humana, onde Ele nos procura e nos encontra e onde Se deixa procurar e encontrar por nós. A Encarnação de Deus, com Jesus Cristo, é disso expressão e sacramento: a eternidade torna-se acessível e percetível ao ser humano. Em Jesus, Deus assume a condição humana, submetendo-se, POR AMOR, às coordenadas espácio-temporais.

 

3 – Jesus sobe ao Templo de Jerusalém e constata que o Templo é usado para maquinações e injustiças, formas de ganhar mais, exigindo a quem tem menos.

A reação de Jesus é inesperada. Os que por ali andam já nem estranham. Jesus escandaliza-se, faz um chicote, expulsa os vendilhões e os seus animais, derruba as mesas e o dinheiro dos cambistas e diz aos que vendem as pombas: «Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai casa de comércio».

Alguns negociantes perguntam a Jesus: «Que sinal nos dás de que podes proceder deste modo?» E é então que Jesus faz a ponte para outro Templo: «Destruí este templo e em três dias o levantarei». Porém, não percebem que Jesus lhes fala do Seu próprio Corpo, como Templo no qual somos resgatados.

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4 – Problema do nosso tempo é que temos menos casa e menos igreja. Atarefados com mil e uma coisas, não nos resta muito tempo para estarmos em casa e, sobretudo, em família. Do mesmo jeito, vamos à Igreja se não há mais nada para fazer. Se vêm uns amigos de Guimarães, ou se o almoço é de festa, deixamos a Igreja, pois há mais domingo no ano. Faltando a família e a comunidade (a casa e a Igreja), pouco nos resta para vivermos saudavelmente. Para os descrentes, para que não fiquem eternamente ensimesmados, frequentem espaços (e tempos) de encontro, de descoberta, de partilha…

 

5 – São Paulo incentiva-nos a edificar o Corpo de Cristo, Verdade do amor de Deus em nós: «Vós sois edifício de Deus. Veja cada um como constrói: ninguém pode colocar outro alicerce além do que está posto, que é Jesus Cristo. Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Porque o templo de Deus é santo e vós sois esse templo».

Somos o templo que Deus habita. Se o alicerce é Cristo, cada um de nós concorrerá para a construção do Corpo de Cristo, a Igreja.

 

6 – Aquilo que havemos de ser só se manifestará totalmente na eternidade. Para já caminhamos, deixando que Deus nos habite e sendo morada uns para os outros, com a certeza que Ele nos conduz às águas refrescantes, como Bom Pastor; do Seu Templo, como refere Ezequiel, saem águas que nos purificam e nos salvam. As fontes da salvação estão acessíveis em Cristo, no Seu Corpo que é a Igreja.

«Deus é o nosso refúgio e a nossa força, auxílio sempre pronto na adversidade. Por isso nada receamos ainda que a terra vacile e os montes se precipitem no fundo do mar. Os braços dum rio alegram a cidade de Deus, a mais santa das moradas do Altíssimo. Deus está no meio dela e a torna inabalável». 


Textos para a Eucaristia: Ez 47, 1-2. 8-9. 12; Sl 45 (46); 1 Cor 3, 9c-11. 16-17; Jo 2, 13-22.

 


04
Out 14
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Papa FRANCISCO (2014). Catequeses sobre os Sacramentos. Fátima; Secretariado Nacional de Liturgia, 32 páginas.

        Depois de termos sugerido as CATEQUESES do Papa Francisco durante o ano de 2013, eis agora um opúsculo dedicado aos SETE SACRAMENTOS, recolha e proposta do Secretariado Nacional de Liturgia (SN Liturgia no Facebook) Os Sacramentos, sinais e expressão da presença de Deus no mundo através da Igreja, que nos envolvem e nos fazem participantes da vida divina, são sempre espaço de encontro, de partilha, de vida nova, de encontro e reencontro com a comunidade e com Deus, no desafio constante de nos deixarmos plasmar pelo Espírito Santo, para nos tornarmos cada vez mais parecidos com Jesus Cristo, com a força renovada no empenho em transformar o mundo em que vivemos.

       De forma coloquial, o Papa Francisco procura, de forma assertiva, mostrar a importância, a seriedade e a dinâmica dos Sacramentos.

       Para quem for mais fácil ler, então a sugestão desta brochura. Para quem preferir ler em formato digital, ou imprimir, siga as hiperligações, clicando sobre cada título. As catequeses, estas e outras, estão disponíveis na página oficial do Vaticano, no apartado das Audiências-Gerais das Quartas-feiras.

  1. Batismo, Fundamento da nossa Fé.
  2. Pelo Batismo, tornamo-nos membros do Corpo da Igreja.
  3. Pela Confirmação, recebemos o Espírito Santo como Dom.
  4. Eucaristia, memorial da Páscoa de Jesus.
  5. Eucaristia e Vida.
  6. Na Confissão pedimos perdão a Jesus.
  7. Unção dos Doentes, Misericórdia de Deus.
  8. Sacramento da Ordem.
  9. Sacramento do Matrimónio.

São catequeses breves, acessíveis, para ler e meditar e sobretudo para viver melhor os Sacramentos e o compromisso com a Igreja e com a Sociedade.


21
Set 14
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PAPA FRANCISCO (2014). O mistério da Igreja. Catequeses do primeiro ano de pontificado. Lisboa: Paulus Editora. 120 páginas.

       Neste livro, as catequeses do Papa Francisco, nas Audiências Gerais das Quarta-feiras, durante o primeiro ano de pontificado, à excepção da última, referente ao tempo do Advento. A 13 de março de 2013, o Cardeal Jorge Mario Bergoglio aparecia à varanda do Palácio Apostólico como Papa Francisco, em pleno Ano da Fé, instituído e iniciado por Bento XVI, pelo que as catequeses seguem a linha escolhida pelo Predecessor, mormente a reflexão dos diversos artigos do Credo.
       A continuidade não é apenas na temática, mas na acessibilidade da mensagem, simples, direta, numa linguagem de fácil compreensão, com imagens para ilustrar o que se está a dizer, ainda que cada Papa deixe transparecer o seu estilo mais pessoal.
       As catequese são dividas em 4 partes.

 

 

  • PARTE I - NÃO DEIXES QUE TE ROUBEM A ESPERANÇA
  1. Semana Santa, tempo de graça do Senhor
  2. As mulheres, as primeiras testemunhas da ressurreição
  3. Cristo Ressuscitado, a Esperança que não engana
  4. Subiu aos Céus, está sentado à direita de Deus Pai
  5. O fim dos tempos
  6. São José Operário e início do mês mariano
  7. O Espírito Santo, fonte inesgotável de vida
  8. O Espírito de Verdade
  • PARTE II - O MISTÉRIO DA IGREJA
  1. Sintamos a alegria de evangelizar
  2. A Igreja, família de Deus
  3. Igreja, Povo de Deus
  4. Igreja, Corpo de Cristo
  5. Igreja, Templo do Espírito
  6. As colunas da Igreja
  7. Igreja, nossa Mãe
  8. O Rosto da Igreja-Mãe
  • PARTE III - CREIO NA IGREJA
  1. Igreja Una
  2. Igreja Santa
  3. Igreja Católica
  4. Igreja Apostólica
  5. Maria, imagem e modelo da Igreja
  • PARTE IV - A FÉ PROFESSADA
  1. Creio na comunhão dos santos
  2. A comunhão nas coisas sagradas
  3. Professo um só batismo
  4. Para a remissão dos pecados
  5. Creio na ressurreição da carne
  6. Ressuscitaremos com Cristo
  7. Creio na vida eterna
       Vamos ouvindo e lendo uma frase, uma expressão, um tema desenvolvido pelo Papa Francisco.
       Mas como em muitas situações, ler integralmente a mensagem, ou escutar na íntegra a intervenção não é o mesmo que ler ou escutar uma passagem, isolada do seu contexto e muitas vezes utilizada abusivamente para ilustrar outros argumentos. Vale sempre a pena ler todo o texto, pelo que assim deixamos este convite. São reflexões breves, de fácil leitura, quase nos sentimos na assembleia com quem o Papa Francisco interage.
       Também poderá aceder aos textos a partir da página do VaticanoAQUI.


09
Set 14
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BENTO XVI (2012). A Oração Cristã. Braga: Editorial Franciscana. 128 páginas.

       Ao longo do ano de 2011, o papa Bento XVI dedicou as catequeses das Audiências Gerais, das quartas-feiras, à oração: "Depois das catequeses sobres os Padres da Igreja, sobre os grandes teólogos da Idade Média, sobre as grandes mulheres, escolhemos um tema muito querido a todos nós: é o tema da oração, de modo específico da cristã, ou seja, a prece que Jesus nos ensinou e que a Igreja continua a ensinar-nos. Com efeito, é em Jesus que o homem se torna capaz de se aproximar de Deus com a profundidade e a intimidade da relação da paternidade e filiação... é preciso aprender a rezar, quase adquirindo esta arte sempre de novo; mesmo aqueles que são muito avançados na vida espiritual sentem a necessidade de se pôr na escola de Jesus para aprender a rezar autenticamente".

       A Sagrada Escritura exemplifica como os grandes líderes são também homens orantes: Abraão, Jacob, Moisés, David, Jesus Cristo. Sem esquecer a Mãe de Jesus. Com efeito, a oração de Jesus reassume o Fiat de Maria. Conhecer o Pai, implica identificar-Se com Ele, fazer a Sua vontade.

  • As diferentes catequeses:
  • A oração dos Antigos
  • Oração e sentido religioso
  • A intercessão de Abraão por Sodoma
  • Luta noturna e encontro com Deus (Jacob-Israel)
  • A intercessão de Moisés pelo povo
  • Profetas e orações em confronto
  • O povo de Deus que reza: os Salmos
  • A meditação
  • Arte e Oração
  • "Levanta-te, Senhor, e salva-me!" Salmo 3
  • "Meu Deus, Meu Deus, por que Me abandonaste?" Salmo 22 (21)
  • "O Senhor é meu Pastor, nada me faltará" Salmo 23
  • "Grandes coisas fez por mim o Senhor" Salmo 126
  • O "Grande Hallel" Salmo 136 (135)
  • O grande cântico da Lei. Salmo 119 (118)
  • O Rei Messias. Salmo 110 (109)
  • A oração atravessa toda a vida de Jesus
  • A jóia do Hino de Júbilo
  • A oração diante da ação benéfica e curadora de Deus.

        Em cada uma das catequeses, o papa Bento XVI faz-nos sentir próximos de Jesus, mostrando nas diversas formas de oração, como elas nos podem identificar com Jesus. Por sua vez, Jesus é o grande oração, cuja oração nunca é interrompida, aproximando-O das pessoas. A oração mostra a intimidade com o Pai e a força que n'Ele se manifesta. É uma oração curativa. Nos momentos mais importantes e significativos da vida de Jesus, a oração estende-se pela noite.

       Jesus ensina-nos a rezar, para que a vontade do Pai se realize em nós e através de nós.

       Bento XVI, de forma simples e didática convoca-nos à oração: dos salmos, leitura e meditação da Palavra de Deus, nomeadamente dos Evangelhos, meditação > ruminação. Como em outros momentos, o recurso a exemplos, no diálogo com a contemporaneidade, mas fazendo memória da cultura, da arte, da civilização.


22
Ago 14
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JOSÉ ANTONIO PAGOLA(2014). Volver a Jesús. Hacia la renovación de las parroquias e comunidades. Madrid: PPC. 128 páginas.

       O teólogo espanhol é já nosso conhecido nestas andanças de livros, textos e sugestões. Tem-se dedicado a refletir sobre Jesus e sobre os Evangelhos, contextualizando a época em que Jesus viveu e procurando que a Mensagem seja significativa neste tempo.

       Neste pequeno livro, Pagola desafia precisamente a regressar a Jesus, à Sua mensagem, à Sua vida, gestos, postura, procurando ver como Jesus fazia, abrindo caminhos para viver ao Seu jeito nos dias em que nos é dado viver a nossa vida.

       Mergulhar no Evangelho. Reportar-nos ao essencial: amor, perdão, acolhimento, proximidade, grande intimidade com o Pai, opção pelos pobres, denúncia do mal, do pecado, da hipocrisia, dos poderosos que usam os pobres.

       O ponto de partilha é a Exortação Apostólica do Papa Francisco, a Alegria do Evangelho, que convoca os cristãos, todos os cristãos, a viverem com alegria a sua fé, como pessoas corajosas, sem medo de falar, de mostrar Jesus Cristo, saindo ao encontro de todos, mas primeiramente dos pobres, dos mais pobres. Agindo ao jeito de Jesus.

       O texto é também uma proposta pastoral, para formar os Grupos de Jesus, para a escuta do Evangelho, em que o centro seja Jesus, cujos encontros podem ser em casas particulares, sem rigidez quanto ao número de pessoas, em que a escuta e meditação do Evangelho sejam a referência. Obviamente estes grupos deverão estar atentos e poderão cooperar ativamente me dinâmicas pastorais e paroquiais. O Objetivo primeiro é escutar Jesus, deixar-se converter pela Sua Palavra, com ligação ao compromisso social.

       Ter a coragem de colocar fim a estruturas que já não convertem, não mobilizam, não libertam a pessoa.

Esta leitura pode ser muito interessante para os Conselhos Pastorais: mostrando o que realmente vale a pena resgatar, viver, anunciar. No final só uma conclusão: só Jesus Cristo, só Deus é definitivo. Converter-se de todo o coração a Jesus. As estruturas e as tradições hão de estar ao serviço do reino de Deus, como a Igreja, como os cristãos. Anunciar Jesus. Sair dos lugares de conforto, espevitar a fé, promover os dons de cada um em benefício de todos.

O castelhano é de fácil e acessível leitura, mas esperando um pouco logo estará disponível em português. O autor como o livro foi-nos recomendado, informando que a tradução para português está pronta, faltando a publicação. Aguardemos.

       Para quem não tenha lido a Exortação Apostólica de Francisco, a Alegria do Evangelho, seria oportuno ler agora, por exemplo, enquanto se aguarda a publicação deste livro em português. Perceber-se-á melhor o contexto, o ambiente desta proposta de Pagola.

       Segue a apresentação do livro pelo próprio José Antonio Pagola:


15
Jun 14
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11
Mai 14
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ELISABETTA PIQUÉ (2014). Francisco, Vida e Revolução. Lisboa: Esfera dos Livros. 304 páginas.

        Este é um livro, sobre o atual Papa que vale mesmo a pena ler.

       Já muito se escreveu sobre Jorge Mario Bergoglio, eleito Papa no dia 13 de 2013, após a renúncia de Bento XVI, que se recolheu a simples peregrino a 28 de fevereiro de 2013. Curiosamente, no dia 28 de fevereiro de 1998 morreu o então Cardeal de Buenos Aires, Quarracino, que o tinha chamado para bispo auxiliar e, algum tempo depois, para Bispo Coadjutor, isto é, com direito de sucessão. É o que acontece com a morte de Quarracino. Bergoglio torna-se Arcebispo de Buenos Aires. Em 21 de fevereiro de 2001 passa a ser Cardeal da Santa Igreja, pelas mãos de João Paulo II.

       Quando surge na varanda, vestido de branco, é um ilustre desconhecido para a maioria das pessoas e mesmo os jornalistas são surpreendidos, ainda que existam várias pessoas que apontem para Bergoglio, os que o conhecem mais de perto, um ou outro jornalista, alguns sacerdotes de Buenos Aires. Por outro lado, e vem a saber-se maia claramente, no eleição de Bento XVI teria sido o segundo mais votado, tendo atingido uns 40 votos, mas dizendo claramente os votos deveriam ir para Bento XVI.

       Em 2013, muito rapidamente o nome de Bergoglio ganhou vantagem. Na 5.ª votação ultrapassou os 77 votos necessários à eleição. Escolheu o nome de Francisco, referido a São Francisco de Assis, pobreza, serviço aos pobres, paz, ligação à natureza. E mais uma vez é surpreendente, até na escolha do nome. Deus pediu a Francisco de Assis: Vai e reconstrói a minha Igreja que está em ruínas. De algum modo é o mesmo pedido e desafio ao Papa Francisco.

       Mas porque que é que esta é uma leitura que recomendamos vivamente?

       A jornalista, Elisabetta Piqué também é argentina. Vive em Itália. Terá sido a única jornalista a prever a eleição de Bergoglio e a divulgá-lo no twitter, depois de troca de impressões com o marido, também jornalista. Ganhou o prémio Mariano Moreno da Universidade Argentina da Empresa pela soberba cobertura da renúncia de Bento XVI. É amiga do Pe. Jorge Bergoglio, então Arcebispo e Cardeal, que sempre tem oportunidade de conviver em família, quando ele se deslocava o Vaticano.

       Há vários livros sobre Francisco, mais biográficos, ou lançando os desafios que enfrentará como Papa, com muitos dados que desconhecíamos. Mas também é livros menos conseguidos. A presa em publicar e rapidamente vender, pois não falta quem queira saber mais sobre o Papa vindo do fim do mundo. Este é a vantagem de uma investigação cuidada, no terreno, na Argentina, no Vaticano, através de fontes bem colocadas, pessoalmente. Tem vários episódios que são desconhecidos de outras publicações. Lê-se com muito agrado, constatando que Francisco "não caiu" do Céu. Como pessoa, como sacerdote, como Bispo e como Cardeal, a mesma postura de pobreza, despojamento, vivendo austeramente, muito próximo das pessoas, do povo, dos seus sacerdotes, ajudando sempre.

       O que mais me surpreendeu?

       Neste livro não se fala mal do Papa alemão. Muitas publicações, para acentuarem a diferença de estilos e de postura, contrapõem um ao outro. Para afirmarem a simpatia por Francisco, desvalorizam o papel, a proximidade, a humildade ou os gestos grandiosos de Bento XVI. Ao longo de todo o livro uma grande alegria pelo Papa da Argentina, mas um grande respeito e consideração pelo Papa da Alemanha. O texto repetidamente vai sublinhando como o então Cardeal Ratzinger se distinguia no trato, na simpatia, na educação, no meio de uma cúria romana fria, distante, sobranceira. Num registo pessoal, a jornalista mostra como os próprio filhos choraram a renúncia de Bento de XVI.

       Se outras razões não houvesse, para mim, esta já seria motivadora para uma leitura interessada, pois tenho , desde a primeira hora, o Papa Bento XVI como um homem de Deus, sábio, humilde, simpático, com gestos de grande simpatia. Levou tempo, para muitos, a aceitá-lo, pois sucede a um pontificado longo, o de João Paulo II, com um preconceito imediato: alemão e o responsável pela Congregação para a Doutrina da Fé.

       Para os que gostam muito de Francisco, como eu, esta é uma leitura muito clarificadora, que nos aproxima ainda mais daquele homem latino, carinhoso, próximo, humilde e de uma grande estatura intelectual.

       Para os que gostam muito de Bento XVI, como eu, esta leitura em nada belisca o carácter, a afabilidade, a humildade e a grandeza, a bondade do Papa alemão.


10
Mai 14
publicado por mpgpadre, às 20:46link do post | comentar |  O que é?

       1 – A belíssima imagem do pastor e das ovelhas, em Dia Mundial das Vocações, sublinha a iniciativa de Deus, que cria por amor, respeita a nossa liberdade, mantem-Se próximo, potencia as nossas capacidades e opções. Se Ele é o Bom Pastor, nós somos o rebanho que deve fixar o olhar em Jesus Cristo. Para não nos desviarmos, para não nos perdermos, para não corrermos o risco de ser devorados pelos lobos, pelo mal, pelo egoísmo.

       Quando nos centramos no nosso interesse, naquilo que comemos, naquilo que temos, a séria possibilidade de nos perdermos dos outros e de Jesus Cristo. Imagem clarificadora: se uma ovelha pastar, preocupada em saciar a sua fome, mas esquecendo-se das que seguem ao lado, ou deixando de avistar o pastor, poderá perder-se momentaneamente ou para sempre. Assim connosco. Em todo o caso, o Pastor vigia o tempo todo e, se o rebanho é muito grande, conta com ajudantes, companheiros, parentes, ou cães de guarda. Nós somos as ovelhas, o rebanho do Senhor, mas somos também os Seus ajudantes, procurando, com a nossa voz e o nosso peregrinar, fazer com que nenhuma ovelha se perca, e como ovelhas não perder de vista os que nos acompanham e Aquele que é o Bom Pastor.

       O Bom Pastor dá a vida pelas ovelhas, congregando-as na unidade, procurando as melhores pastagens. «O Senhor é meu pastor: nada me falta. Leva-me a descansar em verdes prados, conduz-me às águas refrescantes e reconforta a minha alma» (Salmo). Se alguma tem dificuldade em acompanhar o rebanho, o Pastor volta atrás, pega-lhe ao colo ou põe-na aos ombros. É o que faz Jesus pela humanidade. É o que deveremos fazer uns pelos outros. Ele identifica-Se connosco,  para que nós possamos tornar-nos semelhantes a Ele, seguindo-O.

       2 – O pastor conhece as ovelhas pelo nome e sabe as características específicas de cada uma. Elas, por sua vez, conhecem a sua voz, percebem a aproximação até pelo jeito de andar. Se entra no aprisco um ladrão ou salteador, as ovelhas ficam agitadas.

       «Aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas. As ovelhas conhecem a sua voz. Ele chama cada uma delas pelo seu nome. Caminha à sua frente e as ovelhas seguem-no, porque conhecem a sua voz. Se for um estranho, não o seguem, mas fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos».

       O pastor entra pela porta, às claras, falando, cantando. O salteador, o inimigo, entra silencioso, sorrateiro, para que ninguém se aperceba da sua presença, de noite quando todos dormem, ou em momentos em que o pastor não está por perto. É um pouco como os lobos, pronto para devorar. As obras do bem e da verdade não precisam de estar acobertas da noite e da escuridão.

       Outra imagem sugestiva usada por Jesus:

       «Eu sou a porta das ovelhas. Aqueles que vieram antes de Mim são ladrões e salteadores, mas as ovelhas não os escutaram. Eu sou a porta. Quem entrar por Mim será salvo: é como a ovelha que entra e sai do aprisco e encontra pastagem. O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir. Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância».

       É por Ele que seremos salvos. Podemos abrandar o nosso passo, distrair-nos, afastar-nos. Poderemos seguir por outras portas, ou ir atrás de outros "pastores", mas no final é n'Ele que nos encontraremos como irmãos. Identificando-nos com Jesus, sabemos que estamos no bom caminho. A salvação que chega até nós não nos castiga ou destrói. Como referia Bento XVI, nas Jornadas Mundiais da Juventude, em Colónia, Cristo não nos tira nada. Ele vem precisamente para que tenhamos a vida e vida em abundância.


Textos para a Eucaristia (ano A): Atos 2, 14a. 36-41; Sl 22 (23), 1 Ped 2, 20b-25; Jo 10, 1-10.

 


13
Mar 14
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03
Jan 14
publicado por mpgpadre, às 11:00link do post | comentar |  O que é?

Papa FRANCISCO. Espírito de Natal. Paulus Editora. Apelação 2013. 88 páginas.

       A Paulus Editora brinda-nos com este pequeno livro, com mensagens do Papa Francisco para o Natal, homilias na noite de Natal, mensagens à Diocese de Buenos Aires, reflexões sobre esta quadra.

       Diríamos desde logo que os textos apresentados são do papa Francisco e não são do Papa Francisco, pois referem-se a um período anterior, como Arcebispo de Buenos Aires, o então D. Jorge Maria Bergoglio. São do Papa Francisco pois a linguagem acessível, simples, familiar, transparecendo proximidade de fé é a mesma que atualmente utiliza como Bispo de Roma, como Papa. Assim também os temas estão na base do discurso, das mensagens e das homilias de Francisco. A este propósito se vê claramente uma continuidade. A pessoa é a mesma, como Arcebispo e Cardeal e como Papa, as coordenadas são semelhantes: fé em Cristo, alegria, proximidade sobretudo com os mais próximos, diálogo, cultura do encontro e da proximidade.

       Obviamente que a esta altura do campeonato há muito livros escritos sobre o Papa Francisco, muitos livros com as suas intervenções na Argentina, e agora como Papa. A Paulus faz-nos o favor de agregar textos para esta quadra, desafiando-nos a colocar Jesus Cristo no centro do Natal, com Maria e José, com as pessoas simples, como os pastores, em contágio com o mundo inteiro, como os magos do Oriente.


16
Dez 13
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

       No passado dia 24 de novembro, solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, e Encerramento do Ano da Fé, o Papa Francisco entregou á Igreja a Sua primeira Exortação Apostólica, A Alegria do Evangelho - Evangelii Gaudium. Resulta do Sínodo dos Bispos, realizado entre os dias 7 e 28 de outubro de 2012, presidido por Bento XVI, sobre a Nova Evangelização para a Transmissão da Fé. Habitualmente, depois do Sínodo é publicada uma Exortação, em que o Papa recolhendo e sintetizando os propósitos do Sínodo, apresenta as linhas de força, neste caso, para a vivência da fé, no contexto atual.

       Como é do conhecimento geral, Bento XVI resignou à missão de Papa, sendo eleito um novo Papa, em 13 de março, como título de Francisco, a quem coube elaborar esta Exortação que vivamente recomendamos. O documento anterior, a Encíclica Lumen Fidei, ainda que a assinatura seja de Francisco, foi preparada e enformada por Bento XVI, recolhendo algumas notas/impressões pessoais de Francisco. A Exortação é toda ela da lavra de Francisco.

       Muito já se disse e continua a dizer desta Exortação, pelo que aqui traga apenas um ou outro sublinhado.

       Em primeiro lugar, e para quem gosta muito de comparações, ficam claro que não são relevantes. Cada Papa tem a sua maneira de ser e de pastorear. Mas as diferenças não são tamanhas como as semelhanças. Num e noutro, em Bento XVI e em Francisco, vêm ao de cima a grande fé e proximidade a Jesus Cristo e à Sua palavra de amor. Escrevem de forma simples, direta, acessível, envolvente, cuja mensagem é claramente perceptível. Cada Papa traz o seu cunho pessoal. Não foi diferente de Bento XVI, não é diferente de Francisco. Se alguma diferença se nota, talvez o facto de o discurso de Francisco não ser não sistemático, mas mais ao correr da pena.

       Como em muitos documentos papais anteriores, também este se socorre dos Predecessores, como João XXIII, Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI.

       Da minha leitura, agradável e viciante, verifiquei outra diferença: Bento XVI cita muito Santo Agostinho, sobre quem escreve, reflete, promove; Francisco escreve e cita com maior frequência São Tomás de Aquino. Para Francisco, a Suma Teológica é uma referência constante. Santo Agostinho para já está mais escondido.

       Evangelho significa precisamente Boa Notícia, capaz de suscitar alegria, essencial ao anúncio do Evangelho. Quem acolhe Jesus, fá-lo com alegria, que há de transbordar para os outros, em compromissos de serviço e de caridade.

       Há toda uma linguagem e termos que Francisco tem vindo a vincar: cultura do encontro, cuidado dos mais frágeis, educação e cultura, a cultura do descarte, contrapondo com a cultura da proximidade...

       Mais um belíssimo texto que infunde esperança, mobilizando a vivência alegre e comprometida da fé, no mundo atual.


30
Nov 13
publicado por mpgpadre, às 10:46link do post | comentar |  O que é?

NELLO SCAVO. A Lista de Bergoglio. Os que foram salvos por Francisco durante a ditadura. Paulinas editora. Prior Velho 2013. 208 páginas.

       Quem não ouviu falar da Lista de Schindler, cujo filme colocou em evidência o trabalho de Oskar Schindlerque terá salvo centenas de judeus. A lista dos que foram livres da matança Nazi sublinham a barbárie perpretada contra os judeus e a generosidade de pessoas muito concretas que tudo fizeram, o que estava ao alcance, para salvar vidas, correndo o risco de eles próprios serem arrestados para a tortura e para a morte. Há também um português de quem se poderia fazer uma lista, Aristides de Sousa Mendes.

       Vamos para o continente americano, mais ao sul, ditaduras ora à esquerda ora à direito, mas com os mesmos métodos: silenciar as vozes incómodas e de opinião ou prática contrária. A Argentina ainda sara as feridas desses tempos, meados dos anos 70 e 80, com milhares de desaparecidos depois do golpe militar que impôs uma ditadura de direita, com muitos silenciamentos, alguns dos quais cansados da bárbarie anterior.

       Quando foi eleito o Cardeal Ratzinger, escolhendo o nome de Bento (XVI), minutos depois já havia insinuações de que o papa eleito tinha integrado o exército Nazi e, nesse propósito, teria sido conivente com o regime. Não foi preciso qualquer desmentido, pois foi claro, num olhar mais honesto, que como jovem foi obrigado a entrar na vida militar, com 16 anos, desertando no ano seguinte, correndo o sério risco de ser morto. Por outro lado, era evidente na sua biografia que o próprio pai, O seu pai, comissário da polícia, oriundo de uma família de agricultores da Baixa Baviera, de modestas condições económicas, por não estar sintonizado com as políticas governamentais foi mudado de posto em ocasiões sucessivas. Apesar de não haver dúvidas, a não ser por maldade, ainda hoje, por vezes na comparação com o Papa atual, se refere que Ratzinger era nazi, ou que teve alguma coisa a ver.

       Paralelamente, ou não, mal foi conhecido o nome do Cardeal Bergoglio, como Papa Francisco, logo se levantaram suspeitas sobre a sua vida e atuação, enquanto Provincial dos Jesuítas da Argentina, durante a ditadura de direita, nomeadamente insinuando-se que dois jesuítas, que se encontravam em processo de deixarem a Companhia de Jesus, tinham sido entregues por ele, ou pelo menos nada tinha feito para os libertar.

       Nello Scavo, jornalista, encetou uma investigação independente, sem recorrer ao Vaticano, ou a fontes católicas, mas a documentação existente, a pessoas que conheceram e lidaram com Bergoglio, a sobreviventes que ele ajudou, descobrindo com facilidade que Bergoglio tinha uma rede clandestina para sobretrair à prisão e a morte muitos dos que eram procurados pelo regime, sacerdotes, religiosos, catequistas e até pessoas sem fé ou sem identidade religiosa.

       É um livro verdadeiramente clarificador. O jornalista que lançou a "bomba" procurando mostrar que Bergoglio tinha sido cúmplice no rapto dos dois padres jesuítas retirou as suspeitas ao ouvir um dos sacerdotes a confessar claramente que Bergoglio nada teve a ver com o caso, pelo contrário, tudo fez até que os dois jesuítas foram libertados, ajudando depois ao seu exílio para evitar futuras prisões. Com efeito, Bergoglio, jovem sacerdote, ajudada muitos a esconder-se no Colégio dos Jesuítas, outros a sairem do país, sendo acolhidos no país de destino por outros contactos seus, incentivando-os a denunciar o que se passava na Argentina. Sempre de forma discreta, mas bastante eficaz.

       Depois de algumas personagens que fazem parte da Lista de Bergoglio terem capítulos dedicados, na parte final a transcrição de interrogatório feito pelo tribunal que deve julgar os crimes da ditadura, com juizes, advogados das vítimas, advogados de defesa, com o agora Papa Francisco a responder com clareza, sem medo, mostrando total abertura e acesso a toda a documentação existente no Arcebispado de Buenos Aires ou na Conferência Episcopal.

       Há testemunhos que mostram à saciedade o trabalho incansável do Pe. Bergoglio, conduzindo o carro pelas ruas da capital, procurando não atrair atenções. Por vezes nem os colegas sabiam o que ele fazia: levava jovens para o colégio e apresentava-os como sendo jovens que iam fazer um retiro.

        O livro ajuda a compreender muitas das intervenções duras de Francisco, enquanto Cardeal e Arcebispo de Buenos Aires e ajudam também a conhecer a história e o temperamento dos argentinos.

       Leitura obrigatória para quem quer conhecer a vida do Papa e o seu caráter decidido.


15
Nov 13
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

ANTONIO SPADARO. Ciberteologia. Pensar o cristianismo na era da internet. Paulinas Editora, Prior Velho 2013, 192 páginas.

        Uma sugestão de leitura que antes nos foi sugerida. Quando sugerimos uma leitura, fazemo-la por ser envolvente, pelo conteúdo, pela forma, pela beleza, pela importância deste ou daquele texto. Na última Assembleia do Clero, da Diocese de Lamego, no dia 5 de outubro de 2013, alguém, em plenário, recomendou esta leitura. Seguindo a recomendação, logo procurámos o livro, e depois da nossa leitura, recomendamo-lo nós também.

 

       António Spadaro, diretor da Revista Cevittá Cattolica, entrevistou há pouco tempo o Papa Francisco, o que o tornou bem mais conhecido. A entrevista, de que já demos nota, é a primeira grande entrevista do Papa Francisco, concedida às revistas da Companhia de Jesus, a que também o papa pertencia. Spadaro é consultor nos Pontifícios da Cultura e das Comunicações Sociais. É docente na Universidade Gregoriana.

       Ao longo dos tempos têm-se dedicado a refletir sobre os meios de comunicação social, nomeadamente no contexto da REDE. O livro Ciberteologia é resultado das reflexões colocadas no blogue com o mesmo nome, com conferências dadas, com investigação e estudo.

       É uma obra de pensamento amadurecido. Apresenta a Internet como um ambiente humano. Não apenas um instrumento, ou um meio, para chegar mais longe, mas uma realidade que facilmente passa do virtual ao encontro.

       São muitos os termos presentes nestes meios que são transferidos da teologia: justificar, apagar, partilhar, grupos, busca, pesquisa, caminho, links, salvar, converter, navegar, home (casa, o ambiente da família). Linguagem da teologia na internet, mas também termos que se tornam mais compreensíveis quando voltam para a teologia.

        Antonio Spadaro traça a evolução técnica da rede, a grande revolução, a necessidade de refletir sobre este ambiente humano. As pessoas estão interligadas, conectadas, de certa maneira, em comunhão. Quando se fala de internet fala-se de vida, e não de fios, cabos, modems, gadgets. É uma experiência de vida. Um EU que se encontra com um TU. A internet é uma ambiente de evangelização.

       Sublinha-se no livro, e na entrevista que se segue, que a Internet não substitui o encontro pessoal, como não substitui a liturgia da Igreja, a inserção na comunidade crente. Ambiente digital que ajuda a conhecer o mundo, aproxima as pessoas,...

       A era da Rede também altera a comunicação, influencia a evangelização, a educação, a relação com a Igreja e com as instituições tradicionais.

       Nos dias 3 e 4 de outubro de 2013, decorreram, em Fátima, as Jornadas de Comunicação Social. Um dos convidados foi precisamente Antonio Spadaro. Segue-se a conferência que ajuda a perceber o que significa ciberteologia, motivando a leitura deste livro, ou a leitura deste livro poderá despertar um maior interesse para escutar esta exposição:

Veja também a pré-publicação de Cibertelogia na página do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura: AQUI.


04
Nov 13
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31
Out 13
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

JOSEPH RATZINGER. Introdução ao cristianismo. Prelecções sobre o «Símbolo Apostólico». Principia. Cascais 2006. 272 páginas.

 

       A Introdução ao Cristianismo é uma obra de referência para a teologia do século XX mas que entra inevitavelmente neste novo século e milénio, não fosse o seu autor um dos mais conceituados teólogos do mundo católico e cristão, Joseph Ratzinger, que viria a ser Bispo, Cardeal, Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, braço direito de João Paulo II e de Papa Bento XVI, de 19 de abril de 2005 a 28 de fevereiro de 2013, tendo decidido resignar para que o Evangelho ganhasse vigor num mundo cada vez mais exigente.

       Tinha sido um dos peritos do Concílio, acompanhando o seu Bispo. Era, e continuou a ser, um promissor teólogo. Professor, estudioso. Não deixando de o ser, mesmo assumindo a missão de Pastor.

       Este livro foi dado à estampa em 1968. Como se refere no prefácio à 10.ª edição, em pouco mais de um ano “vulgarizou-se”, com uma venda invulgar “ultrapassando inclusive as fronteiras entre o Oeste e o Leste e entre os diversos credos religiosos”.

       Em 2000, novo prefácio, que assinala dois anos especiais que atravessaram os 30 anos que tinha a obra: 1968 e 1989. Dois acontecimentos verdadeiramente revolucionários. No entanto, Ratzinger, agora Cardeal, mantem as linhas orientadoras do seu estudo, como contributo para a reflexão teológico, centrado no credo, no Símbolo dos Apóstolos, desde o início em que foi surgindo nas fórmulas batismais, de pergunta e resposta, e à volta do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Profissão de Fé que vem antes do dogma.

       Obviamente, ao longo doa anos, Ratizinger publicou outras obras, que aprofundam alguns aspetos, com outras matizes, com outros enquadramentos. Certamente que este é um livro fundamental para conhecer o pensamento de Ratzinger/Bento XVI. Vislumbram-se muitas das intuições presentes posteriormente em outros estudos, mas também em homilias, mensagens, discursos, conferências.

       Introdução ao Cristianismo foi preparado para ser publicado em livro, mas nasceu das prelecções proferidas pelo sacerdote Joseph Ratzinger, para audiências de todas as faculdades durante o semestre de verão de 1967, em Tübingen.

       É um texto de fácil compreensão, mas não tanto como outros mais pastorais. Evidentemente trata-se de uma obra de estudo, de reflexão, académica, ainda que bastante expositiva, viva no debate, com exemplos, pequenas histórias, centrando-se no CREDO mas dialogando com diversos ambientes, autores, épocas, diferentes áreas do saber.

       Duas notas muito em evidência em todo o texto: humildade de quem faz teologia, respeito por quem discorda acolhendo os aspetos mais relevantes. Desde o início que o sacerdote/professor deixa claro que a teologia não encerra o mistério de Deus. Quem pretender absolutizar a teologia corre o sério risco de limitar a omnipotência, colocando-se em seu lugar. Por outro lado, Ratzinger lança diversas pontes de diálogo e discussão com autores católicos, protestantes, e até judeus. Mesmo recusando argumentos de alguns autores bem conhecidos, sublinha sempre o trabalho, a seriedade que tiveram ou aqueles princípios que terão que ser melhor estudados, ou que deram um importante contributo à reflexão teológico e/ou científica, nesta ou naquela área. També aqui cai por terra, com facilidade, o preconceito que rodeou o teólogo, o Cardeal e o Papa (Bento XVI) que seria déspota ou demasiado rígido. Leia-se e ver-se-á a disponibilidade para o diálogo, e a humildade diante do mistério de Deus. E no final, como valor maior o amor. A fé é razão. O Verbo encarnou. O Verbo é o Logos, é razão. A fé é razoável. A fé não é escuridão, mesmo que haja momentos de treva, é sobretudo luz. É Palavra. É Pessoa, Jesus Cristo. É amor. Estas intuições estão muito presentes na primeira Carta Encíclica do Papa Francisco, preparada por Bento XVI.

       Outros livros mais acessíveis e onde Bento XVI aprimora o seu discurso, tornando-o mais simples e claro. Jesus de Nazaré (em três volumes), publicado já como Papa Bento XVI, obra sobre Jesus Cristo, mistério da encarnação, vida pública, morte e ressurreição; A Alegria da Fé, recolha de textos, discursos, homilias, trechos das encíclicas, exortações, centrados no CREDO e nos Sacramentos. Um livrinho que também recomendámos e que aborda sobretudo a questão da fé: Aprender a acreditar. Estas leituras são mais fáceis, acessíveis, mais pastorais, mais orais, se quisermos. Mas para quem quiser aprofundar mais o pensamento de Bento XVI, ou acompanhar um pouco mais o processo de reflexão, de argumentação, de estudo, será revelador a leitura desta obra.


29
Out 13
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BENTO XVI. Aprender a Acreditar. Paulus Editora. Lisboa 2012. 98 páginas.

       Envolvido na reflexão do papa Bento XVI, que há dias atrás propusemos para leitura – a Alegria da Fé – escolhemos outra obra para ler e que nos permite continuar a saborear a forma leve, acessível, contagiante da escrita/reflexão do Papa ancião. Homilias, discursos, cartas, mensagens, coligidos de forma sistemática por Giuliano Vigini, numa temática concreta, desta feita “Aprender a Acreditar”, título que integra uma coleção da Paulus Editora, “Introdução à Fé”, encorpando a compreensão do Ano da Fé, convocado por Bento XVI e que será concluído pelo Papa Francisco.

       Segundo Vigini, no prefácio a esta obra, “porque estamos num tempo de esquecimento de Deus, o Ano da Fé é como «a cidade levantada num monte» para o qual Bento XVI nos convida a subir. Daquele lugar, afastamo-nos com a imaginação e o coração desde os confins deste pequeno muno ancorado no presente; vamos subindo e observamos o espaço na direção dos horizontes sem confins da realidade futura, onde a luz ilumina de esperança a atualidade do homem. Inicia, por, ou retoma, a viagem à procura de Deus, com o propósito de O encontrar ou de O reencontrar, ou seja, de estabelecer com Ele uma relação pessoa que entre mais em profundidade no espaço e no testemunho da vida. Aprender a acreditar é um convite, uma exortação, um empenhamento”.

       Quatro capítulos cujos títulos são elucidativos: 1) A inquietação do coração; 2) O caminho da Procura; 3) Porque é difícil crer; 4) As respostas da Fé.

       O ponto de partida é a inquietação, partindo da humildade do coração. Nesta perspetiva, a inquietação dos jovens com tanta vida pela frente. Papel preponderante é a Esperança, não apenas em nós ou nas coisas materiais ou no tempo presente. À medida que realizamos as nossas aspirações, outras maiores vão surgindo, e a alma, nas palavras de Santo Agostinho, um dos santos prediletos de Bento XVI, conjuntamente com São José e São Bento (nomes de batismo e de pontificado, respetivamente), a nossa alma anda inquieta enquanto não repousar em Deus, a Esperança maior, a grande esperança, que não é aniquilada com a morte.

       A procura é contínua. Ajuda a reflexão de Santo Agostinho. Procurar, encontrar, voltar a procurar. Trata-se da conversão permanente, estamos a caminho. Por outro lado, procuramos Deus, mas também Deus nos procura, vem ao nosso encontro, em Jesus Cristo, caminha connosco. O Deus que Jesus nos mostra não é o da filosofia, distante, mas é Amor, próximo. Coração que ama. Sentindo-nos amados respondemos com amor. Daí também a perspetiva da caridade, sabendo que existem situações em que primeiro amamos, servimos, e só depois anunciamos Deus. Mas se Deus é amor, então ao amarmos já estamos a comunicar Deus.

       Um dos aspetos amplamente refletidos por Bento XVI, e de que dá nota esta recolha de textos, a dialética entre fé e razão. O mundo atual, e sobretudo o Ocidente, endeusou a ciência em contraponto com a fé. Bento XVI, em diversas ocasiões, afirma claramente a riqueza da fé, a fé como LUZ e não como obscuratimos, e como a fé e a razão se conjugam, se ajudam e mutuamente se purifica. A ciência leva ao desenvolvimento, mas falta-se a ética, que vem da fé, e da razão.

       A fé é dom, acolhido, rezado, celebrado. É uma luz na escuridão, uma Luz que irradia de Jesus e que se enriquece em Igreja, em comunidade. Sobretudo na quarta parte vislumbra-se a reflexão que está amplamente difundida na primeira Carta Encíclica do Papa Francisco, A Luz da Fé, preparada, num primeiro esboço, pelo próprio papa Bento XVI e cujas intuições aparecem na largueza das suas meditações, assumida por inteiro pelo atual Papa que lhe deu o seu cunho, aqui e além.

       Mais um belíssimo texto para ler. Não é preciso muito tempo. É necessário começar a ler e deixar-se conduzir pela fluidez do discurso. Vai poder enriquecer o seu vocabulário espiritual, humano.


25
Out 13
publicado por mpgpadre, às 12:51link do post | comentar |  O que é?

HOMILIA de início de Pontificado do Papa João Paulo II, a 22 de outubro de 1978:

        Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo! (Mt. 16, 16).

 

       Estas palavras foram pronunciadas por Simão, filho de Jonas, na região de Cesareia de Filipe. Sim, ele exprimiu-as na sua própria língua, com uma profunda, vivida e sentida convicção; mas elas não tiveram nele a sua fonte, a sua nascente: .., porque não foram a carne nem o sangue quem to revelaram, mas o Meu Pai que está nos céus (Mt. 16, 17). Tais palavras eram palavras de Fé.

       Elas assinalam o início da missão de Pedro na história da Salvação, na história do Povo de Deus. E a partir de então, de uma tal confissão de Fé, a história sagrada da Salvação e do Povo de Deus devia adquirir uma nova dimensão: exprimir-se na caminhada histórica da Igreja. Esta dimensão eclesial da história do Povo de Deus tem as suas origens, nasce efectivamente dessas palavras de Fé e está vinculada ao homem que as pronunciou, Pedro: Tu és Pedro — rocha, pedra — e sobre ti, como sobre uma pedra, Eu edificarei a Minha Igreja (Cfr. Mt. 16, 18).

       Hoje e neste lugar é necessário que novamente sejam pronunciadas e ouvidas as mesmas palavras: Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo!

       Sim, Irmãos e Filhos, antes de mais nada estas palavras.

        O seu conteúdo desvela aos nossos olhos o mistério de Deus vivo, aquele mistério que o Filho veio colocar mais perto de nós. Ninguém como Ele, de facto, tornou o Deus vivo assim próximo dos homens e ninguém O revelou como o fez só Ele mesmo. No nosso conhecimento de Deus, no nosso caminhar para Deus, estamos totalmente dependentes do poder destas palavras: Quem me vê a Mim, vê também o Pai (Jo. 14, 9). Aquele que é infinito, imperscrutável e inefável veio para junto de nós em Jesus Cristo, o Filho unigénito, nascido de Maria Virgem no presépio de Belém.

       O vós, todos os que já tendes a dita inestimável de crer; vós, todos os que ainda andais a buscar a Deus; e vós também, os atormentados pela dúvida:

       — procurai acolher uma vez mais — hoje e neste local sagrado — as palavras pronunciadas por Simão Pedro. Naquelas mesmas palavras está a fé da Igreja; em tais palavras, ainda, encontra-se a verdade nova, ou melhor, a última e definitiva verdade — sobre o homem: o filho de Deus vivo. — Tu és o Cristo, Filho de Deus vivo!

       Hoje o novo Bispo de Roma inicia solenemente o seu ministério e a missão de Pedro. Nesta Cidade, de facto, Pedro desempenhou e realizou a missão que lhe foi confiada pelo Senhor. Alguma vez, o mesmo Senhor dirigiu-se a ele e disse-lhe: Quando eras mais jovem, tu próprio te cingias e andavas por onde querias; mas quando fores velho, estenderás as mãos e outro cingir-te-á e levar-te-á para onde tu não queres (Jo. 21, 18).

        Pedro, depois, veio para Roma! E o que foi que o guiou e o conduziu para esta Urbe, o coração do Império Romano, senão a obediência à inspiração recebida do Senhor? — Talvez aquele pescador da Galileia não tivesse tido nunca vontade de vir até aqui; teria preferido, quiçá, permanecer lá onde estava, nas margens do lago de Genesaré, com a sua barca e com as suas redes. Mas, guiado pelo Senhor e obediente à sua inspiração, chegou até aqui.

       Segundo uma antiga tradição (e, qual foi objecto de uma expressão literária magnífica num romance de Henryk Sienkiewicz), durante a perseguição de Nero, Pedro teria tido vontade de deixar Roma. Mas o Senhor interveio e teria vindo ao encontro dele. Pedro, então, dirigindo-se ao mesmo Senhor perguntou: "Quo vadis Domine? — Onde ides, Senhor?". E o Senhor imediatamente lhe respondeu: "Vou para Roma, para ser crucificado pela segunda vez". Pedro voltou então para Roma e aí permaneceu até à sua crucifixão.

       Sim, Irmãos e Filhos, Roma é a Sede de Pedro. No decorrer dos séculos sucederam-se nesta Sede sempre novos Bispos. E hoje um outro novo Bispo sobe à Cátedra de Pedro, um Bispo cheio de trepidação e consciente da sua indignidade. E como não havia ele de trepidar perante a grandeza de tal chamamento e perante a missão universal desta Sede Romana?

       Depois, passou a ocupar hoje a Sé de Pedro em Roma um Bispo que não é romano, um Bispo que é filho da Polónia. Mas, a partir deste momento também ele se torna romano. Sim, romano! Até porque é filho de uma nação cuja história, desde os seus alvores, e cujas tradições milenárias estão marcadas por um ligame vivo, forte, jamais interrompido, sentido e vivido com a Sé de Pedro, de uma nação que a esta mesma Sé de Roma permaneceu sempre fiel. Oh, como é insondável o desígnio da Divina Providência!

       Nos séculos passados, quando o Sucessor de Pedro tomava posse da sua Sede, era colocado sobre a sua cabeça o símbolo do trirregno, a tiara papal. O último a ser assim coroado foi o Papa Paulo VI em 1963, o qual, porém, após o rito solene da coroação, nunca mais usou esse símbolo do trirregno, deixando aos seus sucessores a liberdade para decidirem a tal respeito.

       O Papa João Paulo I, cuja memória está ainda tão viva nos nossos corações, houve por bem não querer o trirregno; e hoje igualmente o declina o seu Sucessor. Efectivamente, não é o tempo em que vivemos tempo para se retornar a um rito e àquilo que, talvez injustamente, foi considerado como símbolo do poder temporal dos Papas.

        O nosso tempo convida-nos, impele-nos e obriga-nos a olhar para o Senhor e a imergir-nos numa humilde e devota meditação do mistério cio supremo poder do mesmo Cristo.

        Aquele que nasceu da Virgem Maria, o filho do carpinteiro — como se considerava —, o Filho de Deus vivo — confessado por Pedro — veio para fazer de todos nós um reino de sacerdotes (Cfr. Ex. 19, 6).

       O II Concílio do Vaticano recordou-nos o mistério de um tal poder e o facto de que a missão de Cristo — Sacerdote, Profeta, Mestre e Rei — continua na Igreja. Todos, todo o Povo de Deus é participe desta tríplice missão. E talvez que no passado se pusesse sobre a cabeça do Papa o trirregno, aquela tríplice coroa, para exprimir, mediante tal símbolo, o desígnio do Senhor sobre a sua Igreja; ou seja, que toda a ordem hierárquica da Igreja de Cristo, todo o seu "sagrado poder" que nela é exercitado mais não é do que o serviço, aquele serviço que tem como finalidade uma só coisa: que todo o Povo de Deus seja participe daquela tríplice missão de Cristo e que permaneça sempre sob a soberania do Senhor, a qual não tem as suas origens nas potências deste mundo, mas sim no Pai celeste e no mistério da Cruz e da Ressurreição.

       O poder absoluto e ao mesmo tempo doce e suave do Senhor corresponde a quanto é o mais — profundo do homem, às suas mais elevadas aspirações da inteligência, da vontade e do coração. Esse poder não fala com a linguagem da força, mas exprime-se na caridade e na verdade.

       O novo Sucessor de Pedro na Sé de Roma, neste dia, eleva uma prece ardente, humilde e confiante: O Cristo! Fazei com que eu possa tornar-me e ser sempre servidor do Vosso único poder! Servidor do Vosso suave poder! Servidor do vosso poder que não conhece ocaso! Fazei com que eu possa ser um servo! Mais ainda: servo dos Vossos servos.

        Irmãos e Irmãs:

       não tenhais medo de acolher Cristo e de aceitar o Seu poder! E ajudai o Papa e todos aqueles que querem servir a Cristo e, com o poder de Cristo, servir o homem e a humanidade inteira! Não, não tenhais medo! Antes, procurai abrir, melhor, escancarar as portas a Cristo! Ao Seu poder salvador abri os confins dos Estados, os sistemas económicos assim como os políticos, os vastos campos de cultura, de civilização e de progresso! Não tenhais medo! Cristo sabe bem "o que é que está dentro do homem". Somente Ele o sabe!

       Hoje em dia muito frequentemente o homem não sabe o que traz no interior de si mesmo, no profundo do seu ânimo e do seu coração, muito frequentemente se encontra incerto acerca do sentido da sua vida sobre esta terra. E sucede que é invadido pela dúvida que se transmuta em desespero. Permiti, pois — peço-vos e vo-lo imploro com humildade e com confiança — permiti a Cristo falar ao homem. Somente Ele tem palavras de vida; sim, de vida eterna.

       Precisamente neste dia, a Igreja inteira celebra o seu "Dia Missionário Mundial"; ou seja, reza, medita e age a fim de que as palavras de vida de Cristo possam chegar a todos os homens e por eles sejam. acolhidas como mensagem de salvação, de esperança e de libertação total.

       Quero agradecer a todos os presentes, que quiseram assim participar neste acto solene do início do ministério do novo Sucessor de Pedro.

       Agradeço do coração aos Chefes de Estado, aos Representantes das Autoridades, às Delegações de Governos, pela sua presença que muito me honra.

       Obrigado a Vós, Eminentíssimos Cardeais da Santa Igreja Romana!

       Agradeço-vos, amados Irmãos no Episcopado!

       Obrigado a vós, Sacerdotes!

       A vós, Irmãs e Irmãos, Religiosas e Religiosos das várias Ordens e Congregações, obrigado!

       Obrigado a vós, Romanos!

       Obrigado aos peregrinos, vindos aqui de todo o mundo!

       E obrigado a todos aqueles que estão unidos a este Rito Sagrado através da Rádio e da Televisão!

        E agora (em polaco) dirijo-me a vós, meus queridos compatriotas, Peregrinos da Polónia: aos Irmãos Bispos, tendo à frente o vosso magnífico Primaz; e aos Sacerdotes, Irmãs e Irmãos das Congregações religiosas, polacos, como também a vós, representantes da "Polónia" do mundo todo:

       E que vos direi a vós, os que viestes aqui da minha Cracóvia, da Sé de Santo Estanislau, de quem eu fui indigno sucessor durante catorze anos! Que vos direi? — Tudo aquilo que vos pudesse dizer seria pálido reflexo em confronto com quanto sente neste momento o meu coração e sentem igualmente os vossos corações. Deixemos de parte, portanto, as palavras. E que fique apenas o grande silêncio diante de Deus, o silêncio que se traduz em oração.

       Peço-vos que estejais comigo! Em Jasna Gora e em toda a parte. Não deixeis nunca de estar com o Papa, que neste dia ora com as palavras do poeta: "Mãe de Deus defendei vós a Límpida Czestochowa e resplandecei na 'Porta Aguda'!" (1). E as mesmas palavras eu as dirijo a vós, neste momento particular.

       Fiz um apelo (em italiano) e um convite à oração pelo novo Papa, apelo que comecei a exprimir em língua polaca...

       Com o mesmo apelo dirijo-me agora a vós, todos os filhos e todas as filhas da Igreja Católica. Lembrai-vos de mim, hoje e sempre, na vossa oração!

       Aos católicos dos países de língua francesa (em francês), exprimo todo o meu afecto e toda a minha dedicação! E permito-me contar com o vosso amparo filial e sem reservas! Oxalá façais novos progressos na fé! Aqueles que não partilham esta fé, dirijo também a minha respeitosa e cordial saudação. Espero que os seus sentimentos de benevolência facilitarão a missão que me incumbe e que não deixa de ter reflexos sobre a felicidade e a paz do mundo!

      A todos vós os que falais a língua inglesa (em inglês) envio, em nome de Cristo, uma cordial saudação. Conto com a ajuda das vossas orações e na vossa boa vontade, para levar avante a minha missão de serviço à Igreja e à humanidade. Que Cristo vos dê a Sua graça e a Sua paz, abatendo as barreiras da divisão e de tudo fazendo, n'Ele, uma só coisa.

       Dirijo (em alemão) uma afectuosa saudação a todos os representantes dos povos dos países de língua alemã, aqui presentes. Diversas vezes, e ainda recentemente durante a minha visita à República Federal da Alemanha, tive ocasião de conhecer pessoalmente e de apreciar a benéfica actividade da Igreja e dos seus fiéis. Oxalá que o vosso compromisso e o vosso sacrifício por Cristo venham, também no futuro, a tornar-se fecundos para os grandes problemas e as preocupações da Igreja em todo o mundo. É isto o que vos peço, recomendando às vossas especiais orações o meu novo ministério apostólico.

       O meu pensamento dirije-se agora para o mundo de língua espanhola (em espanhol), porção tão considerável da Igreja de Cristo. A vós, queridos Irmãos e Filhos, chegue neste momento solene a saudação afectuosa do novo Papa. Unidos pelos vínculos da comum fé católica, sede fiéis à vossa tradição cristã vivida num clima cada vez mais justo e solidário, mantende a vossa conhecida proximidade ao Vigário de Cristo e cultivai intensamente a devoção à nossa Mãe Maria Santíssima.

       Irmãos e Filhos de língua portuguesa (em português): Como "servo dos servos de Deus", eu vos saúdo afectuosamente no Senhor. Abençoando-vos, confio na caridade da vossa oração e na vossa fidelidade, para viverdes sempre a mensagem deste dia e deste rito: Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo!

      ...

       Abro o coração a todos os Irmãos das Igrejas e das Comunidades Cristãs, saudando-vos (em italiano) em particular a vós, os que estais aqui presentes, na expectativa do próximo encontro pessoal; mas desde já vos quero expressar sincero apreço por haverdes querido assistir a este rito solene. E quero ainda dirigir-me a todos os homens — a cada um dos homens (e com quanta veneração o apóstolo de Cristo deve pronunciar esta palavra, homem!):

       — rezai por mim!

     — ajudai-me, a fim de que eu vos possa servir!

       Ámen. 

 

FONTE: Vaticano: AQUI.


13
Out 13
publicado por mpgpadre, às 12:00link do post | comentar |  O que é?

BENTO XVI. A Alegria da Fé. Paulinas Editora. Prior Velho 2012

        O Papa Bento XVI é uma comunicador por excelência, porque comunica o que lhe vai na alma, fruto de uma experiência profunda de fé, na proximidade com Jesus Cristo, enxertado e mergulhado na história da Igreja, como estudioso, sacerdote, professor, catedrático, pastor, bispo, e como "humilde servidor da vinha do Senhor", desde 19 de abril de 2005 a 28 de fevereiro de 2013. Depois de convocar o Ano Paulino (2000 anos do nascimento de São Paulo) , de convocar o Ano Sacerdotal, convocou o Ano da Fé, a estender-se de 11 de outubro de 2012 (50 anos após o início do Vaticano II e 20 anos após a publicação do Catecismo da Igreja Católica) a 24 de novembro de 2013, solenidade do Cristo Rei do Universo.

       Num ambiente largamente fragmentado, em que ideias/ideologias, convicções, religiões, tudo é igual, marcado por doses significativas de indiferença em relação aos outros, de marginalização e privatização da fé e do fenómeno religioso, sobretudo na Europa e no mundo ocidental ou ocidentalizado, em que as prioridades na sua maioria são novas e velhas formas de escravização, colocando a economia no lugar de Deus, liberalizando e mercantilizando a vida, destruindo os mais frágeis, ser humanos por nascer e idosos vulneráveis arrumados para não incomodar... a convocação do Ano da Fé traz consigo o propósito de mostrar como a Luz da Fé clarifica o que é verdadeiramente importante. Para os cristãos a Porta da Fé é Jesus Cristo, que nos traz Deus, que nos abre a mente e o coração para os valores da vida, para a dinàmica e a essencialidade do amor e da verdade, para a prioridade da pessoa face ao mercado liberalizado e utilitarista.

       Um dos desideratos sublinhados por Bento XVI é a ALEGRIA da fé, a alegria de nos sabermos amados por Deus, nos descobrimos filhos no Filho, redimidos na morte e na ressurreição de Jesus, vastidão do Amor de Deus que clama por amor. Reconhecendo que vivemos no amor de Deus, a urgência de comunicá-lo aos outros para que que todos caminhemos como irmãos, na descoberta constante dos laços de ternura e de amizade que nos unem, na edificação do reino de justiça, de paz e de bem.

       Nesta publicação, Giuliano Vigini faz um apanhado de diversos textos de Bento XVI, homilias, mensagens, discursos, intervenções, cartas encíclicas, ajeitando-os nos grandes temas que nos remetem para o Credo, do Credo para a comunidade, da comunidade para o mundo inteiro: Creio em Deus Pai, Jesus Cristo, Espírito Santo, Igreja, Vida Eterna, Ressurreição dos mortos e comunhão Santos, Sacramentos, Eucaristia, Confirmação, Penitência, Batismo.

       Para aqueles que estão familiarizados com a escrita de Bento XVI têm aqui mais uma oportunidade de se deixarem tocar pela leveza, simplicidade, envolvência, como se estivesse a ouvir e não a ler, tal é a intensidade do texto, a clareza, assomando uma fé profunda, vivida, partilhada, com diversas experiências de vida, dentro da Igreja e em ambientes diversificados. É certo que nestes dias o olhar se fixa mais facilmente no Papa Francisco e na fluidez e espontaneidade do seu discurso e dos seus gestos, mas, para quem não for preconceituoso (em relação ao Papa alemão), não há antagonismo. Estou em crer que quem apreciar ao forma de comunicar de Francisco não terá dificuldade em entender a mensagem de Bento XVI, ainda que aqui ou acolá possam relevar a especificidade de cada um dos Papas, mas a leveza é demasiado similar.

       Para quem se tem deixado tocar pela presença, pelas palavras, pelos gestos do Papa Francisco, e que sempre se sentiu mais distante de Bento XVI, e se calhar nunca o escutou com atenção, com o coração, ou não o leu, terá aqui uma excelente oportunidade para de fazer uma juízo de valor mais equilibrado. São pedaços de uma vida preenchido, transparecendo a Luz de Jesus Cristo, pelo Espírito Santo, na Igreja que formamos.

       Vai valer a pena deixar-se contagiar pela alegria da Fé, que irradia das intervenções de Bento XVI.


12
Out 13
publicado por mpgpadre, às 18:30link do post | comentar |  O que é?

       1 – O amor exige amor. O bem realizado provoca a gratidão. A gratidão só é possível partindo da humildade e do reconhecimento do bem que o outro nos faz. Quem agradece abre-se ao dom alheio, disponibiliza-se a valorizar o que recebeu. Em muitas situações da vida, o melhor agradecimento está em usar bem o que se recebeu.

       Amar implica relação, coração que se debruça sobre alguém. Tem implícita uma resposta positiva. O Papa Bento XVI, servindo-se de conceitos gregos, apresenta o amor nos seus diversos graus. Ágape, é o amor oblativo, o nível superior, que procura o bem do outro, sem esperar nada em troca. Neste sentido, o amor de Deus é sobretudo ágape (caritas = caridade). Deus dá-Se totalmente ao ser humano. Noutro polo está o eros, “o amor de quem deseja possuir aquilo que lhe falta, ansiando pela união do amado”. Haverá alguma coisa que o homem é e tem e que Deus não possua já?

       Porém, sublinha Bento XVI, “o amor de Deus também é eros... o Omnipotente espera o «sim» das suas criaturas, tal como um jovem esposo espera o sim da sua esposa… Na Cruz o próprio Deus mendiga o amor da sua criatura: Ele tem sede do amor de cada um de nós… A resposta que o Senhor deseja ardentemente de nós é, antes de mais, que acolhamos o seu amor e nos deixemos atrair por Ele. Aceitar o seu amor não basta. Devemos corresponder a esse amor e, depois, empenharmo-nos em comunicá-lo aos outros”.

       2 – Jesus passa entre a Samaria e a Galileia, a caminho de Jerusalém e encontra 10 leprosos. Está em movimento, a caminhar. Vem ao nosso encontro, ao nosso caminho. Cabe-nos acolher a Sua presença: «Jesus, Mestre, tem compaixão de nós». A cura coloca-nos a caminhar, e no caminhar, no sair de si, está a cura para muitos dos nossos males físicos e espirituais.

       A narração continua e mostra a atitude de um dos leprosos que, vendo-se curado, glorifica a Deus em alta voz e se prostra aos pés de Jesus para Lhe agradecer. Era um estrangeiro, um samaritano, inimigo dos judeus, impuro como leproso e impuro por ser samaritano. Ainda assim, só ele glorifica a Deus e agradece a Jesus.

       Rapidamente o desabafo de Jesus: «Não foram dez os que ficaram curados? Onde estão os outros nove? Não se encontrou quem voltasse para dar glória a Deus senão este estrangeiro?» Jesus, quando os curou não lhes perguntou pela origem, pela classe social, pela religião, pelas suas histórias passadas. Simplesmente, curou-os. Atendeu aos seus pedidos. Também aqui Jesus dá a Sua vida, dá a Sua graça. Cura. Sem esperar receber nada em troca. É o amor-ágape. Brota da Sua benevolência, da Sua compaixão, de um coração que transborda de Amor. Seguindo a reflexão de Bento XVI, seria expectável o agradecimento. Uma resposta. Um obrigado. Uma palavra. Um gesto. O amor gera amor.

       Não basta, responder ao amor com amor, é necessário comunicá-lo, testemunhá-lo aos outros e daí o envio: «Levanta-te e segue o teu caminho; a tua fé te salvou». Levantar-se. Pôr-se a caminho. De novo. Sempre. A fé como ponto de partida, como condição para nos fazermos caminho.

 

       3 – Cientes da palavra de Deus que hoje toca o nosso coração, que propósitos para renovar aspetos da nossa vida? Agradeço o que sou, o que tenho, a minha família? Agradeço o sol ou a chuva de cada manhã? Louvo a Deus por tudo o que de bom me rodeia? Reconheço os dons que Deus dá aos outros? E de que forma eu agradeço pelos dons que Ele me dá? Ponho-os a render? Guardo-os para mim?

       Não tenhamos medo de usar muitas vezes o “obrigado”. Agradeçamos a quem nos faz a refeição. Elogiemos este ou aquele prato confecionado. Obrigado a alguém que nos deu a passagem, nos emprestou um lápis, agradeçamos a Deus por cada sorriso que nos predispõe para o bem. Agradeça. Louve. Hoje. Faça um elogio a cada pessoa da sua família. Há sempre oportunidades. Pelo penteado, pela roupa, pela refeição, pela expressividade do rosto, pelo olhar, pelo sorriso. Um elogio. Um obrigado. Muda o seu olhar. Muda a atitude de quem escuta. Faça o domingo acontecer. Hoje.


Textos para a Eucaristia (ano C): 2 Reis 5, 14-17; 2 Tim 2, 8-13; Lc 17, 11-19.

 


10
Out 13
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

TRANSITAR EM PACIÊNCIA:

 

       "É um tema do qual me fui apercebendo, durante anos, ao ler um livro de um autor italiano, com um título muito sugestivo: Teologia del fallimento, ou seja, teologia do fracasso, onde se expõe como Jesus entrou em paciência. Na experiência do limite, no diálogo com o limite, forja-se a paciência. Às vezes, a vida leva-nos não a «fazer», mas sim a «padecer», suportando, sustentando as nossas limitações e as dos outros. Transitar a paciência é apercebermo-nos de que o que amadurece é o tempo. Transitar em paciência é deixar que o tempo paute e amasse as nossas vidas".

       "Transitar em paciência implica aceitar que a vida é isso: uma aprendizagem contínua. Quando uma pessoa é nova, julga que pode mudar o mundo; e isso está certo, tem de ser assim. Mas, depois, quando procura, descobre a lógica da paciência na própria vida e na dos outros. Transitar em paciência é assumir o tempo e deixar que os outros façam a sua vida. Um bom pai, tal como uma boa mãe, é aquele que vai intervindo na vida do filho o suficiente para lhe marcar as pautas de crescimento, para o ajudar, mas que depois sabe ser espetador dos fracassos próprios e alheios, e os supera".

 

       "... segurar o papagaio [de papel] assemelha-se à atitude que é preciso ter perante o crescimento da pessoa: em dado momento, é preciso dar-lhe corda, porque «rabeia». Dito de outra maneira: é preciso dar-lhe tempo. Temos de saber pôr o limite no momento justo. Mas, outras vezes, temos de saber olhar para o outro lado e fazer como o pai da parábola, que deixa que o filho se vá embora e desperdice a sua fortuna, para que faça a sua própria experiência"

 

       "Quantas vezes, na vida, é preciso travar, não querer atingir tudo de repente! Transitar na paciência pressupõe todas essas coisas: é claudicar da pretensão de querer solucionar tudo. É preciso fazer um esforço, mas entendendo que uma pessoa não pode tudo. Há que relativizar um pouco a mística da eficácia".

 

In SERGIO RUBIN e FRANCESCA AMBROGETTI, Papa Francisco. Conversas com Jorge Bergoglio.


09
Out 13
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

«Quero crer em Deus Pai, que me ama como filho, e em Jesus, o Senhor, que me infundiu o seu Espírito na minha vida, para me fazer sorrir e levar-me assim ao reino eterno da vida.

Creio na minha história que foi trespassada pelo olhar amoroso de Deus e, num dia de Primavera, 21 de Setembro, saiu ao meu encontro para me convidar a segui-lo.

Creio na minha dor, infecunda pelo egoísmo, onde me refúgio.

Creio na mesquinhez da minha alma, que procura engolir sem dar… sem dar.

Creio em que os outros são bons, e que devo amá-los sem temor, e sem trai-los nunca à procura de segurança para mim.

Creio na vida religiosa.

Creio que quero amar muito.

Creio na morte quotidiana, ardente, de que fujo, mas que me sorri convidando-me a aceitá-la.

Creio na paciência de Deus, acolhedora, boa como uma noite de Verão.

Creio que o meu papá está no Céu junto do Senhor.

Creio que o padre Duarte também lá está intercedendo pelo meu sacerdócio.

Creio em Maria, a minha mãe, que me ama e nunca me deixará só.

E espero a surpresa de cada dia na qual se manifestará o amor, a força, a traição e o pecado, que me acompanharão até ao encontro definitivo com esse rosto maravilhoso que não sei como é, de que me desvio continuamente, mas que quero conhecer e amar.

Ámen.»

 

In SERGIO RUBIN e FRANCESCA AMBROGETTI, Papa Francisco. Conversas com Jorge Bergoglio. Paulinas Editora. Prior Velho 2013


08
Out 13
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

       "A dor não é uma virtude em si mesma, mas o modo como é assumida pode ser virtuoso. A nossa vocação é a plenitude e a felicidade, e, nessa busca, a dor é um limite. Por isso, o sentido da dor só é entendido plenamente através da dor de Deus feito Cristo...

       Por isso, a solução passa por entender a Cruz como semente de ressurreição. Toda a tentativa de suportar a dor obterá resultados parciais, se não for fundamentada na transcendência. É uma dádiva entender e viver a dor em plenitude. Mais ainda: viver em plenitude é uma dádiva...

       Tanto a dor física como a espiritual puxam para dentro, onde ninguém pode entrar; implicam uma dose de solidão. Do que a pessoa precisa é de saber que alguém a acompanha, que gosta dela, que respeita o seu silêncio e reza para que Deus entre nesse espaço que é pura solidão".

 

       "A dor é algo que está ligado à fecundidade. Atenção! Não é uma atitude masoquista, mas sim aceitar que a vida nos marca limites".

 

In SERGIO RUBIN e FRANCESCA AMBROGETTI, Papa Francisco. Conversas com Jorge Bergoglio. Paulinas Editora. Prior Velho 2013


07
Out 13
publicado por mpgpadre, às 10:34link do post | comentar |  O que é?

       - Certamente, a longo da sua vida sacerdotal, muita gente desempregada o deve ter procurado. Qual a sua experiência?

       É gente que não se sente pessoa. É que, por mais que as suas famílias e os seus amigos os ajudem, querem trabalhar, querem ganhar o pão com o suor do seu rosto. É que, em última instância, o trabalho unge a dignidade a pessoa. A unção de dignidade não é dada pelos antepassados, nem pela formação familiar, nem pela educação. A dignidade, enquanto tal, só vem pelo trabalho. Comemos o que ganhamos, mantemos a nossa família com o que ganhamos. Não interessa se é muito ou pouco. Se é mais, melhor. Podemos ter uma fortuna, mas se não trabalharmos, a dignidade vai-se abaixo.

 

- A pior parte fica com os que querem trabalhar e não podem.

 

       O que acontece é que o desempregado, nas suas horas de solidão, sente-se infeliz, porque «não ganha a vida». Por isso, é muito importante que os governos dos diferentes países, através dos ministérios competentes, fomentem uma cultura do trabalho, e não da dádiva. É verdade que em momentos de crise há que recorrer à dádiva para sair da emergência (...). Mas depois é preciso ir fomentando fontes de trabalho porque, e não me canso de o repetir, o trabalho outorga dignidade.

 

- Na outra ponta está o problema do excesso de trabalho... Será necessário recuperar o sentido do ócio?

 

       O seu sentido mais recto. O ócio tem duas aceções: como desocupação e como gratificação. Dizendo de outra maneira: uma pessoa que trabalha deve ter tempo para descansar, para estar em família, para ter prazer, ler, ouvir música, praticar um desporto. Mas isto está a ser destruído, em boa medida, com a supressão do descanso dominical. Há cada vez mais pessoas a trabalhar aos domingos, consequência da competitividade introduzida pela sociedade de consumo. Nesses casos vamos para outro extremo: o trabalho acaba por desumanizar. Quando o trabalho não dá lugar ao ócio saudável, ao repouso reparador, então escraviza, porque uma pessoa já não trabalha pela dignidade, mas sim pela competitividade. Está viciada a intenção pela qual estou a trabalhar...

       A Igreja sempre disse que a chave da questão social é o trabalho. O homem trabalhador é o centro. Hoje, em muitos casos, isto não é assim. Facilmente se é despedido, se não render como previsto. Passa a ser uma coisa, não é tido em conta como pessoa... Não nos esqueçamos que uma das principais causas do suicídio é o fracasso laboral no âmbito de uma competitividade feroz. Por isso, não se pode olhar para o trabalho apenas pelo lado funcional. O centro não é o lucro, nem o capital. O homem não é para o trabalho, mas sim o trabalho para o homem.

 

In SERGIO RUBIN e FRANCESCA AMBROGETTI, Papa Francisco. Conversas com Jorge Bergoglio, Paulinas Editora. Prior Velho 2013


26
Set 13
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

Amados irmãos e irmãs, bom dia!

       Hoje, volto a falar sobre a imagem da Igreja como mãe. Gosto muito desta imagem da Igreja como mãe. Por este motivo quis voltar a falar sobre ela, porque me parece que esta imagem nos diz não só como é a Igreja, mas também que rosto esta nossa Mãe-Igreja deveria ter cada vez mais.Gostaria de frisar três situações, considerando sempre as nossas mães, tudo o que elas fazem, vivem e sofrem pelos próprios filhos, continuando aquilo que eu disse na quarta-feira passada. Interrogo-me: o que faz uma mãe?
       Antes de tudo, ensina a caminhar na vida, ensina a comportar-se bem na vida, sabe como orientar os filhos, procura sempre indicar o caminho recto na vida para crescer e para se tornar adultos. E fá-lo sempre com ternura, carinho e amor, até quando procura endireitar o nosso caminho, porque nos desviamos um pouco na vida ou seguimos veredas que levam para um precipício. A mãe sabe o que é importante, para que o filho caminhe bem na vida, e não o aprendeu dos livros, mas do próprio coração. A Universidade das mães é o seu coração! Ali elas aprendem a orientar os seus filhos.
       A Igreja age do mesmo modo: orienta a nossa vida, oferece-nos ensinamentos para caminhar bem. Pensemos nos dez Mandamentos: indicam-nos uma senda a percorrer para amadurecer, para dispor de pontos firmes no modo de nos comportarmos. E são fruto da ternura, do amor do próprio Deus que no-los concedeu. Vós podereis dizer-me: mas são ordens! São um conjunto de «nãos»! Gostaria de vos convidar a lê-los — talvez os tenhais esquecido um pouco — e depois a considerá-los positivamente. Vereis que dizem respeito ao modo de nos comportarmos em relação a Deus, a nós mesmos e ao próximo, precisamente como nos ensina a nossa mãe, para vivermos bem. Convidam-nos a não construir ídolos materiais que depois nos tornam escravos, a recordar-nos de Deus, a ter respeito pelos pais, a ser honestos, a respeitar os outros... Procurai vê-los assim, a considerá-los como se fossem as palavras, os ensinamentos sugeridos pela mãe para caminhar bem na vida. A mãe nunca ensina o que é mal, mas só quer o bem dos filhos, e é assim que a Igreja age.
       Gostaria de vos dizer algo mais: quando um filho cresce, torna-se adulto, toma o seu caminho, assume as suas responsabilidades, caminha com as próprias pernas, faz o que quer e, às vezes, pode até sair do caminho, acontece algum incidente. Em todas as situações, a mãe tem sempre a paciência de continuar a acompanhar os filhos. O que a impele é a força do amor; a mãe sabe acompanhar com discrição e ternura o caminho dos filhos e até quando erram procura sempre o modo de os compreender, para estar próxima, para ajudar. Nós — na minha terra — dizemos que a mãe sabe «dar la cara». Que significa? Quer dizer que a mãe sabe «dar a cara» pelos próprios filhos, ou seja, é levada a defendê-los sempre. Penso nas mães que sofrem pelos filhos na prisão, ou em situações difíceis: não se perguntam se são culpados ou não, continuam a amá-los e muitas vezes sofrem humilhações, mas não têm medo, não deixam de se doar.
       A Igreja é assim, é uma mãe misericordiosa que entende, que procura sempre ajudar, encorajar, até quando os seus filhos erram, e nunca fecha as portas da Casa; não julga, mas oferece o perdão de Deus, oferece o seu amor que convida a retomar o caminho até aos filhos que caíram num precipício profundo, a Igreja não tem medo de entrar na sua noite para dar esperança; a Igreja não tem medo de entrar na nossa noite, quando estamos na escuridão da alma e da consciência, para nos infundir a esperança, pois a Igreja é mãe!

        Um último pensamento. A mãe sabe também pedir, bater a todas as portas pelos próprios filhos, sem calcular; fá-lo com amor. E penso no modo como as mães sabem bater, também e sobretudo, à porta do Coração de Deus! As mães rezam muito pelos seus filhos, especialmente pelos mais frágeis, por quantos enfrentam maiores necessidades, por aqueles que na vida empreenderam caminhos perigosos ou errados. Há poucas semanas celebrei na igreja de Santo Agostinho, aqui em Roma, onde estão conservadas as relíquias da sua mãe, santa Mónica. Quantas orações elevou a Deus aquela santa mãe pelo filho, e quantas lágrimas derramou! Penso em vós, amadas mães: quanto rezais pelos vossos filhos, sem vos cansardes! Continuai a rezar, a confiar os vossos filhos a Deus; Ele tem um coração grande! Batei à porta do Coração de Deus com a prece pelos filhos!
       E assim age também a Igreja: põe nas mãos do Senhor, com a oração, todas as situações dos seus filhos. Confiemos na força da oração da Mãe-Igreja: o Senhor não permanece insensível. Ele sabe surpreender-nos sempre, quando menos esperamos. A Mãe-Igreja sabe fazê-lo!
       Eis, estes eram os pensamentos que que vos queria transmitir hoje: vejamos na Igreja uma boa mãe que nos indica o caminho a percorrer na vida, que sabe ser sempre paciente, misericordiosa, compreensiva, e que sabe pôr-nos nas mãos de Deus.
 
in Audiência Geral, Praça de São Pedro, Quarta-feira, 18 de Setembro de 2013: AQUI.


23
Set 13
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

Amados irmãos e irmãs, bom dia!

       Retomemos hoje as catequeses sobre a Igreja, neste «Ano da fé». Entre as imagens que o Concílio Vaticano II escolheu para nos levar a compreender melhor a natureza da Igreja, existe a da «mãe»: a Igreja é a nossa mãe na fé, na vida sobrenatural (cf. Const. dogm. Lumen gentium, 6.14.15.41.42). Trata-se de uma das imagens mais usadas pelos Padres da Igreja nos primeiros séculos e na minha opinião ela pode ser útil também para nós. Para mim, é uma das imagens mais bonitas da Igreja: a Igreja-mãe! Em que sentido e de que modo a Igreja é mãe? Comecemos a partir da realidade humana da maternidade: o que faz uma mãe?

       Antes de tudo, a mãe gera para a vida, leva no seu ventre por nove meses o seu filho e depois abre-o à vida, gerando-o. Assim é a Igreja: gera-nos na fé, por obra do Espírito Santo que a torna fecunda, como a Virgem Maria. Tanto a Igreja como a Virgem Maria são mães; o que se diz da Igreja pode ser dito também de Nossa Senhora; e o que se diz de Nossa Senhora pode ser dito inclusive da Igreja! Sem dúvida, a fé é um acto pessoal: «eu creio», eu, pessoalmente, respondo a Deus que se faz conhecer e quer entrar em amizade comigo (cf. Enc. Lumen fidei, 39). Mas eu recebo a fé de outros, numa família, numa comunidade que me ensina a dizer «eu creio», «nós cremos». O cristão não é uma ilha! Não nos tornamos cristãos em laboratórios, não nos tornamos cristãos sozinhos e só com as nossas forças, mas a fé é uma dádiva, um dom de Deus que nos é concedido na Igreja e através da Igreja. E a Igreja doa-nos a vida de fé no Baptismo: este é o momento no qual nos faz nascer como filhos de Deus, o instante em que nos concede a vida de Deus, que como mãe nos gera. Se fordes ao Baptistério de São João de Latrão, a Catedral do Papa, encontrareis uma inscrição latina que reza mais ou menos assim: «Aqui nasce um povo de estirpe divina, gerado pelo Espírito Santo que fecunda estas águas; a Igreja-Mãe dá à luz os seus filhos nestas ondas». Isto leva-nos a entender algo importante: o nosso fazer parte da Igreja não é um dado exterior e formal, não consiste em preencher um papel que nos dão, mas é um gesto interior e vital; não se pertence à Igreja como se pertence a uma sociedade, a um partido ou a uma organização qualquer. O vínculo é vital, como aquele que temos com a nossa mãe porque, como afirma santo Agostinho, «a Igreja é realmente mãe dos cristãos» (De moribus Ecclesiae, I, 30, 62-63: PL 32, 1336). Interroguemo-nos: como considero a Igreja? Se estou grato também aos meus pais, porque me concederam a vida, estou grato à Igreja, porque me gerou na fé mediante o Baptismo? Quantos cristãos recordam a data do próprio Baptismo? Gostaria de vos dirigir uma pergunta aqui, mas cada qual responda no seu coração: quantos de vós recordam a data do seu Baptismo? Alguns levantam as mãos, mas quantos não recordam! Todavia, o dia do Baptismo é a data do nosso nascimento na Igreja, a data em que a nossa Igreja-mãe nos deu à luz! E agora dou-vos um dever para fazer em casa. Hoje, quando voltardes para casa, ide procurar bem qual é a data do vosso Baptismo, e isto para a festejar, para dar graças ao Senhor por este dom. Fá-lo-eis? Amamos a Igreja como amamos a nossa mãe, sabendo entender também os seus defeitos? Todas as mães têm defeitos, todos nós temos defeitos, mas quando se fala dos defeitos da mãe, nós cobrimo-los, amamo-la assim. E inclusive a Igreja tem os seus defeitos: amamo-la como amamos a nossa mãe, ajudamo-la a ser mais formosa e mais autêntica, mais em conformidade com o Senhor? Deixo-vos estas perguntas, mas não vos esqueçais do dever: procurar a data do vosso Baptismo para a manter no coração e festejar.

       Uma mãe não se limita a dar a vida, mas com grande atenção ajuda os seus filhos a crescer, dá-lhes o leite, alimenta-os, ensina-lhes o caminho da vida, acompanha-os sempre com as suas atenções, com o seu carinho e com o seu amor, até quando são adultos. E nisto sabe também corrigir, perdoar e compreender, sabe estar próxima na enfermidade e no sofrimento. Em síntese, uma mãe boa ajuda os filhos a sair de si mesmos, a não permanecer comodamente debaixo das asas maternas, como uma ninhada debaixo das asas da galinha. Como uma mãe boa, a Igreja faz a mesma coisa: acompanha o nosso crescimento, transmitindo a Palavra de Deus, o qual é uma luz que nos indica o caminho da vida cristã; administrando os Sacramentos. Alimenta-nos com a Eucaristia, concede-nos o perdão de Deus através do Sacramento da Penitência e apoia-nos na hora da doença com a Unção dos enfermos. A Igreja acompanha-nos durante toda a nossa vida de fé, em toda a nossa vida cristã. Então, podemos fazer outras perguntas: qual é a minha relação com a Igreja? Sinto-a como mãe que me ajuda a crescer como cristão? Participo na vida da Igreja, sinto-me parte dela? A minha relação é formal ou vital?

       Um terceiro breve pensamento. Nos primeiros séculos da Igreja, era muito clara uma realidade: enquanto é mãe dos cristãos, enquanto «faz» os cristãos, a Igreja é também «feita» de cristãos. A Igreja não é algo diverso de nós mesmos, mas deve ser vista como a totalidade dos fiéis, como o «nós» dos cristãos: eu, tu, todos nós fazemos parte da Igreja. São Jerónimo já escrevia: «A Igreja de Cristo outra coisa não é, a não ser as almas daqueles que acreditam em Cristo» (Tract. Ps 86: PL 26, 1084). Então, a maternidade da Igreja é vivida por todos nós, pastores e fiéis. Às vezes ouço: «Creio em Deus, mas não na Igreja... Ouvi que a Igreja diz... os sacerdotes dizem...». Mas uma coisa são os sacerdotes, pois a Igreja não é formada só por sacerdotes, todos nós somos a Igreja! E se tu dizes que crês em Deus e não na Igreja, dizes que não acreditas em ti mesmo; e esta é uma contradição. Todos nós somos a Igreja: desde a criança recentemente baptizada, até aos Bispos e ao Papa; todos nós somos Igreja e todos somos iguais aos olhos de Deus! Todos somos chamados a colaborar para o nascimento de novos cristãos na fé, todos somos chamados a ser educadores na fé, a anunciar o Evangelho. Cada um de nós deve perguntar-se: o que faço para que os outros possam compartilhar a fé cristã? Sou fecundo na minha fé, ou vivo fechado? Quando repito que amo uma Igreja não fechada no seu espaço, mas capaz de sair, de se mover até com alguns riscos, para levar Cristo a todos, penso em todos, em mim, em ti, em cada cristão. Participamos todos na maternidade da Igreja, a fim de que a luz de Cristo alcance os extremos confins da Terra. Viva a santa Igreja-mãe!

 

in Audiência Geral, Praça de São Pedro, Quarta-feira, 11 de Setembro de 2013: AQUI.


03
Set 13
publicado por mpgpadre, às 10:06link do post | comentar |  O que é?

       Belíssima reflexão do bom Papa João XXIII, o Papa que convocou o Concílio Vaticano II. Vale a pena soltal a estas palavras. É no HOJE de Jesus que havemos de sintonizar a nossa vida. É HOJE que somos cristãos.

1. Somente hoje, procurarei viver o presente (em sentido positivo), sem querer resolver o problema da minha vida inteiramente de uma só vez.

2. Somente hoje, terei o máximo cuidado pelo meu aspecto: vestirei com sobriedade; não levantarei a voz; serei gentil nos modos; ninguém criticarei; não pretenderei melhorar ou disciplinar alguém, a não ser eu mesmo.

3. Somente hoje, serei feliz na certeza de que fui criado para ser feliz não só no outro mundo, mas também neste.

4. Somente hoje, adaptar-me-ei às circunstâncias, sem pretender que as circunstâncias se adaptem aos meus desejos.

5. Somente hoje, dedicarei dez minutos do meu tempo a uma boa leitura, lembrando que como o alimento é necessário para a vida do corpo, do mesmo modo a boa leitura é necessária para a vida da alma.

6. Somente hoje, realizarei uma boa acção e não o direi a ninguém.

7. Somente hoje, farei algo que não gosto de fazer, e se me sentir ofendido nos meus sentimentos, farei de modo que ninguém perceba.

8. Somente hoje, organizarei um programa: talvez não o siga exactamente, mas o organizarei. E tomarei cuidado com dois defeitos: a pressa e a indecisão.

9. Somente hoje, acreditarei firmemente, não obstante as aparências, que a boa providência de Deus se ocupa de mim como de ninguém no mundo.

10. Somente hoje, não temerei. De modo particular, não terei medo de desfrutar do que é bonito e de acreditar na bondade. Posso fazer, por doze horas, o que me espantaria se pensasse em ter que o fazer por toda a vida.

 

Conclusão: um propósito totalitário: "Quero ser bom, hoje, sempre, com todos".


13
Ago 13
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

Michel COOL e António MARUJO. Francisco, Pastor para uma nova época. Paulinas Editora. Prior Velho 2013, 192 páginas.

       Da surpresa inicial à descoberta de uma postura coerente de vida, na proximidade de Jesus Cristo, na humildade mas também na frontalidade, na proximidade com as pessoas, independentemente do seu bilhete de identidade.

       Gestos e palavras do novo Papa, têm suscitado críticas muito positivas. Já aqui recomendámos livros sobre o Papa Francisco, e já recomendámos escritos, intervenções, homilias, mensagens, do então Cardeal de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio.

       Hoje sugerimos a leitura deste livro, que é uma espécie de 2 em 1. Sob o mesmo título, dois textos sobre Francisco, Papa eleito a 13 de março de 2013 e que logo suscitou grande curiosidade por ser pouco conhecido para a maioria das pessoas, pelo menos nesta região do globo.

       A primeira parte do livro é da autoria de Michel Cool, francês, repórter especializado em temas religiosos. Sob o título - Francisco, Papa do novo mundo -, trata-se de uma biografia que acompanha o Papa desde as origens, a família, a vocação, o episcopado, e os primeiros dias do Pontificado, como Francisco, procurando um estilo que o identifica como humildes, simples, autêntico. O trabalho aponta 10 prioridades para o Papa e para a Igreja, os dossiers urgentes, revisitando alguns dos textos do então Cardeal, bem como o testemunho de algumas personalidades aquando da Sua eleição surpresa - ou não tanto assim.

       Na parte final apresenta um pequeno abecedário com pronunciamentos do Papa Francisco/Bergoglio: aborto, bispo, Buenos Aires, Economi, Futebol, Humildade, Migrantes, Tango, Verdade, e outros temas.

       A segunda parte é da responsabilidade de António Marujo, jornalista português, e que se dedica sobretudo a temas religiosos. O seu livro, mencionado pela Editora, Deus vem a Público, apresenta diversas entrevistas, feitas ao longo de 10 anos, às mais importantes personalidades do universo religioso.

       Sete desafios à Igreja do Papa Francisco, é o título da reflexão de António Marujo. Partindo da originalidade/especificidade do Papa Francisco, o autor reflete sobre os grandes desafios que se levantam para a Igreja, dentro e fora, na relação com o mundo, no diálogo ecuménico e inter-regioso, seguindo a via do diálogo, da humildade, da verdade, da simplicidade, vivendo na dinâmica do evangelho, com a herança do Vaticano II, em atitude de conversão a Jesus e ao Seu evangelho de amor, e de fidelidade à vontade de Deus, no serviço dos mais frágeis, Igreja dos pobres e a caminho das periferias. Um dos aspetos a ter em conta: a Igreja, nas suas diversas estruturas deverá estar orientada para o serviço das pessoas, transparecendo o Evangelho e evitando burocracias que afastem e dividam.

       Se o título nos leva de imediato para o papado de Francisco, nas suas linhas gerais, os dois autores prestam uma enorme homenagem ao Papa Bento XVI. A comunicação, como a generalidade das pessoas, têm acentuado a postura de Francisco em relação a Bento XVI, e indiretamente a João Paulo II ou outros Papa, comparando-o sobretudo com o Bom Papa João XXIII. Curiosamente, quando os autores destes dois trabalhos abordam os desafios para a Igreja, no compromisso com o mundo atual, em atitude de serviço e de verdade, mostram como Bento XVI desencadeou processos, aprofundou vivências, atuou com firmeza em situações que mereciam atenção, com humildade na relação com as pessoas, convidando à autenticidade, denunciando o carreirismo dentro da Igreja, desafiando à vivência da fé traduzida em caridade.

       Lendo os textos do próprio Papa, enquanto Cardeal, ou já como Papa, cada um poderá tirar ilações da sua maneira de falar, de ver a Igreja e do mundo, da sua forma de se mover. Os gestos têm ajudado muito. Os livros sobre o Papa podem ajudar-nos a melhor interpretar as mensagens e os gestos papais.


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