...espaço de discussão, de formação, de cultura, de curiosidades, de interacção. Poderemos estar mais próximos. Deus seja a nossa Esperança e a nossa Alegria...
08
Abr 17
publicado por mpgpadre, às 15:00link do post | comentar |  O que é?

1 – O Domingo de Ramos remete-nos para o centro da nossa fé, com o mistério de entrega de Jesus a favor da humanidade inteira, logo a favor de cada um de nós, mistério de amor, de dádiva, de libertação, de resistência ao sofrimento, de priorização de Deus e da Sua vontade, de ousadia e de humildade, de perdão e de compaixão.

Entrada triunfal de Jesus na cidade santa de Jerusalém, montando num jumentinho. É o Príncipe da Paz, o filho de Deus, o Filho da Promessa. Não traz com Ele um exército, traz uma multidão desorganizada de maltrapilhos, pobres, galileus, adeptos, simpatizantes, discípulos, mulheres, publicanos. É uma multidão barulhenta, feliz, esperançosa. Aclamam, talvez, não a uma só voz ou na mesma direção, mas aclamam com júbilo, preparando-se exterior e interiormente para a Festa da Páscoa. Há rostos com lágrimas, há olhares apreensivos, há sorrisos rasgados e rostos fechados. Há quem esteja totalmente ali e quem esteja apenas por curiosidade, arrastados pelo ajuntamento.

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2 – A noite disfarça e esconde muita coisa. Depois da Ceia, Jesus sai com os discípulos para o Jardim das Oliveiras. A noite permite também o silêncio e, até certo ponto, o descanso. Mas não são horas para dormir, são horas de vigiar, de rezar com insistência. Pelo menos da parte de Jesus. Aproximam-se as trevas densas, tenebrosas, mas mais do que a falta de luminosidade exterior é a falta de luz nos corações. Quem não tem luz no coração vive mergulhado na morte.

Naquela hora, Jesus penetra o sofrimento mais atroz. O desfecho está à vista. Um pouco mais, e ainda escuro, na noite de Judas e das lideranças judaicas, será preso, julgado, condenado à morte. Resta pouco tempo. Alguns minutos, algumas horas, e o fim virá! Pai, Pai, Pai, se é possível que passe de Mim esta hora, que passe rápido que não aguento mais, ou passe adiante, porque é de mais, tanto sofrimento para um Homem só. Os gritos de Jesus levam os nossos gritos também. Pai, Pai, Pai, cumpra-se a Tua vontade. É mortal este caminho de entrega, é dom, mas é o caminho da salvação, a afirmação da verdade, da vida, da compaixão. São horas de levantar do sono, já se aproxima aquele que vai entregar o Filho do Homem.

 

3 – Em menos de nada, Jesus é condenado à morte, sem tempo para que alguém lance dúvidas ou ponderações. É açoitado, cuspido, injuriado, escarnecido. Colocam-se uma coroa, de espinhos, que se espetam na carne. Põem-Lhe aos ombros a trave da cruz. Pesada a cruz, difícil o caminho, fisicamente Jesus vai ficando esgotado.

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4 – Entre apupos, sobe a encosta do calvário, a arrastar-se, faz das tripas coração, das fraquezas forças. Os açoites violentos fizeram com que perdesse muito sangue, ficando em carne viva quase por todo o corpo, com músculos gravemente feridos. Segue mais morto que vivo. Mas avança decidido conforme as forças Lhe permitem. E se arrastam um Simão para ajudar a Cruz é por alguma compaixão ou simplesmente para apressar o desfecho, pois também os soldados veem que Jesus já não pode mais. Os amigos vão ficando para trás, escondendo-se entre a multidão e só as mulheres O seguem de perto, com Maria, Sua Mãe, no Seu encalço.

Completamente esgotado, a respirar a custo e ainda assim não O deixam sossegado, recebendo mais injúrias. A Sua oração ao Pai respira este aparente abandono – «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?». É o início do longo Salmo que termina confiando, entregando-se e suplicando a Deus. «Mas Vós, Senhor, não Vos afasteis de mim, sois a minha força, apressai-Vos a socorrer-me».


Textos (ano A): (Ramos:) Mt 21, 1-11 (Ramos); Is 50, 4-7; Sl 21 (22); Filip 2, 6-11; Mt 26, 14 – 27, 66.

 

REFLEXÃO DOMINICAL COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

e no nosso outro blogue CARITAS IN VERITATE


03
Abr 17
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

SUSAN SPENCER-WENDEL, com Bret Witter (2013). Antes do Adeus. Lisboa: Editora Pergaminho. 384 páginas.

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Susan Spencer-Wendel é uma mulher adulta, 44 anos, jornalista reconhecida, satisfeita da vida, casa, mãe de três filhos. A vida é uma correria. A mão esquerda começa a ficar paralisada e começam as interrogações, os médicos, os exames e a negação do que começa a ser óbvio: esclerose lateral amiotrófica (ELA). O diagnóstico é uma sentença de morte, pois é uma doença terminal, três a cinco anos de vida, não há cura nem forma de retardar o seu avanço.

Que fazer diante de uma notícia tremenda? A autora vai-nos dizendo. Uma fase de negação. Mas chega o momento que não há como fugir à inevitabilidade da doença. O corpo começa a deixar de funcionar, os comandos (cerebrais) não são correspondidos. Há consciência, mas o músculos vão atrofiando e deixando de obedecer e de funcionar. Até articular palavras se torna uma luta gigantesca.

É conhecida a expressão de Tolstoi: as famílias são iguais, as famílias tristes sofrem cada uma à sua maneira. Susan opta por viver e viver feliz, procurando criar memórias para os filhos, para o marido e para os amigos.

O seguro de vida permite-lhe pagar a hipoteca da casa, viajar como sempre gostou de fazer, com a melhor amiga, Nancy, (para ver a aurora boreal), com o marido, numa espécie de segunda lua de mel, ir com a filha, de 14 anos, a Nova Iorque e vê-la provar um vestido de noiva, pois já não estará por cá quando ela casar, vai proporcionando aos filhos os seus pedidos.

Entretanto decide escrever, enquanto é possível. Chega um momento que escreve apenas com um dedo num iphone, mas escreve, dedicando tempo. É um legado para os filhos, para o marido, para a famílias, para os amigos. Não se revolta. Procura viver cada momento, numa atitude zen, aceitando o que tem que ser, o que não está ao seu alcance modificar. Claro que sofre, chora, por ver o mundo avançar, os filhos a crescerem, certa que não estará cá para os ver crescer, querer fazer as coisas e não poder, a dependência de todos e em tudo. Chora. Mas não perde tempo a lamentar-se.

Adotada, procura as suas raizes, para apaziguar o seu passado e ligar-se, ao marido e aos filhos, à família biológica, nomeadamente à sua ascendência grega.

"Antes do Adeus tem momentos profundamente tristes - trata-se, afinal, de uma despedida -, mas sem um traço de amargura ou de raiva. Em cada página, sente-se otimismo, a alegria de viver e o sentido de humor de uma mulher grata pela vida. Um livro sobre a morte, mas cheio de vida. Um livro que nos recorda que temos sempre a opção de sorrir. E que, como ensina a autora, «cada dia é melhor se for vivido com alegria»" (contracapa).

Outro dos aspetos bem vincados ao longo de todo o livro, é a sua fé em Deus. Os pais (adotivos) são batistas, a autora nem por isso, mas acredita em Deus, acredita que se irá encontrar com o Pai biológico já falecido. E que o fim não será definitivo.

"Acenda uma vela em vez de amaldiçoar a escuridão".

"Acredito em Deus. Acredito em forças que nos transcendem de prodígios que escapam ao entendimento humano".

"Tomei a resolução de escrever sobre a força e não sobre a doença, sobre a alegria e não sobre o desespero".

"As minhas capacidades vão-se desprendendo do meu ser como uma medalha se desprende de um fio".
"Desde o diagnóstico, os estados depressivos tornaram-se menos frequentes. Desde que aceitei a minha condição, a angústia aproxima-se de mim ao de leve, como uma borboleta, e poisa silenciosamente como as borboletas poisam nas plantas à volta da cabana. Observo os seus rodopios, admiro a sua complexidade, sinto o seu peso por um breve instante, e depois... passa! Esa tristeza tem uma beleza intrínseca que me faz sentir sempre viva, e isso ainda me interessa, ainda é importante para mim".
"Regozija-te com o que tens e com a forma como as coisas são. Quando te deres conta de que não há nada em falta, o mundo inteiro será teu".
"Removendo a necessidade, removo também o sofrimento".
"Há que aceitar a vida conforme ela se desenrola. É importante que sonhemos e nos esforcemos por alcançar os nossos sonhos, mas também há que aceitar. Não faz sentido forçarmos o mundo a ser aquele que sonhámos. A realidade é muito melhor que isso".
"Não faz qualquer sentido ansiar por algo inalcançável, pois esse é o caminho direto para a loucura".
"Procurem-me nos vossos corações, meus filhos. Sintam-me aí e sorriam... procurem-me nos ocasos... sei que o meu fim está próximo, mas não desespero".
 
A autora terá morrido em 4 de junho de 2014.
(Informações colhidas na Internet)
 


05
Jan 17
publicado por mpgpadre, às 11:00link do post | comentar |  O que é?

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       Quando ouvimos uma afirmação desta logo somos tentados a responder rapidamente que Deus nos fala pela criação, pelas pessoas, pela beleza e harmonia da natureza, pelos acontecimentos, fala-nos pela Palavra revelada, palavra de Deus em palavras humanas, e, para nós cristãos, fala-nos em Jesus Cristo, a Palavra de Deus encarnada.
       É uma certeza que nos vem da fé e que é comum a outras religiões ou convicções religiosas. Também o Antigo Testamento, que nos une aos judeus, na primeira Aliança e na revelação da vontade de Deus através das gerações, se narram as intervenções de Deus, por sinais, por anjos, pelos acontecimentos históricos, pelos patriarcas, juízes, profetas e reis, que acolhem a Palavra de Deus e a comunicam ao povo.
       Os profetas são o expoente máximo desta comunicação de Deus ao seu Povo. Chamados e enviados por Deus, são os Seus mensageiros especiais. Alertam. Chamam à atenção para os desvios, os pecados e os afastamentos dos mandamentos, cujas consequências são nefastas para uma sadia convivência social. Vão junto dos reis para os aconselharem, para denunciarem injustiças, prepotências, para lhes relembrar que a realeza é derivada, isto é, são reis em nome de Deus e é em nome de Deus que devem servir e cuidar de todo o povo, especialmente dos seus membros mais frágeis, promovendo a coesão social, que permitirá, por sua vez, a defesa contra os ataques dos inimigos. Acalentam a esperança. Nos momentos de maior dificuldade, nomeadamente no Exílio, recordam tudo quanto Deus fez pelo povo, o que aconteceu para que estivessem nessa situação e o que os aguarda no futuro. Há que perseverar, pois Deus continuará a guiá-los para a felicidade, no regresso à terra prometida.
       Jesus é o Profeta por excelência. É a própria Palavra de Deus, feita vida, feita pessoa, encarnando. É rosto e presença do Pai. É a eternidade que se entranha no tempo.
       Mas voltemos ao desafio inicial… Se Deus falasse, poderia dizer claramente o que tinha acontecido e não precisávamos de ir a tribunal! Mas pronto, a justiça acabou por prevalecer… Deus sabe o que faz, não dorme. Se não for cá, há de ser no outro mundo!
       Fé simples, mas profunda! A sabedoria do coração que dá esperança, ilumina, sossega, desafia, mas que também pode confundir! A fé nem sempre é fácil, sobretudo quando as coisas não são como projetamos, quando as injustiças prevalecem apesar e além da fé, da confiança em Deus e nos seus desígnios, além da oração e dos sacrifícios… E então há que redobrar a oração e a confiança em Deus!
 
Publicado na Voz de Lamego, n.º 4388, de 22 de novembro de 2016


28
Out 16
publicado por mpgpadre, às 11:07link do post | comentar |  O que é?

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A conversa é como as cerejas. Começa e não sabemos quando acaba. Esta reflexão será um pouco assim. Por estes dias (1 de outubro) foi a sepultar na Paróquia de Santa Eufémia de Pinheiros, a D. Evinha, de onde era natural, a viver na Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Tabuaço há mais de uma década. É daquelas pessoas que marcam um tempo, criam um espaço de afetos e de luz, deixam um rasto de bondade, de alegria e simplicidade.
A D. Evinha era cidadã do mundo, cristã em todos os momentos. Na Escola Diocesana de Formação Social acentuou um caminho de compromisso em Igreja que passou agora para a eternidade de Deus. Dos tempos da Ação Católica, as ganas de viver, de renovar a vida eclesial, com o Vaticano II, a sede de Deus e as novidades que iam chegando do Concílio. A formação superior na área da ação social, a passagem pelo ministério do trabalho e da solidariedade social, onde poderia fazer carreira, tendo optado por ajudar na promoção de outros, no país do Estado Novo e nos tempos da revolução, as reuniões cuidadosas para evitar a prisão de pais e mães de família, da aldeia à cidade, do norte à capital, ao Alentejo e ao Algarve, a vida consagrada no instituto de vida secular, com forte implantação em Espanha e na Améria Latina, o trabalho missionário/social/humano no Brasil e nos países vizinhos, dormindo em esteiras, comendo frugalmente, o contacto com a Teologia da Libertação e a perceção que a fé tem que estar ao lado dos mais pobres, dando-lhes ferramentas para que possam gerir as suas vidas…
Regressada do Brasil, fixando-se definitivamente em terras de Tabuaço, nunca desistiu de se empenhar, participando onde era necessário, na Igreja e na vida social e cultural. Sempre disponível, para mais oração, para mais formação, das crianças aos jovens e aos adultos, aos mais idosos, na catequese, nos grupos de jovens, como ministra extraordinária da comunhão, na vivência do Natal, da Páscoa, a cantar as Boas Festas, a visitar doentes, a dar conselhos com a delicadeza de uma mãe, preparando jovens para o crisma, intervindo nos tempos de formação, escrevendo, partilhando a vida, gastando-se… sempre ligada à vida da Igreja, sempre sintonizada com os sinais dos tempos.
Como Pároco pude usufruir da sua amizade e dos seus conselhos, da sua ajuda e das suas sugestões. Uma das sugestões, no início no meu ministério sacerdotal: as homilias deveriam terminar sempre de forma positiva, para que fosse autêntico o “assim seja”…
 
Publicado na Voz de Lamego, n.º 4381, de 4 de outubro de 2016


publicado por mpgpadre, às 11:06link do post | comentar |  O que é?

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A D. Evinha (1924-2016), natural da Paróquia de Santa Eufémia de Pinheiros, a viver em Tabuaço, numa vida dedicada aos outros, inserida na vida pastoral da Igreja, comprometida em viver e comunicar o Evangelho, sugeriu-me várias leituras, como por exemplo de José António Pagola. Outra leitura que me aconselhou foi a “A graça do Palhaço” (La gracia en el clown) e “Os palhaços” (Los clowns). Deixamos para a discussão académia as diferenças que podem ser estabelecidas entre “palhaços” e “clowns” (termo inglês, numa evocação mais erudita).
A autora é docente de teatro, Cristina Moreira, oriunda da Argentina, bailarina e atriz, tendo-se fixado na Europa, integrando companhias de teatro, escrevendo peças… O seminário dedicado aos palhaços é o mais festivo. O objetivo do palhaço é fazer rir o público. Começa aqui o ensinamento para cada um de nós. Ser palhaço para os outros. Agir pelos outros. Fazer rir está intimamente ligado ao amor. Exige muito, exige tudo do palhaço, entrega intensa que se sujeita a ser aceite ou recusado. Com docilidade o palhaço procura construir uma relação com o público. “O amor está implícito no desejo de comunicar a alegria de estar com os outros… a graça emana da entrega espiritual ao outro”.
Um ator representa, seguindo um guião. O palhaço representa-se. Ele procura reconstruir a partir de si uma nova personagem. Elabora o seu guião interagindo com a sua audiência. Ao longo do processo vai aprimorando a sua habilidade, o seu carácter, a sua fisionomia. Não é a vestimenta, a caracterização física que distingue os palhaços, mas a capacidade de mostrar-se com as próprias fraquezas, oferecendo-se à audiência, sempre num prisma de humildade. Serve os demais, sujeita-se aos seus juízos e, o que preparou com esmero, pode falhar.
Sublinha a autora que “a graça no intérprete nasce do reconhecimento da própria limitação, de um estado de humildade diante do verdadeiramente eterno. No momento em que o homem se pode rir de si mesmo, não se levando a sério… encontra um estilo solto para olhar a sua vida. Esta liberdade permite-lhe fazer rir os demais”.
O palhaço avança a partir do nada, que é muito, que é tudo, avança a partir do seu interior, dando o melhor de si, expondo-se, colocando a nu as suas inseguranças, os seus medos, procurando ultrapassar os seus dilemas. O palhaço é um homem real com os seus contratempos. Dessa forma se sintoniza com o seu público, com as suas debilidades, desafiando-os a rir-se de si mesmos, levantando-se para a luta.
 
Publicado na Voz de Lamego, n.º 4382, de 11 de outubro de 2016


publicado por mpgpadre, às 11:05link do post | comentar |  O que é?

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A graciosidade do palhaço é tanto maior quanto mais se entrega, quando mais se dá aos outros. A sua graça depende da resposta do público, das pessoas para quem atua.
Ele tem a preocupação de pôr a audiência a rir. E nada melhor que expor os seus próprios problemas. Procurar o palhaço que há em si mesmo, descobrir-se com as suas inseguranças e medos, com as suas debilidades e angústias. A verdade entra na equação. Quanto mais autêntico, quanto mais ele mesmo, apanhado em flagrante delito de debilidade, mais gracioso será. A arte de ser palhaço engloba toda a sua vida, fazendo sobressair a inocência que existe no mais fundo de si mesmo. Aceita o fracasso, o seu fracasso, para promover o outro, colocando o espectador em estado de superioridade. “Através desse fracasso, o palhaço revela a sua profunda natureza humana que nos emociona e nos faz rir” (Cristina Moreira).
Com o palhaço aprendemos a ser para os outros e com os outros. O palhaço tem um contacto direto com o público, está sob o olhar dos outros. Não se faz palhaço diante do público. Atua com o público, interage com todas as pessoas do público e as reações das mesmas influenciam a sua atuação. 
Com efeito, “o importante não é o palhaço em si mesmo. O essencial é o olhar que recebe dos outros a quem dedica a sua vida”, procurando “converter o pesado em leve, o amargo em doce, o oculto em verdadeiro… Deve buscar para a sua personagem um estado de inocência, de frescura, de ingenuidade, de onde olhar a vida… é um peregrino que segue uma estrela, que crê na sua verdade e se sente solvente em comunicar-se na mensagem…”
Tal como o palhaço também nós queremos ser reconhecidos, amados, queridos…
O palhaço conta-se a si mesmo. Por isso a sua vida interior tem tanto que ver com a sua atuação. “O palhaço não existe separado do autor que o interpreta. Todos somos palhaços, todos nos julgamos bonitos, inteligentes e fortes, mas na realidade, cada um de nós tem as suas debilidades, o nosso lado ridículo, que, quando se manifesta, fazem rir”
Ele, como nós, busca o amor de alguém, o reconhecimento do público. O que faz é para agradar, para divertir as pessoas. Incorpora, por imitação, tudo o que admira e reprodu-lo com afeto. A ilusão de superar as limitações do tempo e do espaço, com criatividade e imaginação. Faz-nos desejar pertencer a um mundo melhor… 
 
Publicado na Voz de Lamego, n.º 4383, de 18 de outubro de 2016


29
Ago 16
publicado por mpgpadre, às 13:00link do post | comentar |  O que é?
HARUKI MURAKAMI (2016). Ouve a Canção do Vento (138 páginas) e Flíper, 1973 (176 páginas). Alfragide: Casa das Letras.

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Para mim, claro, este é uma dos escritores atuais mais criativos, com uma imaginação extraordiária, criando histórias, imagens, sobreposição de perosnagens, que atravessam os seus livros, uma linguagem simples, acessível, recurso a contos, provérbios orientais e ocidentais, máximas. O facto de ser uma japonês a viver nos Estados Unidos permite a assunção de culturas diferentes, com os valores ocidentais mas também com as raízes orientais.
Os livros nascem na vida de Murakami naturalmente.
 
Casa, começa a trabalhar e só depois a conclusão da licenciatura. Louco por jazz, abre um bar. Com a esposa, acumula trabalhos para fazer face aos gastos e às despesas. Aqui e além recorrem a amigos e familiares para obterem alguns empréstimos.
 
Refere o próprio:
"Era jovem, estava nas melhores condições físicas, passava o tempo a ouvir a música de que mais gostava e era dono do meu (pequeno) negócio... Além do mais, oportunidades de encontrar gente interessante era coisa que não faltava... Olhando para trás, lembro-me sobretudo de ter trabalhado desalmadamente. Na altura em que a maior parte dos jovens da nossa idade anda na boa-vai-ela, não me sobrava tempo nem dinheiropara «gozar a juventude». Apesar disso, sempre que arranjava um brecha, pegava num livro e paroveitava para ler. A par da música, a leitura era o que mais gozo me dava... Estava já perto dos trinta anos quando o nosso bar de jazz de Sendagaya começou a dar sinais de  estabilidade financeira... Numa tarde luminosa de abril, corria o ano de 1978, fui ver um jogo de basebol ao estádio de Jingü-kyüjö... Na segunda parte da primeira entrada, quando Sotokoba realizou o primeiro lançamento, Hilton, numa bela jogada, bateu a bola para a esquerda e conseguiu chegar à segunda base. O som nítido e poderoso do taco a bater na bola ressuou por todo o estádio de Jingü-kyüjö e ouviu-se meia dúzia de aplausos dispersos. Foi nesse preciso momento, sem que nada o fizesse prever, que pensei para comingo: Acho que sou capaz de escrever um romance".
 
E começava então a escrever-se a vida de um dos mais brilhantes escritores e romancistas do nosso tempo. Murakami tem vindo a ser apontado como Prémio Nóbel da Literatura, mas ainda não foi possível, talvez porque outros valores extra-literários se levantem.
 
Após o jogo comprou uma resma de papel branco e uma caneta de tinta permanente para começar a escrever. Todas as noites, já tarde, depois de chegar a casa, sentava-se na cozinha para escrever. Seis a sete meses seguintes dedicou-se a escrever Ouve a canção do Vento. "É, refere o autor, um texto curto, mais próximo de uma novela do que de um romance propriamente dito". Na primeira versão, leu e não gostou. "Se não és capaz de escrever um bom romance, disse para comigo, o melhor é livrares-te de todas as ideias preconcebidas que alimentas sobre «os romances» e «a literatura» e dar livre curso as teus sentimentos e razões, escrever o que te der na gana".
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Renunciou ao papel e à caneta, "decidi então começar a escrever um romance em língua inglesa, para ver como resultava". Pelo que as frases tinham que ser curtas, traduzindo o mais simples possível as ideias que possuía. "Nascido e criado no Japão, desde pequeno que sempre falei japonês... o meu sistema linguístico está repleto até dizer basta de expressões e de vocábulos japoneses... naquele momento descobri que era capaz de exprimir eficazmente sentimentos e ideias através de um número limitado de palavras e expressões..." Depois arrumou a Olivetti e começou a justar o texto para japonês.
 
"Um domingo de manhã, naquela célebre primavera, recebi uma chamada de um redator que trabalhava na revista lieterária Gunzõ comunicando-me que Ouve a Canção do Vento fazia parte das obras finalistas num concurso literário para novos escritores... Caso não tivesse sido escolhida para integrar a lista dos finalistas ao prémio, a obra poderia desaparecer para sempre. (Convém acrescentar que a revista Gunzõ não tinha por hábito devolver os originais)". Como tinha enviado o único exemplar que possuía! "Foi então que caí em mim: ia ganhar o prémio. Continuaria a escrever e seria escritor... Escrivi Flíper, 1973, no ano seguinte, como uma espécie de continuação de Ouve a Canção do Vento"... Só depois de chegar ao fim de Flíper, 1973 é que tomei a decisão de vender o bar. Transformei-me num escritor a tempo e inteiro e comecei a redigir o meu primeiro romance de fòlego: Em Busca do Carneiro Selvagem".
 
Só passados 37 anos o autor autorizou a publicação destes dois títulos para o Ocidente.
Algumas das imagens, das intuições e do estilo do autor já estão presentes nestes dois escritos.
"Estes dois pequenos romances impressivos, em tom de fábula, que por vezes roçam o surreal pelos laivos de ficção científica que os povoam, abordam o quotidiano de dois jovens - o narrador cujo nome nunca chegamos a conhecer e o seu amigo rato - perpassado por silidão, obsessão e erotismo. Apresentando uma galeria pela qual desfilam uma rapariga com quatro dedos na mão esquerda, um escritor inventado, o dono de um bar que ouve as confissões de todos o que nele buscam refúgio, um par de gémeas e... gatos, estes dois textos contêm o embrião de todas as características que singularizam e atravessam todas as obras-primas de Murakami, incluindo alguns dos seus mais recentes livros".
 
Para outros títulos que recomendei neste blogue: AQUI. Se tivesse que aconselhar um livro, para alguém que ainda não tivesse lido nada de Murakami: Em Busca do Carneiro Selvagem.


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PABLO d'ORS (2014). Sendino está a morrer. A elegância do adeus. Prior Velho: Paulinas Editora. 80 páginas.

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       Pablo d'Ors nasceu em Madrid em 1963. É sacerdote católico e escritor. É consultor do Pontifico Conselho da Cultura (Vaticano), por designação do Papa Francisco. Fundou a Associação Amigos do Deserto, para viver e aprofundar a prática da meditação. Publicou, entre outros títulos, a triologia do silêncio: O amigo do deserto (2009), O esquecimento de si (2013) e A biografia do Silêncio, que já aqui recomendámos.

       No pequeno livro que agora sugerimos, o autor parte da sua condição de capelão hospitalar, onde encontra a Dra. África Sendino, que lhe pedirá para ajudar a escrever um testemunho sobre a vida, a doença, o sofrimento, a morte e, sobretudo, a fé, a confiança em Deus, a entrega confiante nas mãos do Pai.

       Médica descobre que tem cancro da mama. Começa então um diálogo profundo com Deus. «Fui à capela de Traumatologia e ajoelhei-me - escreve: - "Senhor (rezei), só me ocorre dizer-te que quero que sirva para tua maior glória o que me tocar viver a partir de agora. Tu saberás o caminho que inicias. Tu saberás aonde me conduzes»".

       Pablo d'Ors conhece-a nas últimas semanas de vida e acabará com a missão de escrever o seu testemunho, pegando nas notas que ela vai escrevendo, cada vez com mais dificuldade, menos texto, pouco perceptível. Para o autor, conhecendo e convivendo com Sendino vai tendo a perceção que ela é santa, com as suas imperfeições e limitações, mas também com a sua serenidade e confiança em Deus. "O que a meus olhos faz com que Sendino seja grande não é a morte, mas o morrer, o ir morrendo, o modo de morrer".

       Um dos primeiros aspetos que Pablo d'Ors sublinha é a elegância com que Sendino está deitada na cama do hospital. "Sim, Sendino era bela: tinha um olhar franco e limpo, um sorriso tímido e amável - nunca coquete -, uma pele branca e lisa. umas mãos gráceis - embora grandes - e uma feminilidade totalmente natural, nada importada ou estudada e, por isso, talvez, tão encantadora como desconcertante".

       Outro os aspetos que o autor sublinha é a clareza no falar, exprimindo as ideias de forma consistente, talvez demasiado analítica. Dedicado ao ensino de medicina, facilidade da comunicação oral. Curiosamente, maior dificuldade na escrita.

       Outro dos aspetos relevantes: o seu altíssimo nível espiritual, embora Sendino vivesse a sua fé com descrição. "Viveu a sua doença na perspetiva da Anunciação. Como a Virgem Maria, também ela deu à luz uma criatura: por virtude da graça, Sendino alumiou-se a si mesma para a eternidade. Eu sou testemunha".

        Como confidencia a  Pablo d'Ors, pediram-lhe para escrever sobre a sua enfermidade e, por isso, pede ajuda ao autor. "Nunca vi um processo de declínio e morte tão eloquentemente refletido nas folhinhas que Sendino me entregava sempre que a ia visitar... A progressão do seu cancro não se percebia somente na brevidade dos seus escritos, mas também na sua forma estilística, progressivamente mais frouxa, e até na caligrafia que, no final, era ilegível".

       Dos escritos confiados ao autor: "Chamo-me África Sendino e sou médica internista. Desde que me foi diagnosticado um cancro da mama, fui submetida a um tratamento cirúrgico de quimioterapia e radioterapia. Num sábado apalpo um nódulo e na segunda, às nove, fui recebida pelo patologista. Às nove e um quarto, saio do seu laboratório com um novo panorama vital: tenho cancro. De repente, eu era uma nova personagem: o médico adoece; e, depois, compreendi o que me tocava com a doença (uma conhecida com a qual até então eu tinha lutado diariamente) era dançar com ela. Também me veio à cabeça a imagem das duas margens de um rio. Inesperadamente, sem me consultar, tinham-me passado para a outra margem. Podia chorar, queixar-me, espernear... mas na verdade, o barco já se tinha ido embora. Teria de esperar que chegasse e, entretanto..., era apenas o que poderia fazer! Podia passear naquela margem, por exemplo, contemplar a outra minha nova perpetiva, deter-me tranquilamente diante desse rio, molhar os pés... O doente não deve ser apenas paciente; deve ser o protagonista da sua enfermidade" (Uma das primeiras entradas do diário de Sendino, dia em que lhe detetaram o cancro, 19 de outubro de 1999).

       As notícias que vão chegando não são animadoras. "Quero deixar claro - continua Sendino, quando relata a segunda fase do seu temor - que o facto de a doença pressupor um período de perdas não sentencia irremediavelmente que seja, realmente, um período de perda para mim mesma. Não, de modo nenhum! Mesmo sendo dolorosa a comprovação do fracasso do tratamento para erradicar o tumor, experimentei que a minha recaída tinha algumas vantagens: por exemplo, já não me esperariam tantas novidades, excetuando, naturalmente, a perpetiva de um desenlace final. Então, a morte apresentou-se como uma convidada para a festa".

       Mais adiante: "A doença vai ter connosco onde estamos. Quando me sobreveio a mim, soube que poderia vivê-la como uma circunstância adversa e até certo ponto irritante ou, ao contrário, como uma imensa e imerecida ocasião de aprendizagem. Decidi que a minha perpetiva seria a segunda. O meu primeiro desejo foi percorrer dignamente este caminho em benefício da Igreja. Aceitei ingressar num curso prático de patologia: a doença vivida na minha própria carne. Se superasse o cancro - disse a mim própria -, voltaria enriquecida à prática assistencial. Se saísse com vida, eu seria uma interlocutora vália para os doentes".2016-07-29 14.45.34.jpg

       Sendino apoia-se, para a oração, numa expressão de São Pedro: "Confiai a Deus todas as vossas preocupações, porque Ele tem cuidado de vós" (1 Ped 5, 7). "Desde o princípio da minha enfermidade - escreve neste mesmo sentido - compreendi que a minha forma de encará-la não era o resultado de uma grande fortaleza psicológica, mas um dom estritamente sobrenatural. Desde esse primeiro momento - continua - soube que só tinha um desejo: fazer esta minha peregrinação do melhor modo possível... Os enfermos são um tesouro para a Igreja".

       "O meu maior medo? Que a intensidade do meu sofrimento me tente a não louvar a Deus e a não dar graças ao seu nome. Só peço uma coisa: que a minha enfermidade não em afaste d'Ele; pois, se o fizesse, para quê e a quem serviria?... Aceito ser um despojo. Quero gastar-me e desgastar-me a cumprir a sua vontade".

 

Outro apontamento:

       "Um dos mistérios mais insondáveis da enfermidade é o do tempo: os sãos não têm tempo; em contrapartida, os doentes o que mais têm é precisamente tempo. Um dia pode ser infinito numa cama do hospital. Espera-se durante horas a visita de um médico que dura um minuto. Eu esperei esse médico e, agora, sou essa paciente que espera. Deus quis que eu dedicasse a minha vida a ajudar os outros, mas não quis que me fosse embora deste mundo sem deixar-me ajudar pelos outros. Deixar-se ajudar pressupõe um nível espiritual muito superior ao de simples ajudar. Porque, se ajudar os outros é bom, melhor é ser ocasião para que os outros nos ajudem. Quem se deixa ajudar parece-se mais com Cristo do que quem ajuda. Mas ninguém que não tenha ajudado os seus semelhantes saberá deixar-se ajudar quando chegar o seu momento. Sim, o mais difícil deste mundo é aprender a ser necessitado".

 

Leia entrevista a África Sendino: AQUI.


24
Jun 16
publicado por mpgpadre, às 16:00link do post | comentar |  O que é?

LUCIEN ISRAËL (2016). Contra a Eutanásia. Lisboa: Multinova. 136 páginas.

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       A temática da Eutanásia, a suposta defesa da dignidade humana, através da morte induzida a quem nos parece estar a sofrer, por decisão do próprio ou da família, ou por opção médica... volta a estar na moda para alguns partidos políticos... Depois da introdução de temas fraturantes, na sociedade portuguesa, voltam-se agora para a Eutanásia, colocando-a em paralelo com o aborto ou a defesa dos animais... infelizmente vai chegar o tempo e já chegou, que é crime matar ou maltratar um animal, mas é legal e justo maltratar e matar um ser humano.

       Vejamos algumas razões por que Lucien Israël é contra a eutanásia e a favor da vida e da dignidade da pessoa:

  • Os defensores da despenalização/liberalização da eutanásia são pessoas saudáveis
  • Quando ficam doentes, os defensores da eutanásia, deixam de a pedir para si próprios
  • Os idosos holandeses têm emigrado para a França ou outros países onde a eutanásia não é legalmente aceite
  • Os familiares, por motivos diversos, por cansaço, porque a pessoa doente ou idosa se tornou um fardo, porque não querem deparar-se com o sofrimento e com a morte, desejam a eutanásia, isto é, a morte para os seus familiares... porque adiar por 6 meses se já não vai sobreviver...
  • Seis meses, diz o autor, pode significar, novas terapêuticas, e ganhar 4 ou 5 anos, ao fim dos quais podem ter surgido novos fármacos capazes de dar mais qualidade e mais tempo à vida
  • Como médico oncologista, o autor só se deparou com um caso de pedido expresso do próprio doente...
  • A longevidade da vida... 4 gerações que podem ser 5 que convivem... fardo para a Segurança Social e para os sistemas de providência e seguro, que tornam oneroso a sobrevivência dos mais idosos ou das pessoas doentes...
  • Com o avanço da medicina, é possível aliviar os sofrimento de maneira aceitável, ainda que se aumentem as doses e em consequência se possa diminuir o tempo de vida...
  • Com o avanço da medicina, mais camas são ocupadas... é preciso disponibilizar camas para os que vão chegando...
  • A aposta na eutanásia vai significar a não-aposta na medicina, na investigação, nos cuidados paliativos. A eutanásia pode ter mais motivos económico-financeiros que compaixão pela pessoa em sofrimento.
  • O pedido da eutanásia muitas vezes é uma cedência aos familiares, para não se ser um fardo, um estorvo... deixam-se convencer... um exemplo de uma mulher com uma doença terminal... os filhos, vendo que não haveria cura, convenceram a mãe que era melhor acabar com a vida, para ela e, sobretudo para os filhos, ela aceitou, já que os filhos achavam que era o melhor...
  • Muitos dos defensores da eutanásia colocam-se como defensores da liberdade e todos os que não estão de acordo são retrógradas, conservadores, ditatoriais...
  • Os médicos estão no lado da vida, da defesa da vida, procurando com a sua arte ajudar as pessoas, curando-as, aliviando-lhes o sofrimento, dando sentido às suas vidas... os médicos não podem tornar-se carrascos... quem irá confiar num médico, em quem confia e coloca a vida, sabendo que em algum momento esse médico optará pela morte?!
  • A solidariedade intergeracional começa a estar em causa. A eutanásia significa que as gerações anteriores estão em risco, porque as mais novas não se comprometem com a sua sobrevivência... porquê gastar dinheiro em centros de cuidados paliativos quando se pode acabar com o sofrimento dos outros, herdar mais cedo o que lhe pertencerá posteriormente e aliviando o peso da Segurança Social?

       Lucien Isräel, um não-crente e homem da ciência. Este francês foi médico e professor universitário de Pneumologia e Oncologia. Deu aulas em França, Estados Unidos da América, Canadá e Japão. Fez parte também de várias organizações da área da oncologia e da investigação, chegando mesmo a fundar o Laboratório de Oncologia Celular e Molecular Humana, em Paris. Foi membro da Academia de Ciências de Nova Iorque.

       É um livro-entrevista, publicado em França em 2002, mas com uma atualidade surpreendente.


16
Nov 15
publicado por mpgpadre, às 18:33link do post | comentar |  O que é?

SONALI DERANIYAGALA (2015). Vida Desfeita. Braga: Nascente. 240 páginas.

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Na manhã do dia 26 de dezembro de 2004, um violento TSUNAMI com uma abalo de 9,3 na escala de Richter, ao largo da ilha Sumatra, na Indonésia, gerando três ondas gigantes pelo sudeste asiático. O fenómeno resultou da fricção das placas tectónicas indo-australiana e euroasiática, gerando energia equivalente à explosão de milhares de bombas atómicas. Sentiu-se em África, mas com maior incidência na Ásia do Sul. Países afetados: Indonésia, Sri Lanka, Índia, Tailândia, Malásia, Maldivas e Bangladesh.

 

230 mil mortos e desaparecidos. Na Indonésia, 166 mil mortos. No Sri Lanka 40 mil pessoas perderam a vida; na Índia, 18 mil, e a Tailândia 8 mil.

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(Marido e filhos)

Aqui começa este Livro autobiográfico de Sonali Deraniyagala. Uma ONDA (título original) aproxima-se. A amiga, com quem estava a conversar, Orlantha, vislumbrou a aproximação do mar. Estranho. A espuma cada vez mais perto transforma-se em ondas. Castanhas e cinzentas. O mar cada vez mais perto. Rapidamente saem, ela, a amiga, o marido, os dois filhos. Para trás ficam os pais de Sonali. Um jipe dá-lhes boleia. O jipe avança mas a água também, a água começa a estar dentro do jipe, subindo, acabando por capotar. Sonali sente uma aperto, uma forte dor no peito, não vê ninguém, nem a amiga, nem o marido, nem os filhos, parece um sonho. "O meu corpo  estava enrolado e eu girava a grande velocidade... Fui empurrada pelo meio de ramos de árvores e arbustos e, de vez em quando, os meus joelhos e cotovelos embatiam em algo duro".

Flutuando de costas, vendo o céu azul. "Uma criança flutuou na minha direção. Um rapaz. A sua cabeça estava à tona e ele gritava. Papá, papá. Ele agarrava-se a algo. Parecia o banco partido de uma carro... À distância pensei que este rapaz fosse o Malli [o filho mais novo]. Tentei alcançá-lo... Vem à mamã, disse eu, bem alto. Depois vi a sua cara de perto. Não era o Mal. No instante seguinte, fui arrastada para o lado e o rapaz desapareceu".

Vai flutuando, tentando agarrar-se a alguma coisa, até que consegue alcançar um ramo e ficar com os pés no chão. "Estava dobrada ao meio e não conseguia endireitar-me. Agarrei os meus joelhos, estava ofegante, a sufocar. Tinha areia na boca. Definhava e cuspia sangue. Não parava de cuspir e cuspir. Tanto sal. Senti o corpo muito pesado. As minha calças estão-me a pesar, pensei. Tirei-as".

Tenta-se manter de pé, com a lodo a circundá-la. Ouve vozes que se aproximam. "Eles não me viam e eu não os via a eles". Um voz faz-se ouvir: "Há alguém aqui, já pode sair, a água desapareceu, estamos aqui para ajudar". Atónita, não se mexeu. Uma criança pede socorro e que atrai os homens. Nesse momento também a descobrem e, pacientemente a socorrem. Um deles tirou a camisa e atou-lha à cintura.

Este é o começo. Pela frente uma longa história, intensa, sofrível, com encontros e desencontros. Tempo para confirmar que o marido, os filhos e os pais morreram. Ao longo destas dezenas de páginas, Sonali testemunha a dor intensa pela perda, na tentação da desistência, a culpabilização, primeiro evitando os mesmos lugares de outrora, para não sofrer, depois indo em busca de sinais nos lugares em que viveu com o marido e os filhos. Refazer a vida sem aqueles que lhe davam sentido.

É uma história emocionante, um testemunho vivido. Percebe-se que o Psicoterapeuta conclui que uma das formas de ajudar Sonali era desafiá-la a por por escrito tudo o que recordava. Voltar aos lugares em que fora feliz e descobri o medo de viver sozinha sem os filhos e sem o marido. Rever os filhos nos amigos dos filhos, da mesma idade e imaginando-os em diferentes situações.

Sonali nasceu e foi criada em Colombo, no Sri Lanka. É licenciada em Economia pela Universidade de Cambridge e doutorada pela Universidade de Oxford. Divide o tempo entre Universidades, entre Londres e Nova Iorque.

O livro foi publicado em 2013 e foi considerando o melhor do ano na categoria de não-ficção pelo New York Times. Temporalmente fixa-se em 2004 e estende-se até 2012, anos que se sucederam ao Tsunami.


28
Out 15
publicado por mpgpadre, às 20:30link do post | comentar |  O que é?

Dias 1 e 2 de novembro marcam o início do mês das almas, com a solenidade de Todos os Santos e Comemoração dos Fiéis Defuntos, que faz deslocar milhares de pessoas, que regressam onde repousam os restos mortais dos seus familiares e amigos falecidos. A memória, a gratidão, mas também a fé, a celebração da vida e da esperança em Deus, congregam crentes ou menos crentes.

Para dúvidas que possam surgir, para aqueles que estejam em Tabuaço ou queiram deslocar-se à nossa paróquia e participar nas diferentes celebrações, aqui ficam os horários. Juntam-se já a indicação de outras atividades pastorais / celebrações, que envolvem a comunidade paroquial de Nossa Senhora da Conceição.

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15
Ago 15
publicado por mpgpadre, às 16:00link do post | comentar |  O que é?

Mary Berg (2015). O DIÁRIO DE MARY BERG. Amadora: Vogais, 20|20 Editora. 352 páginas.

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      A segunda Guerra Mundial gerou milhares de vítimas, com plano nazi e conquistar o mundo e eliminar os judeus. Para o efeito bastava ter alguma ascendência judaica: se eram aptos para trabalhar, para se tornarem escravos, sobreviviam, pelo menos até morrerem de fome, de doença, ou em consequência do trabalho; se não eram aptos, então eram encaminhados para campos de concentração, para serem mortos. Muitas vezes eram mortos por brincadeira, por capricho ou simplesmente para provocar pânico aos outros judeus.

       O Diário da Mary Berg narra os dias passados no Gueto de Varsóvia, um conjunto de ruas, de casas, de bairros onde foram confinados os judeus, com regras restritas, em que se vivia com as ameaças, com a possibilidade de serem contratados para trabalhar, passaportes para sobreviverem mais tempo, buscando alguma normalidade, ajudando e sendo ajudado, metendo "cunhas" para ocupar melhores trabalhos, contrabandeando pão, comida e outros bens, dedicando-se à arte e à cultura.

       O projeto final era eliminar todo o gueto, todos os judeus. Os que tinha alguma ligação estrangeira, como a autora/protagonista, cuja cidadania americana da Mãe a tornam também uma privilegiada, apesar de tudo, com uma maior probabilidade de sobreviver.

       Será solta por troca dos prisioneiros de guerra alemães. Pouco tempo depois, os 12 caderninhos de apontamentos são publicados em livro para revelarem a atrocidade contra o povo judeu, mas também contra polacos (judeus ou cristãos) e alertar a comunidade internacional para se apressar e fazer alguma coisa.

       Para trás ficam amigos e um vislumbre de miséria, pobreza, violência gratuita e a tentativa de viver a normalidade da vida, estudando, cultivando-se, criando laços. É um diário "arrepiante" e sobretudo por visualizar a vida tal como foi vivida pelos intervenientes numa página negra da história e que se deseja que não volte a acontecer, ainda que os sinais apontem a um risco maior de intolerância, xenofobia, racismo, fanatismo religioso... 

       Passados poucos anos da publicação e do diário, e do fim da segunda guerra mundial, Mary Berg (1924-2013) desapareceu dos focos da ribalta, talvez para viver uma vida normal...

       O Diário de Anne Frank é dos mais conhecidos e divulgados, mas outras histórias que entretanto foram postas por escrito e divulgadas para que a nossa memória não esmoreça e se torne vigilante perante indícios de tamanha vilipêndia...

       Setenta anos depois já vários tentarem negar, esconder, suavizar a tragédia nazi. Por conseguinte, esta é mais uma leitura obrigatória para avivar o compromisso com a verdade e com a justiça, com a dignidade humana e com o respeito por todas as vidas, desde a concepção até à morte natural.

 

Vale a pena ler:

EVA SCHOLOSS - A Rapariga de AUSCHWITZ


12
Out 14
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

HARUKI MURAKAMI (2014). A peregrinação do rapaz sem cor. Alfragide: Casa das Letras, 370 páginas.

 

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 "Porque não tenho identidade própria. Não tenho personalidade, sou de cor indefinida. Nada tenho para oferecer aos outros. Foi sempre esse o meu problema. Sinto-me um bocado como se fosse um recipiente vazio. De certa maneira, tenho fora, mas receio não possuir um conteúdo digno desse nome".

"Sempre me tive na conta de um tipo vazio, desprovido de cor e de identidade. Se calhar, era esse o meu papel dentro do grupo, representar o vazio...

Uma paisagem esvaziada de cor. Sem ter nenhum defeito, mas sem se destacar em nada...

Tu não eras o vazio. Ninguém te via assim... contribuías para nos tranquilizar... pelo simples facto de estares ali connosco, podíamos ser nós próprios... Era como se fosses uma âncora"

 

Cada um de nós terá um ou outro autor preferido. Por conseguinte, a sugestão de um livro ou de um autor é e será sempre muito relativo, o que a alguém poderá ser uma obra de arte, para outro poderá simplesmente ser uma seca, uma monotonia, ou algo banal.

Se tivéssemos que sugerir um romancista, Murakami seria uma das primeiras escolhas. É uma escrita acessível, fluida, em descrições envolventes, utilizando muitas imagens, histórias dentro da história principal, com avanços e recuos perfeitamente oportunos, com pontes culturais, entre o Japão e o Ocidente. Nesta história, Japão e Holanda, mas com a ambiência de fundo de um mundo global, com as referências a crenças japoneses mas também á religião cristão com a sua presença (nomeadamente) nas escolas privadas.

Cada personagem se pode identificar com cada um de nós.

O herói - digamos assim - nunca é tanto herói assim. Tem defeitos, dúvidas, hesitações. No caso concreto, é um estudante normal. Completa os estudos. Estuda só o necessário. Mas faz por seguir os seus sonhos, mesmo que tenha que se esforçar mais que o habitual. Aos trinta e seis anos, ainda tem uma vida toda por realizar, com muitas dúvidas. É feliz. Ou é mais ou menos feliz. Ocupado. Sonha e os sonhos atormenta-o. Parece que não consegue estabilizar, mantendo os amigos ou as amizades.

A história parte da adolescência. Um grupo de 5 jovens, que no compromisso com o voluntariado, nas férias, estreitam de tal forma os laços que não passam uns sem os outros. É um grupo coeso. Três rapazes e duas raparigas. Todos diferentes. Mas no entanto entendem-se às mil maravilhas. O rapaz sem cor, Tsukuru Tazaki, decide ir para Tóquio, para a universidade, onde se tornar engenheiro de estações de comboio. O seu sonho. Sempre gostou de estações, de observar as pessoas, a forma como as estações estão concebidas. No regresso a casa os 5 jovens voltam a encontrar-se, até que um dia não lhe atendem as chamadas e lhe dizem que cortam com ele, não querem mais falar com ele.

Não compreende. Num primeiro momento, não busca justificações, pois não lhas quiseram dar. Cortam simplesmente com ele. Vai-se abaixo. Foi um golpe brutal. Mas consegue sobreviver. O tempo apazigua as mágoas. Mas há mágoas que permanecem, ainda que pareça já não ter influência nas nossas vidas. É o que acontece com Tsukuru. Aquela ruptura continua a marcar a sua vida. Tem dificuldade em confiar nas pessoas da forma como confiava nos amigos, sempre o receio que novos amigos possam fazer o mesmo. Contudo, a sua busca está ainda no início. Resolve encontrar-se com os amigos, que seguiram caminhos diferentes, uma das raparigas foi assassinada, a outra casou e vive na Holanda, os outros dois mantiveram-se em Nagoia. O reencontro leva-lo-á a descobrir as razões que levaram à separação do grupo e a verificar que se nos momentos iniciais tivessem falado abertamente talvez a vida tivesse seguido um rumo diferente. Não é possível voltar atrás e também é impossível saber se as coisas seriam muito diferentes, ou muito próximas da atualidade. Há que prosseguir a vida. 

"É apenas uma questão de equilíbrio. De uma pessoa se acostumar a distribuir o peso que carrega. Pode acontecer que os outros considerem isto uma atitude de indiferença. Porém, manter o equilíbrio exige esforço e é mais difícil do que parece. Além disso, mesmo que se consiga atingir o equilíbrio, o peso suportado pelas balanças não diminuiu nem um bocadinho"

"Vamos fazer o possível por não perder o comboio"

"Sobrevivemos, tu e eu. E os que sobrevivem têm uma missão a cumprir. O nosso dever é continuar a viver, levar a vida o melhor que for possível. Mesmo que as nossas vidas estejam longe da vida".

 

Outros livros que li, de fio a pavio, que recomendamos.


26
Abr 14
publicado por mpgpadre, às 15:00link do post | comentar |  O que é?

       1 – Cristo ressuscitou, Aleluia! Este é o dia que o Senhor fez, alegremo-nos e exultemos de alegria. Aleluia. Jesus está vivo, no meio de nós. Corações ao alto. O nosso coração está em Deus. É a nossa luz e a nossa salvação. O anúncio da Páscoa, que chegou a nossas casas, que levamos aos vizinhos, aos amigos, à família, chegou, no primeiro dia da nova criação, aos apóstolos.

       As mulheres, nas primeiras horas do dia, foram ao sepulcro. E que viram elas? O sepulcro vazio? Diz-nos o nosso Bispo, D. António Couto, as mulheres, como os discípulos, encontram o sepulcro aberto, mas não vazio, "está, na verdade, cheio de sinais, que é preciso ler com atenção: um jovem sentado à direita com uma túnica branca (Marcos 16,4), dois homens com vestes fulgurantes (Lucas 24,4), as faixas de linho no chão e o sudário enrolado noutro lugar (João 20,6-7). É importante ler os sinais e ouvir as mensagens!"

       O Corpo não foi roubado. Deus O ressuscitou dos mortos. E os sinais tendem a multiplicar-se e a transformar aqueles que permitem que Deus se lhes revele. O túmulo abriu-se à luz, à esperança.

       2 – Os sinais visíveis no túmulo aberto levam-nos para outro lugar. Finda a noite, é DIA, tempo de procurar Jesus. Melhor, é altura de deixar que Jesus nos encontre: em casa, no campo, a caminhar.

       "Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco… Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados…»

       O segundo Domingo de Páscoa, o Domingo da Misericórdia, traz-nos a dúvida e o medo de Tomé. Medo comum aos outros discípulos. Deus não força. Deus não impõe nem Se impõe. Oferece-se como DOM de vida nova. Mas cabe-nos reconhecê-l'O e acolhê-l'O.

       A vida dos discípulos altera-se para sempre. O Ressuscitado é o mesmo que o Crucificado. Também a Mensagem é a mesma: A paz esteja convosco. Recebei o Espírito Santo. Eu vos envio a vós, para que vades e deis fruto em abundância.

 

       3 – A morte de Jesus provoca uma razia entre os apóstolos. Judas traiu. Pedro negou. Os discípulos fugiram. Portas e janelas fechadas. Será necessário que se encontrem outra vez, todos, com Cristo.

       Tomé não estava com os outros discípulos. Estes garantem-lhe Jesus vivo. Tomé precisa de ver, precisa de encontrar-se com Jesus.

       Oito dias depois, Jesus novamente no meio dos apóstolos. Também lá está Tomé. Estão juntos, em casa. As portas continuam fechadas. O medo permanece por algum tempo. Jesus coloca-se no meio. Jesus deve estar sempre no meio, da casa, da comunidade, ocupando o nosso coração e o nosso olhar, a nossa vida por inteiro. É Ele que verdadeiramente nos reúne, nos congrega, nos aproxima. Quanto mais perto estivermos d’Ele tanto mais perto estaremos uns dos outros, e quanto mais nos aproximarmos uns dos outros, mais visível se torna a Sua presença no meio de nós. Jesus traz a paz. Anunciada ao longo da Sua vida pública, é dada de novo na ressurreição.

       Diz Jesus a Tomé, e também a nós: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente». A profissão de fé de Tomé, breve, traz o coração às palavras: «Meu Senhor e meu Deus!». Ainda hoje é esta a oração e a profissão de fé que muitos católicos rezam diante do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo, o milagre maior da nossa fé. Jesus está vivo, especialmente no Sacramento da Eucaristia…


Textos para a Eucaristia (A): Atos 2, 42-47; Sl 117 (118); 1 Ped 1, 3-9; Jo 20, 19-31

ou no nosso blogue CARITAS IN VERITATE


19
Abr 14
publicado por mpgpadre, às 15:00link do post | comentar |  O que é?

       1 – "Este é o dia que o Senhor fez: exultemos e cantemos de alegria". É o DIA maior da nossa fé, o Dia do Senhor, Domingo da nossa salvação. Em Jesus, Deus recria a humanidade desgastada pelo pecado, imergindo-a na Sua morte, para com Ele nos ressuscitar. "A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular. Tudo isto veio do Senhor: e é admirável aos nossos olhos". Aquele que foi morto, está vivo, voltou para nós. Por momentos roubaram-nos a Luz, ficámos, como discípulos, adormecidos na noite, nas trevas, desenganados. Pensávamos, discípulos de Emaús, que Ele seria a nossa esperança, a esperança para todo o povo. Acompanhamo-l'O ao Calvário, vimos como foi violenta a Sua morte. O mensageiro da paz, da justiça e da igualdade entre todos, como filhos bem-amados de Deus, afinal foi mais uma vítima da história, dos poderes instituídos, vítima da própria religião. Quando demos por nós já Ele dava o último suspiro.

       Regressámos a nossas casas, recolhemo-nos, enrolados sobre o nosso medo. Fechamos portas e janelas, fechamos o nosso coração ferido pelo suplício da Sua cruz. Nem queríamos acreditar! Como foi possível que matassem um homem justo? Como é que Deus, que Ele anunciava como Pai misericordioso e compassivo, deixou que Lhe acontecesse uma coisa destas? Pregava que os últimos seriam os primeiros, como é que Se tornou definitivamente um dos últimos e não protestou contra os que lhe batiam e arrancavam a barba (cf. Is 50, 6)?

       Mas afinal, o que é que correu mal? Não dizia Ele que tinha de acontecer para Se manifestar a glória de Deus? Cumprir-se-iam as Escrituras, mas este "é já o terceiro dia depois que isto aconteceu". Onde está Aquele sobre Quem desceu o Espírito de Deus, para anunciar a Boa Nova aos pobres e libertar os cativos e proclamar um ano favorável da parte do Senhor, cumprindo a profecia de Isaías?

       Manhã cedo, o primeiro Dia da Semana, ainda escuro, uma das mulheres que acompanhavam e serviam Jesus, Maria Madalena, foi ao sepulcro e viu a pedra retirada. Mais um contratempo: «Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram». Já não bastava terem morto o Mestre, ainda nos roubam o Seu corpo. Era tempo de fazer o luto e mais um sobressalto!

       2 – "Este é o dia que o Senhor fez: exultemos e cantemos de alegria". Pedro, um dos discípulos mais genuínos, mais espontâneo, e o discípulo amado, que não tendo nome, poderá ser cada um de nós, se tivermos a humildade de nos inclinarmos sobre o peito de Jesus, para O escutar, correm para ver o que terá acontecido com o corpo de Jesus. E o que veem quando chegam ao sepulcro? "As ligaduras no chão e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as ligaduras, mas enrolado à parte". Nada de sobrenatural. Só então começam a entender a "Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos", e que o Próprio, em diversas ocasiões, tinha anunciado. Será então verdade? Ao debruçarem-se e ao entrar no sepulcro, acreditaram no que Jesus lhes tinha dito anteriormente. Foi para este dia, o mais santo, o Dia do Senhor, que Jesus os preparou. Certos que a imensa Luz da Páscoa não anula a fragilidade e a dureza dos nossos dias, mas um lampejo de esperança poderá ser suficiente para que as trevas e o desencanto não ocupem o lugar da vida e da felicidade, como caminho a percorrer, com esforço e sacrifício, por vezes, mas conscientes que Jesus venceu a morte e nos introduz na vida divina.

       Desde então, as portas começaram a abrir-se. Os discípulos deixam de estar dobrados sobre si mesmos, a reclamar com vida, a protestar com Deus, a interrogar-se sobre o desenrolar dos acontecimentos, para pouco a pouco deixarem que a Luz de Cristo inunde toda a casa, toda a sua vida e lhes solte a língua para proclamem o Evangelho a todos os povos, fazendo discípulos.

 

       3 – Presença luminosa das mulheres, junto à Cruz, junto ao sepulcro, sempre perto de Jesus, para O servir, para darem testemunho acerca d’Ele até junto dos Seus apóstolos. Mulheres e Mães custodiam a vida. Eva, a primeira Mulher, a mãe de todos os viventes. Maria, a nova Eva, Mãe de todos os crentes em Cristo. Desde o primeiro dia da criação, desde o “dia que o Senhor fez”, na primeira hora do dia, ainda escuro, as mulheres (ou na versão joanina, Maria Madalena), na vida e na morte, se mantêm perto de Jesus. Maria, Mãe de Jesus, com o seu SIM coopera com Deus, iniciando-se a nova criação. Firme, com outras mulheres, Nossa Senhora reúne à sua volta os discípulos desiludidos, mantendo acesa a chama da esperança em Deus, em clima de oração.


Textos para a Eucaristia (ano A): Atos 10, 34a, 37-43; Sl 117 (118); Col. 3, 1-4; Jo 20, 1-9.

 


14
Mar 14
publicado por mpgpadre, às 10:11link do post | comentar |  O que é?


09
Nov 13
publicado por mpgpadre, às 15:00link do post | comentar |  O que é?

       1 – Deus «não é um Deus de mortos, mas de vivos, porque para Ele todos estão vivos».

       O centro gravitacional do cristianismo é a Ressurreição de Jesus. Sem Ressurreição, a morte de Jesus teria sido uma entre milhares, sem história para contar que não a de um indivíduo sepultado nas tumbas de Jerusalém. Com a aparição do Ressuscitado surge a Igreja, comunidade dos Seus apóstolos e discípulos. O anúncio do Evangelho inicia após e por causa da ressurreição.

       A luz da Páscoa permite re-ler a vida e missão de Jesus. Muitos dos acontecimentos ficariam como meras recordações para os amigos mais próximos. A ressurreição é a razão de ser da fé cristã, sem a qual não adiantaria falar de vida nova, de eternidade, de futuro, de Alguém que garantisse a nossa identidade para lá do tempo e da história.

       Nos primeiros dias deste mês, a ida aos Cemitérios seria desoladora e desagregadora. Se esta fosse a última morada, seria muito pouco para os nossos anseios humanos, para a nossa esperança. Melhor, seria uma esperança vã. E uma esperança vazia equivaleria a uma fé vazia, sem sentido, inútil, ilusória. A nossa fé baseia-se na Ressurreição de Jesus. É Ele a nossa esperança, a esperança de n'Ele ressuscitarmos e reencontrarmos aqueles a quem queremos bem e já partiram. Por isso rezamos por eles, trazendo-os à mesa da Eucaristia.

       2 – Depois da Ressurreição, Jesus reúne os discípulos, dá-lhes o Espírito Santo, constitui-os como Seu Corpo. E com eles também nós. Somos a Sua Igreja. Ele a Cabeça. Nós os membros. A vida eterna, a promessa de uma morada junto do Pai, a garantia que nenhum dos Seus discípulos se perderia, o desafio para fabricar bolsas que não se rompessem – tudo isto é sancionado com a Sua ressurreição.

       Recuemos um pouco, ao tempo histórico de Jesus, aproximemo-nos d'Ele, como fizeram muitas pessoas naquele dia. Habituados a transacionar bens materiais, os saduceus olham para Ele com desconfiança, alguns mais preocupados com a própria carteira: tudo se resolve cá em baixo. A ressurreição poderá ser uma ilusão psicótica. À socapa alguém pergunta: «Mestre, Moisés deixou-nos escrito: ‘Se morrer a alguém um irmão, que deixe mulher, mas sem filhos, esse homem deve casar com a viúva, para dar descendência a seu irmão’. Ora havia sete irmãos. O primeiro casou-se e morreu sem filhos... o mesmo sucedeu aos sete, que morreram e não deixaram filhos. Por fim, morreu também a mulher. De qual destes será ela esposa na ressurreição, uma vez que os sete a tiveram por mulher?»

       Bela maneira de pregar uma partida a Jesus, socorrendo-se dos Escritos Sagrados. Jesus, a Palavra de Deus em Pessoa, responde também com a Palavra de Deus: «Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento. Na ressurreição dos mortos, nem se casam nem se dão em casamento. E que os mortos ressuscitam, até Moisés o deu a entender no episódio da sarça-ardente, quando chama ao Senhor ‘o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob’. Não é um Deus de mortos, mas de vivos, porque para Ele todos estão vivos».

       A ressurreição é um acontecimento NOVO. Não é conquista humana, é dádiva de Deus, em Cristo Jesus.

 

       3 – Não é fácil falar de morte e de vida depois da morte. Mas mais difícil seria aceitar que tudo desaparece com a morte. Então, tudo se resumiria ao cemitério, a vida dos nossos antepassados e a nossa vida, cujo futuro seria sombrio, pois desembocaria no desaparecimento definitivo de tudo o que fomos/somos, ficando, quando muito, uma memória residual da nossa passagem pelo mundo.

       A fé na Ressurreição só em Cristo recebe a LUZ definitiva. A ressurreição de Jesus abre-nos definitivamente as portas da eternidade e a comunhão plena com Deus. E não é apenas um acontecimento futuro, é realidade em Cristo e na Sua Igreja. Fomos batizados na morte e ressurreição de Cristo, morremos para o pecado para n'Ele ressuscitarmos como novas criaturas, pela água e pelo Espírito Santo.


Textos para a Eucaristia (ano C): 2 Mac 7,1-2.9-14; Sl 16 (17); 2 Tes 2,16-3,5; Lc 20,27-38.

 

Reflexão Dominical COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

e no nosso blogue CARITAS IN VERITATE


24
Ago 13
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

EBWN ALEXANDER. Uma prova do Céu. Testemunho de neurocirurgião sobre a vida além da morte. Lua de Papel. Alfragide 2013, 200 páginas.

       Um neurocirurgião que passa por uma experiência de quase morte. 10 de novembro de 2010. Uma dor aguda, do outro mundo, convulsões, revirar de olhos, desmaio, fá-lo parar nas Urgências de um hospital onde já trabalhou. 7 dias em coma. Quatro dias é o tempo além do qual não há regresso possível ou a haver a pessoa ficará num estado vegetativo ou com muitas mazelas mentais e físicas. Ao sétimo dia a esperança, do lado de cá, está no fim. É tempo de reunir e desligar as máquinas. A família toma consciência disso. Os médicos prolongaram esta decisão para lá do tempo.

       Entretanto, do outro lado, o Dr. Alexander vive uma experiência extraordinária. Sem saber é conduzido pela irmã biológica, que já tinha morrido. Como tinha sido adotado, não reconhece a irmã, mas apenas uma figura luminosa, cheia de bondade. Descobrirá, quando outra irmã biológica lhe enviar uma foto. Ascende ao Céu, guiado por um som, música celestial, onde tudo é paz, harmonia. É um mundo ultrareal. Contacta com Deus, não Lhe vê o rosto mas sabe que é Deus. Está finalmente em paz.

       A sua experiência é muito semelhante a outras que ele já tinha escutado de pacientes mas sem grande crédito, com diversas explicações que a ciência tenta dar. Ainda que não haja respostas definitivas, a ciência abre as portas a um fenómeno que por ora não tem explicação. O Dr. Alexander encontra a explicação que falta à ciência no outro lado.

       À volta da sua cama, durante sete dias, sempre pessoas, que não lhe largam a mão. Um dos filhos, o mais novo, ao sétimo dia, e enquanto a equipa médica, com a família, decide interromper os tratamentos, salta em cima da cama, abre as pálpebras, garantindo ao pai que vai ficar bom. De repente abre os olhos. Junta-se a mãe/esposa, e os médicos. Responde aos presentes: estou bem. Que é que aconteceu, porque é que está aqui tanta gente? O cérebro reiniciou funções. Nas horas e dias seguintes haverá uma grande confusão na sua mente. Pouco a pouco recuperar totalmente, preparando-se para falar do outro mundo, da luz à qual foi conduzido. Da verdade revelada: És amado. O envio: ainda és necessário. Tens de regressar. Alguém precisa de ti.

       O filho mais velho recomenda que antes de ler outros testemunhos e para ser levado a sério que escreva tudo o que se lembra e só depois confronte com outros testemunhos. É o que faz.

       O livro resulta desta experiência de 7 dias em coma profundo, em que a infecção por E. Coli, que dificilmente afeta os adultos, lhe provocaria a morte, ou o deixava com grandes sequelas físicas e mentais, afinal revela-lhe o Céu, a eternidade, e que a consciência sobrevive para lá do corpo, depois da morte, já sem fronteiras. Como em outros casos é difícil traduzir em palavras humanas a grandeza e a beleza das experiências sobrenaturais.

       Um dos livros mais conhecidos sobre experiências de quase morte é A vida depois da Vida, de Raymond Moody, que que resultou em documentários televisivos. Já recomendámos outros testemunhos: O Céu existe mesmo, um menino que regressa do Céu, ou A Cabana, de Paul Young, uma história que relata uma história semelhante.

       Ao longo dos tempos, muitos tentam compreender estes fenómenos. Para uns, é uma das formas do cérebro lidar com situações extremas. Para outros, é uma prova ou um indício que a consciência sobrevive à morte. Há vida para lá da morte.

       Uma última palavra para sublinhar a perspetiva católica sobre o Céu. Fé na vida eterna. Pessoas ou santos que viveram experiências místicas e que relatam visões, de Jesus, de Nossa Senhora, de Anjos, do Céu, do Inferno e/ou Purgatório, como no caso dos Pastorinhos de Fátima. Em todo o caso, a Ressurreição coloca-nos no plano da fé. A prova é sobretudo um indício, uma porta aberta, uma luz que nos guia. Uma coincidência da qual Deus se serve para manifestar a Sua vontade e a Sua presença. Nunca poderá ser visto como uma prova irrefutável. A fé é DOM, não é clarividência física e/ou científica. Deixaria de ser fé, para ser uma realidade demonstrável.

       Este livro traz um excelente testemunho de fé na vida eterna, do Amor que Deus nos tem. Mostra também a força da oração e como a própria cura necessita de algo mais que medicamentos, a presença dos amigos, a reconciliação consigo mesmo. É uma leitura envolvente.

 

Para saber mais: EXTRA - entrevista com Dr. Eben Alexander

Visite também: São as vozes que mandam


25
Jun 13
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28
Mar 13
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23
Ago 12
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

A mensagem é simples: a morte não é uma opção e se quiseres aprender a versão soft do acontecimento, passa a prestar mais atenção durante a missa

 

       No meio de um belo dia de praia, um dos meus filhos correu para mim, aflito e com os olhos em água, e suplicou:

       “Mãe, mãe, eu não quero morrer! Porque é que eu tenho de morrer?!”

       Foi um momento delirante. Vindo directamente do nada, este grito alarmante, este pedido de socorro desalinhou todo o sentido e coerência que um belo dia de praia transmite ao nosso estado de alma. Despertei do mundo dos seres que hibernam ao sol e certifiquei-me, ainda estonteada, que não estava ninguém a persegui-lo com uma faca. Não estava. No entanto, o meu filho pedia para eu o salvar da morte. O pedido era claro e urgente: ele não queria (nem quer) morrer e achava (já não acha) que o posso salvar. A ideia da morte e de que eu podia fazer logo alguma coisa contra isso ocorreu-lhe ali, a meio de um belo dia de praia e a meio de um belíssimo banho de mar.

       “Mas porquê isso agora… Todos temos de morrer um dia”, respondi com alguma impaciência, contendo-me para não acabar a frase com um “daaah”. No entanto, o rapaz insistiu, com convicção e quase em desespero, na teoria de que a morte não pode ser uma inevitabilidade e que eu, como mãe dele, tenho de lhe dar alternativas, devo dar-lhe respostas animadoras e tentar, pelo menos tentar, livrá-lo desse destino fatídico. Percebi então que para ele o assunto era grave, não era uma mera crise conjuntural originada por um delírio solarengo: era um caso de vida ou morte. Disse-lhe então que não havia nada a fazer, que a vida é feita de contrariedades e desbobinei toda a doutrina cristã sobre a morte. Disse-lhe tudo o que sei sobre a vida eterna e tentei animá-lo com o cenário idílico de que, no fim, nos encontraremos todos no Céu. Sem problemas.

       E ofereci-lhe um gelado.

       Ele ignorou a oferta e fez-me a inevitável pergunta: como é que eu sabia? Sim, se eu nunca tinha morrido, como é que eu sabia que a morte não era bem morte? E se não era bem morte, porque existia vida eterna, porque é que se morria? Não valia a pena morrer se depois se ia viver mais… Não tinha lógica, morrer era, assim, uma perda de tempo.

       Ofereci-lhe então um gelado e uma bola de Berlim. Ele ignorou-me. Queria saber. Respondi-lhe com a doutrina da Fé e falei durante cinco minutos seguidos com a consciência de que ele só percebeu dois por cento daquilo que eu disse. No fim, rematei que ele não devia ter medo. Apenas isso: que devia confiar, porque iria perceber tudo cada vez melhor durante a vida se confiasse.

       Foi então que ele condescendeu e fez o derradeiro pedido: “OK, eu posso morrer. Mas então quero que todas as pessoas de quem eu gosto morram comigo!” Assim, tipo menino mimado irritante: eu vou, mas vocês vêm todos comigo. Não pensem que ficam aqui no bem-bom enquanto eu viajo na estratosfera rumo não sei onde. Nada disso: morro eu, morrem todos – não se ficam aqui todos a rir e a comer McDonald’s enquanto eu levito no meio das nuvens.

       Não liguei, claro – já aprendi a ignorar birras parvas – e obriguei-o a comer o gelado e a bola de Berlim na esperança de que ele ficasse com dores de barriga e, com isso, menos dramático. Resultou. 

       Contudo, desde esse dia que anda meio deprimido, apesar da praia, das bolas de Berlim, dos gelados e de transbordar saúde. O meu filho tem um problema: descobriu que vai acabar por morrer. E eu, a sua própria mãe, confirmei o pior dos seus receios. E pior, não revelei grande emoção com o assunto. Pelo contrário: até o tentei convencer que morrer era… bom. Dramático, este dia.

       No entanto, esta não é a primeira vez que ele me fala da morte. É para aí a milésima. Esta é, sim, a primeira vez que ele revela medo da morte. É a primeira vez que ele se depara com um problema bicudo, o maior problema que pode ter, e ninguém lhe oferece uma solução imediata e racional para ele. Antes pelo contrário: confirmam a fatalidade e com toda a naturalidade. A mensagem é simples: a morte não é uma opção e, se quiseres aprender a versão soft do acontecimento, passa a prestar mais atenção durante a missa.

É um facto que as crianças crescem aos solavancos, mas este, o dia em que eles deixam de ser infantilmente crentes, é dos mais tramados. E até pode ser um belíssimo dia de sol.

 

Inês Teotónio Pereira , i-online 18 Ago 2012, in POVO


28
Fev 12
publicado por mpgpadre, às 19:28link do post | comentar |  O que é?

A Agência Ecclesia nasce do trabalho que D. Manuel Falcão inaugurou no início da década de sessenta

 

       “O trabalho começa hoje e não acaba nunca”. A afirmação é do Papa Paulo VI e compõe o penúltimo parágrafo da primeira encíclica do seu pontificado. Paulo VI falava do diálogo – teria de ser – e da prática que encontra tanto no “interior da Igreja” como com os de fora. Isso é sinal de que “a Igreja está hoje mais do que nunca viva”. “Mas – continua de imediato -, reparando bem, parece que tudo está ainda por fazer”.

       Na Ecclesiam Suam, Paulo VI escreve 65 vezes a palavra diálogo. O documento é programático e de um pontificado que dava continuidade aos trabalhos do Concílio Vaticano II e teria de os fazer chegar à universalidade da Igreja. O Papa Montini reserva metade do texto, a segunda, para falar de diálogo. Antes, de outras duas atitudes que propõe para a Igreja Católica: consciência, renovação.

       Na década de sessenta, e nos dias de hoje, o diálogo “com tudo o que é humano” é o horizonte. Paulo VI assume “de bom grado” essa “primeira universalidade”: “a vida, com todos os seus dons e problemas”. Depois, na definição de “círculos concêntricos” onde a Igreja Católica é chamada a estar em diálogo, refere os “crentes em Deus”; num terceiro círculo, o “mundo que se intitula cristão”. O Papa fala depois no diálogo dentro da Igreja, um “diálogo doméstico”, que deseja “familiar e intenso”.

       O programa não é de há 50 anos. É dos dias de hoje. A comprová-lo, acontecimentos e sobretudo histórias de vida.

       Entre os acontecimentos, dois exemplos: a participação ativa e criativa de pessoas e instituições da Igreja Católica em iniciativas como Braga Capital Europeia da Juventude ou Guimarães Capital Europeia da Cultura.

       Entre as vidas, sobressai a notoriedade de algumas. Sobretudo quando correspondem não a comportamentos ocasionais, antes a uma atitude permanente. É o caso de D. Manuel Franco Falcão

        Despedirmo-nos deste homem exige sobretudo dizer-lhe obrigado! Ao longo dos seus 89 anos, na universidade, no sacerdócio, no ministério episcopal viveu a urgência do diálogo. E dialogou; lançou-se ao encontro do outro, nos mesmos círculos concêntricos propostos pelo Papa Paulo VI.

       Na História da Igreja em Portugal, D. Manuel Franco Falcão deixa capítulos inovadores sobre sociologia da religião, sobre diálogo da e na Igreja, sobre preservação e fruição do património. Deixa também largos passos dados na valorização dos meios de comunicação social. Concretamente, a Agência Ecclesia nasce do trabalho que D. Manuel Falcão inaugurou no início da década de sessenta. Por isso e por tudo, obrigado! Sobretudo por sempre ter valorizado essa fronteira do diálogo, onde a Igreja é chamada a estar cada vez com mais intensidade, o mundo dos media.

 


27
Fev 12
publicado por mpgpadre, às 10:15link do post | comentar |  O que é?

       D. Manuel Falcão, bispo emérito de Beja, faleceu no dia 21 de fevereiro. Vale a pena ler e meditar o texto que se segue, que lemos via "Notícias de Beja", e que está disponível na página da Diocese de Beja.

À laia de testamento espiritual (5)

O MISTÉRIO DA MORTE FÍSICA

 

Depois de termos reflectido sobre o mistério do sofrimento e do mal, é lógico que reflictamos sobre o mistério da morte e no que há para lá dela.

 

O fim da vida temporal

 

       A morte como fim da vida temporal é uma certeza que resulta da observação do que acontece a todos os seres humanos. Os cientistas chegam mesmo a calcular que estamos programados para uma duração máxima da ordem dos 120 anos. Isto, independentemente de motivos acidentais que levam à morte em qualquer idade da vida.

 

O mistério da morte

 

       Se a morte é uma certeza, ela é sobretudo um mistério, tanto mais que parece contradizer a ideia de que nós fomos feitos para viver. De facto, seria absurdo que em nós tudo terminasse com a morte. Daqui a intuição de que a morte não é o nosso fim, mas que ela abre caminho a nova forma de viver. A História da Humanidade diz-nos que os homens de todos os tempos acreditaram numa vida para além da morte.

       E assim é. A revelação divina diz-nos que os nossos primeiros pais estavam destinados a viver num paraíso. E que melhor paraíso se pode imaginar do que a convivência íntima por toda a eternidade com o Deus de bondade e de amor? A mesma revelação diz-nos que, se tal não aconteceu, foi pelo mau uso da liberdade, que levou os nossos primeiros pais ao pecado de orgulho, querendo ser semelhantes ao seu Criador, o que se projectou na sua descendência pelo chamado “pecado original”, de que um dos efeitos é precisamente a passagem pela morte.

       Podemos perguntar se no caso de não terem pecado os nossos primeiros pais ascenderiam à plena comunhão com Deus na visão de face a face, sem morrer. Apenas podemos conjeturar que a passagem desta vida temporal à vida eterna se teria passado na mais plena alegria.

       Também agora, pelo mistério da redenção operada por Jesus Cristo, os santos, purificados dos seus pecados, cheios da graça divina e animados pelo Espírito Santo, encarnam a morte com semelhante alegria, na esperança, tornada em certeza, de que ela abre as portas à plena comunhão com Deus. É isto, aliás, o que Deus quer ver em todos nós.

 

A actual perspectiva da morte

 

       Perante o mistério da morte, hoje não falta quem fuja a pensar nela. Aliás, nas idades activas, o pensamento está absorvido pelos problemas da vida. Só mais tarde se é levado a pensar na morte, podendo cada um, ao anoitecer, dizer a si mesmo : “Mais um dia; menos um dia”.

       Ao contrário dos tempos passados, em que a morte era sentida como um dos mais profundos mistérios da nossa existência, o mundo moderno tende a esquecê-la, nomeadamente pela dispensa dos sufrágios, pela banalização dos funerais, optando pela cremação dos cadáveres e pela supressão do luto. É ver como em geral os meios de comunicação social noticiam o falecimento de alguém, pouco mais relatando além do que ela foi em vida.

       Pelo contrário, nós, cristãos devemos encarar a morte com espírito de fé, como aviso de que neste mundo somos peregrinos ao encontro da Pátria definitiva, onde a morte nos introduz para conviveremos com Deus por toda a eternidade.

 

Que acontece depois da morte?

 

       Pouco sabemos ao certo do que se passa após a morte, tanto mais que não é fácil imaginar como se relacionam o “tempo” e a “eternidade”, embora saibamos que esta relação acontece no actual relacionamento de Deus eterno connosco nesta vida temporal. A revelação diz-nos que, após a nossa morte, a alma é sujeita a um “juízo particular”, que decide do nosso destino eterno, ou o Céu ou o Inferno; diz-nos também que os destinados ao Céu passam por uma purificação dos restos de pecados no chamado “Purgatório”; diz-nos ainda que, no chamado “fim do mundo”, se dá a ressurreição pela reentrada das almas nos respectivos corpos tornados espirituais, à semelhança do corpo do Cristo e da Virgem Maria.

       Os sufrágios pelos mortos, que já vêm do A.T. (Mac 12,46), são prática na Igreja que nos assegura a existência do “Purgatório”. Quanto ao resto, da revelação, o saberemos na plenitude da vida eterna.

 

+ Manuel Franco Falcão,

Bispo emérito de Beja, 01.01.2012, in Diocese de Beja.


13
Fev 12
publicado por mpgpadre, às 19:30link do post | comentar |  O que é?

Exercício: olhar a vida a partir do fim.

Talvez não do inverso, mas a partir do fim.

É uma tarefa complexa. O futuro a Deus pertence. Podemos vislumbrar o dia de amanhã, com a incerteza, o mistério e a surpresa que é sempre o futuro, mas a nossa vida daqui a 10 anos, ou daqui a 20, 30, 40 anos, a partir da nossa morte, do nosso fim biológico/terrenos (ou mesmo a partir da eternidade de Deus) torna-se uma tarefa árdua, mas não deixa de ser um desafio provocatório.

Um dos retiros do Seminário, não sei especificar o ano, nas férias de Carnaval, na Casa de São José, em Lamego, naquela casa gélida, aquecida pelas pessoas que aí trabalhavam (e trabalham), foi orientado pelo então Pe. João Evangelista Salvador, sacerdote da Diocese de Coimbra e atualmente Bispo Auxiliar do Porto.
Quando nos testemunhava o dom da sua vocação, as dúvidas e incertezas, e o que o levou em definitivo a avançar (espero que a memória não me tenha atraiçoado, foi seguramente há mais 14 anos), terá conversado com um irmão que o convidou a ver-se no futuro e a olhar a vida desde o fim. O mesmo exercício nos foi proposto. Chegado ao fim da vida, ao olhar para trás, o que gostaria de ter sido, o que gostaria de ter feito, que escolhas teria realizado. Ver-se a partir de Deus, do Definitivo, do Eterno, olhar através dos olhos de Deus, para toda a vida passada (ainda por viver). Chegou à conclusão, vendo a partir do fim, que gostava de viver numa lógica de Infinito, as realidades últimas. Todas as escolhas humanas são dignas, cada pessoa há de seguir o caminho que mais o aproxima de Deus. Ele sentiu que a vida que mais o colocava nas realidades últimas, era a opção pelo sacerdócio ordenado.

Há um santo que, São Francisco de Borja, que acompanhou o corpo de D. Isabel de Portugal, para a sepultura real, em Granada. Sabia que a rainha era adulada por uma beleza era inigualável, mas na morte, diante do cadáver, já em decomposição, ficou chocado com algo comum a todos as pessoas: a degradação física e a fealdade da morte biológica. Decidiu "não servir nunca mais a um senhor que pudesse morrer". Viria a tornar-se santo. Aquele que viria a ser São Francisco de Borja, olhou a vida a partir do fim, neste caso, o fim terreno e mortal da Imperatriz Isabel.

Em ocasiões em que nos deparámos com a morte de alguém, ouvimos os mais variados comentário sobre o falecido que ora já não se pode defender com as mesmas armas dos vivos: "nem aproveitou...", "trabalhou como um mouro, nem gozou", "trabalhou, deixa cá tudo, a outros que nada fizeram", "tanta coisa, e no fim...", "para quê tantas chatices, se todos morremos", "de que lhe valeu todo o trabalho"... É de alguma forma a visão bíblica de Qohélet (Eclesiastes) e de Job, tudo é vão, a não ser que Deus garanta, ainda que no fim, a justiça e o futuro... Outras expressões, quando as pessoas envelhecem (pode não ser cronologicamente), são igualmente ilustrativas: "se eu soubesse...", "como estou represo... enganou-me bem, bem me avisaram mas não quis ouvir". Ou em situações de debilidade em que se reconhece a atenção dada a um ou outra pessoa, e a quem se doaram bens, mas quando a doença aperta são outros que cuidam...

A nossa vida é imprevisível. Mas este exercício pode ajudar-nos a não embarcar em euforias desmedidas nem a nos deixarmos abater perante as maiores adversidades. Tentar olhar a vida a partir do fim, olhar para nós como se tivéssemos mais 5, 20 ou 30 anos, e tentar olhar para este entretanto que medeia o hoje que vivemos, o amanhã que chegará (se Deus quiser), e os anos que aproveitámos ou desperdiçamos! Se víssemos a vida pelo fim, a partir da morte, ou como crentes, a partir da eternidade de Deus, será que valorizaríamos todas as coisas da mesma forma como o fazemos hoje? Será que dispúnhamos do tempo da mesma maneira? Olhando para trás, o que faríamos de diferente? Alguns dizem nada, como se isso fosse concretizável. Se olharmos para o passado, sem dramatismo nem falsa nostalgia, haveria sempre alguma coisa que faríamos de outro modo, ainda que em linhas gerais seguíssemos um caminho muito idêntico. Para não mudar nada no passado, teríamos que ter sido perfeitos, isto é, deuses.

Tentar colocar-nos no fim é um exercício similar a tentar colocar-nos no lugar do outro. Não é fácil. Mas devemos fazê-lo. Ajuda-nos a compreender, a aceitar as nossas limitações, como as limitações dos outros - por vezes são o espelho das minhas/nossas fraquezas.
Do mesmo modo, olhar a vida a partir da morte, ou melhor, como crentes, a partir da vida em plenitude, em Deus, levar-nos-á a relativizar quer os sucessos quer os insucessos, sabendo que a plenitude virá no fim, ainda que a devamos testemunhar desde já, ao jeito de Jesus Cristo. Para um não crente, ou descrente, em todo o caso, olhando para trás, como se estivesse no fim, como gostaria de ser recordado, ou gostaria de ser recordado?

Como me vejo daqui a 10 anos, o que terei feito da minha vida? Quais as pessoas que continuarão a ser fundamentais? Quais as pessoas que acha estarão a seu lado nos anos de vacas magras?

Não se trata de fazer futurologia, mas de olhar para o amanhã profeticamente, para viver hoje com mais intensidade (e com mais descontração - hoje estamos, amanhã só Deus sabe). No fim, poderemos rever a nossa vida toda, para trás, mas não a podemos reviver, não poderemos apagar os desvios, como não podemos festejar o bem realizado. No fim, para os cristãos, haverá tempo para a esperança e para o louvor. E a haver arrependimento pelo mal feito (feito está), ou pelas omissões, nada mais poderei fazer a não ser como desafio para outros...

Olhando a minha, a tua, a nossa vida, a partir do fim, que mudanças faríamos hoje? Colocada a questão de uma forma mais urgente: e se eu morresse hoje, amanhã, daqui a uma semana, o que valeria a pena ainda realizar?


06
Nov 11
publicado por mpgpadre, às 09:30link do post | comentar |  O que é?

       1 – "Portanto, vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora".

       Na semana em que celebrámos a eternidade, na solenidade de Todos os Santos e na evocação dos fiéis defuntos, e quando nos aproximamos do final do ano litúrgico, a Palavra de Deus interpela-nos para a vivência do tempo presente, como resposta vivida e antecipada perante o desenlace certo da nossa existência na história e no tempo.

       Sabemos que a nossa permanência na terra não é para sempre, tal como nos conhecemos, de carne e osso, alma e corpo. Há-de chegar um dia, que não sabemos quando será, em que terminará a nossa caminhada. Nesse sentido, temos várias escolhas, tais como cruzar os braços e esperar que cheguem ao fim os nossos dias, viver com amargura por sabermos que a nossa vida é efémera e que não podemos fazer nada para alterar esse facto, deixar que outros decidam por nós a vida que nos foi dada por amor, lamentar-nos pelos momentos de fragilidade, na doença, na solidão, na morte de familiares, amigos e vizinhos e pelas contrariedades quotidianas, ou viver com garra, comprometidos em dar o nosso melhor para tornar o mundo à nossa volta mais habitável, mais justo, mais fraterno, conscientes que não estamos dispensados do sofrimento e da própria morte.

       A comemoração dos fiéis defuntos coloca-nos numa atitude de gratidão por tudo o que os antepassados nos legaram. Agora é a nossa vez e o tempo de fazermos alguma coisa pelos outros e pelo mundo que habitamos, para o deixarmos a outros melhor do que o encontramos. É o nosso compromisso, a nossa sina, se queremos dar sentido à nossa vida terrena.

       Do mesmo modo, a celebração dos SANTOS nos recorda que muitos homens e mulheres, de todas as raças, cores e feitios, tornaram úteis as suas vidas e fizeram com que as qualidades pessoais estivessem ao serviço dos outros, na promoção da paz, da justiça, do bem pessoal, familiar e social. Eles cumpriram. Viveram não apenas para si mesmos, mas no serviço caritativo aos demais. Foram rosto de Deus para os irmãos. Agora está nas nossas mãos.

 

       2 – Jesus conta-nos mais uma parábola sobre o reino de Deus, mas desta feita sobre a hora em que estaremos na presença de Deus, na passagem deste mundo para a eternidade. 10 virgens, cinco sensatas e cinco imprudentes. Quem vai para o mar prepara-se em terra. Depois não há nada a fazer. Não se pode voltar para trás, o barco segue o seu rumo, também a vida segue connosco ou sem nós, nem abandonar o barco, seria desistir de nós e comprometer a viagem dos outros, somos sempre co-responsáveis uns pelos outros.

       Cinco virgens preparam-se para serem recebidas pelo noivo, as outras cinco deixam-se dormir. Quando se aproxima a hora dão-se conta que não têm azeite para manter acesas as suas lâmpadas. Que fazer? Ir à procura de azeite? E por que não pedir às outras cinco virgens? Mas depois nem umas nem outras terão azeite suficiente! Pelo menos cinco ficam garantidas. Vão então à procura de azeite, mas quando regressam a porta já está fechada.

       Voltemos à história do mar. Imaginando 10 tripulantes que deveriam levar alimento para todos os dias da viagem, mas cinco esqueceram-se de levar a sua parte, ou por pensarem que o dos outros chagava, ou que iriam encontrar alimento alternativo. Que fazer? Os cinco que se prepararam em terra dividem, correndo o risco de morrerem todos à fome uma vez que, dividindo, o alimento só dá para meia viagem?!

       A questão colocada na parábola é pertinente e obriga-nos a pensar a nossa vida a partir do fim, a partir do cemitério, a partir da eternidade. Quando morrermos, já nada poderemos fazer, a não ser confiar na misericórdia de Deus. Porquanto, com mais ou menos talentos, com mais ou menos contrariedades, ainda podemos fazer algo por nós, pelos outros, pelo mundo em que vivemos e pelo qual também somos responsáveis. Podemos lamentar-nos. Ou podemos fazer (ou pelo menos tentar) a nossa parte, fazendo o que está ao nosso alcance, deixando que Deus opere em nós, abrindo-nos à Sua graça e à Sua força, movendo-nos para que os nossos braços, a nossa voz, os nossos passos, possam prestar-se a realizar a vontade de Deus, o que Lhe é agradável: nossa e a felicidade dos outros, vivendo na caridade.

 

       3 – Nesta lógica, o Apóstolo São Paulo, acalenta a nossa esperança: "Se acreditamos que Jesus morreu e ressuscitou, do mesmo modo, Deus levará com Jesus os que em Jesus tiverem morrido... Consolai-vos uns aos outros com estas palavras". A morte e a ressurreição de Jesus antecipa o que sucederá connosco.

       A morte temo-la como certa, só não sabemos nem o dia nem a hora. A ressurreição é uma garantida da nossa fé em Jesus e da fé na eternidade e no próprio Deus. Não adiantaria de muito ter um Deus que não assegurasse o nosso futuro, preservando a nossa identidade e a nossa memória. Com a morte perder-nos-íamos para sempre. De pouco teria valido, nesse caso, fazermos algo de bom, pois seria esquecido, ainda que tivesse tido a dita de nos fazer sentir bem connosco.

       A esperança na ressurreição dos mortos, seguindo a Ressurreição de Jesus Cristo, exige que vivamos n'Ele, para que Ele, que nos atrai de junto de Deu, nos leve (e eleve) para Deus. Consolamo-nos com estas palavras, para estarmos vigilantes e vivermos procurando imitá-l'O no perdão e na caridade.

       Com este propósito, procuremos a sabedoria que nos vem do alto: "a Sabedoria é luminosa e o seu brilho é inalterável; deixa-se ver facilmente àqueles que a amam e faz-se encontrar aos que a procuram", para que os nossos caminhos não se afastem do d'Ele, Senhor nosso Deus.


Textos para a Eucaristia (ano A): Sab 6,12-16;1 Tes 4,13-18; Mt 25,1-13.

 

Reflexão Dominical na Página da Paróquia de Tabuaço


13
Out 11
publicado por mpgpadre, às 12:30link do post | comentar |  O que é?

Numa cultura que se recusa a encarar [a doença e a morte] … Steve Jobs deixa um testemunho exemplar de sabedoria e humanidade

        É estranho dizer-se de um homem que morre aos 56 anos que tenha tido três vidas. Mas é isso que apetece dizer quando se escuta o inspirador discurso que Steve Jobs fez em 2005, na entrega de diplomas da universidade de Stanford, e que hoje podemos perceber claramente como uma espécie de testamento. Jobs conta, então, três histórias, que correspondem a momentos-chave do seu percurso.

       A primeira descreve os seus difíceis começos e ele chama-lhe “ligar os pontos”. O arranque da vida não podia ser mais áspero. Entregue para a adoção assim que nasceu, uma adolescência hesitante, a entrada numa universidade que os pais não conseguiam pagar nem ele verdadeiramente suportava, a dureza de uma juventude feita de biscates, meio à deriva…Mas no meio disso, a aprendizagem pessoal do valor das coisas, a busca exigente daquilo que realmente gostava e aceitar pagar o preço, em dedicação e esforço. Ele conta, por exemplo, que escolheu frequentar minuciosamente um bizarro curso de caligrafia. Só dez anos mais tarde, quando inventou o revolucionário Macintosh, percebeu que esse conhecimento viria a ter uma aplicação preciosa. Como diz Steve Jobs, precisamos confiar que os pontos dispersos do nosso percurso se vão ligar e receber daí confiança para seguir um caminho diferente do previsto.

       A segunda história é sobre o amor e a perda. Ele inventou com um amigo, na garagem da sua casa, um negócio que, em apenas uma década, passou a mover 2 biliões de dólares e 4000 empregados. E, precisamente, quando julgava ter alcançado o auge despedem-no. Impressionante é o modo como integra este golpe, depois de um primeiro atordoamento: «Decidi começar de novo. E isso deu-me liberdade para começar um dos períodos mais criativos da minha vida». A verdade é que ele se reinventa e volta à liderança da empresa da qual havia sido dispensado.

       A terceira história é acerca da doença e da morte. E numa cultura que se recusa a encarar qualquer uma delas, Steve Jobs deixa um testemunho exemplar de sabedoria e humanidade: «A morte é muito provavelmente a melhor invenção da Vida… O nosso tempo é limitado então não o desperdicemos… Tenhamos a coragem de seguir o nosso coração». Por isso, a sua morte recente não nos obriga apenas a lembrar a revolução tecnológica que ele aproximou dos nossos quotidianos. Ela obriga-nos a arriscar “ligar os pontos” dentro de nós.

 

José Tolentino Mendonça, Editorial Agência Ecclesia


07
Out 11
publicado por mpgpadre, às 11:51link do post | comentar |  O que é?

       Morreu Steve Jobs, fundador e cérebro da Apple, a empresa da maça, que produziu o Macintosh, o iPad, o iPhone, bem como muitas outras invenções no mundo da ciência e da tecnologia...

       Fica aqui um discurso na universidade, em 2005, um ano depois de lhe ser diagnosticado cancro do pâncreas e com a informação que era um cancro raramente curável, com três histórias da sua vida.

...foi dado para adoptar para ter formação académica... foi demitido da companhia que tinha fundado, a Apple, foi uma das lições mais importante da sua vida que o deixou devastado... mas não desistiu... foi o melhor que lhe aconteceu...  que lhe permitiu criar... e casar com a mulher actual... por vezes a vida atira-lhe pedras à cara... "não perca a fé...", desistiu do curso universitário e das aulas obrigatórias, mas não deixou de estudar, de se preparar... a única maneira de ficar satisfeito é amar... continue a procurar... não se acomode...

       ...a terceira história é sobre a morte. 

       Aos 17 anos leu uma frase: "Se viveres cada dia como se fosse o último, algum dia acertará"... todos os dias, ao longo de 33 anos, quando me levanto e olho para o espelho, pergunto-me: se hoje for o último dia de vida, vou querer fazer o que estou prestes a fazer?"... Pensar que logo morrerei é ferramenta mais importante que encontrei para me ajudar a tomar as maiores decisões na vida... porque quase tudo, as expectativas externas, o orgulho, o medo de vergonha ou fracasso, todas desaparecem frente à morte, restando apenas o que é realmente importante... tu não tens nada (e nada a perder), "não existe razão para não seguires o teu coração"...

       Quando foi informado sobre a possibilidade de morrer entre 3 a 6 meses, depois de lhe se diagnosticado o cancro, o médio disse-lhe para colocar os negócios em dia, facilitar a vida à família, o ter que se despedir... mas depois com a cirurgia foi curando... "ninguém quer morrer... nem mesmo os que querem ir para o céu querem morrer para chegar lá. A morte é o destino que todos partilhamos. Nunca ninguém escapou e é assim que deve ser. A morte é muito provavelmente a melhor invenção da vida. É algo que muda a vida. Elimina o velho para dar lugar ao novo"... hoje sois vós o novo, mas um dia não muito distante sereis o velho... "O seu tempo é limitado, portanto não o desperdice vivendo a vida de outros... não deixe a voz dos outros abafar a sua própria voz... tenham coragem de seguir o vosso coração e intuição... sejam famintos, sejam tolos!"


06
Out 11
publicado por mpgpadre, às 20:25link do post | comentar |  O que é?


24
Set 11
publicado por mpgpadre, às 10:24link do post | comentar |  O que é?

 

      "...a do ser humano é breve, e muito mais frágil do que se imagina. As pessoas estão sempre e a morrer. Por isso, devemos tratar os outros de forma a não dar azo a grandes arrependimentos. De maneira justa e, se possível, com a máxima sinceridade. Eu, pessoalmente, não aprecio aqueles que não se esforçam quando têm oportunidade para isso e depois ficam a chorar baba e ranho e a torcer as mãos pelos cantos, cheios de remorsos, quando morre alguém".

 

Haruki Murakami, Dança, Dança, Dança. Casa das Letras, Cruz Quebrada: 2008.


29
Jul 11
publicado por mpgpadre, às 11:15link do post | comentar |  O que é?

Monte das oliveiras...

       "Ali, Jesus experimentou a solidão extrema, toda a tribulação do ser homem. Ali, o abismo do pecado e de todo o mal penetrou até ao fundo da sua alma. Ali foi assaltado pela turvação da morte iminente. Ali O beijou o traidor. Ali todos os discípulos O abandonaram. Ali Ele lutou também por mim.

 

       ... No «jardim» acontece a traição, mas o jardim é também o lugar da ressurreição. de facto, no jardim, Jesus aceitou completamente a vontade do Pai, assumiu-a e assim inverteu a história".

 

Joseph Ratzinger/Bento XVI, Jesus de Nazaré,  p 126.


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