...espaço de discussão, de formação, de cultura, de curiosidades, de interacção. Poderemos estar mais próximos. Deus seja a nossa Esperança e a nossa Alegria...
30
Abr 17
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A Quaresma recentra-nos tradicionalmente em três dinâmicas para melhor vivermos a Páscoa do Senhor: a oração, o jejum e a esmola. São vistas como expressões da conversão interior, da adesão decidida a Jesus e ao Seu Evangelho, como concretização do nosso compromisso em nos tornarmos discípulos missionários, identificando-nos com o Mestre da Docilidade para, como Ele e com Ele, nos fazermos próximos dos outros e os acolhermos como irmãos.

A oração é o ponto de partida e o chão que nos move para Deus. E se a oração é autêntica levar-nos-á a querer o que Deus quer. Na oração predispomo-nos a encontrar a vontade de Deus para nós. A referência é Jesus Cristo, cuja vontade paterna é o Seu programa de vida, o Seu alimento. Eu venho, ó Deus, para fazer a Vossa vontade. Faça-se não o que Eu quero, mas o que Tu queres! A oração não é fácil. Ou nem sempre é fácil, sobretudo quando a vida não corre de feição. Ainda assim não devemos deixar de rezar, de suplicar, de louvar, de agradecer a Deus, a chuva e o sol, o vento e a névoa!

Alguns modelos de oração combativa: Abraão, Jacob, Moisés, Ana, Job, David, Jesus.

Abrão “negoceia” com Deus, insistindo até ao limite, com veemência, tentando proteger a cidade de Sodoma e de Gomorra. É um dos exemplos muito queridos ao Papa Francisco. Jacob é aquele que luta com Deus pela noite dentro e, por isso, o seu nome é mudado para Israel, porque lutou com Deus e venceu. Moisés eleva os braços, o coração, a vida para Deus, intercedendo uma e outra vez pelo povo, de dura servis, mas ainda assim o povo que Deus lhe confiou. Ana, mãe de Samuel, que persiste na oração até que Deus lhe concede o que deseja. Job, na imensidão do mistério de Deus, no confronto com a desgraça pessoal e familiar, não desiste de se dirigir a Deus, convocando-O à justiça. E Deus responde-lhe. David, grande Rei – o Papa Francisco invoca-o como São David – apesar do grave pecado contra o próximo, tomando a mulher de Urias e provocando-lhe a morte, não deixa de dialogar com Deus, penitente, arrependido, assumindo as consequências do seu pecado, protegendo o povo. E, claro, a oração de Jesus. Em todos os momentos cruciais da Sua vida, Jesus respira oração, suplicando, louvando, agradecendo, oferecendo. A sua vida faz-se oração, mas Jesus reserva momentos específicos para orar a Deus Pai: antes da vida pública, antes de escolher os apóstolos, na realização de milagres, antes do Calvário… e na Cruz!

 

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4406, de 4 de abril de 2017


26
Set 15
publicado por mpgpadre, às 15:00link do post | comentar |  O que é?

1 – "Há um «serviço» que serve aos outros; mas temos que guardar-nos do outro serviço cujo interesse é beneficiar os «meus», em nome do «nosso». Este serviço deixa sempre os «teus» de fora, gerando uma dinâmica de exclusão" (Papa Francisco, em Cuba). O contexto é o de domingo passado, em que Jesus diz claramente aos seus discípulos que quem quiser ser o primeiro seja o servo de todos. A tentação será servir-se, ou servir os seus, excluindo os que não fazem parte da minha família, do meu partido, da minha religião, do meu país, do meu grupo de amigos. Ora para Deus somos irmãos. Ele é Pai de todos. Todos são chamados a formar uma família feliz.

Acolher os distantes, o estrangeiro, o pobre, o estranho, o refugiado, não nos dispensa de tratar bem os de casa e os da vizinhança.

O Evangelho mostra os discípulos muito zelosos em relação ao grupo e aos próprios interesses. João diz a Jesus: «Mestre, nós vimos um homem a expulsar os demónios em teu nome e procurámos impedir-lho, porque ele não anda connosco». Não se põe em causa o bem mas quem o faz. Se fizesse parte do grupo, acrescentaria prestígio e estava em sintonia com Jesus. Ora, se não faz parte do grupo não terá direito a fazer o que quer que seja relacionado com Jesus.

Novamente a questão do protagonismo: quem é o maior?! Resposta clarificadora de Jesus: quem quiser ser o primeiro será o servo de todos. Os discípulos ainda precisam de caminhar muito mais. Veem alguém que lhes pode tirar o protagonismo e logo o afastam.

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2 – Sem Jesus fisicamente entre nós, Ele realmente Se faz presente pela Palavra proclamada, pelos Sacramentos, particularmente na Eucaristia, e muito especialmente Se faz presente nos pobres.

Não há privilégios nem privilegiados. A haver discriminação será a favor dos excluídos, menosprezados, esquecidos. Partimos da mesma condição: fazer o bem e em nome de Jesus para que não nos tornemos vaidosos ao ponto de fazermos depender os outros de nós, instrumentalizando-os.

Responde-lhes Jesus: «Não o proibais; porque ninguém pode fazer um milagre em meu nome e depois dizer mal de Mim. Quem não é contra nós é por nós».

Estamos habituados a diabolizar quem não pensa como nós. Pior, diabolizamos os que não fazem parte do nosso grupo, mesmo que tenham ideias semelhantes às nossas.

Jesus diz aos seus discípulos que o joio e o trigo crescem em simultâneo até à ceifa (cf. Mt 13, 24-30). Em vez de diabolizar há que integrar. Discutir ideias, mas acolher todas as pessoas. Há que procurar o bem em todos, a presença de Deus em cada um. O caminho de Jesus é o caminho do amor, da paixão, do serviço a todos, sem excluir, preferindo aproximar-se dos afastados. O caminho é amar. Amar sempre. Amar servindo. Não importa a quem. Não importa quem. Retomemos a parábola do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 25-37). Para se ser bom não é preciso ser judeu, ou ser cristão, o que é preciso é fazer o bem sem olhar a quem.

 

3 – «Quem vos der a beber um copo de água, por serdes de Cristo não perderá a sua recompensa. Se alguém escandalizar algum destes pequeninos que creem em Mim, melhor seria para ele que lhe atassem ao pescoço uma dessas mós e o lançassem ao mar».

No dia em que se faz memória de São Vicente de Paulo, vale a pena meditar nas suas palavras: «O serviço dos pobres deve ser preferido a todos os outros e deve ser prestado sem demora… se tiverdes de deixar a oração… De facto não se trata de deixar a Deus, se é por amor de Deus que deixamos a oração: servir um pobre é também servir a Deus. A caridade é a máxima norma, e tudo deve tender para ela; é uma grande senhora: devemos cumprir o que ela manda».

Os discípulos discutem lugares e protagonismo: qual de nós será o maior no Reino de Deus? E afastam os que possam ocupar um lugar especial no coração de Jesus ou agir em Seu nome. Jesus não discute lugares, mas serviço. Não importa quem brilha! Importa quem faz transparecer Jesus e o Seu Evangelho de amor. No MEIO estará sempre Jesus, ainda que esteja no meio através dos mais pobres.

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Textos para a Eucaristia (B): Num 11, 25-29; Sl 18 (19); Tg 5, 1-6; Mc 9, 38-43.45.47-48.

 

REFLEXÃO DOMINICAL COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

e no nosso outro blogue CARITAS IN VERITATE


29
Ago 15
publicado por mpgpadre, às 14:22link do post | comentar |  O que é?

1 – «Não há nada fora do homem que ao entrar nele o possa tornar impuro. O que sai do homem é que o torna impuro: imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, cobiças, injustiças, fraudes, devassidão, inveja, difamação, orgulho, insensatez. Todos estes vícios saem do interior do homem e são eles que o tornam impuro».

Jesus é perentório: não são as circunstâncias que moralizam as nossas ações, mas as nossas escolhas. Muitas circunstâncias podem alterar o nosso humor e fazer precipitar alguma atitude ou palavra.

Contudo, as circunstâncias exteriores não fazem o carácter de uma pessoa. Um exemplo caricato: algumas pessoas bebem uns copos ou uns shots para depois dizerem "umas verdades" ou fazerem "umas maldades". Têm desculpa porque beberam?! Que não bebam!

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2 – A questão levantada por alguns fariseus e alguns escribas, à primeira vista, não passa de uma questão de higiene. Lavar as mãos antes de comer é uma recomendação para todos. 

Para os judeus trata-se de uma tradição e de uma prática religiosa. Ao longo do tempo, os 10 mandamentos deram lugar a uma "catrefada" de preceitos. Quase tudo é revestido de preceito religioso por forma a garantir o seu cumprimento.

“Os judeus não comem sem ter lavado cuidadosamente as mãos, conforme tradição dos antigos. Ao voltarem da praça pública, não comem sem antes se terem lavado. E seguem muitos outros costumes como lavar os copos, os jarros e as vasilhas de cobre”.

 

3 – Lavar ou não lavar as mãos antes das refeições?! É uma regra simples de higiene e de saúde. Quando muito poderia provocar algum retraimento ou asco daqueles que estavam à mesa com eles.

Percebe-se bem que foi um pretexto. Ao fazerem esta acusação, aqueles fariseus e escribas dizem a Jesus que os seus discípulos são uns foras-da-lei, uns maltrapilhos desleixados, que não faziam esforço para se integrarem na sociedade. E se são assim tão descuidados e não convivem bem em sociedade, como se pode esperar alguma coisa do Seu Mestre, que vê e nada diz, nada faz?

Se pensarmos que só no séculos XIX é que alguns médicos começaram a lavar e a recomendar lavar as mãos por ocasião dos partos, dá para perceber como os judeus, também nesta questão, estavam muito à frente, sendo cuidadosos com a saúde.

 

4 – «Porque não seguem os teus discípulos a tradição dos antigos, e comem sem lavar as mãos?» Jesus não se faz rogado e diz-lhes: «Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito: ‘Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim’. Vós deixais de lado o mandamento de Deus, para vos prenderdes à tradição dos homens».

Em diversas ocasiões, Jesus chamará à atenção para zelos que não convertem, preceitos que não humanizam, leis que não aproximam. Quantas vezes nos agarramos a tradições anquilosadas? Sempre foi assim, assim será sempre! E o porquê desta ou daquela tradição?

Na parábola do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 25-37), Jesus coloca em causa a pureza cultual que esquece a caridade! O sacerdote e o levita que veem aquele homem meio-morto estendido na estrada e não o ajudam porque ficariam impuros se tocassem. Para eles o mais importante era a pureza cultual, mesmo abandonando uma pessoa de carne e osso, lugar-tenente de Deus.

 

5 – A segunda leitura, de São Tiago, que ora iniciamos, vai mostrar-nos com clareza a plenitude da Lei, o amor concretizado em obras, no compromisso com os mais desprotegidos: «Sede cumpridores da palavra e não apenas ouvintes… A religião pura e sem mancha, aos olhos de Deus, nosso Pai, consiste em visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações».

Mais que conhecer a palavra, importa praticá-la. O Apóstolo dá exemplos concretos: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tripulações, que naquele tempo constituíam o grupo mais vulnerável.

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Textos para a Eucaristia (B):

Deut 4, 1-2. 6-8; Sl 14 (15); Tg 1, 17-18. 21b-22. 27; Mc 7, 1-8. 14-15. 21-23.

 

REFLEXÃO DOMINICAL COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

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14
Mar 15
publicado por mpgpadre, às 15:00link do post | comentar |  O que é?

1 – «Se eu me esquecer de ti, Jerusalém, esquecida fique a minha mão direita / Apegue-se-me a língua ao paladar, se não me lembrar de ti, se não fizer de Jerusalém a maior das minhas alegrias».

A liturgia propõe-nos a alegria do Evangelho da Salvação que é manifesta em Jesus Cristo. Já se vislumbra a Páscoa. A Paixão de Jesus é prova maior do amor de Deus para connosco.

Hoje como ontem, na Igreja como no povo eleito, os tempos são de provação, com dias de sol e dias de chuva. O importante é que de cada situação possamos descobrir e integrar o que nos enlace nos outros, aprender e amadurecer caminhos, aperfeiçoar e corrigir escolhas, discernir o que nos engrandece e nos faz mais humanos, capacitando-nos para enfrentar obstáculos com paciência e misericórdia, iluminando as oportunidades que temos pela frente, fortalecendo o nosso espírito para não nos deixarmos abater nas tempestades nem nos deixarmos endeusar nos momentos de conquista, de vitória e de bonança. A humildade será sempre a força dos que querem avançar e ficar na história como promotores da justiça, da paz e da solidariedade, a alegria daqueles que querem ver os seus nomes inscritos no coração de Deus.

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2 – «Enquanto o país não descontou os seus sábados, esteve num sábado contínuo, durante todo o tempo da sua desolação, até que se completaram setenta anos». A linguagem bíblica da primeira leitura fala-nos daquele SÁBADO contínuo em que DEUS Se coloca em atitude de ESPERA paciente e benevolente.

70 anos, um longo tempo de preparação e de gestação para um tempo novo. «Sobre os rios de Babilónia nos sentámos a chorar, com saudades de Sião. Nos salgueiros das suas margens, dependurámos nossas harpas». O tempo de provação aproxima-se do fim. Quem se sentir povo de Deus deverá agora pôr-se a caminho. Esta é a condição do crente: estar a caminho, em processo de conversão contínua, fazendo-Se acompanhar por Deus.

 

3 – A história da salvação chega ao seu termo com Jesus Cristo. «O Filho do homem será elevado, para que todo aquele que acredita tenha n’Ele a vida eterna». No deserto, tempo de provação do povo de Israel, Moisés levantou uma serpente de bronze. Quem olhasse para a serpente seria salvo. Era uma situação provisória e pontual. O filho do Homem, Jesus, será levantado da terra, e todos os que contemplarem a Sua Cruz, deixando-se trespassar e transformar pelo olhar de Cristo, serão salvos. É um acontecimento pleno e definitivo.

«Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna».


Textos para a Eucaristia (ano B):

2 Cr 36, 14-16. 19-23; Sl 136 (137); Ef 2, 4-10; Jo 3, 14-21.

 

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07
Mar 15
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1 – «Destruí este templo e em três dias o levantarei». Resposta de Jesus àqueles que o questionam sobre a autoridade com que repreende e expulsa os vendilhões do templo.

Os ouvintes de Jesus contestam: «Foram precisos quarenta e seis anos para se construir este templo e Tu vais levantá-lo em três dias?» São duas leituras diferentes sobre realidades distintas. Os judeus falam do templo de Jerusalém. Jesus fala da Sua vida, anunciando a Sua morte e a Sua ressurreição três dias depois de ser morto. «Quando Ele ressuscitou dos mortos, os discípulos lembraram-se do que tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus».

A casa é lugar, é espaço sagrado, é altar, é sacramento, do nosso encontro com Deus e com os irmãos, seja templo de pedra ou a nossa vida, e, por conseguinte, deverá ser honrado, íntegro, sem tralha que nos impeça de voltar o coração para Deus e de abraçar os irmãos.

Mais à frente, no diálogo com a Samaritana, Jesus concluirá, com todas as letras, que o verdadeiro culto não se realiza em Jerusalém ou em Gerizim, mas em espírito e verdade, através do nosso corpo, da nossa vida por inteiro. Porém, e como se conclui da atitude de Jesus, os espaços sagrados devem ser respeitados e respeitáveis.

Três domingos e três espaços para encontrar Deus. No deserto, onde as seguranças não existem, ficámos a sós com Deus. O monte que nos invita a sair do nosso conforto e comodismo, exigindo que nos ponhamos a caminho e subamos, não para ficarmos envoltos em nuvens, mas para regressarmos e trazermos a luz ao mundo. Hoje é o Templo, espaço sagrado, para sentirmos que Deus tem lugar e hora marcada connosco, não é simples abstração espiritual.

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2 – «Não façais da casa de Meu Pai, casa de comércio». Nas entrelinhas, os discípulos percebem as palavras da Escritura Sagrada: «Devora-me o zelo pela tua casa».

Jesus é o TEMPLO que nos acolhe. A Sua vida, feita doação, tornar-se-á LUGAR de encontro e de vida nova. N'Ele seremos uma só família para Deus. Do alto da Cruz, Ele nos assumirá como irmãos,  dando-nos Maria por Mãe, para que n'Ela aprendamos a amar-nos uns aos outros. Maria cuidará de nós para que a casa do Pai não seja casa de comércio, mas casa de encontro, de partilha e de comunhão.

É preciso muito tempo para construir, edificar, para solidificar. Num edifício como nas nossas vidas, na nossa família e no grupo de amigos. Para destruir por vezes basta uma pequena aragem, uma palavra, um gesto, uma gota de inveja. Um jardim leva uma geração a ficar do agrado de quem dele cuida. Uma família está sempre em aperfeiçoamento, entre alegrias e tristezas.

O que muitos em muito tempo edificaram, poucos em pouco tempo podem destruir com a maior das facilidades. Todo o cuidado é pouco. Será muito importante não desistir. Deus não desiste de nós. Nunca desiste da humanidade. Não desistamos uns dos outros!

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Textos para a Eucaristia (ano B): Ex 20, 1-17; Sl 18 (19); 1 Cor 1, 22-25; Jo 2, 13-25.

 

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23
Nov 13
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       1 – A realeza de Jesus Cristo assenta no Amor. É uma realeza frágil, exposta, carente, dependente do acolhimento e da aceitação alheia. Não é imposta e não vive pela força. Impõe-se pelo serviço, pelo testemunho, como lâmpada que se acende para irradiar Luz.

       Hoje são vários os motivos que nos levam/trazem à Eucaristia: solenidade de Cristo Rei, Senhor do Universo, Dia da Igreja Diocesana de Lamego, Encerramento do Ano da Fé, convocado por Bento XVI e concluído pelo Papa Francisco.

       A síntese e o enquadramento do Ano da Fé pode encontrar-se na primeira carta Encíclica do novo Papa, Lumen Fidei, escrita a quatro mãos, preparada por Bento XVI e assumida, com as suas contribuições pessoais, por Francisco. Melhor síntese ainda: a passagem de testemunho de um a outro papa, sublime Evangelho da Humildade. Um, a fé, o serviço e o despojamento, pondo em evidência o que sempre foi: simples trabalhador da vinha do Senhor. Outro, com a temperatura muito latina, próximo, afável, universalizando o que era como sacerdote e cardeal, pastor da proximidade e da clareza, do encontro e da ternura. Outra síntese luminosa, anunciada neste ano, a canonização do Bom Papa João XXIII e do infatigável papa João Paulo II, a realizar em 27 de abril de 2014.

       2 – A coroação de Jesus realiza-se na Cruz, bela expressão do Amor sem fronteiras nem reservas, sem condições prévias.

       Alguns zombam de Jesus: «Salvou os outros: salve-Se a Si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito»; «Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo»; «Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti mesmo e a nós também». O próprio letreiro pregado na cruz refere a realeza de Jesus: «Este é o Rei dos judeus».

       A zombaria contrasta com a bondade de Jesus durante a vida pública. Ele prega e vive a proximidade com todos, especialmente com as pessoas mais frágeis e desconsideradas social, política e religiosamente, acerca-se delas, faz-Se caminho para pessoas portadoras de deficiência, publicanos, crianças, mulheres. Coloca no centro precisamente aqueles que foram colocados nas periferias da vida.

       A última tentação, na Cruz e na vida, é cada um procurar salvar-se a si mesmo, usando todos os meios, mesmo que à custa de outros. «Salva-te e ti e a nós também». Jesus não quer salvar a pele e muito menos à custa do sacrifício de outros. Ao invés, Jesus oferece-Se como sacrifício, como Amor partilhado, para salvar a todos. Não se livra do sofrimento, do suplício e da morte. Mas aprouve a Deus que na Sua oferenda todos fôssemos reconciliados com Ele, eternamente.

       No final, Jesus não tem nada, nem sequer a roupa do corpo. Tudo é para Deus. É todo de Deus. É todo para a humanidade.


Textos para a Eucaristia (ano C): 2 Sam 5, 1-3; Sl 121 (122); Col 1, 12-20; Lc 23, 35-43.

 

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26
Out 13
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       1 – Só a humildade nos alcança a misericórdia e a verdadeira sabedoria, que nos é dada em Jesus Cristo, a Sabedoria por excelência. A soberba e a prepotência encerram-nos em nós. Se nos consideramos como referência, ficaremos para sempre na ignorância que gera arrogância. Os outros serão um inferno (Sartre). Ratzinger (Bento XVI), na sua Introdução ao Cristianismo (1968), contrapõe: “o inferno é a solidão experimentada por aquele que não quer aceitar nada, que se recusa a ser mendigo, para se enclausurar em si mesmo”.

       A palavra de Deus aguça o nosso espírito, desperta a nossa mente e o nosso coração. Jesus é Palavra que Se faz carne, Corpo, Pessoa, entre nós, um de nós, Deus connosco. É AMOR que nos guia para o Pai, assumindo-nos como irmãos, entregando-nos a Sua vida, dando-nos a Vida eterna.

       Sendo de condição divina, não Se arroga esse direito, identifica-Se connosco. Abaixa-Se para nos elevar. Faz-Se pobreza, profundamente humano, para nos engrandecer com a Sua riqueza.

       Como discípulos, não se espera outra opção que não seja o caminho de abertura e conversão.

       2 – Diante do Senhor não nos adianta ser o que não somos. Ele conhece-nos intimamente. Não precisamos de justificações, pois só a Sua misericórdia justifica a nossa vida.

       Ao templo, acorrem dois homens. Um fariseu, um homem de bem, considerado social e politicamente. Já se sente justificado. “Eu sou bom, Senhor, sou melhor que todos os outros. Os outros são maus, bêbados, prevaricadores. Ainda bem que não sou um deles”.

       O outro, um cobrador de impostos, publicano, inimigo da gente boa, excluído do jet-set social, religioso, político. Abre o seu coração para Deus. Não precisa de fingir. Mantém-se em atitude suplicante, à distância, sabendo da sua pequenez e do seu pecado, mas aberto à confiança num Deus compassivo e bom: «Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador». O reconhecimento do nosso pecado coloca-nos na esteira da conversão.

       Jesus apresenta este último como o modelo do discípulo. Aqueles que se exaltam serão humilhados. Aqueles que se humilham serão exaltados. O fariseu não se quer misturar. Está muito à frente. Curiosamente, Jesus vem misturar-se com os pecadores, vem para ser um de nós, não à distância do Céu, mas a partir da terra dos homens, deste chão que nos irmana.

Olhemos para Maria, a cheia de graça. Não é Ela que assim se  apresenta. É Deus que A reconhece. A sua postura é a da pobreza: «O Senhor… pôs os olhos na humildade da sua serva». «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38.48).

 

       3 – Nos regimes comunistas, com a luta de classes, procurava-se substituir os patrões, colocando no seu lugar os trabalhadores. Para elevar uns, destronavam-se os outros. Teoricamente a luta de classes visava a eliminação das mesmas. Na prática foi um desastre completo. Faltava-lhe a CARNE, o Amor, Alguém que superasse todo o egoísmo humano.

       Para os cristãos não é preciso anular uns para promover outros, exige-se, porém, maior responsabilização, maior equidade, e uma repartição mais efetiva de bens materiais e culturais, procurando que todos estejam bem, vivam dignamente, como irmãos, como família.

       Na verdade, “o Senhor é um juiz que não faz aceção de pessoas. Não favorece ninguém em prejuízo do pobre… Atende a prece do oprimido”. Na verdade, “o Senhor está perto dos que têm o coração atribulado… os justos clamaram e o Senhor os ouviu…” Deus a todos atende, mas são os doentes que precisam de médico, não os sãos.

 

       4 – A lógica é a da sempre. Na oração e na vida. Na fé e em tudo o que nos liga aos outros, diante de Deus. Humildade. Abertura. Serviço. Amor. Partilha de bens e de dons. Comunhão de irmãos em Cristo. Ele estará connosco. Sempre que estivermos ao serviço dos irmãos, sempre que em Seu nome nos reunirmos e fizermos o bem.

       Também a oração de Paulo é confiante. Consciência tranquila. Reconhece-se uma referência, mas como expressão da misericórdia de Deus, que o favoreceu, chamando-o e enviando-o.


Textos para a Eucaristia: Sir 35, 15b-17.20-22a; Sl 33 (34); 2 Tim 4, 6-8.16-18; Lc 18, 9-14

 

 

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19
Out 13
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       1 – Deus não dorme. Por vezes, perante os sofrimentos pessoais e o mal no mundo, poderemos interrogar-nos como o salmista: “Levanto os olhos para os montes: de onde me virá o auxílio?” Quantas situações da vida em que nos sentimos perdidos, a naufragar! É nessas horas que a esperança em Deus se torna mais necessária.

       Rezava Santa Teresa de Jesus, com humildade e confiança: “Nada te turbe, nada te espante. Tudo passa. Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem a Deus tem nada lhe falta. Só Deus basta”.

       Quando tudo se volatiza em águas revoltas, Deus permanece fiel. “O meu auxílio vem do Senhor que fez o céu e a terra. Ele não deixará que vacilem os teus pés; aquele que te guarda, não dormirá. Pois não há de dormir nem dormitar, aquele que guarda Israel. O Senhor é quem te guarda e está a teu lado. O Senhor protege-te nas tuas idas e vindas, agora e para sempre”.

       A fé em Deus, que é Pai, há de ser a música de fundo que orienta, envolve e sustenta, a minha, a tua, a nossa vida. As grandes inquietações da vida: quem sou? Que ando cá a fazer? O que há depois da morte? Quem é Deus? Onde está Deus no sofrimento?

       Se porventura nos faltar a paciência e o discernimento, ainda assim, Deus não deixará de ouvir o nosso clamor e atender à nossa prece. Com efeito, Jesus Cristo revela-nos, em plenitude, o AMOR de Deus que permanece, agora e eternamente. Ele é o ROSTO e a presença de Deus no meio de nós, pelo Espírito Santo.

       2 – A fé é sobretudo LUZ que ilumina o nosso peregrinar. Não resolve tudo, mas aponta-nos a Meta.

       Jesus, convida-nos à oração, sem desistir nunca. Para melhor ilustrar o seu desafio, Jesus conta a parábola de uma viúva que sistematicamente vai à presença do juiz da cidade para que lhe faça justiça. O juiz não a atende por achar justo fazê-lo mas pela insistência e pelo incómodo: «Embora eu não tema a Deus nem respeite os homens, contudo, já que esta viúva me incomoda, vou fazer-lhe justiça, para que me deixe de vez e não volte a importunar-me».

       No prosseguimento da parábola, Jesus contrapõe: «Reparai no que diz este juiz iníquo. E Deus não fará justiça aos seus eleitos, que a Ele clamam dia e noite, e há de fazê-los esperar? Eu vos digo que lhes vai fazer justiça prontamente. Mas, quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra?»

       Jesus garante a resposta de Deus, mas interroga-se sobre a nossa fidelidade e constância. Saberemos alimentar a esperança em Deus e a certeza que Ele nos ama, mesmo nas dificuldades mais intensas? Manteremos viva a chama da fé?

 

       3 – A história de Israel, o Povo eleito, revela-nos a presença atuante de Deus, ainda que pelo meio sobrevenham momentos de privações e provações. A fé é como o amor, e como os amigos, nos apertos testa-se e, na perseverança, fortalece-se.

       É significativo o episódio relatado na primeira leitura. Josué comanda o exército israelita e logo Moisés, o grande líder, lhe garante o apoio pela oração: «Amanhã eu permanecerei firme no cimo da colina e terei a vara de Deus na minha mão».

        Josué confia e parte para a batalha contra Amalec. Refere o texto que “enquanto Moisés tinha as mãos levantadas, era Israel o mais forte; mas quando descansava as mãos, o mais forte era Amalec”. É a oração de Moisés que fortalece os combatentes israelitas.

       A fé tem uma dimensão pessoal, Deus desafia cada um. Mas amadurece em comunidade. Vale o mesmo para a oração. Moisés reza a Deus, mas a sua oração, e a sua fé, apoia-se em Aarão e Hur, ou seja, no povo de Deus: “Pegaram então numa pedra e puseram-na debaixo dele, e ele sentou-se sobre ela. Aarão e Hur sustentavam as mãos dele, um de um lado e outro do outro. E assim as mãos dele permaneceram firmes até ao pôr-do-sol”.

 

       4 – A alegria da fé contagia-nos e faz-nos testemunhas do amor de Deus. Não basta responder ao amor de Deus com acolhimento e com amor, é preciso comunicá-lo aos sete ventos. Em Dia Mundial das Missões, são bem ilustrativas as palavras de São Paulo a Timóteo e à comunidade crente:

       «Tu, porém, permanece firme naquilo que aprendeste… Proclama a palavra, insiste em tempo propício e fora dele, convence, repreende, exorta com toda a compreensão…»

       Oportuna e inoportunamente, cada cristão – e toda a Igreja – está comprometido com o anúncio da Palavra de Deus, deixando-se evangelizar e evangelizando, convertendo-se e propondo a conversão aos outros. “Ai de mim se não evangelizar?"


Textos para a Eucaristia (ano C): Ex 17, 8-13; Sl 120 (121); 2 Tim 3, 14 – 4, 2; Lc 18, 1-8.

 


15
Set 13
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       1 – «Ainda ele estava longe, quando o pai o viu: Enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos. O pai disse aos servos: ‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha. Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o. Comamos e festejemos, porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’».

       São Lucas presenteia-nos com uma parábola de Jesus que é uma pérola, na qual nos revela um que Deus Se faz próximo, tão próximo que reduz a Omnipotência para caber dentro da humanidade. Deus é Aquele que parte a cara, perde a vergonha, humilhando-Se diante dos filhos. Espera, respeita, acredita, liberta. Dá a vida e a herança. Não fica com nada e no entanto nada Lhe falta, nada Lhe faz falta. Só a distância e/ou a morte dos filhos O deixa de rastos.

       2 – Este Pai faz tudo ao contrário do que é expectável. O filho mais novo deseja-lhe a morte e nem assim deixa de o respeitar como filho. A herança é por morte. Pedir a herança aos pais  é desejar que nos deixem o que é seu, que morram rápido para podermos beneficiar dos seus haveres. O Pai faz a vontade ao filho, quando se espera que sejam os filhos a obedecer aos pais. Dá-lhe parte da herança. Dá-lhe do que é seu. Sem calculismos. A tristeza não vem do ficar sem os bens, vem da desfeita do filho, do querer sair de casa, abandonando a casa paterna, em troca de uma vida desconhecida, de uma casa alheia. O filho pode perder-se para sempre. Pode não saber o caminho de regresso e morrer antes de voltar.

       O Pai confia. Dá-lhe os bens. Deixa-o partir. Fica de coração despedaçado. Morre uma parte importante dentro de si, e que não pode ser substituída. Ama-o totalmente. Um filho não substitui o outro. Os pais sabem isso. Deus é Pai e é Mãe, como referia o papa João Paulo I. Os seus olhos estão pregados no horizonte. Todos os dias. Em todos os momentos. O coração fica bem apertadinho. Em espera constante e confiante. Do horizonte um dia o filho há de voltar. É o coração que lho diz. Amou-o tanto, tanto o ama, que um dia o filho vai lembrar-se desse amor, desse olhar, daquele abraço e terá saudades de casa e sobretudo do amor do Pai/Mãe.

       Quando o filho mais novo regressa, o Pai renasce. Recupera os anos perdidos em aflição. Com o filho nos braços, tudo o mais se torna relativo. O melhor vitelo para a festa. Devolve-lhe a dignidade de filho, colocando-lhe o anel no dedo, e vestindo-o com as roupas de príncipe. Não olha a gastos, porque tudo vale a recuperação do filho.

       3 – É tão grande o amor do Pai, que até custa compreender e aceitar. Não bastava acolhê-lo de volta em casa, e perdoá-lo, e, ainda por cima, uma festa grandiosa para o filho regressado?! Não pode ser! Nós a trabalhar, a poupar, a tentar amealhar mais algumas poupanças, e vem este teu filho e gastas uma fortuna com uma festa? Como é possível! E se um dia destes ele voltar a sair de casa?

       Seja, mas ele é meu filho, como tu és meu filho. Amo cada um com todo o meu coração. O meu amor por vós não se divide. Amo-vos por inteiro. Nenhum de vós substitui o outro. Amo-te do mesmo jeito de sempre, da única forma que sei amar, totalmente. Este teu irmão estava morto e voltou à vida. Estava perdido, e agora está connosco. Vem alegrar-te com o regresso do teu irmão. Partilha da minha alegria. A minha alegria também é tua. Tudo o que é meu é teu.

       O contexto desta e das parábolas anteriores é a resposta à crítica, mais ou menos clara, feita a Jesus por Ele comer com publicanos e pecadores, não fazendo distinção de pessoas. Vem sobretudo para os que precisam de cura e salvação.

       O reino de Deus está de portas abertas. As portas por onde sair, estão sempre abertas para regressar. Há que ir ao encontro da ovelha perdida. Como tem vindo a acentuar o papa Francisco, a Igreja, voltada para si mesma, corre o sério risco de se tranquilizar com a ovelha que está dentro, quando no exterior já estão as 99 ovelhas. Outra parábola, outra pérola. Dona de casa que perde uma das 10 dracmas. Procura-a. Encontra-a. Faz uma festa com amigas. Gasta mais do que o que recuperou. Assim é Deus, gasta tudo para nos encontrar. Envia o Seu próprio Filho. Sempre que alguém se converte, Deus faz uma festa enorme, coloca todos os anjos e santos a cantar e a dançar.


Textos para a Eucaristia (ano C): Ex 32,7-11.13-14; 1 Tim 1,12-17; Lc 15,1-32.


17
Mar 13
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       1 – A Lei de Moisés tinha previsto que uma mulher apanhada em flagrante adultério fosse morta por apedrejamento. Ouvimos Jesus a dizer que não vem para anular a Lei mosaica. Ele garante a plenitude da Lei. Como? É o que vemos neste episódio, e em muitas outras situações. A Lei suprema é a CARIDADE, preenchida pelo perdão e pelo bem.

       2 – Mais uma cilada a Jesus. Que fará, cumprirá a lei de Moisés ajudando a condenar/matar aquela mulher? E então o perdão e misericórdia que Ele defende?

       Diante d'Ele os acusadores e uma mulher pecadora. Por vezes os gestos são mais eloquentes que muitas explicações. Os acusadores evocam a Lei de Moisés, por que lhes convém. Jesus baixa-se e escreve no chão. Insistem com Ele, interrogam-no. Jesus provoca: “Quem de entre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra”, baixa-se e continua a escrever no chão, a aguardar, provocando uma resposta nova, criativa, original nos seus ouvintes. Frente a Ele fica apenas aquela pobre mulher que já tinha o destino traçado.

       Também aqui é significativa a interação que Jesus desencadeia: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?». Ela respondeu: «Ninguém, Senhor». Disse então Jesus: «Nem Eu te condeno. Vai e não tornes a pecar».

       Ao perdoar, e compreender, Jesus não sanciona ou aplaude o pecado daquela mulher, nem lhe diz que fez bem, nem a desculpa com os pecados dos outros. Não lhe diz para esquecer e ir à sua vida. Não. Envia-a para uma vida nova, diferente, de compreendida para convertida. VAI. Não VOLTES a pecar. Tens uma oportunidade para refletir, para começar uma vida nova. Não desperdices a tua vida com situações de pecado que te podem levar à morte. Vive positivamente. Encontrar-se com Jesus implica um caminho novo e não regressar à vida anterior. Foi assim com os Magos, é assim com esta mulher. VAI. NÃO VOLTES ao lugar do passado.

       3 – Desde logo a incoerência e a descriminação da lei. A mulher apanhada em adultério era condenada à morte – infelizmente ainda acontece em alguns países, marcados por fundamentalismos radicais –, e o homem que estava com ela nas mesmas circunstâncias? Por justiça, não teriam que ser os dois levados às autoridades e partilhado o mesmo destino? Em que é que se diferencia o pecado cometido por uma mulher ou por um homem? É uma descriminação que perdurou, mesmo em ambientes cristãos.

 

       4 – O novo Papa, na primeira Eucaristia, na Capela Sistina, propôs-nos três verbos essenciais para os cristãos assumirem e viverem: “CAMINHAR, EDIFICAR, PROFESSAR Jesus Cristo crucificado, caminhar sempre, na presença do Senhor, à luz do Senhor, procurando viver com irrepreensibilidade”, só com esta disponibilidade seremos verdadeiros discípulos do Senhor Jesus.

       Deste modo, a postura do cristão não poderá ser diversa da de Jesus Cristo. Neste ambiente se situam as palavras do apóstolo São Paulo: “Considero todas as coisas como prejuízo, comparando-as com o bem supremo, que é conhecer Jesus Cristo, meu Senhor. Por Ele renunciei a todas as para ganhar a Cristo e n’Ele me encontrar… Continuo a correr… Só penso numa coisa: esquecendo o que fica para trás, lançar-me para a frente, continuar a correr para a meta, em vista do prémio a que Deus, lá do alto, me chama em Cristo Jesus”.

       Em nenhuma circunstância o discípulo de Jesus está dispensado de prosseguir o seu caminho, transparecendo Cristo e Cristo crucificado. Diz o Papa Francisco: “Esta vida é um caminho e quando paramos as coisas não correm bem... Quando professamos um Cristo sem cruz não somos discípulos do Senhor”.


Textos para a Eucaristia (ano C): Is 43, 16-21; Filip 3, 8-14; Jo 8, 1-11.

 

Reflexão Dominical COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

e no nosso blogue CARITAS IN VERITATE


03
Mar 13
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       1 – Jesus conta mais uma parábola:

«Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi procurar os frutos que nela houvesse, mas não os encontrou. Disse então ao vinhateiro: ‘Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira e não os encontrou. Deves cortá-la. Porque há-de estar ela a ocupar inutilmente a terra?’. Mas o vinhateiro respondeu-lhe: ‘Senhor, deixa-a ficar ainda este ano, que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo. Talvez venha a dar frutos. Se não der, mandá-la-ás cortar no próximo ano».

       A paciência de Deus constrói, espera por nós, aguarda a nossa conversão, respeita a nossa liberdade, as nossas escolhas, mas não nos abandona, mesmo em situações em que nós O arredamos da nossa vida, em situações em que, tal como a figueira, não damos fruto. No entanto, Deus continua a cuidar de nós, a tratar-nos como filhos. Mais dia, menos dia, poderemos dar fruto.

       2 – Com Jesus Cristo chega até nós um tempo novo, perfumado com a alegria e a graça de um Deus próximo, amigo, companheiro, entranhado no sofrimento e no labor humanos, e que se situa dentro da humanidade, da história, na assunção da finitude e fragilidade que nos caracteriza. Ele é o novo Moisés, inscrevendo definitivamente a Lei no coração.

       Vejamos a Aliança feita com Moisés:

“Deus chamou-o do meio da sarça: «Moisés, Moisés!». Ele respondeu: «Aqui estou!» Continuou o Senhor: «Não te aproximes. Tira as sandálias dos pés, porque o lugar que pisas é terra sagrada… Eu vi a situação miserável do meu povo no Egipto; escutei o seu clamor… Conheço, pois, as suas angústias… Assim falarás aos filhos de Israel: ‘O Senhor, Deus de vossos pais, Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob, enviou-me a vós’».

       Moisés sobe à montanha [veja-se o evangelho do domingo passado: Jesus sobe à montanha, levando alguns discípulos]. Deus fá-lo olhar noutra direção. Aquele é chão sagrado. Todo o chão que nos leva a Deus é sagrado. Todo o chão que nos leva aos irmãos parte do chão sagrado que nos levou a Deus.

       Revisitemos novamente as palavras de Bento XVI, Papa emérito, na Sua Mensagem para esta Quaresma: “A existência cristã consiste num contínuo subir ao monte do encontro com Deus e depois voltar a descer, trazendo o amor e a força que daí derivam, para servir os nossos irmãos e irmãs com o próprio amor de Deus”. Moisés aproxima-se de Deus, para ser por Ele enviado a libertar o povo escravizado no Egipto.

 

       3 – Precisamos de nos descalçar para sentimos a terra firme e que nada nos separa de Deus. Sem calçado, os pés transmitem a todo o corpo a textura da terra. Descalços somos mais iguais uns dos outros, em contacto com o mesmo húmus, com a mesma origem.

       Se os nossos pés tiverem a poeira da terra, não nos esqueceremos tão facilmente da nossa humana, frágil e fraterna condição. Com os pés assentes em terra firme não corremos o risco de flutuar, sem rumo nem norte. Para que o nosso olhar permaneça fixo na eternidade de Deus, é urgente firmar o nosso caminhar na terra que nos permite ver, encontrar e acolher os outros como irmãos.

       É o chão que nos une e nos conduz à Terra Prometida, para os judeus um território, para nós, Jesus, o Filho de Deus.

       O apóstolo São Paulo faz-nos percorrer o caminho da Aliança de Deus com o Povo Eleito: “Não quero que ignoreis que os nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, passaram todos através do mar e na nuvem e no mar, receberam todos o batismo de Moisés. Todos comeram o mesmo alimento espiritual e todos beberam a mesma bebida espiritual. Bebiam de um rochedo espiritual que os acompanhava: esse rochedo era Cristo... Portanto, quem julga estar de pé tome cuidado para não cair”.

       Em Dia Nacional da Cáritas, sobressai o desafio: o compromisso na fé para uma cidadania ativa, quebrando as cadeias injustas, eliminando as barreiras do preconceito e do egoísmo, respondendo ao amor de Deus com o amor aos irmãos e irmãos que Ele nos dá.


Textos para a Eucaristia (ano C): Ex 3, 1-8a.13-15; 1 Cor 10, 1-6.10-12; Lc 13, 1-9.

 

Reflexão Dominical COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

e no nosso blogue CARITAS IN VERITATE.


17
Fev 13
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       1 – O primeiro domingo da QUARESMA apresenta-nos a tentação, a provação e a maturidade da fé que, alimentada pela oração e pela palavra de Deus, supera os limites da nossa fragilidade humana.

       O Espírito presente à hora do Batismo, guia-O ao deserto e do deserto para a cidade dos homens. “Jesus, cheio do Espírito Santo, retirou-Se das margens do Jordão. Durante quarenta dias, esteve no deserto, conduzido pelo Espírito, e foi tentado pelo Diabo”. A vida de Jesus assenta no cumprimento da vontade de Deus. Nas situações mais delicadas afasta-Se para que a intensidade do AMOR do Pai firme as Suas escolhas e torne luminosa a Sua missão.

       No deserto, onde o clima é desfavorável, onde se manifesta em demasia o calor e o frio e sobretudo a solidão, Jesus não está só. Nós não estamos sós nos desertos da nossa vida que nos fragilizam. O Espírito de Deus está com Ele. E está connosco.

       2 – As tentações de Jesus resumem e assumem as nossas tentações do egoísmo, do poder, do milagre em benefício próprio.

       Tendo assumido a nossa fragilidade e finitude, Jesus experimenta momentos de desencanto, de solidão, de deserto, de cansaço. Nem tudo corre como esperado. Vejamos o texto de São Lucas:

“Nesses dias não comeu nada e, passado esse tempo, sentiu fome. O Diabo disse-lhe: «Se és Filho de Deus, manda a esta pedra que se transforme em pão». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem’». O Diabo levou-O a um lugar alto e mostrou-Lhe num instante todos os reinos da terra e disse-Lhe: «Eu Te darei todo este poder e a glória destes reinos, porque me foram confiados e os dou a quem eu quiser. Se Te prostrares diante de mim, tudo será teu». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Ao Senhor teu Deus adorarás, só a Ele prestarás culto’». Então o Diabo levou-O a Jerusalém, colocou-O sobre o pináculo do templo e disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, atira-Te daqui abaixo, porque está escrito: ‘Ele dará ordens aos seus Anjos a teu respeito, para que Te guardem’; e ainda: ‘Na palma das mãos te levarão, para que não tropeces em alguma pedra’». Jesus respondeu-lhe: «Está mandado: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’».

       Jesus responde com a Palavra de Deus. A opção de Jesus leva-O a usar o Seu poder como serviço aos outros. Por ora não transforma as pedras em pão, mas há de transformar a água em vinho. Por ora não se atira do alto do Templo, mas logo será o Templo de Deus para nós, n'Ele encontrar-nos-emos com Deus. Por ora não se curvará diante do poder, mas logo usará o poder do AMOR para nos redimir, dando-nos todo o Reino de Deus, de uma vez para sempre.

 

       3 – Na conjugação da fé e do amor, sublinhado da Mensagem para esta Quaresma, Bento XVI prioriza a Palavra de Deus como instrumento de caridade. “A fé é conhecer a verdade e aderir a ela (cf. 1 Tm 2, 4); a caridade é «caminhar» na verdade (cf. Ef 4, 15). Pela fé, entra-se na amizade com o Senhor; pela caridade, vive-se e cultiva-se esta amizade (cf. Jo 15, 14-15). A fé faz-nos acolher o mandamento do nosso Mestre e Senhor; a caridade dá-nos a felicidade de pô-lo em prática (cf. Jo 13, 13-17). Na fé, somos gerados como filhos de Deus (cf. Jo 1, 12-13); a caridade faz-nos perseverar na filiação divina de modo concreto, produzindo o fruto do Espírito Santo (cf. Gl 5, 22). A fé faz-nos reconhecer os dons que o Deus bom e generoso nos confia; a caridade fá-los frutificar (cf. Mt 25, 14-30)”.

       Viver a fé sem a caridade e sem o compromisso com os irmãos, seria como uma árvore de frutos sem frutos. A Palavra de Deus, acolhida, partilhada e testemunhada, é a primeira e principal obra de caridade: “Não há ação mais benéfica e, por conseguinte, caritativa com o próximo do que repartir-lhe o pão da Palavra de Deus, fazê-lo participante da Boa Nova do Evangelho, introduzi-lo no relacionamento com Deus: a evangelização é a promoção mais alta e integral da pessoa humana”.


Textos para a Eucaristia (ano C): Deut 26, 4-10; Rom 10, 8-13; Lc 4, 1-13.

 


13
Jan 13
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       1 –  A liturgia batismal, na bênção da água, apresenta referências bíblicas nas quais a água está em clara evidência. No relato da criação, melhor, nos dois relatos da criação: Deus faz separar as águas da terra para que haja vida; Deus faz chover para que a vida germine da terra. O episódio sobejamente conhecido do Dilúvio, com Noé e a construção da Barca, sendo a água um elemento destruidor – a humanidade do pecado é submersa – e a mesma água suporta e salva a Arca com Noé e a sua família. A travessia do mar vermelho marca a condenação dos soldados egípcios que a água aniquila, que simbolicamente representam o mal agora levado pela água. A mesma travessia protege o povo eleito, que passa pela água para terra firme, com Moisés. Os filhos de Israel são salvos pela água. Um dos significados possíveis do nome MOISÉS é precisamente “salvo das águas”.

       O episódio que hoje celebrámos – o batismo de Jesus no rio Jordão – é também evocado na bênção da água. João batiza o autor do batismo. É um batismo de penitência, de preparação, pois logo virá Aquele que batizará no fogo e no Espírito Santo.

       A própria palavra – baptizar –, de origem latina, significa mergulhar. O neófito entrava por três vezes na água, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, para que água levasse o homem velho, e dela surgisse o homem novo, nova criatura para Deus.

       2 – Quando lhe perguntam por que batiza se não é o Messias, João sublinha que o seu batismo é sobretudo chamada de atenção, apelo à conversão, à penitência, à mudança de vida. Só um coração atento, humilde, desperto para os outros, poderá reconhecer e acolher Aquele que vem de Deus, o mistério, o divino. Prepara a terra para que a semente lançada encontre o ambiente propício…

       Pressente-se um tempo novo que ora chega com Jesus:

«Eu batizo-vos com água, mas vai chegar quem é mais forte do que eu, do qual não sou digno de desatar as correias das sandálias. Ele batizar-vos-á com o Espírito Santo e com o fogo». Quando todo o povo recebeu o batismo, Jesus também foi batizado; e, enquanto orava, o céu abriu-se e o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corporal, como uma pomba. E do céu fez-se ouvir uma voz: «Tu és o meu Filho muito amado: em Ti pus toda a minha complacência».

       Com o batismo de Jesus cumpre-se, simbolicamente, toda a justiça. Sendo filho de Deus, não precisava de ser batizado. No batismo, Jesus garante que em tudo cumpre com a ENCARNAÇÃO, seguindo também os usos e tradições do povo que O vê nascer. Está entranhado na história e no tempo, e não por cima ou à margem.

 

       3 – A vida pública de Jesus arranca a partir do batismo. Como cristãos a nossa vida inicia-se com o batismo, Sacramento de pertença a Jesus Cristo, identificação com a Sua morte e ressurreição, inserção no Corpo de Cristo que é a Igreja. Morremos para o pecado, ressurgimos para a vida nova. Somos, pelo Espírito Santo, novas criaturas.

       O batismo celebra-se todos os dias da nossa vida. O batismo não é um dia de festa, é toda a vida. Dizer SIM com os lábios, de uma vez para sempre, e depois agir como NÃO ao longo da vida quase sempre dá mau resultado.

       Exemplos: quando os noivos dizem SIM de uma vez para sempre e se sentam à sombra da bananeira, como se tudo estivesse garantido a partir desse primeiro momento, vão sair magoados, infelizes e lesados… O SIM não é passivo nem passado, é proactivo, presente, significa cuidar, ouvir, amar, sofrer com o outro, usar de palavras atenciosas, e ter gestos de gratidão e de alegria pela presença do outro, renovando o desejo e o sentimento.

       Os pais para com os filhos. Não basta fazê-los, é preciso cuidar, educar, acompanhar, repreender, elogiar, apontar limites e possibilidades, marcar fronteiras, para que o filho saiba que os pais estão atentos ao que faz, ou deixa de fazer, por que o amam e lhe querem bem, mesmo que tenham os seus defeitos e pecados e por vezes sejam injustos... mas estão presentes, renovando o SIM primeiro todos os dias.

       O SIM que Deus nos dá há de levar-nos a um SIM permanente. Todos os dias somos batizados, renovados, todos os dias ressuscitamos com Jesus Cristo.


Textos para a Eucaristia (ano C): Is 42, 1-4.6-7; Atos 10, 34-38; Lc 3, 15-16.21-22.

 

 


01
Jan 13
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       1 – “Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher e sujeito à Lei, para resgatar os que estavam sujeitos à Lei e nos tornar seus filhos adotivos. Assim, já não és escravo, mas filho. E, se és filho, também és herdeiro, por graça de Deus”.

       Com a vinda de Jesus, chegou até nós o próprio Deus, em Pessoa, a eternidade no tempo, o Infinito no finito. Em Jesus tornamo-nos filhos e herdeiros da eternidade, da graça divina.

       Oito dias de celebração do Natal como se fora um só DIA para acentuarmos a importância deste nascimento, a plenitude dos tempos, desta PRESENÇA entre nós, para percebemos melhor a grandeza do mistério, que nos envolve.

       A liturgia propõe-nos, no primeiro dia do NOVO ANO, a solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, coincidindo, desde 1968, por iniciativa do Papa Paulo VI, com o Dia Mundial da Paz.

       O quadro é o mesmo. A proximidade de Maria no presépio conduz-nos Àquele que nos traz a verdadeira Paz.

       2 – “Os pastores dirigiram-se apressadamente para Belém e encontraram Maria, José e o Menino deitado na manjedoura. Quando O viram, começaram a contar o que lhes tinham anunciado sobre aquele Menino. Maria conservava todos estes acontecimentos, meditando-os em seu coração”,

       A descoberta de Deus naquele Menino não é uma conquista do poder, da inteligência ou de capacidades extraordinárias, como bem se vê na narração evangélica, é uma graça de Deus, concedida segundo a Sua liberalidade, aos pobres, a todos aqueles e aquelas que têm uma coração disponível para se deixar surpreender.

       Só um coração vazio de si mesmo, pode abrir-se ao mistério, aos outros, a Deus, e acolher Aquele que vem do alto, perceber  como o mistério de Deus pode preencher de Luz os seus corações.

 

       3 – Os pastores estão cheios de vida, de esperança. Estão vazios das preocupações palacianas e das disputas do poder. Vivem em função das mulheres e dos filhos, enfrentam as dificuldades para sustentar a família. Dependem uns dos outros e das condições do tempo e da terra. Não são magos, mas vivem de mãos dadas com os céus e com a terra, com o tempo.

       Pastores diante do Pastor, por excelência. Eles juntam os seus rebanhos; o Deus Menino apascentará a humanidade inteira como um só rebanho. Saliente-se de novo a estreita ligação ao projeto da paz, ajuntar, família, rebanho, para que todos se sintam e sejam filhos, e irmãos, e herdeiros da graça de Deus.

 

       4 – Na Sua mensagem para o Dia Mundial da Paz, Bento XVI coloca como pano de fundo a bem-aventurança – bem-aventurados os obreiros da paz – mostrando como a família é crucial na promoção da paz, na grande medida de ser promotora da vida e da felicidade.

       A família é espaço de diálogo, de compreensão. As mães, na maioria da vezes, com a sua sensibilidade e delicadeza, têm um rosto conciliador, são obreiras da paz, entre os filhos, destes com os pais, e com a sociedade.

       Como aos pastores, também a nós Ela nos mostra Jesus, que vem de Deus. Diz-nos o Papa, “a realização da paz depende sobretudo do reconhecimento de que somos, em Deus, uma úni­ca família humana”. Com efeito, “através da encarnação do Filho e da redenção por Ele operada, o próprio Deus entrou na história e fez surgir uma nova criação e uma nova aliança entre Deus e o homem”, colocando-nos diante da possibilidade de termos um novo coração, transformado pelo amor.

       Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade. A paz é dom de Deus, mas também obra e responsabilidade do homem. Na verdade, continua Bento XVI, “a paz pressupõe um humanismo aberto à transcendência; é fruto do dom recíproco, de um mútuo enriquecimento, graças ao dom que provém de Deus e nos permite viver com os outros e para os outros. A ética da paz é uma ética de comunhão e partilha”.

 

       5 – Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós. Rainha da Paz, dai-nos a paz.


Textos para a Eucaristia (ano C): Num 6, 22-27 ; Sl 66 (67); Gal 4, 4-7; Lc 2, 16-21. 

 

Reflexão dominical na página da Paróquia de Tabuaço


04
Nov 12
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       1 – Jesus é um extraordinário ACONTECIMENTO na vida do mundo, um DOM na história da humanidade. Cada gesto, palavra, olhar, sorriso, cada encontro, são expressão sublime do AMOR que Jesus nos vem trazer. Ele não anuncia um código de valores ou de obrigações, delimitando os direitos e os deveres e a linha divisória entre o bem e o mal, o aceitável e o condenável. A Sua vida é sobretudo presença, vida nova, proximidade, e não tanto discurso, texto.

       A aproximação ao CAMINHO de Jesus faz-se aceitando o colorido de experiências de cada um. Ninguém, em definitivo, poderá considerar-se como ser acabado, perfeito, impecável.

       Jesus não se detém a discutir os pormenores da Lei, ou os preceitos que autorizam e sancionam os que são dignos e puros perante a religião. Detém-se diante de pessoas, de carne e osso. Cada pessoa vale. Vale muito. Vale tudo. Ele deixa tudo por cada pessoa excluída.

        2 – Quando um doutor da Lei se aproxima de Jesus e Lhe pergunta sobre o maior dos mandamentos, a resposta, que ambos conhecem, está explícita na Sagrada Escritura: «O primeiro é este: ‘Escuta, Israel: O Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças’. O segundo é este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Não há nenhum mandamento maior que estes».

       Sabemos a formulação e o resumo dos mandamentos: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Os seguidores de Jesus Cristo não precisam de mais leis. Têm o que é preciso: colocar Deus antes e acima de tudo e de todos.

       Como nos mostra o evangelista Marcos, nestes últimos domingos, o serviço ao outro, o amor sem limites, a inclusão dos excluídos, é a melhor forma, a única, de amar a Deus. Quem quiser seguir Jesus faça como Ele: ame. Viva para amar e para servir.

       O escriba sanciona com alegria as palavras de Jesus: «Deus é único e não há outro além d’Ele. Amá-l’O com todo o coração, com toda a inteligência e com todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, vale mais do que todos os holocaustos e sacrifícios».

       Jesus não fala do alto de uma tribuna, expondo, mas percorre a vida das pessoas, encontra-Se com estrangeiros, mulheres e publicanos, doentes, crianças e pecadores públicos. Não desvia o olhar de ninguém. A multidão que O acompanha não abafa a voz de um.

 

       3 – As leis, ontem como hoje, têm de servir as pessoas, a sua dignidade, a inclusão, a justiça, a verdade. Para as pessoas do povo, as leis têm de ser claras, diretas, sem subterfúgios. Para os entendidos, a complexidade das leis serve para iludir os demais…

       Jesus não é um fazedor de leis, mas curador de corações. Não dita ensinamentos, mas comunica a experiência de proximidade a Deus, ensina com a vida, a amar, a perdoar, a acolher, a dar, a reconhecer nos outros a presença de Deus.

       Amo a Deus, amando os que Ele me dá para amar.

 

       4 – A Epístola aos Hebreus, mostra-nos a originalidade do sacerdócio de Jesus Cristo, como paradigma e como desafio ao nosso compromisso sacerdotal. Em Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, o Céu desce à terra e da terra Jesus eleva o homem até à eternidade. Jesus é mediador da Graça de Deus. Santifica-nos.

       N'Ele o AMOR de Deus é-nos revelado em plenitude. Jesus é o ROSTO e a PRESENÇA de Deus no mundo.

“Tal era, na verdade, o sumo-sacerdote que nos convinha: santo, inocente, sem mancha, separado dos pecadores e elevado acima dos céus,… que Se ofereceu a Si mesmo, de uma vez para sempre”.


Textos para a Eucaristia (ano B): Deut 6, 2-6; Hebr 7, 23-28; Mc 12, 28b-34.

 

Reflexão Dominical na página da Paróquia de Tabuaço


30
Set 12
publicado por mpgpadre, às 09:00link do post | comentar |  O que é?

       1 – Todos, por certo, em alguma ocasião, ouvimos alguém a falar com satisfação do mal alheio, do que aconteceu a este ou aquele. Por um lado, é verdade, com o mal dos outros podemos nós bem. Por outro, mais cedo ou mais tarde, o que de mal acontece aos outros também nos pode bater à porta, ou de algum modo nos afetar, como na atual e persistente crise económico-financeira. Todo o cuidado é pouco. Arremessamos pedras e não nos damos conta que o nosso telhado também é frágil e talvez de vidro simples.

       Dizer mal só por dizer, ou para distrair, pode ser muito mais do que isso, pode ser revelador de inveja, de ciúme, ou ser uma forma de esconder os nossos medos e também as nossas insuficiências. Com efeito, se desviarmos a atenção para terceiros, ficamos nós com as costas em repouso. Há quem refira mesmo que o que criticamos nos outros é aquilo que não gostamos em nós. Também aqui vale a máxima, nos outros nos revemos a nós .

       A sabedoria e a humildade ensinar-nos-ão que os outros têm muitas qualidades que não nos fazem afronta, e que a “sorte” que os invade em nada nos prejudica ou diminui. O bem que vemos espelhado nos outros, pode ser um sinal de esperança para nós, ou o desafio para ultrapassarmos o que agora nos paralisa, ou, ao menos, a certeza que nem tudo vai mal neste reino.

       2 – No evangelho hoje proposto, deparamo-nos com a facilidade com que os apóstolos, com João à cabeça, ficam empertigados e enciumados porque viram alguém, que não andava com eles, a realizar coisas grandiosas: «Mestre, nós vimos um homem a expulsar os demónios em teu nome e procurámos impedir-lho, porque ele não anda connosco».

       Bem diferente é a visão de Jesus: «Não o proibais; porque ninguém pode fazer um milagre em meu nome e depois dizer mal de Mim. Quem não é contra nós é por nós. Quem vos der a beber um copo de água, por serdes de Cristo, em verdade vos digo que não perderá a sua recompensa».

       Na primeira leitura encontramo-nos com uma situação em tudo semelhante. Deus fala a Moisés e faz repousar sobre setenta anciãos parte do seu Espírito. Pelo meio, dois outros anciãos, também inscritos mas que não tinham comparecido na tenda, são beneficiados com o mesmo Espírito. Logo “um jovem correu a dizê-lo a Moisés: «Eldad e Medad estão a profetizar no acampamento». Então Josué, filho de Nun, que estava ao serviço de Moisés desde a juventude, tomou a palavra e disse: «Moisés, meu senhor, proíbe-os»”.

       Bem diferente é a posição de Moisés: «Estás com ciúmes por causa de mim? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor infundisse o seu Espírito sobre eles!».

 

       3 – Essencial não é saber quem faz melhor, mas que todos façamos o bem, o melhor de nós, o que estiver ao nosso alcance. Não adiemos. Não fiquemos empertigados pelos dons que os outros possuem, ou pela beleza, pela alegria, pela riqueza de outros, pelo sucesso ou admiração que suscitam. O dia de amanhã constrói-se hoje.

       As palavras do apóstolo São Tiago, uma vez mais, são clarividentes e levadas a sério por muito boa gente poderão ajudar a ultrapassar a(s) crise(s). Sem paninhos quentes:

“As vossas riquezas estão apodrecidas e as vossas vestes estão comidas pela traça. O vosso ouro e a vossa prata enferrujaram-se, e a sua ferrugem vai dar testemunho contra vós e devorar a vossa carne como fogo. Acumulastes tesouros no fim dos tempos. Privastes do salário os trabalhadores que ceifaram as vossas terras. O seu salário clama; e os brados dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor do Universo. Levastes na terra uma vida regalada e libertina, cevastes os vossos corações para o dia da matança. Condenastes e matastes o justo e ele não vos resiste”.

      O clamor que se levantava ontem é o mesmo de hoje.


Textos para a Eucaristia (ano B): Num 11, 25-29; Tg 5, 1-6; Mc 9, 38-43.45.47-48.

 

Reflexão Dominical COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

e no nosso blogue CARITAS IN VERITATE.


02
Set 12
publicado por mpgpadre, às 09:00link do post | comentar |  O que é?

        1 – “Os olhos também comem”, mas só quando provarmos verificaremos se a apresentação corresponde ao sabor ou se, pelo contrário, “as aparências iludem”. O ideal é que o conteúdo corresponda ao aspeto. Se não corresponder, que preferíamos, que a apresentação da comida fosse boa e o sabor intragável, ou que o sabor fosse agradável apesar do aspeto menos conseguido?

       Fixemo-nos no Evangelho, de novo com São Marcos, no momento em que Jesus responde a alguns fariseus e escribas:

«Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito: ‘Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim’. Vós deixais de lado o mandamento de Deus, para vos prenderdes à tradição dos homens... Não há nada fora do homem que ao entrar nele o possa tornar impuro. O que sai do homem é que o torna impuro; porque do interior dos homens é que saem os maus pensamentos».

       Uma leitura atenta permite-nos ver com clareza a prioridade de Jesus. As tradições, os usos e costumes, só são verdadeiramente relevantes se promovem as pessoas, se as implicam interiormente e as colocam ao serviço dos outros. O que nos salva ou condena é o que nasce e cresce no nosso interior, o que nos leva a agir no bem ou no mal. As circunstâncias que nos rodeiam podem favorecer ou prejudicar as nossas opções, mas somos sempre nós a responder pelas nossas atitudes e pelos nossos atos.

 

       2 – Jesus envolve-nos no Seu projeto salvador, sem impor nem pressionar. Deus chama-nos, conta connosco, mas respeita a nossa liberdade e consequentemente as nossas escolhas, mesmo quando nos desviamos dos Seus mandamentos.

       Não cessa, porém, de nos apontar o CAMINHO, pelos profetas, pelos acontecimentos de cada tempo, pelas pessoas que coloca à nossa beira, por Jesus, o CAMINHO, a verdade e a vida. Podemos recusar, podemos distrair-nos, podemos seguir outros atalhos, podemos titubear. Ele mantem-Se e o Seu projeto de vida também.

       Na primeira leitura, Moisés faz a proposta de Deus ao povo:

«Agora escuta, Israel, as leis e os preceitos que vos dou a conhecer e ponde-os em prática, para que vivais e entreis na posse da terra que vos dá o Senhor, Deus de vossos pais. Qual é, na verdade, a grande nação que tem a divindade tão perto de si como está perto de nós o Senhor, nosso Deus, sempre que O invocamos?»

       Ainda hoje os Mandamentos são uma referência fundamental.

 

       3 – Com o tempo a Lei traduz-se em práticas, costumes e tradições, algumas das quais se tornam obsoletas. Jesus vem para nos libertar de toda a escravização, de tradições que valham mais que as pessoas e que as submetem abusivamente a superstições, ameaças, diabolizações. O medo e a ameaça e as práticas mágicas, retiram às pessoas a capacidade de pensar e decidir por si mesmas.

       A Lei de Moisés é levada à plenitude por Jesus Cristo, pela LEI da CARIDADE, pela Graça de Deus que nos habita e que nos atrai para Ele. Daí a insistência de Jesus na conversão interior, que leve ao compromisso com os outros. A lei ajuda-me a clarificar o meu lugar no mundo e a minha relação com os outros. Cada um de nós, contudo, vale mais. A lei é para nós. É para nos aproximar. A mais perfeita das leis é o AMOR, lei inscrita desde sempre no nosso coração.

       Hoje, na segunda leitura, o apóstolo São Tiago mostra-nos como é possível viver na lógica do Deus de Jesus Cristo: “A religião pura e sem mancha, aos olhos de Deus, nosso Pai, consiste em visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e conservar-se limpo do contágio do mundo”. O amor a Deus vive-se e visualiza-se no amor ao próximo. Quanto mais nos envolvemos com os outros, para neles encontrarmos Deus, mais a nossa fé será uma verdadeira bênção.


Textos para a Eucaristia (ano B):

Dt 4,1-2.6-8; Tg 1,17-18.21-22.27; Mc 7,1-8.14-15.21-23.

 

Reflexão dominical COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

e no blogue CARITAS in VERITATE


05
Ago 12
publicado por mpgpadre, às 09:00link do post | comentar |  O que é?

       1 – Jesus respondeu-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: Não foi Moisés que vos deu o pão do Céu; meu Pai é que vos dá o verdadeiro pão do Céu. O pão de Deus é o que desce do Céu para dar a vida ao mundo». Disseram-Lhe eles: «Senhor, dá-nos sempre desse pão». Jesus respondeu-lhes: «Eu sou o pão da vida: quem vem a Mim nunca mais terá fome, quem acredita em Mim nunca mais terá sede».

       Nos domingos anteriores vimos a sensibilidade de Jesus, plena de humanidade, enxertada no quotidiano e na vida de pessoas de carne e osso. Ele é o Bom Pastor que cuida da humanidade inteira, muitas vezes como ovelhas sem pastor. É o Pão da Vida, o Pão de Deus, que não se desgasta, como todo o alimento, mas se multiplica no acolhimento e na partilha. Não é pão ao lado de outros pães, resposta utilitarista como muitas religiões o fazem, como a religião do consumo e do capitalismo selvagem, em que tudo se vende e se compra e se facilita e se digere cada vez mais com pressa, criando dependentes, pessoas angustiadas, ansiosas pela novidade de momento, em caminhos de posse e egoísmo e destruição.

       Os que acorrem a Jesus levam motivações diversas, alguns buscam verdade e outros vida, alguns buscam dividendos e outros colam-se ao sucesso e à fama que daí poderá advir, alguns buscam um caminho fácil, e soluções servidas numa bandeja.

Ao encontrá-l’O no outro lado do mar, disseram-Lhe: «Mestre, quando chegaste aqui?». Jesus respondeu-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: vós procurais-Me, não porque vistes milagres, mas porque comestes dos pães e ficastes saciados. Trabalhai, não tanto pela comida que se perde, mas pelo alimento que dura até à vida eterna e que o Filho do homem vos dará. A Ele é que o Pai, o próprio Deus, marcou com o seu selo».

       O Pão que é Cristo Jesus não é desgastável, a curto prazo, não se compra nem se vende, não se negoceia ao melhor preço, nem escasseia, dura até à vida eterna, em abundância como a vida humana, em abertura ao Infinito.

 

       2 – A experiência do Povo de Deus que nos conduz a Jesus é feita de muitas buscas e hesitações, de desvios e aproximações a Deus, de descobertas e de desafios. Satisfeitos de uma necessidade logo outra evidenciam. Libertos da escravidão, logo murmuram contra Deus e os chefes que Ele escolheu para os liderar. A vida, no seu rosto mais humano, não é fruto de magia, não é linear, mas multicolor, com altos e baixos, com sinais evidentes da presença e do amor de Deus, mas com a exigência da liberdade, das escolhas a fazer, do trabalho, dos caminhos que cada um, cada família, cada tribo, há de preparar e endireitar até chegar ao CAMINHO que é Deus.

"Toda a comunidade dos filhos de Israel começou a murmurar no deserto contra Moisés e Aarão. Disseram-lhes os filhos de Israel: «Antes tivéssemos morrido às mãos do Senhor na terra do Egipto, quando estávamos sentados ao pé das panelas de carne e comíamos pão até nos saciarmos. Trouxestes-nos a este deserto, para deixar morrer à fome toda esta multidão». Então o Senhor disse a Moisés: «Vou fazer que chova para vós pão do céu. O povo sairá para apanhar a quantidade necessária para cada dia. Vou assim pô-lo à prova, para ver se segue ou não a minha lei. Eu ouvi as murmurações dos filhos de Israel. Vai dizer-lhes: ‘Ao cair da noite comereis carne e de manhã saciar-vos-eis de pão. Então reconhecereis que Eu sou o Senhor, vosso Deus’».

       Quando eram escravos, aceitavam-se como tal, espécie de máquinas que não pensam, apenas trabalham e comem e descansam conforme lhes é mandado. Livres têm de pensar, de refletir, de procurar comida e alimento, e encontrar um sentido novo para o novo tempo de que dispõem. Têm de conquistar lugar, aprender a ser gente, a tornarem-se solidários na pobreza e na procura e na abundância.

       Para qualquer um de nós, a resposta, se imediata, seria de crítica, de recusa e de revolta – como é possível murmurarem contra os libertadores! Ver-se-á a impaciência de Moisés e a sua irritação. Também ele terá que aprender de Deus e com Deus. Para já um pão e um alimento a prazo, em cada manhã e em cada tarde, que também é necessário, mas desde já o alerta para um outro pão, o sentido da nossa existência. A resposta de Deus também aqui é positiva e tornar-se-á plena de graça e salvação em Jesus Cristo, o Pão descido do Céu para ao Céu a todos nos elevar.

 

       3 – Belíssima a ponte que o Apóstolo São Paulo nos ajuda a fazer, entre o Povo Eleito e o novo Povo que é a Igreja, Corpo de Cristo, a Quem pertencemos. Ponte entre a ignorância e a revelação, entre a infantilidade da nossa fé e o amadurecimento em Jesus, entre a hesitação do caminho e a LUZ que d’Ele irradia e nos atrai como íman. Não é o mesmo atravessar um corredor completamente às escuras, sem saber onde vai dar ou atravessá-lo às claras, ou com uma luz que nos guia, mostrando-nos a meta onde queremos ir. Como diz a fadista, não adianta correr se não sabemos o caminho. Ou todo o vento é desfavorável ao barco que anda à deriva (Séneca).

"Não torneis a proceder como os pagãos, que vivem na futilidade dos seus pensamentos. Não foi assim que aprendestes a conhecer a Cristo, se é que d’Ele ouvistes pregar e sobre Ele fostes instruídos, conforme a verdade que está em Jesus. É necessário abandonar a vida de outrora e pôr de parte o homem velho, corrompido por desejos enganadores. Renovai-vos pela transformação espiritual da vossa inteligência e revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus na justiça e santidade verdadeiras".

       O convite é semelhante nas três leituras. Deus, através de Moisés, liberta o povo da escravidão para viver um tempo novo, não sob o chicote, mas em liberdade, em que cada um terá que contribuir com os seus talentos, para o bem de todos. No Evangelho, Jesus propõe um nova atitude, que parte da fé, que se alimenta na caridade e no compromisso com o nosso semelhante, que que não se contenta com mínimos garantidos mas com a plenitude da vida eterna. São Paulo recorda-nos a nossa identidade, o nosso nascimento e conhecimento em Jesus, sublinhando que agora que sabemos de Cristo e com Ele nos encontrámos não podemos fazer de conta e viver da mesma maneira. Vivamos à maneira de Jesus Cristo, verdadeiro alimento para as nossas vidas.

Textos para a Eucaristia (ano B): Ex 16, 2-4.12-15; Ef 4, 17.20-24; Jo 6, 24-35.

 


29
Jul 12
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

       1 – “Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados, fazendo o mesmo com os peixes; e comeram quanto quiseram. Quando ficaram saciados, Jesus disse aos discípulos: «Recolhei os bocados que sobraram, para que nada se perca». Recolheram-nos e encheram doze cestos com os bocados dos cinco pães de cevada que sobraram aos que tinham comido”.


       Trocamos de evangelista por uns domingos, mas não de Evangelho: Jesus Cristo. Ele é a Boa Notícia de Deus, que entra no mundo, na história e no tempo. Vem habitar no meio de nós, fazer a Sua tenda em nós. Como temos refletido, não está alheado do que é verdadeiramente humano, entranha-se no mundo, suja as mãos, insere-se na realidade temporal.

       No regresso dos discípulos, dá-lhes oportunidade para descansarem e comerem, ainda que logo atenda uma multidão que deles se abeira, com fome de sentido, são como ovelhas sem Pastor. Jesus compadece-Se e ensina-lhes muitas coisas.

       No evangelho proposto para hoje, de São João, o cenário é em tudo semelhante quanto à atitude de Jesus:

“Erguendo os olhos e vendo que uma grande multidão vinha ao seu encontro, Jesus disse a Filipe: «Onde havemos de comprar pão para lhes dar de comer?». Dizia isto para o experimentar, pois Ele bem sabia o que ia fazer. Respondeu-Lhe Filipe: «Duzentos denários de pão não chegam para dar um bocadinho a cada um». Disse-Lhe um dos discípulos, André, irmão de Simão Pedro: «Está aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?» ”.

       Jesus ergue o olhar para as pessoas, perscruta no interior das mesmas, tem compaixão daquela gente, antecipa-Se às suas necessidades, às mais básicas e a partir daqui há de desafiá-las a um alimento maior, a um sentido novo para a vida, como veremos no próximo domingo, na continuação do Evangelho. Para já o pão, depois o pão e o sentido para a vida.

 

       2 – O milagre da multiplicação é uma exigência e há de ser um compromisso para os dias de carestia que atravessamos. Quando o pouco se partilha, é possível que chegue para mais pessoas, ou que chegue para todos. Multiplica-se o que é partilhado. O que retemos para nós vai desaparecendo, corroendo-se com a traça. É como os produtos com prazo de validade. Guardámos e quando nos apercebemos nem para nós nem para os outros.

       Não é uma questão contabilística – dois pães de cevada e dois peixes – mas de fé, de fé em Deus, na abertura aos outros. A nós não nos são pedidos milagres “extraordinários”, mas compromissos com os meios e os dons que temos. Levantemos os olhos para as pessoas que se aproximam. Antecipemo-nos às suas necessidades, como Jesus, não primeiramente com pressa em dar razões, acalentar a esperança, mas antes pressa na caridade e na partilha, para que a multiplicação aconteça. O mundo em que vivemos tem alimentos de sobra para todas as pessoas que o habitam e no entanto há meio mundo a morrer à fome ou a viver uma vida abaixo de cão.

       Quantos Lázaros pelo mundo à espera das migalhas que sobejam nas nossas mesas, à nossa espera. Nem só de pão vive o homem – Jesus di-lo claramente na continuação do evangelho –, mas também vive do pão. Não vivemos para comer, mas comemos para viver.

 

       3 – Deus conta connosco, com os nossos cinco pães e dois peixes. O pão de cada dia, que Deus nos dá, não cai diretamente do céu, mas multiplica-se a partir da terra, do trabalho, do esforço humano, com a bênção de Deus. Ele não nos pede o impossível, mas o que está ao nosso alcance e então o milagre surge e acontece o (que parecia) impossível. Deus proverá ao resto. E não é pouco. É tudo na nossa vida. Age em nós e através de nós.

       Na primeira leitura, Eliseu dá uma ordem semelhante àquela que Jesus haveria de dar aos seus discípulos: dai-lhes vós de comer. Todos têm um papel a desempenhar.

“Veio um homem da povoação de Baal-Salisa e trouxe a Eliseu, o homem de Deus, pão feito com os primeiros frutos da colheita. Eram vinte pães de cevada e trigo novo no seu alforge. Eliseu disse: «Dá-os a comer a essa gente». O servo respondeu: «Como posso com isto dar de comer a cem pessoas?». Eliseu insistiu: «Dá-os a comer a essa gente, porque assim fala o Senhor: ‘Comerão e ainda há de sobrar’». Deu-lhos e eles comeram, e ainda sobrou, segundo a palavra do Senhor”.

       O impossível torna-se acessível, pela fé, pela presença e pela graça de Deus, que vem até nós e que nos encontra e nos transforma. Olhos nos olhos, em Jesus Cristo, Deus abaixa-Se para encontrar a nossa face, lava-nos os pés e a alma, torna-nos Seus filhos. Abraça-nos, enleva-nos, promove-nos, agora somos do dia e da LUZ.

       Vale a pena ater-nos às palavras do Apóstolo, uma vez mais:

“Eu, prisioneiro pela causa do Senhor, recomendo-vos que vos comporteis segundo a maneira de viver a que fostes chamados: procedei com toda a humildade, mansidão e paciência; suportai-vos uns aos outros com caridade; empenhai-vos em manter a unidade de espírito pelo vínculo da paz. Há um só Corpo e um só Espírito, como há uma só esperança na vida a que fostes chamados. Há um só Senhor, uma só fé, um só Batismo. Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, atua em todos e em todos Se encontra”.


Textos para a Eucaristia (ano B): 2 Reis 4, 42-44; Ef 4, 1-6; Jo 6, 1-15.

 


18
Mar 12
publicado por mpgpadre, às 09:00link do post | comentar |  O que é?

       1 – O cristianismo, a fé cristã, não é, de todo, um conjunto de preceitos, um código ético e moralizante, que obriga, força, impõe o seu cumprimento, sob pena de castigo, ou com uma retribuição pelos méritos conquistados.

       A fé cristã é um acontecimento: Jesus Cristo, com o mistério da Sua vida, morte e ressurreição. É encontro pessoal com Ele. É vida nova, transformada e transformadora. Com a morte na Cruz, Jesus leva o amor até ao fim. Com a ressurreição, Deus Pai confirma a história de entrega e de salvação que se opera em Seu Filho Jesus, e nosso irmão.

       Ao tempo de Jesus tinha-se dado a multiplicação de leis e preceitos. Jesus clarifica e simplifica: amar. Amar a Deus e amar o próximo como a Si mesmo. O paradigma do amor é a Sua vida de oblação. Dispõe-se a amar em todas as circunstâncias, até no sofrimento, na perseguição e na morte. Ama até aqueles que O colocam na Cruz, perdoando-lhes tamanha barbaridade. Por amor.

       Mas vejamos os textos litúrgicos propostos para este 4.º Domingo da Quaresma. Vale a pena uma leitura demorada e sobretudo meditada (ou a meditar).

       Com a largueza de vistas com que Jesus nos presenteia habitualmente, não deixa margens para imaginações fantasiosas:

       «Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, também o Filho do homem será elevado, para que todo aquele que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. Quem acredita n’Ele não é condenado, mas quem não acredita já está condenado, porque não acreditou em nome do Filho Unigénito de Deus. E a causa da condenação é esta: a luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque eram más as suas obras. Todo aquele que pratica más ações odeia a luz e não se aproxima dela, para que as suas obras não sejam denunciadas. Mas quem pratica a verdade aproxima-se da luz, para que as suas obras sejam manifestas, pois são feitas em Deus».

       Sem mais. O Filho do Homem vai ser elevado da terra. A serpente é fator de saúde. Não morrerão os que olharem para ela. Jesus, levantado da terra, é a própria Salvação, Deus feito Homem que nos eleva com Ele, primeiro assumindo o nosso pecado, a nossa cruz, depois colocando-nos em Deus, na Luz eterna. Ele não veio para condenar o mundo, as pessoas, para mostrar as "garras" de um Deus irado, mas para ser Rosto de um Deus apaixonado, como na primeira hora, pela humanidade inteira, obra das Suas mãos.

 

       2 – Na mesma direção, a epístola de São Paulo à comunidade de Éfeso. O Apóstolo, uma vez mais, fala-nos ao coração. Fala-nos da vida, da salvação. Fala-nos do amor. Do amor oblativo, dádiva sem fim. É vida nova que se descobre em Jesus, na Sua morte e ressurreição. Todo o mistério pascal envolve Deus – Pai e Filho (Jesus Cristo: Deus no tempo, Deus connosco, Deus feito Homem) e Espírito Santo – que Se inclina, não sobre a Sua sombra, mas Se inclina sobre os filhos Seus, Se inclina como a Mãe se debruça para contemplar no regaço o filho nascido das suas entranhas, do seu amor.

       Belíssima esta carta que o Apóstolo nos escreve:

       "Deus, que é rico em misericórdia, pela grande caridade com que nos amou, a nós, que estávamos mortos por causa dos nossos pecados, restituiu-nos à vida em Cristo – é pela graça que fostes salvos – e com Ele nos ressuscitou e nos fez sentar nos Céus com Cristo Jesus, para mostrar aos séculos futuros a abundante riqueza da sua graça e da sua bondade para connosco, em Cristo Jesus. De facto, é pela graça que fostes salvos, por meio da fé. A salvação não vem de vós: é dom de Deus. Não se deve às obras: ninguém se pode gloriar. Na verdade, nós somos obra sua, criados em Cristo Jesus, em vista das boas obras que Deus de antemão preparou, como caminho que devemos seguir".

       A fé é relação, encontro, revelação, comunicação, diálogo, é comunhão. Muito antes de ser um código ético-jurídico. A fé cristã é viva. É vida. É Jesus. É cada um de nós, perante os outros, diante de Deus. É descoberta. Ressurreição e vida. Pelo pecado, morremos cada vez mais. O pecado afasta-nos, divide-nos, diaboliza a minha, a tua, a nossa vida, que deveria ser salutar, encantadora e feliz. Com a Sua vida – morte e ressurreição – Jesus restitui-nos à vida, coloca-nos para sempre à direita do Pai.

       A fé e a salvação não são uma conquista, uma usurpação da nossa parte. A salvação é dom de Deus. Ninguém Lhe tira a vida, é Jesus que no-la entrega por amor. As obras que realizamos são fruto da nossa fé, e do bem que Deus desde sempre colocou no nosso coração. As nossas boas obras hão de ser expressão da luz e do amor de Deus em nós.

 

       3 – De novo e sempre nos confrontamos com a realidade: a vida nova dada em Jesus Cristo esbarra com a violência que continua a impor-se no nosso mundo, no tempo atual. Mesmo que queiramos desviar o olhar, não é possível não ver os conflitos que se estendem e publicitam cada vez com maior espetacularidade; a fome, a guerra, a violência, as agressões contra pessoa e contra a própria natureza; não é possível não ver a corrupção, a usura, a prepotência de uns poucos à custa de muitos; o serviço público ao serviço de alguns. É mais difícil saber do sol quando o céu está nublado, fechado, escuro como o breu.

       O povo de Israel passou por tempos de grande provação e desânimo. Muitos obstáculos e dificuldades que a um tempo o deixava sem norte e a outro tempo a aprofundar a oração e a adesão à Palavra do Senhor.

       O pecado de uns e de outros, sempre prejudica todos. O bem e a santidade de uns e de outros, sempre beneficia a todos. O povo, no seu todo, há de pagar pelos erros e pecados dos seus líderes. As famílias e as comunidades sempre hão de pagar pelos pecados do egoísmo e da prepotência de algum dos seus membros.

       Mas vejamos o texto, do livro das Crónicas:

       "Assim se cumpriu o que o Senhor anunciara pela boca de Jeremias: «Enquanto o país não descontou os seus sábados, esteve num sábado contínuo, durante todo o tempo da sua desolação, até que se completaram setenta anos»... «Assim fala Ciro, rei da Pérsia: O Senhor, Deus do Céu, deu-me todos os reinos da terra e Ele próprio me confiou o encargo de Lhe construir um templo em Jerusalém, na terra de Judá. Quem de entre vós fizer parte do seu povo ponha-se a caminho e que Deus esteja com ele»". 

       As palavras de Jeremias, grande profeta de Israel, mostram, não o afastamento de Deus ou o castigo imposto por Ele ao povo, mas como o povo paga caro por ter desfeito os laços de amizade, de sadia convivência, de solidariedade, de coesão social e religiosa. Para lá das contingências próprias do tempo e da história. A união e a solidariedade ajudam a superar as provações.

       Estamos a caminho, já se vislumbra a LUZ que há de vir para a todos reconduzir a Jerusalém. Nós não nos esquecemos da promessa, e muito menos Deus se há de esquecer. "Apegue-se-me a língua ao paladar, se não me lembrar de ti, se não fizer de Jerusalém a maior das minhas alegrias". Voltemos a Jerusalém, a nossa alegria, o nosso encontro com Deus.

       O tempo nosso, ainda que implique feridas e sofrimentos, é impulsionado pela Luz que nos atrai de Jesus Cristo, que passa pelas frestas da Cruz, e nos impele às alturas, ao regaço de Deus, Pai e Mãe.


Textos para a Eucaristia (ano B): 2 Cr 36,14-16.19-23; Ef 2,4-10; Jo 3,14-21.

 

Reflexão Dominical na página da Paróquia de Tabuaço.


11
Mar 12
publicado por mpgpadre, às 09:00link do post | comentar |  O que é?

       1 – O centro e o conteúdo essencial da fé cristã é Jesus Cristo e o mistério da Ressurreição. Sem Páscoa não haveria vida nova, não haveria Igreja, que nasce precisamente com a ressurreição de Jesus, pedra após pedra se ergue com Ele do sepulcro, para a luz e para a vida, para o mundo e para as alturas.

       Mas por ora, enquanto não chega a Páscoa, é tempo de caminhar, é tempo da travessia por todos os desertos da solidão, da doença e da morte. Ao terceiro dia, Ele levantar-se-á, e levantar-nos-á com Ele, dos escombros do pecado, do sofrimento e do mal, para nos dar a Sua vida nova, um novo Templo de graça, de verdade e de paz. As "dores da maternidade" ainda fazem mossa, ainda fazem sofrer, ainda nos fazem dobrar sobre nós próprios, em posição que espera o afago e o abraço de Deus, para levantarmos o olhar e vermos os novos Céus e a nova Terra, que nos aguardam e atraem.

       O Evangelho deste terceiro domingo da Quaresma fala-nos do sinal maior que Jesus nos poderá dar: a Sua ressurreição. O templo cairá por terra e da terra, a que pertencemos, e a que Deus quis e quer pertencer, por Jesus Cristo, erguer-se-á o Templo do encontro, da festa, da alegria, até à eternidade.

       "Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. Encontrou no templo os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas e os cambistas sentados às bancas. Fez então um chicote de cordas e expulsou-os a todos do templo, com as ovelhas e os bois; deitou por terra o dinheiro dos cambistas e derrubou-lhes as mesas; e disse aos que vendiam pombas: «Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai casa de comércio»...

       Então os judeus tomaram a palavra e perguntaram-Lhe: «Que sinal nos dás de que podes proceder deste modo?». Jesus respondeu-lhes: «Destruí este templo e em três dias o levantarei»... Muitos, ao verem os milagres que fazia, acreditaram no seu nome. Mas Jesus não se fiava deles, porque os conhecia a todos e não precisava de que Lhe dessem informações sobre ninguém: Ele bem sabia o que há no homem".

       O templo de pedra é sinal da presença de Deus no meio de nós, e daí a necessidade de ser respeitado por nele transparecer a Sua luz. É também sinal de outro templo, e da vida nova, o Templo que é o próprio Jesus Cristo, onde Se pode encontrar Deus de verdade, e o templo que somos nós, imagem e semelhança de Deus, sacrários vivos do Altíssimo.

 

       2 – Como em tudo na vida, o caminho também é importante. Não adianta correr se não sabemos para onde nos leva a estrada, a ruela, a avenida. Pode ter um piso agradável, macio, colorido, artístico, mas por aí não nos leva a bom porto, porque não sabemos também onde aportar. Não podemos navegar sem orientação. Para o barco que não sabe para onde navega, todo o vento é desfavorável. Como cristãos sabemos o destino: a vida eterna, a comunhão em plenitude junto de Deus. Mas a vida em Deus não é futuro, não somente futuro, é também presente, é também vida, é também a nossa casa, as nossas paixões, as nossas vivências, os nossos projetos; a eternidade vislumbra-se e inicia a partir daqui, do lugar em que me encontro, no mundo que é a minha casa, a minha família, a minha vizinhança, o mundo que é a minha aldeia, a minha paróquia, a minha vila e a minha cidade, a minha escola e o meu trabalho.

       Por sorte, não estamos num labirinto fechado, escurecido, traiçoeiro, ainda que possa haver labirintos na nossa vida e possam existir tantos caminhos quantas as pessoas que estão a caminhar. Os que nos precederam na fé, inspirados por Deus, clarearam a quaresma que temos de fazer para nos acercarmos da Páscoa, tapetearam a estrada para que as quedas não nos destruíssem e nos fizessem destruir.

       Escutemos Moisés: "Não terás outros deuses perante Mim... Não adorarás outros deuses nem lhes prestarás culto... Não invocarás em vão o nome do Senhor teu Deus... Lembrar-te-ás do dia de sábado, para o santificares..., o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus... Honra pai e mãe, a fim de prolongares os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te vai dar. Não matarás. Não cometerás adultério. Não furtarás. Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo. Não cobiçarás a casa do teu próximo; não desejarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo nem a sua serva, o seu boi ou o seu jumento, nem coisa alguma que lhe pertença".

        É um bom ponto de partida para nos tornarmos cúmplices de Jesus Cristo. Os Mandamentos continuam a ser para a Igreja (e para os cristãos) e para o mundo (como base dos Direitos Humanos) uma referência fundamental, que nos exercitam na convivência com Deus, e na caridade para com todos.

 

       3 – Os sinais pedidos a Jesus são-nos também exigidos a nós, como seus discípulos, seus seguidores. Tal como Ele, o maior sinal para nós é a ressurreição que emoldura a CRUZ do amor, da paixão, da entrega que n’Ele, Deus feito homem, nos é ofertado em plenitude.

       "Os judeus pedem milagres e os gregos procuram a sabedoria. Quanto a nós, pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios; mas para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é poder e sabedoria de Deus. Pois o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens".

       No nosso itinerário quaresmal até à Páscoa, e até à vida eterna, há de haver lugar à partilha, à solidariedade, à comunhão, ao serviço, traduzindo em concreto a cruz, expressão do amor, da caridade, e daquela – a cruz –, dar sinais, deixar o vislumbre da LUZ que nos vem da RESSURREIÇÃO e de nos tornarmos, pela fé, pelo batismo, cúmplices de Jesus Cristo. Anunciamos a morte e a ressurreição até que Ele venha. Anunciamos como Ele, em palavras que se tornam vida gasta com os outros e a favor dos outros. No compromisso com os outros, na justiça e na caridade, a ressurreição acontecerá.


Textos para a Eucaristia (ano B): Ex 20, 1-17; 1 Cor 1, 22-25; Jo 2, 13-25.

 

Reflexão Dominical na página da Paróquia de Tabuaço.


25
Fev 12
publicado por mpgpadre, às 19:30link do post | comentar |  O que é?

Lembra-te, homem, que és pó da terra e à terra hás de voltar (cf. 3, 19).

Nós somos do chão, da terra. Não deverá haver nada entre nós e o chão, o chão liga-nos a Deus e ao irmão. Diante de Deus não precisamos de estar apenas nós, nem ouro, nem prata, nem alforge, só nós e Deus, nós, Deus e o irmão. E assim diante do irmão. Quando estamos com o irmão ainda estamos diante de Deus, porque no outro está Deus.

Hoje, D. António Couto, na Jornada Diocesana do Catequista, subordinado ao tema: “Chamado por Deus, participante da missão de Jesus”, partiu da figura de Moisés para ilustrar o chamamento e o envio e o Deus que chama, Deus santo.
Prestemos atenção ao texto: “Moisés estava a apascentar o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Madian. Conduziu o rebanho para além do deserto, e chegou à montanha de Deus, ao Horeb. O anjo do SENHOR apareceu-lhe numa chama de fogo, no meio da sarça. Ele olhou e viu, e eis que a sarça ardia no fogo mas não era devorada. Moisés disse: «Vou adentrar-me para ver esta grande visão: por que razão não se consome a sarça?» O SENHOR viu que ele se adentrava para ver; e Deus chamou-o do meio da sarça: «Moisés! Moisés!» Ele disse: «Eis-me aqui!» Ele disse: «Não te aproximes daqui; tira as tuas sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é uma terra santa.» (Ex 3, 1-5).
D. António sublinhou que Moisés tem de sair do seu caminho habitual, como a criança que nunca segue desatenta no caminho, observa o que a rodeia, tudo cativa o seu olhar, assim Moisés se deixa “desviar” pelo que vê a partir do seu caminho.
Deus chama, pelo nome, e diz a Moisés: “tira as tuas sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é uma terra santa”. O ser humano é da terra, do chão. Assim é a partir do chão, da terra que nos unimos a Deus, que Lhe respondemos. É pela terra que nos unimos aos irmãos. Somos do mesmo barro. Pó da mesma terra. Irmãos. Nada deve existir entre nós e a terra, para que os pés nús estejam ligados a Deus, ao Universo, ao nosso irmão.
Cientificamente, tudo aponta para que tenhamos uma origem comum (de baixo das pele, circula o mesmo sangue, a mesma existência biológica, debaixo da pele somos mais iguais), uma poeira inicial, energia concentrada, explosão de energia que faz espalhar a poeira e formar-se em várias estrelas, planetas, galáxias. A terra, a água, o céu, os animais terrestes, os animais marinhos, as aves do céu, o ser humano, tudo tem origem nessa poeira original. A descendência é a mesma. Somos pó que ao pó há de regressar. A mesma origem, o mesmo fim.
Para nós crentes, antes da origem e depois do fim está Deus.
A quarta-feira de Cinzas lembra-nos a nossa origem e a nossa fragilidade, mas sobretudo a nossa interdependência a Deus e aos irmãos.

Na reflexão do nosso Bispo, e como desafio para hoje, que nada nos separe do chão, quando nos queremos diante de Deus e diante do irmão. Somos do chão. É chão sagrado o que pisamos. Somos da terra, e é na terra que o Senhor nos encontra, por Jesus Cristo, Deus feito Homem, feito terra.


12
Fev 12
publicado por mpgpadre, às 09:00link do post | comentar |  O que é?

       1 – "Jesus ficava fora, em lugares desertos, e vinham ter com Ele de toda a parte". Este é um elemento comum ao evangelho do domingo passado – "Todos Te procuram... Vamos a outros lugares". A fama de Jesus espalha-se, onde quer que vá há alguém que já se cruzou com Ele, já O ouviu, já viu o Seu rosto, já alguém falou d'Ele. Depois da cura de um homem leproso, mais se divulga o Seu nome. Jesus dissera ao leproso para não dizer a ninguém, talvez com a preocupação de que as pessoas não se deixassem fascinar pelos milagres, mas procurassem acolher a Palavra de Deus. "Porém, logo que partiu, começou a apregoar e a divulgar o que acontecera".

       O encontro de Jesus com as pessoas faz-se nos dois sentidos. Jesus que parte, deslocando-se por aldeias, vilas e cidades. Pessoas que se informam do local em que Ele se encontra e vão ter com Ele, de toda a parte, para O escutarem e se deixarem tocar pelas suas palavras, uns em busca de paz ou de um sentido mais definitivo para a vida, outros para serem curados, uns por curiosidade, outros puxados pelos seus pares, deixam-se levar, outros ainda para assistirem às discussões com doutores da lei e fariseus.

       Mas o que se destaca hoje no evangelho é a cura de um leproso.

       Também ele tinha ouvido falar de Jesus, veio ao seu encontro, "prostrou-se de joelhos e suplicou-Lhe: «Se quiseres, podes curar-me». Jesus, compadecido, estendeu a mão, tocou-lhe e disse: «Quero: fica limpo». No mesmo instante o deixou a lepra e ele ficou limpo".

       Curiosa a forma usada por este homem: se quiseres, podes curar-me... não depende (primeiramente) da minha força, da qualidade da minha pessoa, não depende do bem ou do mal que tenha feito na minha vida, depende de Ti, Senhor.

       Só a fé nos coloca frente a frente com Jesus, com o Altíssimo, só a fé alimenta o nosso coração e nos coloca diante do mistério insondável da vida. As palavras do leproso refletem a fé de Maria: faça-se em mim segundo a Tua palavra… Fazei o que Ele vos disser... Ou na consciência de Jesus: o meu alimento é fazer a vontade de meu Pai que está nos céus. Faça-se... E aconteceu. Jesus curou-o. A fé é o ponto de partida, o ponto de encontro com Jesus. Mas tudo se concentra na iniciativa divina, na primazia do Seu sim a favor da humanidade.

 

       2 – A maior das leis é a caridade, expressão e concretização do Amor de Deus. Não há leis humanas, mesmo que revestidas como leis divinas, que esqueçam, contornem, anulem ou impeçam a vivência da caridade. Certamente que todos já nos deparámos com leis que se tornam injustas, sobretudo na sua aplicação concreta. Nem todas as pessoas são iguais, nem todos têm as mesmas necessidades. A igualdade há de existir na dignidade, no respeito pela identidade de cada um, no acolhimento das especificidades da pessoa e da cultura em que nasce e se desenvolve. No entanto, por que cada um de nós tem uma idiossincrasia, o "fato" pode não servir a todos.

       Por outro lado, há claramente leis que são fruto da cultura, da situação histórico-geográfica, elaboradas naquele tempo, para aquelas pessoas, procurando defender a maioria, mesmo que depois fiquem algumas esquecidas, abandonadas à sua sorte, desprotegidas ou até esmagadas pelas leis.

       É o caso da lepra, ou melhor, dos leprosos. Perante a ameaça de propagação, surge uma lei que se converte em lei religiosa, obtendo uma força extraordinária e para mais com a autoria atribuída ao grande líder de Israel, Moisés. Em nome de Deus, inspirado por Ele, dita a lei a Aarão, o sacerdote: "O leproso com a doença declarada usará vestuário andrajoso e o cabelo em desalinho, cobrirá o rosto até ao bigode e gritará: ‘Impuro, impuro!’ Todo o tempo que lhe durar a lepra, deve considerar-se impuro e, sendo impuro, deverá morar à parte, fora do acampamento».

       É esta lei que Jesus ultrapassa pela proximidade com todo o tipo de pessoas: doentes, andrajosos, sãos, cultos, pecadores e publicanos, mulheres e crianças, pessoas com estatuto social, religioso e político, ou sem qualquer estatuto, estrangeiros e os que estão em nome da potência invasora. Para Jesus todos são igualmente filhos, imagem e semelhança de Deus, todos merecem atenção, disponibilidade, ainda que seja para os doentes, para os pecadores, para os excluídos, que Jesus oriente a Sua máxima atenção. Não são os sãos que precisam de médico. Não para excluir uns em função dos outros. Alguns sistemas recentes procuraram substituir umas classes por outras inferiores, elevando estas e inferiorizando aquelas. Em Jesus a preocupação é a inclusão de todos, por isso tem que ir ao encontro dos excluídos da sociedade e da religião, ou deixar-se encontrar por eles.

       O homem curado de Jesus é integrado na sociedade. Jesus cura-lhe a doença, mas sobretudo introdu-lo na convivência social e religiosa, devolve-se a saúde, mas sobretudo a dignidade, a alma, a vontade de viver. Ele também é filho, também é irmão, também é rosto de Deus. Ninguém é feliz sozinho, isolado.

 

       3 – "Meu Pai trabalha incessantemente e Eu também trabalho em todo o tempo" (Jo 5, 17-30), dirá um dia Jesus aos judeus, deixando claro que não há leis que possam impedir o serviço da caridade, nem sequer a lei do Sábado, o dia do descanso para os judeus. Moisés prepara o povo para viver em clima de paz, de harmonia, de honestidade. Muitas vezes, contudo, justificam-se outros abusos com a lei mosaica. Jesus não se impressiona com o recurso a Moisés, garantido que a preocupação é a mesma, viver na obediência a Deus.

       Importa, uma vez mais, escutar as palavras do Apóstolo São Paulo: "Quer comais, quer bebais, ou façais qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus. Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem aos gregos, nem à Igreja de Deus. Fazei como eu, que em tudo procuro agradar a toda a gente, não buscando o próprio interesse, mas o de todos, para que possam salvar-se. Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo".

       A preocupação do cristão não é servir-se, ou usar os outros ou a própria lei em benefício próprio, mas ser instrumento de felicidade para os outros, sabendo que dessa forma se sentirá (re)compensado. Nesta epístola faz-se uma clara defesa do bem comum e também aqui uma provocação para este tempo e para a cultura ocidental, em que muitos se serviram, esqueceram-se dos outros, serviram-se das pessoas e das estruturas. Só que na volta advieram consequências desastrosas e destrutivas. Quando se sobrevaloriza o egoísmo - viver para si - advém a destruição do tecido social, cultural e religioso. Uma sociedade só vive se fizer da solidariedade e da partilha o seu lugar de encontro. Jesus, na Cruz, dá o maior dos testemunhos, não Se salva, não salva a Sua pele. Entrega-Se pelos outros, por todos.

 

       4 – Trabalhemos incansavelmente pelo reino de Deus e sua justiça. Quer comamos quer durmamos, façamos tudo em nome de Jesus. Tudo para glória de Deus. Todo o bem que fizermos ao nosso semelhante será para glória de Deus. A glória de Deus, como lembrava Santo Ireneu, é o homem vivente, o homem vivo, ou seja, a pessoa com qualidade de vida, a vida em abundância que nos é dada em Jesus Cristo.

       Entreguemo-nos à prática do bem e ao louvor de Deus. Ou, louvemos a Deus também pelas boas obras que realizamos. Isso nos será tido em conta. Não cessemos de confiar no Senhor, como nos ensina o salmista: "Vós sois o meu refúgio, defendei-me dos perigos, fazei que à minha volta só haja hinos de vitória. Alegrai-vos, justos, e regozijai-vos no Senhor, exultai, vós todos os que sois retos de coração". Será esta confiança, como a fé e a abertura do homem com lepra, que nos permitirá acolher a Deus e a todos aqueles e aquelas que Deus colocou na minha, na tua, na nossa vida.


Textos para a Eucaristia (ano B): Lev 13,1-2.44-46; Sl 31 (32); 1 Cor 10,31-11,1; Mc 1,40-45.

 

Reflexão Dominical na Página da Paróquia de Tabuaço


30
Out 11
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

       1 – "Na cadeira de Moisés sentaram-se os escribas e os fariseus".

       Com o decorrer dos anos, o carisma de Moisés e a beleza, simplicidade e grandeza dos Mandamentos desvanece-se com novos líderes e com a multiplicação de leis, de preceitos, com muitas excepções, exigências, derivações, pormenores cada vez mais picuinhas. A complexidade da Lei leva ao seu não cumprimento.

       Refira-se que a história do povo de Israel não foi fácil nem linear. Constitui-se a partir de 12 tribos, com peculiaridades próprias que servem para unir mas também para dividir. Funcionam com alguma harmonia e compreensão nas lideranças fortes de Moisés, David, Salomão. Os reis e os líderes religiosos sucedem-se. Fracas e indecisas lideranças geram conflitos, que por sua vez tornam a nação vulnerável. Se cada um puxa para si e/ou para a sua tribo, o povo deixa de ter defesas para os ataques que chegam do exterior. Se interiormente está dividido, não oferece segurança contra os inimigos.

       As lutas palacianas pelo poder, a corrupção, as influências das famílias mais poderosas e as negociatas entre os detentores da autoridade civil e militar conduzem a nação ao descalabro.

       Um alvo fácil das nações vizinhas, mais unidas, militarmente mais poderosas, com estratégias de invasão e de domínio, com um maior poderia económico, Israel é invadido, com os estrangeiros a imporem a sua presença e os casamentos mistos (forma de apaziguar ânimos, se se integram nas famílias judaicas, estas não se voltarão contra os seus familiares...). Por outro lado, os exílios a que estão sujeitos.

       É também nestas condições adversas à Palavra de Deus, que se multiplicam os preceitos para preservar a identidade, cultura e religião judaicas, aquando das invasões, do exílio, ou em momentos de grande instabilidade.

       2 – A multiplicação de leis e preceitos confunde as pessoas mais simples e não "obriga" os mais instruídos e poderosos que sempre arranjam subterfúgios para contornar os seus deveres sociais e religiosos.

       Jesus, como vimos no domingo anterior, repõe com clareza a simplicidade da Lei. Toda a Lei e os Profetas se resumem, nos seus ditames, a amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Se a cadeira (símbolo do ensino e da autoridade) de Moisés foi usurpada, agora é purificada por Jesus, com a autoridade do Mestre dos Mestres, que vive como ensina, e ensina o que transforma em obras de perdão e caridade.

       A clareza e simplicidade obriga a uma escolha, limitando as desculpas e justificações. Ou sim ou sopas. A compreensão fácil da Lei, neste caso, do duplo mandamento do amor, implica a sua aceitação ou a sua recusa.

       Jesus alerta para o desfasamento entre o conhecimento da lei e o consequente cumprimento: "Fazei e observai tudo quanto vos disserem, mas não imiteis as suas obras, porque eles dizem e não fazem. Atam fardos pesados e põem-nos aos ombros dos homens, mas eles nem com o dedo os querem mover. Tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens... Aquele que for o maior entre vós será o vosso servo. Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado".

       Malaquias, na primeira leitura, alertava para esta incongruência: "Vós desviastes-vos do caminho, fizestes tropeçar muitos na lei e destruístes a aliança de Levi, diz o Senhor do Universo. Por isso, como não seguis os meus caminhos e fazeis acepção de pessoas perante a lei, também Eu vos tornarei desprezíveis e abjectos aos olhos de todo o povo". Não cumprem. Exigem aos outros. São um contra-testemunho.

       Por conseguinte, as palavras de Jesus incentivando a cumprir a lei, com palavras e com obras, seguindo o caminho da humildade e do serviço ao próximo, como expressão e concretização do amor a Deus. Não faz sentido exigir aos outros o que não se faz menção de cumprir.

 

       3 – De novo, e como no domingo anterior, lembramos que a referência é Jesus Cristo, com as Suas palavras, com os Seus gestos e com a Sua vida, na oferenda constante a favor da humanidade, até à morte na Cruz.

       Foi com este fito que o Apóstolo procurou em tudo imitar Jesus Cristo, para que através do seu testemunho outros aderissem ao Evangelho. Diz-nos São Paulo: "Fizemo-nos pequenos no meio de vós. Como a mãe que acalenta os filhos que anda a criar, assim nós também, pela viva afeição que vos dedicamos, desejaríamos partilhar convosco, não só o Evangelho de Deus, mas ainda própria vida, tão caros vos tínheis tornado para nós".

       O Apóstolo assume uma postura que contraria a dos mestres de Israel que ensinam e exigem aos outros, mas não cumprem nem fazem o mais pequeno esforço para cumprir. O Apóstolo faz-se pequeno, para que Cristo cresça nas comunidades. O maior, para Jesus Cristo, e que é testemunhado por São Paulo, é aquele que se faz pequeno, aquele que serve os seus irmãos.


Textos para a Eucaristia (ano A): Mal 1,14b-2,2b.8-10; 1 Tes 2,7b-9.13; Mt 23,1-12.

 


18
Jun 11
publicado por mpgpadre, às 22:51link do post | comentar |  O que é?

       1 – A solenidade da Santíssima Trindade é, desde logo, um desafio e um compromisso para o cristão. Em cada oração, em cada celebração litúrgica, em cada encontro entre cristãos, a invocação é trinitária, reunimo-nos em NOME do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Encontramo-nos no coração do mistério divino que vem até nós em Jesus Cristo, pelo Espírito Santo e que nos revela a vontade de Deus Pai para cada um de nós e para a humanidade inteira.

        Jesus, na Sua Mensagem e na Sua Vida, revela-nos o ROSTO de DEUS, em três PESSOAS. Deus, a origem de tudo, fonte de todo o amor e de toda a criação, é Seu Pai e nosso Pai. Jesus reconhece-Se como o Enviado por Deus Pai, Ungido desde toda a criação, como Filho Unigénito, para que n'Ele e através d'Ele todos cheguem ao conhecimento da verdade e se salvem. Por Ele foram criadas todas as coisas. Mas ouçamo-l'O, na resposta a Nicodemos: «Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. Quem acredita n’Ele não é condenado, mas quem não acredita n'Ele já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho Unigénito de Deus»

       Jesus é o Salvador, que vem de Deus. Morre por amor, ressuscita e coloca-nos à direita de Deus Pai. Envia-nos o Espírito Santo, que nos revela toda a verdade. O Espírito dá-nos a vida nova. Revela-nos o caminho para em Jesus termos a vida eterna.

 

       2 – Mas como dizíamos, a celebração da Trindade é um desafio, pois como MISTÉRIO "obriga-nos" a reflectir, para compreender, mais, para acolher a Sua vida e a Sua vontade. Facilmente compreendemos que Deus só existe UM, mas como desvendar o mistério da Trindade. Admitamos que é fácil falar de Deus como Pai, ainda que nos tivesse sido revelado por Jesus Cristo.

       De Jesus Cristo, como Filho, para um cristão, ainda é fácil falar e aceitar. Conhecemos as Suas palavras e parte essencial da Sua vida entre nós. Mas falar do Espírito Santo já se torna mais difícil, embora Jesus nos fale d'Ele muitas vezes, é "como vento" que sopra onde quer, é o Paráclito, o Defensor junto do Pai, é o Espírito que assegura a permanência de Jesus na terra, entre os Seus, é Ele que nos revela a verdade que nos chega de Deus, para que acolhendo a Cristo tenhamos n'Ele a vida em abundância. Aliás, se não fosse o Espírito Santo nem sequer tínhamos a capacidade para reconhecer Cristo como Senhor.

       E falar de Deus como Pai, Filho e Espírito Santo, Trindade em Três Pessoas, distintas, Unidade da natureza. Perfeita comunhão, sem confusão. Entra na esfera do Mistério, que se desvela cada vez mais e simultaneamente se adensa, se esconde, porque é Msitério. O que se diz do Pai, diz-se do Filho e do Espírito Santo. O que se diz do Filho, diz-se igualmente do Pai e do Espírito. O que se refere ao Espírito Santo, refere-se, do mesmo modo, ao Pai e ao Filho. Em teologia, a este mistério, dá-se o nome de pericorese (divina). Intercâmbio completo e sintonizado entre as Três Pessoas…

       Em todo o caso, o mais importante - revelado por Jesus Cristo - é que Deus nos ama e tanto nos ama que se dispõe a tudo para nos acolher de volta quando chegar a hora, e nos quer felizes pelo tempo em que somos enviados ao mundo.

 

       3 – A origem da Igreja, como dos Seus membros, é a Santíssima Trindade. O fim da Igreja, a Sua meta, é a Santíssima Trindade. Deus é perfeita comunhão de vida e de amor. N'Ele não existe divisão, nem confusão. O Mesmo Deus, em Três Pessoas.

       Também aqui se torna desafio e compromisso, para a Igreja e para o mundo. Somos diferentes, mas podemos comungar do que é essencial, vivendo de acordo com a nossa origem e com a nossa finalidade: DEUS.

       Como escutámos no domingo passado, somos como um corpo com vários membros, todos importantes, todos necessários, ainda que com tarefas diferentes. É esta a lógica do amor, é a lógica de Deus.

       Moisés invoca a presença de Deus entre o povo, para que todos possam sentir-se abençoados e avançar para o bem, seguros que serão a herança do Senhor: «O Senhor, o Senhor é um Deus clemente e compassivo, sem pressa para Se indignar e cheio de misericórdia e fidelidade... Vós perdoareis os nossos pecados e iniquidades e fareis de nós a vossa herança».

       A nossa missão: deixarmo-nos conduzir por Deus e pelo Seu amor, para vivermos como povo, como família de Deus.

 

       4 - Um desafio que se converte em compromisso com os outros e com o mundo actual em que vivemos. Sabemos que temos a mesma origem. Mesmo que não fôssemos crentes, ainda assim a certeza da origem comum. Chamemos-lhe, destarte, Big Bang. O fim também é idêntico. Hoje ninguém duvida que aquilo que fazemos (individualmente), hic et nunc (aqui e agora), terá influência, positiva ou negativa, nos outros e na vida das gerações futuras. Veja-se por exemplo as dificuldades da crise económica em famílias e empresas que até há bem pouco tempo viviam "à grande e à francesa" como se nada pudesse alterar o seu status.

       É certo, diga-se em abono da verdade, que os pobres são os primeiros a pagar os erros e a ganância dos decisores políticos e económicos, mas pouco a pouco, se não houver correcções de fundo, todos acabam por pagar. Infelizmente é uma constatação que deveríamos ter prevenido, combatido e evitado. Não faltaram avisos e sinais.

       O nosso compromisso pode fazer-se seguindo o desafio de São Paulo: "Sede alegres, trabalhai pela vossa perfeição, animai-vos uns aos outros, tende os mesmos sentimentos, vivei em paz. E o Deus do amor e da paz estará convosco. Saudai-vos uns aos outros com o ósculo santo. Todos os santos vos saúdam. A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco".

       As diferenças são uma oportunidade de diálogo e de encontro. A Santíssima Trindade, Três Pessoas distintas, na plena Comunhão de Vontades e de Vida. Um só Deus. Sigamos nesta peugada, até à vida eterna.


Textos para a Eucaristia (ano A): Ex 34, 4b-6.8-9; 2 Cor 13, 11-13; Jo 3, 16-18.

 


27
Mar 11
publicado por mpgpadre, às 13:58link do post | comentar |  O que é?

       1 – A nossa vida é uma busca incessante.

       Nas sábias palavras de Blaise Pascal, o homem ultrapassa infinitamente o homem. Ou seja, o nosso corpo, a nossa identidade corpórea-espiritual não nos confina à nossa dimensão biológica, mas portamos connosco um desejo permanente de ir mais longe, para lá de todas as nossas limitações. Diríamos, como crentes cristãos, que a nossa identidade divina nos faz ansiar pelo Infinito, por Deus, a nossa origem, e, como refere Santo Agostinho, o nosso coração anda inquieto enquanto não repousar no Senhor da vida. Numa outra perspectiva: a nossa vida funda-se na ESPERANÇA que mais à frente nos encontraremos numa situação mais favorável, mais compensadora e que nos fará verdadeiramente felizes.

       No fundo, a nossa busca sem fim tem como fim (finalidade) a felicidade que se realizará em plenitude na eternidade mas que experimentamos, e ainda bem, já agora, na nossa vida terrena. Nunca se esgota o nosso desejo de sermos felizes. Por vezes devora-nos na ânsia do prazer imediato, do bem-estar, do comodismo. A felicidade é sempre caminho, compromisso, procura, nunca se esgota nas satisfações biológicas. Há algo maior, a nossa identidade que aponta e nos atrai para Deus.

       2 – O encontro de Jesus com a mulher samaritana é, a este propósito, paradigmático. Para lá do contexto em que acontece – um judeu que fala com uma mulher e ainda para mais estrangeira, inimiga –, o ensinamento categórico de Jesus: a salvação é oferecida a todos os povos independentemente da cultura, da história ou da religião. Uma vez mais, o que importa verdadeiramente não é o ponto de partida, a situação actual em que nos encontramos, mas o caminho que podemos fazer. É uma primeira lição.

       Depois, o diálogo sobre a verdadeira sede e a verdadeira água.

       Jesus diz claramente à mulher samaritana que há uma sede que é bem maior que a sede biológica. Esta precisa de ser saciada e é-o no imediato com água, elemento da natureza. Mas há, em todos nós, uma sede maior, um desejo mais profundo, um sentido para a vida. Como nós, também ela é levada a compreender que muitos acontecimentos na sua vida pessoal, encontros e desencontros, não passaram de tentativas para responder a esta ânsia de felicidade, mas esgotaram-se na brevidade, como quem consome biologicamente os alimentos e precisa de repetidamente se alimentar.

       "Se conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz: ‘Dá Me de beber’, tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva"... A água viva que Jesus nos dá sacia a nossa procura, é resposta aos nossos anseios mais profundos, é um sentido para a vida presente. Por aqui sabemos que as satisfações corporais são passageiras como passageiras são as adversidades actuais, o que permanece é o que fazemos por amor, o que nos liga ao outro, o que nos torna irmãos.

       E, por conseguinte, é mais óbvia a resposta que Jesus dá aos seus discípulos quando estes regressam com alimentos: o meu alimento é fazer a vontade de Meu Pai. Vale mais que tudo. Vale sempre. Nem só de pão vive o homem, ainda que aquele seja necessário, mas da Palavra de Deus, que nos impele para a verdade e para a vida.

 

       3 – O povo de Israel experimenta a tentação e o desânimo. Deixa-se vencer pela murmuração contra Deus e contra Moisés. No primeiro Domingo de Quaresma, víamos como Jesus superou as tentações em que o povo fracassou. A referência é e há-de ser sempre: fazer a vontade de Deus.

       Hoje, na primeira leitura, ouvimos a ressonância dos murmúrios do povo. Rapidamente se esqueceu das maravilhas de Deus, la libertação do Egipto. Para que todos se lembrem do dia e do local em que se voltaram contra Deus e contra Moisés,... "chamou àquele lugar Massa e Meriba, por causa da altercação dos filhos de Israel e por terem tentado o Senhor, ao dizerem: «O Senhor está ou não no meio de nós?»" Não apenas para recordar, mas sobretudo para que não vença a tentação, mas a fé em Deus.

       O salmista faz-nos rezar com as palavras de Deus, com o novo desafio: "Quem dera ouvísseis hoje a sua voz: «Não endureçais os vossos corações, como em Meriba, como no dia de Massa no deserto, onde vossos pais Me tentaram e provocaram, apesar de terem visto as minhas obras»".

 

       4 – A nossa busca, o nosso caminho, não se faz de olhos fechados, mas sob a luz de Jesus Cristo. O encontro com Ele reorienta a nossa procura, dá sentido novo à nossa vida. A alegria da Samaritana é contagiante. Em Cristo, ela descobre o sentido da sua existência, e partilha-o com os habitantes da sua cidade. Eles mesmos fazem a experiência de encontro com Jesus, como Messias de Deus: "Já não é por causa das tuas palavras que acreditamos. Nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo".

       Não basta ouvir dizer. É fundamental que façamos a experiência de encontro com Jesus Cristo, deixando-O entrar na nossa vida e nas nossas escolhas de bem. Ele não engana.

       "Ora, a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores... Deus prova assim o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores".

       É nesta esperança que radicamos a nossa vida crente, a nossa procura, o desejo de sermos felizes, experimentando a felicidade em cada gesto de perdão, de amor e de bem.

_________________________

Textos para a Eucaristia (ano A): Ex 17,3-7; Sl 94 (95); Rom 5,1-2.5-8; Jo 4,5-42.

 


17
Out 10
publicado por mpgpadre, às 17:47link do post | comentar |  O que é?

       1 – A oração é a expressão da nossa fé. É, para todo o homem crente, um espaço vital, de encontro consigo mesmo, ouvindo a voz da sua consciência, de diálogo com Deus, deixando que o Espírito Santo inspire os seus desejos e acções, de distanciamento em relação aos outros e ao mundo, para se converter num maior compromisso com a realidade circundante.

       Dito de outra forma, a oração coloca-nos antes de mais e sobretudo na intimidade com Deus, escutando a voz da nossa consciência, onde nos encontramos connosco e com a voz de Deus que fala em nós. Contudo, a oração não é estanque, como o não é a fé. Não é algo de abstracto ou desligado da vida. Mesmo que a oração exija distanciamento, recolhimento, silêncio, retiro em relação a pessoas e espaços, é sempre aberta e comprometida com o bem dos outros e com a transformação do mundo. Tal como a fé leva à caridade e nela se fortalece, assim também a oração nos leva a Deus, no-l’O traz ao nosso íntimo, e nos embrenha na acção, na prática do bem, da justiça, na vivência da caridade. Uma oração que não nos comprometesse com os outros e com o mundo, seria uma oração vazia. 

       Mesmo que seja súplica, ou agradecimento (sobretudo pessoal), a oração conduz-nos à comunidade, na partilha, no aprofundamento da fé, no testemunho de vida, na celebração. Quem se sente abençoado não deixará de extravasar para os outros a sua alegria. Quem sofre deverá assumir em humildade a comunhão de outros, sentindo-se mais fortalecido pela oração e pelos gestos de apoio de toda a comunidade. 

 

       2 – Somos convidados à oração por diversos motivos e por várias necessidades. E, do mesmo modo, poderemos ter posturas diferentes em relação aos frutos da oração, seja pessoal ou comunitária. A oração pode ser súplica, prece, agradecimento, promessa, partilha da fé. Pode enriquecer-nos interiormente, ser conversão, amadurecimento, compromisso com os outros. Mas sempre nos coloca na rota de Deus, a Quem nos dirigimos e a Quem acolhemos no nosso íntimo, a Quem agradecemos e/ou com Quem "discutimos". 

       Às vezes a oração dá-nos certezas, outras vezes provoca-nos inquietações. Mas que sempre nos conduza a sermos melhores, mais santos, mais felizes. 

       Na primeira leitura há uma ligação de causa e efeito, entre a oração e as suas consequências: "quando Moisés tinha as mãos levantadas, Israel ganhava vantagem; mas quando as deixava cair, tinha vantagem Amalec". 

 

       3 – Porém, nem sempre a oração nos traz conforto, ou respostas imediatas. Quantas vezes rezamos, voltamos a rezar e ficamos com a sensação que não somos ou não fomos ouvidos nas nossas súplicas?! Talvez até aconteça que quando tudo nos corre de feição tenhamos disponibilidade interior para rezar e agradecer, mas logo que alguma dificuldade nos bate à porta, logo duvidamos da oração, de Deus, da fé que professamos! 

       As leituras de hoje dizem-nos que podemos sempre confiar mesmo quando nos parece que Deus não nos escuta. No Salmo, o autor sagrado mostra-se convicto: "O Senhor te defende de todo o mal, o Senhor vela pela tua vida. Ele te protege quando vais e quando vens, agora e para sempre".

       No Evangelho, por sua vez, Jesus utiliza uma parábola sobre uma mulher pobre e um juiz iníquo que, sendo desonesto e egoísta, demora em responder aos apelos da pobre viúva, mas atende-a para que ela não o importune continuamente. E Jesus contrapõe: "E Deus não havia de fazer justiça aos seus eleitos, que por Ele clamam dia e noite, e iria fazê-los esperar muito tempo? Eu vos digo que lhes fará justiça bem depressa. Mas quando voltar o Filho do homem, encontrará fé sobre esta terra?" 

       Fica depois este questionamento de Jesus: Deus responderá e nós cultivaremos a fé no meio das dificuldades e das dúvidas?! 

 

       4 – A fé, como a oração, em Jesus Cristo, leva-nos ao seguimento. Seguir Jesus compromete-nos com a Sua palavra, com os seus ensinamentos. Acolhemo-l'O na nossa vida, para O anunciar ao mundo inteiro. A oração permite-nos viver na intimidade com Deus, em Jesus Cristo, no Espírito Santo. Mas é uma intimidade e um amor que necessita de ser anunciado, partilhado, testemunhado.

       Ouçamos as palavras de São Paulo a Timóteo e a cada um de nós, na segunda leitura, "Permanece firme no que aprendeste e aceitaste como certo, sabendo de quem o aprendeste. Desde a infância conheces as Sagradas Escrituras; elas podem dar-te a sabedoria que leva à salvação, pela fé em Cristo Jesus. Toda a Escritura, inspirada por Deus, é útil para ensinar, persuadir, corrigir e formar segundo a justiça... Proclama a palavra, insiste a propósito e fora de propósito, argumenta, ameaça e exorta, com toda a paciência e doutrina".

       O compromisso em Cristo leva-nos à missão. Não recebemos a Palavra de Deus, a Sua graça e sabedoria, para a aprisionarmos, mas para a partilharmos e quanto mais a partilharmos melhor a acolheremos.

____________________________

Textos para a Eucaristia (ano C): Ex 17,8-13a; Salmo 120 (121); 2 Tim 3,14-4,2; Lc 18,1-8

 


25
Set 10
publicado por mpgpadre, às 10:45link do post | comentar |  O que é?

Um vento de cem quilómetros por hora permitiria separação das águas, mas não no mar Vermelho 

       Segundo a Bíblia, Moisés ergueu as mãos para o mar Vermelho e durante toda a noite Deus separou as águas com um forte vento de leste para permitir a fuga do povo hebreu do Egipto para a Palestina. De manhã, quando o exército do faraó os tenta seguir, foi engolido pelas águas. Agora, uma nova simulação de computador concluiu que um fenómeno natural pode realmente ter permitido este milagre, mas não no mar Vermelho.

       "As pessoas sempre ficaram fascinadas com esta história do Livro do Êxodo, perguntando-se se tem origem em factos históricos", disse o investigador do Centro Nacional para a Pesquisa Atmosférica norte-americano, Carl Drews. "O que este estudo mostra é que a descrição da separação das águas tem por base leis da física", acrescentou o principal autor do estudo publicado online no jornal científico PloS ONE.

       Com o recurso a antigos mapas topográficos, registos arqueológicos e modernas medições de satélite, a equipa encontrou um possível local para a travessia: não no mar Vermelho, onde normalmente se localiza o acontecimento de há três mil anos, mas numa área no delta do Nilo, onde aparentemente um ramo do rio inundava o antigo lago de Tanis.

       Aí, um vento de leste a soprar a uma velocidade de um pouco mais de cem quilómetros por hora, durante oito horas, teria permitido afastar as águas (com 1,8 metros de profundidade). Uma faixa de terra lamacenta com entre 3,2 e quatro quilómetros de comprimento e 4,8 quilómetros de largura teria ficado a descoberto durante quatro horas, com duas paredes de água de ambos os lados. Assim que o vento parasse, o caminho teria ficado alagado.

       "A simulação corresponde de forma bastante rigorosa com o relato do Êxodo", indicou Drews, no texto que acompanha as conclusões do estudo. "A separação das águas pode ser percebida através da dinâmica de fluidos. O vento move a água de acordo com as leis da física, criando uma passagem segura com a água nos dois lados e depois permitindo uma rápida inundação", acrescentou.

       Este tipo de vento, capaz de diminuir as águas num determinado local e empurrá-las para outro, já foi documentado várias vezes - aconteceu, por exemplo, no Lago Erie perto de Toledo, no Ohio. Em pelo menos uma ocasião foi também detectado no delta do Nilo no século XIX, quando as águas terão recuado cerca de 1500 metros.

       Uma anterior simulação de computador, feita por cientistas russos, tinha estabelecido que seriam necessários ventos de nordeste de pelo menos 120 quilómetros por hora para criar uma passagem no mar Vermelho, perto do actual Canal do Suez. Mas Drews e a sua equipa duvidam que fosse possível os refugiados caminharem com ventos tão fortes, explicando que o solo tinha de ser totalmente liso para permitir que a água recuasse em apenas 12 horas.

       O novo estudo, que contou com a colaboração da Universidade de Colorado, é parte de uma investigação maior sobre o impacto dos ventos na profundidade das águas. Drews espera que, ao dar esta nova localização para o milagre de Moisés, possa ajudar os arqueólogos a descobrir provas concretas deste evento.

 

Nota:

       Diga-se que a Igreja e a reflexão teológica já tinham explicado que o milagre da separação das águas e a passagem a pé enxuto era sobretudo uma feliz coincidência das condições naturais, conjugando a altura do ano, o clima... O facto de a ciência demonstrar que o "milagre" de Moisés é possível, é mais um argumento para a veracidade/fundamentação de tal coincidência, que Moisés e o Povo interpretaram como milagre.

       Como disse um dia Laurinda Alves, os milagres são coincidências através das quais Deus nos mostra o Seu caminho...


13
Set 10
publicado por mpgpadre, às 10:47link do post | comentar |  O que é?

       1 - Não são os sãos que precisam de médico mas os doentes. É uma expressão utilizada por Jesus Cristo, para acentuar que são que os pecadores precisam de salvação. Destarte, aqueles que se têm por auto-suficientes, não precisam de salvação e nem de Salvador. A este propósito ouvimos Santo Agostinho: "Ó feliz culpa que nos valeu tão grande Salvador". Não se trata de humilhação, trata-se de reconhecer a nossa condição humana e finitiva, que se encontra e descobre com os outros e sobretudo com o Outro, Jesus Cristo, nosso Salvador.

       Isso mesmo nos é mostrado por Jesus nas três parábolas propostas no Evangelho de São Lucas: Um homem que perde uma das 100 ovelhas e deixam as 99 para ir ao encontro da ovelha perdida e ao encontrá-la fica radiante, faz uma festa. Uma mulher que tendo perdido uma de 10 dracmas, tudo faz para encontrar a dracma perdida e ao encontrá-la chama as amigas e faz uma festa. Um pai que quebra a cara, quando um dos filhos deseja a sua morte, pedindo a parte da herança que lhe cabe, sai de casa, volta sem nada, e o pai recebe-o como filho.

       A conclusão de Jesus não poderia ser mais óbvia: "haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se arrependa, do que por noventa e nove justos, que não precisam de arrependimento... tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado" (Evangelho).

       Em Jesus ecoam as palavras de alguns fariseus e doutores da Lei que se julgavam detentores da verdade e  únicos destinatários da salvação: «Este homem acolhe os pecadores e come com eles».

       Jesus responde com expressividade através destas três parábolas.

       2 - Deus criou-nos para a felicidade, que é sinónimo de santidade, para nos realizarmos como pessoas, vivendo como filhos, descobrindo a alegria de existirmos como povo, em comunhão fraterna com os outros. A ousadia de Deus na criação faz brotar o Seu AMOR em abundância por nós.

       O pecado (da soberba, do orgulho, do egoísmo e da arrogância) distanciou-nos d'Ele, levou-nos ao conflito e à ruptura com o nosso semelhante, com o nosso irmão.

       E quando nós desistíamos uns dos outros, Deus ainda assim nos amou e não desistiu de nós nem do Seu projecto de Amor.

       No monte Sinai, em Deus, expressa-se a desilusão (mais humana que divina, mais do mensageiro do que da Mensagem): "O Senhor falou a Moisés, dizendo: «Desce depressa, porque o teu povo, que tiraste da terra do Egipto, corrompeu-se. Não tardaram em desviar-se do caminho que lhes tracei»". Em Moisés, sobrevém o amor de Deus. Como Abraão, também Moisés descobre que Deus não quer a destruição do homem. Nas palavras do Profeta, a sensibilidade divina: "Então Moisés procurou aplacar o Senhor seu Deus, dizendo: «Por que razão, Senhor, se há-de inflamar a vossa indignação contra o vosso povo, que libertastes da terra do Egipto com tão grande força e mão tão poderosa?»" (Primeira Leitura).

       Abraão, Moisés, JESUS CRISTO, São Paulo, traduzem a preocupação de Deus por nós e pela humanidade inteira. Trazem-nos Deus, para que de novo nos tornemos felizes.

       "A graça de Nosso Senhor superabundou em mim, com a fé e a caridade que temos em Cristo Jesus. É digna de fé esta palavra e merecedora de toda a aceitação: Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores" (Segunda Leitura).

 

       3 - O projecto de Deus mantém-se desde toda a eternidade e para sempre: por amor nos criou, nos chamou e nos chama à vida, por amor nos dá um Salvador, o Seu próprio Filho. Deus nunca desiste de nós, como um Pai nunca desiste de seu Filho. Com amor de Pai e Mãe, Deus faz festa por nós e mesmo quando nos afastamos, Ele espera-nos, dá-nos o tempo que precisamos para voltar. Na volta, não nos estranha, acolhe-nos como filhos bem amados, inclui-nos na sua vida divina, "tudo o que é meu é teu".

       Não nos falte o discernimento para nos sabermos filhos amados, membros da família de Deus e, quando nos afastarmos, não nos falte a coragem para voltarmos ao lugar onde fomos e onde seremos sempre felizes.

____________________________

Textos para a Eucaristia (ano C): Ex 32,7-11.13-14; 1 Tim 1,12-17; Lc 15,1-32

 


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