...espaço de discussão, de formação, de cultura, de curiosidades, de interacção. Poderemos estar mais próximos. Deus seja a nossa Esperança e a nossa Alegria...
27
Jul 17
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TOMÁŠ HALÍK (2014). A noite do Confessor. A fé cristã numa era de incerteza. Prior Velho: Paulinas Editora. 336 páginas.

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O autor viveu na clandestinidade, como cristão, sendo ordenado sacerdote também clandestinamente. O comunismo foi abafando a fé, a religião, o cristianismo. Segundo muitos, a fé torna-se mais combativa em ambientes adversos. Contudo, o autor afirma que o muito tempo a doutrinar os cidadãos contra a fé, contra o cristianismo, desvalorizando os seus valores e ideais fazendo desaparecer símbolos e sinais, pode conduzir à sua insignificância para gerações que viveram longe da fé e do cristianismo. Um mentira tantas vezes repetida passa por verdade. Os sinais visíveis desaparecem, as lembranças tornam-se mais ténues, deixa de haver "necessidade", outros deuses invadem o vazio deixado pela religião que, quando volta à liberdade, já foi substituída.

O autor testemunha a fé como caminho, nem sempre fácil, e contacto com outras religiões e outras sensibilidades e num Ocidente invadido por milhentas ofertas, também religiosas, por vezes oferece-se Deus como se fosse um feira. O autor parte do princípio que Deus não mora à superfície, quem nem sempre há respostas fáceis para as dificuldades, para o caminho difícil da morte de um familiar, de uma doença crónica, de uma desgraça provocada, como o ataque às Torres Gémeas, ou uma catástrofe natural que destrói famílias ou cidades inteiras.

Há momentos que o silêncio e a oração profunda é o que nos resta. E a esperança. Jesus revela-nos um Deus que é Pai, mas ainda assim que não impede o Seu nem o nosso sofrimento.

Terrorismo. Duas guerras mundiais. Tráfico de armas e de seres humanos. Pobreza extrema ao lado de ganância.

Tomáš Halík fala num segundo fôlego da fé, do cristianismo, num tempo mais fragmentado, com mais perguntas e tantas respostas. Um segundo fôlego para os cristãos que já nasceram cristãos e que entretanto procuraram respostas em outras vidas, outras filosofias ou outras religiões e que voltaram à Igreja. Não um regresso ao passado, mas um caminho de amadurecimento... como filhos pródigos, voltam para reconhecerem o verdadeiro e autêntico e agora enriquecidos pelo caminho percorrido. O diálogo ecuménico e interreligioso é também uma oportunidade. Não se trata de sincronismo, ou de diluição de uma nas outras religiões, mas a certeza do que o que é verdadeiro, bom, autêntico, em cada profissão de fé, nos há de enriquecer nas nossas convicções. Alguém que não tem convicções, que desconhece a sua fé, então irá para onde o vento for favorável.

O diálogo autêntico entre religiões ou entre confissões cristãs só é possível com pessoas comprometidas, capazes de darem as razões da sua esperança, promovendo a paz, a justiça, a solidariedade.

Vale a pena ler as palavras do autor:

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Tomáš Halík - Dá-nos um pouco de fé

Vieste aqui não para adquirir algo, mas para te libertares de muitas coisas», disse um velho e experiente monge a um noviço que o procurara no mosteiro. Ontem lembrei-me destas palavras, quando voltei a entrar no eremitério, pela primeira vez desde há um ano. E o mesmo pensamento assomou à minha mente esta manhã, ao meditar sobre a passagem do Evangelho em que os discípulos pedem a Jesus: «Aumenta a nossa fé!»; e Jesus replica: «Se tivésseis fé como um grão de mostarda...»

De repente, este texto falou-me de uma forma diferente da interpretação habitual. Não estará Jesus a dizer-nos com estas palavras: Porque é que me estais a pedir muita fé? Talvez a vossa fé seja «demasiado grande». Só se ela diminuir, até se tornar pequena como uma semente de mostarda, poderá dar o seu fruto e manifestar a sua força.

Uma fé minúscula não tem de ser necessariamente apenas o fruto da pecaminosa falta de fé. Por vezes, a «pouca fé» pode conter mais vida e confiança do que a «grande fé». Será que não podemos aplicar à fé aquilo que Jesus disse na parábola acerca da semente, que tem de morrer a fim de produzir grandes benefícios, porque desapareceria e não prestaria para nada se permanecesse imutável? Será que a fé não tem de passar também por um tempo de morte e de radical diminuição na vida do homem e ao longo da história? E se nós apreendermos esta situação segundo o espírito da lógica paradoxal do Evangelho, em que o pequeno prevalece sobre o grande, a perda é lucro e a diminuição ou redução significa abertura ao avanço da obra de Deus, não será porventura esta crise o «tempo da visitação», o kairos, o momento oportuno? Talvez nós nos tenhamos precipitado ao atribuir uma conotação «divina» a muitas das «questões religiosas» a que já nos habituámos, quando, na verdade, elas eram humanas – demasiado humanas, e só se forem radicalmente reduzidas é que a sua componente verdadeiramente divina entrará em jogo.

Um pensamento que há vários anos vinha germinando dentro de mim, como uma espécie de vago pressentimento, de repente explodiu de forma tão premente, que já não podia ser reprimido.

E como eu tenho uma preocupação perdurável não só por cristãos que têm um lugar fixo dentro da Igreja, mas também pelos buscadores espirituais fora da Igreja, ocorreu-me que nós talvez devamos, a essas pessoas em particular, essa «pouca fé», se quisermos oferecer-lhes finalmente pão em vez de uma pedra. E tendo em conta o facto de que muitas das coisas a que já nos acostumámos excessivamente lhes são estranhas, não serão precisamente elas as pessoas mais inclinadas para entender essa «pouca fé»?

Não, eu não estou a propor uma espécie de cristianismo «simplificado», «brando», «humanizado» e fácil, e ainda menos um romântico ou fundamentalista «regresso às origens». Antes pelo contrário!

Estou convencido de que é precisamente uma fé tem perada no fogo da crise, e livre daqueles elementos que são «demasiado humanos», que se revelará mais resistente às tentações constantes de simplificar e vulgarizar a religião, para falar bem e depressa.

O oposto da «pouca fé» que eu tenho em mente é, precisamente, «credulidade», a acumulação demasiado informal de «certezas» e construções ideológicas, até, por fim, não podermos ver a «floresta» da fé – a sua profundidade e o seu mistério –, tantas são as «árvores» dessa religião.

Com efeito, durante estes dias de reflexão na solidão de uma floresta, sinto-me atraído pela imagem da floresta ou do bosque como uma metáfora adequada do mistério religioso – uma floresta vasta e profunda, com a sua fascinante multiplicidade de formas de vida; um ecossistema com inúmeras camadas; uma sinfonia da natureza inacabada; um espaço espontaneamente intrincado – em tão grande contraste com os povoados humanos bem planeados e premeditados, com as suas ruas e parques –, um lugar em que nos podemos perder uma e outra vez, mas também descobrir, para nossa surpresa, ainda outros dos seus aspetos e dons.

Uma «fé pequena» não significa uma «fé fácil». O meu maior incentivo neste caminho para compreender a fé foi o misticismo carmelita – desde João da Cruz, que ensinou que devemos ir até aos próprios limites das nossas «capacidades espirituais» humanas, a nossa razão, a nossa memória e a nossa vontade, e só aí, onde sentimos que estamos num beco sem saída, é que surge a verdadeira fé, o amor e a esperança; e ao longo da «pequena via» de Teresa de Lisieux, que culminou nos momentos sombrios da sua morte.

A minha pergunta é se a nossa fé, tal como nosso Senhor, não terá de «sofrer muito, de ser crucificada e de morrer», antes de poder «ressuscitar dos mortos».

O que é que faz a fé sofrer, o que é que a crucifica? (Não me refiro à perseguição exterior dos cristãos.) Na sua forma primordial («ingenuidade primária», segundo as palavras de Paul Ricoeur) – ou seja, na forma que um dia deverá expirar –, a fé sofre, acima de tudo, da «multivalência da vida». A sua cruz é a profunda ambivalência da realidade: os paradoxos que a vida encerra, que desafiam sistemas de regras, simples proibições e prescrições – esta é a rocha contra a qual tantas vezes se despedaça. Mas não será possível que, em termos do seu significado e resultado, esse momento de «fragmentação» possa ser como quando partimos a casca de uma noz para chegar ao fruto?

Para muitas pessoas, essa «fé simples» – e a «simples moral» que dela deriva – encontra-se em grave crise quando choca com aquilo com que mais cedo ou mais tarde se deverá confrontar, nomeadamente a complexidade de certas situações de vida (que muitas vezes têm a ver com relações humanas), e a impossibilidade de escolher, dentre as muitas opções possíveis, uma solução sem qualquer tipo de reservas. O resultado é a «convulsão religiosa» e paroxismos de dúvida – aquilo, precisamente, com que esse tipo de fé não pode lidar.

Quando confrontados com a barricada das suas dúvidas imprevistas, alguns crentes «retrocedem» na direção da segurança esperada dos seus primórdios – a «fase infantil» da sua própria fé ou alguma imitação do passado da Igreja.

Essas pessoas procuram muitas vezes um refúgio em formas sectárias de religião. Vários grupos oferecem-lhes um ambiente em que podem «dar largas à oração», gritando, chorando e batendo palmas para se libertarem das suas ansiedades, experimentando uma regressão psicológica até à «fala de bebés» («falando em línguas»), além de serem embaladas e acariciadas pela presença de pessoas de tendência semelhante, e muitas vezes com problemas ainda maiores.

Além disso também há a oferta de vários «museus folclóricos» da Igreja do passado, que tentam simular um mundo de «simples piedade humana» ou um tipo de teologia, liturgia e espiritualidade de séculos passados, «preservado dos estragos da modernidade». Mas o adágio «não se pode entrar duas vezes no mesmo rio» também se aplica aqui. Na maior parte dos casos, acaba por se revelar como tendo sido apenas uma brincadeira romântica, uma tentativa de entrar num mundo que já não existe. As tentativas de encontrar morada em ilusões costumam caminhar a par e passo com esforços desesperados por fingir frente a si próprio e aos outros. É tão disparatado para um adulto tentar entrar no infantário da sua fé infantil ou recuperar o entusiasmo primordial do convertido, como tentar ultrapassar as fronteiras do tempo e penetrar no mundo espiritual da religião pré-moderna. O museu folclórico que as pessoas criam desse modo não é uma aldeia viva de piedade humana tradicional nem um mosteiro medieval. É antes uma coleção de projeções românticas das nossas noções de como era o mundo e a Igreja quando «ainda estavam em ordem». Trata-se apenas de caricaturas tristemente cómicas do passado.

O «fundamentalismo» é um distúrbio de uma fé que tenta entrincheirar-se no meio das sombras do passado, defendendo-se da perturbadora complexidade da vida. O fanatismo, a que aquele está muitas vezes ligado, constitui apenas uma reação mal-humorada à frustração resultante, à descoberta amargurada (mas não confessada) de que se tratava de um falso trilho. A intolerância religiosa é muitas vezes fruto de inveja encoberta de outros, dos «de fora», uma inveja que procede dos corações amargurados de pessoas que não estão dispostas a reconhecer o seu sentimento de profunda insatisfação com a sua própria casa espiritual. Falta-lhes força para mudá-la ou abandoná-la; por isso, agarram-se desesperadamente a ela e tentam ocultar, nos bastidores, tudo o que lhes possa recordar possíveis alternativas. Projetam as suas próprias dúvidas não reconhecidas nem resolvidas sobre os outros, e aí lutam contra eles.

Muitas vezes, a fé que parece «grande» e «firme» é, na realidade, uma fé de chumbo, solidificada e inchada. Muitas vezes a única coisa grande e firme da mesma é a «armadura» que, com muita frequência, oculta a ansiedade da falta de esperança.

A fé que aguenta o fogo da cruz sem bater em retirada perderá, provavelmente, grande parte daquilo com que se costumava identificar ou a que se tinha habituado, mesmo que fosse meramente superficial. Grande parte disso ficará queimado. Contudo, a sua nova maturidade tornar-se-á sobretudo evidente pelo facto de já não usar «armadura»; em vez disso, será um pouco como aquela «fé nua» de que falam os místicos. Já não será agressiva nem arrogante, e ainda menos impaciente na sua relação com os outros. Sim, em comparação com a fé «grande» e «firme» pode parecer pequena e insignificante – será como nada, como uma semente de mostarda.

Mas é precisamente assim que Deus atua no mundo, diz o Mestre Eckhart: Ele é «nada» num mundo de seres, porque Deus não é um ser entre outros seres. E Eckhart prossegue afirmando que temos de nos transformar em «nada» se quisermos encontrá-lo. Enquanto quisermos ser «alguma coisa» (ou seja, significar alguma coisa, ter alguma coisa, saber alguma coisa, em suma, fixarmo-nos em seres individuais e no mundo das coisas), não seremos livres para encontrá-lo.

Talvez a nossa fé também estivesse assoberbada por muitas coisas que tivessem a natureza desse «algo» – as nossas ideias, projeções e desejos pessoais, as nossas expectativas demasiado humanas, as nossas definições e teorias, o mundo das nossas histórias e mitos, a nossa «credulidade». Talvez ainda não tenhamos tido a nossa quota-parte de tudo isso e queiramos mais: Dá-nos mais fé, mais certeza e segurança frente às complexidades da vida!

Cristo, porém, diz: «Tende a fé de Deus», não do tipo «humano» que se poderia perder entre as ideologias e as filosofias do nosso tempo. Um «tipo de fé divino» significa uma fé minúscula, quase impercetível, do ponto de vista deste mundo!

Deus, que é anunciado e representado neste mundo por Aquele que foi crucificado e ressuscitou dos mortos, é o Deus do paradoxo: aquilo que é sábio para as pessoas, é louco para Ele; aquilo que é loucura e pedra de tropeço para as pessoas, é sabedoria a seus olhos; aquilo que as pessoas consideram fraqueza, para Ele é força; aquilo que as pessoas consideram grande, é visto por Ele como sendo pequeno; e aquilo que lhes parece pequeno, Ele considera-o grande.

Mesmo sob as rajadas de vento que continuam a levar para longe grande parte da nossa religião – quer se trate da ofensiva das críticas do ateísmo, quer da tempestade das nossas próprias dúvidas e crises inteiras de fé, ou do clima de «espírito hostil» da nossa época –, porventura seremos capazes, por fim, de discernir o sopro libertador do Espírito Santo, tal como os israelitas, graças aos seus profetas, foram capazes de discernir a «lição de Deus», nas suas derrotas, e o «servo de Deus», no seu inimigo Nabucodonosor?

Quando os seres humanos, ou «o povo de Deus», não são capazes de abandonar algo que os ata e impede de empreender a futura viagem, o Senhor recorre por vezes a métodos de libertação que não nos parecem nada agradáveis. Zugrunde gehen, como sabemos através de Nietzsche, não significa apenas naufragar e desaparecer, mas também, literalmente, «descer até aos fundamentos» e tocar o cerne.

E assim encerro esta primeira meditação com uma oração: Senhor, se a nossa religiosidade está sobrecarregada das nossas certezas, leva parte dessa «grande fé» para longe de nós. Liberta a nossa religião daquilo que é «demasiado humano» e dá-nos «a fé de Deus». Dá-nos antes, se for essa a tua vontade, um «pouco de fé», uma fé tão pequena como uma semente de mostarda – pequena e cheia do teu poder!

 

O autor recolhe-se para escrever num mosteiro, um eremitério na floresta da Renânia. Silêncio, oração e meditação. Escuta, interação com a natureza, mas também com as pessoas que passam. Daí brota uma leitura profunda, rezada, clarificadora, procurando criar pontes, desafiando, inquietando-nos. Boa leitura.

 

Vale a pena ler também o comentário do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - AQUI - o texto transcrito foi retirado desse comentário.


10
Abr 17
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

BENTO XVI (2016). Conversas Finais, com Peter Seewald. Alfragide: Publicações Dom Quixote. 288 páginas.

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Decorria o ano de 1993, ainda seminarista quando tive a oportunidade de ler o livro-entrevista com os mesmos protagonistas, sob o título, Sal da Terra (1992), Peter Seewald à conversa com o então Cardeal Joseph Ratzinger. Além de todas as perguntas e respostas sobre a vida, a vocação, os tempos atuais, a Igreja nos nossos dias, como criança e jovem, como sacerdote, Bispo, Cardeal e Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, duas ideias ficaram-me gravadas na memória: para chegar a Cristo há tantos caminhos quantas as pessoas. O Cardeal respondia dessa forma a uma questão sobre se único caminho para Cristo era a Igreja. Outra ideia que surge também nesta obra é o facto da Igreja poder ser constituída por minorias. Bento XVI volta a reafirmar esta "profecia" sobretudo na Europa, sublinhando que não é algo de negativo ou desmotivador, pelo contrário, como no início da Igreja poderá levar os que são crentes a serem mais convictos, mais autênticos, mais missionários. "Os crentes terão de se esforçar ainda mais por continuarem amoldar e serem portadores da reflexão sobre os valores e a vida... a responsabilidade torna-se maior".

Como seminarista recorri a outros textos do então Cardeal Ratzinger, como leitura e para trabalhos a realizar no curso de teologia. É sempre um desafio ouvir ou ler Ratzinger e/ou Bento XVI. Esta esta entrevista não é exceção. Clareza, simplicidade, transparência, sem fugir às perguntas, sem falsas modéstias, reconhecendo decisões ou momentos em que falhou, em que foi ingénuo ou acreditou nas informações que lhe chegaram. Há muitos motivos para ler Conversas Finais, talvez por isso mesmo, por serem finais. O Papa da eleição, da sua e da do Papa Francisco, do oito anos de pontificado, e da frescura de Francisco, fala da infância, da juventude, do jovem sacerdote e professor, de perito do Vaticano II, Arcebispo de Munique, fala da ligação ao Papa João Paulo II e como tentou regressar ao sossego da investigação teológica, fala dos escândalos na Igreja e como os enfrentou. Tudo isso pode ser motivo para ler esta obra. Mas destacaria algumas curiosidades:

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  • O Pai era polícia e como tal tiveram que mudar de casa umas 14 vezes;
  • Família manifestamente contrária ao poder nazi. O pai era profundamente católico e contrário ao proceder de Hitler; o pai achava que a Igreja deveria ter uma intervenção mais ativa contra o nacional-socialismo, cardeais e papa...
  • depois da reforma do pai, a mãe teve que ir trabalhar para poder sustentar a casa, e possibilitar que os três irmãos pudessem estudar; o pai teve que aprender a cozinhar e a fazer a lide de casa;
  • Com a iminência da guerra que se adivinhava, os pais decidem comprar casa;
  • Nenhum dos irmãos tirou a carta de condução, embora fosse vontade expressa do pai que todos a tirassem;
  • Integrou o exército alemão, como todos os jovens alemãs que estivessem aptos. Ficou na retaguarda, acabando por desertar. Ainda assim foi preso pelos americanos... dormiam no chão, no exterior, passaram vários dias sem comer;
  • Não era muito bom em desporto, mas aguentava-se muito tempo a caminhar, pois percorria grandes distâncias ora a pé ora de bicicleta.
  • O ano mais feliz da sua vida, também dos mais dramáticos, foi o ano como vigário paroquial, um desafio... todos os sábados confessava umas duas horas...
  • A habilitação à docência universitária gerou a discussão entre dois dos seus mestres, elementos do júri, que em vez de fazerem perguntas e discutirem com Ratzinger, discutiram entre eles;
  • Uma das preocupações nesta habilitação era continuar a ajudar os pais;
  • Como teólogo sempre se considerou como progressista, com o recurso predominante à Sagrada Escritura e aos Padres da Igreja (Patrística). Os conservadores eram sobretudo escolásticos. Mais, muito mais Santo Agostinho que São Tomás de Aquino;
  • Obediência dialogada... recusou mudar de universidade, ainda que fosse o seu Bispo a pedir-lhe, adiou a ida para Roma, logo em 1979, um ano depois da eleição de João Paulo II, porém viria a aceitar o convite do Papa polaco em 1982. Comunicavam em alemão, que era a segunda língua de João Paulo II;
  • Chegou a ser acusado de maçónico e coisas do género... e até acusado de trair o Cardeal Frings, de que era conselheiro, acusação que não aceita...
  • Escreveu o texto para a Audiência Geral, na qual João Paulo II iria sancionar e identificar-se com o documento da Congregação da Doutrina da Fé, Dominus Iesus... foi então dito que o Papa se afastava do documento, quanto tinha sido o próprio a solicitar o texto... Curiosamente, diz Bento XVI, nunca escreveu nenhum texto da Congregação... «É obvio que colaborei e também reformulei criticamente o texto e assim. Mas eu próprio não escrevi nenhum dos documentos, nem sequer a Dominus Iesus».
  • Teve um papel importante no Vaticano II, como conselheiro do Cardeal Frings e depois como perito...
  • Os bispos alemãos, com os austríacos, terão tido um peso importante na eleição de João Paulo II... mais à frente, Bento XVI diz claramente que era favorável à eleição de João Paulo II...
  • Desde 1997 que Bento XVI tem um pacemaker...
  • Em 1994 perdeu por completo a visão do olho direito, em consequência de alguns derrames cerebrais. Em 1991 teve uma hemorragia cerebral, consequências sentidas nos anos seguintes...
  • Amigo de Hans Küng, cooperaram algum tempo, depois distanciaram-se, pois Küng foi-se radicalizando contra o Concílio e o primado do Papa... porém quando lhe perguntaram a opinião, respondeu: «Deixem-no». Mais tarde sancionou, com outros Bispos alemães, a decisão tomada pela Congregação da Doutrina da Fé pelo seu afastamento... O Cardeal Franjo Sper, Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé foi decidido: há quinze anos que a Igreja está a ser destruída e nós não fazemos nada...
  • No conclave para eleger o Sucessor de João Paulo II, o Cardeal Ratzinger estava sossegado, certo que iria finalmente descansar e dedicar-se ao estudo teológico, mas logo no primeiro dia de votações percebeu que poderia vir a ser o 265.º Papa da Igreja Católica... Bento XVI fala também das profecias de Malaquias...
  • Renovação do Papado, no ecumenismo e no diálogo inter-religioso, ambiente que lhe era familiar enquanto sacerdote e professor e como Arcebispo...
  • As Audiências Gerais agregaram multidões para o escutarem... discursos aclamados, por exemplo na Sede das Nações Unidas, milhões de pessoas leram as suas Encíclicas... 
  • Aquando da eleição não aceitou ficar no apartamento mandado construir por João XXIII, tendo preferido ficar em Santa Marta, até que algumas obras foram feitas no Palácio Apostólico... mandou tirar a alcatifa... ou chão ou alcatifa...
  • Dificuldade em usar os botões de punho, que não gostava de usar... "Irritavam-me bastante, tanto que cheguei a pensar que quem os inventou tinha de ir parar ao fundo do purgatório (ri)".
  • Precisa de dormir 7 a 8 horas...
  • Na Alemanha foi onde teve a maior contestação... num discurso falou na necessidade da "desmundanização" da Igreja... tema agora querido e explicitado pelo Papa Francisco...
  • Na Missa matinal, o Papa João Paulo II tinha sempre convidados, pessoas diferentes... com Bento XVI as Missas matinais passaram a ser em recolhimento, pois não se sentia preparado para ver todos os dias novos rostos, precisava de celebrar tranquilamente...
  • Não se considera místico... para escrever precisa de silêncio...
  • Na questão da pedofilia, chamou a Si, à Congregação da Doutrina da Fé, para que os processos fossem mais céleres, modificou a legislação, o que permitiu, já como Papa afastar 400 sacerdotes, reduzindo-os ao estado laical...
  • Em relação ao lobby gay, considera que foi desmantelado...
  • No caso Williamson, Bispo da Fraternidade de São Pio X, a quem o papa levantou a excomunhão... só foi informado depois de tudo ter acontecido... "Não compreendo como é que, sendo um caso tão conhecido, nenhum de nós deu por ele. Para mim é incompreensível, inconcebível"... "Na altura houve uma batalha propagandística gigante contra mim. Quem estava contra mim teve finalmente o pretexto para dizer «ele é incapaz, não é o homem certo para o lugar». Foi por conseguinte uma hora negra e um tempo difícil, mas as pessoas acabaram por compreender que eu não tinha sido realmente informado".
  • Em relação a Vatileaks, com o próprio mordomo a revelar documentos... "Não consigo compreender como é que se pode querer algo assim... Eu nem sequer o conhecia. Ele passou pelo crivo do sistema, passou todas as provas e em tudo parecia o homem certo".
  • "O lado político foi para mim o mais penoso" do pontificado...

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"Diria que tentei sobretudo ser um pastor, o que implica naturalmente também uma relação apaixonada com a Palavra de Deus, ou seja aquilo que um professor tem de fazer. Implica, além disso, ser um professante, um confessor. Os termos professor e confessor, filologicamente, significam mais ou menos o mesmo, sendo que a missão está naturalmente mais próxima da de confessor"....

"A direção prática não é bem a minha qualidade..."

"É preciso continuar a aprender o que a fé nos dia neste nosso tempo. É preciso aprender a ser mais humilde, mais simples, mais sofredor e a ter mais coragem para resistir; e, por outro lado, aprender a ser sincero e a estar disponível para continuar a caminhar".


25
Mar 17
publicado por mpgpadre, às 15:00link do post | comentar |  O que é?

1 – Domingo da Alegria e da luz, da unção e da vida nova trespassada, presença de Deus na minha e na tua vida. Deserto e tentações, pão e palavra de Deus. Montanha e altura, Jesus e apóstolos, vislumbre da eternidade, luz vinda do Céu. Sede e água, Samaritana e Água Viva que é Jesus e um alimento maior que toda a fome.

Mais forte que toda a cegueira, a Luz de Cristo, que nos eleva para Deus e nos faz reconhecer os outros como irmãos. É conhecida a estória do sábio que pergunta aos seus discípulos qual o momento exato em que a noite dá lugar ao dia. Respostas: quando conseguimos ver o chão que pisamos, quando distinguimos as pessoas das árvores, quando surge o primeiro raio de sol no horizonte! Passa a ser dia, conclui o sábio, no momento em que olhamos para os outros e os reconhecemos como irmãos.

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2 – Jesus encontrou um cego de nascença. Neste encontro a proximidade de Jesus e a distância dos seus discípulos. Se ele está cego, alguma coisa fez de errado. Ou ele ou os pais. Infelizmente, ainda na atualidade, o obscurantismo da fé é gigante, manifestando falsa resignação: foi Deus que quis, paciência! Como se Deus quisesse o nosso mal, como se um Pai tivesse gosto em ver os filhos a sofrer.

Jesus não se interroga nem explica esta fragilidade, simplesmente intervém para curar, para salvar, para sanar todo o mal. «É preciso trabalhar, enquanto é dia, nas obras d’Aquele que Me enviou. Vai chegar a noite, em que ninguém pode trabalhar. Enquanto Eu estou no mundo, sou a luz do mundo».

Para os judeus, e para muitos de nós, a cegueira é sinal de maldição de Deus. Este homem é desprezado e excluído . Não bastava a falta de vista quanto mais a exclusão social e religiosa. Jesus inclui-o. Não de forma mágica, mas com o poder de Deus e a unção da terra e da vida (terra e saliva), e com a água que lava e purifica.

 

3 – Diante do assombro, o medo ou a conversão, a maledicência ou o silêncio, a indiferença ou o testemunho, a negação e o cinismo ou a abertura ao mistério. Mais cego é aquele que não quer ver.

O cego de nascença foi curado. Os vizinhos e os que o tinham visto a mendigar interrogam-se e interrogam-no, incrédulos, atónitos.

Entram em cena os fariseus e o preconceito. Por todas as formas tentam desacreditar o milagre, mas como são muitas as pessoas que conheciam o cego de nascença e testemunham a cura, arranjam outra desculpa para não aceitarem Jesus. Afinal, Ele curou o cego, mas em dia de sábado! O mal passa a ser o dia da cura. Não querem ver e portanto arranjam desculpas como aqueles que não vão à Missa e justificam-se dizendo que os que lá vão são piores!

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4 – A cura é um primeiro passo, a conversão vem a seguir é mais demorada, leva uma vida inteira. Na maioria das vezes Jesus exige a fé (prévia) para intervir curando. No relato desta cura não se faz qualquer referência à fé deste homem. Deus toma a iniciativa e a Sua misericórdia ultrapassa a nossa vontade. Cabe-nos acolher ou recusar a Sua bondade e Suas maravilhas.

Tendo conhecimento do que os fariseus e doutores da Lei fizeram a este homem, Jesus veio ao seu encontro e, então sim, desafia-o à fé: «Tu acreditas no Filho do homem?». A fé é muito mais que um conjunto de ideias, ainda que credíveis, a fé é um encontro. Deus vem ao nosso encontro e em Jesus Cristo encontra-nos no nosso peregrinar, no nosso caminho. A fé decide-se diante Jesus: «Eu vim a este mundo para exercer um juízo: os que não veem ficarão a ver; os que veem ficarão cegos».


Textos para a Eucaristia (A): 1 Sam 16, 1b. 6-7. 10-13a; Sl 22 (23); Ef 5, 8-14; Jo 9, 1-41.

 

REFLEXÃO DOMINICAL COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

e no nosso outro blogue CARITAS IN VERITATE 


24
Mar 17
publicado por mpgpadre, às 11:00link do post | comentar |  O que é?

GEORGES BERNANOS (2016). Diário de um pároco de aldeia. Prior Velho: Paulinas Editora. 264 páginas.

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O título já deixa antever um conjunto de vivências num lugar em que as pessoas se conhecem, em que as novidades, os boatos, as insinuações se espalham rapidamente, onde a privacidade é muito relativa. O padre, numa pequena aldeia, rústica, vai escrevendo um diário com as suas impressões, encontros, dificuldades, tornando visível a intriga e o mau-estar entre o pároco, vindo de uma família simples, o senhor conde, benemérito da paróquia e que tem outros familiares mais bem colocados, com outros contacto, como um tio padre.

Padre jovem, por um lado, e acabado de chegar, as dificuldades cedo se fazem notar. No catecismo ou na celebração da Eucaristia, por vezes com poucas pessoas, outras vezes desinteressadas. Os jovens, em fase adolescente, provocam-no e gozam com ele. As condições sócio-económicas são mínimas. Alimenta-se mal. Por vezes a refeição é vinho aquecido com pão. Pouco mais. As dívidas são do conhecimento da povoação. Os sacerdotes amigos tentam alertá-lo, chamá-lo à razão. De algum modo, até pode ter razão e iniciativa, mas o melhor é não levantar ondas nem enfrentar os poderes instituídos.

O conde, a esposa e a filha são o rosto mais visível da oposição ao padre. Os pecados que escondem, e talvez para os esconder, voltam-se contra o padre. Ora o convidam ora o alertam para não se meter em determinados assuntos, que não lhe dizem respeito.

Querendo ser fiel ao ministério sacerdotal não deixa de ouvir, de exortar, de intervir. A saúde é que não ajuda. E os comentários sobre a sua conduta também não. É considerado um bêbado, ainda que não se considere tal. A fraqueza, a batina gasta, uma cor de meter dó, amarelo, sumido, faz pena vê-lo assim e assim se vê, ainda que a bebida (vinho aquecido com pão) seja o único que o seu frágil estômago vai aguentando. Adia a ida ao médico. Quando vai ao médico, a revelação de cancro deixa-o de rastos. Não há muito a fazer.

Mas não é a doença terminal que mais o afeta, mas o silêncio de Deus. Há muito que vive com dificuldades em falar com Deus, em rezar, em se colocar confiante nas mãos de Deus. Os que se aproximam dele, desabafam, falam e voltam a falar e, no entanto, há um silêncio e um vazio que o preenchem. Faz com que os outros se abram, mas fecha-se, discreto, como que desejando apagar-se. Até a morte quer que seja silenciosa. "A minha morte está ali. É uma morte igual a qualquer outra, e eu entrarei nela com os sentimentos de um homem muito comum, muito vulgar. É mesmo mais que certo que não saberei morrer melhor do que soube governar a minha pessoa. Vou ser na morte tão desastrado, tão acanhado como na vida... Meu Deus dou-te tudo, de boa vontade. Simplesmente, não sei dar, dou como quem deixa que lhe tirem as coisas. O melhor que tenho a fazer é estar sossegado. Pois se eu não sei dar, Tu, Tu sabes tirar... E no entanto teria gostado de ser, pelo menos uma vez, uma só vez, liberal para contigo... O heroísmo à minha medida está em não ter heroísmo, visto que me faltam as forças, agora o que eu queria é que a minha morte fosse pequena, o mais pequena possível, que se não distinguisse dos outros acontecimentos da minha vida. No fim de conta é a minha natural inépcia..."

 

Para leituras próximas outras sugestões:

Obviamente que são livros muito diferentes, Tomáš Halík e Timothy Radcliffe ajduam-nos a refletir em Deus e na Sua presença amoroso na nossa vida, também nos momentos difíceis e até obscuros, apontando para um Deus que em Jesus Cristo Se revela dócil, compreensivo, próximo, exigente.

Cormac McCarthy mostra que a fé pode ser ténue, mas a força do amor é inabalável, até ao fim. Shusaku Endo, no seu romance com fundo histórico e que deu origem ao filme com o mesmo nome, questiona até que ponto a fé é sustentável nas adversidades e nas monstruosidades. Todos os títulos nos falam da busca de Deus, do questionamento de Deus, da fé e do amor, da vida e da generosidade, da noite e da dúvida e da treva, mas com aquela réstia de esperança que tudo possa ser diferente.

 

Não deixe de ler o seguinte o comentário ao livro:

Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.


22
Fev 17
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

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O Profeta de Elias, depois de matar os profetas idólatras, é avisado pelo Rei Acaz que o mesmo lhe sucederá. Elias sai da cidade e caminha pelo deserto. Já esgotado, pede ao Senhor que lhe tire a vida. O anjo do Senhor aparece-lhe por duas vezes e ordena-lhe: «Levanta-te e come, pois tens ainda um longo ca­mi­nho a per­correr». Elias faz como o Senhor lhe ordena e dirige-se para o monte Horeb. Aí passa a noite. O Senhor faz saber a Elias que vai passar… «Passou um vento impetuoso e violento, que fendia as montanhas e quebrava os rochedos diante do Senhor; mas o Senhor não se encontrava no vento. Depois do vento, tremeu a terra. Passou o tremor de terra e ateou-se um fogo; mas nem no fogo se encontrava o Senhor. Depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma brisa suave. Ao ouvi-lo, Elias cobriu o rosto com um manto, saiu e pôs-se à entrada da caverna» (1 Reis 19, 1- 14).

Deus nem sempre é evidente. Em questões de fé nem tudo é branco e preto. Um crente passa por momentos de treva, de dúvida e hesitação. Um “ateu” pode estar perto de Deus, em busca, a percorrer um caminho de aproximação.

É, em meu entender, uma das linhas condutoras do texto de Tomáš Halík, Paciência com Deus, procurando fazer pontes, prevenir juízos precipitados, para não encerrar o próprio Deus em ideias preconcebidas e limitando a Sua ação.

Deus poderá não ser tão evidente como por vezes se faz crer. Por um lado, em Jesus Cristo, Deus manifesta-Se em plenitude, revela o Seu rosto. Mas não Se deixa aprisionar por uma pessoa ou por uma instituição ou por uma religião. Quem se convence que possui Deus está perto de blasfemar, pois Deus é e continuará a ser Mistério.

Por outro lado, segundo o teólogo checo, o caminho da fé não é linear. A busca honesta e decidida tem avanços e recuos. Deus nem sempre está onde O queremos, pode estar onde não pensamos. Elias é surpreendido. Deus não está na tempestade mas na brisa suave, onde quase não Se percebe.

Santa Teresinha, no momento de especial sofrimento vive a “noite da fé”, contudo, não diminui o amor que permanece até à eternidade. Em Nietzsche, na proclamação da morte de Deus, segundo o autor, também se intui o silêncio dos crentes que deixaram que Deus fosse morto sem protestarem, sem reivindicarem a Sua vida e a Sua presença… Mais perigoso que um ateu convicto é um crente apático!

 

publicado na Voz de Lamego, n.º 4398, de 7 de fevereiro de 2017


21
Fev 17
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar | ver comentários (1) |  O que é?

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Esta semana partimos de dois livros, que podem ser sugestões de leitura: Silêncio, de Shusaku Endo, e Paciência com Deus, de Tomáš Halík.

“Silêncio”, romance adaptado por Martin Scorsese a filme, e daí também a grande divulgação momentânea, retrata a vida de um missionário jesuíta, português, que teve um papel muito importante na evangelização em terras do Japão. E, perante as muitas dificuldades que encontrou, terá renunciado à fé católica.

O provincial dos jesuítas em Portugal, em entrevista à Agência Ecclesia, sublinha a grande oportunidade para confrontar as várias dimensões da fé. A obra recorda uma página histórica do encontro difícil entre o cristianismo (e o Ocidente) e as tradições japoneses que inicialmente acolheram com benevolência o cristianismo e depois moveram-lhe uma grande perseguição. Para o Padre José Frazão Correia é uma grande oportunidade para revisitar a questão dramática da fé. A dificuldade em permanecer firme num ambiente de extrema perseguição. Revisitar a experiência da fé a partir da sua dimensão dramática e equívoca, várias perspetivas possíveis para enquadrar a questão da adesão a Jesus e da sua visibilidade pública.

O filme/romance não nos permite fazer uma leitura a branco e preto, bem e mal, afirmação da fé pelo martírio ou negação da fé pela apostasia. Aqui percebemos que a aproximação à fé, a afirmação de fé em contextos de grande perseguição, de um grande sofrimento, põe em reserva um juízo demasiado fácil… Publicamente o personagem principal, o padre Sebastião Rodrigues, renuncia à fé, mas o realizador, tal como o autor, faz-nos perceber que no íntimo do padre jesuíta há um percurso de fé e estamos longe de concluir que a sua apostasia pública seja uma renúncia à fé no mais íntimo do seu coração.

Tomáš Halík, neste título, Paciência com Deus, e que tem como subtítulo “Oportunidade para um encontro”, procura perceber o Zaqueu que se esconde no sicómoro (figueira…), mas que Deus descobre por entre a folhagem. Vivemos num tempo em que podemos, com alguma facilidade, catalogar os que têm fé e os que não têm, os crentes e os ateus. O autor recusa uma leitura apressada, fácil, em que se crie uma divisória nítida. Há muitos Zaqueus para os quais temos que olhar com carinho, com atenção. Deus escapa-nos, não se enforma nas nossas conceções racionais. É mistério que, no entanto, está presente em cada um de nós, pois todos fomos/somos criados à Sua imagem e semelhança. Não nos podemos apossar d’Ele, pois também se encontra nos outros…

 

publicado na Voz de Lamego, n.º 4397, de 31 de janeiro de 2017


18
Fev 17
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ELMAR SALMANN (2017). A Vitalidade da Bênção. Braga: Editorial A.O. 176 páginas.

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Na Assembleia do Clero de Lamego, em 14 de novembro de 2015, o Provincial da Companhia de Jesus em Portugal, Pe. José Frazão Correia, comentou e sugeriu a leitura deste livrinho, de Elmar Salmann, seu mestre. A Editorial do Apostolado de Oração, integrada na Companhia de Jesus, dá à estampa para Portugal, publicado em Itália em 2010, no âmbito do Ano Sacerdotal. Mas como se costuma dizer mais vale tarde que nunca.

O ministério da bênção há de caracterizar a vida do sacerdote e da Igreja. O cristianismo, em muitas situações, já não está em maioria e, por vezes, cultural e socialmente já não tem a relevância do passado. Por outro lado, existem situações novas, na vivência dos sacramentos, no compromisso com a comunidade, nos casais, na coexistência de várias confissões religiosas. Poderá ser necessário criar centros sociológico-religiosos, para lá das paróquias, envolvendo e comprometendo os leigos, surgindo o sacerdote numa dinâmica de abençoar...

Deus não se vende no supermercado ou à medida de cada um. Em todo o caso, já passamos de um Deus distante e juiz, para um Deus próximo, que abençoa e nos renova, nos desafia a não desistir. O Deus cristão é o mais difícil. No Islamismo não há praticamente dogmas. É um Deus soberano, transcendente. No Judaísmo, Deus é transcendente, embora intervenha na História. Há, com efeito, uma interdependência entre Deus e o povo. Deus alimenta o povo e o povo mantém-se obediente às Suas leis. Quando há fome, violência, dispersão, é porque Deus está de costas voltadas para o povo, em consequência do seu pecado. No Cristianismo, Deus encarna, assume a nossa natureza humana. Um Pai, que sendo Amor, Se dá inteiramente. Cristo, Filho de Deus, tudo recebe do Pai e tudo acolhe para partilhar, no Espírito Santo. Há circularidade do amor que deve ser paradigma para que assim nos comprometamos. É um Deus mais difícil de conjugar. Em Jesus, Deus e o Homem...

Alguns recortes:

"De Igreja masculina, hierárquica, sacral, maioritária, representante do sagrado e da administração da graça, tornamo-nos uma Igreja comunitária (...), mais exposta, fraterna; de uma Igreja da verdade e da santidade, chegamos a uma Igreja em busca de sentido, da abertura, da solidariedade; do primado de Deus e de Cristo Nosso Senhor passamos a Cristo nosso irmão, que Se torna companheiro da jornada".

"A Ressurreição é a confirmação, por assim dizer, do ato criador, daquela alegria primordial e elementar, sob as condições de uma história distorcida e sobrecarregada... Na ressurreição, explode o mundo, abre-se como o rasgar de um véu. O riso pascal corresponde a este evento libertador; corresponde a este evento que explode e rasga paisagens de vida".

"O juízo derradeiro de Deus não se destina a uma condenação. Não se trata de um recontro com um observador, não é um relatório nem muito menos um prestar contas! mas, sob o olhar límpido e, talvez também, sorridente de Deus, seremos capazes de rever e avaliar as reais proporções da nossa existência... talz no juízo final possamos pela primeira vez rir de nós, com verdade, sem azedume nem amargura, com um riso capaz de desembaraçar os nós da nossa emaranhada existência".

"O domingo nasce precisamente do olhar positivo e comprazido de Deus que «viu que tudo era bom» (Gn 1, 3.10.12.18.21.31). Deus tem os olhos contemplativos capazes de realçar em tudo a sua vertente positiva. Deus é capaz de consentir, sorrindo, àquilo que simplesmente, é. Fala bem daquilo que vem à existência e daí a capacidade de «bem-dizer»/«abençoar». O domingo... irrompe os mecanismos chantagistas e esmagadores da nossa autoconfirmação e da nossa necessidade de conflitualidade, de nos compararmos, de nos perdermos em mil azáfamas... Faz-nos descobri a melodia de fundo que dá estabilidade à nossa vida e nos convida a afinar por ela. Faz-nos «falar bem» de nós mesmos, do outro e da nossa vida e deixa-nos entrever-nos a nós mesmos, num suave vislumbre, como uma bênção. Todos os sentidos, a vista, a voz, o ouvido, o tato, o gosto, confluem no domingo para criar este tipo de sensibilidade positiva, para o ciclo virtuoso que dinamiza a nossa existência".

"Ser padre significa a aventura desta incarnação do Céu nas cabanas dos homens".

"Em tudo isto, a vida e a pregação de um sacerdote que saiba abençoar refletirá a riqueza da tradição, a vastidão dos estilos de vida cristã no mundo global, as muitas vozes da comunidade, e tornar-se-á advogado dos ausentes, dos pobres, dos excluídos (cada um segundo a sua sensibilidade) - e um pobre representante e advogado da voz e da presença do estilo de Jesus, do seu dar-Se, dizer-Se e mostrar-Se no meio de nós e diante do Pai.


17
Fev 17
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TIMOTHY RADCLIFFE (2017). Na margem do mistério. Ter fé em tempos de incerteza. Prior Velho: Paulinas Editora. 144 páginas.

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Mais uma belíssima leitura que ora recomendamos. Claro, se fazemos uma sugestão é precisamente por pensarmos que é pertinente para nós e também o será para os outros. O autor, Timothy Radcliffe, é inglês, sacerdote dominicano, formado em Oxford e em Paris, é autor de várias obras de espiritualidade, já foi Mestre-geral da Ordem dos Pregadores (dominicanos), e como sacerdote dominicano já percorreu diversas partes do mundo.

Já aqui o sugerimos: TIMOTHY RADCLIFFE - IMERSOS EM DEUS.

Por estes dias lemos e sugerimos três títulos: SILÊNCIO, de Shusaku Endo, PACIÊNCIA COM DEUS, de Tomáš Halík, e A ESTRADA, de Cormac McCarthy e cada um à sua maneira falava das questões que nos coloca a fé em tempos de crise, de adversidade, de confusão e relativismo.

Coincidentes no tempo de leitura, também este título nos fala das dificuldades da leitura da fé, do cristianismo e da Igreja nos tempos atuais, convocando a encontrar novas respostas ou pelo menos a formular novas perguntas, deixando-se surpreender pela graça de Deus e pelos sinais que estão presentes nas novas situações, com coragem e persistência, com disponibilidade para escutar, para abraçar, para acolher, com firmeza e docilidade, com verdade e coragem. Sem renunciar à sua fé, pelo contrário, só uma fé esclarecida, feita de convicções e de alegria, pode dialogar com outras opções de vida e com outras religiões.

Viver e partilhar a esperança. Anunciar o Evangelho da Alegria. A alegria que vem da fé não é cutânea, é baseada em Jesus Cristo, está para lá do sofrimento. Com efeito, a alegria só é consistente tendo experimentado a dor e o sofrimento e a própria morte, não se encerrando aí, mas procurando dar sentido à vida. O Papa Francisco diz-nos que "a fé não deve ser confundida com estar bem ou sentir-se bem, com sentir-se consolado no íntimo, porque temos um pouco de paz no coração. A fé é o fio de ouro que nos liga ao Senhor, a pura alegria de estar com Ele, de estar unido a Ele; é o dom que vale e avida inteira, mas que só dá fruto, se fizermos a nossa parte".

As normas, nesta época, continuam a ser válidas, mas mais o calor humano, a proximidade, a entreajuda, o compromisso com o que nos une, a abertura aos outros, a promoção das diferenças que podem enriquecer-nos e ajudar-nos a crescer. A abertura e a tolerância não é o mesmo que desistência, do que cedência pura e simples aos valores e às convicções dos demais, pelo contrário, a certeza da própria identidade ajuda a dialogar, a fazer pontes, a reconhecer o outro e a olhá-lo olhos nos olhos, sem medo, sem medo de ser provocado, sem medo das perguntas e dos questionamentos. Apostar na misericórdia não é negar o pecado ou as imperfeições. Significa isso sim, que os defeitos, os erros, o pecado, não nos impedem de ser irmãos. O caminho de Jesus é o do perdão e da misericórdia. É um caminho exigente. É levar a sério o outro e a sua liberdade. Se eu desculpo sem mais... isso seria contraproducente. Alguém mata uma pessoa. Deus não lhe vai dizer que não interesse, que passe à frente... Não. Isso não seria misericórdia! A misericórdia reabilita, leva a sério a pessoa, envolve-a para corrigir o caminho e enveredar por um caminho alternativo de bem e de proximidade.

Do mesmo jeito o perdão. Perdoar sempre. Mas nem sempre é possível perdoar. Na cruz, Jesus não diz: eu perdoo-vos, mas sim "Pai perdoa-lhes...". Por vezes é necessário dar tempo. Rezar. Pedir a Deus pelos que nos fizeram mal, nos traíram. Há de chegar um dia que já não quero mal à pessoa, porquanto rezo por ela. Há de chegar a altura que estou pronto para aceitar o outro, apesar do que me fez.

Alegria e música para enfrentar a dor... e a morte... quando não há palavras...

Uma palavra de agradecimento ao colega e amigo sacerdote que me ofereceu este belíssimo livro.


16
Fev 17
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CORMAC McCARTTHY (2010). A Estrada. Lisboa: Relógio d'Água. 192 páginas.

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Um livro que se lê de fio a pavio, sem respirar, com o fôlego a exigir que se continue, pela trama, pela beleza da escrita, pelo conteúdo. Vamos por partes. Há livros que nos caem nas mãos. Há livros que temos de ler. Há livros que encontramos por acaso. Há livros que sugerimos aos outros porque, para nós, são belos, importantes, com um conteúdo relevante, por constituírem literatura premiável, por serem arte.

Na leitura de alguns comentários sobre o filme/romance Silêncio, livro de Shusaku Endo, adaptado ao cinema por Martin Scorsese, encontramos esta crónica de Henrique Cardoso, "Ser cristão no coração da trevas", crónica semana na Rádio Renascença. «No meu processo de conversão, o romance “A Estrada” foi fundamental. Costumo dizer a brincar que este livro de Cormac McCarthy é o meu quinto evangelho. Na altura (2009), já não era ateu e estava naquele centrão teológico chamado agnosticismo, que é uma forma chique de dizer ainda-não-tinha-coragem-para-dar-o-passo-em-direcção-de-Deus».

O cronista comentava o filme de Martin Scorsese, Silêncio, adaptado a partir do romance de Shusaku Endo, que já por aqui recomendei (SHUSAKU ENDO - SILÊNCIO).

A ligação do livro "A estrada" ao filme: «O livro parte desta pergunta: o que fazer no coração das trevas? Num mundo apocalíptico sem qualquer esperança, num mundo que parece o local da batalha onde Lúcifer venceu Gabriel, como é que mantemos a nossa decência? Como é que mantemos a nossa moral num mundo que nem sequer é imoral mas sim amoral, tal é a indiferença perante o mal? A própria ideia de “moral” é concebível num mundo onde até o canibalismo se torna normal? Quase dez anos depois, o filme “Silêncio” de Martin Scorsese remete-me de novo para essa questão. Só que agora, já na condição de convertido, coloco a palavra “fé” onde antes tinha a palavra “moral”. Como é que se serve Deus e Jesus a partir do coração das trevas? A própria ideia de “fé” faz ali sentido?».

Foi nesta altura que pessoalmente achei crucial ler o "Silêncio" mas ler também "A Estrada". Acabada a leitura de um, logo iniciei o outro.

É um daqueles livros memorável. Um homem com o seu filho, ao longo de uma estrada (sem fim), a procurar sobreviver, entre escombros, encontrando pessoas más (algumas serão boas), um mundo destruído, ardido, desumano, onde a vida escasseia, e assim também os alimentos... vivendo um dia de cada vez e uma noite de cada vez, em sobressalto. O pai que tudo faz para proteger o filho, num diálogo vivo em que sobrevém a vida e os sentimentos. No filho assoma a bondade, a inocência. No pai o pragmatismo, o instinto de sobrevivência. Apoiam-se um ao outro. Quando falta tudo e também a esperança parece desaparecer, apoiam-se um ao outro, até ao fim... O perigo de um morrer pode significar a morte do outro. O pai não deixará que o filho morra e se morrer também ele acabará com a sua vida, são o mundo um do outro.

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Fome, frio, medo, "A Estrada é a história verdadeiramente comovente de uma viagem, que imagina com ousadia o futuro onde não há esperança, mas onde um pai e um filho, 'cada qual o mundo inteiro do outro', se vão sustentando através do amor... é uma meditação inabalável entre o pior e o melhor de que somos capazes: a destruição última, a persistência desesperada e o afeto que mantém duas pessoas vivas en«frentando a devastação total" (contracapa).

Hei de gostar de ver o filme...


14
Fev 17
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SHUSAKU ENDO (2017). Silêncio. (3.ª Edição) Alfragide: Publicações Dom Quixote. 272 páginas.

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Na Viagem à Polónia, o Papa Bento XVI, como já o tinha feito o Seu Predecessor, João Paulo II, deslocou-se ao campo de extermínio Auschwitz-Birkenau, no dia 28 de maio de 2006. As primeiras palavras do Papa Bento XVI: «Tomar a palavra neste lugar de horror, de acúmulo de crimes contra Deus e contra o homem sem igual na história, é quase impossível e é particularmente difícil e oprimente para um cristão, para um Papa que provém da Alemanha. Num lugar como este faltam as palavras, no fundo pode permanecer apenas um silêncio aterrorizado um silêncio que é um grito interior a Deus: Senhor, por que silenciaste? Por que toleraste tudo isto? É nesta atitude de silêncio que nos inclinamos profundamente no nosso coração face à numerosa multidão de quantos sofreram e foram condenados à morte; todavia, este silêncio torna-se depois pedido em voz alta de perdão e de reconciliação, um grito ao Deus vivo para que jamais permita uma coisa semelhante».

O Papa alemão sublinha o silêncio de Deus e o grito das vítimas, 6 milhões de polacos, um quinto da sua população, que perderam a vida. E o discurso continuava: «Quantas perguntas surgem neste lugar! Sobressai sempre de novo a pergunta: Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou? Como pôde tolerar este excesso de destruição, este triunfo do mal? Vêm à nossa mente as palavras do Salmo 44, a lamentação de Israel que sofre: "... Tu nos esmagaste na região das feras e nos envolveste em profundas trevas... por causa de ti, estamos todos os dias expostos à morte; tratam-nos como ovelhas para o matadouro. Desperta, Senhor, por que dormes? Desperta e não nos rejeites para sempre! Por que escondes a tua face e te esqueces da nossa miséria e tribulação? A nossa alma está prostrada no pó, e o nosso corpo colado à terra. Levanta-te! Vem em nosso auxílio; salva-nos, pela tua bondade!" (Sl 44, 20.23-27). Este grito de angústia que Israel sofredor eleva a Deus em períodos de extrema tribulação, é ao mesmo tempo um grito de ajuda de todos os que, ao longo da história ontem, hoje e amanhã sofrem por amor de Deus, por amor da verdade e do bem; e há muitos, também hoje. Nós não podemos perscrutar o segredo de Deus vemos apenas fragmentos e enganamo-nos se pretendemos eleger-nos a juízes de Deus e da história».

Estas palavras de Bento XVI bem podem servir de mote à leitura e a um possível enquadramento.

Com a adaptação ao cinema, pela mão de Martin Scorsese, o romance de Shusaku Endo ganhou novo fôlego e por certo baterá alguns recordes de vendas. E será merecido. Boa literatura. Bom enredo. A história romanceada tem tudo para prender o leitor do início até ao fim.

Não sendo histórico, o romance parte da história de evangelização do Japão, onde os portugueses tiveram um papel importante, como por exemplo São Francisco Xavier. No Oriente outros desembarcaram para levar o Evangelho até o fim do mundo, como São João de Brito, missionário português que deu a vida na Índia, em tormentos, torturas e sofrimentos como os que são relatos neste romance.

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A história parte da apostasia de Cristóvão Ferreira, enviado pela Companhia de Jesus em Portugal para a evangelização do Japão. Submetido à tortura da fossa, de mãos e pés atados, de cabeça para baixo, sobre excrementos de pessoas e de animais... Era superior provincial, era um exemplo para clero e leigos. Mas apostatou.

Sebastião Rodrigues (a personagem principal do romance), com Francisco Garpe, também pertencentes à Companhia de Jesus, não querendo acreditar no que sucedeu a Cristóvão Ferreira - tinha sido professor deles e era uma referência intelectual, moral, espiritual - querem tirar a limpo o que sucedeu e vão para o Japão. Acolhidos numa aldeia, mas colocando em perigo os aldeões, separam-se e fogem. Sebastião Rodrigues é apanhado. Com ele, a reflexão sobre o silêncio de Deus e o grito de tantos cristãos que morrem em nome de Cristo, por serem cristãos. Para entrarem no Japão, fazem-no através de Macau. Para isso contam com Kichijiro, que tinha fugido, atraiçoado toda a família, atraiçoa Rodrigues, por duas vezes, vendendo-o como Judas a Cristo. Aqui entra a reflexão de Endo, japonês e católico. Rodrigues renuncia à fé ou publicamente nega a Cristo para defender os outros cristãos? Tal como Cristóvão Ferreira, abjurando permite que outros cristãos sejam libertados.

Vale a pena ver a leitura do provincial dos Jesuítas em Portugal, em entrevista à Agência Ecclesia, em que sublinha a grande oportunidade - o filme / romance - para confrontar as várias dimensões da fé. A obra recorda uma página histórica do encontro difícil entre o cristianismo (e o Ocidente) e as tradições japoneses que inicialmente acolheram com benevolência o cristianismo e depois moveram-lhe uma grande perseguição. Para o Padre José Frazão Correia é uma grande oportunidade para revisitar a questão dramática da fé. A dificuldade em permanecer firme num ambiente de extrema perseguição. Revisitar a experiência da fé a partir da sua dimensão dramática e equívoca, várias perspetivas possíveis para enquadrar a questão da adesão a Jesus e da sua visibilidade pública.

O filme/romance não nos permite fazer uma leitura a branco e preto, bem e mal, afirmação da fé pelo martírio ou negação da fé pela apostasia. Aqui percebemos que a aproximação à fé, a afirmação de fé em contextos de grande perseguição, de um grande sofrimento, põe em reserva um juízo demasiado fácil… Publicamente o personagem principal, o padre Sebastião Rodrigues, renuncia à fé, mas o realizador, tal como o autor, faz-nos perceber que no íntimo do padre jesuíta há um percurso de fé e estamos longe de concluir que a sua apostasia pública seja uma renúncia à fé no mais íntimo do seu coração.

O filme tem provocado diversos apontamentos e, claro, também a leitura do romance. Segundo Laurinda Alves - o que não gostei no Silêncio - falta sublinhar as razões da fé dos japoneses, o amor de Deus para connosco e de nós para com Deus. «No século XVII os missionários convertiam a partir do testemunho de Jesus e não de uma ideia de Deus distante, castigador, do Antigo Testamento. Por isso, esperava ver no filme este amor novo dos filhos e amigos, dos irmãos e companheiros de Jesus que querem viver para amar e servir, também ele traduzido em imagens e diálogos. Isto para que o amor de Deus ficasse a fazer eco a par do Seu silêncio e dos dramas da negação sob tortura».

 

Alguns comentários-entrevistas: 


12
Fev 17
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TOMÁŠ HALÍK (2014). Paciência com Deus. Oportunidade para um encontro. (3.ª Edição). Prior Velho: Paulinas Editora. 288 páginas.

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Tomáš Halík, neste título, Paciência com Deus, e que tem como subtítulo “Oportunidade para um encontro”, procura perceber o Zaqueu que se esconde no sicómoro (figueira…), mas que Deus descobre por entre a folhagem. Vivemos num tempo em que podemos, com alguma facilidade, catalogar os que têm fé e os que não têm, os crentes e os ateus. O autor recusa uma leitura apressada, fácil, em que se crie uma divisória nítida. Há muitos Zaqueus para os quais temos que olhar com carinho, com atenção. Deus escapa-nos, não se enforma nas nossas conceções racionais. É mistério que, no entanto, está presente em cada um de nós, pois todos fomos/somos criados à Sua imagem e semelhança. Não nos podemos apossar d’Ele, pois também se encontra nos outros…

Um dos textos citados pelo autor é o do profeta Elias.

Elias, depois de matar os profetas idólatras, é avisado pelo Rei Acaz que o mesmo lhe será feito. Elias sai da cidade e caminha pelo deserto. Já esgotado, pede ao Senhor que lhe tire a vida. O anjo do Senhor aparece-lhe por duas vezes e ordena-lhe: «Levanta-te e come, pois tens ainda um longo ca­mi­nho a per­correr». Elias faz como o Senhor lhe ordena e dirige-se para o monte Horeb. Aí passa a noite. O Senhor faz saber a Elias que vai passar… «Passou um vento impetuoso e violento, que fendia as montanhas e quebrava os rochedos diante do Senhor; mas o Senhor não se encontrava no vento. Depois do vento, tremeu a terra. Passou o tremor de terra e ateou-se um fogo; mas nem no fogo se encontrava o Senhor. Depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma brisa suave. Ao ouvi-lo, Elias cobriu o rosto com um manto, saiu e pôs-se à entrada da caverna» (1 Reis 19, 1- 14).

Deus nem sempre é evidente. Em questões de fé nem tudo é branco e preto. Um crente passa por momentos de treva, de dúvida e hesitação. Um “ateu” pode estar perto de Deus, em busca, a percorrer um caminho de aproximação. 

É, em meu entender, uma das linhas condutoras do texto de Tomáš Halík, Paciência com Deus, procurando fazer pontes, prevenir juízos precipitados, para não encerrar o próprio Deus em ideias preconcebidas e limitando a Sua ação.

Deus poderá não ser tão evidente como por vezes se faz crer.

Por um lado, em Jesus Cristo, Deus manifesta-Se em plenitude, revela o Seu rosto. Mas não Se deixa aprisionar por uma pessoa ou por uma instituição ou por uma religião. Quem se convence que possui Deus está perto de blasfemar, pois Deus é e continuará a ser Mistério.

Por outro lado, segundo o teólogo checo, o caminho da fé não é linear. A busca honesta e decidida tem avanços e recuos. Deus nem sempre está onde O queremos, pode estar onde não pensamos. Elias é surpreendido. Deus não está na tempestade mas na brisa suave, onde quase não Se percebe.

Santa Teresinha, no momento de especial sofrimento vive a “noite da fé”, contudo, não diminui o amor que permanece até à eternidade.

Em Nietzsche, na proclamação da morte de Deus, segundo o autor, também se intui o silêncio dos crentes que deixaram que Deus fosse morto sem protestarem, sem reivindicarem a Sua vida e a Sua presença…

Mais perigoso que um ateu convicto é um crente apático!

O diálogo faz-se entre ateus convictos e lutadores e crentes em busca. Entre crentes apáticos, seguros de si mesmos, e ateus indiferentes não há diálogo nem discussão possível. Situam-se uns e outros na denúncia de Nietzsche, Deus morreu e também o matámos. O anúncio não deu lugar ao protesto contra a morte de Deus. Foi um grito que passou com indiferença.

Esta é mais uma belíssima obra e provocação do autor chego, convidando-se a uma busca constante, permitindo que os Zaqueus se aproximem e, no momento em que também nós formos e nos sentirmos Zaqueus, nos deixemos interpelar pelas palavras e pelo desafio de Jesus Cristo.

 

(o presente texto foi elaborado a partir de dois textos

publicados na Voz de Lamego, sob o título:

Silêncio, Deus não mora à superfície (31 de janeiro de 2017)

Deus não mora à superfície (7 de fevereiro de 2017)

 

Sugiro a leitura do seguinte comentário: 


05
Jan 17
publicado por mpgpadre, às 11:00link do post | comentar |  O que é?

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       Quando ouvimos uma afirmação desta logo somos tentados a responder rapidamente que Deus nos fala pela criação, pelas pessoas, pela beleza e harmonia da natureza, pelos acontecimentos, fala-nos pela Palavra revelada, palavra de Deus em palavras humanas, e, para nós cristãos, fala-nos em Jesus Cristo, a Palavra de Deus encarnada.
       É uma certeza que nos vem da fé e que é comum a outras religiões ou convicções religiosas. Também o Antigo Testamento, que nos une aos judeus, na primeira Aliança e na revelação da vontade de Deus através das gerações, se narram as intervenções de Deus, por sinais, por anjos, pelos acontecimentos históricos, pelos patriarcas, juízes, profetas e reis, que acolhem a Palavra de Deus e a comunicam ao povo.
       Os profetas são o expoente máximo desta comunicação de Deus ao seu Povo. Chamados e enviados por Deus, são os Seus mensageiros especiais. Alertam. Chamam à atenção para os desvios, os pecados e os afastamentos dos mandamentos, cujas consequências são nefastas para uma sadia convivência social. Vão junto dos reis para os aconselharem, para denunciarem injustiças, prepotências, para lhes relembrar que a realeza é derivada, isto é, são reis em nome de Deus e é em nome de Deus que devem servir e cuidar de todo o povo, especialmente dos seus membros mais frágeis, promovendo a coesão social, que permitirá, por sua vez, a defesa contra os ataques dos inimigos. Acalentam a esperança. Nos momentos de maior dificuldade, nomeadamente no Exílio, recordam tudo quanto Deus fez pelo povo, o que aconteceu para que estivessem nessa situação e o que os aguarda no futuro. Há que perseverar, pois Deus continuará a guiá-los para a felicidade, no regresso à terra prometida.
       Jesus é o Profeta por excelência. É a própria Palavra de Deus, feita vida, feita pessoa, encarnando. É rosto e presença do Pai. É a eternidade que se entranha no tempo.
       Mas voltemos ao desafio inicial… Se Deus falasse, poderia dizer claramente o que tinha acontecido e não precisávamos de ir a tribunal! Mas pronto, a justiça acabou por prevalecer… Deus sabe o que faz, não dorme. Se não for cá, há de ser no outro mundo!
       Fé simples, mas profunda! A sabedoria do coração que dá esperança, ilumina, sossega, desafia, mas que também pode confundir! A fé nem sempre é fácil, sobretudo quando as coisas não são como projetamos, quando as injustiças prevalecem apesar e além da fé, da confiança em Deus e nos seus desígnios, além da oração e dos sacrifícios… E então há que redobrar a oração e a confiança em Deus!
 
Publicado na Voz de Lamego, n.º 4388, de 22 de novembro de 2016


05
Nov 16
publicado por mpgpadre, às 15:00link do post | comentar |  O que é?

1 – É mais fácil acreditar em Deus que na vida eterna. A sensibilidade popular professa a fé num Deus bom, generoso, que protege e abençoa. Quando se fala na vida além da morte ou na ressurreição já se colocam mais interrogações. Ninguém veio do outro lado dizer-nos como é, só sabemos até ao momento da morte! Cá se fazem, cá se pagam! O bem e o mal serão retribuíveis durante a existência terrena... mesmo que saibamos de tantas injustiças das quais os prejudicados nunca foram ressarcidos nem os fautores foram penalizados! O cemitério como última morada! Todos temos um destino comum: a terra…

Augusto Cury, célebre psiquiatra brasileiro, ao investigar a inteligência humana, chega à conclusão que seria um absurdo que tudo acabasse com a morte, seria em vão todo o esforço feito por melhorar a vida das pessoas, a sabedoria acumulada, as descobertas, a própria inteligência que exige e luta pela eternidade. Ateu, através das suas investigações, chega à conclusão que a identidade da pessoa há de sobreviver à morte biológica, garantindo que a identidade de cada um não se perde para sempre. Assim se torna crente. A fé em Deus é decorrente da exigência da identidade sobreviver ao tempo e à história.

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2 – Escutemos o Evangelho. Logo de entrada o evangelista fala nos saduceus que se aproximam de Jesus, dizendo que eles não acreditam na ressurreição. São religiosos, frequentam o Templo, vivem as exigências da Lei judaica, mas não acreditam que haja vida além da vida temporal.

Recorrendo aos ensinamentos de Moisés, os saduceus transportam para a eternidade as mesmas vivências e tradições. Segundo a Lei, pelo casamento se garantia a linhagem familiar. Se o homem morresse sem descendência, os irmãos assumiam o encargo de lhe dar descendência desposando a mulher (ou seja, a cunhada) até que gerasse um filho. Neste exemplo, todos os irmãos a desposaram, mas nenhum lhe deu descendência. Havendo continuidade material-histórica na eternidade, com quem ficava a mulher?

A resposta de Jesus é clarificadora: «Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento. Mas aqueles que forem dignos de tomar parte na vida futura e na ressurreição dos mortos, nem se casam nem se dão em casamento. Na verdade, já não podem morrer, pois são como os Anjos, e, porque nasceram da ressurreição, são filhos de Deus. E que os mortos ressuscitam, até Moisés o deu a entender no episódio da sarça ardente, quando chama ao Senhor ‘o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob’. Não é um Deus de mortos, mas de vivos, porque para Ele todos estão vivos».

A ressurreição dos mortos é agrafada à fé em Deus, pois para Ele todos estão vivos.


Textos para a Eucaristia (C): 2 Mac 7, 1-2. 9-14; Sal 16 (17); 2 Tes 2, 16 – 3, 5; Lc 20, 27-38.

 

REFLEXÃO DOMINICAL COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

e no nosso outro blogue CARITAS IN VERITATE


28
Out 16
publicado por mpgpadre, às 11:02link do post | comentar |  O que é?

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Imaginemos um pai severo, com muitas regras e castigos. Tão distante dos filhos que se faz respeitar pelo medo. Basta um olhar! E se for preciso desapertar a fivela do cinto...
Imaginemos um pai compreensivo, dialogante, carinhoso com os filhos, estabelece regras explica-as, negoceia fronteiras e limites...
Passados 30 anos, quais os filhos estarão mais próximos dos pais?
Há pessoas que se atêm à religião mais pelo medo, pela presença demoníaca, pela escrupulosidade do pecado, que pelo convite acolhedor de Jesus e do Seu Evangelho de Paixão e de Misericórdia.
O Ano Jubilar acentuou a dinâmica do amor de Deus para com a humanidade, assumido e plenizado na vida de Jesus, na Sua morte e ressurreição, e o desafio à Igreja para ser Casa da Misericórdia, assomando a beleza e a alegria da Boa Nova da redenção. 
Há um caminho importante a fazer. O caminho de cada um – lembrando as palavras do então cardeal Ratzinger: há tantos caminhos quantas as pessoas – há de aproximar-nos de Jesus, Caminho, Verdade e Vida. Com Ele experimentamos libertação, docilidade, prontidão, serviço. Não ameaça, atemorização. Jesus não olha para o inferno mas para o Céu, para o Pai.
Ao longo dos séculos, muitos círculos eclesiais acentuaram o medo e à ameaça. As descrições do inferno pareciam ser testemunhos de quem lá tinha estado. O inferno era garantia da nossa vida. Era preciso fazer tudo para ganhar o céu, pelo sacrifício, pela mortificação, anulando-se como pessoas e colocando-se em atitude de subserviência, à espera que à custa de tantos sofrimentos Deus pudesse compadecer-se. É o contrário, o Céu é garantia e a vida eterna está aí como dom que nos responsabiliza com os outros.
A vida, a pregação e a oração dos cristãos há de estar preenchida com ternura e o amor de Deus. Nãos se trata de negar a doutrina da Igreja, assente nas palavras e nos gestos de Jesus. Porém, seguindo-O, veremos a bondade e a filiação amistosa com o Pai. O inferno é uma possibilidade real. Deus leva-nos a sério, respeita a nossa liberdade e o nosso não. Mas como cristãos e como Igreja vivemos do amor de Deus. Jesus procura libertar, elevar, envolver. A Cruz é a assunção do amor levado até à última gota de sangue. Com a Sua ressurreição, Jesus coloca a nossa natureza humana na glória do Pai, de onde nos atrai e desafia.
 
Publicado na Voz de Lamego, n.º 4380, de 27 de setembro de 2016


publicado por mpgpadre, às 11:01link do post | comentar |  O que é?

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A religião tem-se imposto pelo medo, pela ameaça, pela certeza de forças ocultas, poderosas, capazes de aniquilar o ser humano para sempre. Parece que quando maior o medo e o desconhecimento, maior o número dos que engrossam as fileiras da religião.
Esta servirá para aplacar a ira dos deuses, para compensar, pelo sacrifício, as ofensas para com um deus-supremo, Juiz, Vigilante, Patrão, Todo-poderoso. 
Será sempre mais fácil dizer que os padres destroem a religião.
Quando se dispensam ou alteram certas tradições populares, logo as pessoas sublinham que os padres hão de destruir a religião. Bem entendido, nem seria assim tão mal, se estivermos a falar da religião assente mais nos méritos humanos do que na gratuidade da salvação de Deus oferecida a todos os homens.
Neste ano jubilar tem-se acentuado o atributo maior de Deus, a Misericórdia, cujo Rosto é Jesus Cristo, nas palavras e nas obras, na vida e na morte, entendida como entrega até ao fim. Na Ressurreição de Jesus, a certeza do amor de Deus e da Sua misericórdia, que está acima de qualquer limitação.
Para alguns, sublinhar demasiado a misericórdia de Deus pode levar à desconstrução da religião composta por uma série de exigências, sacrifícios, sujeita a ameaças, anúncios de cataclismos sempre e quando o ser humano não cumprir com a vontade de Deus.
Por um lado, na Igreja como em outros movimentos religiosos, sempre que nos aproximamos do fim dos séculos ou do milénio, o medo que o mundo acabe gera mais pessoas à procura da proteção da religião. Se a ameaça termina, parece que as pessoas voltam às suas vidas e se esquecem de Deus e sobretudo se esquecem das suas obrigações com a comunidade. Poder-se-á agrafar aqui a máxima, só nos lembramos de santa Bárbara quando troveja.
Por outro lado, Jesus Cristo destruiu efetivamente a religião passada e do passado. Aproximou-nos de Deus e fez com que Deus chegasse tão perto de nós que pudesse ser perseguido, maltratado, injuriado, e morto. Em Jesus, Deus assume as chagas da nossa fragilidade e as limitações do tempo e do espaço. Ao mesmo tempo, ultrapassa as fronteiras das religiões e do templo. Com Jesus, Deus está ao alcance da mão. É um Deus bom, misericordioso, compassivo. Mas quem disse que ternura não pode exigir e pressupor a justiça? A misericórdia de Deus acaricia-nos além do perdão dos pecados. Com efeito, o amor afasta o temor, como diz Santa Faustina no seu diário.
No final, prender-nos-á mais o amor que o temor!

 

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4379, de 20 de setembro de 2016


15
Out 16
publicado por mpgpadre, às 15:00link do post | comentar |  O que é?

1 – A confiança é o chão que nos humaniza, fortalecendo os laços de amizade e de proximidade. Confiar implica-nos, por inteiro, na relação com os outros. A confiança é traduzível, no plano espiritual, pela fé. Fé e confiança são faces da mesma moeda. Confiamos porque temos fé. A fé exige de nós a confiança n'Aquele em quem depositamos a nossa esperança, a nossa vida.

A persistência exige a fé e a confiança. Persistimos porque confiamos que seremos atendidos.

No domingo passado, Jesus lembrava a fé e a gratidão. Dos 10 leprosos curados só um volta para agradecer a Jesus, louvando a Deus. Jesus sublinha o poder da fé: «Levanta-te e segue o teu caminho; a tua fé te salvou».

A fé hoje leva-nos à confiança e à persistência. O discípulo é aquele que não desiste. É conhecido um ditado sobre a santidade: santo é um pecador que não desiste. Discípulo é aquele que acredita no Deus bom e fiel revelado em Jesus Cristo, mesmo e apesar de todos os contratempos que vai experimentando na sua vida.

Isso mesmo diz Jesus aos seus discípulos sobre a oração e a necessidade de perseverar: «Em certa cidade vivia um juiz que não temia a Deus nem respeitava os homens. Havia naquela cidade uma viúva que vinha ter com ele e lhe dizia: ‘Faz-me justiça contra o meu adversário’. Durante muito tempo ele não quis atendê-la. Mas depois disse consigo: ‘É certo que eu não temo a Deus nem respeito os homens; mas, porque esta viúva me importuna, vou fazer-lhe justiça, para que não venha incomodar-me indefinidamente’».

A fé não é fácil, sobretudo quando as dificuldades e os problemas se avolumam. Todos queremos rapidamente ultrapassar os momentos de treva, de dor, de aflição. Mas nem sempre é como desejaríamos. A fé leva-nos a colocar em Deus a solução da nossa vida. E parece que Deus não ouve o nosso clamor. Jesus acrescenta: «Escutai o que diz o juiz iníquo!... E Deus não havia de fazer justiça aos seus eleitos, que por Ele clamam dia e noite, e iria fazê-los esperar muito tempo? Eu vos digo que lhes fará justiça bem depressa».

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2 – «Mas quando voltar o Filho do homem, encontrará fé sobre a terra?».

Jesus dá como adquirido a eficácia da oração. Deus responderá, não como juiz, mas como Pai de Misericórdia. Deus justifica-nos, respondendo às nossas preces e anseios. Em contrapartida, preservaremos na fé? Ou desistiremos nas primeiras dificuldades? Confiaremos como Abraão, como Job, como Jesus, além de toda a esperança?

A experiência dos apóstolos ao tempo de Jesus é titubeante. Até ao fim. O medo apodera-se deles. Pedro nega-O por três vezes. Judas trai-O gratuitamente! Os demais fogem a sete pés. Na manhã de Páscoa tudo recomeça! Um novo dia. Uma vida nova. Um tempo novo. Uma nova oportunidade. Jesus está vivo e aparece a Maria Madalena. Aparece às mulheres! Mas continuam incrédulos. Aparece aos discípulos de Emaús. Pedro e João vão ver com os próprios olhos o que se passa no túmulo de Jesus. Nesse dia, Jesus colocar-Se-á no meio deles. Como antes! Como depois. Como nunca! Tomé faz a experiência do não-encontro ou do desencontro. Está fora. Está longe. Não está na comunidade! E não vê Jesus! Não O vislumbra nem nas palavras nem no deslumbramento dos outros discípulos! Verá depois, quando Jesus novamente Se colocar no meio, com as palavras com que deles se despediu, com o sinal dos cravos nas mãos e nos pés e as feridas das lanças! E então, nova luz, Tomé faz a experiência de encontro com Jesus, vivo, ressuscitado, presente na comunidade!

A fé transforma-os, o encontro com Jesus Ressuscitado agrafa-os ao anúncio do Evangelho. Porém, haverá outras vezes e outros momentos em que a fé há de vacilar, na perseguição sem tréguas, nas divisões dentro das comunidades, nos conflitos e contendas.


Textos para a Eucaristia (C): 2 Reis 5, 14-17; Sl 97 (98); 2 Tim 2, 8-13; Lc 17, 11-19.

 

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01
Out 16
publicado por mpgpadre, às 22:52link do post | comentar |  O que é?

1 – A fé expressa-se e aprofunda-se no serviço. A vocação primeira do cristão é seguir Jesus e amar como Ele amou, servindo como Ele serviu, dando a vida como oblação para redenção de todos. Quem não vive para servir não serve para viver. Ninguém pode dar o que não tem, mas quem se dá acabará por se encontrar e se descobrir, e encontrar sentido na entrega e na dedicação aos outros.

Em vez de esperarmos que os outros nos amem, ou esperar que os dias sejam mais solarengos, ponhamo-nos em postura de serviço. Andas abatido, triste, desencantado, preocupado? Presta atenção, vê quem precisa de ti, do teu abraço, do teu olhar, da tua alegria! Não esperes que te solicitem ajuda, vai ao encontro de quem precisa. Ao ajudares os outros começas a ajudar-te a ti, e a vida avança…

Ficar em casa, isolar-se, ter pena de si mesmo, não é solução. Sair, procurar ajuda, ajudar os outros, é meio caminho andado para curar a solidão, o vazio, as trevas que se querem ocupar de ti.

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2 – Jesus inspira os Apóstolos. Bento XVI colocou em evidência que a fé se comunica com a vida, por atração. O papa Francisco fala em atração maternal. Os discípulos sentem-se atraídos com a fé de Jesus e com o Seu proceder. Testemunham a cumplicidade de Jesus com o Pai. Por isso Lhe pedem para que os ensine a rezar. Por isso Lhe pedem doses mais concentradas de fé: «Aumenta a nossa fé».

Jesus vê a pouca fé dos discípulos e desafia-os a aprofundá-la. «Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: ‘Arranca-te daí e vai plantar-te no mar’, e ela obedecer-vos-ia».

Como aumentar a nossa fé? Rezar mais! Ler e meditar a Palavra de Deus, especialmente dos Evangelhos! Participar nos Sacramentos, especialmente na Eucaristia, onde Jesus Se dá no pão e no vinho que consagrados se tornam no Seu corpo e no Seu sangue, oferenda que nos salva e nos projeta para a eternidade, comprometendo-nos com o tempo presente, com a história e com o mundo.

Jesus leva mais longe o enriquecimento da fé: o serviço. "Quem de vós, tendo um servo a lavrar ou a guardar gado, lhe dirá quando ele voltar do campo: ‘Vem depressa sentar-te à mesa’? Não lhe dirá antes: ‘Prepara-me o jantar e cinge-te para me servires, até que eu tenha comido e bebido. Depois comerás e beberás tu’?. Terá de agradecer ao servo por lhe ter feito o que mandou?".

Depois de realizarmos tudo o que nos compete, "Somos inúteis servos: fizemos o que devíamos fazer". Não se trata de uma questão de dignidade, trata-se do nosso agir e da nossa postura. O serviço aos demais não é uma opção, é uma obrigação, não imposta a partir do exterior, mas acolhida em simultâneo com a fé, com a adesão ao caminho de Jesus. O discípulo terá que partir no encalço do Mestre.

 

3 – Para a maioria de nós a fé é mais fácil quando tudo nos corre bem. Temos motivos para agradecer, para sorrir, para desfrutar a vida, o tempo é-nos mais favorável.

Há situações em que a vida se revela madrasta. Tudo corre mal.  Quanto maior a fé que "tínhamos", maior o desencanto com Deus. Éramos assíduos à oração, participávamos nas propostas da Igreja, sempre contribuímos com a nossa esmola para ofertórios específicos e, agora, Deus deixou-nos ficar mal?!

O profeta Habacuc interpreta o nosso sentir: «Até quando, Senhor, chamarei por Vós e não me ouvis? Até quando clamarei contra a violência e não me enviais a salvação? Porque me deixais ver a iniquidade e contemplar a injustiça? Diante de mim está a opressão e a violência, levantam-se contendas e reina a discórdia?»

No dia 27 de setembro, memória litúrgica de São Vicente de Paulo, na homilia matutina, na Casa de Santa Marta, o papa Francisco lembrava que os comprimidos para dormir ou uns copitos para esquecer não resolvem a vida. Além do compromisso com os outros, a oração. “Rezemos ao Senhor para que nos conceda a graça de reconhecer a desolação espiritual, a graça de rezar quando estivermos submetidos a este estado de desolação espiritual e também a graça de saber acolher as pessoas que passam por momentos difíceis de tristeza e de desolação espiritual”.


Textos para a Eucaristia (C): Hab 1, 2-3; 2, 2-4; Sl 94 (95);2 Tim 1, 6-8. 13-14; Lc 17, 5-10.

 

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29
Ago 16
publicado por mpgpadre, às 11:00link do post | comentar |  O que é?

PABLO d'ORS (2014). Sendino está a morrer. A elegância do adeus. Prior Velho: Paulinas Editora. 80 páginas.

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       Pablo d'Ors nasceu em Madrid em 1963. É sacerdote católico e escritor. É consultor do Pontifico Conselho da Cultura (Vaticano), por designação do Papa Francisco. Fundou a Associação Amigos do Deserto, para viver e aprofundar a prática da meditação. Publicou, entre outros títulos, a triologia do silêncio: O amigo do deserto (2009), O esquecimento de si (2013) e A biografia do Silêncio, que já aqui recomendámos.

       No pequeno livro que agora sugerimos, o autor parte da sua condição de capelão hospitalar, onde encontra a Dra. África Sendino, que lhe pedirá para ajudar a escrever um testemunho sobre a vida, a doença, o sofrimento, a morte e, sobretudo, a fé, a confiança em Deus, a entrega confiante nas mãos do Pai.

       Médica descobre que tem cancro da mama. Começa então um diálogo profundo com Deus. «Fui à capela de Traumatologia e ajoelhei-me - escreve: - "Senhor (rezei), só me ocorre dizer-te que quero que sirva para tua maior glória o que me tocar viver a partir de agora. Tu saberás o caminho que inicias. Tu saberás aonde me conduzes»".

       Pablo d'Ors conhece-a nas últimas semanas de vida e acabará com a missão de escrever o seu testemunho, pegando nas notas que ela vai escrevendo, cada vez com mais dificuldade, menos texto, pouco perceptível. Para o autor, conhecendo e convivendo com Sendino vai tendo a perceção que ela é santa, com as suas imperfeições e limitações, mas também com a sua serenidade e confiança em Deus. "O que a meus olhos faz com que Sendino seja grande não é a morte, mas o morrer, o ir morrendo, o modo de morrer".

       Um dos primeiros aspetos que Pablo d'Ors sublinha é a elegância com que Sendino está deitada na cama do hospital. "Sim, Sendino era bela: tinha um olhar franco e limpo, um sorriso tímido e amável - nunca coquete -, uma pele branca e lisa. umas mãos gráceis - embora grandes - e uma feminilidade totalmente natural, nada importada ou estudada e, por isso, talvez, tão encantadora como desconcertante".

       Outro os aspetos que o autor sublinha é a clareza no falar, exprimindo as ideias de forma consistente, talvez demasiado analítica. Dedicado ao ensino de medicina, facilidade da comunicação oral. Curiosamente, maior dificuldade na escrita.

       Outro dos aspetos relevantes: o seu altíssimo nível espiritual, embora Sendino vivesse a sua fé com descrição. "Viveu a sua doença na perspetiva da Anunciação. Como a Virgem Maria, também ela deu à luz uma criatura: por virtude da graça, Sendino alumiou-se a si mesma para a eternidade. Eu sou testemunha".

        Como confidencia a  Pablo d'Ors, pediram-lhe para escrever sobre a sua enfermidade e, por isso, pede ajuda ao autor. "Nunca vi um processo de declínio e morte tão eloquentemente refletido nas folhinhas que Sendino me entregava sempre que a ia visitar... A progressão do seu cancro não se percebia somente na brevidade dos seus escritos, mas também na sua forma estilística, progressivamente mais frouxa, e até na caligrafia que, no final, era ilegível".

       Dos escritos confiados ao autor: "Chamo-me África Sendino e sou médica internista. Desde que me foi diagnosticado um cancro da mama, fui submetida a um tratamento cirúrgico de quimioterapia e radioterapia. Num sábado apalpo um nódulo e na segunda, às nove, fui recebida pelo patologista. Às nove e um quarto, saio do seu laboratório com um novo panorama vital: tenho cancro. De repente, eu era uma nova personagem: o médico adoece; e, depois, compreendi o que me tocava com a doença (uma conhecida com a qual até então eu tinha lutado diariamente) era dançar com ela. Também me veio à cabeça a imagem das duas margens de um rio. Inesperadamente, sem me consultar, tinham-me passado para a outra margem. Podia chorar, queixar-me, espernear... mas na verdade, o barco já se tinha ido embora. Teria de esperar que chegasse e, entretanto..., era apenas o que poderia fazer! Podia passear naquela margem, por exemplo, contemplar a outra minha nova perpetiva, deter-me tranquilamente diante desse rio, molhar os pés... O doente não deve ser apenas paciente; deve ser o protagonista da sua enfermidade" (Uma das primeiras entradas do diário de Sendino, dia em que lhe detetaram o cancro, 19 de outubro de 1999).

       As notícias que vão chegando não são animadoras. "Quero deixar claro - continua Sendino, quando relata a segunda fase do seu temor - que o facto de a doença pressupor um período de perdas não sentencia irremediavelmente que seja, realmente, um período de perda para mim mesma. Não, de modo nenhum! Mesmo sendo dolorosa a comprovação do fracasso do tratamento para erradicar o tumor, experimentei que a minha recaída tinha algumas vantagens: por exemplo, já não me esperariam tantas novidades, excetuando, naturalmente, a perpetiva de um desenlace final. Então, a morte apresentou-se como uma convidada para a festa".

       Mais adiante: "A doença vai ter connosco onde estamos. Quando me sobreveio a mim, soube que poderia vivê-la como uma circunstância adversa e até certo ponto irritante ou, ao contrário, como uma imensa e imerecida ocasião de aprendizagem. Decidi que a minha perpetiva seria a segunda. O meu primeiro desejo foi percorrer dignamente este caminho em benefício da Igreja. Aceitei ingressar num curso prático de patologia: a doença vivida na minha própria carne. Se superasse o cancro - disse a mim própria -, voltaria enriquecida à prática assistencial. Se saísse com vida, eu seria uma interlocutora vália para os doentes".2016-07-29 14.45.34.jpg

       Sendino apoia-se, para a oração, numa expressão de São Pedro: "Confiai a Deus todas as vossas preocupações, porque Ele tem cuidado de vós" (1 Ped 5, 7). "Desde o princípio da minha enfermidade - escreve neste mesmo sentido - compreendi que a minha forma de encará-la não era o resultado de uma grande fortaleza psicológica, mas um dom estritamente sobrenatural. Desde esse primeiro momento - continua - soube que só tinha um desejo: fazer esta minha peregrinação do melhor modo possível... Os enfermos são um tesouro para a Igreja".

       "O meu maior medo? Que a intensidade do meu sofrimento me tente a não louvar a Deus e a não dar graças ao seu nome. Só peço uma coisa: que a minha enfermidade não em afaste d'Ele; pois, se o fizesse, para quê e a quem serviria?... Aceito ser um despojo. Quero gastar-me e desgastar-me a cumprir a sua vontade".

 

Outro apontamento:

       "Um dos mistérios mais insondáveis da enfermidade é o do tempo: os sãos não têm tempo; em contrapartida, os doentes o que mais têm é precisamente tempo. Um dia pode ser infinito numa cama do hospital. Espera-se durante horas a visita de um médico que dura um minuto. Eu esperei esse médico e, agora, sou essa paciente que espera. Deus quis que eu dedicasse a minha vida a ajudar os outros, mas não quis que me fosse embora deste mundo sem deixar-me ajudar pelos outros. Deixar-se ajudar pressupõe um nível espiritual muito superior ao de simples ajudar. Porque, se ajudar os outros é bom, melhor é ser ocasião para que os outros nos ajudem. Quem se deixa ajudar parece-se mais com Cristo do que quem ajuda. Mas ninguém que não tenha ajudado os seus semelhantes saberá deixar-se ajudar quando chegar o seu momento. Sim, o mais difícil deste mundo é aprender a ser necessitado".

 

Leia entrevista a África Sendino: AQUI.


28
Ago 16
publicado por mpgpadre, às 10:02link do post | comentar |  O que é?

ELIE WIESEL (2016). Noite. Lisboa: Texto Editores. 136 páginas.

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Elie Wiesel sobreviveu para contar os horrores vividos nos Guetos de Sighet e depois nos campos de extermínio. Até ao fim, a ameaça permanente à vida. Para lá de todo o sofrimento infligido, a humilhação, os trabalhos forçados, a tortura, a fome, a sede, o tratamento desumano a que estavam sujeitos, a desinformação, a pressão psicológica, retirando toda a esperança. Momentos em que as forças faltas, o ânimo está de restos e só resta confiar-se à morte. Há momentos que chegam (quase) à loucura e outros enlouquecem de verdade, ao ponto de não saberem quem são, pelos horrores presenciados, pela impossibilidade de descansar em segurança, pela morte à frente, ao lado, atrás, vizinhos, amigos, família.

É um texto comovente, pois se percebe com clareza os horrores perpetrados pelos nazis, o controlo do corpo e da mente, semeando a divisão entre membros do mesmo povo, para que uns possam guardar, vigiar, controlar os outros.

Na contracapa, breve retrato do autor: "Nascido no seio de uma família judia na Roménia, Elie Wiesel era adolescente quando, justamente com a família, foi empurrado para um vagão de carga  e transportado, primeiro para o campo de extermínio, Auschwitz, e, depois, para Buchenwald. Este é o aterrador e íntimo relato do autor sobre os horrores que passou, a morte dos pais e da irmã de apenas 8 anos, e da perda da inocência a mãos bárbaras. Descrevendo com grande eloquência o assassínio de um povo, do ponto de vista de um sobrevivente, Noite faz parte dos mais pessoais e comovedores relatos sobre o Holocausto, e oferece uma perspetvia rara ao lado mais negro da natureza humana".

A fé em Deus é posta em questão. Não tanto a existência em Deus, mas a discussão com Ele, que não ouve, e Se mantém em silêncio perante tanta violência. Alguns judeus ficam chateados com Deus, como se revoltam por que não conseguem perdoar-Lhe a distância e/ou a indiferença. Também neste aspeto, é um testemunho de fé provada pela vida, pelos horrores da fome, da humilhação, a dignidade que lhes foi roubada.

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Algumas expressões do autor:

 

"Nunca esquecerei aquela noite, a primeira noite no campo, que fez da minha vida uma noite longa e sete vezes aferrolhada.

Nunca esquecerei aquele fumo.

Nunca esquecerei os pequeninos rostos das crianças cujos corpos eu vi transformarem-se em espirais sob um céu mudo.

Nunca esquecerei aquelas chamas que consumiram para sempre a minha Fé.

Nunca esquecerei aquele silêncio noturno que me provou para a eternidade, do desejo de viver.

Nunca esquecerei aqueles momentos qua assassinaram o meu Deus e a minha alma, e que transformaram os meus sonhos em cinza.

Nunca esquecerei, mesmo que tenha sido condenado a viver tanto tempo quanto o próprio Deus.

Nunca".

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Em Auschwitz, depois de uma correria louca, o responsável pelo bloco em que ficaram, um jovem polaco diz-lhes:

“Camaradas, encontram-se no campo de concentração de Auschwitz. Um longo caminho repleto de sofrimento espera-vos. Mas não percam a coragem. Já escaparam ao perigo mais grave: a seleção. Reúnam as vossas forças e não percam a esperança. Todos veremos chegar o dia da libertação. Tenham confiança na vida, mil vezes confiança. Afastem o desespero e assim afastarão de vós a morte. O inferno não dura para sempre… E, agora, uma prece que é mais um conselho: qua a camaradagem reine entre vós. Somos todos irmãos e sofremos o mesmo destino. O mesmo fumo flutua sobre as nossas cabeças. Ajudem-se uns aos outros. É a única maneira de sobreviverem”.

“Alguns falavam de Deus, dos Seus caminhos misteriosos, dos pecados do povo judeu e da libertação futura. Quanto a mim, tinha deixado de rezar. Como estava parecido com Job! Não tinha negado a Sua existência, mas duvidava da Sua justiça absoluta.

Akiba Drumer dizia: Deus põe-nos à prova. Quer ver se somos capazes de dominar os maus instintos, de matar o Satanás que existe em nós. Não temos o direito de desesperar. E se Ele nos castiga impiedosamente é sinal de que nos ama ainda mais”.

 

Três condenados ao enforcamento. Os dois adultos gritaram – viva a liberdade. O pequeno manteve-se calado.

“Onde está o Bom Deus, onde está Ele? – Perguntou alguém atrás de mim…

Ainda estava vivo quando passei diante dele. A sua língua ainda estava vermelha, os seus olhos tinham ainda uma centelha de vida.

Atrás de mim, ouvi o mesmo homem perguntar:

– Onde está Deus, então?

E eu senti dentro de mim uma voz que lhe respondia:

– Onde é que Ele está? Ei-lo… está aqui pendurado nesta forca…

Naquela noite, a sopa sabia a cadáver”.

 

"Pobre Akiba Drumer! Se tivesse podido continuar a acreditar em Deus, a ver neste calvário um aprova de Deus, não teria sido levado pela seleção. Mas a partir do momento em que tinha sentido as primeiras brechas na sua fé, tinha perdido as suas razões para lutar e tinha começado a agonizar”


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TOMÁŠ HALÍK (2016). Quero que Tu sejas! Podemos acreditar no Deus do Amor. Prior Velho: Paulinas Editora. 272 páginas.

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       "Tomáš Halík nasceu emm Praga atual República Checa, no ano de 1948. Licenciou-se em Sociologia, Filosofia e Psicologia na Universidade de Charles, Praga, nos inícios dos anos 70. Estudou Teologia, clandestinamente, na mesma cidade, estudo que continuou na Universidade Lateranense, em Roma, e na Faculdade Pontifícia de Teologia, em Wroclaw (Polónia). Durante a ocupação comunista, sendo perseguido como «inimigo do regime», trabalhou como psicoterapeuta de toxicodependentes. Foi clandestinamente ordenado sacerdote em Erfurt (Alemanha do Leste, em 1978, e trabalhou na «Igreja subterrânea», onde foi um dos assessores mais próximos do cardeal Tomášek".

       Na lombada interior da capa, breve apresentação, de Tomáš Halík, de quem já sugerimos outro belíssimo título - O MEU DEUS É UM DEUS FERIDO. Depois de ter escrito sobre fé e esperança, alguém lhe perguntou porque não escrevia sobre o amor. 

       O autor começa por fazer uma pergunta que habitualmente vamos fazendo, mas para a qual nem sempre encontramos uma resposta satisfatória: deonde vem o mal?. "É possível que hoje em dia nos tenhamos acostumado tanto ao mal, à violência e ao cisnismo, que façamos a nós próprios, com surpresa, outra pergunta: donde provém a ternura e a bondade?

       Ao longo do livro, enraizado na Sagrada Escritura, mas também na história, na experiência, na cultura, o autor vai mostrando que o amor é fonte de todo o bem e em todo o bem é possível encontra Deus de amor. Um dos fios condutores é apresentar o duplo mandamento, a interligação entre o amor a Deus e ao próximo como a si mesmo. Amar a Deus, amando o próximo. Deus está em nós. O amor habita-nos na identidade mais profunda, onde podemos encontrar Deus.

       Mais que uma resposta, Deus é pergunta. Não é um dado adquirido, mas sempre me transcende. Vai além de toda a compreensão humana, ainda que Se deixe ver em Jesus Cristo. "Os meus livros não são destinados àqueles que têm certeza absoluta de que compreendem perfeitamente o que significa o mandamento do amor a Deus. Esses certamente já têm a sua recompensa. Eu dirigo-me àqueles que buscam o significado dessas palavras, quer se considerem crentes... quase-crentes ou «antigos crentes»... incrédulos e agnósticos ou não crentes".

 

Algumas expressões:

"Associar os mandamentos do amor a Deus e o mandamento do amor uns aos outros - o núcleo do Evangelho - é a forma de redescobrir o Deus que «desapareceu», especificamente, na nossa relação com o próximo. Deus acontece onde quer que nós amemos as pessoas, o nosso próximo".
"Deus não pode ser obejeto de amor porque Deus não é um obejeto; a perceção objetiva de Deus conduz à idolatria. Eu não posso amar a Deus da mesma maneira que amo outro ser humano, a minha cidade, a minha paróquia ou o meu trabalho. Deus não está diante de mim, tal como a luz também não está diante de mim: eu não consigo ver a luz, só posso ver as coisas iluminadas pela luz".
"Deus acontece ali onde nós amamos".
"É necessário despir a própria alma, porque só quando já nada restar entre nós e a vontade de Deus, se poderá dar aquela união com Deus a que se chama Amor. Nesse momento somos «transformados em Deus por amor»".
"Há vários anos que me sinto fascinado com um definição do amor que é atribuída a Santo Agostinho: amo: volo ut sis (Amo-te, quero que Tu seja!)... «Eu quero que tu sejas». Esta frase exprime a ausência de dúvidas acerca da existência do amado; a sua existência é óbvia para mim, e o meus sentidos podem prová-la. esta frase exprime a minha confirmação fundamental da existência do meu amado, a minha alegria por ele existir. Eu não me limito a notar a sua existência, experimento-a como gratidão, como qualquer coisa que enriquece fundamentalmente a minha própria vida, sem o meu amado, o meu eu profundo perderia a sua integridade, sem ele o meu mundo ficaria desolado e terrivelmente cinzento.
No amor eu abro um lugar de segurança dentro de mim para a pessoa que amo, no qual ela pode ser plena e livremente quem é. Não precisa de representar nem de fingir para mim, nem de tentar merecer continuamente o meu amor através das suas ações. Além disso, só messe lugar seguro de amor é que uma pessoa se pode tornar aquilo que até então só era em potência. Só agora se pode aperceber do seu pleno potencial, que, sem amor, ficaria atrofiado, murcho e sufocado nas suas próprias raízes.
Estou contente por te ter conhecido; alegro-me pelo milagre do amor; quero que a pessoa a quem amo continue a estar comigo. Sim, gostaria que vivêssemos juntos para sempre. A frase «Eu amo-te, quero que Tu sejas» de Agostinho conduz a outra frase, ou seja, à definição magnífica de Gabriel Marcel: «Amar alguém é dizer-lhe: "Tu não morrerás"»... Dentro do verdadeiro amor há sempre uma fonte de eternidade".
"Deus não é «uma terceira pessoa» na relação entre duas pessoas; Deus é a base e a fonte dessa relação".
"Amar a Deus significa sentirmo-nos profundamente gratos pelo milagre da vida e exprimir essa gratidão ao longo da própria vida, aceitando a minha sorte mesmo quando esta não condiz com os meus planos e expectativas. Amar a Deus significa aceitar com paciência e atenção os encontros humanos como mensagens de Deus cheias de sentido - mesmo quando sou incapaz de as compreender devidamente. Amar a deus significa confiar que até os momentos difíceis e obscuros me revelarão um doa o seu significado".
"Deus não pode forçar os seres humanos a aceitar a salvação, o perdão e a misericórdia. Teoricamente é possível que alguém, pelo seu profundo desejo de que «Deus não seja», manifeste esse perverso desejo de forma tão consistente que acabe por se esquivar fatalmente a Deus e por se condenar a si próprio ao eterno afastamento de Deus e separação em relação a Ele".
"Aquilo que Deus traz para a história, onde nós o devemos procurar, é o amor. Eu sou cristão porque aprendi a acreditar nesse amor".
"A fé requer a coragem de escolher e de confiar".
Citando Teilhard de Chardin, "O amor é a única força capaz de unificar as coisas sem as destruir"


18
Ago 16
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       Etty Hillesum, a holandesa judia, morta em Auschwitz, surpreendeu-me pela serenidade com que enfrentou o sofrimento, as adversidades, procurando, através da oração, de joelhos, da meditação e da própria escrita, olhar de frente o mal, mas sem se dar por vencida e sem dar a primazia ao mal. Apesar de todo o mal infligido, o bem está a germinar por toda a parte e há de vencer. Por ora é tempo de lutar para que as pessoas não enterrem Deus nos seus corações.
       O mundo parece desmoronar-se e a violência gratuita (sobretudo) contra os judeus acentua-se, apesar disso, Etty Hillesum continua a esperar em Deus. Para sermos felizes não nos permitimos simplesmente virar as costas ao sofrimento. “Somos sobretudo nós próprios que nos roubamos. Acho a vida bela e sinto-me livre. Os céus estendem-se tanto dentro como acima de mim. Creio em Deus e nos homens e atrevo-me a dizê-lo sem falso pudor. A vida é difícil, ma isso não é grave… Meu Deus, dou-te graças por me teres criado tal como sou. Dou-te graças porque às vezes me permites estar tão cheia de vastidão, daquela vastidão que não é senão o meu ser transbordante de Ti”.
       O poder da violência é por agora invencível, mas não nos podem roubar a vida, não podem entrar no nosso íntimo, lugar onde encontramos Deus. “Dentro de mim há uma nascente muito profunda. E nessa nascente está Deus. Por vezes, consigo alcançá-lo, a maior parte das vezes, está coberta de pedras e de areia: nessas alturas, Deus está sepultado. Então há que voltar a desenterrá-lo. Imagino que certas pessoas rezam com os olhos fixos no céu: elas procuram Deus fora de si. Há outras que inclinam a cabeça, escondendo-a entre as mãos: creio que estas procuram Deus dentro de si”.
       E se Deus não me ajudar? Então serei eu a ajudar Deus…
       “Prometo-te uma coisa, meu Deus: tentarei ajudar-Te para que Tu não sejas destruído dentro de mim… A única coisa que podemos salvar destes tempos, e também a única coisa que conta de verdade, é um pedaço de Ti em nós mesmos, meu Deus. E talvez também possamos contribuir para te desenterrar dos corações devastados dos outros homens… Eu não ponho em questão a tua responsabilidade, mais tarde serás Tu a declarar-nos responsáveis a nós… Tu não nos podes ajudar, mas cabe-nos a nós ajudar-te a Ti, defender até ao fim a tua casa em nós... acredita, não te expulsarei do meu território”.
 
Publicado na Voz de Lamego, n.º 4372, de 19 de julho de 2016


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       Parafraseando Ortega Y Gasset, a pessoa é com as suas circunstâncias. Certamente. Tudo o que nos rodeia nos influencia. Tempo. As pessoas. As situações luminosas ou obscuras. Até a forma de acordar, ou a roupa que se veste, o descanso ou a falta dele. Uma palavra, um sorriso, a presença de alguém que estimamos, podem alterar positiva ou negativamente o nosso dia.
       Porém, o essencial é a atitude com que encaro a vida, as pessoas, os acontecimentos do tempo presente. Mudamos conforme as circunstâncias ou procuramos que as circunstâncias, ainda que contem, não definam, em definitivo, a nossa personalidade?
       Hillesum sabe que, mais dia, menos dia, será levada para o campo de extermínio, como outros judeus, para ser morta. Desabafa confiante: “Estamos em casa. Estamos em casa sob céu. Estamos em casa em qualquer lugar, se trouxermos tudo dentro de nós. Muitas vezes me tenho sentido, e ainda sinto, como um navio que transporta a bordo uma carga preciosa: os cabos são cortados e agora o navio parte, livre para navegar por toda a parte. Temos de ser a nossa própria pátria”.
        E quando não restar mais nada?
        “Quando a borrasca for demasiado forte, e eu já não souber como escapar, restar-me-ão sempre duas mãos juntas e um joelho dobrado. É um gesto que a nós, judeus, não foi transmitido de geração em geração. Tive de aprendê-lo a custo… Como é estranha a minha história – a história de uma rapariga que não se sabia ajoelhar. Ou, com uma variante: da rapariga que aprendeu a rezar. É o meu gesto mais íntimo”.
       A oração é a casa de Etty Hillesum. Onde se encontra e onde encontra Deus. “De repente, compreendi como uma pessoa, com o rosto escondido atrás das mãos juntas, pode deixar-se cair violentamente de joelhos e depois ter paz… Devo tornar-me mais simples, deixar-me viver um pouco mais. Agora sei qual a minha cura: acocorar-me a um canto e escutar aquilo que tenho dentro de mim própria”.
       E se o mundo conhecido desaparecer?
       “Falarei contigo, meu Deus. Posso? Como as pessoas vão desaparecendo, não me resta outra coisa senão o desejo de falar contigo. Amo assim tanto os outros porque em cada um deles amo o pedacinho de Ti, meu Deus. Procuro-Te em todos os homens e, frequentemente, encontro neles alguma coisa de Ti. E procuro desenterrar-Te do seu coração, meu Deus”.
 
Publicado na Voz de Lamego, n.º 4373, de 26 de julho de 2016


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        Há situações que nos deixam sem chão, sem palavras e cuja esperança quase desaparece. Etty Hillesum, como se pode descobrir no seu diário, nas suas cartas ou em livros sobre ela, como judia holandesa, viveu uma das tragédias do século XX. Viria a morrer, com 29 anos, no campo de extermínio de Auschwitz, como outros milhares de judeus. Foi um período negro para a humanidade, mas de onde surgiram figuras que continuam a iluminar o nosso tempo, pela perseverança e resiliência. Foram mortas mas não se deixaram matar pela história. Sobreviveram aos carrascos pelo testemunho que nos legaram.

       Diz-nos acerca dela Frei Michaeldavide (Etty Hillesum. Humanidade enraizada em Deus): é uma "mulher, cuja vida está prestes a ser violentamente despedaçada, ainda consegue acreditar… é uma jovem mulher que soube transfigurar a própria vida, deixando-a amadurecer até à plenitude, aprendendo a rezar e a meditar... Mediante a oração aprendeu a meditar sobre as trevas humanas através da luz de Deus, sem as negar, mas também sem as tornar mais densas... vive e abraça até ao fundo o contexto terrível de uma das páginas mais sombrias da humanidade – talvez a mais tenebrosa, por ter sido concebida e dada à luz pela civilização europeia enraizada na tradição do cristianismo”. Com efeito, “Etty Hillesum é mestra de total lucidez: na capacidade de atribuir um nome preciso àquilo que se pode verificar de negativo, sem esquecer que, no preciso momento em que qualquer coisa de terrivelmente negativo está a acontecer, continua a crescer o bem, que existe desde sempre e que é o futuro, enquanto o mal não tem futuro, mesmo quando parece tão tremendo que atrai toda a nossa atenção”.
       A dimensão do mal pode levar à desistência, ao lamento, à resignação (passiva). Com facilidade soçobramos ao mal que nos é infligido, gastando-nos, incendiando-nos o coração com trevas. Etty Hillesum tinha tudo para reclamar pelo infortúnio, mas opta pela esperança enraizada em Deus. “Entre a vida que recebemos e a vida que devemos receber oscila a nossa vida, aquela que, de momento, vivemos ou não vivemos… Se toda a dor não alargar os nossos horizontes e não nos tornar mais humanos, libertando-nos das mesquinhices e das coisas supérfluas desta vida, terá sido inútil… O homem ocidental não aceita a dor como parte desta vida: por isso, nunca consegue extrair forças positivas… Fomos marcados para sempre pela dor. Contudo, a vida é maravilhosamente boa... basta que façamos com que Deus, apesar de tudo, esteja em segurança nas nossas mãos".
 
Publicado na Voz de Lamego, n.º 4371, de 12 de julho de 2016


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       No dia 13 de fevereiro de 2013, Quarta-feira de Cinzas, dois dias depois de anunciar a renúncia ao pontificado, Bento XVI apresentava figuras cujas conversões são testemunho e interpelação. Uma dessas figuras proposta é “Etty Hillesum, uma jovem holandesa de origem judaica, que morrerá em Auschwitz. Inicialmente distante de Deus, descobre-o olhando em profundidade dentro de si mesma e escreve: «Dentro de mim existe um poço muito profundo. E naquele poço está Deus. Às vezes consigo alcançá-lo, mas na maioria das vezes está coberto por pedras e areia: então Deus está sepultado. É necessário que eu o volte a desenterrar» (Diário, 97). Na sua vida dispersa e inquieta, ela encontra Deus precisamente no meio da grande tragédia de Novecentos, o Shoah. Esta jovem frágil e insatisfeita, transfigurada pela fé, transforma-se numa mulher cheia de amor e de paz interior, capaz de afirmar: «Vivo constantemente em intimidade com Deus»”.
       Diante de tanto mal, poderia advir o desânimo. E se nos lembrarmos do extermínio de milhares de judeus, sob o império do mal perpetrado por Hitler e o nazismo, não será fácil sobreviver ao desencanto e a uma resignação destrutiva. Todavia, Etty Hillesum recorda que nenhum mal pode eliminar completamente o bem. O mal não tem futuro. O bem tem futuro. O mal, pela sua extensão, pode amedrontar-nos. Mas não é definitivo.
       Também o tempo atual parece sombrio: a crise económico-financeira, o Brexit, a crise dos refugiados, os atentados terroristas, a violência gratuita, xenófoba, racista, a falta de emprego e a insegurança quanto ao futuro, parecem destruir o sonho de um mundo seguro e onde todos se reconheçam como irmãos.
       Etty Hillesum desafia-nos a enraizar a vida em Deus, enfrentando assim a dor e o sofrimento. “É verdade que de vez em quando podemos estar tristes e abatidos por aquilo que nos fazem, é humano e compreensível. A vida é difícil, mas não é grave… Uma paz futura só o poderá ser verdadeiramente se antes tiver sido encontrada por cada um dentro de si próprio – se cada homem se tiver libertado do ódio contra o próximo de qualquer raça ou povo, se tiver superado esse ódio e o tiver transformado em algo diferente, talvez a longo prazo, em amor… É a única solução possível. Esse pedacinho de eternidade que trazemos dentro de nós… Meu Deus, ainda não se dão conta de que todas as coisas que existem são areias movediças, a não ser Tu”.
       Quanto mais em Deus, mais disponíveis para os outros.
 
Publicado na Voz de Lamego, n.º 4370, de 5 de julho de 2016


10
Jul 16
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FREI MICHAELDAVIDE (2016). Etty Hillesum. Humanidade enraizada em Deus. Prior Velho: Paulinas Editora. 112 páginas.

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Bento XVI (13 de fevereiro de 2013): "Penso também na figura de Etty Hillesum, uma jovem holandesa de origem judaica, que morrerá em Auschwitz. Inicialmente distante de Deus, descobre-o olhando em profundidade dentro de si mesma e escreve: «Dentro de mim existe um poço muito profundo. E naquele poço está Deus. Às vezes consigo alcançá-lo, mas na maioria das vezes está coberto por pedras e areia: então Deus está sepultado. É necessário que eu o volte a desenterrar» (Diário, 97). Na sua vida dispersa e inquieta, ela encontra Deus precisamente no meio da grande tragédia de Novecentos, o Shoah. Esta jovem frágil e insatisfeita, transfigurada pela fé, transforma-se numa mulher cheia de amor e de paz interior, capaz de afirmar: «Vivo constantemente em intimidade com Deus».

É desta forma que o autor, Frei Michaeldavide apresenta este livro sobre Etty Hillesum, baseado no diário e nas cartas que ela escreveu. Dois dias depois de Bento XVI anunciar ao mundo a sua renúncia como Bispo de Roma, como Papa, em Quarta-feira de Cinzas, apresentava, Etty Hillesum - a par de Pavel Florenskij e de Dorothy Day - como modelo de fé, de conversão, de intimidade com Deus.

Etty Hillesum nasceu na Holanda, em 15 de janeiro de 1914 e viria a ser morta em Auschwitz, por ser de descendência judia, no dia 30 de novembro de 1943.

Nas palavras do autor, Etty Hillesum é uma "mulher, cuja vida está prestes a ser violentamente despedaçada, acredita - ainda consegue acreditar - que algum transeunte saberá recolher este seu bilhetinho... Etty Hillesum é uma jovem mulher que soube transfigurar- a própria vida, deixando-a amadurecer até à plenitude, aprendendo a rezar e a meditar... Mediante a oração aprendeu a meditar sobre as trevas humanas através da luz de Deus, sem as negar, mas também sem as tornar mais densas... como jovem mulher judia holandesa do seu tempo, Etty Hillesum vive e abraça até ao fundo o contexto terrível de uma das páginas mais sombrias da humanidade - talvez a mais tenebrosa, por ter sido concebida e dada à luz pela civilização europeia enraizada na tradição do cristianismo...

Há um mal presente, mas também há um bem que está presente na vida, que nenhum mal se pode tornar tirano no sentido de chamar toda a atenção sobre si próprio. Nisto Etty Hillesum é mestra de total lucidez: na capacidade de atribuir um nome preciso àquilo que se pode verificar de negativo, sem esquecer que, no preciso momento em que qualquer coisa de terrivelmente negativo está a acontecer, continua a crescer o bem, que existe desde sempre e que é o futuro, enquanto o mal não tem futuro, mesmo quando parecer tão tremendo que atrai toda a nossa atração...

Algumas expressões de Etty Hillesum:

"Entre a vida que recebemos e a vida que devemos receber oscila a nossa vida, aquela que, de momento, vivemos ou não vivemos" 
"Se toda a dor não alargar os nossos horizontes e não nos tornar mais humanos, libertando-nos das mesquinhices e das coisas supérfluas desta vida, terá sido inútil"
"O homem ocidental não aceita a dor como parte desta vida: por isso, nunca consegue extrair forças positivas" 
"Fomos marcados para sempre pela dor. Contudo, a vida é maravilhosamente boa... basta que façamos com que Deus, apesar de tudo, esteja em segurança nas nossas mãos"
"Sermos verdadeiramente felizes sem voltar as costas a todo o sofrimento" 
"Meu Deus, dou-te graças por me teres criado tal como sou. Dou-te graças porque às vezes me permites estar tão cheia de vastidão, daquela vastidão que não é senão o meu ser transbordante de Ti" 
"Somos sobretudo nós próprios que nos roubamos. Acho a vida bela e sinto-me livre. Os céus estendem-se tanto dentro como acima de mim. Creio em Deus e nos homens e atrevo-me a dizê-lo sem falso pudor. A vida é difícil, ma isso não é grave" 
"É verdade que de vez enquando podemos estar tristes e abatidos por aquilo que nos fazem, é humano e compreensível que assim seja (...) A vida é difícil, mas não é grave. Devemos começar a tomar a sério o nosso lado sério, o resto virá por acréscimo: e «trabalharmo-nos a nós mesmos» não é propriamente uma forma de individualismo doentio. Uma paz futura só o poderá ser verdadeiramente se antes tiver sido encontrada por cada um dentro de si próprio - se cada homem se tiver libertado do ódio contra o próximo de qualquer raça ou povo, se tiver superado esse ódio e o tiver transformado em algo diferente, talvez a longo prazo, em amor, se isto for pedir de mais. É a única solução possível. Esse pedacinho de eternidade que trazemos dentro de nós tanto pode ser expresso numa palavra como em dez volumes. Eu sou uma pessoa feliz e bendigo a vida, bendigo-a precisamente neste ano do Senhor de 1942, enésimo da guerra" 
"Estamos em casa. Estamos em casa sob  céu. Estamos em casa em qualquer lugar, se trouxermos tudo dentro de nós. Muitas vezes me tenho sentido, e ainda sinto, como um navio que transporta a bordo uma carga preciosa: os cabos são cortados e agora o navio parte,livre para navegar por toda a parte. Temos de ser a nossa própria pátria"
"Dentro de mim há uma nascente muito profunda. E nessa nascente está Deus. Por vezes, consigo alcançá-lo, a maior parte das vezes, está coberta de pedras e de areia: nessas alturas, Deus está sepultado. Então há que voltar a desenterrá-lo. Imagino que certas pessoas rezam com os olhos fixos no céu: elas procuram Deus fora de si. Há outras que inclinam a cabeça, escondendo-a entre as mãos: creio que estas procuram Deus dentro de si" 
"De repente, compreendi como uma pessoa, com o rosto escondido atrás das mãos juntas, pode deixar-se cair violentamente de joelhos e depois ter paz"
"E se Deus deixar de me ajudar, então serei eu a ajudar Deus".
"Uma pessoa deve viver a sua própria vida" 
"Prometo-te uma coisa, meu Deus, só uma pequena coisa: tentarei não tornar o hoje mais pesado com o peso das minhas preocupações pelo amanhã.. Tentarei ajudar-Te para que Tu não sejas destruído dentro de mim, mas não posso prometer nada a priori. Uma coisa, porém, se torna cada vez mais evidente para mim, ou seja, que Tu não nos podes ajudar, mas que somos nós que Te ajudamos a Ti e, desse modo, ajudamo-nos a nós mesmos. A única coisa que podemos salvar destes tempos, e também a única coisa que conta de verdade, é um pedaço de Ti em nós mesmos, meu Deus. E talvez também possamos contribuir para te desenterrar dos corações devastados dos outros homens. Sim, meu Deus, parece que Tu não podes fazer muito para modificar as circunstâncias atuais, mas também elas fazem parte desta vida. Eu não ponho em questão a tua responsabilidade, mais tarde serás Tu a declarar-nos responsáveis a nós. E quase a cada batimento do meu coração aumenta a minha certeza: Tu não nos podes ajudar, mas cabe-nos a nós ajudar-te a ti, defender até ao fim a tua casa em nós... Alguns querem a todo o custo salvar o seu próprio corpo. Dizem: não me apanharão a mim. Esquecem-se que não se pode cair nas mãos de ninguém estando nos teus braços. Começo a sentir-me um pouco mais tranquila, meu Deus, depois desta conversa contigo. Daqui por diante, discorrerei contigo muitas vezes, e, desse modo, impedir-te-ei de me abandonares. Comigo passarás também por períodos de escassez, meu Deus, tempos escassamente alimentados pela minha pobre confiança; acredita, porém, eu continuarei a trabalhar para ti e a ser-te fiel, e não te expulsarei do meu território" 
"A escola da oração torna-se  para ela escola de humanidade e uma maneira de estar na presença de Deus, de si própria e do mundo que a rodeia numa medida cada vez mais harmoniosa e capaz de plena responsabilidade e de respeito absoluto, inclusive pelo inimigo...
"No meio daquele caos e daquela miséria, vivo de tal maneira a um ritmo meu, que a cada instante, enquanto escrevo à máquina aquelas cartas, posso embrenhar-me nas coisas que acho mais importantes. Não se trata de me isolar da dor que tenho à minha volta, sem sequer de uma forma de apatia. Suporto e guardo tudo dentro de mim mas sigo em frente pelo meu caminho".
"Meu Deus, ainda não se dão conta de que todas as coisas que existem são areias movediças, a não ser Tu" 
"Prefiro estar sozinha e ser para todos"
"A nascente de cada coisa deve ser a própria vida, nunca outra pessoa. Muitos, porém - sobretudo as mulheres -, vão buscar as próprias forças aos outros: a sua nascente é o homem e não a vida"
"Devo tornar-me mais simples, deixar-me viver um pouco mais. Não pretender ver resultados imediatos. Agora sei qual a minha cura: acocorar-me a um canto e escutar aquilo que tenho dentro de mim própria".
"Falarei contigo, meu Deus. Posso? como as pessoas vão desaparecendo, não me resta outra coisa senão o desejo de falar contigo. Amo assim tanto os outros porque em cada um deles amo o pedacinho de Ti, meu Deus. Procuro-Te em todos os homens e, frequentemente, encontro neles alguma coisa de Ti. E procuro desenterrar-Te do seu coração, meu Deus" 
"E, quando a borrasca for demasiado forte, e eu já não souber como escapar, restar-me-ão sempre duas mãos juntas e um joelho dobrado. É um gesto que a nós, judeus, não foi transmitido de geração em geração. Tive de aprendê-lo a custo. É a herança mais preciosa que recebi do homem de quem já quase esqueci o nome, mas cuja parte melhor continua a viver em mim. Como é estranha a minha história - a história de ua rapariga que não se sabia ajoelhar. Ou, com uma variante: da rapariga que aprendeu a rezar. É o meu gesto mais íntimo" 
"Meu Deus, às vezes não consigo entender nem aceitar aquilo que os teus semelhantes nesta terra fazem uns aos outros, nestes tempos tempestuosos. Contudo, isso não me leva a fechar-me no meu quarto, meu Deus: continuo a olhar as coisas de frente e não quero fugir diante de nada... Olho de frente para o teu mundo, meu Deus, e não fujo da realidade para me refugiar no sonhos - ou seja, mesmo perante a realidade mais atroz, há lugar para sonhos maravilhosos - e continuo a bendizer a tua criação, apesar de tudo"

Para conhecer melhor, a vida e o pensamento de Etty Hillesum:

A MINHA VIDA É UMA SUCESSÃO DE MILAFRES.

Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura


28
Mai 16
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1 – A humildade encaminha-nos para a felicidade. Coloca-nos na rota da salvação. Abre-nos aos outros e a Deus. Possibilita a comunicação. Cimenta os laços de amizade e de ternura. Faz sobressair o melhor de nós, promovendo o melhor que os outros têm para nos dar.

A prepotência e o egoísmo encerram-nos num casulo. A humildade não se opõe à autoestima, benfazeja para uma vida saudável. A humildade opõe-se à soberba, à avareza e ao egoísmo, à autossuficiência e à ambição desmedida. A humildade faz-nos realistas e humanos. A nossa grandeza assenta na dignidade humana, seres únicos e irrepetíveis. Para os crentes, esta dignidade é fortalecida pela filiação divina, filhos amados de Deus e, portanto, irmãos. A humildade faz-nos reconhecer a nossa ligação aos outros, dando-nos a certeza que a felicidade se constrói com eles. Os outros não são, como pensava Sarte, o nosso inferno. Não. Os outros são a visita que Deus nos faz e que nos humaniza.

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2 – Um centurião recorre a Jesus a favor de um servo. Enviou anciãos judeus para intercederem junto de Jesus. Veja-se a dinâmica de intercessão: «Ele é digno de que lho concedas, pois estima a nossa gente e foi ele que nos construiu a sinagoga». Jesus não se faz rogado, não se desculpa, não olha para agenda, parte e acompanha-os.

A postura deste homem é admirável. Intercede por um servo! Por um filho, entende-se, agora por um servo, quando tem os que quer?! Por outro lado, apela a um judeu, professando outra religião, e nem ousa usar da sua posição social para chegar a Jesus ou para negociar com Ele. Pede aos anciãos. Num segundo momento, quando Jesus já está perto, envia-Lhe alguns amigos, com o seu pedido: «Não Te incomodes, Senhor, pois não mereço que entres em minha casa, nem me julguei digno de ir ter contigo. Mas diz uma palavra e o meu servo será curado. Porque também eu, que sou um subalterno, tenho soldados sob as minhas ordens. Digo a um: ‘Vai’ e ele vai, e a outro: ‘Vem’ e ele vem, e ao meu servo: ‘Faz isto’ e ele faz».

O posto que ocupava coloca-o "acima" e "à parte" dos simples mortais. Porém, o que vemos é diferente. É um homem bom. É "inimigo" dos judeus, mas ajuda-os. Não se sente digno de ir ao encontro de Jesus. Confia essa missão aos seus amigos.

Ao ouvir as palavras que Lhe trazem do centurião, Jesus sente admiração por ele: «Digo-vos que nem mesmo em Israel encontrei tão grande fé». Mais que de humildade, trata-se de fé. A fé faz sobressair o melhor de nós e dos outros. A fé converte-nos, torna-nos humildes, faz-nos cuidar dos outros como irmãos. A verdadeira e genuína humildade nasce, cresce e alimenta-se da fé.

"Ao regressarem a casa, os enviados encontraram o servo de perfeita saúde".

 

3 – Na verdade, a fé genuína radica em Cristo morto e ressuscitado e faz-nos humildes, solidários, leva-nos a ultrapassar qualquer barreira social, política, religiosa. O Centurião é estrangeiro, mas a sua fé aproxima-o de Jesus e dos seus servos.

Na primeira leitura, escutámos a oração de Salomão a favor dos estrangeiros. Para Deus não há fronteiras. Todo-poderoso, o Seu maior poder é fazer-Se do nosso tamanho, só assim O poderemos ver, encontrar, compreender. Só assim O podemos seguir. Tão pequeno que Se deixa ver, Se deixa amar, se deixa prender, perseguir e Se deixa matar às nossas mãos. Tão concreto que nos permite negá-l'O ou recusá-l'O. Salomão prepara o seu povo, aliás, o povo de Deus, para ser instrumento de salvação e lugar de acolhimento para todos, luz para todas as nações…

________________________

Textos para a Eucaristia (C): 1 Reis 8, 41-43; Sl 116 (117); Gal 1, 1-2. 6-10; Lc 7, 1-10.

 

REFLEXÃO DOMINICAL COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

e no nosso outro blogue CARITAS IN VERITATE


25
Fev 16
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

ANSELM GRÜN (2010). As oito bem-aventuranças. Caminho para uma vida bem conseguida. Braga: Editorial A.O., 184 páginas.

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       Anselm Grün é Monge beneditino, formado em economia e teologia, alemão. Através dos seus livros, conferências, procura testemunhar os tesouros da vida. É por muitos considerado um guia espiritual, reunindo grandes audiências. Já tivemos oportunidade de ler e de recomendar outros títulos, tais como: A sublime arte de envelhecer e tornar-se uma bênção para os outros; O Pai-Nosso. Uma ajuda para a vida autêntica; Que fiz eu para merecer isto? A incompreensível justiça de Deus.

       Este é mais uma belíssimo livro de bolso, que se lê com agrado sobre uma temática essencial da pregação e do proceder de Jesus. As Bem-aventuranças não garantem a vida eterna, mas são um caminho que nos levam a viver melhor e mais próximos do jeito de Jesus.

       O autor parte desde logo do significado de "Bem-aventurança", a procura da felicidade, comum a todos as pessoas, ainda que de maneiras distintas e caminhos diferentes.

       Jesus sobe ao MONTE com os discípulos. O monte aproxima-nos de Deus, da luz. Na cidade, a confusão, o barulho, a poluição. A montanha dissipa o nevoeiro e conduz-nos à calmaria, à natureza em que é possível ouvir os pássaros, o vento, ouvir a Deus. Tal como no Horeb ou Sinai, em que Deus dá a Lei ao Povo através de Moisés, agora Jesus, no monte, dá-nos uma leitura nova da Lei. As leis é para que vivamos harmoniosamente uns com os outros. "É possível uma boa convivência".

Anselm Grün segue de perto a interpretação de São Gregório de Nisa, lembrando-nos que ele "vê a montanha como o lugar para onde seguimos Jesus, a fim de nos elevarmos para cima das nossas concepções baixas e limitadas «até à montanha espiritual da contemplação mais sublime» (Gregório, 153). O monte está envolvido pela luz de Deus".

       Seguindo o título dos capítulos, o autor faz-nos perceber que as bem-aventuranças são promessa de uma vida em plenitude, acentuando também que "a felicidade não é uma consequência do comportamento, mas é expressão desse comportamento... as oito atitudes das Bem-aventuranças são o lugar onde podemos fazer a experiência de Deus e onde, em Deus, podemos experimentar a nossa verdadeira felicidade... são o caminho para uma vida bem conseguida... aponta um caminho. E podemos ver, no próprio Jesus, como é que Ele percorreu o caminho".

 

1.ª Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino de Deus.

"Quem é pobre em espírito está aberto a Deus que habita nele... Não usa Deus, a fim de ter alguma coisa para si, a fim de conseguir a satisfação dos seus desejos, ou a fim de se sentir melhor ou mais seguro em Deus. A pobreza em espírito é desinteressada... Para São Gregório de Nisa, a pobreza em espírito é a condição para a pessoa se elevar até Deus, em liberdade... A primeira bem-aventurança é, pois, uma caminho de liberdade interior para a verdadeira felicidade". Por deles é o reino de Deus..."O Reino dos Céus é o lugar onde Deus reina em nós. Quem é pobre em espírito, renuncia a ter as rédeas de tudo e a tudo controlar em si. está aberto ao domínio de Deus. Onde Deus reina nele, encontra o acesso ao próprio eu... se alguém se liberta de toda a dependência das coisas deste mundo, nele reina Deus. E o reinado de Deus faz dele verdadeiramente livre".

2.ª Bem-aventurados os que choram porque serão consolados.

É necessário fazer o luto de tudo o que não podemos ser, para valorizarmos o que somos e o que podemos ser, com as circunstâncias que nos contextualizam com o mundo e com o tempo atual. "Aquele que sou, saúda, tristemente, aquele que eu poderia ser" (Kierkegaard). "Jesus proclama bem-aventurados aqueles que estão dispostos a chorar, os que enfrentam a dor da despedida das ilusões. Só eles continuarão sãos, interiormente... Jesus descreve o luto como uma caminho para a felicidade... o luto é um caminho para eu enfrentar a realidade e para me libertar das ilusões com que encubro a realidade. No luto não me esquivo à dor... Ninguém pode realizar todas as possibilidades da vida... Cada decisão me dá alguma coisa e me priva de algo. Compromete-me. E em cada decisão, excluo alguma coisa. E tenho de fazer luto por aquilo que excluo. Se falho o luto, então encho esse défice que fica em mim com uma qualquer sucedâneo... O luto chora e, desse modo, fecunda a alma. A tristeza, pelo contrário, é apenas chorosa... É Cristo quem nos consola. Sim, Ele mesmo é a consolação. Se pomos o olhar n'Ele, no meio do nosso luto, já experimentamos a consolação... e o luto transforma o seu coração..."

3.ª Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.

"A agressividade está a transformar-se num problema... Tudo tem de ser protegido, para não ser destruído... No terror, pratica-se uma agressividade sem limite. Onde ela é praticada em nome de Deus, não conhece barreiras. O valor do ser humano já não conta. O único objetivo é propagar o medo... As palavras de Jesus sobre a doçura e a mansidão parecem ser, de facto, de um outro mundo". Em contrapartida, "a mansidão nãos e deixa arrastar pelos impulsos, pela ira, ou pelos ciúmes. Permanece arreigada no solo... Jesus não proclama felizes os insensíveis. «Ditosos são, portanto, aqueles que não cedem rapidamente aos movimentos passionais da alma, mas conservam a serenidade no seu íntimo graças à temperança» (São Gregório, 170)... As palavras de Jesus desafiam-me a transmitir, também para fora, a mansidão que experimento dentro de mim... Confio no poder da ternura. Ela é água que amolece a pedra dura... Trabalhamos em nós próprios mas renunciamos a ser perfeitos... A minha terra pertence-me. Expande-se. Herdo a terra, isto é, tenho chão suficiente debaixo dos pés. Deixo de ser dividido... só nos pertencemos a nós próprios se lidamos amistosamente com o que assoma em nós..."

4.ª Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.

O autor contextualiza o tempo em que as Bem-aventuranças foram proclamadas por Jesus, o contexto das comunidades que acolheram a mensagem de Jesus, interpretações ao longo da história da Igreja, com pontes à filosofia grega e ocidental, ao ambiente semita, à religiosidade popular. Ponte importante com a atualidade. Começa por referir que "o rendimento médio nos vinte países mais ricos do mundo é 37 vezes superior ao dos vinte países mais pobres... nos últimos 40 anos duplicou a distância... entre as 100 maiores unidades económicas do mundo há 52 empresas mas apenas 48 estados... Não há justiça quanto à igualdade de oportunidades... A injustiça conduz, ultimamente, à guerra". Há, por outro lado, uma «judicialização» cada vez mais abrangente. Tudo está regulamentado. "Os juristas determinam casa vez mais a vida coletiva... já não valem a fidelidade e a confiança, mas unicamente a segurança legal". Anselm Grün constata que "as pessoas anseiam pela verdadeira justiça, por um mundo onde reine a justa distribuição dos bens e das oportunidades, no qual se faz justiça a todos, tanto aos pobres como aos ricos, tanto aos mais fortes como aos mais fracos... existe a convicção de que só onde reina a justiça pode florescer a paz... A fome e a sede de justiça referem-se a todos os homens, a uma ordem justa para todos, à vida em retidão que Deus pensou para todos... As virtudes da justiça, da prudência, da coragem e da temperança põem-nos em contacto com o nosso interior". Segundo São Gregório de Nisa, as virtudes enchem-nos "de doçura e de alegria, em todos os momentos da nossa vida". Com efeito, ainda citando São Gregório, "A bem-aventurança é uma convite a uma vida feliz. Que exercita a justiça não ficará saciado apenas no Além. Será feliz e viverá satisfeito já no meio da luta pela justiça".

5.ª Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.

No Jubileu Extraordinário da Misericórdia que decorre (8 de dezembro de 2015 a 20 de novembro de 2016), esta Bem-aventurança coloca-nos em sintonia e em sinfonia com o desejo do Papa Francisco de refletir e viver as Obras de Misericórdia. O Coração misericordioso e compassivo de Deus, que Se faz peregrino connosco, mas que nos Seus gestos encontremos o desafio e o compromisso para vivermos como irmãos, acolhendo e integrando todos, sobretudo os que se encontram em situação mais frágil. Partindo da atualidade, o autor começa por mostrar como o "mercado é implacável. Só o mais forte consegue impor-se, Os outros ficam pelo caminho. O carácter implacável do mercado parece influenciar também a vida social... Quem sabe «vender-se» bem, «vale» alguma coisa... Aqui só contam os números e não a pessoa". Quanto à misericórdia, dela fazem parte a compaixão e o «sofrer com». Segundo alguns, a compaixão é fraqueza (por exemplo o Terceiro Reich). "A falta de misericórdia leva ao endurecimento e à violência na convivência mútua... Só o mais forte consegue impor-se. Os outros extinguem-se". Por conseguinte, "neste mundo frio, cresce a aspiração a um mundo misericordioso... [em que] sejamos respeitados na nossa dignidade humana... Jesus manteve-se fiel à misericórdia. E declarou bem-aventurados os que são misericordiosos. Porque alcançarão. Ele acreditou na vitória da misericórdia e da compaixão... Se somos misericordiosos também experimentamos a misericórdia... É misericordioso o que lida consigo e com os outros... Lido amorosamente com a esta criança em mim, necessitada de ajuda. Confio em que a minha criança interior vá amadurecendo, no meu colo materno e no colo materno de Deus, e que venha a ser o que deve ser a partir de Deus... A misericórdia brota do amor ao próximo... A misericórdia devolve-nos a vida... A compaixão pela nossa doença devolve-nos a saúde... A misericórdia de Deus permite-nos ser mais misericordiosos connosco próprios... Quem é misericordioso compreendeu quem é Deus. E participa de Deus. Está em Deus. A misericórdia é, para nós, os seres humanos, o caminho para o coração de Deus".

6.ª Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.

Olhando para o nosso tempo, o autor conclui que "a desconfiança está na moda". Não se aceitam as palavras sem reservas, crê-se que há sempre segundas intenções. No entanto, "aspiramos à clareza e à pureza de sentimentos, a pessoas que possuem um coração puro, que fazem, sem segundas intenções, o que reconheceram ser reto, e que dizem o que para elas brilha como verdade... aspiramos à pureza do coração... O coração puro é o coração simples, sincero, claro... Jesus exorta-nos a deixarmos que a luz irradie sobre o nosso corpo e expulse todas as trevas. Quando nos encontramos com uma pessoa cujos olhos brilham, sem segundas intenções, então também algo em nós se torna claro e límpido". Na Transfiguração, os discípulos "veem, de repente, claramente, quem é Jesus Cristo. E no espelho de Jesus reconhecem-se a si próprios... A meta do ser humano é ver a Deus, na visão passar a ser um com Deus... Se vemos a Deus esquecemo-nos de nós mesmos. Fazemo-nos um com Deus e, ao mesmo tempo, connosco próprios, Na unidade com Deus tomamos consciência de nós próprios, chegamos ao nosso esplendor original e não falseados... Sentimo-nos luz, iluminados pela luz de Deus. Isto é o ápice da Encarnação, o mais alto a que um ser humano pode aspirar". A pureza do coração faz bem à saúde, pois aquele que se encontrou consigo próprio, com a sua luz interior, "deixa de procurar no exterior a cura das suas feridas. Já não espera, vinda do afeto e da ajuda dos outros, a sua saúde. Encontra-a em si mesmo se, graças à pureza, se tornou inteiramente ele próprio".

7.ª Bem aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus.

Olhando para o mundo atual, vemos como é frágil da paz. São disso exemplo as duas Guerras mundiais, mas igualmente tantas zonas de conflito bélico, em diferentes latitudes. No tempo de Jesus Cristo a paz é periclitante. O povo está sob o domínio romano e aquilo que se chama a paz romana (pax romana) não passava efetivamente de pacificação, de imposição da paz pela força, pelo domínio, pelo controlo apertado, aniquilando todos os focos de resistência e até povos inteiros. "Era uma paz violenta". A paz não é algo de passivo, de deixar correr, sem fazer nada, sem intervir, mesmo quando a violência o atinge. A paz é ativa, implica. "Criar paz significa a disponibilidade ativa para ir ao encontro das pessoas que estão em conflito e reconciliá-las entre si". Também em nós devemos fazer as pazes com os nossos inimigos: o nosso medo, a nossa depressão, a nossa susceptibilidade, a nossa falta de disciplina, e então os nossos inimigos convertem-se em amigos e "a nossa terra, de repente, torna-se maior do que nunca sucedeu antes. Em vez de dez mil soldados, temos à disposição trinta mil (cf. Lc 14, 31ss). Ficamos mais fortes... Só quem está em sintonia consigo próprio, ou pelo menos a caminho dessa meta, pode construir a paz entre as pessoas". Por outro lado, prossegue Anselm Grün, a construção da paz resultará do amor e do diálogo, superando o conflito interior para superar os conflitos exteriores, não pela violência mas pelo diálogo. "Se quero vencer os inimigos, não construirei a paz. O derrotado quer vir a ser, um dia, o vencedor. Assim voltará a levantar-se e a continuar a combater. Só quando se alcança um bom equilíbrio todos podem viver em paz... Construir a paz é um processo criativo... Quem cria paz, participa do poder criador de Deus, que fez tudo bem feito". Dando como exemplo Martin Luther King, o autor sublinha que "só o amor pode construir a paz. «O ódio não pode expulsar o ódio. Só o amor consegue. O ódio multiplica o ódio, a violência aumenta a violência, a dureza faz aumentar a dureza, uma espiral permanente de aniquilamento» (Feldmann, 702). O ódio não destrói apenas a convivência, prejudica também a pessoa".

8.ª Bem-aventurados os que sofrem perseguição, por causa da justiça, porque deles é o reino dos Céus.

"A injustiça no mundo clama ao céu. Mas não há quase ninguém que arrisque a pele pela justiça". No mundo atual parece que são felizes aqueles que estão do lado dos vencedores, dos lobos, daqueles que passam por cima dos outros. "A bem-aventurança desafia-nos, mas não sobrecarrega com coisas impossíveis. O que faz é fortalecer a nossa aspiração à coragem de nos empenharmos pela justiça, custe o que custar... A coragem é a expressão da liberdade interior... mantenho-me firma na justiça, mesmo que isso me cause desvantagens junto dos outros". O que me sucede de mal pode empurrar-se para a frente, para o bem. Seguindo de perto São Gregório de Nisa, o autor evoca a imagem das corridas. Os adversários que correm comigo levam-me a avançar, lutando. Os conflitos em que caio podem ajudar-me a ser mais forte.

"São Mateus compôs as oito Bem-aventuranças de tal modo que a primeira e a última contêm a promessa do Reino dos Céus. Os pobres em espírito são, como os perseguidos por causa da justiça, também pessoas interiormente livres, que não se deixam depender da opinião dos outros... porque encontraram em Deus a sua verdadeira essência. Deus reina nelas. E porque Deus reina nelas são por inteiro elas mesmas, livres do poder dos outros. Porque Deus é o seu centro, são elas próprias, no seu centro, estão em sintonia consigo mesmas".

As bem-aventuranças são um caminho para viver melhor e ser mais saudáveis.


05
Jan 16
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MARTIN PISTORIUS (2015). Quando eu era invisível. Amadora: Nascente. 272 páginas.

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        A partir dos 12 anos, Martin entrou em estado vegetativo, encerrado dentro da sua mente, e com a o corpo descontrolado. Uma criança saudável, tímida, com um futuro risonho pela frente. Para os pais é um choque verem que o filho vai definhando. Ficam com a vida hipotecada. O pai nunca desistiu e sempre acreditou que o filho estava ali naquele corpo quase inerte. A mãe passou por um momento de dor, de perda e de luto, para poder cuidar dos outros dois filhos.

       Passando por diferentes centros de cuidados específicos, ou lares que acolhem pessoas com estas fragilidades enquanto os pais estão em viagem ou em férias, vai registando diversas experiências, positivas e negativas, desde pessoas que desabafam na sua presença, outras que o obrigam a comer, ou abusa dele, até que, passados 12 anos, conhece uma jovem terapeuta, Virna, que percebe que ali não está apenas um corpo, mas alguém que habita esse corpo e que só mexia os olhos.

       Após alguns testes, aos quais responde, apontando para símbolos, vai ser acompanhado mais de perto, com o apoio sempre presente dos pais e dos irmãos, adaptando-se a utilizar um computador, com software para produzir a fala e para responder através de símbolos e palavras. Vai-se aperfeiçoando com o corpo a responder a maiores estímulos e com um maior controlo.

       Pouco a pouco conquistou a autonomia que lhe permitiu estudar, trabalhar, executar algumas tarefas, ter um emprego a tempo inteiro.

        Há muitas situações diferentes, em casos semelhantes. Por vezes é quase um milagre encontrar as pessoas certas para verem além do corpo e das suas limitações. Este é um caso extraordinário de luta, de encontro, de amor e de afetos. Martin encontrará o amor da sua vida e de África do Sul viajará para Londres, para casar, e viver a sua vida. Com muitas necessidades e dependências, mas onde o amor vence barreiras e ilumina os seus dias.

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"Gostaria que todos vós parassem por um momento e imaginassem se não tivesse uma voz ou qualquer outro meio de comunicação.

Nunca poderia pedir "passa-me o sal" ou dizer a alguém coisas verdadeiramente importantes como "amo-te". Não poderiam dizer a ninguém que se sentiam incómodos, com frio ou com dores. Durante algum tempo, depois de descobrir o que me tinha acontecido, tive uma fase em que seria capaz de me morder de frustração pela vida que levava. Depois deixei-me disso. Tornei-me completamente passivo.

A minha vida sofreu uma mudança radical. Todavia, continuo a aprender a ajustar-me a ela e, embora as pessoas me digam que sou inteligente, tenho dificuldade em acreditar nisso. Os meus progressos são fruto de muito trabalho e do milagre que aconteceu quando as pessoas acreditaram em mim.

A comunicação é uma das coisas que nos torna humanos. E eu sinto-me honrado por me terem dado a oportunidade de comunicar".


29
Nov 15
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JOSÉ LUÍS NUNES MARTINS (2015) Os Infinitos do Amor. 53 reflexões. Lisboa: Paulus Editora. 224 páginas.

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       Semana a semana chegam-nos as reflexões de José Luís Martins, contribuindo para que o ambiente digital fique mais rico com a sua partilha, e muitas pessoas se deliciem numa leitura poética, simples de perceber, envolvente, tocando a vida nas suas variadíssimas expressões, alegria, tristeza, solidão, morte, a força das palavras, a abertura para fé, o compromisso com o bem e com a verdade, a morte, a luta, a vida como caminho, a amizade, o trabalho e a família, a felicidade, o bem e o mal, a eternidade.

       O livro com que nos presenteia permite-nos (re)ler, sublinhar uma ou outra frase. O formato de papel de algum modo permite-nos assimilar melhor cada texto, sugestão, desafio e facilmente voltar a folhear e a escolher uma reflexão para uma ou outra ocasião. Pelo menos para quem aprendeu a mexer, tocar, manusear as folhas. Mas seja neste formato de livro impresso, seja através das plataformas digitais, as reflexões de José Luís Martins são provocantes (no bom sentido), comprometem-nos com o melhor de nós, lutando, não desistindo, não desvalorizando as qualidades pessoais para agir, pôr em prática. As obras, o agir, as escolhas e opções testam os dons. A partilha, a humildade de se colocar ao serviço dos outros, potenciando o melhor daqueles com quem nos cruzamos; apostando no ser e não tanto no ter; mais na autenticidade e não tanto nas aparências; não baixar os braços mesmo quando as dificuldades são muitas; aprender a gostar de si mesmo, sentindo-se bem consigo para se poder dar aos outros; a certeza que o amanhã virá a seguir às nossas noites por mais escuras e frias que sejam.

       Como refere o Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada, José Luís Martins é, mais que um filósofo, um pensador, um pensa-dor. A vida é um mundo denso e intenso. Vida e morte. Alegria e luto. Júbilo e tristeza. Paz e ansiedade. Perda e sofrimento. Há sempre esperança. A vida depende muito do que sou, das opções que toma, das atitudes que assumo. Há que gastar bem o tempo, que é breve, mudar o que depende de nós mudar e não gastar tempo com o que não depende de nós.

       A fé e a mensagem cristã deixa-se facilmente intuir nas ideias e convicções expressas pelo autor.

       Sublinhado, inolvidável, para Carlos Ribeiro que ilustra de forma simples e intuitiva cada mensagem.

       Valerá a pena transcrever algumas expressões que se espalham pelo livro:

"A felicidade depende sempre mais de nós do que das circunstâncias".
"A pobreza não retira a dignidade a ninguém, mas a riqueza pode fazê-lo com facilidade" 
"Devemos concentrarmo-nos no que temos, agradecer quando temos acesso ao essencial e procurar e procurar que aquilo que excede as nossas necessidades possa chegar a quem dele precisa" 
"É possível viver num palácio sem se deixar corromper por isso. Há quem se sirva dos seus bens para ser uma bênção na vida dos outros: esse é rico, muito rico no que importa. Fez-se feliz, por se ter feito pobre para que outros sejam ricos... fez-se rico, por ter sido capaz de dar tudo!" 
"Não é o peso da cruz que importa, mas sim a força dos ombros que a carregam".
O passado não se altera, mas o futuro pode sempre ser diferente". 
"Os que nos amaram deram-se-nos. Não se perderam porque existem em nós. Sou também aquele que amou. Que me ama... A saudade é muito mais doce mas, qual espada, muito mais dura, afiada e longa. Parece destruir o que celebra. Trata-se de uma das tristezas mais fundas... a de se haver perdido o que se teve, a de se continuar a amar o que já não está aqui connosco. A de se continuar a ser dois depois de deixarmos de sentir o outro". 
"As adversidades como a morte, a doença grave ou uma tragédia, mais séria não se conseguem anular, faça o que se fizer. Aplicar aí a nossa coragem, vontade e persistência no sentido de destruir isso só terá um resultado efetivo: aniquila-nos, porque estaremos a tentar empurrar, não uma pedra pesada, nem sequer uma montanha mas o próprio peso do mundo... sem termos os pés assentes em nada". 
"Não há heróis de um gesto só. Ninguém chega a ser bom de um momento para o outro. As grandes obras são consequência de percursos em que a vontade se sobrepõe à natureza passiva repetidas vezes... Ninguém chega a ser mau de súbito. Os grandes disparates aparecem na sequência de outros disparates, menores, que vão corrompendo com paciência e determinação os alicerces da nossa liberdade, a fim de que, convencidos de que somos mesmo assim, aceitemos fazer o que nos prejudica e arruína a nossa verdadeira felicidade". 
"Agradecer e perdoar fazem diferença. Muita. Em mim e no outro. Sempre.... Um olhar, uma palavra, um silêncio ou um pequeno gesto, são suficientes para levar trevas ou luz à vida de outros. Assim. Num instante. Dependemos uns dos outros. Nós não somos sós. Nunca. Por maior que seja a solidão em que nos sentimos. Por maior que seja a escuridão e o frio, há sempre alguém que chegará. Sempre. Sempre. Por mais que demore". 
"A vida precisa de tempo, ma não há pior do que adiar... muitos julgam que o momento de amar pode ser outro. Que sempre haverá tempo depois do tempo. Errado. O tempo não é nosso e que, portanto, não está ao nosso dispor". 
"O amor leva-me ao outro. Supero os meus limites, do espaço e do tempo. Porque me dou, passo a existir também no que me ultrapassa. Sou mais. Só o amor permite a conquista da eternidade. Só o amor resiste ao nascimento e à morte. Qualquer vida que nasce brota de um amor, de uma entrega gratuita e incondicional de algo ao espaço e ao tempo sem fim... A nossa vida não nos pertence. Somos uma parte do todo. Não o centro. Não estamos vivos, somos vida. Uma vida cheia de mistérios, mas de beleza sublime. Podem as lágrimas e sofrimentos parecer a eternidade... mas só o bem não tem fim... O amor faz-nos renascer a cada vez que parece matar-nos.
Somos mais do que tempo. Muito mais". 
"O orgulho, a vaidade e a soberba andam quase sempre juntos. São os superiores aliados da ignorância! O orgulhoso coloca-se a si mesmo acima da realidade. Mas, não só se julga superior aos outros como ainda deseja que eles partilhem dessa mesma opinião, ou seja, que todos pensem que ele é o melhor! Mais ainda, por se julgar o assim o suprassumo, considera poder tratar os outros como seus inferiores!" 
"No amor, apenas as intimidades devem estar em comunhão. Sem confusão, sem exclusão, sem que se anule parte alguma de cada um. Há quem se faça demasiado próximo e por isso anule o outro. Não. É preciso que haja espaço e tempo para que cada um possa ser quem é e o quer ser. Não se trata de nos defendermos, mas tão-só de respeitarmos o outro". 
"Há quem prefira partir do que chegar. Quem busque descobrir todos os cantos e mistérios do mundo... mas há também quem apenas queira ser feliz em qualquer lugar, buscando-se a si mesmo... nos outros. Só quem se busca se pode encontrar. Muitos são os que andam perdidos... mas o amor implica uma saída de si, uma aceitação do outro como outro, não como alguém em quem posso (e julgo dever) replicar o que sou. Só quando me esqueço de mim posso descobrir a verdade do outro. Apenas o olhar dos que nos amam importa, porque só esse nos vê, só esse nos revela quem somos". 
"À solidão não se opõe a multidão, mas o amor. Aquilo de que alguém abandonado está à procura é de alguém próximo, não do aplauso de um monte de gente." 
"Aquele que quer ser feliz deve dar-se. Ser é amar e amar é dar-se. Ninguém pode ser nada se não na sua relação com os outros e com o mundo. O ser mais perfeito seria imperfeito se se fechasse em si mesmo e assim se reduzisse à sua própria individualidade. A vida é o dom de ser dom. Serve para se chegar à vida do outro. Para ser o que lhe falta... amando-o." 
"A sinceridade jamais pode ser a razão para magoar alguém. Ser sincero é também saber escolher o que dizer e o que calar. Não devemos dizer tudo quanto pensamos, mais ainda se não o tivermos pensado com honestidade e inteligência. O silêncio é parte essencial da verdade e da sinceridade". 
"Há boas paixões. São as que trabalham como um fermento. De forma pacata, pacífica e paciente. Animam, mas não dominam. Orientam, mas não decidem. Iluminam, mas não cegam... Por paixões comuns, há quem perca a cabeça, o coração e a alma. Uma paixão forte que se consente pode fazer com que a mais digna das pessoas se destrua... se consuma, não ficando senão as cinzas em que ardeu. 
"A verdadeira chama, aquela que nos ilumina, aquece e orienta, não é a das paixões, é a chama da vida. A vida ela própria, assim, simples e pobre na aparência. Aquela vida que tem consciência de que é, em si mesma, um dom. Uma luz. Um presente do divino. Uma presença divina. Não se trata de uma alegria de cumprir fantasias, antes sim da virtude suprema de saber apreciar os momentos da vida sem necessidade de ser sob a séria ameaça de a perder. Este é o único fogo que não consome".


19
Nov 15
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JOSÉ FRAZÃO CORREIA (2013). A Fé vive de afeto. Variações sobre um tema vital. Prior Velho: Paulinas Editora. 127 páginas.

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       No passado dia 14 de novembro de 2015, o Pe. José Frazão Correia, SJ (sacerdote jesuíta) foi o conferencista escolhido para orientar a reflexão/formação na Assembleia do Clero da Diocese de Lamego, que se realizou no Seminário Maior de Lamego. A apresentação do conferencista ficou a cargo de D. António Couto, Bispo de Lamego, sublinhando que o Pe. José era um teólogo promissor, com um cuidado e uma atenção muito poética dos textos publicados.

       O Pe. José Frazão é o atual Provincial dos Jesuítas. Natural de Leiria, de Alqueitão da Serra. Nasceu em 1970. Entrou para a Companhia de Jesus em 1995 e foi ordenado sacerdote em 2004.

O livro que agora sugerimos veio parar-nos às mãos, uns dias antes, disponível na Gráfica de Lamego (livraria religiosa da Diocese). Como seria o conferencista, valeria a pena ler alguma coisa por ele escrita, ou pelo menos esta era uma curiosidade acrescida.

       Depois da conferência na Assembleia do Clero,  “O Padre e o entusiasmo na evangelização”, cresceu o interesse em ler esta obra poética-teológica.

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 (Pe. José Frazão Correia no Seminário Maior de Lamego - Assembleia do Clero da Diocese de Lamego)

 

       O mundo em que vivemos relativizou a fé ou pelo menos o cristianismo. A Igreja não ocupa todo o espaço do mundo. E ainda bem. Pois Jesus Cristo também não ocupa todo o espaço. Jesus possibilita que o espaço e o tempo seja ocupado por outros, doentes, pecadores, estrangeiros. A Igreja não precisa de se impor, pela assunção de tradições e regalias, mas deve ser ponte para acolher a Palavra de Deus, para que as pessoas possam encontrar em Jesus Cristo a presença amorosa de Deus.

       A história de vida de Jesus, a Sua existência corpórea, encarnada, no tempo e no espaço, permite encontrar Deus. Na palavra proferida, nos gestos assumidos, na delicadeza, no trato com pessoas concretas, Jesus potencia o que há de melhor na humanidade, abre para a confiança. O cristianismo não é fácil nem resolve de uma assentada os problemas todos, é bênção e oportunidade de dar sentido a todas as situações da vida, seja benéficas ou diabólicas.

       Vale a pena ler algumas expressões que surgem ao longo do livro, para melhor perceber o texto e o contexto, e a prosa que se transforma em poema:

"Cada homem e cada mulher são oferecidos e impostos à existência. Hoje, talvez mais do que nunca, tornamo-nos responsáveis pelo nosso próprio património e destino, pelos nossos desejos, interrogações e passos... e a felicidade parece desenhar-se mais como cidade a sonhar e a construir do que paraíso perdido a lamentar... Não está tudo dado à partida, porque a partida é a possibilidade promissora de um caminho a fazer, de um sentido a fazer sensato".

"Graça e custo, honra e ónus são aa existência e a liberdade, desde o nascimento, lugar onde o essencial se prefigura e quase tudo está, ainda, por configurar. Todos começamos aqui. Todos nos iniciamos assim., pela bênção dos inícios. Admiravelmente, os dias da nossa vida começam tão promissores. E tão frágeis. Cada bebé que venha a este mundo é apresentado à luz como dádiva - é dado à luz. Por isso, poderá viver de gratidão, honrando para sempre a sua origem e o seu património".

"Com a graça, vem o custo. O que fora recebido, afinal, tem de ser conquistado, num espaço vital que se desenha entre a gratuidade e o custo, herança e invenção, chamamento e resposta..." 

"Para nos implicar, Deus não afeta menos do que a totalidade do que somos - corpo, afetos, desejos, inteligência, liberdade, imaginação, vontade - e não nos pediria menos do que começarmos por ser totalmente humanos!"

"Deus fez-se homem, assumiu a carne humana ou, dito de outra forma, a história efetiva daquele homem de Nazaré foi reconhecida como pertença real do Filho de Deus entre nós, para nosso bem".

"Gera-se a fé em Jesus de Nazaré como se gera a vida de cada ser humano: antes de mais, na confiança reconhecida, acolhida e correspondida... A nossa humanidade vem à luz e estrutura-se saudavelmente em encontros (o primeiro, do bebé com a mãe e o pai) e por meio de encontros que têm a confiança como marca elementar".

"A fé dá-se no terreno existencial do mundo quotidiano, corpóreo e sensível, ferial e transitório, complexo e fragmentário, contingente e ambíguo. Não pode, por isso, abstrair-se da realidade concreta daqueles que creem, com as suas histórias e os seus desejos, as suas fragilidades e paixões, a sua graciosidade e as suas desgraças, as suas feridas e sonhos".

"A abundância da graça divina, exposta no corpo do Filho, tem a força de atravessar todos os lugares demasiado apertados e perigosos da existência, reconciliando, salvaguardando e incrementando todas as possibilidades do humano".

"Deu perdeu o lugar nos lugares do nosso quotidiano... A sua passagem não invade o nosso espaço, mas cede-nos o lugar. A sua voz não abafa as palavras: dá-nos a palavra e a arte de dizer. A sua promessa não nos cancela o presente, porque é no presente que nos cura a imaginação e nos alarga o horizonte. A sua presença, como de quem passa, diz-nos A-Deus".

 

"O Santo não desdenha sentar-se à mesa de pecadores e mulheres de má vida. O Verbo cala-se na boca de uma criança que ainda tem de aprender a falar e na mudez de um condenado que já não tem direito à palavra... A vida passa pela dura prova da morte. Atravessa, por isso, com pés de barro, os altos e os baixos da condição humana, a sua graciosidade e as suas desgraças, as suas linguagens e a sua mudez, a sua fecundidade e a sua esterilidade, a sua justiça e a sua impiedade, a sua fé e a sua desconfiança. Memória e promessa, graça e esforço, silêncio e palavra, confiança e reconhecimento do dom da existência reencontram-se na história do filho de Deus entre nós. Não esqueçamos: é na carne e no sangue da nossa humanidade que o encontro entre Deus e cada homem e cada mulher se dá".

 

"Só Deus pode ser amado com todo o coração, porque só Ele pode garantir-nos a vida e reconhecer-nos plenamente no mistério que somos. Porque Ele é a origem desse som que não podemos dar-nos a nós mesmos. E, porque é Ele a plenitude e o reconhecimento do que, com esse dom, pudermos e soubermos dizer".


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