...espaço de discussão, de formação, de cultura, de curiosidades, de interacção. Poderemos estar mais próximos. Deus seja a nossa Esperança e a nossa Alegria...
30
Abr 17
publicado por mpgpadre, às 12:00link do post | comentar |  O que é?

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É mais importante não comer carne à sexta-feira ou ir à Missa ao Domingo?

Há tradições que são expressão da religiosidade mais popular. Mas, por vezes, parecem não passar de uma superstição entre outras como ver um gato preto, passar debaixo de uma escada, sentar-se a uma mesa com treze pessoas. É crucial não comer carne nas sextas-feiras da Quaresma porque é pecado e, pelo sim pelo não, mais vale prevenir e cumprir, não vá Deus chatear-Se. Temor sim, medo não. Deus ama-nos. É Pai de Misericórdia. Um Pai por certo não está à espera que o filho erre para o castigar, quando muito educa-o, dá-lhe ferramentas, aponta direções, caminhos…

Perguntam-me se comer carne às sextas-feiras da Quaresma é pecado! Apetecia-me responder: é mais importante ir à Missa ao Domingo. Uma pessoa não vai à Missa há dois ou três anos, só entra na Igreja num funeral, e depois pergunta se é pecado comer carne à sexta-feira? Claro que há muitas outras coisas essenciais, cuidar da família, comprometer-se com a justiça e com a verdade, ser honesto, ajudar os mais frágeis… Mas se falamos numa proposta feita pela Igreja, de abster-se de alguma coisa que se gosta muito, e que pode muito bem ser a carne, e que esse gesto (sacrifício) possa beneficiar uma causa, pessoas mais carenciadas, então talvez faça sentido interrogar-se sobre o que é essencial na vivência e expressão da fé!

Dois belíssimos textos no início da Quaresma. «Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes, convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é clemente e compassivo, paciente e rico em misericórdia» (Joel 2, 12-13). «O jejum que me agrada é este: libertar os que foram presos injus­tamente, livrá-los do jugo que levam às cos­tas, pôr em liberdade os oprimidos, quebrar toda a espécie de opres­são, repartir o teu pão com os esfo­meados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não des­prezar o teu irmão» (Is 58, 6-7).

Pergunta o Papa Francisco: como se pode pagar um jantar de duzentos euros e depois fazer de conta que não se vê um homem faminto à saída do restaurante? «Sou justo, pinto o coração mas depois discuto, exploro as pessoas… Eu sou generoso, darei uma boa oferta à Igreja… diz-me: tu pagas o justo às tuas colaboradoras domésticas? Aos teus empregados pagas o salário não declarado? Ou como a lei estabelece, para que possam dar de comer aos filhos?».

Desafia Jesus: «Ide aprender o que significa: prefiro a misericórdia ao sacrifício» (Mt 9, 13).

 

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4405, de 28 de março de 2017


21
Jan 17
publicado por mpgpadre, às 15:00link do post | comentar |  O que é?

1 – O ministério de Jesus e de João Batista não se contrapõe nem se justapõe. A mensagem de Jesus não recusa nem anula a mensagem de João, mas também não é sequencial. Entrelaçam-se. João prepara, dulcifica as mentes e os corações, adverte, desafia à conversão e à mudança de vida, para que um olhar renovado possa ver e reconhecer Aquele que há de vir da parte de Deus. Se o olhar é turvo, embaciado, não perceberá a presença de Deus no mundo e na história.

Jesus é novidade, pois é MAIS que o Messias esperado, o Rei prometido ou um qualquer Profeta. É o próprio filho de Deus, Deus connosco. Irrompe no tempo, para ser Um de nós. Vêm de Deus, é Filho de Deus, para nascer e crescer como filho do Homem e para caminhar connosco, confundindo-Se, propondo a Sua mensagem de amor e de perdão, convocando-nos, pelas palavras e pelos gestos, a vivermos como Ele, com compaixão e ternura, em lógica de serviço para gastarmos a vida inteira a favor dos outros.

A vida divina que chega a nós, por Jesus Cristo, é um projeto que nos impele a imitar a Trindade santíssima, deixando que seja o amor a circular nas nossas veias, no nosso olhar, no nosso coração, na nossa vida. Mais, a vida divina, em Jesus Cristo, já está entrelaçada na vida humana. A comunidade que somos chamados a formar já tem vida onde se agarrar, para crescer, já tem onde afundar as suas raízes.

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2 – Ao ser batizado por João no rio Jordão, como víamos na semana passada, Jesus assume publicamente a Sua missão de anunciar o Evangelho. Porém, segundo nos revela São Marcos, só depois da prisão de João Batista é que Jesus altera em definitivo e mais claramente a sua ação, retirando-Se para a Galileia. Deixa Nazaré e vai viver em Cafarnaum, terra à beira-mar. Se por um lado, a missão de Jesus não se sobrepõe à de João Batista, por outro lado, insere-se na mesma história da salvação. O elemento novo, que marca uma rutura de qualidade, é o facto de Jesus ser o Profeta por excelência, o próprio Filho do Deus Altíssimo, levando à plenitude o tempo e a história, inaugurando, em definitivo, um reino para Deus. «O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam na sombria região da morte, uma luz se levantou».

Jesus é a luz que nos liberta de tudo o que nos oprime, inunda as trevas com a Sua presença, revitaliza os ossos ressequidos e potencia os sonhos de um mundo melhor, mais humano, mais fraterno.

Conta comigo e contigo. Conta connosco. Não faz nada sozinho. Não Se impõe a partir do alto. Não emite uma ordem mantendo-Se à distância. Abaixa-Se. Coloca-Se ao meu nível, ao teu nível. Faz-Se do nosso tamanho. E, por conseguinte, nos chama, nos desafia e nos envia. «Vinde e segui-Me e farei de vós pescadores de homens».

Simão Pedro e André, João e Tiago escutam o Seu chamamento e deixam as redes, deixam o que estavam a fazer para se tornarem, com Ele, pescadores de homens. Logo O seguem no anúncio do Evangelho, pela Galileia, proclamando a salvação, curando as enfermidades e as doenças entre o povo.

E nós, como respondemos ao chamamento de Jesus? Largamos as redes e as amarras que nos prendem aos preconceitos, ao conforto, ao nosso cantinho? Ou tornamo-nos discípulos missionários, acolhendo Jesus em todas as circunstâncias e levando-O a todos?

 

3 – O Apóstolo São Paulo sublinha a primazia de Jesus Cristo. Uma primazia totalizante. Vem primeiro, mas é também a referência e a meta de toda a evangelização… se Deus é Pai de todos, e todos somos irmãos em Cristo Jesus, não faz sentido haver contendas e ruturas. «Rogo-vos, pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que faleis todos a mesma linguagem e que não haja divisões entre vós, permanecendo bem unidos, no mesmo pensar e no mesmo agir».


Textos para a Eucaristia (A): Is 8, 23b – 9, 3 (9, 1-4); Sl 26 (27); 1 Cor 1, 10-13. 17; Mt 4, 12-23.

 

REFLEXÃO DOMINICAL COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

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10
Dez 16
publicado por mpgpadre, às 19:45link do post | comentar |  O que é?

1 – Alegra-te, rejubila. O terceiro domingo do Advento, é Domingo da Alegria (gaudete), pois estamos às portas do Natal, celebração festiva do nascimento de Jesus. Em menos de nada estamos lá. À nossa volta já tudo nos fala desta quadra, mesmo que este tudo seja pouco, enfeites e prendas, vendas e compras e luzes, tudo faz parte e obviamente é importante, mas já que se faz a despesa que se festeje com o aniversariante, com Jesus. Essencial será renovar a fé, acolher Jesus, amar Jesus, descobrir Jesus, na oração e na celebração, em casa e na rua, na Igreja e no trabalho, na pessoa amiga e na vizinha, no que está próximo e no que está distante, naquele de quem precisamos e quem precisa de nós.

O dia a nascer! São horas de despertar. Os primeiros raios de Sol começam a clarear a aurora. Já o galo canta e já a vida encanta. É tempo de cantar, de sorrir, de louvar, é tempo de amar e de servir, é tempo de aprontar o biberão e dispor das mãos para trabalhar.

A certeza da chegada prometida, será cumprida. A promessa vem de Deus, o anúncio feito pelo Batista, tem em Jesus guarida. João cumpriu a sua missão, preparar a vinda do Messias. É o mensageiro que mostra o Reino a emergir. João é preso pela frontalidade com que anuncia e denuncia, pondo a descoberto os artesãos do mal e da corrupção. Da cadeia pede informações sobre Jesus e a Sua luz. Já ouviu dizer mas quer saber em definitivo que Aquele Jesus é mesmo o Messias prometido. A resposta, faz saber Jesus, está nas palavras proferidas, na mensagem proclamada, mas sobretudo no fazer e no viver: «Os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a boa nova é anunciada aos pobres. E bem-aventurado aquele que não encontrar em Mim motivo de escândalo».

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2 – Querendo ainda olhar para João, para melhor perceber o que nos quer levar a viver, ouçamos então o que Jesus também tem para dizer: «Que fostes ver ao deserto? Uma cana agitada pelo vento? Então que fostes ver? Um homem vestido com roupas delicadas? Mas aqueles que usam roupas delicadas encontram-se nos palácios dos reis. Que fostes ver então? Um profeta? Sim – Eu vo-lo digo – e mais que profeta. É dele que está escrito: ‘Vou enviar à tua frente o meu mensageiro, para te preparar o caminho’. Em verdade vos digo: Entre os filhos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Batista. Mas o menor no reino dos Céus é maior do que ele».

O deserto é incerto, mas é desafio certo, dele sair para cumprir o projeto que está a surgir. Jesus é a Palavra e o Rosto e a Vida do Pai. João é a Voz que ressoa pelo deserto até que doa, é Profeta e Precursor, que mostra que é essencial seguir o Salvador, Cristo Senhor.

 

3 – E continuando neste pendor, em preparação para celebrarmos o nascimento do Redentor, o desafio do Profeta Isaías: alegria, alegria! Não por qualquer passe de magia. Pelo contrário, é a vida, dada e oferecida, trabalhada e comprometida.

A convocação para o júbilo abarca toda a criação, o campo, o descampado e a terra árida. Dirige-se a todos, especialmente aos que estão fatigados. O Senhor Deus "vem fazer justiça e dar a recompensa. Ele próprio vem salvar-nos". É um tempo novo, de graça e de salvação. Anuncia-se o que se cumprirá com a chegada do Messias, cegos, coxos e mudos hão de ver, saltar e cantar com alegria.

A alegria firma-se na fé e na confiança em Deus. A Sua vinda está para breve. A Sua promessa é para concretizar. Ele volta-Se para nós, especialmente para aqueles que se predispõem a crescer, a amadurecer, que se querem protegidos, amados e redimidos.

Preparamos a chegada do Salvador agindo ao Seu jeito, cuidando de quem está mais frágil, pois cada vez que tratarmos a ferida do outro é de Cristo que estamos a cuidar, como muitas vezes lembrava a Santa Teresa de Calcutá.


Textos para a Eucaristia (A): Is 35,1-6a.10; Sl 45 (46); Tg 5,7-10; Mt 11,2-11.

 

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03
Dez 16
publicado por mpgpadre, às 15:00link do post | comentar |  O que é?

1 – Um tronco! Uma vida. Uma raiz! Um começo. Um rebento! Vida nova a germinar! Anúncio de primavera! Tempo de esperança! Aurora de um novo dia, claridade a despontar! E com o dia, mais tempo para viver, para aproveitar. Um tronco! Uma raiz! Um rebento! O deserto! Vazio ou espaço a preencher? João Batista a pregar, a anunciar, a provocar! Um Messias para vir! Um profeta novo a chegar!

De uma raiz desponta um rebento, de onde florescerá uma nova criação, um mundo novo. João Batista, sem peias nem teias: «Arrependei-vos, porque está perto o reino dos Céus». No dizer do profeta Isaías é a VOZ que clama no deserto, que nos interpela a prepararmo-nos para recebermos e reconhecermos a PALAVRA que vem do alto, que vem de Deus. Um rebento do qual germinará a vida e a salvação! Aprontemo-nos para perceber a Sua chegada. "Praticai ações que se conformem ao arrependimento que manifestais. Não penseis que basta dizer: ‘Abraão é o nosso pai’, porque eu vos digo: Deus pode suscitar, destas pedras, filhos de Abraão".

A salvação está aí, a árvore tem de dar fruto. De contrário, apenas servirá para fazer sombra, produzir oxigénio, para deitar ao lume... já é bastante útil e até necessário, mas não se compreende que árvores de fruto não deem fruto, se foram plantadas para esse efeito!

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2 – João e Jesus. Advento. A vinda de um prepara a vinda do outro. João vem primeiro, como Precursor, dulcificar os corações para se deixaram cativar por Jesus. Jesus está antes. Junto do Pai, desde sempre. Vem para salvar, para ajuntar, para redimir. Ele batizará no Espírito Santo e no fogo. Vem depois, mas é perante Ele que João Batista (e cada um nós) se prostrará para O adorar.

Do tronco de Jessé brotará um rebento. Um enxerto. Um novo David, novo Adão, novo Moisés. O rebento florescerá, dando frutos de misericórdia, de perdão, de justiça e de paz. O enxerto de uma árvore visa a produção de frutos de qualidade. Jesus enxerta-se na humanidade, assumindo-nos, Ele mesmo se torna em raiz, em árvore, na qual, doravante somos enxertados. Uma vez enxertados em Cristo, se o enxerto vingar, só podemos produzir bons frutos.

O profeta Isaías convida-nos a olhar para o Messias que virá, sobre Quem "repousará o espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de inteligência, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de conhecimento e de temor de Deus... não julgará segundo as aparências…"

Com Ele, um tempo de paz. "O lobo viverá com o cordeiro e a pantera dormirá com o cabrito; o bezerro e o leãozinho andarão juntos e um menino os poderá conduzir... A criança de leite brincará junto ao ninho da cobra e o menino meterá a mão na toca da víbora..." A partir dos frutos saberemos se estamos no caminho certo!


Textos para a Eucaristia (A): Is 11, 1-10; Sl 71 (72); Rom 15, 4-9; Mt 3, 1-12.

 

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29
Out 16
publicado por mpgpadre, às 15:00link do post | comentar |  O que é?

1 – Um publicano a rezar no Templo, colocando-se diante de Deus, despido de qualquer presunção ou pretensão, certo da misericórdia de Deus. Apresenta-se transparente e disponível para deixar que Deus o transforme. É a atitude do discípulo de Cristo. O discípulo é aquele que se predispõe a amadurecer, a crescer como pessoa, aperfeiçoando as arestas que ainda magoam os outros, pela indiferença ou pelos gestos de maldade, injustiça, violência.

Hoje o Evangelho mostra-nos outro modelo de discípulo. Zaqueu, o homem de vistas curtas, de estatura baixa, que não vê além do seu nariz, do seu umbigo. Mas chega um dia em que se sente impelido a ver e conhecer Jesus. Dois fatores o impedem de chegar perto de Jesus. O primeiro tem a ver sua pequena estatura. Já deu o primeiro passo: a decisão de ver Jesus. O outro obstáculo é a multidão. A multidão, na qual também nos encontramos, pode ajudar a encontrar Jesus, apontando para Ele, mas pode também impedir que alguém se aproxime de Jesus, mantendo-se compacta e barrando a passagem.

Em que situações a multidão impede de ver Jesus?

Em que situações a multidão ajuda a encontrar Jesus?

São duas questões que devemos colocar-nos. Sabemos que a vivência da fé, a coerência de vida, o testemunho, o cuidado com os mais frágeis, pode levar outros a querer estar perto de Jesus e a desfrutar da mesma fé e do mesmo compromisso. O inverso manifesta-se quando a vida concreta contradiz abertamente a fé professada. O nosso intento será sempre, reconhecendo o nosso pecado, procurar o mais possível a identificação a Jesus Cristo.

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2 – Quando queremos alguma coisa, de verdade, vamos atrás. Insistimos, uma e outra vez. Não desistimos à primeira. Procuramos os meios, as pessoas, os instrumentos para obtermos o que desejamos. Zaqueu decidiu ver Jesus. Não apenas avistá-l'O à distância, mas vê-l'O de perto, deixar-se ver por Ele. Também aqui a multidão teve uma influência positiva. Zaqueu ouviu falar de Jesus. Terá ouvido muitas coisas acerca do Mestre da Docilidade. Foi ouvindo o que se dizia acerca de Jesus: um Profeta que anuncia um reino novo. As palavras e os prodígios, a mensagem e a Sua postura. A alternativa: um subversivo, um revolucionário, um lunático. Das informações recolhidas, um desejo forte de encontrar-se pessoalmente com Jesus, confirmando com os próprios olhos o que ouvira dizer. Não basta o que ouvimos dizer, é necessário o encontro com Jesus.

"Então correu mais à frente e subiu a um sicómoro, para ver Jesus, que havia de passar por ali". Colocado num lugar estratégico, para ver sem ser visto. Mas antes de ver, já Jesus, chegado ao local, o vê e o chama: «Zaqueu, desce depressa, que Eu hoje devo ficar em tua casa». Atónito e surpreendido, logo desce e com alegria recebe Jesus em sua casa. Não há tempo para perguntas e para porquês. Agora é o tempo da conversão. A conversão iniciara-se com o desejo de ver Jesus e completa-se com o acolhimento alegre a Jesus.

O discípulo torna-se missionário. «Senhor, vou dar aos pobres metade dos meus bens e, se causei qualquer prejuízo a alguém, restituirei quatro vezes mais». A alegria do encontro com Jesus provoca compromisso e mudança de vida. Zaqueu só precisou de um lampejo de luz para se abrir à misericórdia de Deus, que se manifesta e age em Jesus. Doravante a postura de Zaqueu não mais será a mesma.

 

3 – Aquela multidão que vê Jesus a entrar em casa de Zaqueu – o chefe de publicanos, odiado pela profissão que exerce, concluindo-se que pertencia àqueles que usam e abusam do cargo –, não fica convencida: «Foi hospedar-Se em casa dum pecador». Jesus não percebe. É ingénuo. Como vai logo hospedar-se em casa de uma pessoa assim?! A resposta de Jesus vem mais à frente: «Hoje entrou a salvação nesta casa, porque Zaqueu também é filho de Abraão. Com efeito, o Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido».

A vinda de Jesus ao mundo tem um propósito firme: que n'Ele todos descubram Deus e se deixem salvar pelo Seu amor. Por conseguinte, cabe-nos hoje mostrar Deus aos nossos contemporâneos, transparecendo-O nas palavras e nos gestos, com a voz e com a vida.


Textos para a Eucaristia (C): Sab 11, 22 – 12, 2; Sl 144 (145); 2 Tes 1, 11 – 2, 2; Lc 19, 1-10.

 

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19
Mai 16
publicado por mpgpadre, às 16:14link do post | comentar |  O que é?

ANGELO COMASTRI (2006). Onde está o teu Deus? Histórias de conversões do século XX. Prior Velho: Paulinas Editora. 152 páginas.

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(Angelo Comastri, à direita de Bento XVI, à esquerda na foto)

 

Na aquisição de um outro livro, no caso de Tomás Halík, vinha este como oferta. Primeiro pensamento quando surge um livro como oferta para promover outro: não há de ser muito bom, ou não teve muita saída, e estão a aproveitar para despachar. Mas cedo nos apercebemos, folheando, que seria uma leitura interessante. Já me tinha acontecido com outro livro: SONALI DERANIYAGALA (2015). Vida Desfeita. Também vinha como oferta e foi uma leitura empolgante, sabendo, para mais, que correspondia a uma situação real.

Angelo Comastri, Vigário do Papa Bento XVI para a cidade de Roma, recolhe alguns testemunhos de pessoas que se converteram ao cristianismo, vindos do ateísmo, do comunismo, do judaísmo, ou de uma cristianismo apagado e indiferente.

A conversão é uma realidade que a todos diz respeito. Ao longo de toda a vida há de merecer a nossa atenção. Todos nos encontramos em processo de conversão, com dúvidas e questionamentos. Há depois aqueles cuja conversão foi mais repentina, mais acentuada, mais luminosa. Figuras como a de São Paulo ou Santo Agostinho de Hipona, mas também de outros, como Santa Teresa de Jesus, fervorosa criança e adolescente crente, que se distanciou, mas que a determinada altura da sua vida, percebeu, viu, que teria que alterar a sua vida de forma radical, deixando as modas, as intrigas da alta sociedade, para se entregar inteiramente a Jesus Cristo.

O autor apresenta-nos as figuras de Adolfo Retté, André Frossard, giovanni Papini, Edith Stein, Eugénio Zolli, Serjej Kourdakov e Pietro Cavallero. Ao falar a conversão de cada um, apresenta outros testemunhos semelhantes. No final de cada "biografia" o convite à oração.

  • Adolphe Retté - testemunhos semelhantes de Josué Carduci e Aldo Brandirali -, em 1907, tornou pública a sua conversão, com o diário "Do diabo a Deus". Cresceu e foi educado na fé, mas numa família dividida. Em adulto tornou-se ateu e inimigo da religião, dedicando-se a mostrar que Deus não existia. No final de uma conferência, um jardineiro interpela-o, dizendo que sabia que Deus não existe, mas perguntando que se o mundo não foi criado por ninguém, como é que tudo começou, o que é que a ciência sabe sobre o assunto. Intrigado por esta questão e sabendo que a ciência não tem uma resposta, começou a buscá-la, mormente quando lê a Divina Comédia, os cantos do Purgatório. Começa então a escutar uma voz interior que o desafia. Pouco a pouco vai descobrindo que a fé é luz e caminho, é verdade e vida. Ainda resiste, escrevendo contra a religião, mas já não havia volta a dar...
  • André Frossard - exemplo próximo, vindo das luzes de Paris, Paul Claudel -, era um ateu perfeito, como o próprio confessa, anticlerical, escarnecendo da religião como se fora um conto de fadas. Quando completou 15 anos de idade, pegou numa mão cheia de dinheiro e ia passar a noite com uma prostituta. No comboio viu um mendigo magríssimo e percebeu que não iria mais longe, o dinheiro seria para aquele mendigo... começava a conversão. Um dia entra numa Igreja, porque o amigo de quem estava a espera, estava a demorar demasiado, e decidiu entrar... cético, ateu convicto... e saiu de lá católico, romano, apostólico, atraído, levantado, retornado, ressuscitando por uma alegria inexplicável...
  • Giovanni Papini - exemplo semelhante, Marco Pisetta, ex-terrorista que se converteu a Jesus Cristo -. Contra a vontade do pai, mação convicto e republicano feroz, a mãe fê-lo batizar. No entanto, Giovanni tornou-se um fervoroso anticatólico. Em 1911, publicou as Memórias de Deus cheio de blasfémias. Mas as dúvidas assolam-no. Quer certezas que não encontra. Vários momentos o conduzem à conversão, a comunhão da sua menina, a doçura cristã da esposa, as censuras dos amigos, as leituras daquela altura, com Santo Agostinho, Pascal e os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loiola, a Imitação de Cristo... o coração já gravitava à volta de Cristo... e depois tudo era pouco para falar de Jesus Cristo!
  • Edith Stein - busca pela verdade condu-la a Cristo. Judia, longe de algum dia imaginar converter-se ao cristianismo. Com um temperamento independente em relação à família e às tradições judaicas, decide buscar a verdade, através do estudo. Terá como professores Husserl e mais tarde Max Scheler, filósofo judeu convertido aos cristianismo. Em 1915, trabalha como voluntária na Cruz Vermelha para tratar soldados vítimas do tifo e da cólera e aprende que a última palavra não é da ciência mas da dedicação. No verão de 1921, em casa de uma família amiga, para passar o tempo lê a autobiografia de Santa Teresa de Jesus (Teresa de Ávila), até de madrugada, concluindo: "Esta é a verdade". Tornando-se católica, viria a ser religiosa carmelita, e depois deportada pelos nazis da Holanda, vindo a ser morta por ser religiosa de origem judaica.
  • Eugénio Zolli - Israel Zolli era o grande rabino da comunidade israelita de Roma durante os dramáticos acontecimentos da 2.ª Guerra Mundial. Acabada a guerra tornou-se cristão-católico, testemunhando a sua fé e adesão a Jesus Cristo e ao Evangelho. Um terramoto. Sendo uma figura proeminente do judaísmo, a sua conversão trouxeram-lhe fortes ataques, além de ficar sem as condições económicas e financeiras, mas persistiu o chamamento de Cristo, a visão de Cristo a pousar-lhe a mão sobre os ombros. Também a esposa e posteriormente a filha se viriam a tornar cristãs. Esta conversão é também um testemunho favorável ao Papa Pio XII, muitas vezes acusado de silêncio sobre os ataques nazis, mas por muitos judeus reconhecido o seu papel em salvar milhares de judeus ao abrir-lhes, por exemplo, igrejas e conventos para os proteger.
  • Sergei Kourdakov - nasceu em 1 de março de 1951, na Sibéria. Os avós paternos morreram de inanição e fome, o pai foi fuzilado em 1955 e a mãe morreu de desgosto pouco depois. Até aos seis anos algumas famílias de amigos acolheram-no, depois foi para os colégios do Estado, saltando de um para outro. Aprendeu a lutar para se defender. Os seus educadores tinham horror a Deus. Foi-lhe inculcado que a religião não era inimiga mas os crentes e era estes que era preciso silenciar, perseguir, destruir. Viria a ser responsável de um grupo sempre à cata de grupos de cristãos reunidos para os ameaçar, bater, prender. Pelo meio encontra uma jovem persistente, é agredida com violência, numa reunião seguinte volta a encontrá-la e depois novamente, Fica admirado como é que alguém pode correr tantos riscos em nome da religião... um dia a arrumar a cave da esquadra, enquanto arrumava material confiscado aos crentes, para queimar e destruir, depara-se com uma página do evangelho manuscrita... e começa a fuga para o cristianismo. Na noite de 3 para 4 de setembro de 1971, a pouquíssimos quilómetros do Canadá, abandona o barco em que seguia e é-lhe dado azilo no Canadá... para procurar Deus... dando testemunho da sua vida crente... será morto a 1 de janeiro de 1973... já se tinha encontrado com Cristo.
  • Pietro Cavallero - é preso a 3 de outubro de 1967, depois de uma fuga de 8 dias, após a matança no largo Zandonai, na Itália. Ficou conhecido como o "bandido que ri", apesar de nunca se rir, apenas quando foi preso quando disparou o último tiro, pois não tinha mais balas... depois de encontrar Cristo passou a ter motivos para sorrir. Converteu-se... mas nunca arranjou atenuantes para o seu comportamento, tendo consciência dos erros cometidos...


15
Mai 16
publicado por mpgpadre, às 15:00link do post | comentar |  O que é?

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Encontros. Nem todos têm a mesma profundidade. Cada encontro deveria ser único, provocando mudança. Quando nos encontramos, a nossa vida enriquece-se.

Encontrar o outro não é tarefa fácil. O encontro implica-nos, compromete-nos, responsabiliza-nos. No Principezinho mostra-se essa clarividência: somos responsáveis pelas pessoas que cativamos. O outro, quando deixo que me encontre, quando o quero encontrar, torna-se especial, torna-se único, muda a minha vida para sempre e muda a qualidade do meu relacionamento com todos os outros.

Fazemos esta experiência todos os dias: quando amuámos com alguém, a expressão do nosso rosto muda para todas as pessoas. Quando descobrimos a alegria e a paz com esta ou com aqueloutra pessoa, o nosso rosto adquire luz para todas as pessoas que encontrarmos durante o dia.

Quem se encontra com Jesus Cristo descobre um sentido novo para a sua vida:

  • A Samaritana (Jo 4, 1-42). Um diálogo de descoberta. Jesus interpela-a na sua vida pessoal mas também na sua maneira de se colocar diante de Deus. A Samaritana é desafiada a descobrir a verdade. Converte-se a Jesus e anuncia-O.
  • A mulher adúltera (Jo 8, 1-11). Vai e não voltes a pecar.
  • Zaqueu (Lc 19, 1-11). O cobrador de impostos, ao serviço do império romano, traidor para os judeus. Jesus encontra-O e Ele muda: compensa os que roubou e dá aos pobres, com generosidade.
  • A mulher que toca no manto de Jesus (Mt 9, 20-22). No meio de uma multidão, a mulher encontra-se. Basta-nos o olhar de Jesus e deixarmo-nos envolver pela luz que brota do Seu rosto.
  • Apóstolos. Jesus cruza-se com eles, no meio da multidão, nos seus postos de trabalho. Interpela-os. Vinde e vereis. Tornam-se discípulos missionários.
  • João Batista (Lc 1, 39-45). Ainda no seio materno encontra Jesus e rejubila!
  • Também o Jovem rico (Lc 18, 18-27) não fica indiferente à figura de Jesus, mas naquele momento não está preparado para O seguir.

       Ao longo da História da Igreja os exemplos multiplicam-se.

  • Paulo de Tarso (Atos 9,1-30), depara-se com a figura de Jesus (cai do cavalo) e a sua vida dá uma volta de 180 graus. De Perseguidor a Apóstolo.
  • Santo Agostinho. O encontro com Jesus transforma-o. A sua vida doravante é dedicada ao estudo, à oração, à reflexão, à pregação da Palavra de Deus.
  • Francisco de Assis. Da riqueza material à pobreza, à simplicidade, para que o Evangelho passe pela sua vida, em todos os seus gestos.
  • Inácio de Loyola, Francisco Xavier, Madre Teresa de Calcutá, João Paulo II, Padre Américo e tantos homens e mulheres.

Publicado na Voz de Lamego, n.º 4360 , de 26 de abril de 2016


22
Mar 15
publicado por mpgpadre, às 11:00link do post | comentar |  O que é?

WALDEMAR TUREK (2015). História de uma conversão. A Quaresma com Santo Agostinho. Lisboa: Paulus Editora. 128 páginas.

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       Há livros que procuramos, pelo conteúdo, pelo autor, por uma sugestão. Há livros que encontramos sem procurar, mas que saltam à vista por algum motivo: o título, a capa, o tema, a referência a um autor. É o caso deste livro. A Gráfica de Lamego, livraria da Diocese de Lamego, procura diversificar nos livros e nos autores, acolhendo também as sugestões das Editoras (sobretudo cristãs). Semana a semana, ou conforme vamos passando, a verificação se há novidades. A capa não chamou à atenção, mas a referência a Santo Agostinho saltou logo à vista, por se um dos teólogos mais brilhantes do cristianismo.

       Ainda hesitamos, o tema era interessante, a Quaresma, com reflexões para todos os dias, da Quarta-feira de Cinzas até Sexta-feira Santa, e a reflexão dos Domingos, seguindo os três ciclos A, B e C; a referência a Santo Agostinho e às suas Confissões, eram sugestivas, mas o autor desconhecido. Quando um autor se vale de alguém do estatuto de Santo Agostinho, poderá ter o propósito de vender bem. Obviamente que ninguém escreve e publica um livro para ficar apenas exposto em prateleiras.

       Folheando o livro percebemos, na nossa opinião, que é um livro agradável, com reflexões muitos sugestivas para todos os dias da Quaresma, e as referências a Santo Agostinho fazem-nos entrar na sua busca espiritual, na sua conversão, na preocupação constante de conhecer e acolher Deus.

       Para quem leu as Confissões, tem aqui um prestimosa ajuda para relembrar alguns dos momentos comoventes na vida de Santo Agostinho. Para quem não leu esta importantíssima obra do Bispo de Hipona, aqui está uma ajuda e um incentivo.

       A vida de Santo Agostinho mostra como é possível passar da presunção de que se atinge a verdade pelo esforço pessoal, pelo estudo, pela filosofia, para a humildade de quem se aceita nas suas limitações, confiando na misericórdia de Deus.

       Nestes dias em que o Papa Francisco anunciou o Jubileu da Misericórdia (a iniciar no dia 8 de dezembro de 2015 e a encerrar no dia 20 de novembro de 2016), a leitura deste livro far-nos-á perceber melhor a misericórdia de Deus, numa reflexão agostiniana tão atual, hoje como nos seus dias terrenos. A misericórdia de Deus é transversal a todas as reflexões, e às Confissões do Santo de Tagaste. 

 

Veja a sugestão pelos olhos do


28
Jun 14
publicado por mpgpadre, às 15:00link do post | comentar |  O que é?

       1 – Pedro e Paulo: dois rostos bem conhecidos do cristianismo, no início da Igreja e na atualidade, ensinando-nos HOJE a necessidade de conversão – permanente – a Jesus Cristo, respeitando contextos, pessoas e culturas. O ambiente em que nascem e se convertem é distinto, como o tempo em que acontece; diferentes estilos e temperamentos, e a missão de cada um.

       O essencial é comum: Jesus Cristo; conversão; fidelidade ao Evangelho. Um e outro dão a vida pela causa do Evangelho.

       O chão de Roma foi coberto e encobriu o sangue de muitos mártires. Pedro e Paulo visualizam o sacrifício de muitos cristãos, que, como eles, na vida e na morte, anunciaram Jesus Cristo.

 

       2 – São Pedro é um dos apóstolos da primeira hora e dos mais genuínos. Tem o coração ao pé da boca. Diz o que lhe dá na real gana, merecendo o reparo de Jesus. Está sempre pronto. O que diz nem sempre tem a devida correspondência nas atitudes. A sua espontaneidade traz-lhe alguns dissabores, facilmente se espalha. Gera simpatia, ainda que com muita ingenuidade. Com a mesma facilidade com que confessa Jesus, também O nega e se afasta dos perigos.

       3 – O Evangelho traz-nos a primeira Profissão de Fé do Apóstolo sobre quem Jesus sustentará a Sua Igreja. Não é uma confissão de fé da antiguidade cristã, é atual, há de ser a afirmação da nossa fé em Cristo Jesus.

       Num primeiro momento, Jesus pergunta sobre o que se ouve acerca d'Ele. Ambienta a pergunta seguinte: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Que importância tenho na vossa vida? De que forma se alteram as vossas escolhas por serdes meus discípulos?

       Pedro responde também em nosso nome: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo». Jesus aposta nele, com as suas limitações e com as suas possibilidades. Deus não chama santos. Deus chama pessoas, de carne e osso, que podem e devem tornar-se santos, isto é, fazer com que as suas vidas valham a pena. «Também Eu te digo: Tu és Pedro; sobre esta pedra edificarei a minha Igreja…»

       4 – A figura de Paulo surge a primeira vez no julgamento e morte de Estêvão, que ele testemunha e aprova (cf. Atos 8, 1-3).

       A conversão não é igual para todos e poderá ocorrer em diferentes idades. Enquanto vivermos, estamos sempre a tempo de nos convertermos a Jesus Cristo.

       Pedro vai amadurecendo perto de Jesus. Paulo vai amadurecendo, na procura da verdade, longe de Jesus. Melhor, perto de Jesus, mas em sinal contrário, perseguindo-O nos seus discípulos. Quando se dá a conversão, que nos é apresentada como espontânea e repentina (cf. Atos 22, 3-16), vê-se como Paulo está perto de Jesus. Jesus responde-lhe: Eu sou Aquele a Quem tu persegues. A perseguição de Paulo leva-o a encontrar-se com o Perseguido.

       Zelo na perseguição, zelo na pregação. A partir de Damasco, Paulo não mais descansará, oportuna e inoportunamente pregará Cristo, indo sempre mais à frente, mais longe, onde humanamente lhe é possível. Inverte completamente a lógica anterior, tornando-se, como Cristo, perseguido, em diversas ocasiões. Não desiste. Confia. Na vida como na morte, conta com o amor de Deus.

       «O tempo da minha partida está iminente. Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. E agora já me está preparada a coroa da justiça, que o Senhor, me há-de dar naquele dia».

 

       6 – Como cristãos, sendo diferentes uns dos outros, na idade, na sensibilidade, na formação, todos podemos ser santos, discípulos e apóstolos. Todos temos algo a dar, se antes recebermos Jesus, acolhendo-O também nos outros.

       O ponto de partida pode ter sido diferente. A missão de cada um foi diversa. Pedro primeiramente junto dos judeus. Paulo sobretudo junto dos pagãos. No final, os dois apóstolos dão a vida por Jesus.


Textos para a Eucaristia: Atos 12, 1-11; Sl 33; 2 Tim 4, 6-8. 17-18; Mt 16, 13-19.

 


28
Mar 14
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

GIULIO VIVIANI. Porque Jejuamos? A prática do jejum e da abstinência na Igreja de hoje. Paulus Editora. Lisboa 2013. 112 páginas.

       Um livro é um pouco como as pessoas, não se mede aos palmos. Este é um pequeno livro mas muito curioso, abordando o tema do jejum e da abstinência (de carne) de uma forma simples, fundamentada, acessível, de fácil compreensão. Parte do texto de Isaías, que dá o título ao original italiano: «Para quê jejuar, se Vós não fazeis caso? Para quê humilhar-nos, se não prestais atenção?» (Is 58, 3). A resposta do Senhor é elucidativa: "É porque no dia do vosso jejum só cuidais dos vossos negócios, e oprimis todos os vossos empregados. Jejuais entre rixas e disputas, dando bofetadas sem dó nem piedade... O jejum que me agrada é este: libertar os que foram presos injustamente, livrá-los do jugo que levam às costas, pôr em liberdade os oprimidos, quebrar toda a espécie de opressão, repartir o teu pão com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não desprezar o teu irmão. Então, a tua luz surgirá como a aurora, e as tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se. A tua justiça irá à tua frente, e a glória do Senhor atrás de ti" (Is 58, 1-12).

       Esta crítica estará também no discurso de Jesus quando se refere a algumas práticas exteriores, rituais, que, embora respeitando a Lei, não aproxima as pessoas. O melhor jejum será sempre a bondade, a misericórdia, o serviço ao irmão. Ou dito de outra maneira, o jejum e a prática da abstinência (bem assim a oração e a esmola) deverão ser acompanhadas por uma conversão efetiva a Deus e de Deus para os irmãos.

       O autor fundamenta a relevância do Jejum e da Abstinência na Sagrada Escritura, na Tradição da Igreja, no Magistério papal. Desde logo o jejum de Jesus, durante 40 dias e 40 noites, no deserto, antes de iniciar a vida pública. Por outro a resposta dada alguns fariseus quando ao facto de os discípulos não jejuarem. A resposta é evidente: não jejuam por agora, enquanto o noivo está com eles, quando o noivo lhes for tirado então jejuarão (cf. Mc 2, 18-22).

       Alguns documentos importantes revisitados pelo autor: Constituição Apostólica Paenitemini, do Papa Paulo VI, Catecismo da Igreja Católica, Código de Direito Canónico, Normas para o jejum e abstinência, da Conferência Episcopal Portuguesa (28 de janeiro de 1985), e Nota Pastoral O sentido cristão do jejum e da abstinência, da Conferência Episcopal Italiana (4 de outubro de 1994).

       Na atualidade verifica-se, de algum modo, uma certa indiferença em relação a estas práticas, que se acentuam sobretudo na Quaresma. Por um lado, a própria Igreja mitigou as orientações, para sublinhar que a salvação era dom de Deus, afastando de novo algumas conceções farisaicas: a salvação resultaria sobretudo do esforço humano e do sacrifício, das práticas instituídas. A Igreja, fiel a Jesus, quis e quer, que as práticas exteriores, do jejum, oração e esmola, seja sobretudo um sinal de conversão, de adesão à vontade de Deus, de mudança efetiva na vida pessoa, familiar, comunitária, sejam oportunidades na Quaresma mas para se estenderem a todo o ano. Por outro lado, o Jejum e a abstinência não podem ser separadas, nunca, do serviço concreto ao próximo. Não se jejua hoje para amanhã comer mais, ou se poupa hoje para amanhã gastar mais, mas que a poupança, no jejum e abstinência possam reverter a favor dos mais necessitados. Aliás, estas práticas visam fazer-nos sensibilizar para as carências de outras, que não têm que comer, que vestir, não têm o mínimo necessário para sobreviver com dignidade.

       Um dos aspetos cuja reflexão me surpreendeu anda à volta da ABSTINÊNCIA e concretamente de CARNE. Obviamente, e o documento da Conferência Episcopal Portuguesa é claro, mas também outras intervenções do magistério episcopal e papal, a abstinência poderá ser de um alimento ou algo que nos agrade muito: do tabaco, de café, de andar de carro, de doces. Cada família, comunidade, ou cada região, poderá refletir e propor um jejum e/ou abstinência que seja sinal para aquela realidade. No entanto, a Abstinência de Carne poderá ser um sinal com raízes muito significativas.

       Em Sexta-feira Santa, Jesus ofereceu a Sua Carne por nós. A abstinência e o jejum e a oração e a esmola, são práticas pascais, para melhor nos associarem à paixão redentora de Jesus. Daí se recomende a abstinência em todas as sextas-feiras, especialmente na Quaresma. Configurados à oferenda de Jesus, em Sexta-feira só deveríamos COMER a CARNE de Jesus e não outra carne. Belíssimo. Nunca tinha encontrado uma explicação tão justa e luminosa como esta. Até o jejum eucarístico (uma hora antes de comungar) poderá aqui encontrar uma explicação válida: não misturar o ALIMENTO com outros alimentos, valorizando o verdadeiro Pão da Vida.

       Outro argumento, igualmente preponderante, o facto da abstinência de carne poder ser um SINAL cristão no mundo atual. A abstinência pode adquirir outras modalidades, mas havendo uma comum a todos os cristãos e a todas as comunidades funcionará melhor como sinal. Nas cantinas da escola, ou nos restaurantes, há uma alimentação própria para vegetarianos, para judeus. Os muçulmanos sinalizam o Ramadão em público... então por que não os cristãos proporem o SINAL, não comendo carne à sexta-feira, oportunidade para sublinharem as razões da sua fé.

       Obviamente que esta prática não recusa a abstinência de outros alimentos ou situações, a nível pessoal, familiar e/ou comunitário. Mas um SINAL comum dos cristãos seria bem vindo. Parece que só os sinais dos cristãos desaparecem, sem que ninguém se importe com isso. A fundamentação, contudo, está na identificação com Jesus Cristo e com o mistério da Sua morte e ressurreição.

       Diga-se também que o não comer carne não significa que se deva comer peixe... O autor conta uma pequena história em que uma senhora o terá abordado para dizer que as leis da Igreja eram um disparate pois obrigavam a comer peixe nas sextas-feiras da Quaresma, quando o peixe era uma comida cara, uma comida para ricos, não levando em conta as pessoas com menos recursos. Em nenhum documento da Igreja se diz que a carne deva ser substituída por peixe. Hoje há muitos alimentos confeccionáveis que não exigem carne. Leite, ovos, queijo não entram na "proibição"/ recomendação de não se comer carne. E portanto será fácil preparar refeições sem carne.

       A abstinência é recomendada a partir dos 14 anos. O Jejum, a partir dos 21 anos, e em Portugal a partir dos 18 anos, e até aos 60 anos de idade. Dispensadas estão as pessoas doentes, as mulheres a amamentar, ou outras razões que justifiquem a dispensa. As crianças, sobretudo em idade de catequese, e as pessoas com 60 anos ou mais, podem também jejuar. A indicação para todos é que não ponha em causa a saúde da pessoa que jejua.

       Vale a pena uma leitura atenta e descontraída deste pequeno livro. 112 páginas, com o tamanho de um tablet de 7''.


28
Fev 14
publicado por mpgpadre, às 12:00link do post | comentar |  O que é?

António José GOMES MACHADO. Edith Stein: Pedagoga e Mística. Editorial A.O., Braga 2008, 304 páginas.

       António José Gomes Machado dá à estampa este livro correspondente à dissertação de Mestrado em Ciências Religiosas, sobre Edith Stein que viria a converter-se em Teresa Benedita da Cruz. Nasceu em Breslau, na Alemanha, em 12 de outubro de 1981. Este dia coincidia com o Dia do Perdão, para os judeus, uma das festas judaicas mais significativas.

       Como é sabido, o século XX é marcado pelas duas grandes guerras e também Edith Stein, como judia e como alemã, estará no centro destes dois conflitos. Na primeira, voluntariando-se como enfermeira para ajudar os muitos feridos que chegavam aos hospitais. Na segunda, como vítima da perseguição nazi. Pelo meio fica uma história de procura, de descoberta, de encontro, de conversão, de luta, de persistência.

       A sua família é judia. As festas principais são oportunidades para a família estar mais ligada ao povo da primeira Aliança, promovendo ritos, tradições, costumes. Cedo verificará que a vida não é consequente com a fé professada e celebrada, sendo que as festas judaicas se tornam sobretudo encontro com a família mas não tendo uma tradução prática na vida quotidiana. Por volta dos 14/15 anos chega assaltam em definitivo as dúvidas e a busca pela verdade, por um sentido mais pleno para a vida. Deixa a escola e passa por um tempo em que se mistura o agnosticismo, o indiferentismo religioso, e até o ateísmo, mas sem uma clara animosidade em relação à religião judaica ou outra.

       Como nos mostra o autor, a sua busca levá-la-á a Santa Teresa de Ávila (Teresa de Jesus), a mística que renovou o Carmelo. Nunca deixando de procurar um sentido para a vida, a verdade, Edith Stein volta a estudar, entra em contacto com o pai da Fenomenologia, tornando-se sua discípula, mas não se fixando aí. Contacta com outros filósofos como Max Scheler, católico. Lê a autobiografia de Santa Teresa de Jesus e dá-se o clique: é esta a verdade. A partir de então, embora continuando a investigar, a dar aulas, explicações, na área da educação e da pedagogia, procura assumir a conversão, compra o Catecismo da Igreja Católica e um Missal, pede a um sacerdote para ser batizada e torna-se católica. A sua busca continuará sempre. As suas investigações terão um ponto de apoio, Jesus Cristo, o Messias anunciando pela Sagrada Escritura, esperado pelos judeus, e que ela descobre em Jesus. Concorre para uma cátedra na universidade mas, por ser mulher, é impedida. Então resolve seguir em definitivo a sua vocação, torna-se religiosa, procurando imitar Santa Teresa de Jesus.

       Entramos na segunda guerra mundial. As religiosas acham por bem que se mude para a Holanda, para outro Carmelo. Os Bispos holandeses acharam por bem emitir uma Carta Pastoral denunciando as atrocidades cometidas pelos nazis. Esta carta foi lida em 24 de julho de 1942 em todas as Igrejas católicas da Holanda. Como resposta, os representantes do Reich ordenaram a deportação de todos os judeus católicos, arrancando-os dos conventos. Também Edith foi detida a 2 de agosto de 1942, juntamente com a irmã Rosa Stein. Passaram por alguns campos de concentração, até que no dia 7 de agosto foram deportadas para o mais famoso campo de extermínio Auschwitz-Birkenau, onde chegara no dia nove do mesmo mês. Nesse dia, as que chegaram nesta leva, foram conduzidas para uma câmara de gás para serem mortas. Durante a noite os seus corpos foram queimados.

       O livro apresenta os dados biográficos de Santa Teresa Benedita da Cruz, mas também os frutos da sua investigação acerca da educação e da pedagogia, sendo que ela própria procurar colocar em prática o que ensinava.

       É uma leitura que permite conhecer melhor a co-padroeira da Europa (ao lado de Santa Brígida da Suécia e Santa Catarina de Sena), com muitos textos da própria Edith Stein. O livro é um extraordinário testemunho de vida, na procura permanente pela verdade, pelo bem, por um sentido para a vida.


01
Dez 13
publicado por mpgpadre, às 09:00link do post | comentar |  O que é?

       1 – Final de tarde. Viagem para a capital. Carro pronto para fazer-se à estrada. Bagagem acomodada. Férias de verão. Mãos no volante, pronto a arrancar. Irmã. Sobrinho. A criança é sentada na respetiva cadeirinha, no banco de trás. Menos de nada adormece sereno. A mãe ocupa o lugar de pendura, faz companhia ao condutor, para que este se mantenha desperto e atento à estrada, pondo-se a conversa em dia. Mãe sempre com o ouvido apurado e o olhar sorrateiro sobre o filho. Entretanto vem caindo a noite, escurece progressivamente. Do nada, a criança começa numa choradeira desalmada. Para-se o carro, a mãe passa para junto da criança que logo volta a sossegar, adormecendo novamente. Afinal a escuridão é a mesma, mas com a mãe ao lado, tudo é calmaria, nada assusta.

       Entramos num salão em total escuridão. Queremos passar de um para o outro extremo. Tateamos e nada. Nem um palmo vemos à frente do nariz. O medo de darmos uma canelada em algum móvel é maior, já antecipamos a dor, com a possibilidade de destruirmos algo de valioso que encontremos pela frente. Alguém entreabre a porta para a qual nos dirigimos, apenas uma nesga, uma luz ténue. E já nós avançamos seguros, ainda que nos circundem muitas trevas, uma vez que se vislumbra a direção e já podemos distinguir formas e objetos, avançamos. E quanto mais nos aproximamos da luz melhor vemos à nossa volta. É esta a dimensão de confiança que Jesus nos traz. A luz da fé orienta-nos no caminho a percorrer, a voz de Jesus atrai-nos.

       Ainda que envolvidos em trevas, mas o sabermos que uma mão nos segura, uma luz nos aponta a meta, Alguém caminha ao nosso lado, é chão seguro para acalmar a nossa dor, para antecipar a Alegria do encontro e da vida. Como reafirma o papa, na Sua primeira Exortação Apostólica, A Alegria do Evangelho (Evangelii Gaudium), mesmo nas circunstâncias mais adversas, a alegria “sempre permanece pelo menos como um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de, não obstante o contrário, sermos infinitamente amados”.

       2 – Percorremos um ciclo completo, de um Advento ao outro. É uma espiral, o círculo quase se fecha, com a solenidade de Cristo Rei, conclusão do ano litúrgico, mas logo outro tempo se apresenta, como dom, em continuidade, pois é um e o mesmo mistério da salvação, morte e ressurreição de Jesus, em cada Eucaristia renovando-nos e renovando a Igreja.

       Curiosamente ou não, os textos são muito próximos, falam-nos do fim/plenitude dos tempos e da vinda de Jesus, do desfecho mas sobretudo da confiança no amor de Deus que vive entre nós. Jesus fala abertamente, muitas coisas irão suceder. Os discípulos não estão isentos de sofrimentos, de perseguição, de injúrias, e morte. Guerras, cataclismos, violência, tumultos. Erguei-vos, levantai a cabeça, não temais, está perto a vossa salvação. O medo é próprio do desconhecido e do que vem aí, mas sabermo-nos apoiados por Alguém que vem do futuro e que antecipa a nossa salvação, dá-nos ganas para prosseguir com a segurança necessária. Melhor, e mais uma vez, como filhos que se lançam ao encontro dos braços delicados da mãe, ou dos braços fortes do pai, sem calcular a distância, ou a altura, olhando apenas para os olhos, o sorriso, o rosto, os braços abertos de quem lhes quer bem.

       Esta é a garantia de Jesus. Não é tempo para paralisarmos, é HORA de vivermos, uns com os outros e para os outros. “Portanto, vigiai, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor. Compreendei isto: se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão, estaria vigilante e não deixaria arrombar a sua casa. Por isso, estai vós também preparados, porque na hora em que menos pensais, virá o Filho do homem”.

       No final não interessa tanto a cronologia, mas a vivência quotidiana, entre alegrias e esperanças, tristezas e angústias, procurando o feixe de Luz e de Vida que nos vem de Deus, e nos enlaça e entrelaça com os irmãos. Não caminhamos sozinhos. Ele vai connosco e, se Ele nos acompanha, outros connosco se fazem à estrada.

       3 – Quando caímos na realidade nem tudo é como sonhámos. As certezas que vêm do nosso empenho por uma sociedade mais justa e humana colidem, nas mais variadas situações, com outras vontades e correntes, com indiferenças e conformismos, com ambientes contrários nos quais prevalecem injustiças, egoísmos, o "salve-se quem puder". Porém, para o cristão é sempre HORA de se fazer à estrada, é caminhando que se faz caminho. É no caminho que Jesus nos encontra. É no nosso caminhar que Deus vem até nós.

       Aí está o profeta a gritar às multidões: «Vinde, subamos ao monte do Senhor, ao templo do Deus de Jacob. Ele nos ensinará os seus caminhos e nós andaremos pelas suas veredas. De Sião há de vir a lei e de Jerusalém a palavra do Senhor».

       E a voz do profeta também a nós nos garante: “Ele será juiz no meio das nações e árbitro de povos sem número. Converterão as espadas em relhas de arado e as lanças em foices. Não levantará a espada nação contra nação, nem mais se hão de preparar para a guerra. Vinde, ó casa de Jacob, caminhemos à luz do Senhor”.

       Já não são horas para nos escusarmos com os outros ou com as circunstâncias (talvez pouco favoráveis). “Chegou a hora de nos levantarmos do sono, porque a salvação está agora mais perto de nós do que quando abraçámos a fé. A noite vai adiantada e o dia está próximo. Abandonemos as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz. Andemos dignamente, como em pleno dia, evitando comezainas e excessos de bebida, as devassidões e libertinagens, as discórdias e ciúmes; não vos preocupeis com a natureza carnal para satisfazer os seus apetites, mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo”. 

 

       4 – A vigilância não é passiva. Vigiar implica trabalhar pelo bem, irradiar a Boa Notícia, semear a paz, potenciar a concórdia, revestir-se de Jesus, por inteiro e em todo o tempo, e não apenas quando é mais fácil ou quando dá mais jeito. Não sabemos a hora de irmos em definitivo à presença do Senhor. E que importa? Importante é vivermos intensamente, procurando dar o melhor de nós mesmos, deixando marcas positivas no mundo, na relação com a família, com os colegas de trabalho, com os vizinhos, com os moradores do nosso bairro, com os que frequentam o mesmo café, a escola, o ambiente digital.

       E quando pecarmos, isto é, quando deixarmos vir ao de cima algo de menos bom, não desistamos, recorramos ao perdão de Deus e procuremos emendar o mal feito, aumentando ainda mais o nosso compromisso com o bem, com a luz, com a verdade. Parafraseando o nosso Bispo, no Encerramento do Ano da Fé, e Dia da Igreja Diocesana de Lamego: mais pertinho de Deus, mais pertinho dos irmãos. Não nos deixemos vencer pelas dificuldades, «quando as condições são adversas, não basta acender uma luz e mantê-la; é preciso aumentar constantemente a luz. Mais luz. Mais luz. Mais luz» (D. António).


Textos para a Eucaristia (ano A): Is 2, 1-5; Rom 13, 11-14; Mt 24, 37-44.

 

Reflexão Domincial na página da Paróquia de Tabuaço.


02
Nov 13
publicado por mpgpadre, às 15:00link do post | comentar |  O que é?

       1 – «Zaqueu, desce depressa, que Eu hoje devo ficar em tua casa». O convite de Jesus, feito a Zaqueu, e a cada um de nós, é extraordinário. Zaqueu era cobrador de impostos, publicano, profissão geradora de ódios, pois o que cobravam era fruto do trabalho, do sustento e das canseiras de muitas famílias, algumas das quais com escassos recursos, e ainda por cima os impostos cobrados era direcionados para o imperador romano, a potência invasora, e para as autoridades locais. Por outro lado, os cobradores de impostos, muitas vezes, aproveitavam o posto que ocupavam e a proteção que tinham para cobrar maquias consideráveis para si próprios.

       Jesus entra na cidade de Jericó. Ali vive um homem rico, o chefe dos cobradores de impostos. Zaqueu é de pequena estatura, de vistas curtas, pouco mais vê que a sua carteira. Mas para ver Jesus é necessário ter os olhos bem abertos, e sobretudo o coração. Impelido a ver Jesus, sobe a uma árvore, eleva-se do chão e acima da multidão.

       Entretanto, Jesus levanta o olhar e interpela-o: «Zaqueu, desce depressa, que Eu hoje devo ficar em tua casa». É preciso descer, colocar-nos ao nível de Jesus, que sendo de condição divina, quis ser um de nós, para no meio de nós nos ensinar a ser irmãos, porque filhos de Deus, do mesmo Pai. Se ficarmos no lugar em que nos encontramos, no nosso pedestal, na nossa vidinha, poderemos até ver Jesus, mas à distância, e apenas com os olhos, não com o coração. Zaqueu desce rapidamente e recebe Jesus com alegria.

       É uma alegria convertida em compromisso: «Senhor, vou dar aos pobres metade dos meus bens e, se causei qualquer prejuízo a alguém, restituirei quatro vezes mais». Não basta acolher o amor de Deus, é necessário que este AMOR maior seja serviço aos outros.

       Vêm então os reparos daqueles que, vendo Jesus, ainda não O descobriram, ainda não se deixaram tocar pela Sua presença, pelo Seu olhar: «Foi hospedar-Se em casa dum pecador». Jesus não se deixa enredar na cusquice e conclui: «Hoje entrou a salvação nesta casa, porque Zaqueu também é filho de Abraão. Com efeito, o Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido».

       2 – O Evangelho é um desafio de salvação. Devemos manter aceso em nós o desejo de querer ver Jesus, de O encontrar, de O seguir, de O levarmos para casa, de O trazermos para a nossa vida.

       Só a humildade nos coloca no caminho de Jesus, de contrário Ele passa e nós ficamos em cima do sicómoro, ou comodamente a murmurar, pelos outros que avançam caminhando com Ele. O chamamento é para mim. É para ti. Ele passa. Faz-Se caminho, verdade e vida. Vem habitar connosco, vem ficar em nossa casa.

       Se a nossa estatura é pequena, há que procurar mais afincadamente, abrir o coração, fazer com que as nossas vistas sejam mais largas, alcancem mais longe. É necessário procurá-l’O onde Ele vai passar. Escutar o seu convite. Segui-l'O para onde for. É necessário descer do nosso comodismo e não deixar que Ele passe adiante sem nós. Também São Paulo caiu do cavalo, do alto do seu orgulho e da sua presunção. Jesus bate à nossa porta, grita-nos aos ouvidos, envia-nos um impulso ao coração, como fez aos discípulos de Emaús.

       Acolher Jesus, segui-l'O deixando que entre em nossa casa, gera ALEGRIA que transborda, contagia e se espalha para as casas vizinhas, para as pessoas que se cruzam connosco. Ou então ainda não O encontramos. Não basta acolher o amor de Deus, é necessário que este AMOR maior seja serviço aos outros.

       Hoje a salvação quer entrar em minha casa, na tua, na nossa casa. Por mais perdidos que estejamos, Jesus vem salvar-nos, introduzindo-nos na comunhão de Deus. Levemos a outros esta alegria. Não impeçamos ninguém de se aproximar e de ver Jesus. A multidão impedia que Zaqueu chegasse perto de Jesus. Não sejamos empecilho para os outros pela nossa opacidade, pela nossa tibieza. Ao invés, deixemo-nos contagiar e contagiemos. Evangelizados e evangelizadores.


Textos para a Eucaristia (ano C):

Sab 11, 22 – 12, 2; Sl 144 (145); 2 Tes 1, 11 – 2, 2; Lc 19, 1-10.

 


21
Ago 12
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OS HIPÓCRITAS QUE VÃO À MISSA

A propósito do despropósito dos católicos não praticantes


       Foi há já algum tempo que uma pessoa, algo impertinente, disparou contra mim, à queima-roupa, a razão da sua não prática religiosa:

        - Eu não vou à Missa porque está cheia de hipócritas!

        Apesar de não ser um argumento propriamente original – na realidade, nem sequer é um argumento – o tópico deu-me que pensar, sobretudo porque é esgrimido, com frequência, pelos fervorosos «católicos não praticantes» que, como é sabido, abundam. São, em geral, fiéis descomprometidos, ou seja, pessoas baptizadas que dispensam a prática religiosa colectiva, com a desculpa de que nem todos os praticantes são cristãos exemplares.

        Alguns praticantes são, no sumário entendimento dos que o não são, pessoas duplas, porque aparentam uma fé que, na realidade, não vivem, enquanto outros há, como os ditos não praticantes, que mesmo não cumprindo esses preceitos cultuais, são mais coerentes com a doutrina cristã. A objecção faz algum sentido, na medida em que a vida cristã não se reduz, com efeito, a uns quantos exercícios piedosos.

        Mas o cristianismo é doutrina e vida: é fé em acção, esperança viva e caridade operativa. Portanto, a prática comunitária é essencial à vida cristã e a praxe litúrgica, embora não seja suficiente, é-lhe necessária. Assim sendo, mesmo que os praticantes não vivam cabalmente todas as virtudes cristãs, pelo menos não descuram a comunhão eclesial, nem a prática sacramental e a vida de oração. Deste modo, cumprem uma das mais importantes exigências do seu compromisso baptismal, ao contrário dos não praticantes, não obstante a sua auto-proclamada superioridade moral.

        Os fiéis que não frequentam a igreja, à conta dos fariseus que por lá há, deveriam também abster-se de frequentar qualquer local público, porque provavelmente está mais pejado de hipócritas do que o espaço eclesial. Estes novos puritanos deveriam também abster-se de ir aos hospitais que, por regra, estão cheios de doentes, e às escolas, onde pululam os ignorantes. É de supor que o único local digno da sua excelsa presença seja tão só o Céu, onde não consta qualquer duplicidade, pecado, fraqueza, doença, ignorância ou erro. Mas também não, ao que parece, nenhum católico não praticante…

        Segundo a antropologia cristã, todos os homens, sem excepção, são bons, mas nem todos praticam essa bondade. Um mentiroso não é uma pessoa que não acredita na verdade, mas que não é sincero, ou seja, não pratica a veracidade. Os ladrões são, em princípio, defensores da propriedade privada, mas não a respeitam em relação aos bens alheios. Um corrupto não o é porque descrê da honestidade, mas porque a não pratica. Aliás, as prisões estão repletas de boa gente, cidadãos que crêem nos mais altos e nobres valores éticos, mas que os não praticam.

        Mas, não são farisaicos os cristãos que são assíduos nas rezas e nas celebrações litúrgicas, mas depois não dão, na sua vida pessoal, familiar e social, um bom testemunho da sua fé? Talvez. Só Deus sabe! Mas, mesmo que o sejam, convenhamos que são uns óptimos hipócritas. Os hipócritas são bons quando sabem que o são e procuram emendar-se, e são maus quando pensam que o não são, justificam-se a si próprios, julgam e condenam os outros. Os crentes que participam assiduamente na eucaristia dominical, sempre que o fazem recebem inúmeras graças e reconhecem, publicamente, a sua condição de pecadores, de que se penitenciam, com propósito de emenda. Mesmo que não logrem de imediato a total conversão, esse seu bom desejo e a participação sincera na celebração eucarística é já um grande passo no caminho da perfeição.

        Foi por isso que, com alguma ironia e um sorriso de verdadeira amizade, não pude deixar de responder àquele simpático «católico não praticante»:

       - Não se preocupe por a Missa estar cheia de hipócritas: há sempre lugar para mais um!

 

P. Gonçalo Portocarrero de Almada, A Voz da Verdade, 2012.06.17, in POVO


27
Mar 12
publicado por mpgpadre, às 15:00link do post | comentar |  O que é?

       A conversão é a atitude permanente do cristão, é um modo de ser e de viver em Cristo. Não é conversão a uma ideologia, a um sistema de imposições, mas a Jesus, vida nova, vida de graça e de fé. Converter-se implica deixar-se transformar pelo Espírito de Deus, tornando-se, com os seus gestos e com as suas palavras, nova criatura, num processo sempre inacabado.

       A palavra que dá origem à nossa conversão é metanoia, e tem a ver com o ultrapassar-se a si mesmo, superar os seus limites, ir mais além. É a lógica da perfeição/santidade como caminho. A pessoa está chamada, desde logo pela sua humanidade, a aperfeiçoar-se cada vez mais. E até mesmo aqueles que reconhecemos como prepotentes têm necessidade dos outros e de aperfeiçoar alguns aspetos da sua vida, nem que seja para serem mais ardilosos no que fazem.

       Tem também a ver com a adaptabilidade.

       Hoje, mais do que ontem, mais do que nunca, temos que nos adaptar e rapidamente a situações e desafios novos. As transformações que se operavam há 50/100 anos eram muito lentas, o que permitia que as pessoas se adaptassem à evolução socioeconómica, social e religiosa. Mudar mentalidades leva muito tempo e precisa de muita paciência. Hoje falta-nos tempo! E talvez sabedoria!

       As mudanças efetuam-se à velocidade da luz. O nosso organismo – corpo e mente – tem muita dificuldade em se adaptar, em se converter a novas situações, tão velozmente. A pessoa acomoda-se: tem necessidade de casa, de descanso, de repouso, de pisar terra firme. Ao mesmo tempo, a adaptabilidade é uma das suas ferramentas essenciais de sobrevivência. Tantas foram as alterações ao longo dos séculos que o ser humano assimilou, adaptando-se e evoluindo.

       Destarte, falar de conversão não é assim tão estranho. Ao longo da nossa existência terrena podemos necessitar de nos convertermos várias vezes, mudar de profissão, mudar de local de emprego, mudar de habitação, deslocar-nos para outra terra, aprender outra língua, aprender outra técnica para sermos competitivos no trabalho...

       Falar de conversão, no contexto da fé cristã, significa estar disponível para acolher a graça de Deus e para mudar sempre que necessário o nosso coração e nossa mente para podermos aproximar-nos de Deus e ser fiéis, nas situações reais do nosso tempo e no lugar onde habitamos, ao Evangelho da verdade e da caridade, traduzindo em palavras e obras a fé que professamos e estar disponíveis para confrontar a nossa vida com a de Jesus Cristo.

       A nossa fragilidade muitas vezes trai-nos, na busca da verdade, na vivência da caridade, mas devemos prosseguir, na certeza que só tentando cumprimos a nossa missão como pessoas e como cristãos. A conversão é contínua, é um caminho que se constrói em movimento.

       Um belíssimo testemunho é a conversão do Apóstolo São Paulo. Mostra como há alturas da vida em que podemos "cair do cavalo", cair em nós, tomar consciência do caminho a percorrer e do que ainda nos distancia da vontade de Deus.

       De repente deixou de ver…

       No contacto com a intensidade de LUZ que vem de Jesus também nós podemos ficar cegos, e sobretudo se forçarmos os nossos olhos contra a luz de Cristo. É necessário que nos caiam as escamas, que os nossos olhos possam deixar passar a LUZ de Deus, possam ver com o olhar de Deus.

 


22
Mar 12
publicado por mpgpadre, às 15:43link do post | comentar |  O que é?

       Aí está, para já em formato digital, e no fim de semana em papel, distribuído gratuitamente aos paroquianos, o Boletim Paroquial Voz Jovem, na sua edição de março, com o número 140. Os temas, como é habitual, estão relacionados com a vivência da fé, na comunidade paroquial, e na aberura à Igreja e à sociedade. Neste mês os assuntos relacionam-se com a Quaresma, a conversão, com o Dia de São José e do Pai, com o Dia Diocesano do Catequista, a reflexão bíblica, continuando o texto de janeiro, e as informações próprias da vida paroquial.

       Boa leitura.

       O Boletim poderá ser lido a partir da página da paróquia de Tabuaço, ou fazendo o download:


20
Mar 12
publicado por mpgpadre, às 14:33link do post | comentar |  O que é?

       Creio que as nossas conferências quaresmais deste ano não podiam alhear-se do facto de a Igreja estar já próxima do Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização, a realizar em Outubro, comemorando também os cinquenta anos da abertura do último Concílio Ecuménico: o Vaticano II, em cuja receção ainda estamos, a vários títulos. Nessa altura se abrirá também o Ano da Fé, que marcará certamente o nosso ritmo diocesano até Novembro de 2013.

       Tanta ocorrência próxima exige, antes de mais, conversão. É esta a proposta – para não dizer a exigência – de Cristo, logo no início do Evangelho segundo São Marcos (cf Mc 1, 15). Assim a ouvimos também ao impor das cinzas, a abrir esta Quaresma: “Arrependei-vos e acreditai no Evangelho!”.

       Podemos dizer que esta exigência não é apenas inicial, antes constante nas nossas vidas; e que, sendo a vida em Cristo essencialmente comunitária – sempre (con)vivida no “corpo eclesial de Cristo” -, assim é também para as comunidades, das igrejas domésticas, que são as famílias, às paróquias e a todas as outras formas comunitárias da nossa existência.

       Fixo-me desde já na seguinte afirmação, que será como que o fio condutor de tudo quanto vos direi nestas conferências (ou nas três partes sucessivas duma única conferência): Cristianismo é conversão constante, vivida comunitariamente a partir duma Palavra sempre proclamada e ouvida, que oferece a cada tempo e circunstância a possibilidade de se realizarem pascalmente.

       Dito assim rapidamente, o enunciado pode parecer algo abstrato e mesmo estranho. Mas, na vida que levarmos em Cristo, as coisas aclaram-se e precisam-se, como em cada Quaresma se pede e muito especialmente se requer.

       Digamos então que Cristo conclui em si mesmo a história geral, como sentido último e finalidade atingida. E que a nossa vida em Cristo, na sucessão das gerações que vão protagonizando a aventura humana, abre sucessivos horizontes, em extensão e profundidade, a serem preenchidos por essa mesma Páscoa a todos oferecida.

       Podemos perguntar-nos por que razão foi assim, cronologicamente falando. Os antigos autores cristãos – do prólogo do 3º Evangelho a Santo Ireneu e tantos outros - viam na sucessão dos antigos impérios o longo e árduo encaminhamento da humanidade para aquele exato ponto em que, unidas as antigas civilizações no único império que de algum modo as interligava quase todas, seria já possível passar da promessa bíblica, das cogitações dos filósofos e das aspirações dos poetas à resposta divina, que só humanamente – incarnadamente – podia ser dada, tanto para respeitar o homem como para que Deus fosse “Emanuel”, Deus connosco e humanamente entendido.

       A esta luz podemos dizer que tudo quanto se insira ainda hoje, ou amanhã que seja – em sabedoria, ciência, literatura ou arte – na mesma senda de autorrevelação da humanidade a si mesma, continua a ter disponível e insistente a resposta final que Cristo lhe ofereceu uma vez por todas: a sua Páscoa, como fim e finalidade de todas as coisas.

       Recordo-me duma viagem de há muitos anos, passando pelo museu romano de Mérida e por uma igreja em Olivença. No primeiro, vimos uma estátua de Cronos, o tempo endeusado, enrolado numa serpente que, abocanhando o fim, sempre volta ao princípio. Na segunda, vimos a representação barroca duma árvore de Jessé, em que a descendência dos antigos reis culmina no Filho de Maria, no qual o tempo finalmente floresce e desabrocha, para se alargar a tudo e a todos. 

       Nunca mais esqueci esta sucessão plástica, bem sugestiva do que é o encontro de Cristo com o tempo humano, pascalmente transformado em tempo de Deus, porque tudo é por ele humanamente assumido, para ser oferecido ao Pai no altar da Cruz. Sabemos como, por sua vez, o Pai no-lo devolveu ressuscitado, para ser a nossa vida e a vida do mundo. - Assim permitamos – realmente permitamos! – que o Espírito que n’Eles circula também circule em nós, em perfeito Pentecostes! 

       Estas coisas sabemos; e devemos saber e explicitar sempre melhor, pois para isso se somou tanta meditação e reflexão nos dois milénios que Cristo já leva no mundo. Sabiam-no com admirável clareza os primeiros autores cristãos, como deixaram nalguns poucos e imensos versículos do Novo Testamento. É reler, por exemplo o princípio da Carta aos Hebreus (Hb 1, 1-4). Ou o da admirável 1ª Carta de São João (1 Jo 1, 1-4), sem esquecer, evidentemente, o prólogo do Evangelho segundo São João ou os magníficos hinos cristológicos inseridos nas epístolas paulinas, e tantos outros lugares inultrapassáveis.

       Todos nos falam duma vida que agora é “ultimada” e “eterna”, pascalmente ganha e oferecida por Cristo a quantos e aonde lhe permitam agora viver e conviver. Por isso melhor falaremos de “Cristo em nós”, à boa maneira de São Paulo, do que duma vida simplesmente “cristã”, como é corrente dizer-se. Na verdade, onde o Espírito consegue como que reproduzir a Páscoa de Cristo, já se trata de algo substantivo e não de mero adjetivo: vida de Cristo em nós – pessoas e comunidades – e não só uma classificação sociológica ou cultural, em sentido fraco e questionável. 

       Se olharmos agora mais de perto para o que têm sido estes dois milénios, eclesialmente falando, concluiremos decerto que temos de dar muitas graças a Deus. Sem leituras encomiásticas, que só reparam nos altos cumes e não atendem às ravinas que entre eles infelizmente também se abriram; nem leituras destrutivas, que não consideram nem respeitam o que foi e continua a ser a notável colaboração de tantos discípulos de Cristo para a história da humanidade que com todos compartilham: havemos de maravilhar-nos com a infinda capacidade do Evangelho para recriar “todas as coisas em Cristo”, nas mais diversas culturas e civilizações, tanto nas circunstâncias mais extremas como na habitualidade mais comezinha.

       Bastaria, para tal, aproximarmo-nos da realidade, passada e presente, com mais humildade e menos preconceitos. Ouve-se por vezes dizer que nos seria mais fácil acreditar – cristãmente acreditar – se tivéssemos vivido há dois mil anos, vendo e ouvindo diretamente a Jesus de Nazaré. Mas isso é esquecer o que os relatos evangélicos patenteiam, ou seja, que grandíssima parte dos que lá estavam ou não acreditaram ou até deturparam o que ele dizia e fazia; e que mesmo os seus discípulos tiveram muita dificuldade em percebê-lo, antes da luz pascal lhes abrir finalmente os olhos…

       Aproximemo-nos então de Cristo, de coração disponível e espírito atento, correspondendo à sua exortação e companhia oferecida (cf. Ap 3, 19-22). E isto mesmo é dito “às Igrejas”, pois só comunitariamente se entende bem e realiza em pleno, como experiência inter-pessoal e profecia para o mundo. Assim nos ensinaria São Tomé, que não soube da ressurreição de Cristo nem acreditou nos discípulos que lha testemunharam enquanto não esteve “com eles” (cf Jo 20, 26).

       Pontualizemos pois. A Evangelização coloca-nos diante da proposta de Cristo, para realizarmos a nossa vida como ele pascalmente o fez e no-lo proporciona, coisa só possível na força do Espírito e na inclusão eclesial, como ramos na videira (cf. Jo 15, 1 ss). Esta é a verdade das coisas, tão coincidente aliás com a natureza social do homem, agora transformada em “meio divino”. Para tal, são indispensáveis dois itens. 1º) Que a Palavra seja insistentemente proclamada em cada comunidade e 2º) Que cada comunidade se deixe constantemente converter por ela. Foi este o apelo do Concílio na sua fundamental constituição dogmática Dei Verbum, repetido mais proximamente pelo último Sínodo dos Bispos e por Bento XVI na exortação apostólica pós-sinodal Verbum Dei. 

       Assim dispunha e esperava a constituição conciliar: “… que a Palavra do Senhor avance e seja glorificada (cf. 2 Ts 3, 1), e que o tesouro da Revelação, confiado à Igreja, encha cada vez mais os corações dos homens. Assim como a vida da Igreja se desenvolve com a participação assídua no mistério eucarístico, assim também é lícito esperar um novo impulso da vida espiritual com a redobrada veneração da Palavra de Deus, que permanece para sempre” (Dei Verbum, 26). E a recente exortação apostólica insiste: “… o Sínodo convidou a um esforço pastoral particular para que a Palavra de Deus apareça em lugar central na vida da Igreja, recomendando que se incremente a pastoral bíblica, não em justaposição com outras formas de pastoral, mas como animação bíblica da pastoral inteira” (Verbum Domini, 73).

       Mas atendamos ao facto de, nestes dois milénios, o processo de exortação e aplicação não ter sido propriamente linear, mas como que cíclico, entre épocas de evangelização renovada e adaptada a circunstâncias próprias e tempos de concretização dela, mais ou menos conseguida. Daqui que possamos até identificar cinco grandes “evangelizações” da nossa Europa, como a seguir tentarei ilustrar.

 

Sé do Porto, 14 de março de 2012

D. Manuel Clemente, in Agência Ecclesia.


25
Jan 12
publicado por mpgpadre, às 19:12link do post | comentar |  O que é?

A conversão é a atitude permanente do cristão, mas também convite para todos. Obviamente, o sentido cristão da conversão leva-nos a um significado muito peculiar, deixar-se transformar pelo Espírito de Deus, tornando-se, com os seus gestos e com as suas palavras, nova criatura, num processo (sempre inacabado).
Entramos, de novo, na lógica da perfeição como caminho, ou da santidade. O ser humano, quem quer que seja, está chamado, desde logo, pela sua identidade humana, a aperfeiçoar-se cada vez mais, a abrir aos outros, a acolher os ensinamentos de pessoas mais velhas ou mais sábias. E até mesmo as pessoas que todos reconhecemos como arrogantes, até esses, têm necessidade dos outros e de aperfeiçoar alguns aspetos da sua vida, nem que sejam para serem mais ardilosos no que fazem.

A conversão tem também a ver com a adaptabilidade do ser humano.
Hoje, mais do que ontem, o ser humano tem que se adaptar e rapidamente a situações e desafios novos. A mudança que acontecia no mundo há 100 anos, permitia que as pessoas se adaptassem facilmente à evolução de costumes e de mentalidades, era em câmara muito lenta. Continua a afirmar-se que para mudar mentalidades é necessário uma geração, tempo e paciência. O que nos falta.
Hoje, numa década, em 5 anos, as mudanças são tão rápidas, que o nosso sistema tem alguma dificuldade em se adaptar, em se converter a novas situações.
O ser humano acomoda-se, tem necessidade de casa, de descanso, de repouso, de pisar a terra com a certeza de que está em terra. Mas ao mesmo tempo, a adaptabilidade é uma das suas características fundamentais de sobrevivência. E o que é certo, muitas foram as alterações ao longo dos séculos, e o ser humano foi-se adaptando.

Falar de conversão não é assim tão estranho, mesmo para não crentes, ou não praticantes. De facto, ao longo de uma vida, podemos ter necessidade de converter-nos várias vezes, mudar de profissão, mudar de local de emprego, mudar de habitação, deslocar-se para outra terra, aprender outra língua, aprender outra técnica para ser competitivo no trabalho...

Falar de conversão, no contexto da fé cristã, significa estar disponível para acolher a graça de Deus e para mudar sempre que necessário o nosso coração e nossa mente para podermos aproximar-nos de Deus e ser fiéis nas situações reais e concretas, do nosso tempo e no lugar onde habitamos, ao Evangelho da verdade e da caridade, isto é, traduzir em palavras e gestos concretos a fé que professamos e estar disponível para confrontar a nossa vida com a de Jesus Cristo.

A nossa fragilidade muitas vezes nos trai, na busca da verdade, na vivência da caridade, mas devemos prosseguir, na certeza que só tentando cumprimos a nossa missão como pessoas e como cristãos.

A conversão de São Paulo, que hoje celebramos, mostra como há alturas da vida em que podemos "cair do cavalo", cair em nós, tomar consciência do caminho a percorrer e do que ainda nos distancia da vontade de Deus. Ele era um judeu fervoroso, não era um judeu por ter nascido judeu, praticava, defendia, queria proteger o judaísmo. A perseguição aos cristãos têm a ver com essa vontade firme de proteger o judaísmo. Mas um dia deu-se conta que a perseguição aos cristãos o aproximou de Jesus Cristo e deixou-se converter por Ele.

De repente deixou de ver... no contacto com a intensidade de LUZ que vem de Jesus também nós podemos ficar cegos, e sobretudo se quisermos que os nossos olhos sejam mais fortes que a luz de Cristo, e que os nossos olhos nos conduzam pela vida... é necessário que nos caiam as escamas, ou seja, que os nossos olhos possam deixar passar a LUZ de Deus, possam ver com o olhar de Deus.
Como dizia o poeta, Fernando Pessoa, como tudo seria diferente se olhássemos para a vida, para o mundo e para as pessoas (não com o nosso mas...) com o olhar de Deus.


17
Mar 11
publicado por mpgpadre, às 10:10link do post | comentar |  O que é?

       Todas as pessoas já viveram situações que desejariam não ter vivido.

       Por vezes ouvimos alguns a dizerem que se voltassem atrás fariam tudo de novo, as mesmas coisas, repetiriam a vida. Como se isso fosse possível! As circunstâncias teriam que ser as mesmas. A vida não volta para trás. E, claro, todos alterariam alguma coisa. Só não mudam os burros e os sábios, como diz um provérbio chinês. Olhando para trás, se não houvesse nada a mudar, era sinal que nada se tinha aprendido com as diversas experiências., nada se teria aprendido com a própria história. Repetindo tudo, também os erros seriam repetidos.

       Obviamente, todos mudaríamos alguma coisa.

       Mesmo que saibamos que as circunstâncias em que agimos não nos tivessem antes permitido agir doutra forma. Como nos lembra Ortega y Gasset, nós, somos nós e as nossas circunstâncias. Quando fazemos algum gesto, quando assumimos um comportamento determinado, estamos sempre condicionados por muitos factores interiores, medo/confiança, experiência/inexperiência, coragem/hesitação, pessimismo/experiência, e por muitas factores exteriores, os outros, o tempo, as condições sociais, políticas, económicas, familiares.

       Deparamos também com aqueles que torcem as orelhas: quem me dera voltar atrás, como tudo seria diferente! Ah, como eu mudaria muita coisa! Ah, como tudo seria bem diferente! Se pudesse voltar atrás...

       Mas também não podemos voltar atrás. A nossa vida decide-se e resolve-se no presente e avança impreterivelmente para o futuro, para o amanhã, e este só Deus no-lo pode garantir. Cabe-nos viver o presente, o aqui e agora (hic et nunc) da nossa vida, do nosso quotidiano, o passado já lá está, o futuro a Deus pertence. Carpe diem - colha o dia, viva o momento! Num sentido cristão, positivo, significa que não desculpamos a vida com o passado ou com o futuro mas comprometemo-nos com o nosso semelhante no dia de hoje, nas circunstâncias que nos é dado viver.

       Quem me dera voltar atrás!

       Em tempo de Quaresma, este poderá ser um bom propósito, não para olhar (simplesmente) para trás, mas para nos "situarmos" (nos imaginarmos) no futuro, quando chegar o dia, se deixarmos, em que, ao voltar-nos para trás, para o passado, tenhamos que fazer tal afirmação, como lamento, como desilusão, como impossibilidade, com a resignação de quem sabe que poderia ter aproveitado a vida, poderia ter vivido bem, com verdade, com alegria, com honestidade, com garra, com história, e agora já não pode fazer nada com o tempo que desperdiçou, com as oportunidades que não agarrou... Não vale a pena chorar sobre o leite derramado!

       Para que um dia não tenhamos que também nós dizer "quem me dera voltar atrás", não percamos tempo nem oportunidades, façamos tudo, em todas as ocasiões, como se não houvesse amanhã, como se não tivéssemos mais tempo pela frente, como se fosse o último dia, o último encontro, a última palavra, o último café, o último sorriso.

       Demos o melhor de nós mesmos, agora! E então, mais à frente, poderemos dizer: não fiz tudo bem, cometi erros, poderia ter feito melhor, mas tentei dar o melhor de mim mesmo, não adiei escolhas, não desbaratei as minhas energias em futilidades, não desperdicei a oportunidade para ser feliz, não fugi a responsabilidades, não enganei, não maltratei, não injuriei, não menosprezei ninguém... posso morrer em paz!

       Podemos não fazer tudo bem, mas não deixemos de tentar, voltar a tentar, recomeçar, recomeçar uma e outra vez, não desistir da luta, não virar a cara às dificuldades, não esperar que outros façam o que eu posso fazer, não deixemos que outros escolham por nós o nosso destino!

       Quaresma é tempo de conversão, de propósitos de mudança de vida, para darmos o melhor de nós mesmos, nos tornarmos mais solidários, mais próximos, para testemunharmos o Deus da vida...

       Na nossa fragilidade, na nossa birrice, ou na nossa preguiça, peçamos a Deus que nos dê o discernimento para fazermos escolhas de bem e coragem para cumprir com a vida e com todos os projectos que nos transformam em irmãos uns dos outros.

       Não podemos voltar atrás, mas podemos construir detrás para a frente, de hoje em diante,...


13
Mar 11
publicado por mpgpadre, às 13:38link do post | comentar |  O que é?

       1 – Iniciámos a Quaresma na Quarta-feira de Cinzas, com a imposição das Cinzas, em sinal de arrependimento, de conversão a Jesus Cristo e de mudança de vida, para que o nosso coração dividido na dúvida, na incerteza, nos amores e desamores, se torne um coração indiviso em Deus, para que em Deus nos descubramos e nos encontremos todos como irmãos.

        "És pó da terra e à terra hás-de voltar".

       Nesta expressão bíblica, a lembrança da nossa origem comum, que para nós cristãos é Deus, e do mesmo fim, a vida eterna, de retorno a Deus. No entretanto da nossa vida, devemos buscar caminhos de encontro para mais facilmente e com maior alegria e certeza chegarmos juntos do Senhor.

       Neste primeiro Domingo de Quaresma, a liturgia da Palavra recorda-nos a nossa condição frágil e, ao mesmo tempo, as dificuldades que podem atravessar-se no nosso peregrinar e, ainda, a ajuda que nos é dada por Deus através da Sua palavra inspirada.

       "Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo Diabo. Jejuou quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome". Jesus faz a mesma experiência de fragilidade e de limitação para nos ensinar o caminho da superação. Diante da tentação, Jesus responde: “Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”... “Não tentarás o Senhor teu Deus”...  “Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto”.

       Deus é a única resposta para vencermos o mal e o egoísmo, pois só Deus nos faz ultrapassar as mágoas, o individualismo, abrindo o nosso coração à grandeza do perdão e da caridade, recentrando a nossa atenção aqui e agora mas orientada para o infinito, para o eterno de Deus.

 

       2 – O alimento de Jesus Cristo é fazer a vontade de Deus.

       É o Espírito que está no Seu baptismo, que O conduz também ao deserto, onde será tentado. É a presença permanente de Deus, do Seu Espírito, que O ajuda a superar a tentação. Deus é maior que a tentação. Jesus fixa-se n'Aquele que é definitivo, e não no imediato, no prazer, no poder, ou na fama.

       Na verdade, a vida não se revolve com passes de mágica. Também não se resolve com o poder. Por mais poder que tenhamos, há muitas coisas mais essenciais, a vida, a saúde, os amigos, o sentirmo-nos bem connosco e com a nossa consciência.

       A vida não se revolve com a fama. Destarte, os famosos seriam pessoas felizes; os que não a tivessem, pessoas infelizes. Por outro lado, a fama é diabólica, é efémera, ilude-nos mas logo nos castiga. O que nos faz felizes não é apenas o reconhecimento dos outros, mas o trabalho realizado com esmero, com dedicação, com vocação. O esforço e o sacrifício tornam-se fonte de alegria, de paz e de conforto. Não é o que os outros fazem por nós que nos transforma, que nos faz autenticamente felizes, mas o que conquistamos com persistência, com os talentos que Deus nos dá.

      As tentações de Jesus são também as nossas tentações.

       Como n’Ele, também nós, muitas vezes, queríamos a vida facilitada, resolvida, de mão beijada, em que tudo rolasse sobre carris, sem dificuldades, e em que tudo nos caísse do céu. Mas a vida não é assim. E ainda bem. Que sabor teria a nossa vida se pelo meio não houvesse nenhuma dificuldade que nos despertasse, que exigisse o melhor de nós mesmos, que nos obrigasse a descobrir (pela necessidade) o nosso talento?!

       A superação das tentações por Jesus, como nos lembra o Papa Bento XVI, na Sua Mensagem para esta Quaresma, abre "o nosso coração à esperança e guia-nos na vitória às seduções do mal".

 

       3 – Errar é humano. Esta expressão insinua precisamente a nossa condição errante. Aspirarmos à perfeição – sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito – diz-nos Jesus Cristo. Deve ser uma busca feita com verdade e com persistência. É o nosso ideal de vida. A nossa vocação à santidade. Mas sabemos o quanto estamos distantes dessa perfeição, nesta identidade divina.

       Na história da humanidade, tantas têm sido as histórias de infidelidade, de egoísmo, de violência, de conflito, de morte. O relato do livro de Génesis é disso exemplo. "Colheu o fruto da árvore e comeu; depois deu-o ao marido, que comeu juntamente com ela. Abriram-se então os seus olhos e compreenderam que estavam despidos. Por isso, entrelaçaram folhas de figueira e cingiram os rins com elas". Para os primeiros pais a tentação foi mais forte. Mas não deve provocar desânimo e desistência. Com Cristo, o nosso caminho é invertido para a generosidade e para o perdão, para a bênção e para a vida.

       Com efeito, diz-nos o Apóstolo, "Se a morte reinou pelo pecado de um só homem, com muito mais razão, aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça, reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo. Porque, assim como pelo pecado de um só, veio para todos os homens a condenação, assim também, pela obra de justiça de um só, virá para todos a justificação que dá a vida. De facto, como pela desobediência de um só homem, todos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, todos se tornarão justos".

        A salvação é uma certeza em gestação, que devemos viver e testemunhar para este nosso tempo.

 

_________________________

Textos para a Eucaristia (ano A): Gen 2, 7-9; 3, 1-7; Rom 5, 12-19; Mt 4, 1-11.

 


09
Mar 11
publicado por mpgpadre, às 10:58link do post | comentar |  O que é?

Textos da Liturgia desta Quarta-feira de Cinzas:

 

       «Convertei-vos a Mim de todo o coração, com jejuns, lágrimas e lamentações. Rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos. Convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é clemente e compassivo, paciente e misericordioso, pronto a desistir dos castigos que promete...» (Joel 2, 12-18).

 

       "Nós somos embaixadores de Cristo; é Deus quem vos exorta por nosso intermédio. Nós vos pedimos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus. A Cristo, que não conhecera o pecado, identificou-O Deus com o pecado por amor de nós, para que em Cristo nos tornássemos justiça de Deus... Porque Ele diz: «No tempo favorável, Eu te ouvi; no dia da salvação, vim em teu auxílio». Este é o tempo favorável, este é o dia da salvação" (2 Cor 5, 20 - 6, 2).

 

       És pó da terra e à terra hás-de voltar.

       É a condição de todos os seres humanos. O início da Quaresma relembra-nos a nossa condição igual. Donde vimos e para onde vamos. Mas diz-nos muito mais. Numa perspectiva mais científica é hoje afirmado que no início do Universo haveria apenas "poeira". E desta "poeira" nasceu o Universo. Neste sentido, a Bíblia é explicitada pelos dados da ciência. Numa palavra, temos todos a mesma origem: vida vegetal, animal, vida hmana. Para nós crentes, vimos todos de Deus. Esta solidariedade na origem há-de catapultar-nos para a solidariedade no caminho, para que no fim nos reencontremos todos em Deus.

       A expressão que se sublinha neste dia, lembra-nos a nossa fragilidade. A miséria do ser humano, mas que é também a sua grandeza. Não fomos criados para vivermos sozinhos, ou uns contra os outros, ou independemente dos outros. Fomos criados para vivermos como família, em Deus. De novo, recordemos a nossa origem comum. Por outro lado, o saber que não estamos cá para sempre, deve levar-nos a aproveitar bem o tempo que Deus nos dá para sermos felizes, para fazermos alguém feliz, para deixarmos o mundo melhor que o encontramos.

       Quaresma é este tempo favorável, como nos diz São Paulo, para a conversão, para a mudança de vida. Não uma mudança qualquer, mas mudarmos as nossas atitudes e o nosso comportamento para seguirmos imitando o Mestre dos Mestres, reconciliando-nos com Deus.

       Neste tempo santo, a Igreja recomenda diversas práticas: o jejum, a conversão, a confissão, a abstinência, a leitura mais frequente da Sagrada Escritura, a participação mais activa na Eucaristia, a partilha mais efectiva com os mais necessitados. Hão-de ser expressão da conversão interior. O gesto da imposição da cinzas, nesta Quarta-feira de Cinzas, mais não é que um fortíssimo sinal do nosso despojamento interior, que deverá significar adesão firme a Deus. Importa "rasgar o nosso coração"... os gestos exteriores só vale se nos mobilizarem interiormente...


13
Out 10
publicado por mpgpadre, às 16:57link do post | comentar |  O que é?

       Era uma vez um ferreiro que, após uma juventude cheia de excessos, resolveu entregar sua alma a Deus.

       Durante muitos anos trabalhou com afinidade, praticou a caridade, mas, apesar de toda sua dedicação, nada parecia dar certo na sua vida.

Muito pelo contrário: seus problemas e dívidas acumulavam-se cada vez mais.

       Uma bela tarde, um amigo que o visitara - e que se compadecia de sua situação difícil - comentou:

       - É realmente estranho que, justamente depois que você resolveu se tornar um homem temente a Deus, sua vida começou a piorar. Eu não desejo enfraquecer sua fé, mas apesar de toda a sua crença no mundo espiritual, nada tem melhorado.

       O ferreiro não respondeu imediatamente. Ele já havia pensado nisso muitas vezes, sem entender o que acontecia em sua vida. Entretanto, como não queria deixar o amigo sem resposta, começou a falar e terminou encontrando a explicação que procurava. Eis o que disse o ferreiro:

       - Eu recebo nesta oficina o aço ainda não trabalhado e preciso transformá-lo em espadas. Você sabe como isto é feito? Primeiro eu aqueço a chapa de aço num calor infernal, até que fique vermelha. Em seguida, sem qualquer piedade, eu pego o martelo mais pesado e aplico golpes até que a peça adquira a forma desejada. Logo, ela é mergulhada num balde de água fria e a oficina inteira se enche com o barulho do vapor, enquanto a peça estala e grita por causa da súbita mudança de temperatura. Tenho que repetir esse processo até conseguir a espada perfeita: uma vez apenas não é suficiente.

       O ferreiro deu uma longa pausa, e continuou:

       - Às vezes, o aço que chega até minhas mãos não consegue aguentar esse tratamento. O calor, as marteladas e a água fria terminam por enchê-lo de rachaduras. E eu sei que jamais se transformará numa boa lâmina de espada. Então, eu simplesmente o coloco no monte de ferro-velho que você viu na entrada de minha ferraria.

       Mais uma pausa e o ferreiro concluiu:

       - Sei que Deus está me colocando no fogo das aflições. Tenho aceito as marteladas que a vida me dá, e às vezes sinto-me tão frio e insensível como a água que faz sofrer o aço. Mas a única coisa que peço é: "Meu Deus, não desista, até que eu consiga tomar a forma que o Senhor espera de mim. Tente da maneira que achar melhor, pelo tempo que quiser - mas jamais me coloque no monte de ferro-velho das almas".

 

Mensagem do Dia, de Pe. Marcelo Rossi, in Só por Agora.


22
Mai 10
publicado por mpgpadre, às 10:52link do post | comentar |  O que é?

 

«O perdão,

o acto de amar o inimigo,

assim como perdoar a si mesmo

não é um evento repentino,

uma mudança rápida de ânimo.

 

A maior parte do tempo é um processo longo,

que se inicia com o desejo de sermos livres,

de nos aceitarmos como somos

e de crescermos no amor por aqueles que são diferentes

e por aqueles que nos magoaram

ou aparecem como nossos rivais.

 

É o processo de sairmos da prisão das nossas simpatias e antipatias,

dos nossos ódios e medos,

e caminharmos para a liberdade e para a solidariedade.

No processo de libertação pode ainda haver inibições,

ressentimentos e raiva,

mas há também este desejo crescendo de ser livre.»

 

Jean Vanier, postado de "Abrigo dos Sábios".


08
Abr 10
publicado por mpgpadre, às 14:29link do post | comentar |  O que é?

       A águia é uma das aves que tem uma vida mais duradoira, mas precisa de (quase) morrer, passando por um processo de sofrimento, para depois ressuscitar, ou melhor, renascer, ou melhor, renovar o que lhe permite viver por mais alguns anos. Em tempo de Páscoa, imitar a Águia, será significativo. Temos de ressuscitar constantemente com Jesus Cristo, renascer, converter-nos, transformar a nossa vida, renovar a nossa atitude, sem esmorecer, sem desistência, mesmo quando o medo e o medo de sofrer nos tirem do sério, ainda assim, deixar-se modelar pelo Espírito de Amor de Jesus Cristo, o Mestre dos Mestres.


12
Mar 10
publicado por mpgpadre, às 15:49link do post | comentar |  O que é?

       Em tempo de Quaresma o apelo à mudança, à conversão, é permanente. Não é preciso mudar o mundo inteiro, basta que nós mudemos, que mudemos o nosso mundo interior, para que todo o mundo mude connosco. Leia agora com atenção esta estória que se segue e medite.

 

 

       Num bairro pobre de uma cidade distante, morava uma garotinha muito bonita. Ela frequentava a Escola local. Sua mãe não tinha muito cuidado e a criança quase sempre se apresentava suja. Suas roupas eram muito velhas e maltratadas.

       O Professor ficou penalizado com a situação da menina.

       - “Como é que uma menina tão bonita pode vir tão mal arrumada para a Escola?”

       Separou algum dinheiro do seu salário e, embora com dificuldade, resolveu comprar-lhe um vestido novo.

       Ela ficou linda no vestido azul!

       Quando a mãe viu a filha naquele lindo vestido azul, sentiu que era lamentável que sua filha, vestindo aquele traje novo, fosse tão suja para a escola. Por isso, passou a dar-lhe banho todos os dias, pentear os seus cabelos, cortar as suas unhas…

       Quando acabou a semana, o pai disse:

       - “Mulher, não acha uma vergonha que a nossa filha, sendo tão bonita e bem arrumada, more num lugar como este, caindo aos pedaços? Que tal você ajeitar a casa?

       Nas horas vagas, eu vou dar uma pintura nas paredes, consertar a cerca, plantar um jardim.”

       Logo mais, a casa se destacava na pequena vila pela beleza das flores que enchiam o jardim, e o cuidado em todos os detalhes. Os vizinhos ficaram envergonhados por morar em barracos feios e resolveram também arrumar as suas casas, plantar flores, usar pintura e criatividade.

       Em pouco tempo, o bairro todo estava transformado…

       Um homem, que acompanhava os esforços e as lutas daquela gente, pensou que eles bem mereciam um auxílio das autoridades. Foi ao Prefeito expor suas ideias e saiu de lá com autorização para formar uma comissão para estudar os melhoramentos que seriam necessários ao bairro.

       A rua, de barro e lama, foi substituída por asfalto e calçadas de pedra.

       Os esgotos a céu aberto foram canalizados e o bairro ganhou ares de cidadania.

       E tudo começou com um vestido azul…

       Não era intenção daquele professor consertar toda a rua, nem criar um organismo que socorresse o bairro. Ele fez o que podia, deu a sua parte. Fez o primeiro movimento que acabou fazendo que outras pessoas se motivassem a lutar por melhorias.

       Será que cada um de nós está fazendo A SUA PARTE no lugar em que vive? Ou será que somos daqueles que somente apontam os buracos da rua, as crianças à solta sem escola e a violência do trânsito? Lembremos que é difícil mudar o estado total das coisas. Que é difícil limpar toda a rua, mas é fácil varrer a nossa calçada. É difícil reconstruir um Planeta, mas é possível dar um vestido azul. Há moedas de amor que valem mais do que os tesouros bancários, quando endereçadas no momento próprio e com bondade. Você acaba de ganhar um lindo “vestido azul”! Vamos melhorar NOSSO PLANETA-CASA !

 

 

postado a partir de Caritas in Veritate.


08
Mar 10
publicado por mpgpadre, às 10:56link do post | comentar |  O que é?

       Vitorino, funcionário de um ministério, decidiu passar a Quaresma sem fumar. Pareceu-lhe que seria uma boa maneira de 'ganhar' o Céu. E foi cumprindo, dia após dia, embora com muito custo. A esposa, muito paciente, foi notando que ele se tornava cada vez mais insuportável.

 

 

       Quando chegou à noite da Segunda-feira Santa, já com a Quaresma prestes a terminar, deitou-se mais uma vez nervoso e de mau-humor. Exclamou:

       - Esta noite não vou conseguir dormir!

       A esposa, pacientemente, não o contradisse:

       - Não vamos dormir, nem tu nem eu!

       Ao longo da Quaresma, este homem, de facto, não fumou mas foi ficando cada vez mais azedo.

       Entretanto, a sua esposa ia tendo cada vez mais paciência para o aturar.

       Pouco tempo depois da Páscoa, o homem teve uma síncope cardíaca e foi bater à porta do Céu.

       Quando chegou, São Pedro levou-o para um modesto lugar junto da porta. O homem resmungou:

       - Então andei uma Quaresma inteira sem fumar e fico aqui num dos piores lugares?

       São Pedro voltou a consultar o ficheiro e disse:

       - Vitorino: Aqui está a tua ficha. Nela está escrito: «Tem uma esposa santa; aguentou o seu marido sem fumar a Quaresma inteira»".

in Juvenil, n.º 535, Março 2010.


03
Mar 10
publicado por mpgpadre, às 20:25link do post | comentar |  O que é?

       A internet tem destas coisas, aquilo que chamamos globalização. Podemos partilhar ideias, textos, testemunhos, vídeos, informações. Este chega-nos do Brasil, da Canção Nova, com esta palestra que procura responder o que é a Quaresma:


02
Mar 09
publicado por mpgpadre, às 10:40link do post | comentar |  O que é?

       Entramos no santo tempo da Quaresma. Somos convidados a viver este grande retiro que a Igreja propõe aos fiéis, para preparar a Páscoa, num ambiente de espiritualidade, incrementado pela prática dos meios tradicionais de penitência e ascese cristã, particularmente recordados nesta altura: a oração, a esmola e o jejum. Lembra-os também o Santo Padre, na sua mensagem para a Quaresma.


25
Fev 09
publicado por mpgpadre, às 10:31link do post | comentar |  O que é?

       Em toda a Igreja inicia-se hoje o tempo da Quaresma, tempo de conversão, tempo de olharmos de Deus para os outros, acolhermos o olhar misericordioso de Deus para o assumirmos na relação com os outros. O jejum, a penitência, a esmola, são oportunidades denos lembrarmos mais dos outros, colocando como referência fundante a Deus.

       Vejamos uma mensagem para a Quaresma, do Bispo do Porto, D. Manuel Clemente, mas que é adequada para todos os cristãos.

 


23
Fev 09
publicado por mpgpadre, às 18:19link do post | comentar |  O que é?

       A vivência séria e consciente do cristianismo leva-nos inevitavelmente á reconciliação, connosco, com os outros, com o mundo, com DEUS, m todo o tempo... A Quaresma é por excelência este tempo de deafio à conversão interior e a conciliação com o irmão. Vejamos mais um diaporama das Edições Salesianas.

 


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