...espaço de discussão, de formação, de cultura, de curiosidades, de interacção. Poderemos estar mais próximos. Deus seja a nossa Esperança e a nossa Alegria...
16
Fev 17
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CORMAC McCARTTHY (2010). A Estrada. Lisboa: Relógio d'Água. 192 páginas.

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Um livro que se lê de fio a pavio, sem respirar, com o fôlego a exigir que se continue, pela trama, pela beleza da escrita, pelo conteúdo. Vamos por partes. Há livros que nos caem nas mãos. Há livros que temos de ler. Há livros que encontramos por acaso. Há livros que sugerimos aos outros porque, para nós, são belos, importantes, com um conteúdo relevante, por constituírem literatura premiável, por serem arte.

Na leitura de alguns comentários sobre o filme/romance Silêncio, livro de Shusaku Endo, adaptado ao cinema por Martin Scorsese, encontramos esta crónica de Henrique Cardoso, "Ser cristão no coração da trevas", crónica semana na Rádio Renascença. «No meu processo de conversão, o romance “A Estrada” foi fundamental. Costumo dizer a brincar que este livro de Cormac McCarthy é o meu quinto evangelho. Na altura (2009), já não era ateu e estava naquele centrão teológico chamado agnosticismo, que é uma forma chique de dizer ainda-não-tinha-coragem-para-dar-o-passo-em-direcção-de-Deus».

O cronista comentava o filme de Martin Scorsese, Silêncio, adaptado a partir do romance de Shusaku Endo, que já por aqui recomendei (SHUSAKU ENDO - SILÊNCIO).

A ligação do livro "A estrada" ao filme: «O livro parte desta pergunta: o que fazer no coração das trevas? Num mundo apocalíptico sem qualquer esperança, num mundo que parece o local da batalha onde Lúcifer venceu Gabriel, como é que mantemos a nossa decência? Como é que mantemos a nossa moral num mundo que nem sequer é imoral mas sim amoral, tal é a indiferença perante o mal? A própria ideia de “moral” é concebível num mundo onde até o canibalismo se torna normal? Quase dez anos depois, o filme “Silêncio” de Martin Scorsese remete-me de novo para essa questão. Só que agora, já na condição de convertido, coloco a palavra “fé” onde antes tinha a palavra “moral”. Como é que se serve Deus e Jesus a partir do coração das trevas? A própria ideia de “fé” faz ali sentido?».

Foi nesta altura que pessoalmente achei crucial ler o "Silêncio" mas ler também "A Estrada". Acabada a leitura de um, logo iniciei o outro.

É um daqueles livros memorável. Um homem com o seu filho, ao longo de uma estrada (sem fim), a procurar sobreviver, entre escombros, encontrando pessoas más (algumas serão boas), um mundo destruído, ardido, desumano, onde a vida escasseia, e assim também os alimentos... vivendo um dia de cada vez e uma noite de cada vez, em sobressalto. O pai que tudo faz para proteger o filho, num diálogo vivo em que sobrevém a vida e os sentimentos. No filho assoma a bondade, a inocência. No pai o pragmatismo, o instinto de sobrevivência. Apoiam-se um ao outro. Quando falta tudo e também a esperança parece desaparecer, apoiam-se um ao outro, até ao fim... O perigo de um morrer pode significar a morte do outro. O pai não deixará que o filho morra e se morrer também ele acabará com a sua vida, são o mundo um do outro.

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Fome, frio, medo, "A Estrada é a história verdadeiramente comovente de uma viagem, que imagina com ousadia o futuro onde não há esperança, mas onde um pai e um filho, 'cada qual o mundo inteiro do outro', se vão sustentando através do amor... é uma meditação inabalável entre o pior e o melhor de que somos capazes: a destruição última, a persistência desesperada e o afeto que mantém duas pessoas vivas en«frentando a devastação total" (contracapa).

Hei de gostar de ver o filme...


29
Ago 16
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HARUKI MURAKAMI (2016). Ouve a Canção do Vento (138 páginas) e Flíper, 1973 (176 páginas). Alfragide: Casa das Letras.

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Para mim, claro, este é uma dos escritores atuais mais criativos, com uma imaginação extraordiária, criando histórias, imagens, sobreposição de perosnagens, que atravessam os seus livros, uma linguagem simples, acessível, recurso a contos, provérbios orientais e ocidentais, máximas. O facto de ser uma japonês a viver nos Estados Unidos permite a assunção de culturas diferentes, com os valores ocidentais mas também com as raízes orientais.
Os livros nascem na vida de Murakami naturalmente.
 
Casa, começa a trabalhar e só depois a conclusão da licenciatura. Louco por jazz, abre um bar. Com a esposa, acumula trabalhos para fazer face aos gastos e às despesas. Aqui e além recorrem a amigos e familiares para obterem alguns empréstimos.
 
Refere o próprio:
"Era jovem, estava nas melhores condições físicas, passava o tempo a ouvir a música de que mais gostava e era dono do meu (pequeno) negócio... Além do mais, oportunidades de encontrar gente interessante era coisa que não faltava... Olhando para trás, lembro-me sobretudo de ter trabalhado desalmadamente. Na altura em que a maior parte dos jovens da nossa idade anda na boa-vai-ela, não me sobrava tempo nem dinheiropara «gozar a juventude». Apesar disso, sempre que arranjava um brecha, pegava num livro e paroveitava para ler. A par da música, a leitura era o que mais gozo me dava... Estava já perto dos trinta anos quando o nosso bar de jazz de Sendagaya começou a dar sinais de  estabilidade financeira... Numa tarde luminosa de abril, corria o ano de 1978, fui ver um jogo de basebol ao estádio de Jingü-kyüjö... Na segunda parte da primeira entrada, quando Sotokoba realizou o primeiro lançamento, Hilton, numa bela jogada, bateu a bola para a esquerda e conseguiu chegar à segunda base. O som nítido e poderoso do taco a bater na bola ressuou por todo o estádio de Jingü-kyüjö e ouviu-se meia dúzia de aplausos dispersos. Foi nesse preciso momento, sem que nada o fizesse prever, que pensei para comingo: Acho que sou capaz de escrever um romance".
 
E começava então a escrever-se a vida de um dos mais brilhantes escritores e romancistas do nosso tempo. Murakami tem vindo a ser apontado como Prémio Nóbel da Literatura, mas ainda não foi possível, talvez porque outros valores extra-literários se levantem.
 
Após o jogo comprou uma resma de papel branco e uma caneta de tinta permanente para começar a escrever. Todas as noites, já tarde, depois de chegar a casa, sentava-se na cozinha para escrever. Seis a sete meses seguintes dedicou-se a escrever Ouve a canção do Vento. "É, refere o autor, um texto curto, mais próximo de uma novela do que de um romance propriamente dito". Na primeira versão, leu e não gostou. "Se não és capaz de escrever um bom romance, disse para comigo, o melhor é livrares-te de todas as ideias preconcebidas que alimentas sobre «os romances» e «a literatura» e dar livre curso as teus sentimentos e razões, escrever o que te der na gana".
Murakami_Ouve a Canção do Vento - Flíper 1973.j
Renunciou ao papel e à caneta, "decidi então começar a escrever um romance em língua inglesa, para ver como resultava". Pelo que as frases tinham que ser curtas, traduzindo o mais simples possível as ideias que possuía. "Nascido e criado no Japão, desde pequeno que sempre falei japonês... o meu sistema linguístico está repleto até dizer basta de expressões e de vocábulos japoneses... naquele momento descobri que era capaz de exprimir eficazmente sentimentos e ideias através de um número limitado de palavras e expressões..." Depois arrumou a Olivetti e começou a justar o texto para japonês.
 
"Um domingo de manhã, naquela célebre primavera, recebi uma chamada de um redator que trabalhava na revista lieterária Gunzõ comunicando-me que Ouve a Canção do Vento fazia parte das obras finalistas num concurso literário para novos escritores... Caso não tivesse sido escolhida para integrar a lista dos finalistas ao prémio, a obra poderia desaparecer para sempre. (Convém acrescentar que a revista Gunzõ não tinha por hábito devolver os originais)". Como tinha enviado o único exemplar que possuía! "Foi então que caí em mim: ia ganhar o prémio. Continuaria a escrever e seria escritor... Escrivi Flíper, 1973, no ano seguinte, como uma espécie de continuação de Ouve a Canção do Vento"... Só depois de chegar ao fim de Flíper, 1973 é que tomei a decisão de vender o bar. Transformei-me num escritor a tempo e inteiro e comecei a redigir o meu primeiro romance de fòlego: Em Busca do Carneiro Selvagem".
 
Só passados 37 anos o autor autorizou a publicação destes dois títulos para o Ocidente.
Algumas das imagens, das intuições e do estilo do autor já estão presentes nestes dois escritos.
"Estes dois pequenos romances impressivos, em tom de fábula, que por vezes roçam o surreal pelos laivos de ficção científica que os povoam, abordam o quotidiano de dois jovens - o narrador cujo nome nunca chegamos a conhecer e o seu amigo rato - perpassado por silidão, obsessão e erotismo. Apresentando uma galeria pela qual desfilam uma rapariga com quatro dedos na mão esquerda, um escritor inventado, o dono de um bar que ouve as confissões de todos o que nele buscam refúgio, um par de gémeas e... gatos, estes dois textos contêm o embrião de todas as características que singularizam e atravessam todas as obras-primas de Murakami, incluindo alguns dos seus mais recentes livros".
 
Para outros títulos que recomendei neste blogue: AQUI. Se tivesse que aconselhar um livro, para alguém que ainda não tivesse lido nada de Murakami: Em Busca do Carneiro Selvagem.


12
Out 14
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HARUKI MURAKAMI (2014). A peregrinação do rapaz sem cor. Alfragide: Casa das Letras, 370 páginas.

 

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 "Porque não tenho identidade própria. Não tenho personalidade, sou de cor indefinida. Nada tenho para oferecer aos outros. Foi sempre esse o meu problema. Sinto-me um bocado como se fosse um recipiente vazio. De certa maneira, tenho fora, mas receio não possuir um conteúdo digno desse nome".

"Sempre me tive na conta de um tipo vazio, desprovido de cor e de identidade. Se calhar, era esse o meu papel dentro do grupo, representar o vazio...

Uma paisagem esvaziada de cor. Sem ter nenhum defeito, mas sem se destacar em nada...

Tu não eras o vazio. Ninguém te via assim... contribuías para nos tranquilizar... pelo simples facto de estares ali connosco, podíamos ser nós próprios... Era como se fosses uma âncora"

 

Cada um de nós terá um ou outro autor preferido. Por conseguinte, a sugestão de um livro ou de um autor é e será sempre muito relativo, o que a alguém poderá ser uma obra de arte, para outro poderá simplesmente ser uma seca, uma monotonia, ou algo banal.

Se tivéssemos que sugerir um romancista, Murakami seria uma das primeiras escolhas. É uma escrita acessível, fluida, em descrições envolventes, utilizando muitas imagens, histórias dentro da história principal, com avanços e recuos perfeitamente oportunos, com pontes culturais, entre o Japão e o Ocidente. Nesta história, Japão e Holanda, mas com a ambiência de fundo de um mundo global, com as referências a crenças japoneses mas também á religião cristão com a sua presença (nomeadamente) nas escolas privadas.

Cada personagem se pode identificar com cada um de nós.

O herói - digamos assim - nunca é tanto herói assim. Tem defeitos, dúvidas, hesitações. No caso concreto, é um estudante normal. Completa os estudos. Estuda só o necessário. Mas faz por seguir os seus sonhos, mesmo que tenha que se esforçar mais que o habitual. Aos trinta e seis anos, ainda tem uma vida toda por realizar, com muitas dúvidas. É feliz. Ou é mais ou menos feliz. Ocupado. Sonha e os sonhos atormenta-o. Parece que não consegue estabilizar, mantendo os amigos ou as amizades.

A história parte da adolescência. Um grupo de 5 jovens, que no compromisso com o voluntariado, nas férias, estreitam de tal forma os laços que não passam uns sem os outros. É um grupo coeso. Três rapazes e duas raparigas. Todos diferentes. Mas no entanto entendem-se às mil maravilhas. O rapaz sem cor, Tsukuru Tazaki, decide ir para Tóquio, para a universidade, onde se tornar engenheiro de estações de comboio. O seu sonho. Sempre gostou de estações, de observar as pessoas, a forma como as estações estão concebidas. No regresso a casa os 5 jovens voltam a encontrar-se, até que um dia não lhe atendem as chamadas e lhe dizem que cortam com ele, não querem mais falar com ele.

Não compreende. Num primeiro momento, não busca justificações, pois não lhas quiseram dar. Cortam simplesmente com ele. Vai-se abaixo. Foi um golpe brutal. Mas consegue sobreviver. O tempo apazigua as mágoas. Mas há mágoas que permanecem, ainda que pareça já não ter influência nas nossas vidas. É o que acontece com Tsukuru. Aquela ruptura continua a marcar a sua vida. Tem dificuldade em confiar nas pessoas da forma como confiava nos amigos, sempre o receio que novos amigos possam fazer o mesmo. Contudo, a sua busca está ainda no início. Resolve encontrar-se com os amigos, que seguiram caminhos diferentes, uma das raparigas foi assassinada, a outra casou e vive na Holanda, os outros dois mantiveram-se em Nagoia. O reencontro leva-lo-á a descobrir as razões que levaram à separação do grupo e a verificar que se nos momentos iniciais tivessem falado abertamente talvez a vida tivesse seguido um rumo diferente. Não é possível voltar atrás e também é impossível saber se as coisas seriam muito diferentes, ou muito próximas da atualidade. Há que prosseguir a vida. 

"É apenas uma questão de equilíbrio. De uma pessoa se acostumar a distribuir o peso que carrega. Pode acontecer que os outros considerem isto uma atitude de indiferença. Porém, manter o equilíbrio exige esforço e é mais difícil do que parece. Além disso, mesmo que se consiga atingir o equilíbrio, o peso suportado pelas balanças não diminuiu nem um bocadinho"

"Vamos fazer o possível por não perder o comboio"

"Sobrevivemos, tu e eu. E os que sobrevivem têm uma missão a cumprir. O nosso dever é continuar a viver, levar a vida o melhor que for possível. Mesmo que as nossas vidas estejam longe da vida".

 

Outros livros que li, de fio a pavio, que recomendamos.


28
Set 14
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D. ANTÓNIO COUTO (2014). Os desafios da Nova Evangelização. Lisboa: Paulus Editora. 128 páginas.

       A Voz de Lamego, na edição de 16 de setembro apresentou como sugestão de leitura este novo livro de D. António Couto, Bispo de Lamego. Seguimos a sugestão de imediato e na primeira oportunidade adquirimos mais este título, na certeza de ser uma leitura agradável, acessível, profunda, poética, com muitas informações e sobretudo numa dinâmica formativa.

       D. António Couto é, reconhecida e meritoriamente, um dos Bispos portugueses que mais contribui para a reflexão teológica e bíblica. O seu blogue MESA DE PALAVRAS, através do qual disponibiliza todas as semanas pistas que ajudam a refletir a palavra de Deus de cada Domingo e/ou dia santo é visitada por várias centenas de pessoas, para lerem, meditarem, e para melhor preparar e viver a liturgia da Palavra.

"Este novo livro reúne textos de antes do Sínodo e de depois do Sínodo, sendo que os que foram apresentados no Sínodo foram naturalmente produzidos antes do Sínodo. Dedicamos ainda um capítulo à Exortação Apostólica Evangelii Gaudium e, num último apartado, juntamos texros diversos e ocasionais, todos relacionados com a missão de evangelizar".

       Lembramos que D. António Couto, juntamente com D. Manuel Clemente, participou na XIII Assembleia-Geral do Sínodo dos Bispos, reunido com a preocupação de refletir "A nova evangelização para a transmissão da fé cristã", e que teve lugar em Roma, entre os dias 7 e 28 de outubro de 2012, sob pontificado do papa Bento XVI. Nessa ocasião iniciou-se também o ANO DA FÉ. A intervenção proferida por D. António Couto na aula sinodal é um dos textos disponibilizados, bem como texto resumido para a Comunicação Social, e um texto, mais desenvolvido, como preparação para o Sínodo.

       Vejamos o índice:

Introdução
ANTES E DURANTE O SÍNODO
Fidelidade renovada I
Fidelidade renovada II
Fidelidade renovada III
DEPOIS DO SÍNODO
Nova Evangelização para a transmissão da fé cristã
EVANGELII GAUDIUM
O amor verdadeiro está lá sempre primeiro
TEXTOS DIVERSOS
Amor primeiro
O amor é a alma da missão
Todas as Igrejas para o mundo inteiro
Portugal, vive a missão, rasga horizontes!
Missão: testemunho e serviço
Igreja de Portugal, é tempo de renascer!
Como o Pai me enviou também Eu vos mando ir (Jo 20,21)
Voltar o ímpeto missionário das primeiras comunidades cristãs
Uma Igreja missionária, terna, pobre e para os pobres
Leigo e missionário
Jovem e missionário
Indo, fazei discípulos, dai a vida
Anunciar o Evangelho é uma necessidade que se me impõe

       É uma apanhado de textos riquíssimo sobre o compromisso cristão de transparecer Jesus Cristo. Através destes textos percebem-se alguns dos temas mais caros a D. António Couto, bem como um estilo próprio de dizer e de escrever, de contar e provocar, numa linguagem poética, mas de fácil compreensão. Quando nos deparamos com "peritos" a primeira reação poder-nos-á colocar de pé atrás, pensando que o "perito" escreve para peritos. Mas começando a escutar, ou a ler, logo chegamos à conclusão que quanto mais perito mais simples e envolvente.

       A necessidade de Nova Evangelização é, antes de mais, necessidade de conversão a Jesus. As estruturas e os métodos são importantes, mas imprescindível é mesmo a conversão, a oração, a escuta da Palavra de Deus.

A melhor forma de evangelizar é ser transparência do amor de Deus, visualizado em Jesus Cristo. Portanto: testemunhar a própria fé. Evangelizar de forma personalizada, isto é, pessoa a pessoa, coração a coração. Um cristão, convertido, convicto, que vive na família e na sociedade, de maneira cristã, alegre, evangeliza outro cristão. Os dois "convertem" outros dois; os quatro outros quatro e exponencialmente se evangeliza. Ser missionário não é uma opção do cristão, ou uma segunda vocação, mas é a sua identidade, todo o cristão é missionário, ou discípulo missionário. Os destinatários? Todas as nações, o mundo inteiro. É uma tarefa sem limite de tempo ou de espaço.

 

       A intervenção de D. António no Sínodo dos Bispos: Fidelidade Renovada : AQUI. e que integra este livro agora sugerido.


23
Ago 13
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HARUKI MURAKAMI. Kafka à Beira-mar. Casa das Letras. Alfragide 2012. 15.º edição. 602 páginas.

 

       Haruki Murakami é dos dos mais talentosos escritores/romancistas. Com uma criatividade fora de série, uma imaginação extraordinária. Cada livro publicado é a expressão de um verdadeiro artista das letras. Escreve com desenvoltura, cruzando diversas dimensões da vida, cultura popular, mitos e superstições, simbologia japonesa, na abertura ao Ocidente, música dos anos 70, 80, 90, grupos musicais, filmes, livros que fizeram sucesso, músicos clássicos. Abrange uma grande cultura geral, que passa para os leitores de forma integrada, espontânea, como se estivéssemos à mesa do café a falar deste e daquele tema, desta e daquela história, de determinado acontecimento, contando algo que nos aconteceu ou ao vizinho. Toda a linguagem se apresenta em Murakami com espontaneidade. Simples, acessível. Mesmo quando narra situações de outro mundo, surrealistas, parecem tão banais como abrir os olhos ao acordar, ou como respirar. Faz-nos entrar na história e às tantas parece banal o que propõe, como se todos soubéssemos do que se trata, ou fosse quase uma cusquice com o vizinho.

       "Kafka à beira-mar" é mais uma relíquia, uma obra prima do autor, com todos ingredientes para prender o leitor do princípio ao fim. Duas estranhas personagens que a história se encarrega de entrelaçar. O autor serve-se de recursos já habituais, lendas, crenças populares, expressões clássicas, história do Japão, na abertura ao Ocidente, e ao cristianismo, atores, filmes, cinema, músicas, carros, com descrições simples e acessíveis, ao correr da pena, tempo e história, destino, sons e ausência de sons, silêncio. Personagens estranhas e pessoas normalíssimas, comidas e pratos muito japoneses...

       Numa floresta um grupo de crianças, sem mais nem para o quê, desmaia. Não é um desmaio qualquer. Continuam a respirar normalmente, com os olhos fixos em algum ponto, sem pestanejarem. Só a professora não desmaia. Acordam e não se lembram de nada, é um vazio. Um dos meninos não acorda. Todos são submetidos a rigorosos exames, mas nada se descobre, nem os melhores médicos americanos, nem os médicos japoneses. Abertos dossiers confidenciais até muito depois da 2.ª guerra mundial, não permitem adiantar muito. Nakata fica em coma durante algumas semanas, sem dar de si, como que em outra dimensão. Quando acorda não sabe ler nem escrever; era um dos melhores alunos.

       Na atualidade, Nakata é um velho de sessenta anos, recebe um subsídio do estado, fala com os gatos, gosta de enguias, dedica-se a encontrar os gatos perdidos, em troca recebe mais alguns ienes, refeições, roupas. O imprevisto acontece. À procura de um gato, é conduzido a uma mansão por um cão que fala com ele, melhor, o dono fala através do seu cão. Para salvar o gato que procurava e um gato amigo, assassina Johnnie Walker, a pedido deste. Foi como forçado, parece não estar no seu corpo. Fica ensopado com sangue. Acorda num baldio, onde tinha ido procurar um gato, com a roupa limpa e já não consegue falar com os gatos. Narra o sucedido na esquadra mas o polícia de serviço considera-o tolo. Nakata avisa que no dia seguinte vão chover sardinhas e cavalas. Assim acontece. Mas ainda haverá também a chuva de sanguessugas, quando Nakata já vai a caminho de Shikoki, onde já está Kafka Kamura (Kafka é para esconder a verdadeira identidade), afinal filho de Johnnie Walker, que afinal é um famoso escultor (Koichi Kamura).

       O jovem foge de casa no dia do 15.º aniversário. Nem antes nem depois. Leva o que precisa. Vai para um sítio nem muito quente nem muito frio. Não precisa de levar muitas coisas, uma mochila às costas e dinheiro. Foi abandonado pela mãe, que com ela levou a sua irmã. O pai profetisa que ele ficará com a mãe e com a irmã. O destino do jovem é uma Biblioteca privada, que conta outra história de vida. Um amor que terminou na morte estúpida do noivo, quando ia levar comida a um colega manifestante, diante da universidade e tendo sido confundido com o líder da fação contrária. A mulher regressou, passados vinte anos, à casa dos pais dele, e todos os dias fica na Biblioteca. Tem um ajudante, que afinal é mulher, embora não pareça. E Kafka ficará no quarto antes reservado ao rapaz, filho dos proprietários e esfaqueado diante da universidade. Encontra-se aí um quadro, Kafka à beira-mar, que é também um canção feita pela dona-gerente da Biblioteca. Com quinze anos aparece ao jovem Kamura, deita-se com ele. Poderá ser a sua mãe, mas então ainda com quinze anos, mais ou menos.

       Um dia, o jovem Kafka Kamura acorda no meio do bosque com a camisola ensopada em sangue. Não se lembra de nada. Terá assassinado alguém. Tudo indica que foi ele, através de Nakata, do seu corpo e mente, que matou o próprio pai, mas não sabe...

       Há outros desígnios. Nakata terá que encontrar a Pedra de Entrada para compor a realidade. O que foi aberto tem de ser fechado...

       Kafka à beira-mar é um conto do maravilhoso, com personagens concretas, mas que em determinados momentos parecem ser transportados para outras dimensões.

       Nakata, além de fazer chover cavalas e sardinhas e sanguessugas, só tem metade da sombra, que desapareceu quando desmaiou e ficou em coma durante semanas. Com a pedra de entrada será que ele consegue ficar com a sua sombra completa? Veja como Murakami utiliza este recurso também noutros escritos, como por exemplo em O impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo, em que o leitor de velhos sonhos, na cidade muralhada, deixa a sua sombra à entrada da cidade. A sombra acabará por morrer e ele ficará para sempre na cidade, pois ninguém sobrevive fora da cidade sem a própria sombra. A sombra resiste a acabará por abandonar a cidade sozinha, sem o seu dono, que fica na cidade e tem qe se retirar para o bosque, uma vez que a sua sombra não morreu...

       A BIBLIOTECA desempenha uma missão importante, neste como no livro citado anteriormente. É lá que conhece a mãe. É lá que a mãe morre para o encontrar na fronteira dos mundos, numa dimensão diferente onde se despede para sempre o fará regressar ao mundo para que ele se lembre dela, que entretanto destruir todas as recordações, mas desde que ele se lembre é quanto basta.

        Outro tema que será depois explorado no Fim do Mundo, quando fala da cidade muralhada (dentro do cérebro) e do bosque para onde vai quem ainda tem a respetiva sombra viva, pois na cidade só podem estar pessoas sem sombra nem coração. No bosque é preciso ter coração mesmo que não se tenha sombra. O coração guardas as recordações. O bosque é perigoso e desaconselhado. Em Kafa à beira-mar, a floresta, o bosque, é perigoso, quem se adentra nele pode perder-se para sempre, pode não achar o caminho de volta, passa a fazer parte do bosque. É lá que se encontram dois soldados que desertaram por altura da segunda guerra mundial e ficaram a guardar a entrada. Kafka é conduzido por eles. Entra. Outra dimensão. As pessoas não têm recordações. Fazem parte do tempo e das próprias recordações, do mundo envolvente. Quando muito lembram-se do dia anterior. Aí Kafka Kamura encontra de novo a jovem de 15 anos que lhe aparecia durante a noite, no quarto da Biblioteca. Aí encontra Saeki-san, afinal a sua mãe, afinal a rapariguinha de 15 anos, a gerente da Biblioteca que vem para se despedir para sempre. Vai ter que voltar antes que a entrada se feche. Mas para quê voltar se não tenho ninguém à espera. Regressas para viver a tua vida e te recordares de mim, diz-lhe a mãe.

       Uma das temáticas recorrentes é um certo pessimismo, ou resignação, que se vislumbra nas várias obras do autor, ainda que seja difícil uma análise definitiva. O que tem de ser tem muita força. Não adianta muito fugir, a vida há de orientar-nos para o nosso fim. De outra maneira não viveremos. Parece ser um desafio a viver, a viver bem, a aproveitar as ocasiões sem grandes lamentos, seguindo para a frente, agindo, tomando as próprias decisões, sejam elas minhas ou resultem da história em que me insiro. Com o destino, o tempo, e a ausência de tempo e de sons, a passagem para outra dimensão, a morte e a vida, o lado de cá e o outro lado. Viver em quanto é tempo. Quem passa a fronteira parece não querer regressar. Mas se ainda não é hora deverá regressar para cumprir a sua vida (evocação das experiência de quase morte?). Do lado de cá, e regressar com as suas recordações (e dos outros) mas para alterar o que tem de ser alterado, para um mundo novo.

"- Todos nós perdemos coisas a que damos valor. oportunidades perdidas, possibilidades goradas, sentimentos que nunca mais voltaremos a viver. Faz parte da vida. Mas dentro da nossa cabeça, pelo menos é aí que eu imagino que tudo aconteça, existe um quartinho onde armezanamos todas as recordações. E a fim de compreendermos os mecanismos do nosso próprio coração temos que ir sempre dando entrada a novas fichas, como aqui [na Biblioteca] fazemos. Volta e meia precisamos de limpar o pó às coisas, deixar entrar ar, mudar a águia das plantas. Por outras palavras, cada um vive para sempre fechado dentro da sua própria biblioteca..."


"Todas as pessoas precisam de um lugar onde possam pertencer..."


"Sentes o peso do tempo como um velho sonho ambíguo. Continuas sempre em movimento, tentando arranjar maneira de te esquivares. Porém, mesmo que vás aos confins do mundo não lograrás escapar-lhe. Mesmo assim, não tens outro remédio senão seguir em frente, até esse fim do mundo. Há algo que não se consegue fazer sem lá chegar".

       Há livros com 600 páginas que se leem num instante, com agrado, e muito mais facilmente que pequenos livros cuja história não flui. Os livros de Murakami não têm partes maçudas, envolvem-nos em milhentas estórias. Vale a pena ler este ou outro qualquer romance do Haruki Murakami. Se for para iniciar a ler este autor talvez fosse bom começar por "Em busca do Carneiro Selvagem" ou "Dança, Dança, Dança", ou o "Elefante evapora-se", ou "Sputnik, meu amor", ou para melhor conhecer o autor e a sua escrita, "Auto-retrato enquanto corredor de fundo".

       Kafka à beira-mar é uma leitura leve, empolgante, engenhosa, vicia...


22
Ago 13
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HARUKI MURAKAMI. 1Q84. Casa das Letras. Alfragide. Livro 1 - 2011. 492 páginas; Livro 2 - 2012; 436 páginas: Livro 3 - 2012, 504 páginas.

       Para quem gosta de Haruki Murakami, não interessa de todo o número de páginas, de tão empolgantes que sãos as histórias e os mundos, o oriental e o ocidental, o budismo e o cristianismo, o mundo real e concreto e o mundo virtual, do sonho, ou um segundo mundo que se passa num determinado tempo e lugar e que dá acesso a um mundo que corre em paralelo, com implicações no regresso a este mundo.

       Duas personagens fazem desenrolar a história. Tengo, professor de matemática, aspirante a escritor famoso, trabalha também na revisão de outras obras, nomeadamente a Crisália de Ar, escrita por uma jovem filha de pais que integraram uma seita religiosa que esmaga a liberdade e em que as vítimas de sempre são as mulheres sujeitas a maus tratos. Aomame, é uma jovem com a mesma idade de Tengo. É assassina profissional, mata fazendo parecer que é de morte natural, acabará por matar o líder da Seita, ainda que este fosse considerado como Imortal. Fria, quase sem coração. É também professora de artes marciais.

       No desenrolar da história, os dois personagens vão-se aproximando, enredados na mesma trama que os conduz à Seita religiosa, sendo aliás procurados pelos sequazes da organização, da qual pouco se conhece, impenetrável, que fazem desaparecer até os seus membros, sem vestígios, ainda que a Organização tenha um rosto jurídico, que paga impostos, tem sede, tem representantes legais.

       Pelo meio vão aparecer muitas outras personagens, com a beleza extraordinário com que são pintadas por Murakami, há feios, bonitos, altos, baixos, gordos, inteligentes, estúpidos, homens, mulheres, pessoas boas, pessoas más. Uma mulher, já anciã que acolhe mulheres maltratadas.

       Tengo e Aomame encontraram-se na escola, como ela pertencia às testemunhas de Jeová, sempre foi colocada de lado, por algumas razões que lhe eram impostas pelos pais e pela religião que a expunham ao ridículo. Tengo, rapaz sério, inteligente e aplicado, não segue a corrente, mas também não teve a coragem para avançar...

       Mais à frente hão de cruzar os seus destinos, e os seus mundos. Não podem deixar escapar a oportunidade. Mas vai demorar tempo, paciência, vigilância, prudência. A Crisália de Ar, faz como que nascer duas Aomames, a mesma pessoa desdobrada em dois, para viver em dois mundos separados, dimensões diferentes.

       O terceiro volume, aparece outra personagem: um advogado Ushikawa. Aceita todos os casos que sejam sujos, defende tudo o que tenha a ver com a Organização. Metódico. Feio, desproporcional. Medonho. Assustador. Com facilidade recorre à ameaça, à insinuação, procurando gerar medo ou mesmo pânico, chantagista.

       Duas LUAS, uma normal e outra verde. Nem todos veem a duas luas. A Crisália de Ar faz a descrição pormenorizada da lua verde, e do Povo Pequeno, em que os seus habitantes querem vir para o mundo real... Aqueles que veem a Lua compreendem que estão num mundo diferente, ou no mesmo mundo, mas com vivência diferentes. Ano de 1984. Ano de 1Q84, é outro ano distinto, paralelo, as vivências no mundo paralelo têm consequências no mundo concreto...

       Uma trilogia de extraordinário encanto. Como toda a escrita murakamiana, leve, descontraída, natural, faz-nos entrar dentro da história e das personagens, surrealista quanto baste, descreve outros mundos como algo que fizesse parte do dia a dia. Mais uma vez as milhentas estórias que preenchem e cruzam a trama principal, músicas, livros, bares, cinemas, sentimentos, organizações clandestinas, seitas religiosas, abuso de poder, controlo de informação, secretismo, violência doméstica, escravização das mulheres... temas que surgem com a maior das naturalidades mas que nos fazem refletir. A civilização japonesa, com a sua identidade, as suas superstições, os seus símbolos, mas a entrada de influências estrangeiras, ocidentais, num mundo cada vez mais globalizado.

       Mais um leitura empolgante. Lê-se de fio a pavio. Boa leitura.


21
Ago 13
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

HARUKI MURAKAMI. O impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo. Casa das Letras. Alfragide 2013. 570 páginas.

       Murakami tem sido apontado como premiável ao Nobel da Literatura. É um dos mais criativos romancistas da atualidade. Pelo menos na minha maneira de ver e de ler. Os seus livros provocam a mente, imaginativos, inseridos na civilização do nosso tempo, com as raízes japoneses, origem do autor, com muitas referências à cultura ocidental, o autor vive nos EUA, com cruzamento de diversas influenças. Música. Jazz. Anos 70, 80, 90. Cinema. Filmes. Livros de grandes autores, por vezes com pequenas resenhas e comentários ao conteúdo ou ao autor. Cidades. Países. Japão. Tradição. Crenças. Ditados populares. Superstições. Símbolos culturais e religiosos. A noite. A mentalidade atual. Deteta-se a crítica à resignação, ao deixar-se levar pela onda, deixando-se vencer pelas circunstâncias. Em muitas histórias narradas por Murakami, aparecem personagens comuns, vulgares, banais, humanas, com qualidades e defeitos, por vezes indecisos, com dúvidas, hesitantes, por vezes deixando que o tempo decorra e corra como rio, sem grandes sobressaltos. O rio encontrará o caminho para seguir. Basta deixar-nos ir na corrente. Se queremos remar em sentido contrário por vezes não é possível, acabaremos por ser forçados a desistir e arrastados ainda com mais violência pela corrente.

       Obviamente, quem recomenda uma leitura é porque gosta, porque leu com agrado, porque parece ser um livro oportuno, trazer uma mensagem interessante. Diria que tudo isso é verdade. Mas ler Murakami é mergulhar em água fresca quando o calor aperta, é sentir a aragem no rosto num dia de verão. Lê-se com enorme vontade de avançar páginas, descobrir o que vem a seguir, a trama que se desenrola. Uma característica muito murakamiana é o entrelaçar de história, duas ou três principais, mas depois com muitas outras histórias, imagens, comparações, máximas, trocadilhos. A realidade e a transcendência, os sonhos, a sombra, os mitos, as grandes descobertas da humanidade, a imaginação criadora de factos e de realidades, realidades que se cruzam fora e dentro de nós, histórias que caminham paralelas e que se cruzam na mente, na imaginação e no sonho. Não se cruzam na realidade. Por vezes é perigoso que os acontecimentos do dia estejam no sonho, e que quando acordados se realizem, sem tirar nem por, o que se sonhou. Por vezes, é necessário que haja o encontro entre o sonho e a realidade, entre o mundo concreto e o virtual.

        Duas histórias caminham em paralelo. O impiedoso mundo das maravilhas. Um mundo moderníssimo, controlado, a rondar a ficção científica, o personagem vê-se numa missão da qual não pode fugir. Na sua cabeça foi implantado um chip, numa experiência científica, o cérebro quase como um computador avançado. Programado para fazer o que tem a fazer. Nada mais, nada menos. Outros não sobreviveram à operação de retirar o cérebro, implantar o chip e voltar a colocar o cérebro no lugar. Aparecem os Programadores, fazem parte do Sistema, do Governo. E existe a espionagem, o privado, os Simióticos, sempre a tentar roubar os conhecimentos, as técnicas. Se os Programadores são absorvidos pela Fábrica, tornam-se Simióticos. São entidades muito secretas, criam defesas virtuais cibernéticas. O narrador deste mundo é conduzido a um cientista famoso, já trabalhou no Sistema, e quando já não precisava, deixou de ser Programador. É capaz de suprimir o som. Tem a máquina para alterar o mundo. O narrador é a chave. E a chave para penetrar no cérebro é "Fim do mundo", afinal o título da outra história. Nesta, o narrador parece acabar por ficar com a rapariga da Biblioteca, poderá vir a ser, mas na história ele segue caminho, até um dia, quem sabe.

       O Fim do Mundo, é uma cidade muralhada. O narrador quando entra na cidade fica sem a sua sombra. Fica ao cuidado do Guardião. Também aqui cada um tem a sua missão. O Guardião, abre e fecha a porta. De manhã os animais, os unicórnios entram na cidade. No fim do dia saem para dormir fora das muralhas. No inverno, o Guardião tem também a missão de queimar os animais que morrem durante a noite. O alimento só pode ser encontrado dentro das muralhas. Existe também o bosque mas é muito perigoso. O narrador é o leitor de velhos sonhos, presos nos crânios dos unicórnios. Também no País das Maravilhas, o narrador recebe o crânio de um unicórnio de onde brota uma luz. O leitor dos sonhos é picado nos olhos, traz sempre óculos de sol, e só deve sair à noite. A Biblioteca é o seu lugar de trabalho. A ajudante prepara tudo. Ela perdeu a mãe. Ficou com o coração mas sem a sombra. Com o coração teve que ir para o bosque. O leitor dos velhos sonhos, vai visitar a sua sombra, ao cuidado do Guardião. A muralha observa tudo. É inviolável. Também aqui o narrador quer ficar com a rapariga da Biblioteca. Das duas uma, recupera a sombra e foge. A sombra prepara a única saída possível, pelo grande lago. Como o inverno chegou, a sombra quase morreu e o Leitor dos sonhos têm que a levar às costas. Se fugir, ficará sem a rapariga da Biblioteca, e terá de volta a sombra. Como ainda tem coração e a sombra se foi embora sem ele, então tem que abandonar a cidade e ir viver para o bosque. Na cidade só ficam as pessoas cuja sombra já morreu e que ficaram sem coração... Vai-se a ver e a cidade é uma criação na mente do narrador, o leitor dos velhos sonhos...

         A BIBLIOTECA desempenha uma missão importante. Num outro livro que recomendaremos, Kafka à beira-mar, a Biblioteca é parte essencial onde decorre a história. A Biblioteca guarda recordações, a História e muitas histórias. E a história é fundamental para que as pessoas e as nações sobrevivam à morte. É um lugar onde se busca informação e conhecimento. Neste livro aparece a Biblioteca nas duas histórias. No impiedoso mundo das maravilhas, o narrador vai recolher informações e trava conhecimento com uma jovem quem quem poderá vir a ficar. No fim do mundo, na Biblioteca estão guardadas as recordações das pessoas, cuja sombra morreu e que ficaram sem coração, sem recordações. Na Biblioteca está a mulher que poderá ficar com o narrador, o Leitor dos velhos sonhos, para isso ele terá que recolher as recordações que formam o coração da sua ajudante... Em Kafka à beira-mar é na biblioteca lá que Kafka Kamura encontra a Mãe e onde estão muitas recordações. No regresso ao novo mundo ele levará da Biblioteca o quadro e a canção Kafka á beira-mar, preservando a memória, as recordações, da mãe. A Biblioteca poderá ser um dos lugares onde volta no futuro. A Biblioteca confunde-se com a vida...

        Outro tema é bosque e o poder que o envolve, a superstição. Em Kafa à beira-mar, a floresta, o bosque, é perigoso, quem se adentra nele pode perder-se para sempre, pode não achar o caminho de volta, passa a fazer parte do bosque. Em fim do mundo as pessoas do bosque simplesmente não podem regressar à cidade, pois têm coração e têm recordações, ainda que não tenham a sua sombra...

     Mais uma história de génio. Cada personagem que intervém é descrita de forma completa, serena, não há lugar para heróis, todos têm virtudes, e defeitos, coisas que fizeram e outras que deixaram acontecer, têm vontade, mas por vezes desistem dos sonhos que tinham, deixam a sombra mas não o coração. Curioso também o facto das pessoas se deixarem levar pela corrente. Na cidade todos puxam para o mesmo, tentando que o leitor de velhos sonhos desista da sombra, deixando-a morrer, e para ficar sem coração... e ele acabrá por desistir de seguir para o mundo real com a sua sombra, mas não desiste do seu coração: fica a ajudante...

       A narração de factos, de estórias, de personagens, é tão fluente e natural que parece que estamos inseridos num diálogo corriqueiro. Extraordinário...


14
Set 12
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

Joaquim Sarmento, O Deus da Ausência. MinervaCoimbra, Coimbra 2012.

       De novo nos surpreende o Dr. Joaquim Sarmento, com este belíssimo exercício literário. Já nos habituou a escrever bem, de forma escorreita, ao correr da pena, enformado por uma profunda cultura, numa linguagem acessível, em diálogo com a história, com a religião e a fé, com a vida do campo e da cidade, com o país e a Europa, com a psicologia e a política, com os costumes e tradições do povo, com a evolução dos tempos, com este nosso Douro, onde se passa grande parte da história e do enredo do Romance, diálogo com a filosofia e com o quotidiano.

       Já o dissemos oportunamente, os romances de Joaquim Sarmento ombreiam facilmente com nomes da nossa literatura portuguesa e se tivesse a mesma divulgação/projeção mediática por certo se tornariam sucesso de vendas. Os romances de Joaquim Sarmento, para lá da originalidade dos enredos, entram na nossa identidade bem portuguesa, de brandos costumes, mas com grandes paixões. Lamego (Balsemão) e o Douro projetam-se na sua candura, na sua beleza, no trabalho árduo e comprometido, na vinha e no sol, na pobreza e em paisagens deslumbrantes. E nas influências que se trocam, e se vendem, em interesses e no suor daqueles e daquelas que construíram/constroem o Douro, os socalcos do sacrifício e do pão de cada dia. Outros beberam e bebem refastelados à sombra o néctar que esta região, património da humanidade, ajuda a produzir, com as suas encostas e encantos e com as costas e as mãos e os pés de muita gente.

       A família Quitiliano tem segredos, tem vida, tem sonho, tem paixão. Joaquim Sarmento envolve-nos numa trama, em que o narrador se situa bem perto dos personagens, conhecedor de sentimentos divulgados ou escondidos. E se a trama romanceada é por demais bem conseguida, também a contextualização temporal, passagem do século XIX para o século XX, num Portugal em ebulição, no fim de um regime (monárquico) e no início de outro (republicano) e nas experiências que custam muito sofrimento a muitas pessoas

       Quem tiver oportunidade, quem gostar de ler, este é um livro que se devora com muito agrado, lê-se e compreende-se sem necessidade de estar sempre a reler o que se acabou de ler.

 

Veja blogue da MinervaCoimbra.


13
Set 12
publicado por mpgpadre, às 16:01link do post | comentar |  O que é?

      Este é o segundo romance da autoria do Dr. Joaquim Sarmento, ilustre conterrâneo de Lamego, ex-deputado à Assembleia da República, ex-Presidente da Assembleia Municipal de Lamego, formado em Direito, Advogado aposentado, tem-se dedicado nos últimos anos à escrita. O primeiro romance - O crime de cerejeiro- consagrou-o como romancista, com a idiossincrasia do Douro e da cidade de Lamego, com um enredo envolvente.

       Neste novo romance - A revolução de António e Oriana, Campo da Comunicação, Lisboa 2009 - o contexto é o da revolução dos cravos com toda a envolvência dos anos imediatamente antes e depois de 1974. O fundo é a revolução de Abril, mas com a revolução micro-cósmica, partindo para o Douro das quintas, das fortunas, dos patrões e dos "escravos" da vinha, para Lamego (cidade de Balsemão), cidade onde a Igreja tem forte implementação e onde o comunismo não se afirma...

       É uma leitura envolvente do principio ao fim. O autor mostra uma enorme maturidade intelectual, dialogando com a arte, com a fé, com a política, com o direito, com os usos e costumes, com as características do Douro e, especificamente com a cidade de Lamego e arrabaldes, em tempo delicados para a nação, mas também para este cantinho do Douro....


10
Jul 12
publicado por mpgpadre, às 10:15link do post | comentar |  O que é?

       Quando é notícia que o escritor colombiano, Gabriel Garcia Marquez, Nobel da Literatura, autor de "Cem Anos de Solidão", entre muitos outros títulos, deixou de escrever, por demência, deixámos esta belíssima Carta aos amigos, em jeito de despedida, ou prevendo essa necessidade de se despedir:

“Se por um instante Deus se esquecesse que sou uma marioneta de trapo e me oferecesse mais um pouco de vida, não diria tudo o que penso, mas pensaria tudo o que digo.
Daria valor às coisas não pelo que valem, mas pelo que significam.
Dormiria pouco, sonharia mais.
Entendo que por cada minuto que fechamos os olhos, perdemos 60 segundos de luz.
Andaria quando os outros páram, acordaria quando os outros dormem.
Ouviria quando os outros falam e como desfrutaria de um bom gelado de chocolate…
Se Deus me oferecesse um pouco de vida, vestir-me-ia de forma simples, deixando a descoberto não apenas o meu corpo, mas também a minha alma.
Meu Deus, se eu tivesse um coração, escreveria meu ódio sobre gelo e esperava que nascesse o sol.
Pintaria com um sonho de Van Gogh as estrelas de um poema de Benedetti, e uma canção de Serrat seria a serenata que oferecia à Lua.
Regaria as rosas com minhas lágrimas para sentir a dor dos seus espinhos e o beijo encarnado das suas pétalas…
Meu Deus, se eu tivesse um pouco mais de vida, não deixaria passar um só dia sem dizer às pessoas de quem gosto que gosto delas.
Convenceria cada mulher ou homem que é o meu favorito e viveria apaixonado pelo Amor.
Aos Homens, provar-lhes-ia como estão equivocados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saberem que envelhecem quando deixam de se apaixonar.
A uma criança dar-lhe-ia asas, mas teria de aprender a voar sozinha.
Aos velhos, ensinar-lhes-ia que a morte não chega com a velhice, mas sim com o esquecimento.
Tantas coisas aprendi com vocês Homens…
Aprendi que todo o mundo quer viver em cima de uma montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a encosta.
Aprendi que quando um recém-nascido aperta com sua pequena mão, pela 1ª vez, o dedo de seu pai, o tem agarrado para sempre.
Aprendi que um Homem só tem direito a olhar outro de cima para baixo quando vai ajudá-lo a levantar-se.
São tantas as coisas que pude aprender com vocês, mas não me hão-de servir realmente de muito, porque quando me guardarem dentro dessa maleta, infelizmente estarei a morrer…”

Gabriel Garcia Marquez, retirado do Sítio do Livro.


06
Mar 12
publicado por mpgpadre, às 10:30link do post | comentar |  O que é?

ERMES RONCHI, Os Beijos não dados. Tu és a Beleza. A amizade é a mais importante viagem. Paulinas 2012. 

 

 

       Sempre que aqui trazemos a sugestão de uma leitura é porque ela é marcante para nós, e porque a temos como muito útil e agradável para quem vier a seguir esta indicação.

       Este é mais um daqueles livros que se lê de uma assentada, escorreito, ao correr da pena, de fácil compreensão, acessível a todos, simples, de uma simplicidade bela, como sugere o título do autor.

       O livro das Paulinas resulta de dois textos:

  • "Os Beijos não dados" - que fala da amizade e como ela é essencial/vital à existência humana. Sem amizade, o paraíso nunca seria possível. Adão está só, mesmo que rodeado por milhares de seres vivos, apesar de sentir constante a presença de Deus, mas sente-se só, não encontra um espelho, outro igual, alguém em quem se reveja, se confronto, alguém mais igual, que o ajude a identificar-se no meio da natureza. A amizade é crucial para uma existência feliz.
  • "Tu és a Beleza" - um pequeno tratado sobre a beleza, o assombro, a arte, o amor, Deus, o mundo, a natureza. A beleza é o pedacinho de Deus que nos habita e que existe no mundo criado. Deus deixou pedaços de Si e do Seu amor em nós e na natureza. Extrair beleza de tudo, é deixar-se habitar por Deus. Amar, viver, criar, deixar-se surpreender pelas pequenas e grandes coisas. Aquele que não se assombra, padece de cinismo, nada há que possam alegrá-lo, fazê-lo feliz, nada há de novo debaixo do sol.

       Uma mão cheia de páginas belas, criativas, envolventes.

       A leitura de um bom livro pode ajudar-nos a encarar a vida de forma mais positiva e a pensar a nossa própria existência. Uma revista, um jornal, um filme, um programa de televisão, um noticiário sobre o mal que grassa no mundo pode enfadar-nos, tornar-nos mais depressivos, não nos obriga a refletir, vemos, entra-nos pelos olhos, fixa-se no cérebro, como as luzes psicadélicas que não nos largam mesmo depois de há muito estarmos em ambiente mais tranquilo.

       Quer ler. Não gosta de ler. Então esta é uma boa leitura. Simples. Breve. Agradável.


25
Out 11
publicado por mpgpadre, às 11:04link do post | comentar | ver comentários (12) |  O que é?

Primeira nota:

       Ainda não li o livro, mas a entrevista de José Rodrigues dos Santos à revista Sábado. Permite concluir desde logo que é mais um romance oportunista, querendo tornar dogmático o que são suposições já muito exploradas - apresenta alguns dados como sendo novos e escondidos pela Igreja, quando são estudados há decénios, e alguns, há séculos. Tratando-se de uma obra ficcionada nada a opor. Mas quando se faz querer que a teologia e a Igreja vivem na mentira e o José  Rodrigues dos Santos é a verdade descoberta e definitiva, no mínimo é presunção. Tantos estudiosos, historiadores, teólogos, e outros, cujas descobertas e/ou reflexões não têm nem valor nem credibilidade porque há ou pode haver outras interpretações!

       Pelo que li, o romance não traz, para a história, nada de novo. A filiação de Jesus, a sua família, os evangelhos gnósticos, a figura ímpar de Maria Madalena, são temas amplamente discutidos. Diga-se a propósito e como exemplo: Maria Madalena, popularmente continua a dizer-se que era uma prostituta ou a mulher apanhada em adultério; o filme de Mel Gibson assume esta versão; na Igreja contudo ninguém ensina semelhante inverdade. Maria Madalena era uma mulher bastante doente que Jesus curou e depois disso tornou-se uma das benfeitores de Jesus e dos seus discípulos. Alguns Padres da Igreja fizeram confusão entre Maria Madalena e outras mulheres de quem não nos chega o nome - talvez para não serem expostas. Muitas vezes, incluindo José Saramago, é apresentada como pessoa íntima de Jesus. Bom, por ser suspeita vale mais dos que os testemunhos do Evangelho? Ou do que os estudos teológicos?

        Também poderia abordar, não sei se aparecerá no romance, que Jesus nasceu 7 anos antes da era cristã... que morreu pelo ano 30, mas com 37 anos... qualquer estudante de teologia sabe isso... que Judas poderia ter sido o discípulo predilecto de Jesus... que a expulsão dos sete demónios de Maria Madalena poderá significar que tinha muitas doenças, ou uma doença muito grave... veja-se que o sete é muito simbólico... poderia também referir que afinal em Belém, Jesus nasce numa gruta ou num estábulo por generosidade de São José, que teria aí uma casa, e a gravidez de Maria, o terá levado a disponibilizar a casa para os que se deslocavam para o recenseamento. Se Maria ocupasse a casa, todos na casa ficariam contaminados (era assim a lei judaica), com o parto. Então, a opção terá sido o "estábulo", a parte debaixo da casa, onde se resguardaram... e tantas outras coisas sobre as quais há hoje uma luz diferente, mas que no essencial e para os crentes não são obstáculo, mas a constatação que a Sagrada Escritura tem um contexto espacio-temporal, situada na história, redigida por homens, em palavras humanas...

 

       Mais uma nota introdutória:

       Li romances anteriores de José Rodrigues dos Santos (que vale a pena ler). Nada a opor ao romancista... como li várias obras de José Saramago (a escrita sobre Jesus Cristo é mais uma tentativa de mostrar factos novos, mas nada do que li para mim foi novo, tinha estudado no seminário, mas foi um bom negócio "literário", como também Caim)... como li Dan Brown, O Código Da Vinci (facilmente o que nos é apresentado como a última verdade, factual, se verifica que mesmo nos dados históricos e nas referências aos monumentos há muitos erros e alguns de palmatória... depois disso, as suas publicações, aproveitando o sucesso, versaram sobre as mesmas suposições, mas ficaram por isso mesmo, para mim, desinteressante...)

       Se pesquisarem na NET vão encontrar muitos "últimos segredos"... de qualquer coisa, mas a maioria versa sobre religião... continua a vender bem!

       BENTO XVI, na obra de Jesus de Nazaré, aborda muitos dos temas polémicos, mas vai além do método crítico-histórico. Vale a pena ler a obra, onde se pode verificar claramente que a Igreja e os seus maiores "teólogos" não fogem às questões colocadas nas insinuações, na história, nas tradições paralelas, nos grupos sectários que se afastaram da Igreja...

 

      

NOTA DO SECRETARIADO NACIONAL DA PASTORAL DA CULTURA:

 

       O romance de José Rodrigues dos Santos, intitulado “O último segredo”, é formalmente uma obra literária. Nesse sentido, a discussão sobre a sua qualidade literária cabe à crítica especializada e aos leitores. Mas como este romance do autor tem a pretensão de entrar, com um tom de intolerância desabrida, numa outra área, a história da formação da Bíblia por um lado, e a fiabilidade das verdades de Fé em que os católicos acreditam por outro, pensamos que pode ser útil aos leitores exigentes (sejam eles crentes ou não) esclarecer alguns pontos de arbitrariedade em que o dito romance incorre.

 

       1. Em relação à formação da Bíblia e ao debate em torno aos manuscritos, José Rodrigues dos Santos propõe-se, com grande estrondo, arrombar uma porta que há muito está aberta. A questão não se coloca apenas com a Bíblia, mas genericamente com toda a Literatura Antiga: não tendo sido conservados os manuscritos que saíram das mãos dos autores torna-se necessário partir da avaliação das diversas cópias e versões posteriores para reconstruir aquilo que se crê estar mais próximo do texto original. Este problema coloca-se tanto para o Livro do Profeta Isaías, por exemplo, como para os poemas de Homero ou os Diálogos de Platão. Ora, como é que se faz o confronto dos diversos manuscritos e como se decide perante as diferenças que eles apresentam entre si? Há uma ciência que se chama Crítica Textual (Critica Textus, na designação latina) que avalia a fiabilidade dos manuscritos e estabelece os critérios objetivos que nos devem levar a preferir uma variante a outra. A Crítica Textual faz mais ainda: cria as chamadas “edições críticas”, isto é, a apresentação do texto reconstruído, mas com a indicação de todas as variantes existentes e a justificação para se ter escolhido uma em lugar de outra. O grau de certeza em relação às escolhas é diversificado e as próprias dúvidas vêm também assinaladas.

       Tanto do texto bíblico do Antigo como do Novo Testamento há extraordinárias edições críticas, elaboradas de forma rigorosíssima do ponto de vista científico, e é sobre essas edições que o trabalho da hermenêutica bíblica se constrói. É impensável, por exemplo, para qualquer estudioso da Bíblia atrever-se a falar dela, como José Rodrigues dos Santos o faz, recorrendo a uma simples tradução. A quantidade de incorreções produzidas em apenas três linhas, que o autor dedica a falar da tradução que usa, são esclarecedoras quanto à indigência do seu estado de arte. Confunde datas e factos, promete o que não tem, fala do que não sabe.

 

       2. Chesterton dizia, com o seu notável humor, que o problema de quem faz da descrença profissão não é deixar de acreditar em alguma coisa, mas passar a acreditar em demasiadas. Poderíamos dizer que é esse o caso do romance de José Rodrigues dos Santos. A nota a garantir que tudo é verdade, colocada estrategicamente à entrada do livro, seria já suficientemente elucidativa. De igual modo, o apontamento final do seu romance, onde arvora o método histórico-crítico como a única chave legítima e verdadeira para entender o texto bíblico. A validade do método de análise histórico-crítica da Bíblia é amplamente reconhecida pela Igreja Católica, como se pode ver no fundamental documento “A interpretação da Bíblia na Igreja Católica” (de 1993). Aí se recomenda o seguinte: «os exegetas católicos devem levar em séria consideração o caráter histórico da revelação bíblica. Pois os dois Testamentos exprimem em palavras humanas, que levam a marca do seu tempo, a revelação histórica que Deus fez… Consequentemente, os exegetas devem servir-se do método histórico-crítico». Mas o método histórico-crítico é insuficiente, como aliás todos os métodos, chamados a operar em complementaridade. Isso ficou dito, no século XX, por pensadores da dimensão de Paul Ricoeur ou Gadamer. José Rodrigues dos Santos parece não saber o que é um teólogo, e dir-se-ia mesmo que desconhece a natureza hipotética (e nesse sentido científica) do trabalho teológico. O positivismo serôdio que levanta como bandeira fá-lo, por exemplo, chamar “historiadores” aos teólogos que pretende promover, e apelide apressadamente de “obras apologéticas” as que o contrariam.

 

       3. A nota final de José Rodrigues dos Santos esconde, porém, a chave do seu caso. Nela aparecem (mal) citados uma série de teólogos, mas o mais abundantemente referido, e o que efetivamente conta, é Bart D. Ehrman. Rodrigues dos Santos faz de Bart D.Ehrman o seu teleponto, a sua revelação. Comparar o seu “Misquoting Jesus. The Story Behind who Changed the Bible and Why” com o “O Último segredo” é tarefa com resultados tão previsíveis que chega a ser deprimente. Ehrman é um dos coordenadores do Departamento de Estudos da Religião, da Universidade da Carolina do Norte, e um investigador de erudição inegável. Contudo, nos últimos anos, tem orientado as suas publicações a partir de uma tese radical, claramente ideológica, longe de ser reconhecida credível. Ehrman reduz o cristianismo das origens a uma imensa batalha pelo poder, que acaba por ser tomado, como seria de esperar, pela tendência mais forte e intolerante. E em nome desse combate pelo poder vale tudo: manobras políticas intermináveis, perseguições, fabricação de textos falsos… Essa luta é transportada para o interior do texto bíblico que, no dizer de Ehrman, está texto repleto de manipulações. O que os seus pares universitários perguntam a Ehrman, com perplexidade, é em que fontes textuais ele assenta as hipóteses extremadas que defende.

 

       4. Resumindo: é lamentável que José Rodrigues dos Santos interrogue (e se interrogue) tão pouco. É lamentável que escreva centenas de páginas sobre um assunto tão complexo sem fazer ideia do que fala. O resultado é bastante penoso e desinteressante, como só podia ser: uma imitação requentada, superficial e maçuda. O que a verdadeira literatura faz é agredir a imitação para repropor a inteligência. O que José Rodrigues dos Santos faz é agredir a inteligência para que triunfe o pastiche. E assim vamos.

 


24
Set 11
publicado por mpgpadre, às 10:24link do post | comentar |  O que é?

 

      "...a do ser humano é breve, e muito mais frágil do que se imagina. As pessoas estão sempre e a morrer. Por isso, devemos tratar os outros de forma a não dar azo a grandes arrependimentos. De maneira justa e, se possível, com a máxima sinceridade. Eu, pessoalmente, não aprecio aqueles que não se esforçam quando têm oportunidade para isso e depois ficam a chorar baba e ranho e a torcer as mãos pelos cantos, cheios de remorsos, quando morre alguém".

 

Haruki Murakami, Dança, Dança, Dança. Casa das Letras, Cruz Quebrada: 2008.


01
Set 11
publicado por mpgpadre, às 10:38link do post | comentar |  O que é?

       "O encontro com Jesus não é fruto da investigação histórica nem da reflexão doutrinal. Ele acontece somente através de uma adesão interior e de um seguimento fiel. Começamos a encontrar-nos com Jesus no momento em que começamos a confiar em Deus como Ele confiava, quando cremos no amor como Ele cria, quando nos aproximamos dos que sofrem como Ele aproximava, quando defendermos a vida como Ele a defendia, quando olhamos para as pessoas como Ele olhava, quando enfrentarmos a vida e a morte com a esperança com que Ele a enfrentava, quando contagiarmos a Boa Notícia como Ele a contagiava".

 

José António PAGOLA, Jesus. Uma abordagem histórica, Gráfica de Coimbra 2: 2008.


15
Fev 11
publicado por mpgpadre, às 10:42link do post | comentar |  O que é?

       "Deus não Se impõe, não da mesma maneira como determino, por exemplo, que em cima da mesa está um copo: está lá! A Sua presença é um encontro que chega ao que há de mais íntimo e profundo do homem, mas que nunca pode ser reduzido à palpabilidade de uma coisa material. Por isso, pela grandeza do acontecimento, torna-se claro que a fé é um acontecimento em liberdade. Éste facto esconde em si a certeza de que se trata de algo verdadeiro, algo real - mas também não exclui completamente a possibilidade de negação".

 

BENTO XVI, Luz do Mundo... Lucerna: 2010.


10
Fev 11
publicado por mpgpadre, às 10:06link do post | comentar |  O que é?

       "O tempo do seu sofrimento não foi um tempo vazio. Creio que para a própria Igreja foi muito importante, depois de uma grande actividade, ter a lição da Paixão, ver que a Igreja também pode ser conduzida pela Paixão e que é precisamente através dela que a Igreja amadurece e vive".

       "...a lição do Papa sofredor era um ensinamento que ia além do ensinamento do Papa falante. A compaixão, o abalo, o encontro, de certo modo, com o sofrimento de Cristo tocaram mais profundamente o coração dos homens do que aquilo que ele pôde fazer no activo. Deram origem de facto a uma nova ruptura, bem como a um novo amor por aquele Papa, Não diria que essa realidade deu origem a uma mudança total da Igreja... Foi no entanto um sinal no qual, de repente, o poder da Cruz se tornou visível".

BENTO XVI, Luz do Mundo... Lucerna: 2010.


03
Fev 11
publicado por mpgpadre, às 14:45link do post | comentar |  O que é?

       "Creio que a nossa tarefa maior agora é, depois de esclarecidas algumas questões fundamentais, antes de mais revelar de novo a prioridade que é Deus. Hoje, o importante é voltar a ver que Deus existe, que Deus nos diz respeito e que nos responde. E que quando Ele é, pelo contrário, suprimido, por mais inteligente que seja tudo o resto, o homem perde a sua dignidade e a sua verdadeira humanidade e, por consequência, o essencial desmorona-se. Acredito por isso que hoje temos como novo sinal a prioridade da questão de Deus".

 

BENTO XVI, Luz do Mundo... Lucerna: 2010


28
Jan 11
publicado por mpgpadre, às 16:31link do post | comentar |  O que é?

"Temos sobretudo de procurar que as pessoas não percam Deus de vista. Temos de procurar que elas reconheçam o tesouro que possuem. Temos de procurar que, depois, elas próprias, a partir da força da própria fé, entrem em confronto com o secularismo e consigam concretizar a separação de mentalidades. Este enorme processo é a verdadeira, a grande missão deste tempo. Só podemos esperar que a força interior da fé, presente no Homem, se torne publicamente potente, moldando o pensamento, e que a sociedade não caia simplesmente no abismo"

BENTO XVI, Luz do Mundo... Lucerna: 2010.


21
Jan 11
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

       "Se a cruz contivesse uma afirmação que fosse incompreensível e inaceitável para os outros, então essa seria uma medida a considerar. Mas a cruz representa que o próprio Deus é sofredor, que Ele nos ama através da Sua dor, que Ele nos ama. esta é uma afirmação que não ataca ninguém. Isto por um lado.

       Por outro lado, também existe naturalmente uma identidade cultural na qual se baseiam os nossos países. Uma identidade que forma os nossos países de maneira positiva e a partir de dentro - e que forma ainda os princípios positivos e as estruturas básicas da sociedade por meio das quais o egoísmo é rejeitado, possibilitando uma cultura de humanidade. Eu diria que essa auto-expressão cultural de uma sociedade que vive de forma positiva não pdoe ser cirticada por ninguém que não partilhe dessa convicção, e também não pode ser banida".

 

BENTO XVI, Luz do Mundo... Lucerna: 2010.


publicado por mpgpadre, às 08:51link do post | comentar |  O que é?

       "Há um palavra do Senhor que considero muito importante em toda a minha vida: «Não vos preocupeis com o amanhã; cada dia tem o seu mal». Um mal por dia é suficente para os homens; mais não conseguem suportar. Por isso procuro concentrar-se na resolução do mal de cada dia, e deixar o seguinte para o dia seguinte".

 

BENTO XVI, Luz do Mundo... Lucerna: 2010.


20
Jan 11
publicado por mpgpadre, às 10:08link do post | comentar |  O que é?

       "Se a cruz contivesse uma afirmação que fosse incompreensível e inaceitável para os outros, então essa seria uma medida a considerar. Mas a cruz representa que o próprio Deus é sofredor, que Ele nos ama através da Sua dor, que Ele nos ama. esta é uma afirmação que não ataca ninguém. Isto por um lado.

       Por outro lado, também existe naturalmente uma identidade cultural na qual se baseiam os nossos países. Uma identidade que forma os nossos países de maneira positiva e a partir de dentro - e que forma ainda os princípios positivos e as estruturas básicas da sociedade por meio das quais o egoísmo é rejeitado, possibilitando uma cultura de humanidade. Eu diria que essa auto-expressão cultural de uma sociedade que vive de forma positiva não pdoe ser cirticada por ninguém que não partilhe dessa convicção, e também não pode ser banida".

 

BENTO XVI, Luz do Mundo... Lucerna: 2010.


19
Jan 11
publicado por mpgpadre, às 10:43link do post | comentar |  O que é?

BENTO XVI, Luz do Mundo. O Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos. Uma conversa com Peter Seewald. Lucerna. Cascais: Novembro de 2010.

 

(Papa e Peter Seewald)

 

       Ao longo do tempo temos vindo a recomendar leituras, não por nos parecerem sugestivas, ou porque estão na moda, ou porque todos leêm, mas por terem sido relevantes para nós. Por isso, só recomendamos leituras depois de lidas, passe a redundância.

       Naturalmente, que este livro-entrevista de Bento XVI é uma leitura obrigatória para quem quer conhecer melhor o Papa Bento XVI mas também as grandes questões da Igreja e da Sociedade contemporânea.

       Sem rodeios, sem fugir ou contornar as perguntas, numa linguagem sempre muito acessível, retratando cada dificuldade da Igreja com frontalidade, sem poeiras, e com a humildade de quem coloca tudo nas mãos de Deus.

       Peter Seewald e Bento XVI percorrem várias problemáticas do nosso tempo, procurando perscrutar os sinais da presença de Deus...

       Para mim, pessoalmente, qualquer leitura que traga a chancela de Joseph Ratzinger ou de Bento XVI é convidativa. Como teólogo ou como Papa lê-se com agrado, percebe-se bem na primeira leitura, abre a nossa mente para outras dimensões da vida, para a cultura, para a arte, para a música, para a beleza da natureza... para a surpresa de Deus


18
Jan 11
publicado por mpgpadre, às 18:30link do post | comentar |  O que é?

       "Comecemos talvez de um modo desajeitado, perguntando: o nosso mundo interior é uma cebola ou uma batata? A pergunta faz-nos sorrir, é um bocado cómica, mas, se quisermos, acaba por colocar-nos perante a nossa realidade de uma forma bastante profunda. A pergunta pode ser feita numa cozinha, por uma criança que está a descobrir o mundo, pode ser proferida por filósofos nos seus tratados ou pode ser formulada por um mestre espiritual. O nosso mundo interior é uma cebola ou uma batata? Nietzsche, por exemplo, dizia que «tudo é interpretação», isto é, não há um núcleo de Ser a sustentar a nossa experiência de vida, tudo são cascas de cebola, modos de ver, perspetivas, interpretações. Para lá disso não há mais nada. Uma visão espiritual do mundo, por outro lado, está certamente do lado da batata, pois considera que mesmo escondida por uma crosta ou por um véu persiste uma realidade que é substanciosa e vital.

 

       A verdade é que mesmo sabendo que a vida é uma batata, nós vivêmo-la muitas vezes como se fosse uma cebola. Vivemos de opiniões, de verdades parciais e provisórias, de paixões, vivemos de aparências e modas como se a vida fosse isso. Esgotamo-nos a desfilar cascas e camadas, sem um centro que nos dê realmente acesso ao pleno sentido. Há uma escritora contemporânea, Susan Sontag, que diz que a nossa existência como que fica sequestrada neste sem fim de interpretações que nos distraem da viagem essencial. Não habitamos em nós próprios, levados por ideias, pontos de vistas, cascas e mais cascas. Segundo ela, o mais urgente seria apurar e aprofundar os nossos sentidos, aprendendo a ver melhor, a sentir melhor, a escutar melhor.

 

       Na vida espiritual também é isso o mais importante. Simone Weil escrevia que ela é fundamentalmente feita de atenção: «é a orientação para Deus de toda a atenção de que a alma é capaz». Da qualidade da atenção depende em muito a qualidade da vida espiritual.

 

       Possamos dizer a verdade do poema de Sophia de Mello Breyner Andresen:

«Deixai-me limpo

O ar dos quartos

E liso

O branco das paredes

Deixai-me com as coisas

Fundadas no silêncio.»

       Os sentidos espirituais abrem-se e maturam no silêncio. Se mergulharmos neles, tornam-se trilhos para o nosso caminho. É esse o conselho que os mestres unanimemente fazem para passarmos da cebola à substanciosa e vital batata. O conselho de Arsénio, um dos Padres do Deserto (eremitas cristãos que fundaram a espiritualidade monacal) soava assim - «Foge. Cala-te. Permanece no recolhimento». Poemen garantia - «Se fores realmente silencioso, em qualquer lugar onde estiveres encontrarás repouso». João Clímaco, na primeira metade do século VII, escreveu: «o amigo do silêncio aproxima-se de Deus, e encontrando-se com Ele em segredo, recebe a sua luz». Isaac de Nínive prescrevia aos que o procuravam: «Ama o silêncio acima de todas as coisas; ele concede-te um fruto que à língua é impossível descrever… Dentro do nosso silêncio nasce alguma coisa que nos atrai ao silêncio. Que Deus te conceda perceber aquilo que nasce do teu silêncio.»

 

José Tolentino Mendonça, In Diário de Notícias - Madeira (16-01-11)


03
Dez 10
publicado por mpgpadre, às 09:57link do post | comentar |  O que é?
       As edições paulinas editaram o livro, que aqui recomendámos, e também o filme (baseado no livro): Bakhita, de escrava a santa. Veja a apresentação, falada em português:


02
Dez 10
publicado por mpgpadre, às 10:17link do post | comentar |  O que é?

A boneca de sal vagueou pela terra até chegar ao mar,

onde ficou absorta a comtemplar

aquela massa imensa de água inquieta que ela nunca vira.

"Quem és tu?", pergunta a boneca ao mar.

"Entre e vê" - diz o mar sorrindo.

Dito e feito, ela entrou mar dentro e quanto mais entrava,

mais se dissolvia até restar só um pouco do seu corpo.

Antes de derreter-se totalmente, exclamou a Boneca admirada:

"Agora já sei quem sou!

Anthony de Mello, O canto do pássaro, Paulinas 1995.


23
Nov 10
publicado por mpgpadre, às 15:21link do post | comentar |  O que é?

Deus ama-te apaixonadamente, tal como és. (...)

O Senhor é um Deus apaixonado por ti.

Deus é amor e não pode, não sabe, não é capaz de fazer outra coisa

senão amar-te, gostar de ti, querer-te bem. (...)

 

O Senhor ama-te porque Ele é bom, porque é amor.

Não está à espera que tu sejas anjo ou santo para te amar.

Ele sabe que és barro, que és frágil e por isso te ama, te quer bem.

Não duvides deste amor e abre-te a Ele. (...)

 

Recorda o que o Senhor disse a Catarina de Sena:

«faz-te receptiva e Eu serei torrencial».

Aprende a ser receptivo, aprende a ter um coração pobre, despojado e humilde,

e o Senhor será, em ti, torrencial, encher-te-á, mais e sempre mais, do seu amor. (...)

Deixa Deus ser Deus, deixa Deus amar-te, abraçar-te, beijar-te,

acariciar-te como faz o Pai do pródigo.

Não fujas, não recues, não te afastes, não coloques obstáculos.

Deixa-te amar por Deus. (...)

Antes de pensares nos teus pecados, contempla o amor que Deus tem por ti,

antes de olhares as tuas misérias, descobre a ternura amorosa do teu Deus. (...)

Convence-te, cada dia sempre mais, que Ele não é capaz de deixar de te amar»

Dário Pedroso, s.j. , in Paróquia de Tarouca.


22
Nov 10
publicado por mpgpadre, às 09:45link do post | comentar |  O que é?

       Quando o Papa Bento XVI foi em Visita Apostólica a África, ainda no avião, deixou claro que a solução para muitos problemas passava pela educação, pela formação, pela dignificação do ser humano. Também o tratamento da SIDA deveria ter em conta a pessoa na sua dignidade. Disse a propósito que o uso do preservativo não resolvia o problema, mas a humanização das relações entre pessoas e povos.

       A opinião mantém-se. Contudo, e como muitos cristãos sublinharam na altura, a questão do preservativo era de outra ordem. Para a Igreja o valor maior é a VIDA; se esta é colocada em causa devem utilizar-se os meios necessários para a preservar e dignificar. Nesse contexto, a utilização do preservativo não está em causa. Primeiro a vida. Se a não utilização do preservativo, numa relação esporádica, ou até numa relação duradoura, fizer perigar a vida, puser em causa a saúde da outra pessoa ou da própria, moralmente não há dúvidas que se torna mesmo uma exigência moral a sua utilização. Claro, isto foi explicado à exaustão, mas quando as pessoas têm uma opinião preconceituosa leva tempo a superá-la. Hoje as dúvidas foram uma vez mais esclarecidas.

        Mas vejamos a pergunta e sobretudo a resposta do Papa Bento XVI, no mais recente Livro/Entrevista, Luz do Mundo.


       «[…] Em África, Vossa Santidade afirmou que a doutrina tradicional da Igreja tinha revelado ser o caminho mais seguro para conter a propagação da sida. Os críticos, provenientes também da Igreja, dizem, pelo contrário, que é uma loucura proibir a utilização de preservativos a uma população ameaçada pela sida.

 

       Em termos jornalísticos, a viagem a África foi totalmente ofuscada por uma única frase. Perguntaram-me porque é que, no domínio da sida, a Igreja Católica assume uma posição irrealista e sem efeito – uma pergunta que considerei realmente provocatória, porque ela faz mais do que todos os outros. E mantenho o que disse. Faz mais porque é a única instituição que está muito próxima e muito concretamente junto das pessoas, agindo preventivamente, educando, ajudando, aconselhando, acompanhando. Faz mais porque trata como mais ninguém tantos doentes com sida e, em especial, crianças doentes com sida. Pude visitar uma dessas unidades hospitalares e falar com os doentes.

 

       Essa foi a verdadeira resposta: a Igreja faz mais do que os outros porque não se limita a falar da tribuna que é o jornal, mas ajuda as irmãs e os irmãos no terreno. Não tinha, nesse contexto, dado a minha opinião em geral quanto à questão dos preservativos, mas apenas dito – e foi isso que provocou um grande escândalo – que não se pode resolver o problema com a distribuição de preservativos. É preciso fazer muito mais. Temos de estar próximos das pessoas, orientá-las, ajudá-las; e isso quer antes, quer depois de uma doença.

 

       Efectivamente, acontece que, onde quer que alguém queira obter preservativos, eles existem. Só que isso, por si só, não resolve o assunto. Tem de se fazer mais.

 

       Desenvolveu-se entretanto, precisamente no domínio secular, a chamada teoria ABC, que defende “Abstinence – Be faithful – Condom” (“Abstinência – Fidelidade – Preservativo”), sendo que o preservativo só deve ser entendido como uma alternativa quando os outros dois não resultam. Ou seja, a mera fixação no preservativo significa uma banalização da sexualidade, e é precisamente esse o motivo perigoso pelo qual tantas pessoas já não encontram na sexualidade a expressão do seu amor, mas antes e apenas uma espécie de droga que administram a si próprias. É por isso que o combate contra a banalização da sexualidade também faz parte da luta para que ela seja valorizada positivamente e o seu efeito positivo se possa desenvolver no todo do ser pessoa.

 

       Pode haver casos pontuais, justificados, como por exemplo a utilização do preservativo por um prostituto, em que a utilização do preservativo possa ser um primeiro passo para a moralização, uma primeira parcela de responsabilidade para voltar a desenvolver a consciência de que nem tudo é permitido e que não se pode fazer tudo o que se quer. Não é, contudo, a forma apropriada para controlar o mal causado pela infecção por HIV. Essa tem, realmente, de residir na humanização da sexualidade.

       Quer isso dizer que, em princípio, a Igreja Católica não é contra a utilização de preservativos?

       É evidente que ela não a considera uma solução verdadeira e moral. Num ou noutro caso, embora seja utilizado para diminuir o risco de contágio, o preservativo pode ser um primeiro passo na direcção de uma sexualidade vivida de outro modo, mais humana.»

 

       BENTO XVI, O Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos – Uma conversa com Peter Seewald, Lucerna: 2010.

 

»» Sobre esta questão pode revisitar as reflexões feitas em Escolhas & Percursos


20
Nov 10
publicado por mpgpadre, às 10:11link do post | comentar |  O que é?

Nunca mais

A tua face será pura limpa e viva

Nem o teu andar como onda fugitiva

Se poderá nos passos do tempo tecer.

E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

 

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

A luz da tarde mostra-me os destroços

Do teu ser. Em breve a podridão

Beberá os teus olhos e os teus ossos

Tomando a tua mão na sua mão.

 

Nunca mais amarei quem não possa viver

Sempre,

Porque eu amei como se fossem eternos

A glória, a luz e o brilho do teu ser.

Amei-te em verdade e transparência

E nem sequer me resta a tua ausência.

És um rosto de nojo e negação

E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

Sophia de Mello Breyner (postado a partir do POVO)


16
Nov 10
publicado por mpgpadre, às 10:28link do post | comentar |  O que é?

Leitura recomendada:

Roberto Italo Zanini, BAKHITA. Uma santa para o século XXI. Paulinas: 2010.

 

       "A ex-escrava africana, torturada e maltratada, ao serviço de um poderoso mercador árabe e de um general turco. Resgatada em Cartum, em fins do século XIX, pelo vice-cônsul italiano, e levada para Veneto, foi ama de uma criança, baptizou-se, tornou-se freira na Ordem das Filhas da Caridade, de Madalena de Canossa, e fez-se santa, vivendo por cinquenta anos naquele quarto do Convento das Canossianas, na Rua Fusinato, em Schio, na província de Vicenza.

 

       Um pouco sudanesa, um pouco italiana. Extra-comunitária ante litteram. Raptada em criança para ser escrava. Vendida e comprada cinco vezes, como tantas crianças, ainda hoje, em África e no mundo. Não tem recordações nenhumas da sua família. Não se lembra do nome que o seu pai e a sua mãe lhe deram. Recorda apenas o nome árabe, imposto por ironia, pelos esclavagistas que a raptaram: Bakhita, isto é, a Afortunada".

       Este é um pedaço de texto que caracteriza Santa Bakhita, proclamada Beata, em 17 de Maio de 1992, e Santa, em 1 de Outubro de 2000, que no-la apresenta como santa para o século XXI. Terá nascido no Darfur, no Sudão, em 1969, e morreu a 8 de Fevereiro de 1947.

       Este Livro retrata a sua epopeia e a grande atracção que provoca, em vida e em morte, nas pessoas que dela se aproximam. É também uma grande esperança para o continente africano, sinal de libertação...

       É uma leitura escorreita, fácil, agradável, que nos leva a percorrer página a página com a ânsia de saber mais coisas, facilmente perceptível. Mostra-nos uma pessoa muito simples, (quase) analfabeta, fala atabalhoadamente, ri-se de si mesmo, mas cativante para os ouvintes, bem humorada, que vive para O Patrão de tudo e de todos.

       O livro foi convertido em filme, tendo também a chancela das Paulinas.


25
Out 10
publicado por mpgpadre, às 19:08link do post | comentar |  O que é?

       Cristo teve um nascimento indigno e uma história de turbulências e aflições. Nasceu entre os animais. Num estábulo, Ele derramou as suas primeiras lágrimas...

       Tinha, portanto, todos os motivos para ser uma pessoa tensa, ansiosa, irritada e infeliz, mas, para nosso espanto, era uma pessoa alegre e tranquila. Apresentou-se como uma fonte de prazer, uma fonte de água viva que matava a sede da alma humana. Quem, no deserto mais escaldante, conseguiu, como Ele, fazer da sua vida um oásis inesgotável que saciava a sede dos sedentos?

       Por incrível que pareça, Ele fazia poesia até mesmo da Sua miséria. Muitos têm bons motivos para ser alegres, mas estão sempre insatisfeitos. São incapazes de valorizar o que têm, valorizam apenas o que não têm. Tornam-se especialistas em acusar os outros pelos seus conflitos e detestam a vida que possuem.

       Jesus, pelo contrário, tinha muito pouco exteriormente, mas fazia pouco caso do que tinha. N'Ele não havia sombra de insatisfação. Queixar-se não fazia parte do dicionário da Sua vida. Nunca acusava ninguém pelas suas misérias. Era forte para enfrentar os Seus desafios sem precisar de ferir nem agredir ninguém.

       Os homens podiam desistir d'Ele, mas Ele nunca desistia de ninguém. Tinha consciência de que O feririam sem piedade, mas Ele não Se suicidaria. Havia predito que O humilhariam, que Lhe cuspiriam no rosto e que O tornariam num espectáculo público de vergonha e de dor, mas Ele permaneceria de pé, firme, a fitar os olhos dos seus acusadores e a suportar com dignidade a sua dor.

 


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