...espaço de discussão, de formação, de cultura, de curiosidades, de interacção. Poderemos estar mais próximos. Deus seja a nossa Esperança e a nossa Alegria...
07
Abr 14
publicado por mpgpadre, às 18:00link do post | comentar |  O que é?

Idade com que Jesus iniciou o Seu ministério, como pregador itinerante, como Profeta, como Filho do Homem e de Deus.
Centralidade do anúncio de Jesus: a novidade e proximidade do Reino de Deus.
Novidade, futuro, esperança e os Velhos do Restelo.
Com a novidade do Reino, a conversão e a mudança de vida. Mudar não por mudar, mas procurar sempre e mais ser rosto de Jesus Cristo, ser o que se é pelo batismo: Filho/a de Deus.
Nunca é tarde para começar... ou recomeçar... se for para dar mais qualidade à vida...

Em alguns livros, e em alguns meios, continua a dizer-se que Jesus morreu com 33 anos, tendo iniciado a vida pública aos 30 anos de idade (informação dada por São Lucas).
Hoje é pacífico, ainda que não totalmente divulgado, que a morte de Jesus ocorreu quando Ele tinha 37 anos de idade e a Sua morte teria sido na sexta-feira, a 7 de abril do ano 30. Seguindo os evangelhos, Jesus morreu em véspera de sábado e naquele ano a Páscoa judaica ocorreu a um sábado. O calendário judaico é lunar, e a páscoa, a 14 de Nizan, pode cair a qualquer dia da semana. Nos anos 27, 30 e 33 da era cristã caiu num sábado. Morto a 27, era muito pouco tempo para a vida pública, tinha iniciado há pouco a pregação. Morto no ano 33, seriam 6 anos de pregação e os evangelhos não permitem extender por tanto tempo a sua vida pública, pois no máximo Jesus participou em 3 páscoas (segundo São João) no mínimo pelo menos numa páscoa. Daí que se calcule a vida pública entre 1 ano e meio a três anos. Há outros dados históricos que ajudam a situar cm alguma precisão a data da morte de Jesus, confrontando com os dados dos evangelhos, como por exemplo, Pôncio Pilatos exerceu o poder como autoridade romana entre o ano 26 e 36 depois de Cristo (da era cristã); Caifás entre 19 e 36 depois de Cristo...


Mas como é que morreu com 37 anos, no ano 30 da era cristã, se com Ele que se inicia a era cristã?
Vamos por partes. A data do nascimento de Jesus não se conhece com exatidão, nem o dia nem o mês nem o ano de nascimento. Festeja-se o nascimento a 25 de dezembro, quando os pagãos festejavam o deus Sol, no solstício de inverno. Para os cristãos, o verdadeiro Sol é Jesus Cristo, a Luz do Mundo. É aceitável que Jesus tivesse nascido na primavera/verão, pois se os pastores estavam por ali não poderia ser no inverno... A escolha de 25 de dezembro foi uma forma prática de "substituir" e cristianizar uma festa pagã.
O calendário cristão foi elaborado, no século VI, pelo monge Dionísio, o Exíguo, a pedido do Papa João I, tendo colocando o nascimento de Jesus a 25 de dezembro do ano 753 da fundação de Roma, e o início da era cristão em 1 de janeiro de 754, da fundação de Roma, oito dias depois, na Circuncisão de Jesus.
Dionísio ter-se-á enganado, colocando o nascimento de Jesus 4 anos depois da morte de Herodes. Contudo, Herodes estava no poder quando Jesus nasceu, o que obrigou a recuar a data de nascimento: entre 4 a 7 anos. Nesta lógica, e seguindo vários autores, optando por recuar até 7 anos, nós estaríamos neste momento no ano 2021 (partindo do nascimento de Jesus. Quando se descobriu o lapso de tempo em falta, já era tarde para corrigir a história e os respetivos documentos escritos...)

Se morreu no ano 30 e se nasceu no ano 7 antes da era cristã, Jesus morreu com 37 anos de idade. Sublinhe-se também que a esperança média de idades andava pelos quarenta anos. Não se pode dizer que Jesus tenha morrido demasiado novo, ainda que fosse antes do tempo, já que foi morto.
A pregação, a vida pública de Jesus durou três anos (ano e meio, no mínimo, a três anos, no máximo, segundo os vários evangelhos). Logo, começou a Sua pregação com (33 ou) 34 anos, na primavera do ano 27, depois de ter sido batizado por João Batista e eventualmente depois deste ter sido preso.

Os 30 anos é a idade em que todos os profetas iniciam a Sua missão. Estão preparados, maduros, já viveram muito tempo, já cresceram. Chamados desde o seio materno mas só se manifestam publicamente na idade adulta. 30 anos é uma idade simbólica. Logo se Jesus é profeta (ou o Profeta, por excelência), também Ele inicia o Seu ministério com 30 anos (mais um, dois ou três ou quatro, continua a ser 30 anos).

Depois desta precisão, voltemos ao ponto de partida desta reflexão.
Nunca é tarde para mudar. Com efeito a nossa vida transforma-se constantemente. Gostaríamos de preservar tudo o que vem de trás, mas nem sempre é possível, melhor, o que "herdámos" da nossa vida há de ser assimilado e transformado na vida presente e futuro. Somos seres em devir, em transformação. Como crentes, ainda mais, na abertura para Deus, Deus da nossa Esperança, acreditando que cada passo que dermos na fidelidade a Jesus Cristo será uma forma de atualizarmos o tempo presente, sem perdemos o melhor que recolhemos do passado.

Com efeito, Jesus inicia a vida pública com a pregação que se centra na originalidade/novidade do reino de Deus e na necessidade de nos abrirmos aos novos céus e nova terra que Jesus vem trazer com o Seu amor, com a Sua vida, a entregar por nós.
Os velhos do Restelo são aqueles que nunca estão satisfeitos com nada, nunca se dispõem a ajudar na transformação do mundo, nunca colaborarão para melhorar o meio envolvente em que vivem, querem que tudo permaneça como está, qual fotografia que se vai deslavando até perder toda a coloração...
Todos podemos ter em nós restos d' Os velhos do Restelo... Jesus deparou-se com uma sociedade certa e orgulhosa da Sua história. Também isso O levou à Cruz, os interesses instalados, a surpresa da Sua mensagem, a provocação das Suas palavras e da Sua vida... mas mudou os que se Lhe abriram de todo o coração, mudou o mundo inteiro, ainda que precisemos de novo de O acolher para continuarmos a mudar o que em nós é urgente mudar, para sermos transparência do Seu amor, no mundo em que vivemos.

 

Texto originalmente publicado em 3 de fevereiro de 2012. Revisto e publicado a 7 de abril de 2014.


26
Fev 12
publicado por mpgpadre, às 19:30link do post | comentar |  O que é?

Larga o que trouxeste.

 

Diante de Deus, como refletimos ontem, não precisamos de máscaras, de vestes, de muitas coisas, precisamos do nosso coração aberto e disposto a acolhê-l'O.

É o que nos diz esta canção que ora sugerimos.

 

O Coro Juvenil de Padornelo e Parada venceu o X Viana Jovem, no Festival de Coros Juvenis, no dia 24 de janeiro de 2010. Ouvimos, gostámos e achamos oportuno partilhar a música, preparando também a canção para ser apresentada na disciplina de EMRC. É uma música extraordinária, na letra, na melodia, na interpretação.De uma Diocese vizinha, Viana do Castelo, mas com o mesmo espírito, animação e disponibilidade para anunciar e seguir Jesus Cristo pela música e pelo desafio.

 

Tudo me prende,
Tudo me agarra,
Tudo me chama para o mundo.
Tenho um pingente,
Uma samarra,
Cartão de crédito e tudo.
 
Eu quero ter [tantas coisas], eu quero ir,
Eu quero ver [o mundo todo], eu quero vestir,
Eu quero ser [muito famoso], eu quero mostrar,
- E tu?
- E eu? Quero saber.
 
Diz, ó Mestre, o que faço agora?
O que guardo, o que deito fora?
Cumpro a Lei e tudo o que disseste.
- Então, larga o que trouxeste.
 
Nada me enche,
Nada me basta,
Nada me satisfaz a sério.
Tenho uma agenda,
Dentro de uma pasta,
Um cheque-brinde, outro mistério.
 
Eu quero ter [a Vida Eterna], eu quero ir,
Eu quero ver [essa Herança], eu quero vestir,
Eu quero ser [nova Esperança], eu quero mostrar-Te,
- E tu?
- E eu? Quero saber.
 
Diz, ó Mestre, o que faço agora?
O que guardo, o que deito fora?
Cumpro a Lei e tudo o que disseste.
- Então, larga o que trouxeste.
 
Um dia vou estar preparado,
Quem sabe cantar ao Teu lado,
Outro refrão.
Quando eu compreender a certeza
De que a principal riqueza
Está no meu coração.


25
Fev 12
publicado por mpgpadre, às 19:30link do post | comentar |  O que é?

Lembra-te, homem, que és pó da terra e à terra hás de voltar (cf. 3, 19).

Nós somos do chão, da terra. Não deverá haver nada entre nós e o chão, o chão liga-nos a Deus e ao irmão. Diante de Deus não precisamos de estar apenas nós, nem ouro, nem prata, nem alforge, só nós e Deus, nós, Deus e o irmão. E assim diante do irmão. Quando estamos com o irmão ainda estamos diante de Deus, porque no outro está Deus.

Hoje, D. António Couto, na Jornada Diocesana do Catequista, subordinado ao tema: “Chamado por Deus, participante da missão de Jesus”, partiu da figura de Moisés para ilustrar o chamamento e o envio e o Deus que chama, Deus santo.
Prestemos atenção ao texto: “Moisés estava a apascentar o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Madian. Conduziu o rebanho para além do deserto, e chegou à montanha de Deus, ao Horeb. O anjo do SENHOR apareceu-lhe numa chama de fogo, no meio da sarça. Ele olhou e viu, e eis que a sarça ardia no fogo mas não era devorada. Moisés disse: «Vou adentrar-me para ver esta grande visão: por que razão não se consome a sarça?» O SENHOR viu que ele se adentrava para ver; e Deus chamou-o do meio da sarça: «Moisés! Moisés!» Ele disse: «Eis-me aqui!» Ele disse: «Não te aproximes daqui; tira as tuas sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é uma terra santa.» (Ex 3, 1-5).
D. António sublinhou que Moisés tem de sair do seu caminho habitual, como a criança que nunca segue desatenta no caminho, observa o que a rodeia, tudo cativa o seu olhar, assim Moisés se deixa “desviar” pelo que vê a partir do seu caminho.
Deus chama, pelo nome, e diz a Moisés: “tira as tuas sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é uma terra santa”. O ser humano é da terra, do chão. Assim é a partir do chão, da terra que nos unimos a Deus, que Lhe respondemos. É pela terra que nos unimos aos irmãos. Somos do mesmo barro. Pó da mesma terra. Irmãos. Nada deve existir entre nós e a terra, para que os pés nús estejam ligados a Deus, ao Universo, ao nosso irmão.
Cientificamente, tudo aponta para que tenhamos uma origem comum (de baixo das pele, circula o mesmo sangue, a mesma existência biológica, debaixo da pele somos mais iguais), uma poeira inicial, energia concentrada, explosão de energia que faz espalhar a poeira e formar-se em várias estrelas, planetas, galáxias. A terra, a água, o céu, os animais terrestes, os animais marinhos, as aves do céu, o ser humano, tudo tem origem nessa poeira original. A descendência é a mesma. Somos pó que ao pó há de regressar. A mesma origem, o mesmo fim.
Para nós crentes, antes da origem e depois do fim está Deus.
A quarta-feira de Cinzas lembra-nos a nossa origem e a nossa fragilidade, mas sobretudo a nossa interdependência a Deus e aos irmãos.

Na reflexão do nosso Bispo, e como desafio para hoje, que nada nos separe do chão, quando nos queremos diante de Deus e diante do irmão. Somos do chão. É chão sagrado o que pisamos. Somos da terra, e é na terra que o Senhor nos encontra, por Jesus Cristo, Deus feito Homem, feito terra.


24
Fev 12
publicado por mpgpadre, às 19:30link do post | comentar |  O que é?

Carpe Diem. Vive o presente.
Cada dia tem as suas próprias preocupações.
O tempo não volta, gastemo-lo bem. Foi-nos dado gratuitamente.

Vive hoje, sem a ansiedade e o medo paralisante do futuro.
O futuro só a Deus pertence. Deus providenciará.
Façamos a nossa parte, o que está ao nosso alcance.
Não esperemos pelo amanhã para viver, para nos comprometermos, para modificarmos na nossa vida o que sabemos nos levará a bom termo. Nem esperemos pelo ontem que já foi.

CARPE DIEM:
A expressão popularizada é da autoria de Horácio, poeta romano (65-8 a.C.). Segundo a Wikipédia, quer dizer: "Colhe o dia presente e sê o menos confiante possível no futuro".
A expressão no contexto: "Enquanto estamos falando, terá fugido o tempo invejoso; colhe o dia, quanto menos confiada no de amanhã".

Jesus, no Evangelho, desafia os seus discípulos a viver no tempo atual, presente, sem medo do amanhã, confiando em Deus, mas não deixando a vida ao acaso, empenhando-se na edificação do Reino de Deus e da Sua justiça. O mais providenciará Deus.
"O vosso Pai celeste bem sabe que tendes necessidade de tudo isso. Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo. Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã já terá as suas preocupações. Basta a cada dia o seu problema" (Mt 6, 33-34).
Depois de ensinar a oração do Pai-nosso, referindo que não é o número das palavras que conta, mas a disponibilidade para acolher o Deus que vem e de realizar na sua vida quotidiana a vontade de Deus, Jesus insiste para que os seus seguidores, embora de olhar fito nas alturas, estejam comprometidos com os irmãos no tempo que passa.

A expressão anterior - carpe diem - é utilizada em vários sentidos: "gasta a vida enquanto podes", "aproveita enquanto és novo", "goza agora que não sabes o dia de amanhã". Neste sentido pode ser mesmo um convite a desperdiçar o tempo presente, como se o de amanhã nos fosse roubado. É uma expressão para justificar também os excessos...
Mas é o mesmo Deus que nos garante o dia de hoje e o dia de amanhã.
Num sentido cristão, este é um convite a "desfrutar" com alegria o dia de hoje, a potenciar a nossa vida, a comprometer-nos agora, a dar-nos aos irmãos, a realizarmos o que está ao nosso alcance sem esperarmos que outros o realizem, ou que com o tempo alguém se lembre de fazer ou de resolver.

O tempo que não volta...
Ainda que haja situações idênticas, o tempo e a história não e repetem. Por mais que quiséssemos e por mais esforços que façamos o passado não volta. Não nos pertence.
Somos e (re)conhecemo-nos pelas referências aos tempos idos. Somos pessoas, com memória, com raízes, como já vimos por aqui... Não é possível a pessoa de hoje, sem a de ontem, e até mesmo sem se projetar no amanhã. Aliás, se menosprezássemos o passado, a história, seria uma enorme ingratidão para com as pessoas que nos precederam. A história não se compadece com os ingratos, a anulação da memória destrói a vida da pessoa, da família e da comunidade.

A melhor gratidão que prestamos à história e aos nossos antepassados, é a abertura ao futuro, à novidade. Eles rasgaram horizontes que nos permitem viver com muita comodidade, uns mais que outros. Puseram os seus talentos a render. Preparam o futuro (que é o nosso presente) com o seu engenho e esforço. Hoje cabe-nos a nós.
Não sejamos reféns do passado, parasitas do tempo. O tempo não pára. Não volta. O tempo atual é nossa, é graça de Deus. Não esqueçamos os que vieram antes e o que nos legaram. Agora é a nossa vez de construir e preparar o nosso futuro e o futuro dos vindouros.

Vivamos o hoje com alegria e confiança. Aguardemos que o amanhã nos dê a oportunidade de cimentarmos o que hoje semeamos.
Obviamente que a esperança no amanhã, e o compromisso com o hoje, não esconde a dificuldade que muitos têm de enfrentar. Pessoas com situações pessoais, familiares, profissionais preocupantes, sem horizonte, sem um vislumbre de segurança.
Porém, há situações que uma atitude de desânimo não ajuda, pelo contrário só complica o que já de si é complexo e delicado.

NB - Vive hoje com intensidade, sendo generoso consigo e com as pessoas que lhe estão mais próximas. A página que não preencher hoje, não a terá amanhã. Amanhã terá uma página inteirinha para escrever.


23
Fev 12
publicado por mpgpadre, às 19:30link do post | comentar |  O que é?
Humildade :: Frontalidade :: Sinceridade :: Transparência :: CARIDADE

 

"Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior de todas é a caridade" ( 1 Cor 13, 4-13).

 

São palavras e atitudes muito próximas. Podem ser equivalentes, em muitas situações ou consequência umas das outras. A humildade implica a sinceridade e a caridade. A Caridade, por sua vez, enquadra e promove a humildade, a transparência, a sinceridade e a frontalidade (bem entendida). A frontalidade revestida da caridade torna-se uma fonte de aproximação, de diálogo e de edificação mútua.

No entanto, para o cristão o ponto de partida, o ponto de chegada, e o sustentáculo é a CARIDADE. Sem a caridade, o amor gratuito e oblativo ao jeito de Jesus, Aquele que nos dá a Sua vida, as outras virtudes ficam como um esqueleto ressequido, sem carne, sem músculos, sem vida.

 

Há dias, num jantar com colegas padres, ouvi a um - que foi meu professor há alguns anos, e portanto com mais experiência de vida e com outra maturidade de fé (ainda que não tenha tanto a ver com idades mas com cada pessoa, e com os diversos momentos por que passa a sua vida) - uma expressão muito significativa e que hoje nos traz aqui.

Algumas pessoas com a desculpa que são sinceras magoam, ofendem agridem - "não quero saber, eu tenho que ser sincero, quem quer ouvir que ouça, quem não quer não ouça, mas tenho que dizer o que penso", os outros que vão às favas, pouco me importa que gostem ou não. Eu sou assim.

Certamente não é nada que não tenhamos ouvido.

Do mesmo modo acerca da frontalidade. São duas "atitudes" próximas mas não se confundem. Deveria resultar uma da outra.

"O que tiver a dizer digo, seja diante de quem for. Eu cá sou frontal. Não tenho nada a esconder. Custe a quem custar. Eu sou assim. Podem ficar chateados que eu não me importo. Para mim a frontalidade é mais importante".

Será mesmo assim?

Por experiência própria, tenho para mim que tudo o que se absolutiza e se generaliza corre o risco de se tornar contraproducente e "cair" sobre o próprio.

Também aqui não é branco ou preto, pode-se estar a caminho...

Há, sem dúvida, pessoas, que são frontais, que não se escondem em desculpas, que cumprem com o que está ao seu alcance para tornarem o mundo mais saudável...

 

Ou então existem diferentes tipos de frontalidade ou maneiras distintas de a interpretar:

– sou frontal, o que tenho de dizer digo... mas nunca à frente/ na fronte, sempre por interpostas pessoas, e elas se quiserem dizer ao próprio que digam! Há muitas pessoas assim frontais... dizem aqui e além, mas nunca a quem dirigem a sua irritação;

– sou frontal, digo o que me dá na real gana, seja a quem for, seja o que for, não interessa, eu sou assim, quanto aos outros não me interessa o que pensam, ou como reagem;

– sou frontal, traduzindo: sou melhor que toda a gente. As minhas ideias são as melhores do mundo. Os outros ou aceitam ou recusam, mas eu não mudo de opinião. A minha opinião é que conta. Se os outros não aceitam mudar de opinião, são ditadores, orgulhosos. Traduzindo: isto é o contrário do diálogo. O diálogo promove a discussão mas com abertura, estou na disponibilidade de mudar de opinião ou de completar a opinião que tenho, ou pelo menos fazer o esforço por compreender o que o outro tem para me dizer;

– sou frontal, gostem ou não, eu cá sou assim, digo o que penso, digo-lhes para seu próprio bem. Traduzindo: é uma opinião pessoal, mas será uma convicção profunda, já testei na minha vida (contando com a minha imperfeição)? Pediram-me o conselho, ou será que precisam mesmo do meu conselho? Imponho(-me) ou proponho? Estou certo e os outros errados? Não estaremos os dois certos, ou até os dois errados?

 

Pessoas frontais que são sinceras.

Pessoas frontais que destilam ódio, irritação e sobranceria sobre os outros.

Pessoas frontais que usam a mentira, meias-verdades, opiniões duvidosas para ofender, para agredir... sob a capa da frontalidade.

 

Jesus convida a reconhecer os nossos erros e imperfeições, a sabermos acolher o perdão de Deus e a termos a humildade suficiente para perdoar a quem nos ofende. A denúncia é inabalável contra a falsidade, a mentira e a hipocrisia, contra as pessoas fingidas, incoerentes – exigem aos outros o que não fazem. A frontalidade de Jesus leva-O a confrontar as pessoas com a dignidade de filhos de Deus.

A nossa humildade há de dar-nos a coragem para nos reconhecermos também pelas nossas insuficiências, e frontalidade de nos sabermos a caminho.

 

NBA minha fronte/frente não é igual à fronte/frente do outro.

Sou frontal porque estou defronte/de frente/diante de/à frente, face a face com a outra pessoa. É um sentido mais físico mas é também espiritual. Estou à frente da pessoa, sou frontal, quando olho para ela como pessoa, com sentimentos e opiniões próprias, com a sua história de vida, com os seus dramas e com as suas conquistas. Não estou à frente de uma parede. Se eu estiver à frente de um muro, a minha frontalidade só me implica a mim. Se estou perante outra pessoa, implica-me a mim e a ela. Portanto, não descarrego apenas a minha opinião, ou a minha irritação, mas dialogo, falo e escuto, aconselho e deixo que ela me aconselhe, cedo e ela cede também (se se tratar disso), explico o meu ponto de vista e deixo que a outra pessoa rebata ou apresente o seu ponto de vista.

E se é de frente, não é nas costas, não é na ausência da pessoa que se contesta.

 

NB 2 – Um ponto de vista é sempre a vista de um ponto.

 

NB 3 – A frontalidade, a sinceridade, a transparência e a humildade deverão ser revestidas de caridade. Sem caridade são como o esqueleto sem carne, sem músculos, sem vida. Surtem efeito, mas em sentido malévolo, vazio, contraproducente. Se a nossa frontalidade é dirigida a pessoas específicas tratemo-las como pessoas concretas, e se for necessário façamos uma abordagem que respeite o tempo e as características da pessoa que temos de fronte...

 

NB 4 – mais uma reflexão em aberto…


22
Fev 12
publicado por mpgpadre, às 19:30link do post | comentar |  O que é?

O jejum faz bem à saúde.

No dia em que a Igreja inicia o tempo santo da QUARESMA, como preparação para a celebração festiva da PÁSCOA, centramo-nos nos aspetos que tradicionalmente se associam a este tempo litúrgico: a oração, o jejum e a esmola (a caridade).

 

O que provoca mais apreensão é o JEJUM. Num tempo em que se foge de todo e qualquer sacrifício, todo e qualquer esforço, o tempo do descafeinado - com o sabor, mas sem a essência - o jejum surge revestido de conservadorismo, tradição anquilosada.

Vamos por partes.

Quando o jejum era uma observância mais rigorosa, também havia mais indigência. Muitos faziam jejum o ano inteiro. Como agora, aliás.

Há os que fazem jejum para manter a linha. O que até está ultrapassado - comer mais vezes em menos quantidade, é a melhor dieta para manter a linha, e que a alimentação seja diversificada, com um prato colorido, alimentos de diversas cores.

 

Jejum - comer menos. Eventualmente fazer uma refeição completa, e as demais serem frugais. Pessoas com mais de 21 anos e menos de 65 anos, que não estejam doentes, ou a tomar medicação, e cujo trabalho não exija uma alimentação reforçada. Dois dias de Jejum: Quarta-feira de Cinzas e Sexta-feira Santa.

 

Abstinência - deixar de comer algum tipo de alimento. Tradicionalmente, abster-se de carne. Estão "obrigados" pessoas com mais de 14 anos, e como quanto ao jejum, que não estejam a tomar medicação. Dias: Quarta-feira de Cinzas e todas as Sextas-feiras da Quaresma (no resto do ano poderá ser substituída pela oração, pela esmola, pela participação na Eucaristia, pela leitura da Sagrada Escritura. Abster-se de carne, ou de peixe, sendo este mais dispendioso, ou quando se gosta bem mais de peixe. Abster-se de doces, de chocolate, de café, de tabaco, de dizer palavrões...

 

O jejum faz bem a saúde física e espiritual.

Por vezes o nosso organismo precisa de descansar, de desenjoar das comidas habituais, para se equilibrar. Os médicos sabem isso, mas também as pessoas comuns. Quando nos sentimos doentes, por vezes, verificamos que precisamos de "não comer", para o estômago se refazer, e os outros órgãos envolvidos na digestão. Ou mais água e comida leve.

O jejum, por si mesmo, apenas como sacrifício não vale muito, vale em quanto nos coloca na rota de Deus e nos leva à prática da caridade. Jejuamos, deixamos de comer algum alimento, para que o que poupamos possa ser investido a favor dos outros.

 

O JEJUM na BÍBLIA:

"O jejum que Me agrada não será antes este: quebrar as cadeias injustas, desatar os laços da servidão, pôr em liberdade os oprimidos, destruir todos os jugos? Não será repartir o teu pão com o faminto, dar pousada aos pobres sem abrigo, levar roupa aos que não têm que vestir e não voltar as costas ao teu semelhante? Então a tua luz despontará como a aurora e as tuas feridas não tardarão a sarar. Preceder-te-á a tua justiça e seguir-te-á a glória do Senhor. Então, se chamares, o Senhor responderá; se O invocares, dir-te-á: «Estou aqui» (Is 58, 1-9a).

Os discípulos de João Baptista foram ter com Jesus e perguntaram-Lhe: «Por que motivo nós e os fariseus jejuamos e os teus discípulos não jejuam?» Jesus respondeu-lhes: «Podem os companheiros do esposo ficar de luto, enquanto o esposo estiver com eles? Dias virão em que o esposo lhes será tirado e nessa altura hão de jejuar» (Mt 9, 14-15).

 

O jejum, com a oração e com a esmola, é um sinal, uma oportunidade e uma vivência que valem como expressão da conversão interior, da adesão firme à Palavra/vontade de Deus, no seguimento do caminho do Senhor. O jejum, sem mais, tornar-se-á insignificante, quando muito uma dieta que pode ajudar o organismo a ser mais saudável. O jejum, na vivência da fé, há de ser acompanhado da oração e da caridade, das boas obras. Jesus, no Evangelho, não o desvaloriza, mas dá prioridade ao acolhimento e ao seguimento: "enquanto o noivo estiver com eles...".

Nós devemos valorizar as práticas penitenciais como incentivo e como expressão da conversão, mas ligadas, sempre, à caridade e à oração.

 

BENTO XVI:

"O Jejum, que pode ter diversas motivações, adquire para o cristão um significado profundamente religioso: tornando mais pobre a nossa mesa aprendemos a superar o egoísmo para viver na lógica da doação e do amor; suportando as privações de algumas coisas – e não só do supérfluo – aprendemos a desviar o olhar do nosso «eu», para descobrir Alguém ao nosso lado e reconhecer Deus nos rostos de tantos irmãos nossos. Para o cristão o jejum nada tem de intimista, mas abre em maior medida para Deus e para as necessidades dos homens, e faz com que o amor a Deus seja também amor ao próximo (cf. Mc 12, 31)".

 

A Igreja recomenda diversas práticas: o jejum, a conversão, a confissão, a abstinência, a leitura mais frequente da Sagrada Escritura, a participação mais ativa na Eucaristia, a partilha mais efetiva com os mais necessitados. Hão de ser expressão da conversão interior. O gesto da imposição da cinzas, nesta Quarta-feira de Cinzas, mais não é que um fortíssimo sinal do nosso despojamento interior, que deverá significar adesão firme a Deus. Importa "rasgar o nosso coração"... os gestos exteriores só valem se nos mobilizarem interiormente...

 

O verdadeiro jejum é a postura que nos aproxima de Deus e faz de nós irmãos uns dos outros na promoção da vida, da dignidade, vivendo de olhos postos no Altíssimo, na partilha que leva à comunhão, na verdade que nos liberta e nos compromete na caridade... No cristianismo, os gestos exteriores assumem, para serem autênticos, a conversão interior a Jesus Cristo e ao seu modo de ser e de agir, na disponibilidade constante por dar a vida pelo outro, traduzindo em gestos concretos de bem dizer e de bem-fazer.


21
Fev 12
publicado por mpgpadre, às 19:30link do post | comentar |  O que é?

É Carnaval ninguém leva a mal, se fizer por tal.

A diversão, as festas, os momentos de lazer, fazem parte do nosso quotidiano. Por um lado permitem-nos descansar da rotina diária - que também é precisa, só assim faz sentido sair da rotina -, e por outro lado aproximam-nos dos outros, se aproveitarmos para conviver, para aprender, para acolher, para potenciar outros talentos.
Os tempos de descontração são bom lenitivo nas dificuldades e nas canseiras.
Seja Carnaval seja outra qualquer festa, ainda que pagã, pode ser aproveitada pelos crentes, pelos cristãos, para evangelizar.
Até para brincar é preciso ser sério.
Há quem não saiba brincar.
Há quem brinque quando não é ocasião para tal.
Há ocasiões propícias para brincar.
Quem brinca não precisa de deixar de ser sério.
Quem é pouco sério, falseia também a brincadeira e a diversão.
Quem aproveita a brincadeira para ser desonesto, perverte a beleza e a saúde da diversão.

Também nas brincadeiras dá para conhecer as pessoas.
Pode acontecer que alguns se escondam por detrás das máscaras - para tal nem precisam do Carnaval para o fazer -, para fazer mal, para prejudicar, para agredir, para ofender pessoas que à luz do dia, e sem máscaras, não o fariam.
A coerência de vida também passa por aqui: procurar ser iguais a nós próprios no trabalho, no lazer, nos momentos sérios da vida e como nos momentos de descontração.

Quem é maltratado pode não saber quem está por detrás da máscara.
Quem faz mal, ainda que protegido pela máscara, e tiver (alguma) consciência, saberá que fez mal, agiu à falsa fé, usou a hipocrisia e a cobardia para esconder as suas debilidades físicas e/ou afetivas.

Estas palavras não são para terceiros. É para todos. Podemos passar por algum momento de fraqueza em que nos escondamos do olhar dos outros...
Estamos todos a caminho.
Quem puder e/ou quem quiser aproveite o Carnaval para se divertir não à custa dos outros, mas com os outros e para os outros. À custa dos outros, brincávamos quando éramos muito crianças, muito infantis...


20
Fev 12
publicado por mpgpadre, às 19:30link do post | comentar |  O que é?

Aprenda a dizer não (com razões razoáveis) para valorar o sim.

Há muitas situações em que temos de dizer não.
Não por birra, ou por maldade, ou por orgulho, ou por que nos apetece chatear os outros, ou porque dessa maneira mantemos a nossa posição, ou porque não nos queremos comprometer.

Há muitas situações que seria mais fácil dizer sim, mas para sermos honestos e justos temos que responder (claramente) não. Falo também por experiência própria nas comunidades paroquiais como na escola (enquanto professor de EMRC).
O que nos pedem, e a forma como o fazem, graúdos e miúdos, enternece-nos, mas nem sempre é o caminho da verdade. Porque também nem sempre o caminho mais fácil é o que nos leva mais longe e ao destino certo.

Na liturgia da Palavra deste Domingo, escutávamos, na segunda epístola de São Paulo aos Coríntios, que Deus responde sempre SIM às Suas promessas, a favor de toda a humanidade. O Apóstolo e os seus companheiros procuram também que a sua linguagem, para a comunidade, seja sempre sim, e não alternadamente, umas vezes sim e outras não. Sempre sim.
No Evangelho, e como refletíamos ontem, Jesus convida à transparência na linguagem: "sim, sim" e "não, não".
São duas formas que apostam na transparência e na benevolência. Não há que enrolar os outros com meias verdades, e no caminho da prática cristã o sim é ponto de partida, de chegada, é alimento, é sustento da fé.

No caso presente - e mais uma vez não pretendemos ser nem taxativos nem definitivos, estamos a caminho, a partilhar e a aprofundar alguns pensamentos (positivos) - trata-se de não termos medo daquilo que o nosso não possa provocar. Obviamente, não dizemos não para irritar o outro, ou para lhe fazer mal, mas dizemos "NÃO" quando a verdade e a caridade o impõem. Sublinhamos: verdade e caridade. Havemos de cá voltar. A sinceridade por vezes é desculpa para ofendermos os outros e a sua dignidade. Tenho de ser sincero... e digo o que me dá na real ganha sem olhar à pessoa que tenho diante de mim (não confundir com outra situação: sou brando e  agressivo, conforme a simpatia que a pessoa gera em mim - este seria um caso típico de acepção de pessoas).

Queremos ser agradáveis e dizemos sim. É mais fácil... a não ser que nos estejam a pedir algo, ou a pedir o nosso tempo e trabalho, aí o sim pode já não ser do nosso agrado. Mas sempre é mais simples, mais gratificante, mais cómodo, dizer sim. Como pais, como educadores, quantas vezes a tentação de dizer sim é maior?! Na volta temos sorrisos, palavras agradáveis, boa disposição. É da nossa natureza, dizendo sim conseguimos um fácil aplauso e/ou louvor.
Aliás, é bom dizer sim e sentirmo-nos bem porque fomos e pudemos ter sido prestáveis. Mas que o sim não tenha como fim o aplauso fácil. Que seja um sim convicto, consciente, e que dignifica a nossa postura, procurando a tal coerência de vida, dizemos "sim" porque está de acordo com as nossas convicções.

Se dizemos "não", temos amuos, contestação, indisposição, irritação.
Quantos filhos não quereriam ter pais que lhes dissessem "não", quantos filhos não gostariam que os pais um dia lhes tivessem dito não! Na adolescência e na juventude, os pedidos dos filhos por vezes são forma de testarem os pais, são momentos de afirmação e são ocasiões para o pais/educadores dizerem "não" (quando se justifica) e explicar porquê. Dar razões. Confiar neles. Do mesmo jeito, quando for possível dizer sim. Confiar. Estar atento. Ser claro. Ouvir as razões do filho/aluno. Não ter medo de fazer concessões, até como forma de responsabilizar. Não há vitórias ou derrotas no relacionamento humano. Há ganhos, crescimento, partilha, enriquecimento mútuo. Nunca ganhamos à custa do sofrimento do outro. Nunca sairemos vencedores de um conflito emocional/afetivo. Sairemos todos a perder. Vale a pena apostar no diálogo, na compreensão. Nem sempre é fácil. Ou quase nunca é fácil. E neste campo, depende muito de pessoa para pessoa e também das pessoas que estão frente a frente.

Se um filho ou um aluno não tiver limites, não saberá distinguir o certo do errado, o justo do injusto, o verdadeiro da mentira, a liberdade da libertinagem.
Uma das histórias da minha infância é sintomática. Aprendi com os meus pais, mas também na escola (ou vice versa): um homem foi condenado à morte por roubar. Já várias vezes tinha sido denunciado. E foi condenado à morte na forca. como último desejo pediu para beijar a mãe, quando estava com a corda no pescoço. A mãe aproximou-se e o filho (mesmo ladrão continua a ser filho querido) arrancou-lhe o nariz com os dentes. E deu a sua explicação: quando eu era pequenino e cheguei a casa com uma agulha (roubada), se a mãe não a tivesse aceitado, mas perguntado onde a tinha encontrado e me tivesse obrigado a devolvê-la e me desse duas bofetadas (hoje já não se usam bofetadas, passou de moda), talvez eu nunca me tivesse tornado ladrão e hoje não estaria aqui.

Trata-se mais uma vez do justo equilíbrio e que na prática, no concreto do dia a dia, não é fácil, sobretudo para os pais a tempo inteiro (isto é para os pais que realmente se preocupam e acompanham o crescimento dos filhos).
Há que não ter medo de dizer "NÃO". Os filhos precisam de ouvir o "não" firme dos pais, reconhecendo a sua preocupação e o seu amor. Ninguém diz "não" para chatear os filhos. Penso eu. Ou para chatear os alunos. Penso eu que não. Ou para chatear as pessoas a quem se diz não...

Quando se equilibra o não com o sim, procurando o melhor para aqueles que estão ao nosso encargo, então quer o não quer o sim serão compensadores, se levarem a uma vida mais saudável e se resultarem do melhor que há em cada um...
Do dizer ao fazer vai um longo caminho... mas podemos começar... o caminho faz-se caminhando, às vezes tropeçando, ou caindo... importa não desanimar. Deus caminha connosco e nos outros podemos encontrar-nos com Ele.


19
Fev 12
publicado por mpgpadre, às 19:30link do post | comentar |  O que é?

Quero seguir-Te, Senhor...

Este tema integra o projecto "Bom Mestre", que reúne os hinos das Jornadas Diocesanas da Juventude, sendo o Pe. Marcos Alvim o autor da maioria das letras e das músicas. Este projecto foi editado pelo SDPJ de Lamego e Edições Salesianas.

Quero seguir-Te (XVI Jornada da Juventude – Tabuaço 2001)
Letra: Pe. José Augusto Marques
Música: Pe. Marcos Alvim

Quantas vezes vagueei pelo mundo,
À procura dum sentido para a vida!
Procurei-o no prazer mais profundo,
Na beleza e na ilusão desmedida!

Quero seguir- Te,
Esquecer-me de mim,
Tomar a Tua cruz até ao fim!
Quero amar-Te no rosto do irmão,
Assumir a sua dor,
Viver o Teu perdão.

Sinto a felicidade que sonhei,
És Tu, Senhor, em mim, a revelar-Te!
Com a alma a transbordar, eu serei
Uma chama de luz a proclamar- Te!

Há um ano atrás, na Semana de Formação Bíblica e que terminava com o concerto de oração do Pe. Marcos Alvim, utilizámos esta canção para refletir, rezar e cantar.
Hoje sugerimo-la do mesmo jeito, ainda que nesta aldeia global.

Meditação (adaptada) das Edições Salesianas, para esta música:

A vida quase se resume a duas decisões importantes. A primeira é saber se queremos viver a vida em movimento ou parados. Procurando algo melhor e maior ou resignando-nos à mediocridade. A segunda é a decisão sobre a meta. Se nos decidimos pelo movimento contra o imobilismo da morte, convém saber bem para onde queremos ir.
Que procuramos? O que queremos encontrar? O que é que pode encher o nosso coração de beleza e sentido?
Podem parecer-nos perguntas vagas, difíceis... Perguntas a que se responde... "mais tarde". Mas são as perguntas mais urgentes.
Quando não investimos o melhor das nossas energias a escolher o rumo dos nossos passos, o objecto dos nossos desejos profundos, há sempre alguém que escolhe por nós. Alguém que decide que para sermos felizes não precisamos mais do que consumir objectos, emoções ou relações. Alguém que decide por nós que é inútil voar alto.
Neste processo de escolha, não estamos sozinho. Podemos escutar as vozes de outros, da nossa família, daqueles que nos amam e que realmente gostam de nós. Daqueles que, como nós, também procuram uma vida cheia, plena, abundante. Podemos escutar a voz de Jesus de Nazaré.
Ele sugere um caminho exigente. Mas viável. Um caminho que pede maturidade. Mas que, ao mesmo tempo, nos faz crescer interiormente.
Resumindo, Jesus propõe que vivamos a nossa vida numa busca constante do amor. Que as nossas mãos deixem de agarrar tudo o que passa à frente para passarem a dar. Que descubramos que só ao darmos aos outros a nossa vida encontramos a nossa verdadeira vocação.


18
Fev 12
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Rir de si mesmo...
...para viver mais tempo e sobretudo com mais qualidade de vida.

Por vezes levamos a vida demasiado a sério, colocando-lhe uma carga tempestiva e destrutiva que ela não tem. Obviamente que há momentos na vida de uma pessoa (ou mesmo de uma comunidade inteira, ou de uma família) que não são nada fáceis, sabendo-se contudo que de pouco adianta chorar pelo leite derramado. Se a tristeza pagasse dívidas, haveria muitas pessoas que que já tinham saldo positivo. Mas infelizmente não. Pouco resolvemos se nos indispusermos com o mundo, com a família, com os amigos ou até mesmo com Deus atribuindo-Lhe as culpas da insatisfação pessoal e atual. Não é que Deus não seja bom ouvinte...

Há dias, ouvia, e já estou a desviar um pouco, ouvia um comentário muito significativo a este propósito. Aquela pessoa, era uma pessoa concreta, com nome próprio e tudo, com família, não merecia o que lhe fizeram e referia-se a familiares. Embora tenha sido referido de uma pessoa concreta, certamente já o ouvimos em relação a muitas pessoas. No final, a conclusão de quem se lamentava pela pessoa amiga foi: "Eu costumo dizer que Deus 'castiga' os melhores"... Já Santa Teresa dizia a Jesus: Tratas assim os amigos, não podes ter muitos. Mais coisa menos coisa. Em todo o caso, e não poderia deixar de rebater, se foram pessoas da família que colocaram a pessoa naquela situação, como concluir que foi Deus? Se foi a família, então parte essencial da responsabilidade é das pessoas que lhe fizeram o que fizeram e da própria, ainda que de forma inconsciente e/ou, que deixou que lho fizessem, ou lho fizessem daquela maneira, ou que se deixasse magoar naquela situação. O relacionamento humano às vezes é bem confuso e complexo!

Mas voltemos ao ponto de partida.
A vida nem sempre é fácil. Como a rosa que tem espinhos. Espinhos que defendem a beleza da rosa, como o esforço que fazemos, por vezes sacrifício, que engrandecem, justificam e valorizam o resultado final. A caminhada é tão ou mais importante que a chegada.
Mas temos que descomplicar. Analisar para ver o que vale mesmo a pena, aquilo pelo qual vale a pena discutir ou até chatear-se.
Claro que cada pessoa é única e irrepetível, e cada pessoa reage a seu modo. Basta uma alfinetada (no sentido real, mas também no sentido simbólico) para alterar todo o sistema e colocar os motores todos a trabalhar ao mesmo tempo, atropelando-se mutuamente emoções, sentimentos, razão, pensamentos, desvarios.
A sensibilidade é diferente de pessoa para pessoa e por vezes a mesma pessoa, por diferentes motivos, pode alternar facilmente nas reações a situações idênticas. A sensibilidade e os motivos. Como dizíamos, há momentos tão dolorosos que não permitem sorrir.
Sorrir deveria ser uma opção de vida. Os outros não têm culpa das nossas indisposições. Mas também não é possível separar-nos, deixando a indisposição no trabalho ou em casa, para onde vamos, vão também as nossas preocupações, as nossas dores os nossos sonhos e projetos. Também o dizemos muitas vezes, como exemplo, participar na Missa festivamente, como que esquecendo-se dos problemas... mas também à oração levamos a nossa vida toda!

O convite de hoje: rir de si mesmo. Ser palhaço, ainda que por um instante, da própria vida, e das situações que até podem ter uma carga negativa e sacrificial. Quando as coisas estão mais frios, escuras, fundas, procure rir ou sorrir.
É mais fácil sorrirmos para os outros, mesmo que a alma esteja a sangrar por dentro.
É mais fácil rir dos outros e das situações caricatas que fazem, ou cinicamente, rir da vida e da situação dos outros. É de todos conhecida esta pequena história: um homem já ao psiquiatra, pois a sua tristeza é do tamanho do mundo e já não sabe o que fazer. O psiquiatra dá-lhe uma sábia recomendação. Todos os dias, na praça, há um palhaço que faz rir toda a gente e é uma terapia para muitos. O homem simplesmente responde: "Esse palhaço, que faz rir toda a gente, sou eu".
Às vezes é mais fácil rir/sorrir para os outros. E dever ser uma opção de vida que nos salva e traz saúde.
Mas, do mesmo modo, fazer o esforço por rir de nós, para que a vida seja mais leve, ainda que em breves instantes, qual medicamento que se toma faz efeito e depois passa, mas no caso, o rir de nós, tornar mais leve a nossa vida, pode ser oportunidade para que a saúde volte para nós e para aqueles que nos rodeiam.

"Todavia, saber o aspeto divertido da vida e a sua dimensão alegre, e não levar tudo tragicamente, isso, eu considero importante - diria até que é necessário... Um escritor afirmou que os anjos podem voar porque não levam as coisas tão a sério... Talvez pudéssemos voar um pouco mais se não nos déssemos tanta importância" (Cardeal Joseph Ratzinger/Papa Bento XVI).

Este elemento introduzido por Bento XVI é muito importante.
Voltemos a ler: não nos demos tanta importância. Só Deus é Deus. Não podemos resolver todos os problemas do mundo, às vezes, nem todos os problemas que nos afligem, em casa, no trabalho, com a família, com os amigos, com os conhecidos. Tudo tem o seu tempo. Há problemas, como já referimos por aqui, que se resolvem mesmo que não nos preocupemos. Há problemas que não se revolvem por mais que nos preocupemos. Então procuremos viver, com alegria, e sobretudo com amor, com paixão, sem dramatismos, só Deus é Senhor da História e do tempo. Como pessoas não somos insignificantes, somos as asas de Deus para florir o mundo que é o nosso.


17
Fev 12
publicado por mpgpadre, às 19:30link do post | comentar |  O que é?

Exercitemos a gratidão para nos tornarmos mais humanos, reconhecendo os outros, todos aqueles que contribuem, pouco ou muito, para que sejamos o que somos.

A gratidão coloca-nos num patamar que nos engrandece e promove saudavelmente os outros. Quem não sabe agradecer, também não sabe valorizar a história que herdou, ou a vida que floresce à sua volta.

No evangelho, a um dado momento, Jesus cura 10 leprosos. No final só regressa um para agradecer, louvando a Deus. É nesse contexto que Jesus fala da gratidão ou falta dela: «Não foram dez os que ficaram purificados? Onde estão os outros nove? 18Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, senão este estrangeiro?» (Lc 17, 17-18).
Obviamente, quando Jesus decide curá-los não está a pensar em Si mesmo, ou nos louvores que Lhe seriam retribuídos, mas tão somente quer a qualidade de vida que vai proporcionar àquelas pessoas. Mesmo que intuindo a ingratidão futura, Jesus não hesita e cura-os. Além do mais, não era um agradecimento tanto pessoal como de louvor e glorificação de Deus e pelas maravilhas operadas a favor de todo o povo.

A gratidão irmana com outra qualidade fundamental para a vivência solidária e inclusiva (de todos na sociedade que nos rodeia): a HUMILDADE. Diríamos que só uma pessoa verdadeiramente saberá da força purificadora e sublime da GRATIDÃO, pois só na humildade que nos reconhecemos como irmãos, só na humildade e gratidão reconhecemos o valor dos outros e dos seus gestos, a importância que têm na nossa vida e como nos fazem bem à saúde.

Quem não sabe agradecer não tem memória. Quem não tem memória vive ao sabor dos ventos, sem orientação, sem raízes, sem referências, sem história, sem família, de onde partir e onde regressar.

A ingratidão configura arrogância e prepotência. Aquele que se considera autosuficiente, sem necessidade de ninguém à sua volta, sabendo-se que a nossa comodidade de vida atual dependem de milhares pessoas do passado e do presente. Sem esses pessoas e o seu trabalho, engenho e arte, estaríamos na pré-história.

São conhecidas algumas expressões curiosas sobre a ingratidão: "cuspir no prato em que se come", "morder a mão daquele que nos alimenta", "pagar o amor com o desamor".

Mais uma vez, para lá da reflexão genérica, também hoje se pode adequar (e muito) à vida quotidiana e concreta.
A gratidão também se exercita.
Por vezes, tão habituados a tudo o que fazem por nós, que nem nos damos conta do quanto dependemos dos outros e o quanto estamos gratos ao seu esforço e dedicação. Agradecer a Deus a vida, o dia, as pessoas que Ele coloca cada dia à nossa beira. Seríamos selvagens se estivéssemos sós no mundo. Agradecer a quem nos faz a refeição, a quem nos abre a porta, a quem nos emprestou um lápis. O exercício da gratidão faz bem aos outros, mas também nos sabe bem.

A gratidão também nos salva.
Um obrigado/a é uma forma de reconhecer o outro, como pessoa, que existe, existe diante de mim e comigo, e o que ela fez/faz por mim constantemente. Estou-te (muito) grato/a por mais este gesto que me faz viver, me faz sentir vivo, que me lembra que o que faço também é importante, e também é importante para ti. A gratidão pode incluir aquele/a que vive para si, isoladamente.
Agradecer é reconhecer a grandeza do outro na minha vida, pois sem ele/ela não existia. Os meus pais, os meus irmãos, a pessoa que encontro ao longo do dia, o padeiro, o vendedor, o eletricista, o funcionário que me atende, aquele/a que me saúda pela tarde...

O desafio para hoje: exercitar a gratidão.
Por vezes é mais fácil pedir perdão, do que dizer obrigado/a. Diga-o muitas vezes, mesmo àquelas pessoas que têm a "obrigação" de o atender/servir. Vai-lhes valorizar o que fazem, por vezes de forma monótona e cansada, mas um obrigado e um sorriso, a acompanhar, é um lenitivo até para os mais cansados e desiludidos. E também assim educamos os que estão à nossa volta. Se não soubermos o valor de um "obrigado/a", poderemos não saber apreciar a beleza da vida que nos envolve...


16
Fev 12
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Olhar para o mundo, para as coisas e sobretudo para os outros com o olhar de Deus.
Como nos lembrava o poeta português, Fernando Pessoa, se olharmos para os outros com o olhar meigo e puro de Deus, os nossos juízos de valor e as nossas descobertas serão diferentes. Voltamos à perspetiva de ontem: encontramos nos outros o que procuramos, ou seja, o nosso olhar sobre os outros é decisivo. Não é o que ele é, mas o que eu vejo, ou como vejo. A mesma pessoa pode ser vista de maneira diferente, pela mesma pessoa em ocasiões diferentes, ou com disposições diferentes, ou ser vista de maneira diferente por duas pessoas diferentes. O nosso olhar, e tudo o que está por detrás deste nosso olhar, é que nos define quem é o outro. Pode ser criminoso e podemos conseguir ver uma pessoa humana, sensível, amável. Pode ser um santo e nós vermos nessa santidade apenas farsa, cinismo.

Precisamos de nos olhar nos olhos, olhos nos olhos, face a face, rosto que irrompe pela nossa vida, e que nos interpela, nos desafia.
Precisamos do olhar do outro para nos sentirmos gente.
Os outros precisam do nosso olhar para se sentirem gente.
Há olhares que salvam, que protegem, que envolvem, que desafiam, que promovem, que resgatam, que elevam, que nos orientam para o futuro, para Deus.
Há um pequeno vídeo que está disponível na internet sobre uma criança que chora, esperneia, porque os pais (ou algum outro familiar), o estão a ver. Logo que o seu campo de visão deixa de ver os familiares, ele cala-se, levanta-se, à procura deles. Logo que volta a vê-los deita-se ao chão e começa a fazer fitas.
Diz bem da realidade.
Precisamos de ver e de ser vistos. Ou traduzindo: precisamos de amar e ser amados e de nos sentirmos amados/olhados.

Se alguém já teve contacto com as galinhas, sucede um pouco como nas pessoas. A galinha põe o ovo, e fica a cacarejar até que o/a dono/a vai ao seu encontro e tira o ovo do galinheiro, a galinha sossega, pois viu aquele que o alimenta.

"Todos buscamos nos olhos do outro a evidência de que existimos, a certeza de que sabemos amar, de que somos capazes de relações verdadeiras, a garantia de que temos valor para alguém, de que merecemos atenção, interesse, talvez amor. Quem, pelo contrário, está sozinho é levado até a duvidar de si mesmo" (ERMES RONCHI, Os Beijos não dados. Tu és a Beleza. A amizade é a mais importante viagem. Paulinas 2012.)

No Evangelho sobressai, em muitas ocasiões, o olhar de Jesus, que acolhe, que perdoa, que desafia, que salva. Olha para a multidão, olha em redor, fita o seu olhar, deste e daquele. Olha para Pedro no momento da negação. Olhar para Judas. Pedro acolhe o olhar do Mestre e arrepende-se. Judas foge ao olhar de Jesus, não por falta de confiança no amor e no perdão do Mestre, mas por vergonha, deixa que esta seja mais forte que o olhar de Jesus.
Jesus olha para Sua Mãe, nas Bodas de Canaã e no alto da Cruz: viu a Sua Mãe e ao pé dela viu o discípulo amado.
Olha para Zaqueu e nesse olhar dá-se o encontro redentor. Zaqueu sente-se visto por Jesus e converte a sua vida.
Há olhares que matam.
Há olhares que salvam.
Há olhares que perdoam e transformam a vida.
Jesus olha para a mulher adúltera, mas também para aqueles que a queriam condenar. É um olhar de ternura, de compreensão, de redenção. Vai e não voltes a pecar.
Jesus olha para o alto, para Deus, constantemente, de onde Lhe vem a força e o alimento. E depois olha com o olhar do Pai para cada pessoa que se cruza no seu caminho. Procuremos que o nosso olhar seja purificado com o olhar de Deus, para nos reconhecermos como irmãos.

Célebre aquela página em que Jesus convida a equilibrar o nosso olhar: "Porque reparas no argueiro que está na vista do teu irmão, e não vês a trave que está na tua vista?" (Mt 7,3).

 

Faz lembrar uma pequena estória: uma vaca que só comia trevos de quatro folhas, para dar sorte. O dono procurava por todo o lado, sabendo da mania da sua vaca. Mas precisava dela para dar leite, e depois para vender por um bom preço. Pensou, pensou, pensou, pensou. Comprou uns óculos para a vaca e neles pintou um trevo de quatro folhas. A partir de então a vaca só via trevos de quatro folhas e comia regalada. Muitas vezes a realidade que nos circunda é valorizada conforme o nosso olhar, depende dos óculos que usamos. De nosso, olhar com o olhar de Deus.

Há olhares que salvam.
Há olhares que matam.
Olhar envergonhado, olhar maldoso, olhar perverso e manhoso, olhar desconfiado, olhar cínico.
Olhar de desafio e de compaixão. Olhar de ternura, da mãe para o filho e dos filhos para os pais.
Olhar apaixonado e fresco de namorados e o olhar cansado, que se desvia e esconde, de tantos relacionamentos que a falta de atenção, de diálogo e de compreensão, mortificaram.
Há olhares de sofrimento, na dor da perda e do desencanto da vida e de tantos desencontros.
Há olhares que acolhem, serenos, meigos, atentos, vigilantes, envolventes.
E há olhares gastos pelo tempo e pelas agruras da vida.
Há olhares que se escondem, como diria a Mafalda Veiga, para não ver, para não vermos o que um dia havemos de ser, e passa ao lado...
Há olhares de gratidão e olhares de traição.
Há olhares que salvam.
Há olhares que matam.
E destroem, aniquilam, escravizam, humilham.
Os olhos são o que são as almas e as pessoas. Também aqui, a parte vale pelo todo, o olhar, mas sobretudo a pessoa que olha.

Há olhares que salvam, resgatam, puxam para a realidade.
E no olhar de outro(s) me encontro, descubro, "crio" a minha identidade. Não somos ilhas. Precisamos que nos vejam e nos descubram. Precisamos de retribuir o olhar, e também dessa forma nos sentimos vivos. Somos nós, porque estamos perante os outros e perante Deus. Como seria se não houvesse mais ninguém para nos ver? Morreríamos, ou deixávamos de ser humanos.

Há olhares de perdão e de súplica (pedindo ajuda, ou pedindo perdão).
Há olhares esfomeados/famintos. Há olhares melancólicos e olhares sem vida, sem expressão.

O olhar do outro pode ser a minha casa. Relembramos o filósofo francês, E. Levinas, o rosto, onde se encontra o olhar, é essencial, o face a face, um diante do outro. Estar diante do outro, ou o outro diante de mim, em que o rosto, o olhar se torna reconhecimento, apelo, desafio. No olhar o mandamento: não matarás. O outro vem até mim. No olhar do outro posso encontrar-me no melhor que sou, ou no que em mim há de negro. O olhar do outro potencia o que eu sou e o que eu faço. Ainda, do mesmo jeito, dependa muito do meu olhar, como me deixo olhar, como vejo os outros, como me vejo a mim.

E muito mais se pode dizer do olhar.
Que o nosso seja, como o de Jesus, ou como o de Maria, um olhar que resgata, que acolhe, que observa atentamente as necessidades do outro, e que salva.


15
Fev 12
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Quem procura encontra.

Se cruzar os braços à espera que lhe cai do céu o que deseja, corre o sério risco de ver passar navios. Ou como quem diz, “fia-te na Virgem e não corras”. Neste caso, num sentido um pouco diferente daquele que queremos refletir hoje. Rezar para que Nossa Senhora acuda num teste, ou pedir para ganhar o euro milhões mas sem preencher o boletim de apostas, ou numa qualquer provação, mas sem mexer um dedo para tentar resolver.

 

«Digo-vos, pois: Pedi e ser-vos-á dado; procurai e achareis; batei e abrir-se-vos-á; porque todo aquele que pede, recebe; quem procura, encontra, e ao que bate, abrir-se-á. Qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma serpente? Ou, se lhe pedir um ovo, lhe dará um escorpião? Pois se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que lho pedem!» (Lc 11, 9-13; cf. Mt 7, 7-11).

 

Em muitas situações da vida, só se encontra o que se procura e quando se procura. Muitas vezes, e acontece-nos a todos, por preguiça, por falta de confiança (insegurança), por cansaço, desistimos mesmo antes de procurar. Situações que se revolveriam facilmente, bastava uma palavra, um gesto, um olhar, mas por medo e/ou acanhamento não se tomou a iniciativa. E tudo ficou igual. Ou piorou.

Há uma expressão muito certeira quando solicitámos algo a alguém: o não está sempre certo, vamos tentar o sim. Não temos nada a perder e podemos ganhar – sublinho que no relacionamento humano, e em situações de voluntariado, ou de afetividade, os termos perder e ganhar não são muito ajustáveis, pois não se trata de ganhar ou perder, mas de avançar partilhando e enriquecendo-se mutuamente, ou não.

 

Na reflexão de ontem falámos na direção, ou melhor, na orientação, no sentido da nossa vida. Saber para onde se caminha, para que valha a pena pôr-se a caminho. Ter alguns objetivos, metas, tarefas, por mais pequenas que sejam, para cada dia ou semana, ou mês, para que nos sintamos úteis. Num sentido similar, diríamos, que a procura precisa de ter alguns objetivos, por mais pequenos que sejam, alguma orientação.

Num sentido de fé – voltemos a ler to texto do Evangelho – a procura é antes de mais de Deus. Procurámo-l’O para o encontrar, numa busca sem fim, num encontro sempre novo. Parafraseando Santo Agostinho, procuremo-l'O até o encontrar, e depois de O encontrar, continuemos a procurá-l'O… O mistério de Deus quanto mais se desvela para nós, tanto mais se esconde. É mistério, não é segredo, pois este quando revelado deixa de o ser.

 

A expressão contudo aplica-se ao nosso dia a dia. A procura tem também o sentido do aperfeiçoamento, ou da santidade (na vida do cristão). Procuramos que a nossa vida seja melhor, tenha mais utilidade, procuramos aproveitar melhor o tempo, valorizar as pessoas que Deus coloca à nossa beira, desenvolver as nossas capacidades, fazendo render os nossos talentos e os nossos dons.

Nem sempre a vida é fácil. Também a beleza da rosa é protegida pelos espinhos. Para alguns é mais difícil, pela situação familiar, pela situação profissional, ou por alguma predisposição genética e/ou educacional. Mas a desistência só tem sentido quando se tentou, e tentou, e tentou, quando claramente não é humanamente realizável.

Damos um exemplo: não vou pôr-me a procurar ouro no areal (não sou geólogo), mas creio que a areia não é o sítio mais indicado. Posso procurar vezes sem conta, estarei a procurar onde não é humanamente possível encontrar. (A não ser que haja ouro já trabalhado e que alguém tenha perdido).

Por vezes é preciso escavar fundo da alma, para encontrarmos um sentido para situações que não compreendemos de imediato, outras vezes é necessário escavar o nosso coração para compreendermos o mal que alguém nos fez, ou para aceitarmos esta e aquela pessoa que nos prejudicaram, disseram mal de nós, puseram em causa a nossa honra. Escavar como quem procura metais preciosos, o que exige sacrifício, suor, trabalhos, e por vezes sem compensação. Mas na vida, o caminho feito conta tanto ou mais do que a meta onde se chegou. Aliás, a meta só será alcançável se se fizer ao caminho. Qual mulher grávida que suporta todo o desconforto por um bem que apagará, fará quase esquecer toda a dor, todo o sofrimento, por vezes, a antecipação do parto não faz desaparecer a dor mas justifica-a, apazigua a ansiedade. Qual Miguel Ângelo que da pedra tosca, depois de muito trabalho, suor e sacrifício, nos dava a beleza e perfeição da estátua de Moisés ou de David…

 

Outro aspeto concreto, difrente, mas ilustrativo, é quando procuramos determinada qualidade ou defeito no outro, seja uma pessoa que nos é mais próxima, seja em alguém que acabamos de conhecer, seja uma pessoa de quem gostemos ou por quem tenhamos simpatia/empatia, seja uma pessoa de quem não gostamos tanto, ou que nos provoca mal estar, sempre encontraremos. Se procuramos uma qualidade ou qualidades, facilmente encontramos. Se procurarmos um defeito ou defeitos, facilmente enontramos. Em algum momento já fizemos essa experiência, encontrarmos na pessoa o que procuramos (e não estamos a falar em nenhuma situação em particular, mas em quase todas as situações... salvem-se as excepções.

Procuremos, então, nos outro(s) e de preferência as qualidades...

 

Não cessemos de procurar… podemos até não encontrar… ou não encontrar no tempo que desejaríamos… mas valerá a pena o sonho, o caminho feito… e cada jornada só tem sentido no final se houver um início, e se houver caminhada… Aquele que perseverar será salvo… (cf. Mt 24, 13)


14
Fev 12
publicado por mpgpadre, às 19:30link do post | comentar |  O que é?

Desafio para hoje: encontrar o NORTE da minha vida.
Não a direção, mas o sentido da minha existência.
É mais fácil caminhar quando sabemos para onde vamos.
Quando não sabemos o destino, tudo se torna muito complicado, andamos às voltas, às voltas, às voltas, numa indecisão permanente.

Para se traçar uma linha (mais ou menos) direita, com o giz, num quadro preto (ou num quadro branco, com o respetivo marcador), sem uma régua, olha-se na direção, para o ponto onde a linha vai terminar... os olhos não seguem a mão, a mão e os dedos seguem para o ponto que se fixou com olhar... pode experimentar. Já experimentei. Traçando a linha, a olhar para o giz e para as mãos, lá vai oscilando, ora para cima, ora para baixo. Fixando o ponto final, a linha segue muito direita, mantendo a confiança...

Uma pequena estória:

Era uma vez um Cavalo-marinho que juntou sete libras de ouro e foi à aventura pelo mundo fora.
       Pouco depois de partir encontrou uma Enguia que lhe perguntou:
       – Eh! Pá! Onde vais?
       – Vou cm busca de aventuras – respondeu orgulhosamente o Cavalo-marinho.
       – Tens sorte – disse a Enguia – dá-me quatro libras e eu dou-te uma barbatana, de modo que chegarás muito mais depressa.
       – Obrigadinho, é esplêndido – disse o Cavalo-marinho; pagou-lhe, montou na barbatana e desapareceu com o dobro da velocidade.
       Em breve encontrou uma Esponja que lhe disse:
       – Eh! Pá! Onde vais?
       – Em busca de aventuras – replicou o Cavalo-marinho.
       – Tens sorte – disse a Esponja – por pouco dinheiro dou-te esta mota a jacto e tu viajarás muito mais depressa.
       Assim o Cavalo-marinho comprou a mota com o restante dinheiro e atravessou os mares cinco vezes mais depressa.
       Em breve encontrou um Tubarão que lhe disse:
       – Eh! Pá! Onde vais?
       – Em busca de aventuras – replicou o Cavalo-marinho.
       – Tens sorte; se tomares este atalho – disse o Tubarão apontando a sua boca aberta – pouparás imenso tempo. – Obrigadinho – disse o Cavalo-marinho e enfiou rapidamente na boca do Tubarão sendo prontamente devorado.

Certamente que o desfecho se advinha. Também nós podemos ser devorados pelo tempo, pela história, por algumas pessoas que encontramos no nosso caminho, se não soubermos para onde vamos.

É célebre a frase do célebre Séneca: "Não há ventos favoráveis para quem não sabe para onde vai" ou "Quando se navega sem destino, nenhum vento é favorável". As ondas batem de um e outro lado, o vento pode tomar várias direções, e arrastará o barco também nas mais variadas direções, até chegar a um destino incerto, ou até mesmo naufragar. Poderíamos voltar àquele ponto em que refletimos na necessidade de sermos contracorrente, se for preciso, para chegarmos onde queremos ir.

Como é que os MAGOS conseguiram encontrar Jesus, na gruta/parte baixa da casa, lá em Belém? Deixaram-se conduzir por uma Estrela. Não uma qualquer estrela, desconhecida, mas aquela Estrela luminosa... Sabiam para onde queriam ir, sabiam aonde seriam conduzidos se seguissem aquela ESTRELA. No regresso às suas vidas, voltaram por outro caminho, guiados pela LUZ que irradiou do presépio.

A fadista de Portugal, Amália Rodrigues, canta com toda a força da voz: "De que adianta correr se não sabes para onde vais?"
É que se não sabemos para onde vamos, nem sequer vale meter-nos ao caminho, porque não sabemos que caminho tomar.

Em todas as dimensões da vida, são necessárias metas, objetivos, finalidades. Vamos realizar isto ou aquilo por algum motivo, para determinado fim, para atingir este ou aquele fim.

Como cristão, o nosso NORTE há de ser, sempre, JESUS CRISTO. É por Ele que vamos, é para Ele que caminhamos. É d'Ele que partimos. É com Ele que nos fazemos à estrada.
Há que ter uma linha orientadora na nossa vida. Em último caso, e o primeiro dos grandes objetivos: a felicidade. Não como um fim final, mas saboreando-a a caminhar.
No nosso dia a dia pode ajudar-nos termos pequenos objetivos a que nos propomos cada semana, ou cada dia. Sem dramatismos. Na vida tem de haver lugar para a espontaneidade, para a surpresa, para a festa. Estas terão muito mais valor, serão mais envolventes, se o nosso dia tem algumas coisas planeadas. O melhor improviso é aquele que se prepara. É conhecida a expressão do Presidente do Conselho, para o seu secretário, pedindo-lhe o discurso: "passa-me aí o improviso".
A vida é imprevisível. Ainda assim com um NORTE que nos leva a dar sentido a tudo o que fazemos. Diríamos mesmo que para haver festa é necessário a féria, os dias comuns,...

Não deixe(s) que outros guiem a sua/tua vida. Não se/te deixe(s) arrastar pela leve aragem. Não vá(s) sempre pelo que os outros dizem, veja/vê se o que dizem se ajusta à sua/tua vida, às suas/tuas convicções profundas... na expressão popular não seja(s) "maria vai com todos"...


13
Fev 12
publicado por mpgpadre, às 19:30link do post | comentar |  O que é?

Exercício: olhar a vida a partir do fim.

Talvez não do inverso, mas a partir do fim.

É uma tarefa complexa. O futuro a Deus pertence. Podemos vislumbrar o dia de amanhã, com a incerteza, o mistério e a surpresa que é sempre o futuro, mas a nossa vida daqui a 10 anos, ou daqui a 20, 30, 40 anos, a partir da nossa morte, do nosso fim biológico/terrenos (ou mesmo a partir da eternidade de Deus) torna-se uma tarefa árdua, mas não deixa de ser um desafio provocatório.

Um dos retiros do Seminário, não sei especificar o ano, nas férias de Carnaval, na Casa de São José, em Lamego, naquela casa gélida, aquecida pelas pessoas que aí trabalhavam (e trabalham), foi orientado pelo então Pe. João Evangelista Salvador, sacerdote da Diocese de Coimbra e atualmente Bispo Auxiliar do Porto.
Quando nos testemunhava o dom da sua vocação, as dúvidas e incertezas, e o que o levou em definitivo a avançar (espero que a memória não me tenha atraiçoado, foi seguramente há mais 14 anos), terá conversado com um irmão que o convidou a ver-se no futuro e a olhar a vida desde o fim. O mesmo exercício nos foi proposto. Chegado ao fim da vida, ao olhar para trás, o que gostaria de ter sido, o que gostaria de ter feito, que escolhas teria realizado. Ver-se a partir de Deus, do Definitivo, do Eterno, olhar através dos olhos de Deus, para toda a vida passada (ainda por viver). Chegou à conclusão, vendo a partir do fim, que gostava de viver numa lógica de Infinito, as realidades últimas. Todas as escolhas humanas são dignas, cada pessoa há de seguir o caminho que mais o aproxima de Deus. Ele sentiu que a vida que mais o colocava nas realidades últimas, era a opção pelo sacerdócio ordenado.

Há um santo que, São Francisco de Borja, que acompanhou o corpo de D. Isabel de Portugal, para a sepultura real, em Granada. Sabia que a rainha era adulada por uma beleza era inigualável, mas na morte, diante do cadáver, já em decomposição, ficou chocado com algo comum a todos as pessoas: a degradação física e a fealdade da morte biológica. Decidiu "não servir nunca mais a um senhor que pudesse morrer". Viria a tornar-se santo. Aquele que viria a ser São Francisco de Borja, olhou a vida a partir do fim, neste caso, o fim terreno e mortal da Imperatriz Isabel.

Em ocasiões em que nos deparámos com a morte de alguém, ouvimos os mais variados comentário sobre o falecido que ora já não se pode defender com as mesmas armas dos vivos: "nem aproveitou...", "trabalhou como um mouro, nem gozou", "trabalhou, deixa cá tudo, a outros que nada fizeram", "tanta coisa, e no fim...", "para quê tantas chatices, se todos morremos", "de que lhe valeu todo o trabalho"... É de alguma forma a visão bíblica de Qohélet (Eclesiastes) e de Job, tudo é vão, a não ser que Deus garanta, ainda que no fim, a justiça e o futuro... Outras expressões, quando as pessoas envelhecem (pode não ser cronologicamente), são igualmente ilustrativas: "se eu soubesse...", "como estou represo... enganou-me bem, bem me avisaram mas não quis ouvir". Ou em situações de debilidade em que se reconhece a atenção dada a um ou outra pessoa, e a quem se doaram bens, mas quando a doença aperta são outros que cuidam...

A nossa vida é imprevisível. Mas este exercício pode ajudar-nos a não embarcar em euforias desmedidas nem a nos deixarmos abater perante as maiores adversidades. Tentar olhar a vida a partir do fim, olhar para nós como se tivéssemos mais 5, 20 ou 30 anos, e tentar olhar para este entretanto que medeia o hoje que vivemos, o amanhã que chegará (se Deus quiser), e os anos que aproveitámos ou desperdiçamos! Se víssemos a vida pelo fim, a partir da morte, ou como crentes, a partir da eternidade de Deus, será que valorizaríamos todas as coisas da mesma forma como o fazemos hoje? Será que dispúnhamos do tempo da mesma maneira? Olhando para trás, o que faríamos de diferente? Alguns dizem nada, como se isso fosse concretizável. Se olharmos para o passado, sem dramatismo nem falsa nostalgia, haveria sempre alguma coisa que faríamos de outro modo, ainda que em linhas gerais seguíssemos um caminho muito idêntico. Para não mudar nada no passado, teríamos que ter sido perfeitos, isto é, deuses.

Tentar colocar-nos no fim é um exercício similar a tentar colocar-nos no lugar do outro. Não é fácil. Mas devemos fazê-lo. Ajuda-nos a compreender, a aceitar as nossas limitações, como as limitações dos outros - por vezes são o espelho das minhas/nossas fraquezas.
Do mesmo modo, olhar a vida a partir da morte, ou melhor, como crentes, a partir da vida em plenitude, em Deus, levar-nos-á a relativizar quer os sucessos quer os insucessos, sabendo que a plenitude virá no fim, ainda que a devamos testemunhar desde já, ao jeito de Jesus Cristo. Para um não crente, ou descrente, em todo o caso, olhando para trás, como se estivesse no fim, como gostaria de ser recordado, ou gostaria de ser recordado?

Como me vejo daqui a 10 anos, o que terei feito da minha vida? Quais as pessoas que continuarão a ser fundamentais? Quais as pessoas que acha estarão a seu lado nos anos de vacas magras?

Não se trata de fazer futurologia, mas de olhar para o amanhã profeticamente, para viver hoje com mais intensidade (e com mais descontração - hoje estamos, amanhã só Deus sabe). No fim, poderemos rever a nossa vida toda, para trás, mas não a podemos reviver, não poderemos apagar os desvios, como não podemos festejar o bem realizado. No fim, para os cristãos, haverá tempo para a esperança e para o louvor. E a haver arrependimento pelo mal feito (feito está), ou pelas omissões, nada mais poderei fazer a não ser como desafio para outros...

Olhando a minha, a tua, a nossa vida, a partir do fim, que mudanças faríamos hoje? Colocada a questão de uma forma mais urgente: e se eu morresse hoje, amanhã, daqui a uma semana, o que valeria a pena ainda realizar?


12
Fev 12
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Família.

O Domingo, para os cristãos, como o Sábado para os judeus, é o dia do Senhor, do descanso, dia da oração comunitária, da Eucaristia, da festa, é o dia do encontro e da partilha, é o dia da família.

Os judeus, ao Sábado, iam à Sinagoga, rezar, escutar a Palavra de Deus, refletir sobre a Palavra de Deus e depois reuniam-se em família para a festa da páscoa. Em cada Sábado a comemoração semanal, em que se recordavam as maravilhas realizadas por Deus e favor do seu povo, e que eram transmitidas de geração em geração, através das famílias. A família tem um papel preponderante no mundo judaico.

O cristianismo, da mesma forma, celebra de forma solene a Páscoa cada ano, mas ao Domingo, na celebração da Eucaristia faz presente a Páscoa de Jesus. Com efeito, a Eucaristia é memorial da Paixão redentora de Jesus, sobretudo memorial da Ressurreição. Também para os cristãos o Domingo se tornou o dia da Família. Seria bom que este hábito não se perdesse, pois é uma bênção que aproxima, que fortalece, que dá vida nova, que segura, que ampara, que protege, que envia. Famílias que vivem numa dinâmica de partilha, de afeto, de encontro, de festa, estarão mais preparadas para "criarem" homens e mulheres saudáveis, com segurança e com valores para hoje e para amanha.

 

F - Felicidade, Fortalecimento, Filiação, Fraternidade, Força, Firmeza.

A - Amor, Amizade, Âncora, Agradecimento, Apoio, Amparo.

M - Mesa comum, Memória/memorial, Mensagem, Mimetismo, Música do coração.

I - Inteligência, Imaginação, Ideal, Idioma, Interior, Inspiração.

L - Ligação, Laços, Liberdade/livres, Labuta/Lavor, Louvor, Lembrança.

I - Investimento, Interpessoal, Incorporação, Iniciação, Instinto (sobrevivência)

A - Acolhimento, Alimento, Abraço/Amplexo, Ajuda, Advir, Alegria.

 

Escolhemos algumas palavras para caracterizar o acróstico FAMÍLIA. Algumas são muito próximas, mas todas elas ajudam a perceber melhor o papel e a importância da família nas nossas vidas, e na sociedade do nosso tempo.

A família permite-nos a ligação ao mundo, é ponto de apoio, de descoberto, é na família que nasce e se desenvolvem os valores e se aprende a interagir com os outros; a família é um apoio, um esteio que protege, que ampara, ajuda, apoia, é uma âncora que nos mantém à tona, que não nos deixa ir ao fundo; é na família que se comunica a vida e a história; a família é a nossa melhor inspiração, o nosso descanso, o nosso calor, a família é a nossa casa, o porto de abrigo, no nosso refúgio, a nossa barca. A família é o lugar da descoberta, da aprendizagem, da mensagem de vida, de respeito, de dignidade. É com a família que aprendemos a vida, a ler o que nos rodeia e nos tornamos livres, para voar, porque temos um poiso, temos onde regressar. A família que nos acolhe, nos ama, nos lança, nos inspira. A família continua a ser o melhor investimento e a melhor herança da sociedade. Com a família aprendemos a partilhar, a amar, a confiar; em família aprendemos a partilhar as alegrias e a condividir das tristezas. Não estamos sós. E sabermos que temos alguém a nosso lado já é força suficiente para nos soerguermos e caminharmos. Temos alguém que nos dá a mão e a quem podemos estender/dar a mão. É o nosso amparo. É ajuda e advir, sossega-nos e garante o nosso amanhã, num abraço que nos estreita, coração a coração, nos alimenta e nos alegra.

 

Não somos ilhas. O ser humano é o animal mais dependente. Se calhar por isso... Deus coloca-nos uns com os outros, para nos protegermos mutuamente... Uma pessoa sem família, sem casa, sem este lugar de conforto, é como semente e cai e cresce em terra pedregosa, entre espinhos, como diz Jesus no Evangelho, que floresce em beleza, mas sem raízes que a segurem e que a alimentem pelo tempo fora. Quando chegarem as primeiras chuvas e ventanias logo é arrancada e perde-se... ou quando chegar o sol do meio-dia e o calor, porque não tem raízes que a alimentem logo morre, seca, desaparece...

Uma pessoa sem família, sem referência, sem raízes, sem substrato, sem alimento, logo que chegam as adversidades, quebra e dificilmente se levantará, a não ser que encontrem família, apoio, um lugar de refúgio e conforto. É na família que primeiramente se equilibram os sentimentos e a própria vida.

Por outro lado, também nos momentos de bonança, a pessoa precisa da família (ou de quem a substitua). Não se faz festa sozinho, não tem sabor nem sentido. Pode haver contentamento (passageiro) mas não alegria que acalenta. Precisamos de alguém com quem apreciar as coisas boas que a vida nos proporciona, alguém com quem partilhar e em quem sabemos poder confiar os nossos medos, inseguranças, os nossos defeitos e as nossas qualidades. Na família, estamos despidos (de todo o preconceito, de todas as imagens que por vezes elaboramos para nos protegermos dos outros ou para dos outros obtermos o reconhecimento).

Precisamos uns dos outros, muito mais da família, para saborear, para mastigar os momentos belos da nossa existência, e para que nos momentos de dor de desilusão termos alguém que nos deita a mão e não nos deixa naufragar. Precisamos de alguém que seja casa para nós, que nos protege, nos ampara e nos conforta, dando-nos força para levantar. Do mesmo modo, em sentido contrário, como família nos tornamos apoio, conforto, segurança, almofada, força para os nossos irmãos, pais... A família é a nossa casa mais luxuosa. Não existe casa mais nobre do que a casa do amor, do afeto, da família.

Como cristãos, e por maioria de razão, podemos e devemos fazer da comunidade a nossa família e a nossa casa, sem descurar a família primeira, que também é a primeira igreja, a igreja doméstica. A comunidade eclesial há de ser família enquanto ajuda a crescer, protege, ampara, ensina, guia, comunica a vida, permite-nos partilhar e festejar as nossas alegrias, e amaciar, tornando oração, a nossa dor e o nosso sofrimento.

 

Nem  todos têm família, e nem todos a têm para sempre, e nem todos a têm como lugar de conforto, de beleza, de amor... mas se a temos, valorizemos cada momento. Se é nosso hábito encontrar-nos, continuemos a fazê-lo não por obrigação ou pressão, mas com alegria, em festa. Aproveitemos, é o tempo favorável. Se não temos hábitos que nos façam sentar no mesmo espaço, à volta da mesma mesa, e a partilhar, façamo-lo, quanto antes...


11
Fev 12
publicado por mpgpadre, às 19:30link do post | comentar |  O que é?

Se quiserdes que os vossos filhos comam sopa, comei vós primeiro.

Dai conselhos, mas dai sobretudo exemplo.
O nosso tempo precisa não tanto de mestres, mas de testemunhas, ou de mestres que sejam testemunhos, como propunha o Papa Paulo VI.
Mostra-me a tua fé sem obras, que eu pelas obras te mostrarei a minha fé. A fé sem obras é morta (São Tiago).

Obviamente ninguém discute a importância das palavras para a comunicação entre pessoas e entre povos. Mais do que palavras, a linguagem que nos aproxima (ou nos distancia) dos outros. A linguagem humana é bem mais rica do que as palavras, a linguagem corporal, a linguagem do amor - esta é a linguagem mais sublime, mais percetível, comum a todas as civilizações.

As palavras acompanham os gestos. Há gestos que falam por si mesmos e há gestos que são tornados explícitos pelas palavras, ou pela expressividade da linguagem humana.

O Papa Paulo VI, secundado por João Paulo II, por Bento XVI e por muito boa gente, que as palavras movem, mas os testemunhos arrastam. O nosso tempo tem necessidade de mestres, mas sobretudo tem necessidade de testemunhos, ou mestres que sejam testemunhos vivos, e que ilustrem com a vida o que propõem com palavras e ensinamentos.

Lembrava hoje, no Seminário Menor de Resende, na festa da Padroeira - Nossa Senhora de Lurdes -, o nosso Bispo, D. António Couto, que os que mais transformaram a sociedade, o mundo, foram os santos.

O primeiro exemplo que apresentamos é muito sugestivo. Claro, como em todos os exemplos, há exceções e podem desviar a atenção da mensagem. Vejamos: a sopa faz parte da dieta portuguesa, e é considerada essencial para a saúde. Assim, os pais habituam/obrigam os filhos a comer a sopa até mesmo contra vontade sabendo que lhes faz bem. Mas não a comem... já crescemos, já não precisamos... e há filhos que fazem um sacrifício do outro mundo e, a acrescentar a isso, vão percebendo que o que lhes dão não serve para os pais, e nem tampouco para o filhos mais velhos se eles existem. E veja-se como as mães e os pais, quando estão a alimentar os filhos e eles se recusam a comer, o que fazem?, metem uma colherada à própria boca, expressando grande satisfação. E o que é certo, muitas vezes resulta. Claro que há pais que não comem e não gostam de sopa, e filhos que quase só querem a sopa; e há pais que gostam muito de sopa, e não a dispensam, e filhos que só à força conseguem engolir algumas colheradas.

Deixemos o exemplo e voltemo-nos para a vida. Os exemplos arrastam, são mais ilustrativos, percebemo-los melhor e mais facilmente, são mais eloquentes, envolvem-nos, guiam-nos. Somos miméticos. Desde cedo imitamos sobretudo o que vemos, os gestos, o timbre a voz - como é fácil confundir dois irmãos, ou pai e filho ou mãe e filha, quando os ouvimos ao telefone. Facilmente confundimos. O timbre e a inflexão da voz são muitos próximos. Ah, e como os filhos ou os mais novos, facilmente aprende às palavras dos pais, dos mais velhos, mesmo aquelas palavras e expressões que não eram para aprender...

Sabendo das nossas fragilidades, não cessemos de procurar a coerência de vida, o caminho da santidade, aspirando à perfeição, passando progressivamente do possível ao ideal, pelo menos, ao alcançável. Ilustremos as nossas palavras e os nossos ensinamentos, com a nossa vida, com as nossas vivências. Numa aula de Educação Física, o professor procura mostrar como se faz um exercício novo, mas antes de pôr os alunos a realizá-lo faz ele, ou pede a um aluno mais "flexível" para fazer o exercício e assim mais facilmente se ensina, ilustrando... fazendo primeiro, vivendo...

É assim que Jesus ensina os seus discípulos. Vão e veem, escutam, olham, caminham com Ele, acompanham-n'O, observam os seus gestos, a sua postura. Por sua vez, Jesus ensina com autoridade, exemplificando com o acolhimento, compreensão, perdão, amor, cura, chamamento, envio...
Somos discípulos... até ao fim dos nossos dias... estamos sempre a aprender, e a errar, e a caminhar... mas lembremo-nos que no nosso relacionamento com os demais o essencial não é comunicar mensagens, mas comunicarmo-nos,...


10
Fev 12
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OUVIR, FALAR, AMAR.

A Compreensão é a única força de mudança.

Hoje partimos do título de um livro da conhecida jornalista e escritora Laurinda Alves, à conversa com o Pe. Alberto Brito, sacerdote jesuíta (sj), edição da Oficina do Livro. É um dos livros que recomendámos nas nossas notas do facebook.

A Laurinda Alves não precisa de apresentação, mas para quem desconhece pode sempre consultar o seu blogue pessoal: Laurinda Alves - A Substância da Vida.

O Pe. Alberto Brito orientou - esta é uma nota mais pessoal -, o nosso retiro de diaconal e sacerdotal. Melhor dizendo, em Agosto de 1998, eu, e os colegas padres, António José Ferreira, Leontino Alves, e José Manuel Correia, realizamos o retiro de preparação para "recebermos" os sacramentos da Ordem, eu de Diácono e eles de Presbítero, ainda que os 4 sejamos do mesmo curso de Seminário, mas por opção adiei um pouco mais...
Lembro-me perfeitamente de uma das conversas finais, na casa dos Jesuítas em Braga, com o Pe. Alberto. Disse-lhe claramente, e no que dizia respeito a avançar para o sacerdócio, que não tinha tirados dúvidas, pelo contrário, levava/trazia mais dúvidas, mais questões. Ao que ele respondeu - corresponde a respostas dadas também no livro/entrevista com Laurinda Alves -, que não tinha mal, por que as dúvidas me acompanhariam ao longo de toda a vida e que era benéfico quando as pessoas se interrogam, mesmo que não tenham respostas para tudo. Mas mesmo que as dúvidas persistam, a maturidade levar-nos-á a tomar uma opção. Sem medo.

Deixemos esta perspetiva mais pessoal (mas se calhar foi uma das razões que mais rapidamente me levaram a decidir comprar o livro, embora seja leitor da Laurinda Alves), para nos fixarmos nestas três palavras, ou três realidades importantes na nossa vida.

Ouvir/escutar, "porque ouvir os outros é a maior escola da vida". Escutar com o coração, prestar atenção não apenas ao que a pessoa diz e à sua história de vida, mas à pessoa em si mesma. Diz o Pe. Alberto que se nos fixarmos apenas nas histórias das pessoas e não nas pessoas, ficamo-nos pela fofoquice. Ficar-nos-íamos pelo ouvir, como se estivéssemos a ouvir um rádio e não uma pessoa concreta.

Falar. É assim que a comunicação acontece, é "a comunicar e a dialogar que nos entendemos e que se constroem relações". Temos uma boca e duas orelhas/ouvidos. Escutámos com interesse, a história da pessoa, mas sobretudo escutar com atenção o que a pessoa é, o que a pessoa sente, o que a pessoa vive, ouvindo o seu grito, o seu desabafo, acolhendo a sua partilha. Pode não ser fácil... queremos falar mais que escutar... queremos que alguém nos escute, nos compreenda, que por vezes esgotámos o tempo com as nossas palavras e não escutámos a pessoa que está diante de nós, como apelo e desafio. Quem não ouve, ou não quer ouvir, corre o sério risco de ficar a falar sozinho.

Amar, "porque é a partir da aceitação de nós próprios e dos outros que tudo é possível". Escutámos a pessoa, comunicamo-nos como irmãos, para acolhermos e aceitarmos os outros, aceitando-nos também a nós como pessoas, cidadãos, filhos de Deus. Como diz o Pe. Alberto, o que nos separa e divide não são as ideias ou as crenças, mas os sentimentos. O maior desejo do ser humano, de todo o ser humano, é amar e ser amado. E o maior medo é ser rejeitado pelo(s) outro(s). A escuta e a comunicação visam aproximar-nos dos outros, com amor, com paixão, celebrando a vida.

Enquadra-se aqui outra realidade: a compreensão. "As pessoas quando se sentem compreendidas, mudam". É o que pode resultar da escuta que ama, das palavras que se tornam comunicação amistosa, dos sentimentos que se partilham e se acolhem.

Seja/sê ouvinte (escutador não tanto de estórias, mas das pessoas que estão perto de ti); fala do que te vai na alma; confia, estimulando os outros à confiança, a libertarem-se do medo; ama, com toda a tua alma, faz do(s) outro(s) a tua casa, o teu refúgio, tendo sempre como horizonte originário e final o Senhor Deus.


09
Fev 12
publicado por mpgpadre, às 19:30link do post | comentar |  O que é?

"De joelhos diante de Deus, de pé diante dos homens".

Esta é uma expressão de D. António Ferreira Gomes, Bispo do Porto, durante o Estado Novo, e que foi exilado por posições públicas e contrárias à corrente dominante. A expressão foi colocada no Seminário de Vilar, Diocese do Porto.

Esta expressão fala de algo de muito importante que já trouxemos aqui. Só Deus é Deus e só Deus há de ser tratado como tal. Os homens, da mesma carne, do mesmo sangue, da mesma natureza, hão de ser tratados como homens. Com a mesma dignidade, como iguais. Por baixo da pele somos todos mais iguais. Não há lugar para a idolatria, considerando que alguém é mais. Na QUINTA, os animais são todos iguais, mas como dizem os porcos, uns mais iguais que outros.
Nessa fábula, sobrevém a vivência concreta, em que a proclamação da liberdade, da igualdade e da fraternidade, não corresponde depois a uma prática quotidiana e universalizada. Todos iguais, mas uns têm mais privilégios, mais regalias, uns são filhos e outros enteados, uns protegidos e outros escorraçados.

Talvez D. António se referisse a algo mais concreto, como por exemplo as pessoas não se subjugarem ao poder instalado do Estado Novo, mas só a Deus subjugariam a própria vontade, pois só Ele é digno de adoração.

Em todo o caso, a expressão é muito mais rica do que uma apropriação história (ainda que justificável). Cada pessoa é imagem e semelhança de Deus, é rosto de Jesus Cristo. Há de ser tratada com dignidade, com respeito. Daí também a insistência na defesa da vida desde a sua concepção até à sua morte natural. Só Deus é o Senhor da vida e da Morte, do Tempo e da História. Subjugar o outro aos meus caprichos, é diabólico. Destrói, conduz à morte. Sempre que alguém, ou alguma ideologia, assumiu o papel de Deus, aconteceram desgraças, destruição e violência em massa.

O outro é irredutível a mim. É totalmente outro. É imagem, rosto do OUTRO (divino). Não pode ser enSImesmado, isto é, não pode ser reduzido ao MESMO, porque é outro, não se dilui em mim. O rosto do outro tem inscrito em si o mandamento: NÃO MATARÁS. O filósofo francês Emmanuel Levinas é categórico e inequívoco. O outro irrompe na minha vida como um apelo, como desafio, como provocação. Não se reduz a mim... é outro.

Num ambiente cristão, por maioria de razão. O outro é lugar tenente de Deus. Amar a Deus e ao próximo como a si mesmo. É o primeiro e o segundo mandamento. Não são separáveis. Valemos mais que todos os passarinhos que Deus abriga e protege. Amar a Deus implica amor ao nosso semelhante. Implica, como lembra Immanuel Kant, outro filósofo, tratar o outro sempre como um fim, e nunca como meio, como instrumento.
Obviamente, como havemos de aprofundar, colocar-nos de joelhos numa atitude de serviço e de dedicação ao nosso semelhante não é recusar ou viver indignamente, mas é uma outra forma, a de Jesus Cristo, de viver a caridade na sua plenitude, de quem se predispõe a dar a vida pelo outro, estendendo as mãos, dando a outra face. Mas uma perspetiva não anula a outra.

Hoje o desafio é tratar a todos sem fazer aceção, ainda que saibamos que na prática nem sempre é fácil, uma vez que a nossa afinidade não é por todos igualmente. Por outro lado, tratar a todos por igual não significa tratar a todos do mesmo modo. Ou seja, para promover a igualdade é necessário tratar cada um o melhor possível, respeitando-o como pessoa, na sua individualidade, na sua identidade própria.
Quando tratamos todos da mesma forma, corremos o risco da indiferença, da generalização, da impessoalidade, as pessoas deixam de ter rosto para nós, são todas iguais, no bem e no mal. É um fato igual para todos. Deus ama-nos como somos, chama-nos pelo nome, ama-nos com os nossos defeitos e com as nossas qualidades. Como cristãos, propunhamo-nos acolher cada pessoa com as suas necessidades e com as suas características, no compromisso pelo bem, no caminho da santidade.

Sublinhe-se, no entanto, tratar cada um como pessoa, ser único e irrepetível, mas com igual dignidade. Todos somos filhos, irmãos em Jesus Cristo, ou irmãos na mesma humanidade. Igualdade de oportunidades, no justo respeito pela identidade de cada pessoa, ou cada grupo de pessoas.
Nem sempre será fácil o justo equilíbrio... não deixemos de tentar!


08
Fev 12
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Curiosidade «» dúvida «» humildade «» confiança «» sabedoria.

A humildade coloca-nos na rota de Deus e dos outros, abre a nossa mente, o nosso coração, a nossa vida, às qualidades, dons e sabedoria que nos chega através dos outros, do mundo, das experiências, inspirações, dos conselhos, da sabedoria popular, da leitura, do encontro com pessoas, da vivência partilhada da existência.
Mas com a humildade relacionam-se outras propriedades que são importantíssimas para cresceremos como pessoas, cidadãos, crentes, procurando que a sabedoria ilumine as nossas escolhas, projetos, os nossos sonhos, e nos faça acolher o inevitável e transformar o que está ao nosso alcance.
Sábio não é o que sabe tudo, o que sabe mais coisas. Sábio é aquele que está sempre disponível para aprender, para acolher, para amar, para ser amado, para ser instrumento de ligação aos outros, ao mundo e a Deus. Sábio não é o que tem um curso superior, ou tem muitos contactos, que tem um canudo, ou viajou pelo mundo inteiro. Sábio é o que quer escutar os outros, quer compreender o mundo à sua volta, que dispõe a sua vida para acolher o mistério que vem do alto, que vem de Deus. Sábio é o que reconhece os seus erros e ainda assim caminha. É o que não desiste, mesmo que por vezes tenha que recuar, recomeçar, voltar a tentar. Sábio é aquele que reconhece que está a caminhar, que ainda não chegou à meta, que ainda está longe. Sábio é aquele que se dispõe a servir a Verdade. Sábio não é o que não peca. Sábio é o que está disponível para acolher o perdão.
Sábio é o que se deixa encantar com as pequenas coisas da vida, momentos sublimes do nascer ou do por do sol, o sorriso de uma criança ou os malabarismos de um gato. Sábio não é aquela pessoa séria, sisuda, que dita sentenças. Sábio é aquele que sabe rir de si mesmo, e sorrir diante dos seus disparates, e que procura estar atento a tudo o que o rodeia.
Sábio não é o que atingiu um grau de conhecimento superior, ou está moralmente acima de qualquer suspeita. Sábio é aquele que cultiva a arte da dúvida, da curiosidade, da interrogação, que está sempre em busca, procurando aprender com tudo e com todas as situações.
O sábio não e aquele que não muda porque atingiu a perfeição. Embora um provérbio chinês diga que só não mudam os sábios e os estúpidos. Coloquemo-nos entre uns e outros, a caminho... Sábio é, antes, aquele que procura aperfeiçoar todos os aspetos da sua vida e mantém aberta a mente para acolher situações novas e poder contribuir para a transformação do mundo.

A curiosidade na criança é o ponto de partida para aprender, para descobrir, para compreender o mundo que a rodeia. Sem curiosidade não haveria conhecimento, muito menos haveria sabedoria.
Sublinhe-se de novo que o sábio não é o que não tem dúvidas, mas aquele que vive nas dúvidas, procurando ser feliz e contribuir para a felicidade dos outros, fazendo a ponto. A dúvida é específica do ser humano. Somos ser inacabados, Mas que beleza, como somos inacabados temos a oportunidade de crescer sempre mais, até ao Infinito, até à eternidade de Deus.
Sábio não é aquele que tem respostas para tudo, mas aquele que questiona (quase) tudo, que se interroga constantemente e ao mundo que o rodeia.
Sábio não é aquele que tem todas as certezas, mas aquele que não se deixa abater pelas dúvidas e incertezas e procura acertar o seu caminho, para o sábio cristão, procura acertar o seu caminho pelo de Jesus Cristo.

Maria interroga o Anjo quando este lhe anuncia que vai ser Mãe do Filho de Deus: "Como será isto se não conheço homem?"
A interrogação faz parte da procura, da escuta, do nosso peregrinar.

A humildade trabalha lado a lado com a sabedoria. A arrogância e a sobranceria, o orgulho individualista, o egoísmo levam à morte, à destruição, à solidão. A sabedoria não afasta, não isola. O sábio não é aquele que se fecha no seu casulo, como se estivesse num patamar superior, imperturbável. Sábio é aquele e aquela vive com os outros, procura os outros, procura superar as suas dúvidas, procura amar, deixa-se amar, procura a beleza, a alegria, e sabe que a sua fragilidade é um ponto de contacto com a humanidade e não um estorvo.

"Só sei que nada sei... e quanto mais sei, mais sei que nada sei". É o ponto de partida do sábio grego Sócrates. É o ponto de partida de Descartes. Há de ser esta a nossa sabedoria, quanto mais caminhamos mais a certeza que estamos distantes da perfeição, da santidade, da sabedoria. Isso não nos desanima. Pelo contrário, é sinal de jovialidade, ainda há caminho a fazer na nossa vida.

Mais tarde ou mais cedo, a curiosidade leva-nos à interrogação, a dúvida leva à humildade, esta à abertura ao outros, à aceitação dos dons do outro, leva a uma atitude de confiança, de despojamento, de entrega, de acolhimento.

Não tenhamos medo da dúvida. Não receemos que a humildade nos possa despojar da nossa identidade. Não cessemos de buscar - peregrinos da verdade... Podemos ser sábios, não por sermos melhores que os outros, ou termos mais conhecimentos práticos ou científicos, podemos ser sábios quando a nossa alma se despoja de preconceitos e se abre aos outros, pronta para a amar e acolher o amor dos outros e do Outro (Totalmente Outro »» Totalmente Próximo)


07
Fev 12
publicado por mpgpadre, às 19:30link do post | comentar |  O que é?

Descomplique / Simplifique / Descomprima / Alivie

Nem sempre é fácil olharmos para a nossa existência quotidiana com serenidade, ponderação, de forma descontraída. Por vezes é preciso demasiado pouco para alterarmos a cor com que vemos os outros e o mundo que nos rodeia. Basta uma leve irritação para que tudo se torne diferente, pesado, feio, mau, irritante, provocador.

Augusto Cury fala nos primeiros 30 segundos em que tudo se decide. Um leve toque. Uma picada ligeira que mexe com o nosso cérebro, com o nosso sistema nervoso, uma insinuação, uma palavra, um gesto fora de tempo, um clique, e a nossa mente dispara. E se dispara torna-se muito difícil corrigir a trajetória. Daí que os primeiros segundos de uma altercação sejam essenciais, para manter a calma ou para perder a paciência.

 

Obviamente, nem todas as pessoas são iguais. Cada pessoa é única e tem reações diferentes às mesmas provocações. No entanto, o clique que vai despoletar uma alteração, se não se resguardar a mente, embora diferente, há clique para todos. O importante é tentar não responder de imediato, em 30 segundos, para que o clique que espicaça a nossa mente possa ser redirecionado, assimilado, compreendido. Por vezes reagimos quase por reflexo.
Augusto Cury conta uma pequena história. Num tribunal, perante um júri, o advogado de defesa, para defender o seu cliente e justificar que por vezes uma palavra, ou um estalo, podem desencadear uma guerra violenta e mortífera, pega um copo com água, e sem ninguém (quase) dar por isso, zás, atira a água para a cara do Juiz... o que acontece... de imediato o Juiz irritado se põe a discutir com o advogado, ameaçando expulsá-lo do tribunal e da própria Ordem... O ponto de vista do advogado: se um copo de água arremessado contra alguém provoca tamanha irritação, quanto mais...

Sabendo isto, podemos ver que muitas vezes reagimos de imediato ainda antes de  compreendermos o verdadeiro motivo, as razões, ou nos irritamos com alguém logo que abre a boca... mas aquela palavra, aquele gesto, aquela frase, já as conhecemos e o nosso cérebro melhor, aquece rapidamente, reage instintivamente, defende-se, fecha-se logo... Somos admiráveis. Deus criou-nos admiravelmente.

Pensemos num outro exemplo.
Sublinhamos de novo que cada pessoa é ela mesma um mistério, única e irrepetível, um milagre de Deus (ou da natureza, do ocaso!). E por outro lado, nem tudo é linear, pode dar-se numas pessoas e outras não. A vida não é branca ou preta, é um conjunto de mil cores, colorida pelas mãos de Deus.

Imaginemos que a nossa vida é um novelo de lã. Um fio que nos conduz de uma ponta a outra. Para nós crentes, é um fio que nos traz do Céu à terra, de Deus à história, pela criação, e que nos faz regressar de novo ao Céu, como a água que cai e não volta sem ter produzido fruto. Estamos ligados.
Por um lado, o fio de lã que é a nossa vida entrelaça-se com outros fios de lã que são as vidas das muitas pessoas que se cruzam connosco, ou que direta ou indiretamente têm a ver connosco.

 

Por outro lado, no feminino e no masculino, salvando a identidade e a irrepetibilidade de cada pessoa, também aqui as diferenças e características masculinas e femininas... o homem é quase sempre apenas um fio que se desprende de cada vez, dois ou três fios que se desprendem do novelo já é muito para um cérebro masculino; para a mulher, podem desprender-se vários fios, ao mesmo tempo, que consegue dar conta do recado tal é a riqueza da sua mente.
Mas à parte estas diferenças, que podem ajudar a compreender melhor a mente humana, na sua masculinidade e na sua feminilidade, sabendo que todos temos as duas dimensões. Na mulher acentua-se o feminino. No homem, o masculino. Mas cada um de nós, em diferentes situações, pode acentuar mais o masculino ou o feminino que nos caracteriza...

 

Se há vários fios entrelaçados, os nossos (para já não falar nos fios que entrelaçamos com todos aqueles com quem nos cruzamos), podemos chegar a uma altura que nos desorientamos completamente. Para uns e outros, homens e mulheres, importa pegar num fio condutor, ver de onde parte e para onde vai, onde passa e o que está a impedir que se desenvencilhe. Elas, talvez consigam pegar em vários fios e testá-los. Em certas situações é um emaranhado tal que nenhum homem é capaz de compreender, é uma riqueza muito grande para um homem só. Para eles, um problema é um problema, mas também se pode diabolizar de tal forma que pareça muitos fios, muitos problemas, muito difícil de perceber-se...

Descomplique, descontraia, simplifique. Lembre-se, por vezes a árvore - um problema que se agiganta - pode esconder toda a beleza da floresta, pode esconder a riqueza da outra pessoa.
Os pássaros voam porque não complicam. Também temos asas, mas por vezes a amargura da vida, as desilusões, os fracassos, os tropeços, podem impedir-nos de voar, de ver mais longe.
Que o fio da nossa vida nos ligue aos outros. Que o fio da nossa vida nos ligue a Deus. Se todos nos ligarmos a Deus, estaremos ligados entre nós. Seja feliz.


06
Fev 12
publicado por mpgpadre, às 19:30link do post | comentar |  O que é?

Faça das suas mãos uma casa de bênção.
Diferentemente da maioria dos animais, as nossas mãos estão disponíveis para se mexerem, agitarem. Temo-nos de pé, com os pés, as mãos estão livres.

As mãos, para lá de todas as nossas necessidades diárias e afazeres quotidianos, servem para muitas outras coisas, servem o bem e são escravas do mal. Conforme o uso que fazemos delas.

As mãos podem servir para acusar, para apontar culpados, para denunciar, para expor, para prender/aprisionar, para violar, para agredir, para afastar, para empurrar, para separar (aqui também numa perspetiva positiva), servem para conflituar, nos gestos obscenos e nos gestos de raiva, de irritação, de ódio, as mãos servem para roubar, para matar, para esconder, servem para a guerra, servem para diabolizar. Fechadas as mãos, podem servir para isolar, para se fechar ao outro, para guardar os dons para si. Fechadas as mãos, podem erguer-se para agredir, esbofetear, para "ajudar" a agredir alguém. As mãos, quando se fecham, como que a apertar a areia, deixam de sorver/promover a vida. Mas como a areia por entre os dedos das mãos, assim a vida se perde, se as mãos se apertarem sobre si mesmas...

Claro, quando falamos das mãos, falamos da pessoa como um todo, na sua atitude, na sua forma de agir. Não é a mão que se fecha para não dar, ou que se abre para agredir, é a pessoa que se fecha ou que se disponibiliza para a partilha solidária.

Ontem, o Evangelho mostrava Jesus em casa de Pedro e de André. A sogra de Pedro estava acamada, com febre. Jesus foi até Ele, tomou-a pela mão e levantou-a...

As mãos servem para proteger, para abençoar, para suplicar, pedindo ajuda ao outro, ou rezar a Deus, as mãos servem para trabalhar, para saudar, para unir, entrelaçar, para firmar acordos de paz, para separar (nas brigas), servem para tocar, transmitindo afeição, para acarinhar, acariciar, as mãos servem para bendizer/benzer, servem para conduzir, para guiar o outro. As mãos servem para proteger, para dar/transmitir segurança - o filho agarra-se à mãe, pede colo ou pede a mão. As mãos servem para amparar - o pai ou a mãe que ora se apoiam no filho a quem de novo estendem a mão. As mãos podem dar esmola e perdão, podem abrir a casa e o coração. As mãos estendidas para o outro, acolhendo-o, protegendo-o, avisando-o, orientando-o. Ou estendidas, esperando o outro que irrompe na minha casa, na minha vida, que eu espero, que vem salvar-me.
As mãos estendidas na CRUZ, num abraço que tem o tamanho da humanidade inteira, tem o cumprimento da eternidade. As mãos que abraçam, que se enlaçam, as mãos oferecidas em sacrifício, em louvor. As mãos de Jesus Cristo, cravadas que ora deitam sangue, ora deixam passar a LUZ.

 

As mãos servem para fazer o bem. Para partir (o pão) e repartir, para partilhar, para invocar, para ungir, para agarrar, desviar, dos abismos, as mãos servem para apoiar o outro e nos apoiarmos nos outros. Servem para amparar a queda.As mãos servem para beber água e para dar água a quem tem sede. As mãos servem para "sacramentar", são instrumento de salvação, servem para transmitir, comunicar calor. As mãos servem para nos tornarmos irmãos.

 

As mãos são como a casa. A casa é o lugar onde nos sentimos nós próprios, acolhidos, amados, descontraídos, protegidos, contra as agruras do tempo e da vida, das pessoas e da natureza. A casa está sobre nós, como duas mão que se erguem para rezar, ou que se impõem sobre as nossas cabeças.
Faça com que as suas/tuas mãos sejam uma casa, que abençoem, protejam, unam, construam, firmem a paz, deem segurança, ajudem a erguer, a descansar, a curar.
Jesus tomou-a pela mão (a sogra de Simão Pedro), levantou-a, e ela sentindo as forças a voltar, começou a servi-los. As mãos sejam para servir, para geraram laços de ternura e de vida.


05
Fev 12
publicado por mpgpadre, às 13:15link do post | comentar |  O que é?

Transparece nas tuas mãos, no teu olhar, no teu rosto o PEDACINHO DE DEUS que há em ti, em mim, em cada um de nós. A nossa origem, o nosso sustentáculo, o nosso fim: DEUS.
Propomos para hoje, Domingo, esta canção: Pedacinho de Deus.

Se sentes dentro de ti a vontade de amar
em gestos que criem fontes, a audácia de sonhar
mais longínquos horizontes e o apelo a escalar
cada vez mais altos montes,
cada vez mais altos montes,
então…

Tens em ti um pedacinho de Deus,
tens rumos certos no coração.
Desperta o sonho: tens em ti os céus,
liberta a vida da palma da mão.
Faz desses rumos os caminhos teus:
de Jesus recebeste, de Jesus recebeste.
O quê? Esta missão.

Se sentes dentro de ti sempre a sede de gritar
o nome da liberdade, a coragem de falar
a palavra da verdade e a servir participar
na construção da cidade,
na construção da cidade,
então…

Se sentes dentro de ti o silêncio inspirar
a paz ao teu coração chamando-te a enfrentar
a vida com decisão e teimas acreditar
na esperança de um mundo bom,
na esperança de um mundo bom,
então…

Segue-se a interpretação, com diaporama, preparado para EMRC. Bom DOMINGO.


04
Fev 12
publicado por mpgpadre, às 19:30link do post | comentar |  O que é?

Viver no tempo, com o olhar voltado para a eternidade. Cidadãos do mundo, cidadãos do Céu.
Inseridos na história, comprometidos com pessoas concretas, de carne e osso, e na transformação doo mundo, que começa pela própria casa, fazendo com que os pequenos gestos sejam marcas do Infinito. Só na Transcendência, e no transcender-nos, é possível que o sonho comande a vida, que o horizonte nos abra para o futuro, e na confiança nos devolva a beleza e o entusiasmo para viver com alegria.
Inspiremo-nos sábias palavras propostas para este Domingo (mais à frente, Job mostrará que tudo é vão, a não ser que seja feito em Deus): "Job tomou a palavra dizendo: Os meus dias passam mais velozes que uma lançadeira de tear e desvanecem-se sem esperança. – Recordai-Vos que a minha vida não passa de um sopro e que os meus olhos nunca mais verão a felicidade".
Se tudo se reduzir a 50/70/90 anos de existência, pouco mais ou menos, então a nossa vida é uma trágico-comédia, divida em alegrias e tristezas, passageiras, efémeras, como o orvalho da manhã que logo desaparece, sem deixar vestígios.

Crente é aquele que se abre ao mistério. A vida não se resume à materialidade, à dimensão biológica. O homem ultrapassa infinitamente o homem (Blaise Pascal), está inscrito nos seus genes, aspirar sempre mais, até ao Infinito. Deus criou-nos por amor, atrai-nos constantemente. Quando nos esquecemos da nossa identidade, da nossa origem, envia profetas, pessoas inspiradoras, envia o Seu próprio Filho.
Aspiremos às coisas do alto. É da eternidade que Deus nos busca. Vem. Desce. Habita-nos. Encarna. Faz-Se história. Faz-Se tempo. Vive no meio de nós. É Deus connosco. Percorre, em Jesus Cristo, os dramas e os sonhos da (nossa) humanidade. Carrega a cruz do nosso sofrimento, não por ter muitas forças, mas por transbordar de Amor. Amar é a força maior. Quem ama vai mais longe. Quem ama carrega todas as cruzes, todo o sofrimento, até ultrapassar. Quem ama dá a vida, predispõe-se a oferecer a vida pelo outro, pelo filho, pelo irmão, pela mãe e pelo pai, pela humanidade.

O nosso desejo, sermos mais, vivermos mais, vivermos melhor, é o caminho da santidade. Aperfeiçoar-nos, não para sermos melhores que os outros, mas nos tornamos aquilo que somos, imagem e semelhança de Deus. Para sermos felizes. Quando nos dispersamos, confundimo-nos, desorientamo-nos. Não sabemos para onde ir. Não nos reconhecemos. Não sabemos por que estamos aqui. Não sabemos por que estamos e outros não. Na dispersão, diabolizamos, tornamo-nos estorvo, pedra de tropeço uns para os outros.

A vida é efémera. Avança. Rápida. Veloz. À velocidade da luz. Estamos, e logo já não estamos. Amanhece e logo nos tornamos demasiados velhos, pesados, já não voamos, já não sonhamos, já não nos resta nem vida nem esperança.
A vida é como um sopro. Se ela acaba na morte, é demasiado curta, inócua, vazia, perde-se toda a esperança, tudo o que fomos, o que somos não tem saída, não tem horizonte, abertura. A nossa vida e identidade dispersam pelo cosmos como poeira insignificante. Não ficará qualquer registo da nossa passagem pelo mundo, a não ser poeira entre poeira. Não se trata aqui de nos reconhecermos na nossa fragilidade humana que se abre aos outros e a Deus. Sabermo-nos pó e, nesta humildade, abrir-nos a Deus e ao próximo é redentor, pois estamos ligados a todo o Universo criado. Aqui, pelo contrário, trata-se de encerrar a nossa existência apenas no material, no que se desfaz como pó, como terra, que se corrompe pelo tempo e de que não restará senão a memória de outros que queiram preservar-nos.

A vida é história que nos compromete. Se na nossa fragilidade encontrarmos o Deus da vida, a esperança recoloca-nos na eternidade, o nosso fim é o Céu, e então a duração da nossa existência medir-se-á pela intensidade com que vivemos, pelo amor, pela paixão, pelo sonho, pela beleza. Enlevados para o alto, para o encontro de Deus na história. Podemos alcançar Deus, melhor, podemos deixar-nos alcançar por Deus na história deste tempo, na nossa vida quotidiana.
Viva/vive a tua vida, sabendo que é passageira, mas que se abre infinitamente em Deus. Dá qualidade ao tempo presente, na relação com os outros, os da tua casa e os da tua vizinhança, antecipando e vivendo a eternidade de Deus.

(reflexão feita a partir da nossa Reflexão Dominical.


02
Fev 12
publicado por mpgpadre, às 19:30link do post | comentar |  O que é?
Por baixo da pele, pulsa a mesma vida, sangue, nervos, carne, energia, células,...
Não somos apenas um conjunto biológico, material, que sobrevive e vive na saúde dos seus órgãos vitais - ainda que a fragilidade dos mesmos possa pregar-nos algumas partidas e nos lembre que não somos eternos, e nos recorde que o desejo inscrito no coração seja a vida, a preservação da vida, a plenitude da vida ou vida em abundância.
A nossa identidade, como pessoas e/ou como crentes, ultrapassa o que o nosso corpo pode mostrar na sua beleza e na sua fragilidade, na sua robustez e na sua caducidade.
Somos mais do que aquilo que comemos. Somos muito mais do que aquilo que possuímos. Somos muito mais do que aquilo que vestimos. Somos bem mais do que o pecado que nos aprisiona. Somos mais do que as nossas limitações que nos afastam de Deus e dos outros. Somos muito mais, porque Deus nos ama como filhos. Somos muito mais porque trazemos em nós o ensejo do Infinito, trazemos inscrito no nosso peito a busca da eternidade, a busca de Deus.
Antes de nos criar, Deus colocou no nosso coração o seu Espírito que nos atrai, que nos faz querer ser mais, pular, saltar, procurar a felicidade.
O drama: o desejo que transborda em nós, de vida e felicidade, nem sempre nos leva onde nos encontramos com Deus. Muitas vezes a nossa vida diaboliza-se por que O buscamos onde Ele não se encontra.
Ele quis que O encontrássemos no lugar mais recôndito de nós mesmos: o nosso íntimo, o nosso coração, a nossa alma. Do mesmo jeito, nos outros podemos vislumbrar o olhar de Deus. A dupla missão do cristão, do crente, é deixar transparecer em si o rosto de Deus, o rosto de Jesus, e procurar descortinar a beleza de Deus no olhar das pessoas que Ele colocou à nossa beira, a família, os amigos, os membros da nossa comunidade, os/as que encontramos no trabalho, nos caminhos da nossa existência e do nosso tempo, nos lugares de lazer e nos lugares de encontro e oração.
Por baixo da pele, somos mais iguais. Somos da mesma carne, pulsa em nós a mesma vida. Para o crente, a vida que Deus nos dá. Para o descrente (ou não crente), pulsa a vida que liga à humanidade, à história, ao tempo e ao universo.
Por baixo da pele, não somos assim tão diferentes do que aquilo que a aparência da nossa pele, do nosso vestuário ou da nossa riqueza material, da nossa ideologia ou partido, ou da nossa fé, poderá mostrar.
Somos mais iguais, quando a pele do nosso corpo se levanta, quando enruga com o passar dos anos, quando oculta o que vai no nosso interior, pois por fora está luzidia e por dentro pode esconder-se já a debilidade, ou quando nos expõe os sofrimentos que nos destroçam e que também nos irmanam, o sofrimento e a doença não escolhem nem idades, nem pessoas, nem crentes ou ateus, ricos ou pobres. Também aqui somos mais iguais.
Da próxima vez que passar por alguém lembre-se de olhar para esse/essa alguém em que está Deus (se for crente), ou alguém com a mesma garra de viver, mas também as mesmas inseguranças, ainda que possam estar disfarçadas pela presença jovial.
Somos mais iguais, do que por vezes queremos ser, apesar das nossas especificidades, onde também se pode ver a beleza e a grandeza de Deus.
Somos mais iguais, tratemo-nos como iguais, como irmãos, como filhos amados de Deus. Às vezes custa descobrir o olhar de Deus por detrás de um olhar magoado, ferido, por detrás de um olhar fechado, revoltado, amargurado. Por vezes é difícil que em nós se possa vislumbrar o olhar de Deus quando nos tornamos opacos à Sua presença amorosa e à sua beleza.

Por baixo da pele, somos mais iguais, mas também no coração, no desejo de nos transcendermos, na busca de felicidade, na fé que buscamos/vivemos, somos mais iguais quando nos reconhecemos filhos da mesma humanidade, habitantes da mesma terra, filhos do mesmo Deus, do mesmo Pai.

Por baixo da pele... reconheça/reconhece no outro "carne da tua/sua carne, osso dos teus/seus ossos", do mesmo pó que nos liga ao UNIVERSO inteiro, e que nos há ligar à nossa origem e ao nosso fim: DEUS.


01
Fev 12
publicado por mpgpadre, às 20:12link do post | comentar |  O que é?

Alegre-se com a felicidade dos outros, rejubile com os sucessos dos que o/a rodeiam.
Nos dias que recebemos de Deus a vida e o tempo, de forma gratuita - não pedimos para nascer -, encontramos pessoas várias que se alegram mais com os infortúnios alheios do que com as coisas boas que podem apreciar em suas vidas.
Impressiona-me quando vejo pessoas tristes porque outros têm sucesso, ou obtiveram algum ganho significativo.
Mas por quê?
O que as outras pessoas têm ou o sucesso que obtêm não me diminui, de forma nenhuma. Pode até não acrescentar nada à minha existência pessoal, mas também não me retira nada, absolutamente nada.
Pelo contrário, se me comprazo na infelicidade alheia isso é sinal evidente que a minha vida não é agradável, não tenho valor, não valorizo o que há de bom em mim e na minha vida, sou vazio, preencho o meu coração e o meu pensamento com situações que, de forma solidária, me deveriam penalizar.
Claro, posso dizer que os outros também se alegram com os meus fracassos. E depois? Que me há de interessar isso.
Escolha, como refletimos em outro momento, valorizar os outros e alegrar-se com o sucesso até dos seus inimigos...
É mais uma forma de ser feliz, de viver pela positiva.
Alegre-se por que o outro se encontrou, por que o outro é feliz.
Mesmo que agora as coisas não te/lhe estejam a correr bem, há de chegar também o teu dia, a tua hora, confia, vive, aprecia...
Foi assim que o Mestre dos Mestres viveu... sempre à procura de retirar de cada um, as melhores pérolas, mesmo onde só havia visível pedra rústica e informe.


31
Jan 12
publicado por mpgpadre, às 19:30link do post | comentar |  O que é?

Rume contracorrente, não deixe que sejam os outros a guiar a sua vida.
Vamos por partes. Relembro que a acentuação de um aspeto não exclui outros importantes, por vezes nem o seu contrário. A vida não é branco e preto, também é cinzento. Ainda ontem dizíamos que a nossa vida há de ser "sim, sim" e "não, não", na opção pela verdade, na vivência da coerência entre o que dizemos, o que fazemos e o que somos.
Rumar contra a corrente, no concreto desta reflexão, significa que simplesmente não somos marionetas de alguém, do patrão, de uma ideologia, de um partido, ou até mesmo de uma religião. Obviamente, temos referenciais que nos indicam o caminho, pontos que norteiam a nossa vida, facilitando a nossa busca, mas, para o bem e para o mal, como bem recorda o célebre Augusto Cury, devemos ser sobretudo atores da nossa vida, da nossa história e não simplesmente espectadores passivos como se estivéssemos a ver um filme numa tela sem que possamos interagir e/ou alterar o rumo da estória.
Somos os artífices da nossa vida, da nossa felicidade, da nossa história.
Para o bem e para o mal.
Se as coisas correm bem, também teremos mérito.
Se as coisas correm mal, não há lugar para culpar e crucificar a quem entregamos o destino da nossa vida.

Nos dias que passam, sabemos como as influências exteriores podem ser mais fortes e eficazes do que os princípios que orientam a nossa vida. Televisão, internet, revistas, amigos, padrões que globalizam a cultura, a gastronomia, a indumentária, que padroniza até a vivência religiosa, política, a intervenção social.
Se formos a uma manifestação, quanto sabem mesmo as razões porque engrossam o número dos que protestam/se manifestam?! Ainda que possam vir a saber porque se juntaram...

Rumar contra a correnteza da moda, do que é mais fácil porque todos vão, todos fazem todos dizem, pode ser a nossa decisão por não deixarmos que sejam outros a viver por nós ou a obrigar-nos a viver como eles, ou a viver os seus projetos, os seus sonhos. Somos nós. Somos insubstituíveis. Somos filhos bem-amados do Senhor Deus. Temos os instrumentos que precisamos para sermos felizes

Há uma pequena estória que conta que um dia um animal feroz a fugir da aldeia foi por montes e vales, por meio dos matagais e dos trigais, de silvados, sempre de focinho baixo para melhor irromper pelo meio dos obstáculos, contornando, furando, desviando... os que o seguiram tentaram pisar onde pisou o animal... foram fazendo um carreio... outras pessoas passaram... ainda outras passaram... tornou-se caminho público... ligava agora uma aldeia a outra, era um caminho difícil, mas ninguém se perguntava por quê, ninguém questionava a possibilidade de um caminho mais suave, mais perto, mais cómodo... por que nunca se perguntaram... foi o animal feroz que fez o caminho...

Esta história ilustra esta reflexão. Se vamos por onde vão os outros, sem nos interrogarmos, sem refletirmos, podemos correr o sério risco de pisar caminhos que estão armadilhados, que não nos levam a lado nenhum, que nos desviam dos nossos objetivos, da nossa felicidade.

Rumar contra a corrente. Converter-se. Viver a partir do interior.
Contra a corrente. Quando lhe/te fecharam o rosto, abre-lhes o maior sorriso... depois fica ao encargo de quem se cruza por ti/si, ou entende como escárnio, ou sorriem também. Opte pelo bem, pela positiva. Não pague o mal com o mal, sabe bem, muito bem, pagar o mal com o bem, palavras doces e agradáveis à rispidez e amargura de outros.

Por vezes precisamos de nos deixa ir na correnteza, na leveza da vida, nos braços de Deus (havemos de refletir mais). Por vezes precisamos de contrariar a infelicidade que nos impõem, a maledicência geral, a amargura daqueles que podem querer o nosso infortúnio, ou melhor, que se sentem incomodados com a nossa alegria, com o nosso jeito de viver e de ver a vida...

Como cristãos, sempre a pergunta a fazer. Se Cristo estivesse aqui, que faria? Nem sempre será fácil perceber a resposta de Jesus Cristo... mas vale tentar.


30
Jan 12
publicado por mpgpadre, às 18:50link do post | comentar |  O que é?

Opção permanente pela verdade.
Verdade e verdades. A VERDADE e a minha, a tua, a dele, verdade, aproximação à verdade, ou uma parcela de verdade.

Leia-se a opção pela verdade como a procura pela coerência de vida.
Numa busca sincera, a limitação e a fragilidade podem impedir-nos momentaneamente de viver com decisão a verdade.

O Papa Bento XVI no Seu lema episcopal e papa tem a VERDADE como referencial: Cooperador da Verdade.
Cooperar para que a VERDADE de Deus, de Jesus Cristo possa inundar toda a terra com a sua força redentora.

Numa qualquer discussão, e quando vemos que os nossos argumentos falharam, lá vamos dizemos, eu fico com a minha verdade, tu ficas com a tua.

Há quem nos recorde que um ponto de vista é sempre a vista de um ponto. Ou num outro contexto: a história (registada), a tradição é sempre uma traição, pois toda a história leva a interpretação de quem conta (e quem conta um conto, por mais sério que seja, acrescenta um ponto), a tradução ou a reprodução de um texto pode levar a pequenas nuances que alteram "alguma coisa" mesmo mantendo o essencial.

Desde já podemos concluir que estas certezas (verdades) devem provocar tolerância nas discussões e em alturas que sabemos ter certeza, mas não conseguimos "convencer"/esclarecer o outro. Talvez o outro tenha um ponto de vista diferente. Se nos passássemos para o outro lado e o outro viesse para o nosso talvez nos aproximássemos na compreensão mútua. Mas não é fácil. É mais difícil quando tentamos competir com o outro pela verdade, ou quando a irritação já tomou conta do nosso discernimento.
Também aqui o convite ao distanciamento e ao exercício da tolerância.

Para nós crentes (mas creio que também para não crentes ou descrentes) há verdades que são essenciais, são referência, são o nosso norte e guia, a nossa orientação. Verdades que nos alimentam e abrem a nossa vida ao Infinito.
Deus como Verdade primeira e última. O Amor de Deus para connosco. O amor que nos liga uns aos outros. A vida e a morte. A ressurreição e a eternidade. A santidade que Jesus traz à humanidade que que se espalha nos homens e mulheres de todos os tempos.
Neste concreto diríamos, que há a VERDADE que é incontornável para nós, o próprio Deus. Não é discutível. Ainda que percebamos que num tempo em que tudo se discute poderá parecer arrogância. Mas, repetimos, até os mais libertinos têm referências intocáveis...

A nossa origem é a VERDADE. Jesus Cristo é a Palavra que Se faz carne = é a Verdade que Se faz Pessoa. A Verdade chegou até nós. Como seguidores Seus, havemos de ser para este tempo Sua transparência, procurando que sobressaiam em nós, nas palavras e nos gestos, os vários aspetos da VERDADE e que a próprio Verdade, Jesus Cristo, estando em nós, transparecer através de nós.

Nesta lógica, a nossa linguagem, para ser a de Jesus Cristo, há de chegar a ser "sim, sim", "não, não". Apostemos na clareza. Sejamos sinceros, connosco e com os outros, com a vida, como se estivéssemos diante de Deus, como a transparência do cristal. Obviamente, que no nosso dia-a-dia poderemos ter que dizer "talvez", "vou ver", vou "pensar melhor", mas com a preocupação de que o sim e/ou o não sejam autênticos, pensados, não precipitados, ou porque a nossa limitação humana nos faz hesitar/duvidar. Mas a preocupação fundamental - na relação com os outros, pessoal, familiar, profissional, socialmente - é optar pela verdade, mesmo que algumas situações se tornem dolorosas em consequência da verdade proferida e professada (com consciência e responsabilidade).
Optar pela verdade mesmo que saiamos prejudicados. A verdade liberta-nos, engrandece-nos, coloca-nos mais perto de Deus e aproxima-nos da humanidade.
Não adie um "não" só porque poderá perder um amigo. Se com a verdade perder um amigo, não lamente, pois não era amigo de verdade.
Atenção: nem tudo é branco ou preto.
Não adie um "sim", só porque lhe pode trazer mais trabalho, acrescentando um compromisso, pois só o amor nos redime.


29
Jan 12
publicado por mpgpadre, às 14:24link do post | comentar |  O que é?

Vai onde DEUS te levar. Deixa-te guiar/iluminar/conduzir por Deus.
Escolhemos, para Domingo, o título de uma música, convidando a escutar e a refletir na letra desta canção.

Quando éramos crianças íamos onde os nossos pais nos levavam, ou os irmãos mais velhos, os que os temos.
Sinal de crescimento quando já não precisamos de or de mão dada com o pai ou com a mãe. Crescemos. Fazemos questão em dos desprendermos das mãos dos mais velhos. A confiança que tínhamos neles, passa para nós. Julgámos que esse era um sinal claro do nosso crescimento e da nossa independência, ou melhor, da nossa autonomia.
Um pouco como a parábola do Filho Pródigo e a sua necessidade de sair debaixo da proteção paterna para sentir que já é mais velho e que já não precisa de ser "orientado", guiado pelo Pai. Verifica depois, queé na proximidade do Pai que a segurança e confiança é maior e mais libertadora. Os outros ajudam-nos a encontrar-nos a nós próprioa.
Com os nossos pais sucedem o mesmo. Com a adolescência e juventude atrai-nos o que está fora de casa. Com a idade adulta-madura, a casa paterna de novo dos atrai. Mais à frente as mãos dos pais continuam a guiar-nos e até desejamos que seja assim por muito tempo. Já não são eles que nos seguram, são as suas mãos que seguramos mas que de novo nos trazem conforto.

No plano da fé, quanto mais nos deixarmos guiar por Deus, mais madura e adulta está a nossa fé. A nossa resistência a deixarmos que Deus nos guie é porque a nossa fé ainda é pequena, diminuta. Pode acontecer que só no fim de vida nos entreguemos totalmente nas mãos de Deus...


28
Jan 12
publicado por mpgpadre, às 19:30link do post | comentar |  O que é?

A coerência de vida há ser um modo de viver.

Para alguns é fácil cumprirem com a palavra dada.

Antigamente bastava a palavra, a chamada palavra de honra. Quando alguém dava a sua palavra, não era preciso nenhum documento, e também era desnecessário recorrer à justiça para dirimir o que foi assumido verbalmente. Obviamente que estamos a falar de pessoas de bem, que preferiam sair prejudicadas, ou deixar de comer, do que deixar de cumprir com a palavra.

Hoje, infelizmente, o valor da palavra é menor. A crer no que vemos e ouvimos. Saliente-se que muitos não cumprem, porque as situações se alteraram dramaticamente. Mas também há muitos que aproveitam as situações desfavoráveis dos outros para se governarem. A palavra de honra levava consigo a dignidade da pessoa. Não cumprir seria uma vergonha, o que equivaleria hoje a dizer que alguns, pessoas e empresas, perderam a vergonha. Sublinhe-se, uma vez mais, que a generalização é perigosa e pode mesmo ser perversa, pois pode haver pessoas incumpridoras que tudo fizeram e tudo fazem para saldar os compromissos assumidos.

 

O Papa Paulo VI numa intervenção pública afirmou com clareza que existia um grande divórcio entre a fé e a cultura, o evangelho e a vida, a igreja e a sociedade, manifestando a necessidade da prática cristã iluminar a vida quotidiana. João Paulo II e Bento XVI têm acentuado a necessidade de a fé se tornar significativa para as pessoas e para o mundo, através do testemunho. O nosso tempo precisa sobretudo de testemunhas (mártires), mais do que mestres, ou então, mestres que sejam também testemunhas.

 

A coerência é exigida a todos. O ser humano, na sua identidade mais profunda, há de ser para o mundo, para os outros, o que é para si mesmo. Se quisermos, adequa-se também aqui a regra de ouro: faz aos outros o que queres que te façam a ti, ou não faças aos outros o que não queres que te façam a ti. O corpo que delimita a fronteira da nossa existência coloca-nos em comunhão e contacto com os outros e com o mundo. O ideal é que o corpo não se separe da nossa mente, dos nossos propósitos, das nossas convicções, mas que aquilo que nos aproxima dos outros (corporeidade) esteja revestido do que de melhor existe em nós.

 

Por maioria de razão, para o cristão, a coerência é um desafio e um compromisso, pelo facto de ter (ou dever ter) uma consciência mais apurada e esclarecida, porque o horizonte da sua vida não se confina ao tempo e à história, mas abre-se até à eternidade de Deus e porque deverá imitar quem lhe dá o nome: Cristo (cristãos = de Cristo). A identidade cristã remete-se para a postura de Jesus Cristo.

 

É o próprio Cristo que o lembra quando une os dois mandamentos: Amar a Deus e ao próximo como a si mesmo. Escutaremos depois o apóstolo são João a dizer que é mentiroso quem diz amar a Deus que não vê e não ama ao irmão que vê, ou o apóstolo são Tiago que recorda que é pela obras se vê a fé.

 

No evangelho deste domingo (IV Domingo do tempo Comum - ano B), diz-se que Jesus ensinava com autoridade e não como escribas, ou seja, Jesus não fala para os outros, não exige mais do que para si mesmo, da forma como vive assim o ensina.

 

A velha e popular expressar: "bem prega frei Tomás, faz o que ele diz e não o que ele faz", não serve de escusa nem de justificação para bonitas palavras ou discursos bem elaborados mas que depois não têm aplicação na vida. As nossas palavras hão de ilustrar-se com a nossa vida.

 

Com as nossas limitações e fragilidades, por vezes - não nos falte pelo menos essa consciência - distanciamo-nos nos gestos e nas obras daquilo que professamos/afirmamos com os lábios e outras vezes exigimos aos outros o que nem nós temos intenção de viver. Mas não nos iludamos, devemos buscar o ideal, e procurar que o possível do nosso quotidiano nos vá treinando para a perfeição, para o ideal, para a coerência.

Continuamos no nosso caminho de santidade.


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