...espaço de discussão, de formação, de cultura, de curiosidades, de interacção. Poderemos estar mais próximos. Deus seja a nossa Esperança e a nossa Alegria...
29
Ago 13
publicado por mpgpadre, às 10:35link do post | comentar |  O que é?

 

Música: Antony do Nascimento

Letra: Pe. Manuel Gonçalves

1. Vinde morar comigo, agora e pelo tempo fora

Vamos, por aldeias e cidades, conquistar a vida a toda a hora

Viver o sonho e a ventura, ser casa e luz para o irmão

Guiar o outro, com paixão, à fé, ao amor e ao perdão

 

Ide, ide, por todo o mundo, ser rosto de Deus e muito mais

Anunciar a alegria e ser canção de um novo dia

Levai o evangelho, e com engenho, criai discípulos em todo o cais

E todos juntos, como irmãos, fazei da vida a mais bela melodia

 

2. Lançai as redes, pescadores, abri para mim o coração

Vinde, quero habitar em vós, aprendei a amar e a semear

Recriar a vida, e a falar, ser casa e luz para o irmão

Promover o bem e a comunhão, e o mundo transformar

 

3. Com Maria, minha e tua Mãe, fazer o que Ele faz

Vamos juntos, viver o Evangelho, semear a paz.

Até ao Céu, estender a mão e ser casa e luz para o irmão.

Em Nazaré, em qualquer chão, levai fé ao coração.


25
Ago 13
publicado por mpgpadre, às 09:00link do post | comentar |  O que é?

       1 – Há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos.

       Em Jesus, todos somos filhos de Deus e como irmãos devemos cuidar uns dos outros e sobretudo dos mais frágeis. Esta é uma forma privilegiada de encontrar Deus. Além disso, as sociedades tendem a gerar ódios e violências quando há uns que têm tudo e outros que não têm nada. Quem nada tem, nada tem a perder no meio do caos que se possa instalar.

       Os “privilegiados” pelo trabalho, pela herança patrimonial e/ou pela sorte devem sentir-se corresponsáveis, sabendo que há mais alegria em dar do que em receber. E “um obrigado” muitas vezes vale mais do que alguns milhares de euros. Na lógica do evangelho e da vida, o dom só tem sentido se partilhado. O pecado das origens tem muito a ver com isto, como recordava D. António Couto, aos jovens Crismandos, o pecado não está no colher o fruto da árvore, mas no arrebanhar esse fruto sem o partilhar, fechando as mãos. Só eu poderei colher os frutos daquela árvore. Eu. Eva e Adão. Mais ninguém. A árvore é para todos, também para os filhos e para as gerações futuras, e para outros casais. O que recebi não tenho o direito de reter…

       Curiosa aquela passagem da Sagrada Escritura a que se juntam as palavras de Caim: serei guarda do meu irmão? Egoísmo. Se alguém me faz frente ou sombra, excluo ou mato?! A palavra de Deus é clara: sou guarda do meu irmão, sou responsável por ele. Não matarás. Amarás o próximo como a ti mesmo.

       A este propósito, o povo Eleito tinha uma lei que repunha mais igualdade e justiça. A cada 7 anos, a terra, a vinha e olival descansavam e os pobres podiam alimentar-se (Ex 23, 10-11), e os escravos ser libertos (Ex 21, 1-11). Por outro lado, a contagem 7 X 7 anos, 49 anos, findos os quais se realizava o Jubileu, dia do grande Perdão: “Cada um de vós voltará à sua propriedade, e à sua família... Se o teu irmão cair na pobreza e vender uma parte da sua propriedade, a que tem direito de resgate, o seu parente mais próximo deve ir resgatar o que o seu irmão vendeu” (Lv 25, 8-34).

       2 – Há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos.

       Reconhecemos os últimos do nosso tempo com demasiada facilidade: pobres, desempregados, deficientes, maltrapilhos, cada vez mais, os sem-abrigo, mulheres maltratadas, crianças sem família, pedintes, famintos, famílias endividadas (algumas por culpa própria, muitas pelo sistema económico-financeiro colapsado), devido a expectativas exacerbadas, ou consequência de falências danosas que geraram milhares de novos desempregados, os emigrantes (uns poucos por vontade própria, muitos porque não terem outro remédio), à procura de novas pátrias, muitos morrendo na travessia, como sublinhou a visita do Papa Francisco a Lampedusa, os idosos, uma franja significativa da sociedade que por vezes é esquecida como o casaco de inverno no bengaleiro durante a maior parte do ano…

       Se a bolsa de valores tiver uma ligeira queda, alerta o Papa, logo se gera um drama. Morrem milhares de pessoas por dia à fome, vítimas de violência doméstica, da droga, de guerras, de milícias populares, de rixas entre bandos… Paciência, é a vida!!!

 

       3 – Há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos.

       Alguém se acerca de Jesus e pergunta: «Senhor, são poucos os que se salvam?». Resposta pronta de Jesus «Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir». Não vos preocupeis com a quantidade dos que se salvam. É dom de Deus. Preocupais-vos em entrar pela porta estreita.

       Somos responsáveis pelos outros, mas não podemos obrigar os outros a agir desta ou daquela maneira. “Quem Me fez juiz das vossas partilhas?”

       O cuidado dos mais desfavorecidos não é uma opção do discípulo de Jesus, é uma exigência. A fé provoca as obras, exige compromissos concretos com o bem dos outros. O "salve-se quem puder" para os cristãos terá de ser salvação acolhida, vivida e celebrada em comunidade. Não posso obrigar os outros. Devo obrigar-me a mim, como seguidor de Jesus, esforçando-me por entrar pela porta estreita.

       Amar a Deus implica amar aqueles que Deus ama. Não se pode amar o Pai odiando os filhos. Amamos a Deus cuidando dos irmãos. Ou somos mentirosos. A fé sem obras é perfeitamente dispensável, é como árvore sem frutos, diria Bento XVI. As obras testam, explicitam e tornam a fé significativa e relevante.


Textos para a Eucaristia (ano C): Is 66, 18-21; Heb 12, 5-7.11-13; Lc 13, 22-30.

 


24
Ago 13
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

EBWN ALEXANDER. Uma prova do Céu. Testemunho de neurocirurgião sobre a vida além da morte. Lua de Papel. Alfragide 2013, 200 páginas.

       Um neurocirurgião que passa por uma experiência de quase morte. 10 de novembro de 2010. Uma dor aguda, do outro mundo, convulsões, revirar de olhos, desmaio, fá-lo parar nas Urgências de um hospital onde já trabalhou. 7 dias em coma. Quatro dias é o tempo além do qual não há regresso possível ou a haver a pessoa ficará num estado vegetativo ou com muitas mazelas mentais e físicas. Ao sétimo dia a esperança, do lado de cá, está no fim. É tempo de reunir e desligar as máquinas. A família toma consciência disso. Os médicos prolongaram esta decisão para lá do tempo.

       Entretanto, do outro lado, o Dr. Alexander vive uma experiência extraordinária. Sem saber é conduzido pela irmã biológica, que já tinha morrido. Como tinha sido adotado, não reconhece a irmã, mas apenas uma figura luminosa, cheia de bondade. Descobrirá, quando outra irmã biológica lhe enviar uma foto. Ascende ao Céu, guiado por um som, música celestial, onde tudo é paz, harmonia. É um mundo ultrareal. Contacta com Deus, não Lhe vê o rosto mas sabe que é Deus. Está finalmente em paz.

       A sua experiência é muito semelhante a outras que ele já tinha escutado de pacientes mas sem grande crédito, com diversas explicações que a ciência tenta dar. Ainda que não haja respostas definitivas, a ciência abre as portas a um fenómeno que por ora não tem explicação. O Dr. Alexander encontra a explicação que falta à ciência no outro lado.

       À volta da sua cama, durante sete dias, sempre pessoas, que não lhe largam a mão. Um dos filhos, o mais novo, ao sétimo dia, e enquanto a equipa médica, com a família, decide interromper os tratamentos, salta em cima da cama, abre as pálpebras, garantindo ao pai que vai ficar bom. De repente abre os olhos. Junta-se a mãe/esposa, e os médicos. Responde aos presentes: estou bem. Que é que aconteceu, porque é que está aqui tanta gente? O cérebro reiniciou funções. Nas horas e dias seguintes haverá uma grande confusão na sua mente. Pouco a pouco recuperar totalmente, preparando-se para falar do outro mundo, da luz à qual foi conduzido. Da verdade revelada: És amado. O envio: ainda és necessário. Tens de regressar. Alguém precisa de ti.

       O filho mais velho recomenda que antes de ler outros testemunhos e para ser levado a sério que escreva tudo o que se lembra e só depois confronte com outros testemunhos. É o que faz.

       O livro resulta desta experiência de 7 dias em coma profundo, em que a infecção por E. Coli, que dificilmente afeta os adultos, lhe provocaria a morte, ou o deixava com grandes sequelas físicas e mentais, afinal revela-lhe o Céu, a eternidade, e que a consciência sobrevive para lá do corpo, depois da morte, já sem fronteiras. Como em outros casos é difícil traduzir em palavras humanas a grandeza e a beleza das experiências sobrenaturais.

       Um dos livros mais conhecidos sobre experiências de quase morte é A vida depois da Vida, de Raymond Moody, que que resultou em documentários televisivos. Já recomendámos outros testemunhos: O Céu existe mesmo, um menino que regressa do Céu, ou A Cabana, de Paul Young, uma história que relata uma história semelhante.

       Ao longo dos tempos, muitos tentam compreender estes fenómenos. Para uns, é uma das formas do cérebro lidar com situações extremas. Para outros, é uma prova ou um indício que a consciência sobrevive à morte. Há vida para lá da morte.

       Uma última palavra para sublinhar a perspetiva católica sobre o Céu. Fé na vida eterna. Pessoas ou santos que viveram experiências místicas e que relatam visões, de Jesus, de Nossa Senhora, de Anjos, do Céu, do Inferno e/ou Purgatório, como no caso dos Pastorinhos de Fátima. Em todo o caso, a Ressurreição coloca-nos no plano da fé. A prova é sobretudo um indício, uma porta aberta, uma luz que nos guia. Uma coincidência da qual Deus se serve para manifestar a Sua vontade e a Sua presença. Nunca poderá ser visto como uma prova irrefutável. A fé é DOM, não é clarividência física e/ou científica. Deixaria de ser fé, para ser uma realidade demonstrável.

       Este livro traz um excelente testemunho de fé na vida eterna, do Amor que Deus nos tem. Mostra também a força da oração e como a própria cura necessita de algo mais que medicamentos, a presença dos amigos, a reconciliação consigo mesmo. É uma leitura envolvente.

 

Para saber mais: EXTRA - entrevista com Dr. Eben Alexander

Visite também: São as vozes que mandam


23
Ago 13
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

HARUKI MURAKAMI. Kafka à Beira-mar. Casa das Letras. Alfragide 2012. 15.º edição. 602 páginas.

 

       Haruki Murakami é dos dos mais talentosos escritores/romancistas. Com uma criatividade fora de série, uma imaginação extraordinária. Cada livro publicado é a expressão de um verdadeiro artista das letras. Escreve com desenvoltura, cruzando diversas dimensões da vida, cultura popular, mitos e superstições, simbologia japonesa, na abertura ao Ocidente, música dos anos 70, 80, 90, grupos musicais, filmes, livros que fizeram sucesso, músicos clássicos. Abrange uma grande cultura geral, que passa para os leitores de forma integrada, espontânea, como se estivéssemos à mesa do café a falar deste e daquele tema, desta e daquela história, de determinado acontecimento, contando algo que nos aconteceu ou ao vizinho. Toda a linguagem se apresenta em Murakami com espontaneidade. Simples, acessível. Mesmo quando narra situações de outro mundo, surrealistas, parecem tão banais como abrir os olhos ao acordar, ou como respirar. Faz-nos entrar na história e às tantas parece banal o que propõe, como se todos soubéssemos do que se trata, ou fosse quase uma cusquice com o vizinho.

       "Kafka à beira-mar" é mais uma relíquia, uma obra prima do autor, com todos ingredientes para prender o leitor do princípio ao fim. Duas estranhas personagens que a história se encarrega de entrelaçar. O autor serve-se de recursos já habituais, lendas, crenças populares, expressões clássicas, história do Japão, na abertura ao Ocidente, e ao cristianismo, atores, filmes, cinema, músicas, carros, com descrições simples e acessíveis, ao correr da pena, tempo e história, destino, sons e ausência de sons, silêncio. Personagens estranhas e pessoas normalíssimas, comidas e pratos muito japoneses...

       Numa floresta um grupo de crianças, sem mais nem para o quê, desmaia. Não é um desmaio qualquer. Continuam a respirar normalmente, com os olhos fixos em algum ponto, sem pestanejarem. Só a professora não desmaia. Acordam e não se lembram de nada, é um vazio. Um dos meninos não acorda. Todos são submetidos a rigorosos exames, mas nada se descobre, nem os melhores médicos americanos, nem os médicos japoneses. Abertos dossiers confidenciais até muito depois da 2.ª guerra mundial, não permitem adiantar muito. Nakata fica em coma durante algumas semanas, sem dar de si, como que em outra dimensão. Quando acorda não sabe ler nem escrever; era um dos melhores alunos.

       Na atualidade, Nakata é um velho de sessenta anos, recebe um subsídio do estado, fala com os gatos, gosta de enguias, dedica-se a encontrar os gatos perdidos, em troca recebe mais alguns ienes, refeições, roupas. O imprevisto acontece. À procura de um gato, é conduzido a uma mansão por um cão que fala com ele, melhor, o dono fala através do seu cão. Para salvar o gato que procurava e um gato amigo, assassina Johnnie Walker, a pedido deste. Foi como forçado, parece não estar no seu corpo. Fica ensopado com sangue. Acorda num baldio, onde tinha ido procurar um gato, com a roupa limpa e já não consegue falar com os gatos. Narra o sucedido na esquadra mas o polícia de serviço considera-o tolo. Nakata avisa que no dia seguinte vão chover sardinhas e cavalas. Assim acontece. Mas ainda haverá também a chuva de sanguessugas, quando Nakata já vai a caminho de Shikoki, onde já está Kafka Kamura (Kafka é para esconder a verdadeira identidade), afinal filho de Johnnie Walker, que afinal é um famoso escultor (Koichi Kamura).

       O jovem foge de casa no dia do 15.º aniversário. Nem antes nem depois. Leva o que precisa. Vai para um sítio nem muito quente nem muito frio. Não precisa de levar muitas coisas, uma mochila às costas e dinheiro. Foi abandonado pela mãe, que com ela levou a sua irmã. O pai profetisa que ele ficará com a mãe e com a irmã. O destino do jovem é uma Biblioteca privada, que conta outra história de vida. Um amor que terminou na morte estúpida do noivo, quando ia levar comida a um colega manifestante, diante da universidade e tendo sido confundido com o líder da fação contrária. A mulher regressou, passados vinte anos, à casa dos pais dele, e todos os dias fica na Biblioteca. Tem um ajudante, que afinal é mulher, embora não pareça. E Kafka ficará no quarto antes reservado ao rapaz, filho dos proprietários e esfaqueado diante da universidade. Encontra-se aí um quadro, Kafka à beira-mar, que é também um canção feita pela dona-gerente da Biblioteca. Com quinze anos aparece ao jovem Kamura, deita-se com ele. Poderá ser a sua mãe, mas então ainda com quinze anos, mais ou menos.

       Um dia, o jovem Kafka Kamura acorda no meio do bosque com a camisola ensopada em sangue. Não se lembra de nada. Terá assassinado alguém. Tudo indica que foi ele, através de Nakata, do seu corpo e mente, que matou o próprio pai, mas não sabe...

       Há outros desígnios. Nakata terá que encontrar a Pedra de Entrada para compor a realidade. O que foi aberto tem de ser fechado...

       Kafka à beira-mar é um conto do maravilhoso, com personagens concretas, mas que em determinados momentos parecem ser transportados para outras dimensões.

       Nakata, além de fazer chover cavalas e sardinhas e sanguessugas, só tem metade da sombra, que desapareceu quando desmaiou e ficou em coma durante semanas. Com a pedra de entrada será que ele consegue ficar com a sua sombra completa? Veja como Murakami utiliza este recurso também noutros escritos, como por exemplo em O impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo, em que o leitor de velhos sonhos, na cidade muralhada, deixa a sua sombra à entrada da cidade. A sombra acabará por morrer e ele ficará para sempre na cidade, pois ninguém sobrevive fora da cidade sem a própria sombra. A sombra resiste a acabará por abandonar a cidade sozinha, sem o seu dono, que fica na cidade e tem qe se retirar para o bosque, uma vez que a sua sombra não morreu...

       A BIBLIOTECA desempenha uma missão importante, neste como no livro citado anteriormente. É lá que conhece a mãe. É lá que a mãe morre para o encontrar na fronteira dos mundos, numa dimensão diferente onde se despede para sempre o fará regressar ao mundo para que ele se lembre dela, que entretanto destruir todas as recordações, mas desde que ele se lembre é quanto basta.

        Outro tema que será depois explorado no Fim do Mundo, quando fala da cidade muralhada (dentro do cérebro) e do bosque para onde vai quem ainda tem a respetiva sombra viva, pois na cidade só podem estar pessoas sem sombra nem coração. No bosque é preciso ter coração mesmo que não se tenha sombra. O coração guardas as recordações. O bosque é perigoso e desaconselhado. Em Kafa à beira-mar, a floresta, o bosque, é perigoso, quem se adentra nele pode perder-se para sempre, pode não achar o caminho de volta, passa a fazer parte do bosque. É lá que se encontram dois soldados que desertaram por altura da segunda guerra mundial e ficaram a guardar a entrada. Kafka é conduzido por eles. Entra. Outra dimensão. As pessoas não têm recordações. Fazem parte do tempo e das próprias recordações, do mundo envolvente. Quando muito lembram-se do dia anterior. Aí Kafka Kamura encontra de novo a jovem de 15 anos que lhe aparecia durante a noite, no quarto da Biblioteca. Aí encontra Saeki-san, afinal a sua mãe, afinal a rapariguinha de 15 anos, a gerente da Biblioteca que vem para se despedir para sempre. Vai ter que voltar antes que a entrada se feche. Mas para quê voltar se não tenho ninguém à espera. Regressas para viver a tua vida e te recordares de mim, diz-lhe a mãe.

       Uma das temáticas recorrentes é um certo pessimismo, ou resignação, que se vislumbra nas várias obras do autor, ainda que seja difícil uma análise definitiva. O que tem de ser tem muita força. Não adianta muito fugir, a vida há de orientar-nos para o nosso fim. De outra maneira não viveremos. Parece ser um desafio a viver, a viver bem, a aproveitar as ocasiões sem grandes lamentos, seguindo para a frente, agindo, tomando as próprias decisões, sejam elas minhas ou resultem da história em que me insiro. Com o destino, o tempo, e a ausência de tempo e de sons, a passagem para outra dimensão, a morte e a vida, o lado de cá e o outro lado. Viver em quanto é tempo. Quem passa a fronteira parece não querer regressar. Mas se ainda não é hora deverá regressar para cumprir a sua vida (evocação das experiência de quase morte?). Do lado de cá, e regressar com as suas recordações (e dos outros) mas para alterar o que tem de ser alterado, para um mundo novo.

"- Todos nós perdemos coisas a que damos valor. oportunidades perdidas, possibilidades goradas, sentimentos que nunca mais voltaremos a viver. Faz parte da vida. Mas dentro da nossa cabeça, pelo menos é aí que eu imagino que tudo aconteça, existe um quartinho onde armezanamos todas as recordações. E a fim de compreendermos os mecanismos do nosso próprio coração temos que ir sempre dando entrada a novas fichas, como aqui [na Biblioteca] fazemos. Volta e meia precisamos de limpar o pó às coisas, deixar entrar ar, mudar a águia das plantas. Por outras palavras, cada um vive para sempre fechado dentro da sua própria biblioteca..."


"Todas as pessoas precisam de um lugar onde possam pertencer..."


"Sentes o peso do tempo como um velho sonho ambíguo. Continuas sempre em movimento, tentando arranjar maneira de te esquivares. Porém, mesmo que vás aos confins do mundo não lograrás escapar-lhe. Mesmo assim, não tens outro remédio senão seguir em frente, até esse fim do mundo. Há algo que não se consegue fazer sem lá chegar".

       Há livros com 600 páginas que se leem num instante, com agrado, e muito mais facilmente que pequenos livros cuja história não flui. Os livros de Murakami não têm partes maçudas, envolvem-nos em milhentas estórias. Vale a pena ler este ou outro qualquer romance do Haruki Murakami. Se for para iniciar a ler este autor talvez fosse bom começar por "Em busca do Carneiro Selvagem" ou "Dança, Dança, Dança", ou o "Elefante evapora-se", ou "Sputnik, meu amor", ou para melhor conhecer o autor e a sua escrita, "Auto-retrato enquanto corredor de fundo".

       Kafka à beira-mar é uma leitura leve, empolgante, engenhosa, vicia...


22
Ago 13
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar | ver comentários (1) |  O que é?

HARUKI MURAKAMI. 1Q84. Casa das Letras. Alfragide. Livro 1 - 2011. 492 páginas; Livro 2 - 2012; 436 páginas: Livro 3 - 2012, 504 páginas.

       Para quem gosta de Haruki Murakami, não interessa de todo o número de páginas, de tão empolgantes que sãos as histórias e os mundos, o oriental e o ocidental, o budismo e o cristianismo, o mundo real e concreto e o mundo virtual, do sonho, ou um segundo mundo que se passa num determinado tempo e lugar e que dá acesso a um mundo que corre em paralelo, com implicações no regresso a este mundo.

       Duas personagens fazem desenrolar a história. Tengo, professor de matemática, aspirante a escritor famoso, trabalha também na revisão de outras obras, nomeadamente a Crisália de Ar, escrita por uma jovem filha de pais que integraram uma seita religiosa que esmaga a liberdade e em que as vítimas de sempre são as mulheres sujeitas a maus tratos. Aomame, é uma jovem com a mesma idade de Tengo. É assassina profissional, mata fazendo parecer que é de morte natural, acabará por matar o líder da Seita, ainda que este fosse considerado como Imortal. Fria, quase sem coração. É também professora de artes marciais.

       No desenrolar da história, os dois personagens vão-se aproximando, enredados na mesma trama que os conduz à Seita religiosa, sendo aliás procurados pelos sequazes da organização, da qual pouco se conhece, impenetrável, que fazem desaparecer até os seus membros, sem vestígios, ainda que a Organização tenha um rosto jurídico, que paga impostos, tem sede, tem representantes legais.

       Pelo meio vão aparecer muitas outras personagens, com a beleza extraordinário com que são pintadas por Murakami, há feios, bonitos, altos, baixos, gordos, inteligentes, estúpidos, homens, mulheres, pessoas boas, pessoas más. Uma mulher, já anciã que acolhe mulheres maltratadas.

       Tengo e Aomame encontraram-se na escola, como ela pertencia às testemunhas de Jeová, sempre foi colocada de lado, por algumas razões que lhe eram impostas pelos pais e pela religião que a expunham ao ridículo. Tengo, rapaz sério, inteligente e aplicado, não segue a corrente, mas também não teve a coragem para avançar...

       Mais à frente hão de cruzar os seus destinos, e os seus mundos. Não podem deixar escapar a oportunidade. Mas vai demorar tempo, paciência, vigilância, prudência. A Crisália de Ar, faz como que nascer duas Aomames, a mesma pessoa desdobrada em dois, para viver em dois mundos separados, dimensões diferentes.

       O terceiro volume, aparece outra personagem: um advogado Ushikawa. Aceita todos os casos que sejam sujos, defende tudo o que tenha a ver com a Organização. Metódico. Feio, desproporcional. Medonho. Assustador. Com facilidade recorre à ameaça, à insinuação, procurando gerar medo ou mesmo pânico, chantagista.

       Duas LUAS, uma normal e outra verde. Nem todos veem a duas luas. A Crisália de Ar faz a descrição pormenorizada da lua verde, e do Povo Pequeno, em que os seus habitantes querem vir para o mundo real... Aqueles que veem a Lua compreendem que estão num mundo diferente, ou no mesmo mundo, mas com vivência diferentes. Ano de 1984. Ano de 1Q84, é outro ano distinto, paralelo, as vivências no mundo paralelo têm consequências no mundo concreto...

       Uma trilogia de extraordinário encanto. Como toda a escrita murakamiana, leve, descontraída, natural, faz-nos entrar dentro da história e das personagens, surrealista quanto baste, descreve outros mundos como algo que fizesse parte do dia a dia. Mais uma vez as milhentas estórias que preenchem e cruzam a trama principal, músicas, livros, bares, cinemas, sentimentos, organizações clandestinas, seitas religiosas, abuso de poder, controlo de informação, secretismo, violência doméstica, escravização das mulheres... temas que surgem com a maior das naturalidades mas que nos fazem refletir. A civilização japonesa, com a sua identidade, as suas superstições, os seus símbolos, mas a entrada de influências estrangeiras, ocidentais, num mundo cada vez mais globalizado.

       Mais um leitura empolgante. Lê-se de fio a pavio. Boa leitura.


21
Ago 13
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

HARUKI MURAKAMI. O impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo. Casa das Letras. Alfragide 2013. 570 páginas.

       Murakami tem sido apontado como premiável ao Nobel da Literatura. É um dos mais criativos romancistas da atualidade. Pelo menos na minha maneira de ver e de ler. Os seus livros provocam a mente, imaginativos, inseridos na civilização do nosso tempo, com as raízes japoneses, origem do autor, com muitas referências à cultura ocidental, o autor vive nos EUA, com cruzamento de diversas influenças. Música. Jazz. Anos 70, 80, 90. Cinema. Filmes. Livros de grandes autores, por vezes com pequenas resenhas e comentários ao conteúdo ou ao autor. Cidades. Países. Japão. Tradição. Crenças. Ditados populares. Superstições. Símbolos culturais e religiosos. A noite. A mentalidade atual. Deteta-se a crítica à resignação, ao deixar-se levar pela onda, deixando-se vencer pelas circunstâncias. Em muitas histórias narradas por Murakami, aparecem personagens comuns, vulgares, banais, humanas, com qualidades e defeitos, por vezes indecisos, com dúvidas, hesitantes, por vezes deixando que o tempo decorra e corra como rio, sem grandes sobressaltos. O rio encontrará o caminho para seguir. Basta deixar-nos ir na corrente. Se queremos remar em sentido contrário por vezes não é possível, acabaremos por ser forçados a desistir e arrastados ainda com mais violência pela corrente.

       Obviamente, quem recomenda uma leitura é porque gosta, porque leu com agrado, porque parece ser um livro oportuno, trazer uma mensagem interessante. Diria que tudo isso é verdade. Mas ler Murakami é mergulhar em água fresca quando o calor aperta, é sentir a aragem no rosto num dia de verão. Lê-se com enorme vontade de avançar páginas, descobrir o que vem a seguir, a trama que se desenrola. Uma característica muito murakamiana é o entrelaçar de história, duas ou três principais, mas depois com muitas outras histórias, imagens, comparações, máximas, trocadilhos. A realidade e a transcendência, os sonhos, a sombra, os mitos, as grandes descobertas da humanidade, a imaginação criadora de factos e de realidades, realidades que se cruzam fora e dentro de nós, histórias que caminham paralelas e que se cruzam na mente, na imaginação e no sonho. Não se cruzam na realidade. Por vezes é perigoso que os acontecimentos do dia estejam no sonho, e que quando acordados se realizem, sem tirar nem por, o que se sonhou. Por vezes, é necessário que haja o encontro entre o sonho e a realidade, entre o mundo concreto e o virtual.

        Duas histórias caminham em paralelo. O impiedoso mundo das maravilhas. Um mundo moderníssimo, controlado, a rondar a ficção científica, o personagem vê-se numa missão da qual não pode fugir. Na sua cabeça foi implantado um chip, numa experiência científica, o cérebro quase como um computador avançado. Programado para fazer o que tem a fazer. Nada mais, nada menos. Outros não sobreviveram à operação de retirar o cérebro, implantar o chip e voltar a colocar o cérebro no lugar. Aparecem os Programadores, fazem parte do Sistema, do Governo. E existe a espionagem, o privado, os Simióticos, sempre a tentar roubar os conhecimentos, as técnicas. Se os Programadores são absorvidos pela Fábrica, tornam-se Simióticos. São entidades muito secretas, criam defesas virtuais cibernéticas. O narrador deste mundo é conduzido a um cientista famoso, já trabalhou no Sistema, e quando já não precisava, deixou de ser Programador. É capaz de suprimir o som. Tem a máquina para alterar o mundo. O narrador é a chave. E a chave para penetrar no cérebro é "Fim do mundo", afinal o título da outra história. Nesta, o narrador parece acabar por ficar com a rapariga da Biblioteca, poderá vir a ser, mas na história ele segue caminho, até um dia, quem sabe.

       O Fim do Mundo, é uma cidade muralhada. O narrador quando entra na cidade fica sem a sua sombra. Fica ao cuidado do Guardião. Também aqui cada um tem a sua missão. O Guardião, abre e fecha a porta. De manhã os animais, os unicórnios entram na cidade. No fim do dia saem para dormir fora das muralhas. No inverno, o Guardião tem também a missão de queimar os animais que morrem durante a noite. O alimento só pode ser encontrado dentro das muralhas. Existe também o bosque mas é muito perigoso. O narrador é o leitor de velhos sonhos, presos nos crânios dos unicórnios. Também no País das Maravilhas, o narrador recebe o crânio de um unicórnio de onde brota uma luz. O leitor dos sonhos é picado nos olhos, traz sempre óculos de sol, e só deve sair à noite. A Biblioteca é o seu lugar de trabalho. A ajudante prepara tudo. Ela perdeu a mãe. Ficou com o coração mas sem a sombra. Com o coração teve que ir para o bosque. O leitor dos velhos sonhos, vai visitar a sua sombra, ao cuidado do Guardião. A muralha observa tudo. É inviolável. Também aqui o narrador quer ficar com a rapariga da Biblioteca. Das duas uma, recupera a sombra e foge. A sombra prepara a única saída possível, pelo grande lago. Como o inverno chegou, a sombra quase morreu e o Leitor dos sonhos têm que a levar às costas. Se fugir, ficará sem a rapariga da Biblioteca, e terá de volta a sombra. Como ainda tem coração e a sombra se foi embora sem ele, então tem que abandonar a cidade e ir viver para o bosque. Na cidade só ficam as pessoas cuja sombra já morreu e que ficaram sem coração... Vai-se a ver e a cidade é uma criação na mente do narrador, o leitor dos velhos sonhos...

         A BIBLIOTECA desempenha uma missão importante. Num outro livro que recomendaremos, Kafka à beira-mar, a Biblioteca é parte essencial onde decorre a história. A Biblioteca guarda recordações, a História e muitas histórias. E a história é fundamental para que as pessoas e as nações sobrevivam à morte. É um lugar onde se busca informação e conhecimento. Neste livro aparece a Biblioteca nas duas histórias. No impiedoso mundo das maravilhas, o narrador vai recolher informações e trava conhecimento com uma jovem quem quem poderá vir a ficar. No fim do mundo, na Biblioteca estão guardadas as recordações das pessoas, cuja sombra morreu e que ficaram sem coração, sem recordações. Na Biblioteca está a mulher que poderá ficar com o narrador, o Leitor dos velhos sonhos, para isso ele terá que recolher as recordações que formam o coração da sua ajudante... Em Kafka à beira-mar é na biblioteca lá que Kafka Kamura encontra a Mãe e onde estão muitas recordações. No regresso ao novo mundo ele levará da Biblioteca o quadro e a canção Kafka á beira-mar, preservando a memória, as recordações, da mãe. A Biblioteca poderá ser um dos lugares onde volta no futuro. A Biblioteca confunde-se com a vida...

        Outro tema é bosque e o poder que o envolve, a superstição. Em Kafa à beira-mar, a floresta, o bosque, é perigoso, quem se adentra nele pode perder-se para sempre, pode não achar o caminho de volta, passa a fazer parte do bosque. Em fim do mundo as pessoas do bosque simplesmente não podem regressar à cidade, pois têm coração e têm recordações, ainda que não tenham a sua sombra...

     Mais uma história de génio. Cada personagem que intervém é descrita de forma completa, serena, não há lugar para heróis, todos têm virtudes, e defeitos, coisas que fizeram e outras que deixaram acontecer, têm vontade, mas por vezes desistem dos sonhos que tinham, deixam a sombra mas não o coração. Curioso também o facto das pessoas se deixarem levar pela corrente. Na cidade todos puxam para o mesmo, tentando que o leitor de velhos sonhos desista da sombra, deixando-a morrer, e para ficar sem coração... e ele acabrá por desistir de seguir para o mundo real com a sua sombra, mas não desiste do seu coração: fica a ajudante...

       A narração de factos, de estórias, de personagens, é tão fluente e natural que parece que estamos inseridos num diálogo corriqueiro. Extraordinário...


20
Ago 13
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar | ver comentários (1) |  O que é?

NUNO CAMARNEIRO. Debaixo de Algum Céu. Leya. Alfragide 2013, 200 páginas.

       Prémio Leya 2012, esta é a história de personagens que bem poderiam ser reais. Pelo menos, os traços poderão ser encontrados em diversas histórias de vida. Sete dias. Um prédio. Apartamentos que encerram segredos, fome de vida e de felicidade. Sonhos conquistados e sonhos perdidos, à procuram de realizar projetos, e o desencanto de quem perdeu a oportunidade. Sete dias. Uma Semana, do Natal ao novo Ano. Entre suspiros de esperança e de resignação. Estórias que se cruzam e se encontram. Acasos ou o pulsar da vida, da história e do tempo. Coincidências. também assim se faz a vida. Decisões. As nossas e as dos outros. As que impomos e as que nos impõem. Atores da nossa história, mas também vítimas das circunstâncias que irrompem por nós adentro, sem darmos por isso, sem tempo para reagirmos. O que predomina as nossas escolhas, ou o que se nos impõe? E como resgatar a nossa vida. A fé, a dúvida, a vida e a morte, o branco e o preto, mas também o cinzento e o azul, o vermelho e o laranja e muitas cores matizadas. Assim a nossa vida.

       Uma idosa sozinha que ainda sonha pelo seu marinheiro que afinal fugiu com outra. Um homem só, idoso, que guarda o prédio, é porteiro, contador de histórias, e sabe muitas, conhece cada inquilino, quem passa e quem fica, guardando memórias, tornando-se confidente de uns e outros. Uma jovem mulher. Viúva. Desesperada da vida. Acolhe o sacerdote, como amigo e mais do que isso. Mas nem este a regaste. Para ela os dias estão contados, o ano novo é para esquecer. Um sacerdote, que quis viver no meio de pessoas, deixando o conforto de uma família abastada. Com fé e com dúvidas. Tão pronto para deixar, como para prosseguir. Acabará por juntar uma ovelha abandona e descobrir que Deus fala e fala bem por quem foi considerado louco, e até demónio. Um jovem que trabalha em casa e cria personagens para um programa de computador, para gerir relacionamentos virtuais. Vai as livros e copia a caracterização das suas criações/cópias, e acabará por ser descoberto e ser despedido. Abandona o seu apartamento e corre para um amor de tempos anteriores, da universidade, para não ficar só. Dois casais, tão iguais e tão diferentes. Parecem viver bem, mas logo sobrevém o cansaço e a separação. Outros cuja rotina cansou mas que pequenos incidentes levam a valorizar e a fortalecer os laços familiares e a renovar o amor e o sentimento.

       É um livro fácil de ler, agradável. Sete dias em que a vida pode dar um salto. Sete dias em que se pode decidir a felicidade, alterar o curso da história, positiva e negativamente. Como sempre, pode ser um incentivo a sermos autores da nossa história, apesar das circunstâncias. Também debaixo deste Céu estamos a viver, a caminhar, a descobrir, a encontrar-nos, a perder-nos...

       Aproveite, poderá ser um dos seus livros de férias. Ainda que tenha pouco tempo, não deixe de ler. Enriqueça a sua mente, e dê mais densidade à sua vida.


19
Ago 13
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

MO YAN. Peito Grande, Ancas Largas. Edição Babel. Lisboa 2012, 604 páginas.

       Com um pouco de tempo, uma dose relativa de perseverança, este é uma excelente título para ler em férias, num ambiente sem horas marcadas, deixando-se envolver pelo desenrolar da história.

       Guan Moye, natural da China, de um meio rural, escolheu como pseudónimo Mo Yan que significa "Não fales mais", foi Prémio Nobel da Literatura, no ano de 2012 (11 de outubro), portanto, o mais recente. Disse então a Academia Sueca que o autor "funde os contos tradicionais, a história e a contemporaneidade com um realismo alucinatório".

       Esta sua obra retrata, mais direta ou indiretamente, a China com as suas matizes culturais, políticas, religiosas, sociais. O regime de Pequim tem vindo a censurar algumas dessas obras, publicando apenas as que ganham projeção internacional. A atribuição do Prémio Nobel leva em conta não apenas a qualidade e originalidade da escrita e das histórias ou reflexões, mas também o contributo para a evolução dos povos. Em alguns casos é a forma de promover autores que vivem mais ou menos em estado de perseguição, ou sob censura. Com o Prémio, ganha relevo mundial o autor e os seus escritos. Diga-se, a este propósito, que este livro que ora recomendamos, quando foi conhecido o Prémio Nobel custava € 10,00 e podia ser encomendado por metade do preço, ou a preço de chuva, a € 5,00. Nas encomendas pela Internet não foi possível adquirir porque logo ficou indisponível. Dias seguintes, o preço do livro ultrapassou os € 20,00 (€ 22,00 a € 25,00). Com uma saída muito maior.

       O livro em si, segundo os editores, é um resumo de outro resumo publicado pelo autor, primeiro em fascículos de revista. Conforme referiu o autor, em tamanho é um bloco/tijolo. O mesmo refere que se tivesse que aconselhar a leitura de um dos seus livros, seria este. "Se quiserem, podem ignorar todos os meus outros livros, mas é obrigatório que leiam Peito grande, Ancas Largas. É um romance sobre a história, a guerra, a política, a fome, a religião, o amor..."

       A história insere-se na grande China imperial e feudalista, tendencialmente machista, que se destrutura com a segunda Guerra Mundial, deixando-se depois absorver pelo comunismo, que nem por isso traz melhorarias significativas para as pessoas, as famílias ou a própria nação.

       O livro contém praticamente todo o século XX, assistindo a diversos regimes, todos eles com acentuações destrutivas e escravizantes. O sistema imperial é também feudal. Há senhores que são donos de grandes mansões, grandes quintas, com muita riqueza, com muitas pessoas a prestarem vassalagem pelas necessidades básicas e essenciais à sobrevivência. A 2ª Guerra Mundial, com a invasão dos japoneses traz novos senhores, novas guerras, novas disputas, de um e outro lado da barricada, famílias vão-se colocando num ou noutro lado da balança. Conforme o pêndulo, assim as pessoas, assim os que mandam, assim os que são espezinhados, julgados, mortos. Depois da guerra e da retirada dos japoneses, outros grupos se impõem, a salvação nacional, os direitistas, esmagados pelo regime comunista. Em todas as famílias há elementos de uma fação ou de outra. Os mais pobres acabam por ser os mesmos. E tanto se está na mó de alto como na mó debaixo. Como diz uma das personagens, com grande realismo, ou quem sabe com muito pessimismo, desencanto, desilusão, do já visto, é necessário estar atento e acompanhar o vento, para se colocar do lado certo.

       Passam esses momentos de conflito, mas as quezílias entre famílias repetem-se, as perseguições continuam, o silenciamento faz-se discricionariamente, a justiça popular, a instrumentalização do poder a favor de uns poucos beneficiados.

        A história de uma família, com um crescendo de conflitos, disputas, separações, entrelaça-se com a história da nação. O machismo por demais evidente, em que se deseja e impõe o filho varão. O Peito Grande e as Ancas Largas é de família. Todas as mulheres seguem com esta característica, que tem o seu quê de simbólico, alguém, diríamos nós, que alimenta muitos filhos, com as costas largas para aceitar o bem e o mal, os sacrifícios, o sofrimento, por vezes quase em silêncio, para levar com uns e outros, porrada, violência de palavras e de gestos. O rapaz (personagem central, o narrador) é o 8.º filho. A Mãe, com peito grande e ancas largas, teve que se deitar com vários homens, já que o seu não lhe dava descendência, com o risco de ser entregue à proveniência, pois a culpada é sempre a mulher, lá arranja forma de procriar. Uma e outra filha, uma desgraça nunca vem só. Depois de muitos insultos e desgaste lá vem um filho e com ele uma irmã gémea, cega de nascença. A sogra é um traste, e a mãe tornar-se-á outro traste. A vida, a fome, a guerra, as divisões dentro da família, a miséria, o frio, moldaram um coração de pedra.

       As filhas vão casando, com líderes de diversas fações e por momentos a família vão gozando ora dos favores de um dos lados, ora do outro, conforme a mudança de vento. O filhos é que dão o nome e continuam a linhagem. Porém, o romance é uma crítica muito clara a esta sociedade tendencialmente machista. As mulheres é que mandam. O Peito grande e as ancas largas é que governam a casa, a cidade, a sociedade...

       É um belíssimo texto que traz até nós a ambiência chinesa, com diversos momentos que não eliminam a fome, a pobreza extrema, o machismo, a violência, a justiça popular, com elementos supersticiosos, próprios daquela civilização, mas também a influência ocidental, europeia e cristã.

       Dentro da trama, muitas pequenas estórias...


18
Ago 13
publicado por mpgpadre, às 09:00link do post | comentar |  O que é?

       1 – De que é que precisamos para nos sentirmos realizados? O que é mais importante no nosso dia-a-dia, para sermos felizes?

       Ao longo dos últimos domingos, Jesus tem exposto as prioridades para o discipulado: a fé que se concretiza e traduz pelo serviço, pela partilha, pela conciliação, dando primazia aos bens espirituais, colocando Deus em primeiro lugar para n’Ele descobrimos os outros como irmãos, acolhendo sobretudo os mais frágeis.

       Ele próprio assume esta opção preferencial, como inclusão de todos, para que os excluídos sejam incluídos, os pobres tenham acesso a trabalho honesto e a condições para viver dignamente, os que são descriminados pela raça, pela religião, pelo género, sejam assumidos como filhos de Deus. Ouvíamos as palavras inequívocas de Jesus: acolher Deus como tesouro e n'Ele colocar o nosso coração. Quem se sente salvo por Deus, não poderá deixar de testemunhar com alegria, procurando que outros se deixem contagiar por este AMOR, esta PRESENÇA, na certeza que o dom da fé só o é verdadeiramente se nos compromete na caridade. O DOM (recebido) é para ser dado (e não retido ou usurpado).

       2 – Jesus traz-nos Deus. Ele mesmo é Deus, Filho Bem-amado, assumindo-nos como irmãos. Traz-nos a eternidade. É PORTA que torna acessível o Coração de Deus para cada um de nós. É o Príncipe da Paz. O seu messianismo assenta na graça de Deus, no amor sem limites para a redenção de todos os pecadores. Os pilares do Seu reino são o amor, a justiça e a paz.

       Curiosas as palavras do Evangelho: «Eu vim trazer o fogo à terra e que quero Eu senão que ele se acenda? Tenho de receber um batismo e estou ansioso até que ele se realize. Pensais que Eu vim estabelecer a paz na terra? Não. Eu vos digo que vim trazer a divisão. A partir de agora, estarão cinco divididos numa casa: três contra dois e dois contra três. Estarão divididos o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra».

       Aparentemente, Jesus traz a divisão, o conflito, o fogo. Voltemos a ler o evangelho. Neste e noutros ambientes, Jesus assume as dificuldades em propagar o Evangelho, a verdade, na denúncia da hipocrisia, da falsidade, do abuso do poder civil e religioso, relevando a priorização do serviço, em todas as dimensões da vida social, política e religiosa. As suas palavras geram respostas diferentes.

       «Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. Não é como a dá o mundo, que Eu vo-la dou. Não se perturbe o vosso coração nem se acobarde» (Jo 14, 27). Ele vem para nos redimir, chamando-nos a dar o melhor de nós, a darmos Deus aos outros. Isto é algo que inquieta, que perturba, que não nos pode deixar sossegados no nosso canto, com as nossas coisas, achando que já fazemos muito.

 

       3 – A prossecução deste desiderato pode trazer-nos dissabores. Nem tudo correrá como esperado. Acontece com Jesus. Também Ele sente a incompreensão, a começar por aqueles que tinham maior obrigação de compreender, de acolher e de O seguir. Os Apóstolos, sempre que detetam o perigo, escondem-se atrás d’Ele, ou desviam-se do caminho, mantêm-se à distância e fogem, negam, fecham-se em casa.

       Hoje como ontem. Com Jesus como no tempo dos profetas. Remar contra a maré não é fácil. Muito mais fácil é desistir.

       Jeremias, na primeira leitura, experimenta a perseguição, a calúnia, a tortura, a ameaça de morte. A sua palavra é fogo: denuncia a prepotência e o poder abusivo do rei, contrapondo com a vontade de Deus. O rei, ungido do Senhor, deveria servir o povo de Deus e não os seus interessas promovendo a inclusão de todos.

       “Os ministros disseram ao rei de Judá: «Esse Jeremias deve morrer, porque semeia o desânimo entre os combatentes que ficaram na cidade e também todo o povo com as palavras que diz. Este homem não procura o bem do povo, mas a sua perdição». O próprio rei se deixa levar pela corrente. Não contrapõe. Fazei o que quiserdes.

       Eis que surge alguém com vida própria, com convicções, um estrangeiro, Ebed-Melec, e chama o rei à razão: «Ó rei, meu senhor, esses homens procederam muito mal tratando assim o profeta Jeremias: meteram-no na cisterna, onde vai morrer de fome, pois já não há pão na cidade». O rei altera o mal feito: «Leva daqui contigo três homens e retira da cisterna o profeta Jeremias, antes que ele morra». Não embarquemos nas tendências gerais, sem refletirmos seriamente.

 

       4 – Questionemo-nos de novo: o que verdadeiramente nos faz felizes? O dinheiro? Os bens materiais? Sermos melhores que os outros? A amizade? A família? Os afetos? O bem que fazemos? A imagem que os outros têm de nós? O que é que nos dignifica? O nome e a honra que impusemos? A verdade da nossa vida? A honestidade? O que vale mais, o mundo inteiro a nossos pés ou o trabalho honesto e dedicado e a ajuda que prestamos aos outros? Em que situações nos sentimos melhor? Como perguntava o Papa Francisco, no Brasil, em que pessoas nos miramos? Em Pilatos que lava as mãos e se coloca em atitude de indiferença? Ou em Maria que se apressa para casa de Isabel e em Caná intervém vigorosa junto de Jesus?


Textos para a Eucaristia (ano C): Jer 38, 4-6.8-10; Hebr 12, 1-4; Lc 12, 49-53.

 


15
Ago 13
publicado por mpgpadre, às 09:00link do post | comentar |  O que é?

       1 – O Rosário conclui-se com dois mistérios referentes a Nossa Senhora, a Sua Assunção ao Céu, em corpo e alma, e a Sua Coração como Rainha do Céu e da Terra. É esta dimensão da vida de Nossa Senhora que celebramos neste dia 15 de agosto, que por vontade expressa e manifesta de muitos portugueses se manteve feriado civil para melhor acentuar o DIA SANTO, para que os cristãos portugueses, emigrantes incluídos, pudessem aproveitar para celebrar a fé, honrando a Virgem Santa Maria, Mãe de Deus e Mãe nossa.

       O sensus fidei tornou-se crucial para esta tomada de decisão. Nas negociações com o governo português para a suspensão ou supressão de dois feriados religiosos, o dia 15 de agosto seria um dos sacrificados. Os Bispos portugueses receberam muitos pedidos para que o feriado se mantivesse. De alguma forma o mesmo sucedeu com o próprio dogma, primeiro acolhido pela fé do povo de Deus, desde sempre, e só em 1950 sancionado pelo Papa Pio XII. As comunidades cristãs entendiam que se Maria foi preservada de toda a mácula, também tinha que ser preservada da corrupção do túmulo.

       2 – A ressurreição é o milagre maior da nossa fé, no qual se inscrevem todos os outros, desde a Imaculada Conceição da Virgem Mãe à Sua Assunção ao Céu, a Encarnação de Deus na história dos homens, e todos os prodígios realizados por Jesus e discípulos.

       A Ressurreição coroa este projeto de vida nova no Espírito. Jesus assume a vontade do Pai. O Pai assume o Filho e o Seu amor.

       A liturgia da Palavra faz garantia desta promessa que se realiza em Jesus: “Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram. Uma vez que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos; porque, do mesmo modo que em Adão todos morreram, assim também em Cristo serão todos restituídos à vida. Cada qual, porém, na sua ordem: primeiro, Cristo, como primícias; a seguir, os que pertencem a Cristo…”

       O Apóstolo apresenta a ressurreição de Jesus como primícias. Ele é o primeiro, é a PORTA que se abre para nós, garantindo-nos a morada eterna junto de Deus. Nossa Senhora, por privilégio da graça divina, é elevada ao Céu, Ela que Se deu toda a Deus, Deus assume-A totalmente desde a concepção à ressurreição. Ela é «Sinal» de esperança e de alegria para todo o Povo de Deus, que peregrina pela terra em luta com o pecado e a morte, no meio dos perigos e dificuldades da vida. Com efeito, a Mãe de Jesus, «glorificada já em corpo e alma, é imagem e início da Igreja que se há de consumar no século futuro» (LG. 68).

 

       3 – Ela é coroada como Rainha. Uma Rainha que é Mãe da Igreja, da humanidade. No alto da Cruz Jesus no-l'A entregou por Mãe para que A levássemos para nossa casa, para a nossa vida.

       Com a morte de Jesus, Ela torna-se a guardiã da memória, da fé e da esperança congregando os discípulos, a Igreja, em espera orante. Chegada a sua hora, Deus eleva-A para que junto do Filho possa continuar a exercer o seu ministério de amor e intercessão.

“Apareceu no Céu um sinal grandioso: uma mulher revestida de sol, com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça. Estava para ser mãe e gritava com as dores e ânsias da maternidade. Ela teve um filho varão, que há de reger todas as nações com cetro de ferro. O filho foi levado para junto de Deus e do seu trono e a mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um lugar. E ouvi uma voz poderosa que clamava no Céu: «Agora chegou a salvação, o poder e a realeza do nosso Deus e o domínio do seu Ungido».

       Deus sempre nos socorre. A mulher sob a ameaça do dragão é símbolo de Maria e da Igreja. Deus vale-nos ainda que o mal pareça aniquilar-nos. Deus é mais forte, e não deixa que o mal nos devore…

 

       “A Igreja – palavras do Papa Francisco no Santuário de Nossa Senhora da Aparecida, no Brasil – quando busca Cristo, bate sempre à casa da Mãe e pede: «Mostrai-nos Jesus». É de Maria que se aprende o verdadeiro discipulado".


Textos para a Eucaristia: Ap 11, 19a; 12, 1-6a.10ab; 1 Cor 15, 20-27; Lc 1, 39-56.

 

Reflexão COMPLETA na página da Paróquia de Tabuaço

e no nosso blogue CARITAS IN VERITATE


14
Ago 13
publicado por mpgpadre, às 18:00link do post | comentar |  O que é?

       A pouco mais de uma mês da festa da Padroeira, com novena, pregação e romaria, a 16 e 17 de setembro, esta festa do emigrante, no segundo fim de semana de agosto, é a oportunidade para aqueles que estarão impossibilitados de participar em setembro, de viverem um momento de convívio, partilha, festa e fé, saboreando este chão que nos aproxima. Ficam imagens da Eucaristia, presidida pelo reverendo Pe. Diamantino Duarte, da Procissão com a imagem de Santa Eufémia e a visita ao Cemitério, rezando por familiares e amigos que já partiram mas continuam a fazer parte da comunidade crente...

Para outras fotografias visitar o perfil da Paróquia de Pinheiros no facebook

ou no nosso GOOGLE +


publicado por mpgpadre, às 14:00link do post | comentar |  O que é?

       A figura de Santa Bárbara está muito vincadas nas comunidades católicas portuguesas, concretizando-se de forma muito clara nesta região do Douro. Em algumas paróquias da zona pastoral de Tabuaço, a festa de verão, popular, envolve Santa Bárbara. Em algumas paróquias, a festa religiosa tem dois dias, um para o padroeiro e outro para santa Bárbara. Em Távora, o padroeiro é São João Batista, assinalando-se o seu nascimento, a 24 de junho e o seu martírio, a 29 de agosto, com a celebração da Santa Missa. A festa popular, que congrega a comunidade, é em honra de Santa Bárbara, no segundo domingo de agosto, que este ano calhou a 11, com a celebração da santa Missa na Capela de Santa Bárbara.

       Algumas imagens da festa religiosa:

Para visualizar outras fotos: AQUI.


publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

       No primeiro domingo de agosto, aproveitando a presença dos emigrantes, e a proximidade da festa popular que se realiza no segundo domingo, a festa da catequese, envolvendo 22 crianças, distribuídas por vários anos, com as respetivas acentuações: acolhimento, Pai-nosso, Primeira Comunhão, palavra de Deus, Credo, Profissão de fé, Vida, Compromisso, Bem-aventuranças.

       Num clima de festa, e com grande participação dos familiares e amigos, a Eucaristia sublinhou a dinâmica da catequese como resposta ao compromisso assumido pelos pais e padrinhos no dia do Batismo, dos seus filhos e/ou afilhados.

       Algumas fotografias do momento.

 

Para visualizar as restantes visitar o perfil da Paróquia de Távora no facebook

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13
Ago 13
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?

Michel COOL e António MARUJO. Francisco, Pastor para uma nova época. Paulinas Editora. Prior Velho 2013, 192 páginas.

       Da surpresa inicial à descoberta de uma postura coerente de vida, na proximidade de Jesus Cristo, na humildade mas também na frontalidade, na proximidade com as pessoas, independentemente do seu bilhete de identidade.

       Gestos e palavras do novo Papa, têm suscitado críticas muito positivas. Já aqui recomendámos livros sobre o Papa Francisco, e já recomendámos escritos, intervenções, homilias, mensagens, do então Cardeal de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio.

       Hoje sugerimos a leitura deste livro, que é uma espécie de 2 em 1. Sob o mesmo título, dois textos sobre Francisco, Papa eleito a 13 de março de 2013 e que logo suscitou grande curiosidade por ser pouco conhecido para a maioria das pessoas, pelo menos nesta região do globo.

       A primeira parte do livro é da autoria de Michel Cool, francês, repórter especializado em temas religiosos. Sob o título - Francisco, Papa do novo mundo -, trata-se de uma biografia que acompanha o Papa desde as origens, a família, a vocação, o episcopado, e os primeiros dias do Pontificado, como Francisco, procurando um estilo que o identifica como humildes, simples, autêntico. O trabalho aponta 10 prioridades para o Papa e para a Igreja, os dossiers urgentes, revisitando alguns dos textos do então Cardeal, bem como o testemunho de algumas personalidades aquando da Sua eleição surpresa - ou não tanto assim.

       Na parte final apresenta um pequeno abecedário com pronunciamentos do Papa Francisco/Bergoglio: aborto, bispo, Buenos Aires, Economi, Futebol, Humildade, Migrantes, Tango, Verdade, e outros temas.

       A segunda parte é da responsabilidade de António Marujo, jornalista português, e que se dedica sobretudo a temas religiosos. O seu livro, mencionado pela Editora, Deus vem a Público, apresenta diversas entrevistas, feitas ao longo de 10 anos, às mais importantes personalidades do universo religioso.

       Sete desafios à Igreja do Papa Francisco, é o título da reflexão de António Marujo. Partindo da originalidade/especificidade do Papa Francisco, o autor reflete sobre os grandes desafios que se levantam para a Igreja, dentro e fora, na relação com o mundo, no diálogo ecuménico e inter-regioso, seguindo a via do diálogo, da humildade, da verdade, da simplicidade, vivendo na dinâmica do evangelho, com a herança do Vaticano II, em atitude de conversão a Jesus e ao Seu evangelho de amor, e de fidelidade à vontade de Deus, no serviço dos mais frágeis, Igreja dos pobres e a caminho das periferias. Um dos aspetos a ter em conta: a Igreja, nas suas diversas estruturas deverá estar orientada para o serviço das pessoas, transparecendo o Evangelho e evitando burocracias que afastem e dividam.

       Se o título nos leva de imediato para o papado de Francisco, nas suas linhas gerais, os dois autores prestam uma enorme homenagem ao Papa Bento XVI. A comunicação, como a generalidade das pessoas, têm acentuado a postura de Francisco em relação a Bento XVI, e indiretamente a João Paulo II ou outros Papa, comparando-o sobretudo com o Bom Papa João XXIII. Curiosamente, quando os autores destes dois trabalhos abordam os desafios para a Igreja, no compromisso com o mundo atual, em atitude de serviço e de verdade, mostram como Bento XVI desencadeou processos, aprofundou vivências, atuou com firmeza em situações que mereciam atenção, com humildade na relação com as pessoas, convidando à autenticidade, denunciando o carreirismo dentro da Igreja, desafiando à vivência da fé traduzida em caridade.

       Lendo os textos do próprio Papa, enquanto Cardeal, ou já como Papa, cada um poderá tirar ilações da sua maneira de falar, de ver a Igreja e do mundo, da sua forma de se mover. Os gestos têm ajudado muito. Os livros sobre o Papa podem ajudar-nos a melhor interpretar as mensagens e os gestos papais.


11
Ago 13
publicado por mpgpadre, às 09:00link do post | comentar |  O que é?

       1 – “Onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração”.

       Bem pode ser uma divisa que nos acompanha na reflexão da palavra de Deus e em toda a nossa vida, como cristãos, comprometidos com Deus e com os irmãos.

       Em continuação lógica do domingo precedente, Jesus clarifica a opção dos discípulos:

“Fazei bolsas que não envelheçam, um tesouro inesgotável nos Céus, onde o ladrão não chega nem a traça rói. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração. Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas. Sede como homens que esperam o seu senhor ao voltar do casamento, para lhe abrirem logo a porta, quando chegar e bater”.

       Podemos ter o mundo inteiro dentro da nossa carteira, mas esta não nos garante a felicidade, não nos permite comprar a paz, a amizade, não nos livra de sofrimento, de angústia, não nos resguarda da escuridão, não nos protege da solidão nem da morte. Obviamente que viver dignamente implica bens materiais, mas sem extremismos. A ganância faz-nos mal, obscurece o essencial. Em função de números, de novo, sacrificamos a dignidade humana ao capital, acumulação desmedida, além das necessidades básicas, centrados na riqueza como um fim em si mesmo e não como meio facilitador.

       Na nossa carteira cabem notas, fotos, documentos e até memória, mas não cabem pessoas, sentimentos, o olhar de um rosto, de uma presença amiga, não cabe o toque, o sorriso, um aperto de mão, a força de um abraço, um beijo, o carinho de um afago, não cabe a gratuidade. Com a carteira recheada, como o filho mais velho da parábola, poderemos até comprar companhia, mas só disfarçará a solidão, sem preencher o coração. Só a gratuidade nos eleva.

 

       2 – “Onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração”.

       Desengane-se, porém, quem interpreta as palavras de Jesus como renúncia aos bens materiais e como defesa da indigência das pessoas. Pelo contrário, o desafio a fazer bolsas que não envelheçam, é forte apelo à partilha solidária, a tratar o próximo com delicadeza, e sobretudo os mais pobres. Aquilo que fizerdes aos meus irmãos mais pequeninos é a Mim que o fazeis. Dai-lhes vós de comer. Como Eu fiz fazei vós também. O primeiro mandamento: amar a Deus. O segundo decorre do primeiro: amar o próximo como a si mesmo.

       Continuemos a escutar as palavras do Senhor: «Felizes esses servos, que o senhor, ao chegar, encontrar vigilantes».

       O administrador vigilante é aquele que não usurpa o lugar do seu senhor e, na sua ausência, cuida da riqueza e da casa. Assim nós também, como administradores a quem Deus confia a Sua casa, deveremos estar vigilantes, procurando que os dons que nos dá sejam valorizados, multiplicados, e não ciosamente guardados para cada um de nós. Quando Ele vier pedir-nos-á contas do nosso serviço, da nossa bondade, e o Seu património, as bolsas que não se rompem, passa pela caridade, pela partilha, pelo cuidado dos mais frágeis.

 

        3 – “Onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração”.

       É preciso que o nosso tesouro seja Deus e que o nosso coração esteja em Deus. Esta é a garantia que a nossa vida não será em vão, que o nosso amor aos outros, no caminho com os outros, não será instrumentalizado. Só um AMOR maior, definitivo, aberto até à eternidade nos garante a salvação para lá do sofrimento e da morte.

 

       4 – “Onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração”.

       Os nossos pais colocaram em Deus a Sua confiança e pela fé souberam caminhar, como povo, em direção à eternidade.

“A noite em que foram mortos os primogénitos do Egipto foi dada previamente a conhecer aos nossos antepassados, para que, sabendo com certeza a que juramentos tinham dado crédito, ficassem cheios de coragem. Ela foi esperada pelo vosso povo, como salvação dos justos e perdição dos ímpios... que os justos seriam solidários nos bens e nos perigos”.

       A fé nas realidades futuras, no futuro de Deus, leva o povo ao compromisso com o presente.

       Enquanto é tempo, trabalhemos pela instauração do Reino de Deus, promovendo os dons que Ele nos dá, na partilha fraterna, na proximidade com os mais frágeis dos frágeis.


Textos para a Eucaristia (ano C): 

Sab 18, 6-9; Sl 32 (33); Hebr 11, 1-2.8-19; Lc 12, 32-48.


07
Ago 13
publicado por mpgpadre, às 10:00link do post | comentar |  O que é?


04
Ago 13
publicado por mpgpadre, às 09:00link do post | comentar |  O que é?

       1 – “Saciai-nos desde a manhã com a Vossa bondade para nos alegrarmos e exultarmos todos os dias. Desça sobre nós a graça do Senhor nosso Deus. Confirmai, Senhor, a obra das Vossas mãos”. Invocamos a bênção de Deus para que os nossos dias não sejam em vão e para que o nosso tempo tenha sentido, na abertura solidária aos outros, na busca do olhar de Deus sobre nós.

       Procuremos Jesus em toda a parte e sobretudo nos irmãos, comprometidos na transformação do mundo, com o coração impelido para as alturas. A nossa pátria é junto de Deus.

“Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra. Porque vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Fazei morrer o que em vós é terreno... Não mintais uns aos outros, vós que vos revestistes do homem novo, que se vai renovando à imagem do seu Criador. Aí não há grego ou judeu, escravo ou livre; o que há é Cristo, que é tudo e está em todos”.

       A Ressurreição de Jesus não é apenas a antecipação da nossa, mas um processo que nos envolve, numa relação cósmica com todo o universo.

 

       2 – “Vaidade das vaidades: tudo é vaidade. Quem trabalhou com sabedoria, ciência e êxito, tem de deixar tudo a outro que nada fez. Também isto é vaidade e grande desgraça. Mas então, que aproveita ao homem todo o seu trabalho e a ânsia com que se afadigou debaixo do sol? Na verdade, todos os seus dias são cheios de dores e os seus trabalhos cheios de cuidados e preocupações; e nem de noite o seu coração descansa. Também isto é vaidade”.

        Aparentemente Qohélet faz uma confissão de desencanto, de desilusão. Tudo é igual, todos os dias se repetem constantemente. Não há nada de novo debaixo do Céu. Trabalho e canseiras, cuidados e preocupações, tudo é em vão. Nem de noite o coração descansa. Tanta vida que depois tem que se deixar a outros. A experiência não permite grandes voos, pelo contrário, provoca ansiedade. Bons e maus têm o mesmo destino. Por vezes, parece que os que praticam o mal são abençoados, e os que praticam o bem são amaldiçoados.

       O autor, tal como Job, coloca em causa a sabedoria tradicional, onde sobrevinha uma correlação direta entre a bênção e a justiça, os bons eram recompensados e os maus castigados. Job e Qohélet concluem que há homens justos cujos padecimentos são injustificados.

       3 – Um homem aproxima-se de Jesus para que Ele resolva uma contenda de irmãos. Jesus questiona: «Amigo, quem Me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?» E logo alerta: «Vede bem, guardai-vos de toda a avareza: a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens». A avareza brota do coração, da inveja descontrolada, do ciúme. Trata-se de uma atitude e não tem correlação direta com os bens que se possuem. Há pobres e ricos avarentos.

       Quem trabalha merece ser compensado com justiça e equidade, ainda que o trabalho também deva gerar capital e investimento, assegurando dessa forma a criação de riqueza e de mais emprego para que muitos mais tenham acesso aos recursos da terra e a oportunidade de viverem com o fruto do trabalho, realizando-se como pessoas. Numa perspetiva cristã, mais se acentua a dignificação da pessoa e do trabalho como forma de cooperar na obra criadora de Deus.

       Importa, desde logo, não descartar a relevância da caridade, da partilha solidária, com quem não tem ou não pode ter.

 

      4 – Para uns e outros, Jesus reafirma: «Guardai-vos de toda a avareza: a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens...». Importa tornar-se rico aos olhos de Deus. O que acumula apenas para si acabará por se perder. Tarde, por vezes, nos damos conta que dependemos uns dos outros, no bem e no mal. Beneficiamos do bem alheio e somos atingidos pelo mal dos outros.

O Pão nosso de cada dia nos dai hoje, Senhor. Mas dai-nos também a alegria e a coragem da partilha solidária, valorizando o fruto do nosso trabalho e tornando-o dom. “Ensinai-nos a contar os nossos dias, para chegarmos à sabedoria do coração”. Que as preocupações do tempo presente não nos façam esquecer a nossa origem e o nosso fim comum: em Deus, para Deus, com os outros.


Textos para a Eucaristia (ano C):
Co (Ecle) 1, 2; 2, 21-23; Sl 89 (90); Col 3, 1-5.9-11; Lc 12, 13-21.


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